Mostrar mensagens com a etiqueta Fátima d'Oliveira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Fátima d'Oliveira. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de junho de 2023

Maria Dulce (excerto) - FÁTIMA D'OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Como já era habitual, Maria Dulce sentia-se meio perdida e incompleta. Ela sempre tinha atribuído esse sentimento, essa… essa sensação ao desaparecimento precoce da mãe. Não devido à morte desta última, mas simplesmente porque ela tinha mesmo desaparecido: era o dia do sexto aniversario de Maria Dulce e ela estava a brincar com a boneca que tinha acabado de receber, quando ouve a mãe dizer “Já chega!” e vê-a sair porta fora. E foi assim: sem saber como nem porquê, Maria Dulce viu a sua mãe sair da sua vida e nunca mais lhe pôs a vista em cima. Infelizmente, esse dia tinha ficado gravado a ferro e fogo na sua memória e nas suas entranhas: Maria Dulce lembrava-se de cada momento daquele dia, até ao mais ínfimo pormenor: desde o vestido cor-de-ameixa da mãe, até ao seu perfume pautado pelo toque das flores de cerejeira.
Essa fuga para a frente sempre a tinha assombrado, inundando-a de uma culpa que quase a afogava. Maria Dulce sabia muito bem e tinha plena consciência de que essa culpa, propriamente dita, não lhe pertencia, mas a verdade é que a sentia: e por mais que tentasse sacudir esse malfadado fardo, era inútil: aquela era uma batalha logo perdida, à partida, pois mais que atropelada, era abafada, até esmagada pela tal culpa que, verdade verdadinha, não era dela, nem de perto nem de longe.

EM - EXPRESSÃO - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 20 de novembro de 2022

De luzes e sombras - FÁTIMA D'OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Bem escondida no meio de tudo e de todos, Belarmina ou Mina, como era conhecida, sentou-se no chão, cruzou as pernas e respirou fundo. Ali mesmo, em pleno areal ainda a borbulhar de gente que, preguiçosamente, iam adiando o regresso a casa, para, molemente, se irem deixando ficar. Naquela praia, meio perdida no meio de nenhures e meio achada pelo cada vez maior número de pessoas que teimavam em frequentá-la, Mina preparou-se, ou melhor, tentou preparar-se o mais possível para o espetáculo que se aproximava: um espetáculo feito de luzes e sombras, magistralmente acompanhado por uma orquestra feita de sussurros do mar, canto das gaivotas e assobios do vento.
Um espetáculo diário, mas que não era só um espetáculo: antes um poema, uma ode. Melhor, um hino, um verdadeiro hino à beleza, grandiosidade e simplicidade das melhores coisas da vida.
Um espetáculo descoberto por acaso, mas que se tinha transformado num autêntico ritual para Mina, assumindo proporções quase que… dominadoras.
Um mero pôr-do-sol, era disso que se tratava.
Já depois do astro rei se ter aconchegado nos seus lençóis de espuma e ainda com o céu com traços de laranja e violeta, Mina levantou-se, completamente extasiada pelo espetáculo a que acabara de assistir.
Olhou novamente para a tela imensa que se estendia à sua frente e suspirou. Amanhã, voltaria.

EM - SOMBRAS - TEMPOS DE ESCURIDÃO. TEMPOS DE LUZ - COLETÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Cú de Judas (excerto) - FÁTIMA D'OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Saibam mais do projecto Mulherio das Letras Portugal neste link
Conheçam a IN-FINITA neste link

Há um nome muito presente na minha vida, que por já mais que uma vez deu origem a situações algo… caricatas.
Cú de Judas.
É esse o nome da minha terra. Ou melhor, do sítio onde vivo. Que nem sequer merece ser chamado de povoação. É só um lugarejo, com meia dúzia de casas. Segundo ouvi dizer, quando chegou a altura de arranjarem um nome para aquele conjunto de casas, houve alguém que sugeriu o nome Cú de Judas, que normalmente até significa “no fim do mundo”. Apesar de não ser esse o caso – bem pelo contrário: o local, bastante aprazível, fica relativamente perto de um centro urbano, com praticamente tudo bastante à mão de semear –, o nome foi aprovado. Mas se a ideia era ser original, não conseguiram, pois como todos os moradores deste Cú de Judas bem o sabiam, existia outro Cú de Judas: ficava na freguesia de Água Retorta, concelho de Povoação, Ilha de S. Miguel, no arquipélago dos Açores.
Apesar de ter crescido no seio de uma família relativamente numerosa, rodeada de 4 irmãos (2 mais velhos – o Silvestre e o Serafim, e 2 mais novos – o Sebastião e o Santiago), a memória que eu tenho é que o meu crescimento foi algo solitário.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 16 de março de 2022

