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terça-feira, 4 de julho de 2023

Augusta (excerto) - ROSALINA VAQUEIRO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Augusta tinha namorados, um em cada esquina. Dava trela a uns e a outros, porque era alegre, moça nova e sabia que os homens a olhavam com ar cobiçador. Gostava de brincar, divertir-se. Ora, se não for agora quando será? Quando for velha e caquética?
Ti Felisbela cascava nela dia sim, dia sim.
– Tem tento nessa cabeça estovada, rapariga, qu assim na vais a arranjar marido. Passas das mãos dum pas mãos doutro, opois ninhum te quer! Inda cais na má vida qu eu bem vejo o que acontece cas outras. Poe os olhos na filha da ti Rosa do Profiro da ófecina. Aquilo era uma mocetona tã bunita qu’inté é uma dor d’alma andar prai a perder-se nas esquinas nessas noites da cidade.
Mas um coração vadio também bate e o de Augusta tinha um segredo – Artur, esse marinheiro musculado, curtido e bronzeado por dias de mar, com uma lábia de enrolar a todas, derretia aquele coração vadio. Um abraço de Artur e o chão fugia, a terra girava, o mundo desaparecia. Só ele tinha aquele sussurrar aos ouvidos, enquanto roçava a barba ruiva na cara corada dela e o seu nome dito daquele jeito que mais nenhum sabia dizer, naquela voz quente de bagaço e tabaco:
– Agusta, Agusta…. Tu és só minha, nha Agusta.

EM - EXPRESSÃO - COLETÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 28 de março de 2022

Vai rolar um tête-a-tête (excerto) - ROSALINA VAQUEIRO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Todos os anos a Sociedade Musical realiza uma soirée dançante para comemorar o seu aniversário. Como mandam as boas normas, para comemorar o cinquentenário, as festividades precisam de estar á altura da data que se assinala. Assim, a Sociedade Musical toda se aprimorou para o jantar dançante em traje de gala, esperando ver desfilar as beldades bronzeadas desse Verão magnífico.
Jaime, estudante de engenharia em férias, o rei da praia, escultural, bronzeado, parte corações com o seu olhar profundo à galã da tela. Alfredo, seu companheiro de noitadas e aventuras, agora um pouco mais discreto, desde que começou a namorar uma “deusa” que conheceu na praia.
– Bom, vamos lá ver se é hoje que ficas finalmente a conhecer a Ana.
– Espero bem que sim. Andas pr’aí com deusas escondidas! Isso não se faz a um amigo do peito! Não tá certo D. Juan!
– Olha quem fala! O D. Juan aqui és tu, que arrasas tudo o que é beldade com esse olhar á 007!
– OK, oK, touché. Ó pá, Alfredo, tu não calculas a Pokahontas que eu encontrei hoje! Xi… pá …aquilo é que é coisa de virar a cabeça a um gajo! Um homem está na sua, ‘tas me ver? Tranquilamente, a adorar o deus Rá e a deliciar-se com o desfile de Cleopatras a testar a temperatura da água com os pezinhos delicados e de repente, zás! Saí-te das excelsas ondas uma Nefreteti escultural, cor de chocolate, que dá um apagão nas outras e um gajo pá, fica preso na Pokahontas e já não enxerga mai’ nada! Qual barbies qual quê. Ela foca-me com uns olhos grandes e profundos, despe-me até á alma e depois some-se! some-se mano! E eu fico a mendigar até agora… – Caramba menino! É de loucos!

EM - ECOS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA 

sábado, 26 de fevereiro de 2022

O quadro - ROSALINA VAQUEIRO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A conselho dos pais, fugira de um futuro incerto, com o jovem estudante de belas-artes, para uma vida estável, ao lado do promissor colega do pai, dez anos mais velho, que lhe deitava olhares cobiçadores, nas sardinhadas de verão. A paixão gritava-lhe pelas aguarelas do artista, pelos olhos esverdeados, como as sonhadoras paisagens da tela, que lhe transmitiam sonhos de pureza. A seu lado sentia-se Pietá,
Vénus de Milo.
- Isso são fantasias da adolescência. A menina não tem a noção do que poderá sofrer ao lado desse pobretanas. Com o Vítor terá um futuro assegurado. Ele tem uma carreira promissora no hospital. Pode até chegar a director.
Um dia, estava vestida de branco, numa cerimónia cheia de convidados escolhidos pela mãe, com um noivo escolhido pela mãe. Com o tempo perdera de vista as telas, o pintor, os anos, a vida, até o futuro director de hospital, a quem não suportara mais do que uns magros anos de insípida convivência.
Acabara responsável pela galeria de arte de uma amiga. Afinal, rodeada de quadros, que a faziam lembrar a adolescência, mas nenhum como aquele em que ele a pintara sentada sob uma árvore, a ler um livro, de saia rodada e chapéu largo de palhinha, bicicleta encostada, num campo repleto de malmequeres brancos. A amiga pedira-lhe para licitar duas obras, para a galeria. Sentada na sala do leilão, esquecera por um momento, as pessoas que entravam, alguém que se sentara ao seu lado. Divagava ainda, quando viu o quadro. Não é possível! Uma paisagem doce num campo de malmequeres! Deu um salto na cadeira. Ninguém poderia levar aquele quadro! Aquele não! Por favor! Aquele não! Não ouvia os números. Levantou o braço, toda a sua alma se ergueu e licitou o quadro. O martelo bateu e só depois se apercebeu da exorbitante quantia. Que fiz eu? E o que iria dizer à amiga? Aflita, queria anular a licitação. Alguém, em quem não reparara bem, mas que não lhe parecera completamente estranho, licitou o quadro, pagou o valor e mandou que lho entregassem. Quis saber quem era o homem do gesto estranhamente nobre, que saíra da sala. Ficou petrificada com a resposta: O único que poderia fazê-lo com facilidade – o autor.

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quarta-feira, 13 de outubro de 2021

O castigo - ROSALINA VAQUEIRO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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É hora do regresso da escola. Joelho esfolado, sacola de pano à tiracolo, boné atravessado, calção sujo das brincadeiras, saltitando, pontapé aqui outro ali no cascalho, nos galhos, nas pedritas da serra, Dérito entra em casa assobiando uma modinha.
– “Alfarenhêros, méquinhos e cães de caça é tudo a mêma raça”
Cumpre a saudação habitual, beijando a mão da mãe
– “Sua bênção nhôra nhã mãe”
– “Deus t’abençoe mê filho. Óh rapazito duma figa mãs adonde é que ouvistes atão essa moda?”
– “Ara, ouvi da escola, adonde haverá de sere?”
De enxada ao ombro, o pai regressa da horta com couves para a janta
– “Tu toma tento, rapaz, olha ca mestra s’ouve lá isso põ-te de castigo”.
– “Ê cá ca m’ importa!”
– “Anda daí mais eu botar serralhas e couves à criação - ós coelhos e às galinhas”
Dérito sai pelo carreiro enlameado em direção às capoeiras em passadas largas imitando um” andar à home”, como o pai, homem novo, escorreito e desempenado.
– Ara atão dize lá qu ‘é lá isso de não te amofinares cos castigos da mestra. Nunca tal vi”
– “É ca mestra bota a gente de castigo pra baixo da scretára. Um home fica ali caladito e sem bulir”.
– “ Pois ...atão! É castigo! Mas que tem lá isso? A modes que na tou t’apercebere...
– “Ah, nhôr mê pai, mais atão na tá pus olhos adentro d’um homem? Um home quedo, sim botar falação cum vivalma, interte-se cum o quê? Ara, a olhar pás pernas da D. Ernestina pois atão! Ela é cá cada uma! Gordas qu’inté parece uma bacorita!!!
De alguidar no avental, migando as couves para o caldo da janta, a mãe viera espreitar a conversa dos “homens”. Olhando enternecida os seus dois amores, murmura de si para si, com um sorriso de orgulho e enlevo:
– “Rais parta ó rapaz! Sai à cepa, o danado!”

 EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA