quinta-feira, 14 de outubro de 2021

O inverno - ROSÁRIO PEDROSO

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A antiquíssima dor no peito voltou. Laura passa agora um inverno gélido, pessimista, em que o diálogo telefónico e online são esgotantes. Uma frustração muito antiga presentifica-se: um desencontro absoluto em relação a todos os entes assombra-lhe a saúde. Aquela sensação de fragilidade cavava fundo uma saudade dos perfumados laranjais da Andaluzia. Contudo, ciclópico, um tempo verdasco, mas simbólico, invade tudo: os afetos tardios, os negócios, o dia a dia. A isolação transforma-se aos poucos numa ferida aberta, num pus tóxico. Nem os exercícios de Chi-Kung aprendidos com a amiga, Luna, estavam a ser suficientes para travar a dor. Luna Azure era uma doce criatura de voz melódica, quando nasceu, numa noite de lua nova, a mãe pediu ao pai que a menina se chamasse Luna porque eram assustadoras as noites transmontanas de lua nova. Luna foi desejo de lua para aquela mãe, sozinha, sem falar português, no hospital de Mirandela. Agora, Luna, com o país em situação de catástrofe, tinha-se distanciado. Todos eram desconhecidos. Laura Lírio volta ao versilibrismo, talento que tinha abandonado depois do afastamento de Sandro Greco, uma paixão exótica. Mas eis que a inspiração volta, é uma pulsão biológica, aflora junto das nascentes. Mesmo em dia de tempestade, procura nascentes de terra negra, lameiros, vegetação selvagem para se tranquilizar e inspirar. Uns dizem que é uma poeta simbolista, outros surrealista, outros abstracionista. Laura sente-se estrangeira, julga modelar sensações repentinas, transformar em palavras emoções em fuga. Como mulher sente-se traída por algumas mulheres, do fascismo, ficara na sociedade portuguesa o toque violento dos controleiros e controleiras, o sadismo de dominar o outro pelas ideias, pelo modus vivendi, a maquilhagem, os cremes, a roupa, o comportamento familiar e social, uma mania de grandeza imperial. Os homens parecem agir do mesmo modo, mas com uma discrição astuta, quase impercetível para espíritos distraídos. Intuitivamente, apercebe-se de uma estranheza entre os humanos. A amizade esvazia-se aos poucos de afeto e torna-se uma forma de modelar e fiscalizar o outro. Agora que Portugal é considerado no “The Economist” como uma democracia com falhas, sente-se feliz com o regresso a Santa Cruz de Alexandro Marino, depois da semana de alta-costura em Paris, cujos desfiles foram mostrados na sua maior parte em formato digital. Está fascinado com a coleção de Giambattista Valli, um convite à introspeção. Finalmente, tem a companhia de alguém civilizado. Alexandro instala-se na Praia Azul, é amigo do dono, o hotel permanece fechado, emprestou-lhe um apartamento.
Com as livrarias encerradas e a proibição de comprar livros nos supermercados, pede alguns livros a Laura. Não pode andar sempre a viajar carregado de livros, para além disso, gosta de passear pelas livrarias dos países que visita, conhecer as novidades. Depois doa os livros. Com todas aquelas tempestades de fevereiro, somente consegue ler poesia. Conheceram-se no Norte e tornaram-se confidentes, mas a amizade é cheia de sobressaltos, sustos, interrupções: primeiro uma morgada minhota, depois a Gi, com o encanto da fotografia e sempre a correr mundo. Acontece que por influência da pandemia os trabalhos da Gi perderam luz e sinceridade. Alexandro procura agora o diálogo com as velhas amizades. Lê a obra Doze Mapas de Mário Cláudio, oferecido por Laura, repete algumas frases do eminente poeta, “o que me interessa no convívio com os outros é aquilo a que poderia chamar a alma dos outros. E essa alma tem de ser escavada, ou ficamo-nos pela superficialidade, e eu faço isso através da escrita”, que recolheu na internet, diz que gosta de ir ao “Citador”, contudo declara que ainda não se sente preparado para começar a escrever, tem apenas pequenas anotações num pequenino bloco que o acompanha, mas tem esse projeto, o projeto de escrever um grande romance. Já Laura dedica-se exclusivamente à escrita automática, queixa-se da família que considera a sua poesia absurda, até paranoica. Então, na tentativa de a encorajar, Alessandro lê-lhe um aforismo de Teixeira de Pascoaes, que tinha anotado no bloco, “Poeta quer dizer Possesso. Não devemos confundir os artistas do verso com os criadores de Poesia. Os primeiros interessam apenas à literatura, ao passo que os segundos têm um interesse vital e universal, como uma flor ou uma estrela”. Um dia voltariam a Amarante, parariam junto à casa do poeta e voltariam a debater o seu saudosismo em homenagem ao brilhante conversador. Não há onde comprar um café, é proibido, então vão até à zona da praia do Barril, entram no Supermercado Amanhecer e compram duas águas tónicas, vão para junto do porto deserto e brindam a uma amizade para sempre, pois, concluem, que a amizade salva das pandemias enraizadas em todos os quotidianos.

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quarta-feira, 13 de outubro de 2021

IN-FINITA APRESENTA... OS POEMAS QUE O DIABO AMASSOU de INÊZ OLUDÉ DA SILVA

Às vezes o melhor que podemos fazer por um livro, e respectivo autor, é dar a conhecer a primeira impressão. Assim sendo, aqui fica o prefácio que Adriana Mayrinck escreveu para o livro OS POEMAS QUE O DIABO AMASSOU, de Inêz Oludé da Silva

Prefácio

Poesia nua e crua, igual a terra árida do Sertão Nordestino. Poesia latente e desbravada, igual a semente que rasga o solo em busca de sol. Poesia transbordante e verdadeira, igual a chuva que cai, após a seca castigante, com trovoadas e relâmpagos. Poesia que transcende a memória, a história, o tempo, a imagem. Poesia sentida, vivida e pisoteada. Poesia dolorida pelas adversidades e lutas da vida. Poesia de resistência e alerta em gritos silenciosos e torturados. Poesia de amor, embalada em uma rede feita à dois – e que se propaga. Poesia ferida, que traz mar - cas de tempos difíceis. Poesia libertadora que atravessa oceanos e voa como pássaro que faz ninho em todo lugar. Poesia que transforma, que chama, que arrebata. É assim, a poesia de Inêz Oludé da Silva. Despida, autêntica, forte, e sobretudo, pince - lada de arte! Arte da palavra, do sentir, do experimentar o mundo tal como é. Sem máscaras, sem comodismos, sem melindres. Arte que jorra e se deixa espalhar com a coragem de uma mulher que tece fios e se reveste de vermelho, por dentro e por fora. O vermelho abrasado, sanguíneo, afogueado que representa as primeiras pinceladas em uma tela em branco, que se chama vida. 8 os POEMAS que o DIABO AMASSOU INÊZ OLUDÉ DA SILVA 9 O poema que o diabo amassou é vida pura, poesia e arte. Um livro construído por esta mulher/poeta/artista/militante que vê o mundo de cima, em seus voos e além dos horizontes. Mas finca seus pés nas terras por onde passa. Deixa nas telas, nos livros, nos vídeos, no coração de quem tem a imensa honra de conhecê-la, pinceladas inapagáveis com a sua marca registrada, que é o sorriso e a palavra. No papel e no eco - talhada, tatuada, gravada com o vermelho vivo das suas memórias - de amor e ódio. Mais amor que espalha, menos ódio - que combate. Não há metáforas ou subjetividades. A palavra está, tal como é, em sua perfeição linguística. Cada página deste livro é envolvida e absorvida pela magia da poesia que Inêz conhece como ninguém. O poder de transformar e a fórmula para esta alquimia, talvez esteja envolvida pela poeira quente e o vento de onde veio, ou arrebatada pelo sol que traz no olhar.

Adriana Mayrinck

Biografia da autora 

INÊZ OLUDÉ DA SILVA: Artista artivista, poeta subversiva, com formação em história da arte, arqueologia e pintura monumental. Membro da coalizão de artistas da Unesco pela difusão da história da geral da Africa e diretora do Museu-Valise da história da escravidão, parceiro da Onu - Unesco. Participou das publicações organizadas pelas editoras In-Finita e Helvétia. Ed. Harmattan, Paris, Depoimentos, 68, a geração que queria mudar o mundo, Ed. Marcas da memória, Ministério da Justiça. Em lançamento Cartas de Amor e de ódio, Ed. Kotter e Os Poemas que o diabo amassou, Ed. In-Finita. Em preparação Revoada para a Paz e As águas da memória.

 


 

O castigo - ROSALINA VAQUEIRO

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É hora do regresso da escola. Joelho esfolado, sacola de pano à tiracolo, boné atravessado, calção sujo das brincadeiras, saltitando, pontapé aqui outro ali no cascalho, nos galhos, nas pedritas da serra, Dérito entra em casa assobiando uma modinha.
– “Alfarenhêros, méquinhos e cães de caça é tudo a mêma raça”
Cumpre a saudação habitual, beijando a mão da mãe
– “Sua bênção nhôra nhã mãe”
– “Deus t’abençoe mê filho. Óh rapazito duma figa mãs adonde é que ouvistes atão essa moda?”
– “Ara, ouvi da escola, adonde haverá de sere?”
De enxada ao ombro, o pai regressa da horta com couves para a janta
– “Tu toma tento, rapaz, olha ca mestra s’ouve lá isso põ-te de castigo”.
– “Ê cá ca m’ importa!”
– “Anda daí mais eu botar serralhas e couves à criação - ós coelhos e às galinhas”
Dérito sai pelo carreiro enlameado em direção às capoeiras em passadas largas imitando um” andar à home”, como o pai, homem novo, escorreito e desempenado.
– Ara atão dize lá qu ‘é lá isso de não te amofinares cos castigos da mestra. Nunca tal vi”
– “É ca mestra bota a gente de castigo pra baixo da scretára. Um home fica ali caladito e sem bulir”.
– “ Pois ...atão! É castigo! Mas que tem lá isso? A modes que na tou t’apercebere...
– “Ah, nhôr mê pai, mais atão na tá pus olhos adentro d’um homem? Um home quedo, sim botar falação cum vivalma, interte-se cum o quê? Ara, a olhar pás pernas da D. Ernestina pois atão! Ela é cá cada uma! Gordas qu’inté parece uma bacorita!!!
De alguidar no avental, migando as couves para o caldo da janta, a mãe viera espreitar a conversa dos “homens”. Olhando enternecida os seus dois amores, murmura de si para si, com um sorriso de orgulho e enlevo:
– “Rais parta ó rapaz! Sai à cepa, o danado!”

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terça-feira, 12 de outubro de 2021

O mistério da mala velha - INÊZ OLUDÉ

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Inspirado do poema de Paulo Mapu, lembranças e conversas à distância com outros manos
Na casa da minha mãe havia uma malinha velha, mais antiga do que velha. Desde quando estava fechada nos guarda-roupas da minha mãe, não se sabe, desde a mais remota infância, tenho ela na lista das coisas que me dão saudade. Até hoje, entre os irmãos, cada um para o seu lado, nos lembramos da malinha com nostalgia.
A malinha não era dela, mesmo se guardava também seus pertences, ela era só a guardiã do tesouro que pertenceu ao meu pai. Ali zelava o seu registro de nascimento com nome de mãe e pai, data e lugar onde nasceu, seu alistamento militar onde consta que foi expulso do exército, por insubordinação, motivo de meu orgulho. Lembro esta frase do meu pai quando nos contava como jogou um prato de feijão na cara do coronel que tinha obrigado ele a ir lavar seu cavalo, quando foi pracinha do exército. Assim se deu o fato, tal qual ele nos contou. O coronel arrogante, se aproximou do meu pai (que ainda era solteiro) e ordenou de lavar seu cavalo. Meu pai estava almoçando e almoçando ficou e respondeu calmamente que não estava ali para isso. O coronel pegou o único pedaço de charque (carne seca) que tinha no prato, que meu pai estava guardando para o final, como faziam todos os soldados, porque a vianda era raríssima na cuia dos soldados. O coronel pegou a carne seca, jogou no chão e pisou com o calcanhar, esfregando com muito sadismo, olhado fixamente na cara de meu pai com um sorriso sardônico. O sangue do meu pai ferveu, levantou dum pulo só e não hesitou: meteu o prato com o resto do feijão na cara dele, esfregando com muito prazer. Foi preso e expulso do exército e nos mostrava a carteira de reservista com o carimbo "expulso" rindo com muito orgulho. Isso aconteceu pelos anos trinta por aí. Até hoje me perguntou como o coronel não o matou ou mandou matar, porque era negro. Na malinha também tinha, outros documentos de menores importâncias.
Nesta malinha marrom, mamãe, guardava de tudo um pouco. A malinha tinha histórias, verdadeiras ou inventadas, o caderno de poesia, que o meu Velho escrevia, hoje ninguém sabe do seu paradeiro. O seu álbum de retratos com fotos amareladas pelo tempo, as testemunhas de familiares que se foram, de outros ainda com vida, de gente que já não me lembro, de pessoas desconhecidas, de amigos já extintos, outros que sumiram no meio do mundo, e nunca mandaram notícias, além de alguns esquecidos.
Tem contas de água e luz, os pagamentos da casa. Os seus carretéis de linha, as agulhas, os dedais, novelos de lãs, apetrechos da máquina Singer, da qual nunca se separou, e as agulhas de tricô e crochê.
Havia um álbum de figurinhas, um álbum de selos vindo de longe, que lhe presenteei quando regressei ao Brasil após oito anos de ausência, no tempo da ditadura. Este álbum raríssimo, datava da segunda guerra mundial, me foi dado pela viúva de um resistente belga antifascista, que colecionava as estampas com o símbolo nazista da Europa ocupada, em cada selo, o resistente escrevia insultos e insolências, por isso, tinha valor, contra o ditador austríaco, escolhido pelos alemães, para envergonhar o mundo.
Havia um cartão postal onde se podia ver, um Cristo muito engraçado e brega, era em três dimensões e quando só mexíamos, piscava o olho e parecia sorrir. Uma série de oito selos da Bélgica, também em três dimensões e um canivete, do tempo que papai ainda fazia sua própria barba.
Havia ainda, dois times de botões, com jogadores bem lustrados, um feito de chifre de boi outro de quenga de coco, embrulhado numa flanela, feito com muito capricho por um dos meus irmãos, mas todos eles jogavam, o futebol de botões.
Tinha vinte amuletos que fabriquei na prisão de Villa Devoto, em Buenos Aires, na época da ditadura, para fazer passar o tempo. Feitas com ossos de carneiro, polidos pacientemente, pintaditos com chá, onde desenhei pássaros e sois, tudo o que me fazia falta. Minhas primeiras obras de arte, estes também se perderam.
Tinha ainda suas relíquias sagradas, um terço de madrepérola, santinhos de sua crença, livrinho de orações e um Espírito Santo, feito de lata de sardinha, que ela usava para rezar antes de dormir, à noite já bem adentrada e depois de acordar, nas horas da madrugada.
Há vinte e cinco anos, meu pai se foi. O ultimo objeto que foi guardado na sua malinha, foi seu atestado de óbito. A malinha desapareceu, ninguém sabe explicar o sumiço, ninguém sabe dizer onde anda a sua
malinha, se perdeu foi roubada, sabe-se lá, com ele eu penso que não foi. Ou foi?

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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Entre o antes e o depois - FÁTIMA D'OLIVEIRA

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O livro preferido da sua mãe era “Mulherzinhas” (“Little women”) de Louisa May Alcott e a personagem desse livro que a sua mãe mais apreciava era Josephine, a Jo. Como tal, o seu nome era Josefina. Mas todos a conheciam por Jôjô.
Naquela noite de passagem de ano, Jôjô não estava com vontade nenhuma de celebrar. O ano que findava tinha sido malfadado, o ano em que tudo tinha mudado: o ano da pandemia. Quem diria que uma coisa tão ínfima – o vírus –, seria capaz de tais avarias, danos e estragos? E o ano que aí vinha não se adivinhava melhor. Pelo menos, no que a Jôjô dizia respeito. Para onde quer que se virasse, só via pessoas a desejarem, a esperarem e a suspirarem pelo fim da pandemia. Mais a mais agora, com o aparecimento das várias vacinas, havia muito boa gente a pensar que isto da pandemia agora não passava de favas contadas e a atirarem pela janela todas as medidas de segurança estabelecidas pelas autoridades de saúde. Mas Jôjô não pensava assim. Pois ela tinha consciência de que até as vacinas fazerem qualquer tipo de efeito, de que até o efeito das mesmas se começassem a fazer notar, ia demorar muito tempo: o processo ia ser longo. E sinuoso. Portanto, o melhor para todos seria continuar a cumprir as regras de segurança estabelecidas pelas autoridades de saúde. Pelo menos, até se alcançar a tão desejada imunidade de grupo. Ou então, até o vírus de tornar parte do ambiente que nos rodeia. E de nada valia a pena esperar que as coisas voltassem a ser com dantes, pois isso não ia acontecer: tudo tinha mudado. Definitivamente. E quanto mais depressa as pessoas se começassem a habituar à ideia, melhor seria. Para todos.
Veio à memória de Jôjô uma frase de Giuseppe Lampedusa[1]: “É preciso que tudo mude para que tudo se mantenha.” Pois… Mas agora as coisas não podiam ser bem assim… Era preciso que tudo mudasse, sim, mas nada se iria poder manter. Não que esse facto perturbasse muito Jôjô. Ela sabia que o chamado distanciamento social afetava muito boa gente. Mas a ela… não lhe fazia grande espécie. Beijos e abraços… passava bem sem eles. Nunca tinha sido uma pessoa... não, afetiva não era a palavra… afetuosa, talvez. Jôjô podia ser uma pessoa de muitos e profundos afetos, agora de demonstrações... nem por isso. Nunca sabia o que fazer ou dizer e então, não fazia nada: ficava muda e queda. Sempre. Para não meter os pés pelas mãos e meter a pata na poça.
Jôjô também se lembrou de um filme de 2014: “Kingsman – Serviços Secretos”, realizado por Matthew Vaughn e com Colin Firth, Michael Caine, Mark Strong e Samuel L. Jackson. A primeira vez que o tinha visto tinha-o achado bom entretenimento. Mas agora, à luz dos acontecimentos mais recentes, achava-o estranhamente… profético: o vírus SARS-CoV-2, ou lá como é que se chamava o vírus que estava na origem da COVID-19, era a resposta do planeta, que estava a efetuar uma purga.
Ao mesmo tempo, Jôjô achava a doença, a COVID-19, embora transversal, horizontal, vertical e até diagonalmente, extremamente injusta. Porque parecia sempre que pagava o justo pelo pecador. Parecia sempre que era quem tinha menos culpas no cartório, que quem mais levava por tabela, pois a triste verdade era que quem mais merecia apanhar um valente susto, infelizmente também era quem tinha mais acesso aos melhores cuidados de saúde. Por mais injusto que isso fosse ou parecesse. E isso era mesmo, mesmo, MESMO muito injusto: imensa, extrema e tremendamente injusto.
Com o olhar pousado no écran da televisão ligada, mas sem realmente ver o que quer que estava a dar, Jôjô lembrou-se de Brigite, uma residente na casa de cuidados continuados onde trabalhava e que padecia de uma doença considerada rara e com um nome demasiado estranho. Apesar de estar já total e completamente dependente de terceiros para o que quer que fosse devido à progressão implacável da sua doença, Brigite continuava extremamente lúcida e dona de uma mente incomensuravelmente arguta e perspicaz, assim como possuidora de um sentido de humor muito peculiar e sarcástico, acutilante, muitas vezes desarmante. E veio à memória de Jôjô um desabafo amargo de Brigite: que tinha ouvido num noticiário qualquer, em relação à vacina para a COVID-19, que se tinha conseguido condensar 10 anos de investigação em 10 meses. Ora, Brigite tinha plena consciência de que 10 anos era normalmente o período de tempo que separava a descoberta de um novo fármaco e a sua chegada efetiva às farmácias; também percebia que a COVID-19 era uma urgência a nível mundial; mas bolas... 10 anos em 10 meses?... Então e as outras doenças?... Não interessavam?... Era como se as farmacêuticas não vissem com bons olhos o desenvolvimento de certos produtos, nomeadamente de medicamentos que curassem, por não serem rentáveis: era muito mais proveitoso responder aos quês do que aos porquês e lucrativo tratar os efeitos do que as causas. Perante este discurso desencantado de Brigite, Jôjô ficou sem saber o que dizer e apenas acenou tristemente com a cabeça.
Mas agora, nesta noite de passagem de ano, parada a olhar para o écran ligado da televisão ainda que sem realmente o ver e perdida em si e nos seus pensamentos, Jôjô não conseguiu evitar-se sentir entalada entre dois mundos, duas realidades: o que tinha havido e sido, e o que tinha de haver e ser. Entre o antes e o depois. Suspirou e apesar de ainda não ser meia-noite e como não tinha a mínima vontade de celebrar o que quer que fosse e muito menos a entrada no novo ano – ao contrário da grande maioria, Jôjô não tinha grandes expectativas para o ano que se avizinhava: vislumbrava-o antes como uma incógnita: um gigantesco ponto de interrogação –, foi-se deitar.

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domingo, 10 de outubro de 2021

A cela - ANGELITA GUESSER

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Sexta-feira 16 de outubro, saio da sala que religiosamente frequentei por 10 anos, desço os poucos lances de escada e já estou na rua. Caminho pelas calçadas de Pelotas, sutilmente coloridas por seus imensos ipês amarelos. Me dou conta que é início da primavera. Estou parada na esquina da Andrade Neves com Gomes Carneiro por mais de 10 minutos. O vento suave traz o cheiro agradável das flores que recobrem os canteiros dos edifícios, me causando uma sensação agradável, mas meus pensamentos, estão agitados como um furacão. Com grande esforço consigo ordenar alguns poucos, e repasso mentalmente as orientações da terapeuta. Meu coração, bem mais acelerado que o normal, prenuncia um ataque de pânico. Aceitei a alta, agora tenho que ser forte. Sempre soube que nunca fiz ou farei algo de imponente na vida, nunca construirei monumentos ou catedrais, mas acabar com as conquistas acumuladas com muito custo nesses anos de terapia, seria como assumir a continuidade do trabalho de Jack Estripador, em mim mesma, repetidamente. Continuo a caminhar por mais duas quadras, e não conseguindo controlar a respiração me encosto no grande paredão de cimento cinza que está à minha frente. Fecho os olhos, na tentativa de retomar a lucidez. Tento respirar lentamente, uma, duas, dez vezes, sem sucesso. Ainda imóvel, com os olhos fechados, encostada na segurança do paredão que não me engole, lembro da técnica de visualizar uma praia deserta, o mar, as ondas – qualquer coisa que me traga um pouco de estabilidade. De repente sinto a respiração retomar seu ritmo normal, sinto meus batimentos desacelerando, acredito que sobreviverei por mais 30 minutos, tempo suficiente para eu chegar em casa. Retomo o trajeto que idealizei por quase uma década, e com passos apressados num ritmo fora do normal, levanto a cabeça e me torno alheia às pessoas que passam por mim. Sigo em frente sempre, vez ou outra os transeuntes esbarram em meus braços, agora trêmulos. Retomo a confiança de 15 minutos atrás, a mesma que me fez sair de cabeça erguida do consultório, continuo a andar. Só penso em Denis, em Giovanna e o quanto quero lhes falar, dizer que me sinto livre depois de uma vida inteira de autoflagelo. Quero estar em casa, estar pronta para seguir, reconstruir nossas vidas de onde paramos. Percebo o movimento frenético das pessoas aumentar repentinamente. Parecem estar com algum tipo de ânsia, vejo o céu escurecendo e todos fugindo da possível tempestade que se aproxima. O vento aumenta sua velocidade fazendo com que folhas e flores rodopiem em todas as direções, num balé frenético, descompassado, mas hipnotizante. Fico tonta só de olhar, sinto meu corpo girar junto com as folhas; o vento está bem mais forte, não mais exala o odor agradável dos jardins, mas sim de fumaça e terra. Parece que estou levantando voo, meus pés mal tocam o chão, só consigo me concentrar em chegar em casa, preciso contar-lhes que tudo acabou, que estou livre. Os primeiros pingos da chuva tocam minha face e, desorientada com toda a agitação das pessoas, percebo que estou perdida, tranco a respiração para manter a calma e sinto alguém me segurar pelo braço. Adélia me seguiu até ali, ela olha firmemente dentro de meu pânico e me conduz até seu carro. Adélia é uma mulher negra, alta e magra, dona de um porte intimidador, mas seguro, também é dona do poder de transformar realidades, principalmente as doentias. Ela é a responsável por me fazer acreditar na capacidade de superação que todos carregamos. Com sua ajuda, em poucos minutos, me encontro parada na portaria de meu prédio. Procuro sem pressa a chave em meus bolsos, até que as encontro inesperadamente em minhas mãos. Permaneço parada por mais algum tempo, tomo coragem e rumo para o saguão. Aperto com as mãos trêmulas o botão do elevador, mas desisto, procuro a porta que leva às escadas. Subo os treze andares e percebo que pouco restou para me impedir de enfrentar o que está atrás daquela porta. Subi com meus próprios pés aqueles treze andares, e dependo deles para chegar até o topo. Quando giro a chave e abro a porta, o tempo volta a correr e me deparo com minha imagem refletida na vidraça — uma mulher frágil com as mãos amarradas. A realidade me assalta e por trás dos vidros vejo Giovanna com seu vestidinho branco, bordado, enfeitado como de uma princesa, linda!, perfumada, sandálias sem meia, como sempre. Há quantos dias não contava o tempo? Por que entregar-se a um hábito sem perguntar a razão? Entre um momento e outro de lucidez lembro que estou ali para uma rápida visita. Ainda apoiada no batedouro da vidraça, os flashs das imagens do corpo de Denis no chão me roubam o momento. Ouço o arrastar de adeus dos pés de Giovanna, com grande esforço olho mais atentamente e vejo Adélia parada ao meu lado. Já é hora de retornar para a cela.

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sábado, 9 de outubro de 2021

Fuga no Quilombo - ANAMARIA ALVES

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Quando a vida valia menos que um pano de prato.
Festa de formatura de Marília. A menina tornara-se professora. Após anos de esforço para estudar na velha Belo Vale, a 8 quilômetros do Quilombo Chacrinha dos Pretos. Professora quilombola, nem sabia que o seu gesto mudaria a vida de pessoas que se inspirariam em sua história de quem não teve o que comer e ia para a escola com fome, de quem não possuía um uniforme só para si e dividia com as irmãs.
Na festa de formatura, a moça estava proibida de dançar com qualquer homem que não fosse o seu pai. Entretanto, o pai não conseguiu chegar a tempo e ela dançou com um rapaz para não perder a dança. Seu pai chegou no momento em que a valsa terminava, foi para junto da mãe e agiu como pai orgulhoso da conquista da filha. A primeira de oito filhos.
Acabada a festa, nada foi dito e a família foi para casa. Na noite seguinte, o homem chegou bêbado. Todos dormiam.
– Maria, vai chamá a menina!
– Deixa a sua fia dormir, homi di Deusu!
– Eu tô é mandano!
A esposa não chamou a filha. O homem se enfureceu e pegou uma cadeira. A mulher começou a correr e gritar.
– Genti, levanta! Seu pai tá cum o demonho no corpo!
Todos os filhos se levantaram. Eram oito. Sete meninas e um rapaz. Dona Maria pegaria as coisas para sair correndo, mas o homem acertou a cadeira em suas costas. Até hoje não se sabe explicar de onde a mulher tirou forças. Pegou um pano de prato e pôs-se a correr com oito filhos pelo quilombo até a saída pela linha do trem a caminho de Belo Vale. Eram oito filhos e uma mulher caminhando oito quilômetros rumo à casa de sua mãe.
– Mamãe, a Lalá tá chorano di medo!
– Précupa não, genti. Tem fé im Deuso i vamu.
Dona Maria dava as mãos a duas crianças e as outras seguravam em suas saias. A filha bebê nas costas da mais velha. Não havia iluminação e cobras se arrastavam pelo mato à beira da linha férrea.
Aquele único pano de prato serviria para aquecer as costas da filha de saúde mais frágil. Quatro quilômetros caminhados e chegaram a uma ponte que tinha apenas os dormentes da linha férrea, entre os quais em meio ao breu da noite era possível ver o rio que corria lá embaixo, tão fundo quanto o vazio de caminhar na madrugada sozinha e em perigo. A ponte dos Paiva era perigosa e muitos morriam ao olharem para baixo e perderem o equilíbrio.
Dona Maria atravessou oito vezes. Uma com cada criança.
Saindo daquele perigo encontraram um andarilho que caminhava e cantarolava coisas ininteligíveis.
– Nossa Senhora, faiz que ele num vê nóis nem faiz mal eu e os minino!
O homem passou direto.
Já próximos a Belo Vale, passando perto de um pasto alto. Mulher e crianças ouviram um tronco rolar morro abaixo. As meninas se apavoraram. Uma delas se urinou de medo.
– Não iscuta não, genti! Isso é o troço ruim! Tem fé em Deuso i vamu passá! Ocês lembra da música da adoração? Canta!
"A primeira salve Rainha, salve Rainha, mãe de Concórdia! Ô Mãe, verdadeira Mãe! Ô Mãe de misericórdia!"
E todos começaram a cantar, as vozes trêmulas de medo. Quando caminhar e cantar era a diferença entre viver e morrer, oito crianças negras, filhas do Quilombo Chacrinha dos Pretos, entoaram canções sob a única luz possível naqueles caminhos, a lua. Canções sobre Maria mãe de Deus e a luz na qual eles firmaram pensamento para chegarem vivos apesar de tudo.
"A nós descei, divina luz..."
O barulho passou, graças à cantoria. Chegaram a Belo Vale em paz.
Esse conto é real. Sou eu, neta de Dona Maria a imortalizar minha avó e seu amor pela vida e pelos filhos. Maria, mãe de misericórdia. Mãe de oito filhos e avó mais doce que já pisou a face da terra. A Senhora vive para sempre.

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sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Os olhos de Brigite - TEREZINHA PEREIRA

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Brigite. Mulher elegante, gentil, bem vestida estaria em qualquer ocasião. Entrava na cafeteria para o café de sempre, suponho que após o trabalho.
Faz frio. O calefator do chão, próximo a uma vidraça fechada, aquece suas pernas vestidas com meias finas. No momento, casaco de veludo verde escuro, chapéu cáqui, está sentada de costas para a janela que reflete luzes da cafeteria. Em outros dias, ela se sentava naquele mesmo lugar, porém, de frente para rua. Estaria a vigiar o movimento lá fora? Pedia dois cafés. Especulo. Espera por alguém. Uma amiga. Um amigo. O amado que não vinha... o mais provável.
Olhos baixos, feições com ar de mistério, não denota tristeza nem alegria nem dor. Ah. Como é bonita. Seu nome, ouvi alguma vez o garçom a dizê-lo quando recolhia as xícaras. Brigite. Ah. Antes, ela pedia dois cafés. Há alguns dias, ela mudou de posição à mesa. Passou a sentar-se de costas para a janela e a pedir somente um café.
− A senhora quer mesmo só um, dona Brigite?
O garçom conhecia seus gostos. Pudera, ela ali, toda tarde. Pagava com dinheiro e deixava sempre o mesmo troco para aquele que a servia. Eu costumava fiar meu consumo e pagar a cada final de mês.
Hoje, quinta-feira, é um dia diferente. Dias atrás, pedi ao garçom para entregar à Brigite um bilhete. Ela o leu com a mesma expressão impassível. Desdobrou o papel e nem levantou os olhos. Eu havia explicado bem quem lhe escrevia. Sou Edvard, o homem de casaco tweed preto, camisa branca e chapéu-coco, na terceira mesa do fundo do salão a contemplá-la, de sempre. Às vezes, a cofiar o bigode.
Depois disso, continuei a olhá-la. Terá tido um grande amor e fora deixada. Mulher de persistência. Tanto tempo à espera. Eu comecei a vir a este café há uns três, quatro meses. Um dia, antes de entrar, vi seu rosto pela janela. Encantou-me. Era um tempo de muito frio e, a cada dia, eu entrava encolhido, doido para aquecer-me neste lugar. Ela, de costas para o salão, de frente para a janela.
Quando passei a vê-la de frente para o salão é que comecei a especular. Eu, que há tempos ficara sozinho depois de um amor vencido, varava noites a pensar em Brigite. Um nome assim meio raro que cabia bem naquela mulher cabisbaixa que ficava a olhar o café. Parecia-me mulher de sabedoria, de luz. Naquele mesmo dia veio a reposta: sim. Três letrinhas mágicas. E mais “na quinta-feira”. Eu perguntara-lhe se ela me esperaria na saída do café.
Aqui, nesta espera que parece infinita, minha maior ânsia é saber a cor dos olhos de Brigite.

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Espelho, espelho meu - RITA QUEIROZ

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Cheguei à conclusão de que não sou normal. Decididamente, tenho sérios problemas mentais. Como posso ter chegado aos 57 anos sem tomar antidepressivos e remédios para dormir, mesmo tendo dois casamentos fracassados na bagagem? Um aos 21 anos e o outro, aos 51.
Naquele momento, não queria me separar, em ambos foi um desejo unilateral. Mas, não sei se estaria casada com algum deles até hoje. Principalmente, porque fui adquirindo outros entendimentos de vida, conhecendo-me melhor e sabendo mais como me colocar no mundo.
Confesso que no fracasso do primeiro casamento, quis morrer, acordar morta, desaparecer. Procurei por distintas ajudas. Fui ao padre, que me disse que não poderia ter mais ninguém, porque seria adúltera. Fui a uma psicóloga, de vertente psicanalista, que não resolveu meu dilema. A criatura só me ouvia, não dizia nada, minha personalidade agitada não entendia aquilo, queria dialogar. Fui a uma única sessão, sumi. Peço desculpas aos profissionais da psicologia, tão importante para a nossa vivência, mas eu, tão (a)normal, não me enquadrei.
Por fim, por recomendação da minha ex-sogra, antes da separação se efetivar, procurei uma Mãe de Santo. Segundo ela, aquilo que estávamos vivendo só poderia ser “coisa feita”, como se diz na Bahia. Fomos juntos. Apenas para ele foram jogados os búzios. Eles não mentem, deu tudo certo. De repente, a Mãe De Santo olhou para mim e disse: “Você, minha filha, quer seguir sua vida, não é?”. Concordei, com o aceno da cabeça. Segui.
Tive namorados, concluí a faculdade, entrei para o mestrado, viajei diversas vezes, fiz doutorado e, meses após defender a tese, reencontrei uma paixão da adolescência.
Ele não sabia que eu tinha sido apaixonada por ele, que fora meu amor platônico. Mas, naquele encontro, quando contei isso, o jogo virou a meu favor e ele passou a me ver com outros olhos. Nos escrevíamos por e-mail, nos falávamos por telefone (não havia smartphones e muito menos WhatsApp), nos apaixonamos. Na verdade, o que havia sentido anos atrás, reacendeu. Vivemos uma linda história de amor. Com altos e baixos, claro, como em todo relacionamento, mas jamais imaginei que nos separaríamos. Fui pega de surpresa quando ele me disse que queria se separar.
Que choque! A princípio, neguei que aquilo estivesse acontecendo. Acreditava que voltaríamos. Não quis morrer, mas quis matar – bem (a)normal! Não tomei calmantes, me joguei na atividade física. Embora estivesse com o peso normal, fiz dieta. Passei momentos bem difíceis, mas não me droguei – outra (a) normalidade, nunca usei droga alguma.
Minto quando digo que nunca usei drogas. Foi nesse período que me viciei em poesia. Imagine, em poesia! Que droga!
A poesia não me deixou ir ao fundo do poço. Sobrevivi e hoje posso escrever essas coisas bobas. Coisa de gente (a)normal.
Também passei a me ver melhor. A me achar bonita. A me deixar fotografar. Hoje olho no espelho e digo: “que espetáculo de mulher!” (Ousadia de uma pessoa do alto de seus 1,57m de altura).
Para uma amiga e minha irmã, isso se deve ao fato de ser surtada e não ter tomado Gardenal. Solto gargalhadas e digo que elas são invejosas.
– “Morram, fofas!”
Mas acho que elas têm razão, isso não é coisa de gente normal!
– “Espelho, o que me diz?”

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quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Peixes franceses - TEREZINHA MALAQUIAS

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Voltei da rua com muita vontade de ir ao banheiro. Detesto ter que segurar para fazer o xixi. Antes de entrar no meu apartamento, vi os sapatos de pés pequenos da minha vizinha de andar, a simpática Rosa. Ela tem essa mania e, para sinalizar que está em casa, deixa seus sapatinhos do lado de fora sobre o tapete.
Saí do banheiro depois de lavar minhas mãos durante trinta segundos e fui tocar a campainha dela. Ela abriu a porta com um grande sorriso e me fez entrar. Nem queria que eu tirasse os meus sapatos de pés grandes. Desdobei-a, e tirei-os. Afinal por aqui é costume tirá-los em casa.
Rosa me levou para a cozinha que tem cor bege, bem clássica e diferente da minha que é bordô e tem piso azul-claro. Era esse o desejo do meu marido e meu, quando reformamos o apartamento para que ele se tornasse o nosso Lar.
Ela abriu a geladeira, precisamente o congelador e retirou dois peixes. O namorado alemão que pesca por passatempo, trouxe os peixes mas, ela não tinha nenhuma vontade de cozinhá-los. Eles já estavam limpos, inclusive sem escamas. Confesso que eu também tentei recusá-los sem conseguir, tamanha insistência da minha acolhedora e simpática vizinha.
Meu marido que tinha ido viajar para visitar a irmã no Norte da Alemanha, quando me telefonou a noite, ouviu de mim, que eu tinha ido pescar. Claro que ele não acreditou em mim. Então confessei sorrindo que estava brincando e que os pescados eram mimos que ganhamos da Rosa. E que os peixes eram bem viajados. Foram pescados na França e chegaram aqui na Alemanha, através de uma mulher russa que os recebeu do namorado alemão e regalou-os a nós.
Enfim, três pessoas envolvidas, dois peixes e quatro nacionalidades. Quer encontro/acontecimento mais globalizado do que esse!? Não, não tem!
No dia seguinte meu marido voltou de viagem e eu fiz os peixes. Foi um para o Gerhard e outro para mim. O jantar ficou bem esmerado. Fiz uma salada bastante verde que acompanhou o costumeiro arroz integral e os peixes que assei no forno. Comemos com a delicadeza precisa de quem faz amor. Oferecemos um carinho em forma de comida para nossas bocas famintas.
Esse foi realmente um encontro inabitual. Uma russa, uma brasileira, um alemão e peixes franceses que se encontraram em terras germânicas, não acontece todos os dias.

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quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Armas poderosas - SONIA BISCHAIN

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A fita clara no cabelo escuro brilhava como a lua no firmamento, dando ao seu rosto uma aparência mágica. Era bonita, sem dúvida. Sempre olhou o mundo com olhos coloridos, como se tivesse às mãos potes de tinta. Os vidrinhos que colocava no parapeito das janelas de seu quarto refletiam luzes multicores quando surgia o sol, tingindo tudo à sua volta, criando o belo onde existiam cinzas.
Das histórias que ouvia, não lhe encantava a força dos super-heróis. Não, os homens são prepotentes, autoritários, maliciosos. E as mulheres de sua geração, tão caladas! Sempre submissas, a refletirem a cor pálida da tristeza. Quando adolescente, ela sonhava em se rebelar. Fazer o que bem entendesse da vida, dar um grito, sumir dali. Mas criada com tanta repressão, sua voz era fraca, quase inaudível. Não tinha o costume de emitir opiniões. Na verdade, falava pouco, pouco demais, não tinha boca pra nada, diziam as más-línguas. Nem todos sabiam, mas sempre foi uma pessoa de opinião formada, e criativa também.
Naqueles tempos de sua juventude, as mulheres não tinham o costume de reclamar das ofensas, das violências, dos assédios e abusos que sofriam. Não, certos assuntos não eram para ser comentados, discutidos, denunciados. E, envergonhadas, calavam-se.
E foi calada que ela encontrou uma maneira de se defender do assédio dos homens nos coletivos. Pela manhã, antes de sair de casa para o trabalho, olhava para o céu investigando o tempo e se perguntava: guarda-chuva de cabo longo ou sapatos de salto alto? Não gostava muito de saltos, mas caso não fosse chover, os sapatos eram bons aliados.
A condução era muito ruim (na verdade, não melhorou com o passar dos anos). Formavam-se três, quatro filas no ponto inicial, inutilmente, pois quando o ônibus abria as portas, os homens se amontoavam na frente, empurravam as mulheres e entravam primeiro. Assim sendo, ela sempre ia em pé no coletivo. Estava criada a oportunidade para algum cafajeste se encostar, se esfregar, passar a mão.
– Não sei por que apelidaram essa investida de mão-boba, quem faz isso tem é mão muito intencionada, isso sim! – concluía ela. Em situações como essa, era hora de usar suas armas para se defender, o guarda-chuva em dia fechado, o salto alto em dia ensolarado.
Nessa época, o pai de seu namorado pegava o ônibus no mesmo horário que ela para ir ao trabalho. O homem era estranho, calado, usava um óculos de lentes grossas, nunca a cumprimentava.
– Deve enxergar pouco, vai ver não me reconhece – pensava ela.
Um belo dia, não é que foi ele, o sogro, quem ficou se esfregando atrás dela? Ah, ela não teve dúvida. Era um dia ensolarado, sem dizer uma só palavra, com uma das pernas, fincou o salto alto (desses bem fininhos) sobre o pé do homem, colocando ali todo o peso de seu corpo. O homem até gemeu de dor e, com muito esforço, conseguiu se libertar, saindo imediatamente de trás da moça.
Nesse dia, sua raiva foi tanta que lamentou não estar também com o guarda-chuva; se tivesse, faria um ataque duplo. Ah, ele ia ver só...
No final de semana, ela foi à casa do namorado. O sogro passou por ela mancando. O homem nunca falava com ela, mas ela fez questão de perguntar-lhe:
– Tá mancando, seu Zé? O que foi, machucou o pé?

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terça-feira, 5 de outubro de 2021

E não se importava com isso - SILVANA SALERNO

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Tantos meses trabalhando em casa... Não saía para nada, não via ninguém, não falava com ninguém. Duas mulheres juntas, uma jovem, uma idosa, mãe e filha, dividindo o pequeno apartamento vinte e quatro horas por dia. Como Leocádia sempre trabalhou fora, o contato com a mãe se resumia aos fins de semana. De repente, sua vida mudou. O ritual de acordar, tomar banho, se arrumar, engolir um café e sair de casa havia acabado.
Logo que a empresa se organizou para que a equipe toda estivesse ligada na plataforma para dar prosseguimento ao trabalho de forma virtual, Leocádia pensou que poderia dormir uma hora a mais. Mas estava enganada. Já que estava em casa, não era justo deixar tudo para a mãe. Havia o café da manhã, o almoço, que ajudava a preparar, as compras a fazer, o jantar e toda a louça a lavar. E assim se passou um ano inteiro sem encontrar as amigas antigas que costumavam se visitar, pegar um cineminha, comer pizza, tomar sorvete no shopping.
Dona Antônia era uma mulher boa, mas das antigas. Tinha tido uma criação muito rígida e passara isso a Leocádia, filha única. Quando o pai morreu, Leocádia tinha vinte e oito anos. Era independente economicamente, mas nunca pensou em sair de casa; esperava se casar e seguir o padrão tradicional de sua mãe.
Desde então já haviam se passado onze anos e o casamento não viera. No bairro, corria a voz de que os rapazes estavam envolvidos com droga, e ela e as amigas passavam bem longe deles. Formada em secretariado, começou a trabalhar na firma aos vinte e dois anos. Haviam se passado dezassete anos sem que ela percebesse. Nunca cogitou mudar de emprego. Entrou como assistente geral, tornou-se secretária e não almejou outro posto, preparando-se para ele ou fazendo politicagem e algo mais, como viu tantos fazerem. Leocádia vestia a camisa da empresa. Estava perfeitamente enquadrada, e nunca tinha tido problema com ninguém. Seu contato com os colegas era estritamente profissional; nenhuma colega tinha ido à sua casa nem ela tinha sido convidada para ir à casa de ninguém. De vez em quando, a jovem Míriam aparecia com um livro que vinha lendo no metrô. Muitos se interessavam e ela indicava a biblioteca pública da qual retirava os livros. Leocádia foi das poucas pessoas que acatou a dica, e os livros passaram a lhe fazer companhia. Apresentou os livros à mãe, e aos poucos Dona Antônia também se tornou leitora assídua. Elas viviam tranquilas; sem expectativas, ambições, desejos.
Quando o chefe de Leocádia anunciou que voltariam a trabalhar na sede da empresa, ela se reanimou. Foi só então que percebeu o quanto estava ansiosa para retomar seu trabalho de nove às seis, sua mesa, seu computador, sua agenda, suas responsabilidades. Percebeu que estava com saudades até do quilo sem-vergonha em que almoçava, o mais barato da região.
Nesse dia, Leocádia abriu um largo sorriso, que até a ela espantou. Correu a contar a notícia à mãe e às amigas e cuidou de se preparar para o grande dia. Toda animada, na véspera lavou os cabelos, fez uma escova e tirou as sobrancelhas. Preparou a roupa para o dia seguinte e foi se deitar mais cedo. Mas quem disse que conseguia dormir?
Pela primeira vez em dezassete anos, enxergou o chefe e os colegas de trabalho com outro olhar. A imagem deles lhe apareceu claramente, como numa tela de cinema, e ela enxergou a perfídia da moça bonita em relação a ela, o bullying que sofria dos rapazes, a implicância do chefe e a arrogância da diretora, que nunca a cumprimentou nesses anos todos.

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segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Crônicas Para Liege: O Perfume - SILVANA MARIA DE MENDONÇA

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Você mudou a fragrância de sua pele? Perguntou minha mãe ao me abraçar. Que cheiro esquisito! Antes você era tão cheirosinha minha filha! Não gostava de perfumes fortes que eu sei, tudo lhe fazia espirrar, mas era cheirosinha, usavas fragrâncias tão suaves! Agora acorda cedo, não vejo se arrumar para o trabalho! Estás rica minha filha? Só vejo você limpando a casa... Não, não estás rica, ficas como louca lavando, esfregando, desinfetando. Rico paga para fazer estas coisas. Filha, você está com problemas de saúde mental, depressão? Só pode ser isto ou aquela doença que tem mania de limpeza, que não sei dizer o nome! Onde estão as coisas que você acumulava e não deixava ninguém mexer? O quartinho está arrumado, nunca ficou assim! Tudo cheira como hospital, muito preocupante isso.
Você fica assistindo Fatima Bernardes a manhã toda, se rendeu à Rede Globo filha! O que você quer "Encontrar" neste programa que só fala do mesmo assunto a manhã toda, um tal de COVID! Você está louca mesmo! Não sai de casa, não recebe visitas, fica vendo live, fotografias do passado, receitas de comida na internet... nem ao cinema vais mais! Até no velório de seu tio você não foi! É só você que está assim filha ou tem mais pessoas?
Porque tantas sacolinhas plásticas no varal? Reparei que você só vai até o portão, encharca o pano de chão com água sanitária, um chinelo fica na porta e outro para usar dentro de casa. Tudo muito estranho! Não faz mais as unhas, não pinta mais os cabelos, as sobrancelhas encostaram uma na outra! Você entrou para alguma religião fundamentalista filha? Até suas pernas estão peludas! É síndrome do pânico filha? Diga-me, quero te ajudar!
Cuidado filha, você sabe que na época da ditadura militar o governo prendia as pessoas que eles consideravam subversivos em hospitais psiquiátricos. Estava vendo lá de cima vários hospitais sendo construído de uma semana para a outra, esquisito isto, e é no mundo todo! Você não deixou de ser comunista né filha? Seria o fim para mim, que desde outrora lutei para um mundo mais justo e solidário. Vou subir agora, só desci para entender este seu comportamento.
Ah! Cuidado com o “Bozo” e os fascistas que o apoiam. Foi por isso que você mudou o perfume né filha! É uma estratégia! Que cheiro filha! Tem certeza que é desta fragrância que você gosta agora, por isso optou pelo isolamento social? Talvez seja melhor assim... enquanto não mudar o perfume, fica em casa. “Errado vai quem não acerta” não é mesmo! Da próxima vez que eu descer tire esta máscara da cara, esqueceu que eu morri! Parece doida!

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domingo, 3 de outubro de 2021

Mãe Mena - SARA TIMÓTEO

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Dedicado à Mãe Mena, à Tânia, à Sónia, ao Tucha, à Cláudia, ao Rui, à Sheila e à Gisa
– Vou sentir a falta da Mãe Mena. – Rui tartamudeava as palavras, em vez de as pronunciar nesse português angolano do qual gostava de fazer gala quando estava eufórico.
Eram todos tão pobres que até a alegria lhes era emprestada. A felicidade nunca se demorava muito tempo naquele bairro de lata. Havia a bebida e, claro, tareias das quais as mulheres emergiam com braços torcidos e narizes tortos, cobertas de hematomas e cheias de feridas no corpo e na alma. Tios e pais viviam abertamente com as respetivas filhas e sobrinhas, gerando filhos com deficiência que as mães abandonavam ou liquidavam discretamente.
Havia momentos felizes, quando chovia; a água corria fresca para o bidão comunitário e podia tomar-se banho de esponja ou de toalha. Também saía a sorte grande ao bairro inteiro quando alguém conseguia um emprego fixo, partilhava o pouco dinheiro que lhe sobejava e organizava uma festa.
D. Mena teve sorte. Todos os seus sete filhos trabalhavam e ela era a rainha daqueles telhados de zinco e chapa. Os meninos do bairro viviam lá, porque a barraca dela era a única onde havia comida. As mulheres depositavam algum dinheiro nas mãos de D. Mena para ela tomar conta dos meninos e meninas, porque não sabiam ser mães. Por vezes, ausentavam-se durante semanas enquanto tentavam agarrar um homem que as conseguisse resgatar da vida no bairro e dos filhos indesejados, tantas vezes fruto de violações sobre os becos cobertos de lama.
A Mãe Mena era única mulher daquele bairro que se depilava e que conseguia manter-se apresentável, com o cabelo desfrisado ou trançado. Também não gerou filhos com deficiência e conseguiu manter as filhas afastadas da prostituição aberta e os filhos longe da droga.
Quando morrera por não ter sido atendida a tempo pelo Serviço Nacional de Saúde (pois continuava pobre e os pobres tornam-se invisíveis até ser tarde demais), os meninos e meninas (agora homens e mulheres com vários tons entre o negro e o café com leite) e todos aqueles que haviam colhido as primeiras carícias das suas mãos e as primeiras papas das suas colheres se juntaram e regressaram ao bairro. Foi dali que saiu o cortejo funerário, embora os filhos do bairro já estivessem todos distribuídos há muitos anos pelos bairros sociais, prisões, morgues, cemitérios. Alguns trouxeram conjugue e filhos do estrangeiro.
Também eu fui uma das filhas da D. Mena, embora não vivesse no bairro de lata. Quando as coisas em minha casa azedavam, era lá que passava o meu tempo, e foi ela que me deu o primeiro apoio incondicional que recebi. Acordava picada das pulgas e percevejos, e apanhei piolhos várias vezes, mas os melhores banhos que tomei foram naquele bidão e as festas mais felizes que frequentei foram as da Mãe Mena.
Agora, movo-me noutros círculos, como ela sempre me afiançou que sucederia. Não me perdi nem me deixei aprisionar por homens violentos, como ela tanto temeu que me sucedesse assim que deitei corpo.
No meu novo mundo, as pessoas falam uma espécie de português emp(r)estado, sem a cadência quente que aprendi a amar. Os corações dessas pessoas são frios e repousam sobre a pedra de mil desculpas para se escudarem nas suas vidas de plástico. Não existe partilha de comida até à última migalha, apenas interesse em lucrar com o outro ou em derrubá-lo. Cada vez que oiço uma dessas pessoas entoar palavras com afetação, faço mil vezes o luto da Mãe Mena e da música que habitou os seus lábios para sempre como a mais bela canção de amor.

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sábado, 2 de outubro de 2021

A Obtusidade do MEDO - SÃO SILVEIRINHA

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Ramiro tinha sido sempre um revolucionário no valor mais autêntico do termo. Era um visionário, um inovador, uma alma atrevida que agitava as ideias vigentes, todas, segundo ele, moralmente condenáveis. Na sua juventude fora um líder, arrastando com a maior das facilidades os que tiveram o privilégio de se cruzar no seu caminho. Chegara a estar preso durante umas horas por ser o mentor de ações clandestinas, cuja única intenção seria o combate vigoroso e a crítica mordaz ao regime ditatorial de Salazar. Nem isto lhe tinha usurpado a afoiteza e o devaneio. Agora, à beira de se jubilar, a história era outra.
Enquanto jantava, Ramiro ia vendo as notícias da noite. Não que ainda lhes ligasse grande coisa, mas ele, que era um pouco monofóbico, assim sentia-se acompanhado. Por entre as crises, as pandemias, os atentados e outros que tais, Ramiro ia ficando apreensivo, diria mesmo apavorado, ao perceber que a sua condição mais preciosa, o facto de ser livre, de poder desfrutar de livre-arbítrio, encontrava-se claramente em risco. Chegou a considerar que o jantar não lhe estava a cair bem e, por esse motivo, decidiu ir apanhar um pouco de ar para ver se a indisposição lhe passava.
Ao aproximar-se da porta do quintal que ligava à rua das traseiras, hesitara se haveria de puxar o trinco, movimento este tão banal que nunca tinha parado para lhe dar importância, mas desta vez a situação carecia de prudência. A pouca oleosidade do ferro obrigou-o a soltar um ruído estranho, e o nosso homem, que levava a boca tão cerrada como se estivesse amordaçado, ainda a pressionou mais, de tal modo que as gengivas começaram a sangrar. Tinha as bochechas fartas, como se ainda as mantivesse cheias da comida do jantar e o olhar deixava bem visível o seu estado de pânico ao abrir a porta com todo o cuidado. Depois, escancarou a boca, regurgitando num só grito a palavra que até então a enchera: MEDO! Ao contrário de outras palavras, esta não pairou no ar, pois não tinha qualquer leveza. De tão pesada, foi rastejando, sibilante, desenhando um sulco sinuoso por onde passava e, logo que pôde, porque só sobrevivia ao alimentar-se da energia dos seres que lhe servissem de hospedeiros, enfiou-se pela ranhura da janela do quarto de uma menina. Sem que esta sequer imaginasse, o seu quarto tinha sido invadido pelo MEDO, planando mesmo junto à sua cabeça, qual guilhotina ameaçadora. E a criança, que até então dormira tranquila, inspirou o MEDO para o interior de si, tornando-o personagem do seu sonho, agora pesadelo aterrador.

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sexta-feira, 1 de outubro de 2021

Invulgaridades - SANDRA RAMOS

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Ao sábado à tarde ele enviava-lhe uma música. Quase sempre sem letra. Aquilo que queria dizer-lhe não caberia na letra duma canção, nem no entremeio escuso das palavras cantadas. A melodia era tudo o que lhe enviava, ele sabia que ela, mulher-poema, a preencheria como ninguém.
No domingo, pelo fim do dia, ela enviava-lhe um trecho dum livro, sem autor, sem referência. Sabia que os significados ganham mundo e não podem prender-se ao nome de quem os achou. O tom com que o diria travava-se na garganta, mas ele saberia encontrar a melodia certa para ler a mensagem.
Manuel procurava a ária precisa, nada menos que majestosa, para lhe enviar naquele correio semanal. Maria, se não a conhecia, procurava na imensidão do mundo, procurando infatigavelmente até descobrir. Rodrigo Leão, Majlo, Gotan Project vieram-lhe pelas mãos dele. Muito prazer.
Maria revia os inúmeros livros que lera em busca de uma resposta à altura. O insigne cumprimento de sábado merecia um excelso retorno. E ele procurava no mundo o autor daquelas palavras. Valter Hugo Mãe, Pessoa, Carlos Drummond, vieram-lhe pela mão dela. Muito prazer.
Conheceram-se naquele bar onde ele tocava ao vivo. Ele percebera que ela era muito mais do que a sua beleza, e que com certeza colecionaria já tantos e vulgares elogios ao seu sorriso, decote e andar. Ela percebera que a sensibilidade dele ia muito além da destreza e da carícia com que dedilhava a guitarra, e que com certeza colecionaria já tantas e vulgares admiradoras de si, no aparente e efusivo charme dum homem público.
Em consecutivas semanas, mantiveram o desfasado encontro, ele no sábado, ela no domingo. Com o tempo, ele começou a enviar-lhe músicas que ela não encontraria senão nele, fruto da combinação única das suas próprias notas. Ela devolvia-lhe a beleza em temas que ele não encontraria senão nela, fruto da combinação única das suas próprias letras.
Um sábado, ele enviou-lhe “Um olhar que era só teu”.
No domingo, ela não lhe enviou o texto.
Apresentou-se na porta dele.
Depositou-se, mulher-poema, nas mãos delicadas do cântico que ele era.

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quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A gaiola do vento - ROSA ALVES

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A rua estava deserta naquele dia. Não havia ninguém além de mim a espreitar da vidraça… Depressa desci as escadas e ganhei a rua.
No adro da Igreja de São Mamede, o vento se encarregou de espalhar as folhas rente ao chão. E no Jardim Botânico, permaneci sob a sombra das velhas árvores. Se eu dormir poderei acordar os sonhos escondidos entre as batidas do coração.
Levanto-me e volto a caminhar para o lago que reflete o que acontece no céu. Sua água calma e contida parece estar alheia ao que se passa. O lago é o mapa das emoções vividas e a memória do tempo que fatalmente evapora. Nele cabe toda a expressão do prazer e da dor e às vezes é necessário mergulhar e atravessar o limite para descobrirmos uma parte dos seus mistérios.
Ouço apenas as folhas secas quebrando-se na medida em que ando. Não é mais o silêncio mais que me incomoda – é a solidão repentina que me deixou apavorada e sem motivo para cuidar dos cabelos.
Nem mesmo o tempo, que testemunhou a tudo e conhece bem as verdades, saberia explicar-me agora essa pausa. O tempo, o vento, as folhas secas e os meus cabelos despenteados – é o que há e não há outra coisa para te contar a não ser que procuro pelas pessoas.
Preciso encontrar alguém que me explique o que se passou enquanto eu dormia. Ontem foi um dia normal…
E numa clareira lá embaixo, avisto uma pequena multidão! As pessoas estavam vestidas de preto e de costas para mim, que estou de branco. Parecem assistir a um espetáculo com a atenção concentrada e no mais absoluto silêncio.
Me aproximei devagar. Fui me infiltrando e esbarrando nas pessoas para perceber se estavam realmente vivas – elas respiravam! Eu é que estava com a respiração por vezes suspensa.
Ao centro estavam dispostas em círculo algumas gaiolas abertas. Os pássaros assustados com a audiência, desaprenderam suas cantigas. E o vôo? Será que ainda saberiam voar?
Cheguei mais perto deles e, como por um encanto, saíram finalmente de suas gaiolas e tomaram o seu destino.
Imediatamente, todos olhamos para cima... e suspiramos aliviados. E, como parte de um mesmo bando, o vento e as aves circularam livremente por entre as árvores em rumo ao infinito, como se todo o céu de Lisboa lhes pertencesse.

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