Yin-Yang (excerto) - FÁTIMA D'OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Mas sem provas ou testemunhas, a coisa ficou por ali e Ana Lis ficou assim: com a sua certeza. E sem a sua caneta.
Mas quem é que aquela cachopa, a Ana Lis, pensava que era?... Acusá-lo a ele – logo a ele, Dinis Maria Teixeira Mourato da Cunha – de roubo! Ainda por cima, duma caneta: uma mísera caneta. A simples noção desse roubo era indigna dele: rebaixava-o. E a isso, ele recusava-se. Terminantemente. Se bem que, a bem da verdade, ela não o tinha propriamente acusado de roubo: pelo menos, não com essas palavras. Mas tinha-o insinuado. E só esse simples facto parecia a Dinis um enorme atrevimento.
Ainda por cima, a tal caneta nem sequer o era, na verdadeira aceção da palavra: tratava-se, sim, de uma mera esferográfica. E de uma marca “rosc-fosc” patente qualquer, ainda por cima – se fosse uma Montblanc, ainda vá que não vá, agora de uma marca qualquer que não interessava nem ao Menino Jesus…
Mas verdade seja dita e aí Dinis tinha que dar a mão à palmatória, ele até que se tinha a modos que posto a jeito: tinham sido as suas ações que tinham conduzido Ana Lis às suas conclusões e convicções: se não fosse a sua constante e persistente– atrever-se-ia a dizê-lo? – bajulação à caneta – aliás, que se fosse com calma: caneta, não: esferográfica, se faz favor. Então, impunha-se dizer as coisas como elas eram e chamá-las pelos respetivos nomes! – dela, aí se calhar já outro galo cantaria e provavelmente a ideia de Ana Lis já seria outra… Mas Dinis não o fazia por mal: ele realmente achava piada à esferográfica de Ana Lis. Então, elogiava-a. Constantemente, até demasiado, ele agora era forçado a concluir.

EM - ECOS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA 

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Yin-Yang (excerto) - FÁTIMA D'OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Já tinha sido há uma série de anos, mas aquela história não lhe saía da cabeça: atormentava-a. Mais do que isso, assombrava-a.
Recuou, na sua mente, até quando ainda era estudante e mais uma vez reviveu aquele episódio… Ele tinha-lhe roubado a caneta, a sua muito estimada caneta, Ana Lis sabia-o, tinha mesmo a certeza. Absoluta, sintética, analítica e mais que fosse. Mas Dinis negava que tinha qualquer coisa a ver com o desaparecimento da caneta. Veementemente.
A caneta, preta e amarela, até tinha algum valor monetário, mas, mais do que isso, tinha muito valor sentimental.
Porque aquela tinha sido uma das poucas vezes em que os pais tinham aceitado pagar, gastar dinheiro, só porque sim. Não que a sua família fosse daquelas considerada, ainda que em tom depreciativo, pobretanas ou remediada: antes poupada. A Ana Lis, sempre lhe tinha sido incutido o valor do dinheiro: o mesmo não caía do céu nem nascia nas árvores. Por isso, ela tinha ficado agradavelmente surpreendida quando os pais de propuseram a oferecer-lhe a caneta que tanto desejava. E Dinis já tinha demonstrado, por mais do que uma vez até, um gosto quase que excessivo pela sua caneta: mais do que admirá-la, cortejava-a descaradamente. Se isso, por um lado, incomodava-a, pelo outro, lisonjeava-a. Afinal, mais do que pertencer ao grupo de meninos bem, Dinis era parte integrante do grupo dos fixes.
Quando Ana Lis tinha dado pelo desaparecimento da caneta, imediatamente perguntou a Dinis se por acaso tinha visto a sua caneta, pois não só era ele que se encontrava mais perto, como ela sabia que a tinha tido na sua posse até há bem pouco tempo. Também imediatamente Dinis negou qualquer responsabilidade.
Mas o que convenceu Ana Lis da culpabilidade de Dinis, foi a forma como ele respondeu: com desdém e arrogância. Até soberba.

EM - ECOS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA 

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Crónica de um fim talvez anunciado - FÁTIMA D'OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Conheçam a IN-FINITA neste link

Finito.

E foi assim, com uma simples palavra, que sentenciaste a nossa ainda breve história, que nos sentenciaste. De repente, sem mais nem menos e sem dizer água vai, simplesmente chegaste ao pé de mim e disseste-me… aquilo… e ala moço que se faz tarde: nunca mais te pus a vista em cima. Foste embora e saíste da minha vida. Fugiste. De mim, de ti, de nós.

Confesso que na altura me apanhaste completamente de surpresa e que fiquei sem pinga de sangue quando me disseste aquilo friamente, que tinha acabado, numa voz tão gélida que tiveste o condão de arrefecer até abaixo de zero o ambiente à nossa volta e, em consequência disso, o meu sangue enregelar nas veias.

Mas para ser completamente sincera, tenho que aqui esclarecer que a minha surpresa já anunciada, não deveria ser assim tão… surpreendente. Tu não só já me tinhas deixado pistas, como até já me tinhas tentado dizer que a nossa suposta perfeição não era assim tão… perfeita. Era até muito falível… Eu é que escolhi não ver. Preferi enterrar a cabeça na areia e continuar a acreditar em arcos-íris e unicórnios e a tentar convencer-me de, do que eu já sabia bem no mais fundo de mim ser verdade, não ser bem assim. Pode-se dizer que tive medo. Tive medo e deixei-me dominar pelo mesmo. Recusei-me a ver o que estava mesmo à frente do meu nariz e optei antes por uma alegre e abençoada cegueira. Mais do que isso, uma voluntária ignorância. Na altura não percebi, mas eu estava a fazer uma escolha, a MINHA escolha. E com isso, também estava a escolher as minhas consequências: tudo o que daí pudesse advir. Para o bem e para o mal.

Quer dizer, quando eu fiz a minha escolha, é claro que eu não estava a escolher este fim. Mas estava a acolher essa possibilidade, não sei se me faço entender… Não é o que eu queria, longe disso – conscientemente, quem, no seu mais perfeito juízo, escolheria a tristeza e o sofrimento?... E eu digo: ninguém. Mas eu sabia, mesmo sem querer saber, que isso podia acontecer. Pois bem, aconteceu.

E eu não posso culpar ninguém por isso. Ou melhor, poder, até posso: eu. Afinal, fui eu quem não viu, ou melhor dizendo, não quis ver. E agora?... Agora, olha, agora só me resta carpir as minhas mágoas e esperar pela bonança, depois da tempestade. Sempre ouvi dizer «Quem está mal, muda-se». Tu decidiste que estavas mal, mudaste e mudaste-te. E contra factos, não há argumentos. É como disseste: finito.

EM - VERSO & PROSA - COLECTÃNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Em carne viva - FÁTIMA D'OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Conheçam a IN-FINITA neste link

Foram estas as tuas exatas palavras: queres casar comigo?
E foi assim, com três simples palavras em forma de questão, que viraste todo o meu mundo do avesso; que me abriste uma ferida, que pulsa e lateja.
Aconteceu de repente, sem menos nem mais e quando nada o fazia prever: fomos para o terraço para tentar fugir da opacidade que teimava em transformar a nossa existência ainda mais baça e da azáfama e lufa-lufa diária, assim como do irritante e incessante ruído de fundo que ameaçava transformar-se na banda sonora das nossas vidas e estávamos muito quietinhos a observar as estrelas, envolvidos pelo abraço terno da noite e acariciados pela brisa suave e fresca que corria solta e livremente, quando... aquilo aconteceu, quando a tua malfadada espontaneidade tomou conta de ti e tu, muito pura e simplesmente, te deixaste ir.
E o que é pior... quer dizer, pior não sei: mas irónico, sim – com toda a certeza. Bom, seja como seja O que eu sei, e sei-o no mais íntimo e profundo de mim, sinto-o marcado a ferro e fogo nas minhas entranhas, é que a tua pergunta foi, se calhar, extemporânea. Porque tu não me amas: nem sequer estás apaixonado por mim. Então, porque raio queres casar comigo?... E permite-me responder: tu não queres. Tu apenas... entusiasmaste-te. Eu explico: quando estávamos no terraço, alguém tinha uma janela aberta e podia ouvir-se, a altos berros, a voz quente e insinuante do John Legend a cantar “All of me”. Embalado pelas palavras doces de mel e canela, fizeste-me a tal pergunta. Curiosamente, toda esta nossa situação, este belo berbicacho onde nos encontramos, também me lembra uma canção, mas não é “All of me”: é antes “I’m not in love”, dos 10CC. Conheces? Assenta que nem uma luva neste... neste... neste imbróglio que tu e só tu te atreveste a criar.
Mas o que magoa mais e rói e remói bem no fundo cá dentro, é a quase certeza absoluta, mas absolutíssima mesmo, absolutérrima, de que tu, assim que proferistes aquelas palavras agora malditas, te apercebeste do tamanho do erro, da enormidade do que tinhas acabado de fazer. E tu, em vez de o assumires e reconheceres o engano, como que te encolheste e ficaste muito quietinho no teu canto. Não sei se por alguma noção ridícula e ultrapassada de cavalheirismo, se por orgulho, se por cobardia, não quiseste dar o dito por não dito. E isso doi, sabias?... Doi muito, doi até demais. Porque mais valia arrogares o teu momentâneo lapso de discernimento e consequente deslize de língua, e arcares com as consequências do teu equívoco, responsabilizando-te assim pelo sucedido. Mas não: mais do que fazeres absolutamente… nada, tu na verdade... paralisaste. E chega a ser doloroso, sabes? Mais do que ver o desespero perfeitamente espelhado no teu olhar, observar a aflição completamente escarrapachada no teu rosto, chega ser cómico. Sarcasticamente falando, é claro. Porque tu transbordas medo. E dúvida. Até pode ser que involuntariamente, mas a verdade é que me estendeste uma passadeira vermelha e convidaste-me a ser a má da fita desta nossa história. Mais do que isso, rogaste-me. Suplicaste-me.
E agora? O que é que eu faço? O que é que tu achas que eu devo fazer?... Ser aquela pessoa adulta, segura e madura que ambos merecemos e ser racional, ter os pés bem assentes na terra e assumir, de uma vez por todas, este papel de bruxa má da nossa história que à força tanto tentas enfiar por mim abaixo? Ou então, seguir a tua deixa, não fazer absolutamente nada e abandonar-me ao sabor da maré para, por um lado, castigar a tua precipitação tão completamente fora de tempo, incapacidade de reconhecer isso mesmo e a tua recusa em não deixar cair o ônus da responsabilidade quando o devias ter agarrado com unhas e dentes e, por outro, condenarmo-nos a alguns possíveis infortúnios, amargos de boca e malas-ventura?... O que achas?... Fecho a ferida de uma vez por todas e coloco um ponto final neste nosso parágrafo, ou deixo-a aberta e que seja o que nós quisermos, com um ponto de interrogação e reticências?... Sim? Não?... Sim? Sopas?... Diz-me!...

EM - MULHERES A UMA SÓ VOZ - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Entre o antes e o depois - FÁTIMA D'OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Saibam mais do projecto Mulherio das Letras Portugal neste link
Conheçam a IN-FINITA neste link

O livro preferido da sua mãe era “Mulherzinhas” (“Little women”) de Louisa May Alcott e a personagem desse livro que a sua mãe mais apreciava era Josephine, a Jo. Como tal, o seu nome era Josefina. Mas todos a conheciam por Jôjô.
Naquela noite de passagem de ano, Jôjô não estava com vontade nenhuma de celebrar. O ano que findava tinha sido malfadado, o ano em que tudo tinha mudado: o ano da pandemia. Quem diria que uma coisa tão ínfima – o vírus –, seria capaz de tais avarias, danos e estragos? E o ano que aí vinha não se adivinhava melhor. Pelo menos, no que a Jôjô dizia respeito. Para onde quer que se virasse, só via pessoas a desejarem, a esperarem e a suspirarem pelo fim da pandemia. Mais a mais agora, com o aparecimento das várias vacinas, havia muito boa gente a pensar que isto da pandemia agora não passava de favas contadas e a atirarem pela janela todas as medidas de segurança estabelecidas pelas autoridades de saúde. Mas Jôjô não pensava assim. Pois ela tinha consciência de que até as vacinas fazerem qualquer tipo de efeito, de que até o efeito das mesmas se começassem a fazer notar, ia demorar muito tempo: o processo ia ser longo. E sinuoso. Portanto, o melhor para todos seria continuar a cumprir as regras de segurança estabelecidas pelas autoridades de saúde. Pelo menos, até se alcançar a tão desejada imunidade de grupo. Ou então, até o vírus de tornar parte do ambiente que nos rodeia. E de nada valia a pena esperar que as coisas voltassem a ser com dantes, pois isso não ia acontecer: tudo tinha mudado. Definitivamente. E quanto mais depressa as pessoas se começassem a habituar à ideia, melhor seria. Para todos.
Veio à memória de Jôjô uma frase de Giuseppe Lampedusa[1]: “É preciso que tudo mude para que tudo se mantenha.” Pois… Mas agora as coisas não podiam ser bem assim… Era preciso que tudo mudasse, sim, mas nada se iria poder manter. Não que esse facto perturbasse muito Jôjô. Ela sabia que o chamado distanciamento social afetava muito boa gente. Mas a ela… não lhe fazia grande espécie. Beijos e abraços… passava bem sem eles. Nunca tinha sido uma pessoa... não, afetiva não era a palavra… afetuosa, talvez. Jôjô podia ser uma pessoa de muitos e profundos afetos, agora de demonstrações... nem por isso. Nunca sabia o que fazer ou dizer e então, não fazia nada: ficava muda e queda. Sempre. Para não meter os pés pelas mãos e meter a pata na poça.
Jôjô também se lembrou de um filme de 2014: “Kingsman – Serviços Secretos”, realizado por Matthew Vaughn e com Colin Firth, Michael Caine, Mark Strong e Samuel L. Jackson. A primeira vez que o tinha visto tinha-o achado bom entretenimento. Mas agora, à luz dos acontecimentos mais recentes, achava-o estranhamente… profético: o vírus SARS-CoV-2, ou lá como é que se chamava o vírus que estava na origem da COVID-19, era a resposta do planeta, que estava a efetuar uma purga.
Ao mesmo tempo, Jôjô achava a doença, a COVID-19, embora transversal, horizontal, vertical e até diagonalmente, extremamente injusta. Porque parecia sempre que pagava o justo pelo pecador. Parecia sempre que era quem tinha menos culpas no cartório, que quem mais levava por tabela, pois a triste verdade era que quem mais merecia apanhar um valente susto, infelizmente também era quem tinha mais acesso aos melhores cuidados de saúde. Por mais injusto que isso fosse ou parecesse. E isso era mesmo, mesmo, MESMO muito injusto: imensa, extrema e tremendamente injusto.
Com o olhar pousado no écran da televisão ligada, mas sem realmente ver o que quer que estava a dar, Jôjô lembrou-se de Brigite, uma residente na casa de cuidados continuados onde trabalhava e que padecia de uma doença considerada rara e com um nome demasiado estranho. Apesar de estar já total e completamente dependente de terceiros para o que quer que fosse devido à progressão implacável da sua doença, Brigite continuava extremamente lúcida e dona de uma mente incomensuravelmente arguta e perspicaz, assim como possuidora de um sentido de humor muito peculiar e sarcástico, acutilante, muitas vezes desarmante. E veio à memória de Jôjô um desabafo amargo de Brigite: que tinha ouvido num noticiário qualquer, em relação à vacina para a COVID-19, que se tinha conseguido condensar 10 anos de investigação em 10 meses. Ora, Brigite tinha plena consciência de que 10 anos era normalmente o período de tempo que separava a descoberta de um novo fármaco e a sua chegada efetiva às farmácias; também percebia que a COVID-19 era uma urgência a nível mundial; mas bolas... 10 anos em 10 meses?... Então e as outras doenças?... Não interessavam?... Era como se as farmacêuticas não vissem com bons olhos o desenvolvimento de certos produtos, nomeadamente de medicamentos que curassem, por não serem rentáveis: era muito mais proveitoso responder aos quês do que aos porquês e lucrativo tratar os efeitos do que as causas. Perante este discurso desencantado de Brigite, Jôjô ficou sem saber o que dizer e apenas acenou tristemente com a cabeça.
Mas agora, nesta noite de passagem de ano, parada a olhar para o écran ligado da televisão ainda que sem realmente o ver e perdida em si e nos seus pensamentos, Jôjô não conseguiu evitar-se sentir entalada entre dois mundos, duas realidades: o que tinha havido e sido, e o que tinha de haver e ser. Entre o antes e o depois. Suspirou e apesar de ainda não ser meia-noite e como não tinha a mínima vontade de celebrar o que quer que fosse e muito menos a entrada no novo ano – ao contrário da grande maioria, Jôjô não tinha grandes expectativas para o ano que se avizinhava: vislumbrava-o antes como uma incógnita: um gigantesco ponto de interrogação –, foi-se deitar.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Faz-se tarde - FÁTIMA D'OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Saibam mais do projecto Mulherio das Letras Portugal neste link
Conheçam a IN-FINITA neste link

O que primeiro as uniu foi a singularidade dos seus nomes: Maria Goretti e Maria de La Salette. Enquanto que uma tinha um nome de origem italiana (1), a outra tinha um nome de origem francesa (2). Apesar de virem de sítios diferentes, de moverem-se em círculos completamente opostos e de morarem em partes distintas da mesma cidade, a atracção, aliada a uma irresistível curiosidade, era por demais evidente.
Estudavam em escolas que não podiam ser mais diferentes – enquanto que uma frequentava um colégio privado, a outra andava numa escola pública –, mas no âmbito de um programa inter-escolas que visava o conhecimento para além das diferenças, assim como a sensibilização para a realidade de cada um, conheceram-se numa mesma visita de estudo: assistir a uma peça de teatro, “Bem está o que bem acaba” de William Shakespeare. Depois do espetáculo havia um debate sobre o que tinham acabado de ver, moderado pelos professores que os acompanhavam, com todos os participantes em pé de igualdade e onde cada um podia dizer de sua justiça. Apesar da má-vontade e ainda que contrariados – ninguém, entre os alunos, via aquela história do debate com bons olhos: não gostavam da ideia de misturas e não achavam graça à ideia do convívio, ainda que forçado, com, por um lado, a ralé e, pelo outro, com um bando de meninos queques e copinhos de leite –, o debate revelou-se uma agradável surpresa, recheado de ideias e pontos de vista interessantes, suportados por argumentos válidos, quer dum lado, quer do outro. No debate, para uma melhor e mais rápido reconhecimento de cada um, todos estavam identificados com uma etiqueta com o nome. E foi assim que cada uma reparou na outra. Maria Goretti e Maria de La Salette. E foi também ali mesmo que se assistiu ao nascimento de uma improvável aliança, para além da compreensão de quem as rodeava.
“Mas vocês não têm nada a ver uma com a outra”, era a frase mais ouvida, quer dum lado, quer do outro, seguida de “Tu não pertences ao mundo dela”. A todos esses comentários e mais algum, fizeram questão de fazer orelhas moucas e ouvidos de mercador. A vontade de se descobrirem uma à outra crescia a olhos vistos: havia uma pressa premente, uma urgência absoluta de mergulharem uma na outra e de encontrarem a verdade de cada uma. De se perderem mutuamente e se acharem juntas. Unas. Não o sabiam pôr em palavras: apenas sentiam que o tinham que fazer antes que fosse tarde demais. Porque sabiam que se estava fazer tarde.
Porquê e para quê, não o sabiam.
Mas sabiam que se fazia tarde.


1 Maria Teresa Goretti (n. 16/10/1890, m. 06/07/1902) – jovem católica italiana assassinada aos 11 anos, venerada como santa e mártir
2 La Salette, nos Alpes Franceses – montanha onde a Virgem apareceu a duas crianças, a 19/09/1846

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA