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sábado, 2 de janeiro de 2021

MARIA DE FÁTIMA BERENICE DA CRUZ FALA DE... CANGALHA DO VENTO de LUIZ EUDES

Às vezes o melhor que podemos fazer por um livro, e respectivo autor, é dar a conhecer a primeira impressão. Assim sendo, aqui fica o texto que Maria de Fátima Berenice da Cruz escreveu para o livro CANGALHA DO VENTO, de Luiz Eudes.

A RELAÇÃO PSICOAFETIVA DO LEITOR NO ATO DA LEITURA: UM OLHAR SOBRE CANGALHA DO VENTO

THE PSYCHOAFFECTIVE RELATIONSHIP OF THE READER IN THE ACT OF READING: A LOOK OVER CANGALHA DO VENTO

Maria de Fátima Berenice da Cruz[1]

RESUMO: O presente artigo tem por objetivo analisar a existência discursiva de três personagens masculinos da obra Cangalha do vento para detectar nos interstícios do texto como a hegemonia do discurso patriarcal, gerador da ideia de um corpo masculino forte e dominante se faz presente. Para isso, utilizamos como recurso metodológico a análise do discurso na perspectiva da teoria crítica e como base teórica os estudos sobre masculinidades, corpos dominantes, docilização do corpo e a noção de conserva cultural. Para consecução dessa análise, percorreremos de forma panorâmica os estudos de Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Durval Muniz com uma breve incursão no conceito de conserva cultural de Jacob Levi Moreno.

PALAVRAS-CHAVE: Masculinidade, dominador, dominado

ABSTRACT: This article aims to analyze the discursive existence of three male characters from the work Cangalha do vento to detect in the interstices of the text as the hegemony of patriarchal discourse, generating the idea of a strong and dominant male body is present. For this, we used as methodological resource the analysis of discourse from the perspective of critical theory and as theoretical basis the studies on masculinities, dominant bodies, docilization of the body and the notion of cultural conservation. To achieve this analysis, we will walk in a panoramic way the studies of Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Durval Muniz with a brief incursion into the concept of cultural preserve of Jacob Levi Moreno.

KEYWORDS: Masculinity, dominating, dominated

Marielle Macé ao tratar da relação entre a literatura e a vida nos diz o seguinte: “É na vida ordinária que as obras se sustentam, deixam suas marcas e exercem sua força. Não há de um lado a literatura e do outro a vida; Pelo contrário, há na vida em si, formas, ímpetos, imagens e estilos que circulam entre os sujeitos e as obras, que os expõem, os animam, os afetam”. (2011, p. 9-10). As palavras de Macé nos remete ao domínio da relação afetiva que o leitor exerce com a leitura da obra literária. Quando falo de afeto amplio o sentido desta palavra a todo e qualquer sentimento e reação que seja tomado o leitor no instante da leitura. Roland Barthes (1987, p.12) nos diz que a gestação do texto é realizada no pacto do prazer. E esse prazer se realiza no paraíso das palavras, onde dialogam signos, adjetivos, rupturas, frases e miragens de objetos que eles representam. Dito isto, percebemos que a obra literária só tem vida e ação quando tomada pelos olhos e sentimentos do sujeito leitor.

Por essa razão, para iniciar uma reflexão teórico-crítica sobre a obra Cangalha do vento (2019) do escritor Luiz Eudes foi preciso investir primeiramente num aporte psicoafetivo para que a obra pudesse ganhar vida e ação. A leitura reflexiva de uma obra exige do sujeito leitor um recorte temático de análise em virtude das inúmeras possibilidades de leitura que ela nos oferece. Em vista disso, optei por analisar o aspecto da masculinidade presente na obra Cangalha do vento (2019). Certamente que outros leitores encontrarão diversas outras faces de leitura; mas nesse momento me interessa perceber de que forma é construído o conceito de macho no tecido narrativo da obra. Em vista disso, farei uma leitura desenvolta, cínica, pois fortemente comprometida com o afeto.

O objetivo de análise desse artigo é percorrer a existência discursiva de três personagens da obra Cangalha do vento, a saber: Aristeu, José Paulo e Fernando com o intuito de pensar como o autor contemporâneo lida com a hegemonia do discurso patriarcal, gerador da ideia de um corpo masculino forte e dominante. Para isso, utilizamos como recurso metodológico a análise do discurso na perspectiva da teoria crítica e como base teórica os estudos sobre masculinidades, corpos dominantes, docilização do corpo e a noção de conserva cultural. Para consecução dessa análise, percorreremos de forma panorâmica os estudos de Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Durval Muniz com uma breve incursão no conceito de conserva cultural de Jacob Levi Moreno.

Antes de iniciar uma apreciação sobre essas figuras masculinas que protagonizam a obra Cangalha do vento, faremos uma breve apresentação desses homens. Aristeu, patriarca da família, sai de casa aos quinze anos de idade em decorrência de contínuos maltratos desferidos por seu pai. Com a ajuda da irmã que lhe preparou uma mala contendo utensílios necessários para jornada, Aristeu viveu quinze anos trabalhando na extração de látex na floresta amazônica. Decorridos os quinze anos de trabalho pesado, Aristeu segue para outro seringal e se torna vítima de um criminoso acidente provocado pela companhia de navegação para receber indevidamente o seguro. A despeito do projeto criminoso, Aristeu consegue se salvar e ainda salva três figurões da sociedade amazonense. Como recompensa Aristeu tem o seu retorno garantido para terra natal.

Ao chegar, inicia namoro com sua prima Tereza e em virtude do compromisso assumido, resolve mais uma vez colocar o pé na estrada em busca de melhor condição de vida. Dessa vez Aristeu vai trabalhar como tropeiro nas fazendas de cacau do sul da Bahia. Após dez anos, ao fazer uma viagem acompanhando um carregamento de cacau para Salvador, o navio encalha e afunda. Bafejado pela sorte, Aristeu mais uma vez sobrevive ao naufrágio e retorna à Baixa Funda onde vem a se casar com 44 anos com a sua Tereza de “tranquilidade mórbida” (p.22). O casal forma uma família com dez filhos, vindo Tereza a falecer no último parto.

O segundo personagem que faremos apreciação é o José Paulo, filho de Aristeu. Em decorrência de uma grande seca que assolou o Junco em 1961, José Paulo viaja para São Paulo com apenas 18 anos com poucos recursos e munido de muitas esperanças. A cidade lhe trouxe muitas dificuldades, mas um encontro com um político influente da capital paulista lhe rendeu um emprego na metalúrgica Serralgodão. O emprego oportunizou José Paulo a realizar o seu casamento com Maria e levá-la para São Paulo. Entretanto, no fim dos anos sessenta, com a tomada do poder pelos militares, a vida em São Paulo se torna impraticável, fazendo com que José Paulo retornasse com Maria grávida de Fernando para o Junco.

Fernando é o terceiro homem que protagoniza a obra Cangalha do vento. Sua representação na obra se constitui como a síntese das duas primeiras gerações masculinas da sua família com uma nova percepção sobre o ser masculino. A rudeza do avó e a perseverança destemida e solitária do pai, agora são transformadas por Fernando em vontade de saber. Comunga com Fernando a força da reflexão e em muitos momentos ele domina a narrativa e toma do autor a pena da escrita. E como nos diz Todorov (2006), “Que é uma personagem senão um determinante da ação?” Então, o personagem Fernando toma a narrativa para mostrar a sua sensibilidade frente às dores do mundo e com a liberdade de um pássaro-poeta, ele canta a sua terra sem medo de mostrar-se como macho pleno de sensibilidades.

Cangalha do vento permite ao leitor transitar do lastro de superfície linguística do texto para uma profundidade semântica promovida por uma leitura subjetiva. A imagem visiva[2] que o texto Cangalha do vento transmite constrói no leitor uma relação psicoafetiva com o texto porque a narrativa desses três homens serve de gatilho para pensar falas silenciadas, imagens invisibilizadas de mulheres companheiras e mães que estiveram nos bastidores das vidas desses personagens. Todavia, é perceptível que o apagamento dessas mulheres seja reflexos diretos da condição patriarcal perversa, pela qual foi construída a formulação do ser macho na vida desses personagens. Durval Muniz de Albuquerque Júnior em um belíssimo artigo intitulado “Máquina de fazer machos” sinaliza sobre a construção histórica e cultural do macho, dizendo:

Um macho não adoece, não tem fragilidades nem físicas, nem emocionais, frescuras. Um macho sempre sabe o que faz, aonde quer chegar e ai daquele que se colocar em seu caminho. Um macho é um ser competitivo, está sempre disputando com outros machos a posse das coisas e das pessoas (2010, p.22).

A descrição realizada por Durval Muniz revela o enrijecimento, a carapaça muscular, a ausência de afeto e de sensibilidade que compõe o universo masculino construído pela hegemonia patriarcal. Os homens de Cangalha do vento não seriam diferentes. Eles foram construídos para sofrer, trabalhar, amparar e se tornarem heróis da família. Todavia, ao rasgar a máscara da construção patriarcal, encontramos uns sujeitos frágeis, amorosos e com uma alma sofrida por ter escondido por toda uma vida a sensibilidade amorosa que neles habitava.

Desse modo, Luiz Eudes consegue magistralmente tecer um tapete linguístico com aparência simplória, mas com uma profundidade semântica invejável. As obras com aparente simplicidade discursiva escondem profundidade reflexiva. A velocidade com que são montados os quadros narrativos da obra, cria-se uma tela imagética de outras figurações não ditas, mas automaticamente sentidas. E como nos diz Umberto Eco (1979, p. 36) “um texto distingue-se, porém, de outros tipos de expressão por sua maior complexidade. E motivo principal da sua complexidade é justamente o fato de ser entremeado do não-dito”. E ele ainda ressalta que: “não há nada mais aberto que um texto fechado” (p.42). Então a leveza e simplicidade da escrita de Cangalha do vento transforma-a em leitura complexa e profunda. Essa profundidade é percebida no instante em que Cangalha do vento trapaceia o real dando-lhe o caráter ficcional.

A leitura dessa obra é para mim um exercício muito especial, pois ressuscita um contexto geográfico e afetivo vivido por mim durante toda infância e juventude. Reencontrar com o Junco, suas histórias e pessoas através da obra Cangalha do vento é perceber que a ficção e a realidade dançam juntas a ciranda da memória de uma leitora copartícipe da ação narrada por Luiz Eudes e tantas vezes narradas por meu pai na infância. Como não lembrar das famosas romarias da senhora Maria de Venança, das célebres missas do padre João Batista, do corpo franzino de Dom José Conélio, das fartas risadas do Dr. Linaldo e dos enfrentamentos políticos de Josias Cardoso na praça da Igreja de Nossa Senhora do Amparo. Esses e outros elementos acionam o gatilho da memória dessa leitora ao lembrar das narrativas familiares da infância, que por consequência, transformam esta obra num belíssimo texto recheado de lembranças, respeito e afeto. Por isso, passaremos agora a analisar a forma como a obra Cangalha do vento explora, atualiza e reatualiza a noção de corpo masculino, especificamente do sertanejo nordestino.

O CORPO MASCULINO: UMA CONSTRUÇÃO COMPLEXA

Cangalha do vento cria cuidadosamente para cada geração de homens um perfil de corpo.  O corpo do velho Aristeu carrega o peso da dor, a marca do sofrimento e um silenciamento do amor e da sensibilidade, mesmo quando sente amor ou dor. José Paulo por sua vez carrega a solidão e a luta de um menino que muito cedo conheceu a orfandade. Muito embora haja em José Paulo um comprometimento com o outro e um forte respeito para com a figura feminina. Fernando, representante da terceira geração, tem a sensibilidade de um sujeito leitor da vida. Isto posto, perguntamos: como ler os corpos desses homens?

Considerando que as masculinidades são corporificadas, logo, diferentes masculinidades são produzidas no mesmo contexto social. Daí a sua complexidade e contradição; visto que ela é mantida através de processos rudimentares de repressão. Cangalha do vento constrói e reconstrói as masculinidades do homem sertanejo partindo do princípio de que existe uma hegemonia de gênero traduzido ora pela força bruta, ora pela decisão silenciosa. Aristeu por exemplo é construído como um corpo maltratado, portanto desapegado de afetos. José Paulo, fruto desse desapego, aprende muito cedo a conviver com a dor e a solidão, produzindo uma personalidade masculina que subestima a energia, a felicidade, o riso e outras formas de vida que poderiam ser oferecidas à criança.

A obra nos faz refletir sobre a produção de masculinidades violentas no seio da cultura do homem. É necessário esclarecer que ao falarmos de masculinidades violentas, não necessariamente referimo-nos ao emprego da força bruta.  Mas essa masculinidade violenta pode ser percebida através da violência simbólica de que nos fala Pierre Bourdieu (2002), para o qual é uma forma de violência exercida pelo corpo discursivo sem que haja coação física, mas com sérios danos morais e psicológicos ao sujeito dominado. A forma como Aristeu descreve suas aventuras na Amazônia denota claramente o seu desprezo violento pelo feminino e a sua masculinidade violenta insiste em elevar o seu heroísmo e, ao mesmo tempo, enfatizar a insignificância das mulheres com as quais se deitava.

A esse respeito Robert Connell[3] (1995) afirma que: “A forma hegemônica de masculinidade se dividiu entre formas que enfatizam o conhecimento especializado e formas que enfatizam a dominação e calculismo egocêntrico”. O perfil de Aristeu se aproxima da segunda concepção apresentada por Connell, visto que aos quinze anos ele foge da opressão paterna que concebia a educação masculina a partir do protocolo de castigos e maltratos. A fúria paterna deserta Aristeu e o conduz a um impiedoso destino errante, aproximando-o da postura de dominação violenta, como podemos perceber na descrição do narrador:

Viajou vários dias sem arrependimento. Teve o índio desconfiado como amigo, o ladrão de gado como colega de trabalho, o traficante de escravas brancas como seu chefe, o matador de aluguel como companheiro de farra e as coxas morenas das índias e das prostitutas como refúgio e consolo. (p. 18)

Em nenhum momento a mulher é vista por Aristeu como companheira, amiga, colega ou chefe. Esses atributos ele reserva para os homens. A mulher é concebida como lócus depositário de mágoas. Esse discurso revela que a masculinidade hegemônica se estabelece e se fortalece exatamente na produção de inferiorização do outro feminino. É por isso que as coxas das índias e das prostitutas representam o corpo coisificado e insignificante, deliberadamente alimentado pelo imaginário masculino de feição patriarcal.

Por esta razão, quando Aristeu “se engraça” da prima Tereza (observe que ele não se apaixona, isto porque paixão é sinônimo de enfraquecimento masculino), ela o espera durante dez anos com “tranquilidade mórbida” diante dos seus olhos de “homem duro”. O pacto inconscientemente firmado com a construção de uma masculinidade de estrutura objetiva e cognitiva, fruto de uma sociedade androcêntrica, é tão forte que o retorno de Aristeu ao labor errante é justificado por ter perdido todas suas economias, segundo ele, consumidas por índias e prostitutas do Amazonas. Se torna interessante o poder de reprodução do discurso patriarcal. Há uma vitimização do discurso masculino que se sente injustiçado por ter explorado sexualmente o corpo de mulheres. O silenciamento impetrado pelo macho a índias e prostitutas o beneficia com o induto da falência econômica. Esta representação social da personagem Aristeu, protege e conserva o discurso “falo-narcísico”[4] próprio do pensamento androcêntrico, como forma de eternizar a essencialidade masculina.

Assim, fazendo jus à imagem de homem duro, Aristeu não consegue externar a dor pela morte da esposa; e apenas engole uma saliva grossa. Segundo Muniz (2010) esse perfil remete-nos a valores que circulam em nossa sociedade e são elementos de nossas práticas e formas culturais. Isso nos leva à questão apresentada anteriormente: como é construído o corpo desse macho patriarcal? O corpo é apagado, negado, domado, enrijecido, receoso e desprovido de afetos que possa externar. Com sagacidade a obra Cangalha do vento denuncia esse corpo violento e empreende um projeto de reconstrução desse corpo masculino através dos descendentes de Aristeu. A obra não recupera o lugar de fala do corpo feminino. O feminino permanece em seu papel construído pela tradição colonial do ser sensível, erótica, móvel, insinuante e acima de tudo obediente. Entretanto, o texto vai aos poucos humanizando o corpo disciplinado, adestrado e controlador do macho, dando-lhe sensibilidade, afetos e sentimentos.

Para iniciar a reflexão sobre o homem José Paulo, não podemos esquecer a emblemática imagem do menino-homem responsável por trazer a parteira numa noite fria.

Era uma noite densa, de nuvens carregadas e ventos frios assoviavam na vegetação criando a sensação de assombrações que ali se revelavam. Aristeu implorava à parteira Salustiana, que fora trazida às pressas pelo filho pequeno, José Paulo. O menino observou a velha parteira que fuçava no meio de Dona Tereza com um pesar na expressão. (p. 25).

         Naquela noite, José Paulo menino assume a responsabilidade do homem que carregará a dor e a solidão como marcas do primeiro jugo (canga) da masculinidade. Quando adulto José Paulo “vivia em pensamentos, em conflitos que se dirigiam aos seus sentimentos recônditos. Embora tivesse convicção do que queria, um sentimento de estranheza o tomava” (p.27). É perceptível nesta citação que José Paulo traz inscrito no corpo as marcas de uma criação insólita, repressora e solitária. As suas lembranças se encontram com um “sentimento distante” (p.27) para quem o vazio e o anonimato protagonizam a sua existência.

É esse corpo construído como objeto que Michel Foucault (1987) vai chamar de “corpos dóceis”; visto que o seu padrão é de submissão ao adestramento de uma cultura familiar opressora que o manipula e o transforma em corpo utilizável. Em geral este tipo de instituição familiar é o agente principal que contribui para dominação por intermédio da adesão permitida pelo dominado. E como diz Bourdieu (2002, p.46) “os dominados aplicam categorias construídas do ponto de vista dos dominantes às relações de dominação, fazendo-as assim ser vistas como naturais”. Contudo, José Paulo tem consciência desse adestramento que lhe foi impingido pelo pai e, num momento de reflexão ele afirma que o pai “precisava de reformas” (p.28).

Há em José Paulo conservas culturais (MORENO, 1974) muito próprias do formato disciplinado de educação familiar recebida. Tudo nele causava-lhe medo, vigilância, fuga de transformações bruscas, conduzia a vida através de gestos articulados e programados, produzindo desse modo, sentidos duros sobre um cotidiano vigiado. Essas conservas, como nos diz Levi Moreno (1974), servia-lhe como “muletas” para fugir dos seus medos e temores. Por isso que ao encontrar o seu irmão que tinha um papel político engajado, isso causou-lhe angústia e receio da postura atuante do irmão que lutava contra um mundo rígido e sem alternativas.

Em meio a esse receio nasce Fernando, que chega como arauto do novo homem. Não obstante a formação nos princípios doutrinários do catolicismo, havia no jovem menino um sentimento de libertação dos grilhões da masculinidade originários das gerações passadas. Essa mudança de paradigma em Cangalha do vento recebe uns toques de primeira pessoa, com a novidade do uso da linguagem poética. Porém, mesmo com essa breve abertura no texto, o narrador se revela vigilante diante das investidas do personagem Fernando, evoluindo ambos para a construção de um homem vivo e sensível.

Cangalha do vento possui algo de lúdico e cênico e acumula linguagens variadas sob o filtro da consciência problemática do mundo masculino, tomando como ponto de partida uma pequena cidade do interior do Nordeste. A singularidade desse espaço geográfico reside no fato de que, repensar a masculinidade a partir dos conflitos humanos e psicológicos que o mundo agrário carrega é estabelecer uma relação do homem com a terra e com os seus sonhos. Desse ponto de vista, o narrador foi muito audaz ao construir personagens homens carregados de contradições em suas identidades sociais, tendo como pano de fundo o imaginário sagrado popular que põe em conflito a cristalizada dominação masculina versus a espontaneidade sensível do homem. Fernando, representante da terceira geração, fruto do êxodo compulsivo que fez seus descendentes tentarem a sorte fora do Junco, agora quer viver na terra dos seus pais. Diz o narrador:

Na verdade, Fernando era apaixonado pelo Junco. Sua terra, seu chão. No Junco sentia-se seguro, era o seu lugar. Pensava em jamais romper com as suas raízes. Não queria rescindir as barreiras. Queria casar e continuar a morar no Junco. Ter filhos e no Junco criá-los, como o seu pai e o seu avô. (p. 104)

Esse homem sensível que rompe com o pacto da dor, alimento de gerações anteriores, cumprirá o roteiro existencial, mas convergirá sempre o olhar para si e para manutenção de sua família; com um olhar valorativo especial para Cristiane sua esposa. Nesse momento o leitor consegue perceber o plural de vozes no discurso narrativo de Cangalha do vento, visto que os múltiplos contextos geográficos apresentados por Fernando revelam, como foi dito por ocasião do seu nascimento, a vontade de saber do menino-homem:

Viajava muito em busca de novidades e por todo o país: Rio de Janeiro, Espírito Santo e Goiás; pelas Minas Gerais; do Pará ao Maranhão, e São Paulo. [...] O que Fernando não conseguia entender era o porquê de em todos os lugares enxergar um rosto, sempre o mesmo rosto em todas as pessoas. (p. 107)  

Fernando viajava por todo lugar, mas um rosto lhe atraia de volta para o Junco. Era o rosto de Cristiane, rosto de mulher que representa a terra, a força e o amor. Podemos observar que o narrador, numa evolução da representação social do personagem Fernando, apresenta-o como um corpo liberado. Fernando agora passa a ser sujeito da própria história e conduz sua vida conforme valores e descoberta através do autoconhecimento e do conhecimento do outro. Essa experimentação infindável é o que constitui a construção da identidade de Fernando como homem sensível. E como nos diz Bauman (2001, p.92): “A satisfação e o prazer são sensações que não podem ser postas em termos abstratos: precisam ser subjetivamente experimentadas – vividas”. Por isso que Fernando se liberta das dores, porque para ele foi preciso abandonar as narrativas cristalizadas e transformá-las em ato criativo da renovação.

Em suma, observamos que a rudeza dominante de Aristeu gerou a insegurança de José Paulo, que por sua vez produziu a vontade de liberdade em Fernando. Se tomarmos como pressuposto os estudos de Levi Moreno para entender esse conflito de gerações masculinas, podemos perceber três figurações bem marcantes nesses três homens, a saber: em Aristeu vemos um processo contínuo de cristalizações de suas práticas sociais; em José Paulo percebemos a promoção da permanência de conservas culturais. E como representante da terceira geração, Fernando chega como o arauto da espontaneidade essência do ato criador e criativo.


REFERÊNCIAS

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Máquina de fazer machos: gênero e práticas culturais, desafios para o encontro das diferenças. In: MACHADO, Charliton José dos Santos; SANTIAGO, Idalina Maria Freitas Lima; NUNES, Maria Lúcia da Silva. Gênero e Práticas Culturais: desafios históricos e saberes interdisciplinares. Campina Grande: EDUEPB, 2010.

BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perpectiva, 1987.

BAUMAN, Zygmunt. Individualidade. In: Modernidade Líquida. Tradução: Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Tradução: Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

CONNELL, Robert W. Políticas da masculinidade. In: Educação e realidade. Jul-dez, 1995.

CRUZ, Maria de Fátima Berenice da. Por uma teoria da apropriação do texto literário. In: Leitura literária na escola: desafios e perspectivas de um leitor. Salvador: EDUNEB, 2012.

ECO, Umberto. O leitor-modelo. In: Lector in fabula. São Paulo: Perspectiva, 1979.

EUDES, Luiz. Cangalha do vento. Inhambupe: Conceito gráfica editora, 2019.

FOUCAULT, Michel. Os corpos dóceis. In: Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1987.

MACÉ, Marielle. Formas de ler, caminhos para ser, Gallimard, 2011.

MORENO, Jacob Levi. Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 1974. 

TODOROV, Tzvetan. Os Homens-Narrativas. In: As estruturas narrativas. São Paulo: Perspectiva, 2006.



[1] Professora Doutora da Universidade do Estado da Bahia, membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural, Líder do Grupo de pesquisa GEREL. Este texto é referente a parte da pesquisa do Estagio Pós-doutoral realizado no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFS na área de Estudos Literários, Linha de concentração Literatura e Recepção sob a supervisão do Prof. Dr. Carlos Magno Santos Gomes em cooperação com o Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural/UNEB.

E-mail. fatimaberenice@terra.com.br

[2] Sobre a noção de “Imagem visiva” ver: CRUZ, 2012, p.169.

[3] Robert Connell teve mudança de nome para Raewyn Connell, cientista social transexual conhecida internacionalmente.

[4] Cf. em Bourdieu 2002 a discussão sobre a eternização do arbitrário masculino.

 

sábado, 27 de junho de 2020

DEZ PERGUNTAS ASSESSORIA LITERÁRIA A... JACKMICHEL


Agradecemos ao duo JACKMICHEL pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Quantos livros publicados por JackMichel?  Como é feito o trabalho de criação e divulgação dos livros? 

A Escritora 2 em 1 tem 13 livros lançados ao longo de sua jovem carreira de 5 anos. Já a concepção da obra é submetida ao know-how técnico e criativo de ambas; e a divulgação se utiliza em geral do trabalho de assessoria/agenciamento literário, cuja atividade dá suporte à propaganda nos tempos de tecnologia da mídia.

2 - Como é trabalhar a quatro mãos? Como surgiu a ideia das irmãs escritoras?

Eu e Jack não escrevemos juntas. A concepção de uma obra é planeada por nós duas; já o critério utilizado para a elaboração da escrita se dá unindo posteriormente as cotas de texto; ou seja, às vezes Jack escreve a maior parte de um livro e separa trechos para eu preencher... outras, ela cria o título e eu componho a obra... de modo que, ao fim do trabalho, não se acham tais enxertos tão coesa é nossa estilística de expressão: uma mescla perfeita tal qual o queijo com a goiabada. O primeiro grupo da literatura mundial formado por duas escritoras surgiu por acaso. Quando eu, Michel, comecei rascunhar meus primeiros manuscritos, Jack minha irmã e parceira literária, já pegava na pena. Anos depois, haja vista termos acumulado muito material escrito, decidimos unir os calhamaços; e criamos JackMichel, cujo slogan é “A escritora 2 em 1”.

3 - O que essa pandemia mudou na sua rotina de escritora?

Apenas o aspecto psicológico, pois reclusão e isolamento social sistemáticos culminam por esfrangalhar os nervos das pessoas.

4 - Como foi inspirado o Fabulário? Conte-nos um pouco sobre o livro. 

Essa coleção de fábulas foi inspirada nas fábulas de Esopo, que líamos em nossa infância. Este livro possui 33 fábulas com temas variados e escolhidos por nós para estimular silogismos na mente das pessoas.  

5 - O que acredita ser essencial para divulgar a literatura? 

Utilizá-la como publicação digital de cunho informativo, jornalístico ou de entretenimento através dos espaços virtuais da internet.

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita?

O lado positivo de escrever é a divulgação autoral; e o reverso da  moeda é alcançar leitores que pensam, sentem e agem de maneira diferente. Efetivamente o escritor tem uma responsabilidade social com aquilo que produz e influencia os meios de comunicação com o que escreve, com o que fala, com o que faz.

7 - O que pretende alcançar enquanto autora? 

Ser JackMichel sic et simpliciter.

8 - Cite um projeto a curto prazo e um a longo prazo.

Publicar o próximo livro e ter nossos livros reproduzidos nas telonas do mundo inteiro, pois hoje em dia são frequentes as adaptações de livros para o cinema.

9 - Sugira uma autora e um livro (contemporâneos).

Não é fácil preferir uma autora a outra visto que muitas são as poetisas maravilhosas, as romancistas históricas, que lemos e nos imprimem marcas fundas na alma... mas para não deixar a pergunta sem resposta citarei Sylvia Plath e “A Redoma de Vidro”.

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

Se me perguntassem “O que acha da Guernica , de Picasso” eu responderia “É a tua!”

quinta-feira, 30 de abril de 2020

DEZ PERGUNTAS A... MANOEL BARBOSA


Agradecemos ao autor MANOEL BARBOSA pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 – O livro SANGUE E BLUES foi lançado em 2018. Conte-nos um pouco sobre o livro e todo o processo até a sua produção.

O livro “SANGUE E BLUES” é resultado de uma seleção de textos escritos ao longo de alguns anos. Alguns desses textos foram escritos com o foco não em publicação de livro impresso, mas a interpretação em um espetáculo teatral performático que produzi para minha atuação solo. Outros textos ao contrário eram para publicação em livro. Juntando esses textos para formar o repertório, pesquisei algumas editoras quanto à condição para publicação através delas, então decidi que faria uma publicação independente. Eu, autor editor e as parcerias de afinidade para as devidas etapas da produção que resultou nessa obra que já está circulado desde 25 de julho de 2018.

2 – Os poemas apresentados é um resgate de sentimentos e percepções pessoais ou mera criação do autor?

É um mesclado de ambas as situações, pois alguns poemas foram escritos a partir de minha constante observação dos fragmentos da vida cotidiana em diversos seguimentos da sociedade, outros como forma de expressar algumas de minhas ideias e sentimentos pessoais. Quanto ao imaginário, ah, esse está sempre latente e com ele muitas das composições contribuirão para formar o repertório do livro.

3 – Quem é Manoel Barbosa?

Ator, escritor, poeta, dramaturgo e também diretor e produtor teatral. Brasileiro de Minas Gerais, residente em Belo Horizonte desde a infância, nascido em 06 de outubro de 1964 - Central de Santa Helena.

4 – Esteve em Lisboa para divulgar o livro, conte-nos um pouco sobre essa trajetória...

Muito favorável! Foi a “temporada Europa 2019” segundo semestre na qual consegui o aproveitamento de diversos eventos e boas parcerias. Cito alguns iniciando pelos promovidos pela “IN-FINITA” em parceria com “Zénite Bar Galeria”, sendo encontros semanais para “Leitura de A a Zénite” e os saraus aos domingos no Palácio Baldaya, ambos possibilitando um excelente intercâmbio entre os autores de todos os gêneros literários e uma valiosa oportunidade de contato com os apreciadores. Também o “Festival de poesia de Lisboa” com diversas atividades incluindo sarau e lançamentos de livros, “Tertúlia Poética América Miranda” realizada no Palácio Baldaya e coordenação do poeta Frassino Machado. Para encerramento da temporada tive a apresentação do recital poético “Manoel Barbosa - poesia e fragmentos performáticos” no Zénite Bar Galeria.

5 – Quais as diferenças mais significativas que encontrou na divulgação do livro no Brasil e em Portugal?

Foram quanto aos saraus. Já apresentei minhas interpretações poéticas em saraus de diversas cidades do Brasil e quase todos são realizados uma vez ao mês e mesmo em Belo Horizonte, cidade na qual resido, por várias vezes em função do meu trabalho de ator e produtor teatral eu não consigo disponibilizar-me nas devidas datas e isso implica em não realizar nessas fontes uma divulgação presencial dos livros já publicados. Se fossem realizados mais vezes ao mês, possibilitaria em alguma das datas estar presente e também prestigiar outros autores.
Em Portugal essa situação foi diferente com relação aos saraus e outros eventos, pois além da continuidade e por serem realizados semanalmente, ainda que não me fosse possível comparecer numa semana, mas em outra sim. Isso favorece à divulgação, intercâmbio com outros autores e o público apreciador de literatura.

6 – O que espera do mercado e o que acha que seja importante para um autor e o seu livro?

Espero que continue tendo os autores e produtores comprometidos com esse grandioso propósito de manter vivo o movimento literário de todos os gêneros.
Acho importante a assessoria literária prestada por uma empresa como a “IN-FINITA” que se compromete com a divulgação de um autor e o seu livro principalmente em Portugal, mesmo sem a presença do autor. Também, todos nós, autores e produtores atentos para desenvolver ações que cativam e aproximam o público apreciador de literatura aos autores e aos livros e assim ampliando as possibilidades de circulação e venda.

7 – Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita nos dias atuais?

Como pontos positivos eu vejo as oportunidades. Toda essa diversidade de possibilidades para publicação, tais como; as coletâneas impressas, redes sociais, os grupos na web que sempre acolhem tantas publicações. Tendo em vista que produzir um livro solo, impresso ou digital tem custo bastante significativo principalmente para o autor em início de carreira, quase sempre sem experiencia, sem algumas informações primordiais, tomado pelo entusiasmo fica vulnerável a investir e não obter um produto com resultado satisfatório, até mesmo frustrante. Vejo as formas alternativas de publicação como tempo de oportunidade para amadurecimento da escrita, consciência quanto ao propósito e realidade de mercado.
Como pontos negativos ainda insisto nas questões quanto aos custos para publicação de livros como autor independente e sem patrocínio, custos que também são inevitáveis para manter uma boa divulgação que resulte em circulação e venda do produto.

8 – Em tempos de pandemia, reavaliou os seus projetos, acredita que haverá alguma mudança na forma de se trabalhar a escrita e quais as suas impressões para um futuro próximo?

Sim! Reavaliei. Acredito que realmente haverá mudanças não só na forma criativa quanto à tendência atual que estará predominante, mas também nas estratégias de mercado que provavelmente exigirá muito mais empenho para produzir, divulgar, circular e vender. “Vender! Isso é sem dúvida imprescindível em questão profissional”.

9 – Cite um projeto a curto prazo e um a longo prazo.

A curto prazo cito a publicação de mais uma edição do livro “ATMOSFERA”, também de poemas do qual foi produzido anteriormente apenas uma pequena remessa e vendido muito rápido.
Como projeto a longo prazo posso citar a publicação de três novos livros, sendo eles: Uma coletânea poética bilíngue em formato impresso e digital com alguns textos de cada livro de minha autoria já publicado. Também um livro de contos e um de romance. Já trabalho intensamente nesse projeto para tê-lo compondo o legado para esse tempo que me está sendo permitido viver.

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

10 – Pergunta: O que você ambiciona quanto ao universo da escrita?      
Resposta: Continuar trabalhando com essa atividade que para mim é profissão e sendo capaz de proporcionar a apreciação, reflexão e transformação para o bem entre as pessoas através da escrita literária e dramatúrgica!


Manoel Barbosa é escritor, poeta, ator, performer, e dramaturgo. Também é diretor e produtor teatral. Nasceu em 06 de outubro de 1964. É brasileiro de Minas Gerais. Já publicou os livros de poemas: “SANGUE E BLUES”, “ATMOSFERA” e “UIVOS URBANOS”. É coautor em diversas coletâneas publicadas no Brasil, Portugal e outros países.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

DEZ PERGUNTAS A... JORGE GASPAR


Agradecemos ao autor JORGE GASPAR pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Escrever é uma necessidade ou um passatempo?

Um exercício de raciocínio. Gerindo a escrita com originalidade em ideias e pensamentos.

2 - Em que género literário se sente mais confortável?

Poesia lírica. Circunstancialmente no género narrativo, conto.

3 - O que escreve é inspiração ou trabalho?

Leitura versus criatividade.

4 - O que pretende transmitir com a sua escrita?

Comunicação, diálogo, liberdade de pensamento.

5 - Qual o seu público alvo?

Todo o que se interesse pela leitura e conhecimento.

6 - Em que corrente literária acha que a sua escrita pode ser incluída?

Humanismo e modernismo.

7 - Quais as suas referências literárias?

Autores dos clássicos aos contemporâneos.

8 - O que costuma fazer para divulgar o que escreve?

Corresponder aos convites para publicar.

9 - O que ambiciona alcançar no universo da escrita?

Transmissão de ideias originando o diálogo.

10 - Que pergunta gostaria que lhe fizessem e como responderia?

O que deverá refletir a escrita? Partilha de conhecimentos, fomentando a união de ideias e sentires.

sábado, 19 de outubro de 2019

IN-FINITA APRESENTA... EDSON MENDES



Edson Mendes, professor, escritor, malino, filho de Pedro Mendes, pernambucano do Limoeiro, e de Eva Rita, baiana do povoado Juá, nasceu na cidade de Pa, Bahia, em 16/09/1952. Em 2018 recebeu o Prêmio Edmir Domingues, da Academia Pernambucana de Letras, por sua obra inédita Quase Poesia. Se você lhe perguntar, vai se declarar um perguntador, mas como sabemos que isto não é profissão, como não o foi para Borges, que se dizia um leitor, pode ser que acrescente mais outras algumas coisas. Por exemplo, caminhar sob o sol, ou a chuva. Cinema nas manhãs de domingo. Ler. Qualquer coisa. Tudo. Uisque com coca-cola. Viajar de carro com a música no volume 40. Discutir filosofia. Dar aulas. Ver e rever todo mundo. Tem opinião sobre quase tudo, mas certeza mesmo só tem sobre quase nada... Ultimamente vem dizendo que o tempo urge ruge. Está preparando uma playlist para ser tocada no próprio velório. E aconselha, citando Horácio: carpe diem! Aproveitem o dia! E Paul Valery: Il faut être léger comme l’oiseau, et non comme la plume”. É preciso ser leve como o pássaro, e não como a pluma. E Tonho, seu primo vaqueiro, acima de todos: “todo aquele que pode impedir um malefeito e não impede é um malfeitor, e do pior tipo”; Há três lugares onde se sente bem para escrever, beber e fumar: o apartamento no Poço da Panela, a casinha em Tamandaré e o oitão de seu Bilinho e dona Reco, na Fazenda Coração Aberto, povoado Barroca, em Paulo Afonso. Na alegria e na tristeza, sempre esteve com as cores branca do Santos FC e tricolores do EC Bahia. E avisa todo mundo: se não me acharem, procurem Pepa. Onde ela estiver, lá estará meu coração. E o mais? O mais é cinza...


Prólogo ENQUANTO AGONIZO 
O que realmente importa, e por quê Um olhar sobre o sentido e o propósito da existência, com apoio de W. Faulkner, Manoel Bandeira, Mauro Mota, André Gide, Carlos Pena Filho, Sócrates, Galileu, Vieira, Cartola, Nelson Cavaquinho, Heidegger, Bach, Batatinha e outros Trilha musical 6 meias-músicas e 1 frase musical Conferencia. Palestra. Aula Ensaio 60’

Lançamento dos livros Quase Poesia Memorial do Raso da Catarina A Regra do Jogo Londres 19/10/2019, 19h Paris 26/10/2019, 16h Lisboa 8/11/2019, 19h



sexta-feira, 18 de outubro de 2019

DEZ PERGUNTAS A... CARLOTA MARQUES CANHA


Agradecemos à autora CARLOTA MARQUES CANHA pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 – O livro AGARRAR O TEMPO “Pensamentos sem tempo” foi lançado em dezembro de 2018. Conte-nos um pouco da história da caminhada entre a autora e o livro.

Este livro que, considero quase como um filho,  foi um processo inesperado numa fase pessoal da minha vida em que o meu sonho falou mais alto e a necessidade de fazer algumas mudanças na minha vida, contornar ciclos, uma fase de reinvenção deram-me a coragem,  a segurança que estava na hora de avançar com este projeto. Inicialmente foi uma edição de autor, mas a vontade pessoal de levar o livro mais longe fez com que o mesmo chegasse a algumas editoras e foi a Chiado Books que decidiu editar este livro que foi no tempo, no momento certo da minha vida.

2 – Como foi o processo criativo para a elaboração do seu livro AGARRAR O TEMPO “Pensamentos sem tempo”?

Alguns poemas já existiam de um passado da minha juventude em que abandonei a escrita durante quase 20 anos, mas a vontade de voltar a escrever foi enorme e senti esse grande apelo interior. No início, as ideias tinham alguma dificuldade em concretizarem-se, mas gradualmente foram aparecendo os temas e os poemas foram  sendo escritos a pouco e pouco, sendo o resultado de experiências pessoais do passado recente e outras mais antigas. A intuição e uma corrente criativa que foi suscitada na altura fizeram-me avançar, seguir este caminho em frente, mesmo com algum receio e dúvidas. Decidi apostar. Contei muito com o apoio que senti de alguns amigos, de realçar o incentivo e carinho que recebi da primeira pessoa que leu o livro em primeira mão, a  amiga  e jornalista do Jornal de Negócios, Carla Pedro que gostou desde o início do manuscrito e fez-me acreditar que estava no caminho certo e também a minha mãe que, na sua idade avançada e com uma saúde debilitada encorajou-me a seguir em frente, mesmo com todas as dificuldades e barreiras que iria enfrentar fez-me acreditar que era possível levar este sonho, este projeto avante. Para além da minha mãe, tive um “empurrão celestial” do meu pai já falecido e que sempre apoiou-me em todos os desafios que quis enveredar, fez-me ver que teria que lutar pelo que queria e, se queria muito algo tinha que lutar com todas as forças sem nunca baixar os braços. Embora tivesse, muitas das vezes, alguma rebeldia em aceitar os seus conselhos na minha juventude, hoje sei que foi pelo meu bem e para o meu crescimento e evolução como pessoa. Foi ele que me fez ver e perceber que era agora ou nunca o momento de arriscar. O prefácio do livro “Agarrar o Tempo” foi uma homenagem em forma de dedicatória que fiz ao meu pai que já partiu, mas que está sempre comigo numa conexão que diria quase espiritual. Sou muito grata aos pais que tive que sempre estiveram comigo em todos os momentos decisivos da minha vida, sem excepções. O livro acabou por unir a escrita e também a fotografia através de um amigo pessoal que surgiu na minha vida numa fase crítica, mas que foi o responsável pela produção fotográfica do livro de autor e, posteriormente com o livro “Agarrar o tempo – Pensamentos sem tempo”, o Miguel Vidal Pinheiro foi decisivo nesta fase de criação com a sua genuína e bonita amizade e também pela sua experiência como fotógrafo. Vários fatores alinharam-se,  permitindo que “Agarrar o Tempo”, título de um poema original que faz parte do mesmo livro tornasse-se numa realidade e que seria editado e publicado em Dezembro de 2018.

3 – Como foi a sua metodologia de trabalho na criação desse livro?

Foram escolhidos 100 poemas para fazerem parte deste livro, alguns foram escritos no verão de 2018 em que a intensidade da minha escrita começou de tal forma a produzir-se que chegava a escrever pela madrugada fora sem parar, porque a inspiração e a corrente criativa estavam tão presentes que não conseguia parar. Foi complicado articular a minha atividade profissional na altura com o tal “desejo” incontrolável de escrever, escrever sem parar. Sentia quase uma “maratona” sem fim à vista, mas deixava-me muitas vezes muito exausta. Os temas foram escolhidos de forma aleatória, mas gosto de escrever sobre as emoções, sobre o amor, a natureza, os outros e até sobre a minha pessoa foram temas  que falaram mais alto e com alguma profundidade como apontam alguns dos meus seguidores  e leitores.

4 – Em que corrente literária acha que a sua escrita se enquadra? Fale um pouco da sua poesia e do seu livro.

Não sei bem precisar que tipo de corrente literária poderia atribuir ao trabalho que tenho desenvolvido, mas considero-me uma autora das “emoções”, escrevo sobre quase tudo o que me fascina e interessa na vida. Gosto de sensações, gosto de observar, de vivenciar e penso que é isso que reproduzo no papel, uma escrita leve, despretensiosa, humilde porque estou a crescer como autora e disponível para receber tudo o que o mundo literário pode oferecer. Julgo que a corrente que mais me identifico será com Fernando Pessoa, poeta do século XX que reproduz as emoções, as sensações de uma forma muito peculiar e diria até única na nossa história literária. Considero este livro “Agarrar o tempo” um início para ser continuado com outro livro num futuro próximo.
                                                                                     
5 – Em que momento se sentiu preparada para publicar um livro e divulgar a sua poesia?

Foi no ano passado em finais de Março em que estive num processo de recuperação por motivos de uma cirurgia que tinha feito e numa recuperação complexa que senti esse ímpeto para avançar com a escrita, voltar a escrever poesia e, posteriormente a possibilidade de publicação do livro tornou-se uma realidade. Nessa altura, a minha  voz interior disse-me ou tentava agora ou seria nunca e como mulher não gosto de desistir de desafios na vida, gosto de pensar que pode não ser o momento, mas a hora iria chegar e graças a Deus a hora chegou.

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita?

Os pontos positivos da escrita são a liberdade que sentimos para reproduzir o que sentimos, pensamos, vivenciamos e até desejamos.
É um processo de auto-conhecimento que sinto na minha pessoa e faz-me olhar para dentro, perceber-me enquanto eu interior e como posso relacionar-me com os outros, o mundo. Gosto de pensar que a minha escrita tem uma mensagem positiva, de esperança, que é neutra dirige-se a todos e pode servir de motivação para os outros. Tenho leitores no Brasil que chegam a dizer-me em mensagens muito simpáticas e carinhosas que, a minha escrita é a sua companhia no dia e, quando não escrevo ou não publico na página “Pensamentos Soltos – Poesia Portuguesa” chegam a dizer-me que sentem falta desse contacto, dessa proximidade pelo mundo digital das redes sociais. Há um calor humano e uma proximidade tão bonita que parece que não temos um oceano que separa dois países. É a língua e o gosto de acompanharem o nosso trabalho que faz-me acreditar que farei alguma diferença na vida dessas pessoas que nunca vi pessoalmente, que nunca falei via telefone, mas sentimo-nos muito próximas como uma “família”.
Em termos de pontos negativos, escrever pode gerar, às vezes, algum stress quando queremos reproduzir algo no papel que não conseguimos naquele momento, não sai nada e o que sai não presta na maioria das vezes. A criação surge em momentos inesperados em que o gravador de voz ou um bloco de notas acompanham-me fielmente para reproduzir o que estou a pensar, sentir e concretizar  depois as ideias.  Às vezes debatemos-nos com falta de ideias, de criatividade, de veia de inspiração acaba por ser um processo solitário não que seja mau, mas é algo individual que só nós sabemos o que queremos expressar. Já aconteceu-me tantas vezes durante alguns dias não conseguir escrever nada de jeito, mas depois um dia estamos freneticamente concentrados nos pensamentos e sai tanta coisa bonita para o papel que chego a duvidar se fui mesmo eu que escrevi e nessa altura é uma grande emoção de felicidade e sentir que naquele dia acrescentei algo bom. É um momento de plena satisfação, grande realização.

7 – O que pretende alcançar enquanto autora?

Como autora gostaria de pensar que chego a todas as pessoas, independentemente da idade, alguns podem gostar, outros não, mas sobretudo que o público, os leitores em geral, descubram a minha escrita e façam o seu juízo de valor. O que escrevo é para todos para além da minha pessoa, mas não cultivo qualquer egoismo de escrever apenas para mim. Alguns escritores, poetas são vistos como pseudo egoístas porque só escrevem para eles, porque entendem a mensagem, mas não se preocupam em saber se quem os segue e lê percebe o que escrevem. Gosto de pensar que escrevo porque vale a pena e não um puro acto de “ego” exacerbado não me vejo de forma alguma dessa maneira. Escrevo é claro para mim, mas para os outros, o público em geral.

8 – Cite um projeto a curto prazo e um a longo prazo.

A curto prazo está nos meus planos fazer formação na área da representação/interpretação como forma de dotar-me de ferramentas e valências próprias para construção, composição de personagens, dado que pretendo escrever uma narrativa de ficção, um romance a médio longo prazo. Para além deste ambicioso projeto, gostaria de continuar a escrever poesia, participar em projectos de antologias com outros autores e quem sabe voltar a editar um segundo livro de poesia, mais maduro do que o primeiro e que espelhe essencialmente a minha evolução e consolidação a nível de autora.

9 – Os poemas apresentados é um resgate de sentimentos pessoais ou a criação da autora?

Em termos gerais, os poemas escritos são, alguns,  fruto de sentimentos pessoais, de experiências vividas algumas com alguma dor e dificuldade diria, mas outras foram aprendizagem, foram amadurecimento. Outros poemas são puramente criação enquanto autora.

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

Qual é a tua verdade Carlota?
A minha verdade é ser ser o que sou, fui e serei num futuro, simples, autêntica, genuína, na forma de ser e estar com os outros e com a vida. Alguém que vive e atua em transparência sem mágoas, sem rancores, sem máscaras eu própria, a Carlota no seu jeito de ser. Quem gostar, ótimo deixa-me feliz, quem não gostar aceito e respeitarei. Serei fiel aos meus valores e princípios que edificaram o meu carácter e pessoa e espero continuar sempre a escrever desde que a minha mente e força interior assim o permitam.
Amo muito escrever e espero continuar nessa  base como um exercício mental saudável de expressão de sentimentos, ideias, pensamentos e, fundamentalmente contar histórias, não apenas as minhas “histórias”, mas o mundo que vejo.


BIOGRAFIA

Carlota Marques Canha

Nascida e natural de Lisboa é licenciada em Tradução económica-jurídica na vertente francês e inglês pela Universidade Europeia e com uma Pós-graduação em Gestão Comercial e Marketing pelo ISTE Porto.
Iniciou o seu percurso profissional em Assessoria de Direção em diversas empresas multinacionais onde se mantém em funções na área de legal no Grupo Jerónimo Martins.
É escritora com o lançamento do seu primeiro livro de poesia “Agarrar o Tempo” - Pensamentos sem tempo. Para além do género de poesia gosta de escrever prosa, crónicas, contos e letras originais de músicas.
Gosta de desafios e fazer coisas diferentes, o teatro e o gosto da representação acabaram por surgir ligados à vontade de compor personagens, compor histórias para um romance que pretende escrever a médio longo prazo. Nos seus tempos livres, para além da escrita, leitura, danças latinas, gosta de fotografia, captar momentos que servem de inspiração para a sua escrita, para a criação de pensamentos, ideias.
Sentir e escrever sobre a vida, os outros, as aprendizagens e experiências recebidas são o que mais a movem na sua busca constante de evoluir como pessoa, como mulher.