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sábado, 2 de abril de 2022

Assim se evoca a paixão - VENTOS SÁBIOS

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Sentaram-se frente a frente. Abraçaram-se com os olhos e beijaram-se num sorriso. Todo o momento com ela era mel, que ela recebia em cada beijo que imaginava. Seu corpo firme, só de a ver iniciou de imediato um ode ao desejo, com veludo do seu olhar abraçou-a... tremeu... e ela estremeceu.
O momento fez-se verdade, e verdade se fez vontade. Sem que fosse preciso um único toque, no meio de sorrisos confissão, trocaram palavras doces, puras, sinceras. Juras, veladas por gotas de orvalho que lhes subiam aos olhos.
O vinho foi dado a provar.... frutado... pedia mais, algo que recheasse a boca, que acordasse os sentidos das línguas, da pele, dos corpos. Era assim que alimentavam cada vez que se encontravam. De tudo falavam sem nada dizer.
Num pequeno intervalo de silêncio entre dois, daqueles que gritam desejo e deixam qualquer peito inquieto. Daqueles em que os dedos se enchem de formigueiro tal é a vontade do toque, da caricia suave. A urgência avassaladora do êxtase de se terem nos braços um do outro.... Uma suave brisa tocou no rosto dela…fechou os olhos, sonhando que eram carícias dele. No seu desejo, perguntou para dentro.... que fazes tu, que me penetras assim com o teu olhar?
Sentindo no peito a sua pergunta, tocou-lhe na palma da mão. desenhou uma linha, inspirou profundamente e pensou “Desenho os teus lábios melados até encontrar o arrepio… aquele gemido que endurece… e dá prazer. O botão da rosa que cresce em tremores… e recebe o calor de um beijo chupado”...
Ela suspirou e sorriu…
Chegou a sobremesa…”Delícia dos deuses”.
Assim se evoca a paixão, com um simples olhar e um dedo na palma da mão.
Tirado de Um conto

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segunda-feira, 28 de março de 2022

Vai rolar um tête-a-tête (excerto) - ROSALINA VAQUEIRO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Todos os anos a Sociedade Musical realiza uma soirée dançante para comemorar o seu aniversário. Como mandam as boas normas, para comemorar o cinquentenário, as festividades precisam de estar á altura da data que se assinala. Assim, a Sociedade Musical toda se aprimorou para o jantar dançante em traje de gala, esperando ver desfilar as beldades bronzeadas desse Verão magnífico.
Jaime, estudante de engenharia em férias, o rei da praia, escultural, bronzeado, parte corações com o seu olhar profundo à galã da tela. Alfredo, seu companheiro de noitadas e aventuras, agora um pouco mais discreto, desde que começou a namorar uma “deusa” que conheceu na praia.
– Bom, vamos lá ver se é hoje que ficas finalmente a conhecer a Ana.
– Espero bem que sim. Andas pr’aí com deusas escondidas! Isso não se faz a um amigo do peito! Não tá certo D. Juan!
– Olha quem fala! O D. Juan aqui és tu, que arrasas tudo o que é beldade com esse olhar á 007!
– OK, oK, touché. Ó pá, Alfredo, tu não calculas a Pokahontas que eu encontrei hoje! Xi… pá …aquilo é que é coisa de virar a cabeça a um gajo! Um homem está na sua, ‘tas me ver? Tranquilamente, a adorar o deus Rá e a deliciar-se com o desfile de Cleopatras a testar a temperatura da água com os pezinhos delicados e de repente, zás! Saí-te das excelsas ondas uma Nefreteti escultural, cor de chocolate, que dá um apagão nas outras e um gajo pá, fica preso na Pokahontas e já não enxerga mai’ nada! Qual barbies qual quê. Ela foca-me com uns olhos grandes e profundos, despe-me até á alma e depois some-se! some-se mano! E eu fico a mendigar até agora… – Caramba menino! É de loucos!

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domingo, 27 de março de 2022

Sonhar é desejar - ROSA FLOR

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Um dia, renascerei qual Phoenix das cinzas, de um amor dorido, de um coração dilacerado, e voltarei a sorrir como por magia!

Desafiarei a vida que te afastou de mim, buscarei no mar segredos teus, que os búzios teimam em esconder, revolverei o céu à procura da estrela, que me levará a ti.

E de manhã, ah! como será bom, ir embalada pelo vento Suão, que prometerá levar-me à terra dos sonhos, onde a fantasia me tornará ousada, e me incentivará à loucura dos beijos ardentes, à euforia dos anseios, a rasgar vontades, e satisfazer desejos.

Vou encontrar-te! SONHAR é DESEJAR!

E então beijar-te-ei sofregamente a boca, afagarei com loucura o teu pescoço, repousarei no teu colo a minha face, e deixarás de estar ausente.

Depois:

Terei o amor que outrora prometeste dar-me.

E porque amar não é pecado, o vento de mansinho tocará nossos corpos que, ardendo de volúpia, farão amor, até o cansaço se diluir na felicidade do nosso encontro.

Sem darmos por isso, voltaremos ao passado, esqueceremos o que nos atormentou a alma e nos afastou.

E então, tenho a certeza, que uma lágrima me cairá no rosto mostrando o quanto estarei feliz, e num abraço sôfrego, jurarei olhando-te nos olhos, que jamais te direi adeus.

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quarta-feira, 16 de março de 2022

Yin-Yang (excerto) - FÁTIMA D'OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Mas sem provas ou testemunhas, a coisa ficou por ali e Ana Lis ficou assim: com a sua certeza. E sem a sua caneta.
Mas quem é que aquela cachopa, a Ana Lis, pensava que era?... Acusá-lo a ele – logo a ele, Dinis Maria Teixeira Mourato da Cunha – de roubo! Ainda por cima, duma caneta: uma mísera caneta. A simples noção desse roubo era indigna dele: rebaixava-o. E a isso, ele recusava-se. Terminantemente. Se bem que, a bem da verdade, ela não o tinha propriamente acusado de roubo: pelo menos, não com essas palavras. Mas tinha-o insinuado. E só esse simples facto parecia a Dinis um enorme atrevimento.
Ainda por cima, a tal caneta nem sequer o era, na verdadeira aceção da palavra: tratava-se, sim, de uma mera esferográfica. E de uma marca “rosc-fosc” patente qualquer, ainda por cima – se fosse uma Montblanc, ainda vá que não vá, agora de uma marca qualquer que não interessava nem ao Menino Jesus…
Mas verdade seja dita e aí Dinis tinha que dar a mão à palmatória, ele até que se tinha a modos que posto a jeito: tinham sido as suas ações que tinham conduzido Ana Lis às suas conclusões e convicções: se não fosse a sua constante e persistente– atrever-se-ia a dizê-lo? – bajulação à caneta – aliás, que se fosse com calma: caneta, não: esferográfica, se faz favor. Então, impunha-se dizer as coisas como elas eram e chamá-las pelos respetivos nomes! – dela, aí se calhar já outro galo cantaria e provavelmente a ideia de Ana Lis já seria outra… Mas Dinis não o fazia por mal: ele realmente achava piada à esferográfica de Ana Lis. Então, elogiava-a. Constantemente, até demasiado, ele agora era forçado a concluir.

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segunda-feira, 14 de março de 2022

Quando o avião voou E Lisboa me encantou - CELESTE PEREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Tenho os nervos em bulício. É sempre assim, quando subo as escadas rolantes do aeroporto, as pernas tremem. Já no interior do avião ouço o que a hospedeira recomenda, enfiada no lugar, a uma janela. Depois do cinto bem colocado, mais calma, vou agora sim, voar. E meio-dia o sol está a pino. Lisboa mostra-se cheia de luz e cor. O sol é seu ajudante. A janela é o ecrã, através do qual eu vou olhar, sentindo o belo da cidade onde o grego Ulisses chegou. a cidade das serpentes, segundo a lenda. Será por isso que o rio Tejo de cor azul prata, onde pernoitam as ninfas que Camões cantou e o oceano Atlântico porta de marinheiros, serpenteiam Lisboa. Tetos vermelhos de todas as cores num bairro de Lisboa dos anos 50, o Bairro de Alvalade. O Santo António, o casamenteiro, o santo das festas populares que faz dançar as suas gentes… O parque Eduardo VII de ruas largas ladeado por frondosas arvores de frescas sombras e no chão, pedras acalçadas a verde bordado. Extasio o olhar. Tantos verdes e tanto espaço na Tapada da Ajuda, e a ostentação do seu Palácio. O arvoredo compacto do parque de Monsanto onde Lisboa respira. Os Jerónimos feito de renda com fio de pedra. Ao lado, Belém, cheira a canela nos crocantes pasteis de nata. Finalmente as praias da Costa da Caparica de areias finas e de ondas de espuma. O espetáculo é interrompido pelo tapete de nuvens tão brancas que se confundem com a espuma das ondas.

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sábado, 12 de março de 2022

Ocarina e Oboé (excerto) - CARLOS ARINTO

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Os fagotes, os “tubular bells” – restos de uma antiga civilização de órgãos eclesiásticos – sacodem-se como répteis serpenteando. As tatuagens são equimoses, cenas Bíblicas de tempos motards, eclusas de um alçapão que se esvai em ralo hidrográfico. Diabos e feiticeiros juntam-se aos andarilhos. Hollywood terminou. Venceu o cansaço. O mundo é ciência e os desertos estão cobertos de painéis solares enferrujados, que já nenhuma cidade usa. A recordação do tempo é apenas distância. Cilada!
O livro dos sismos, os símios encarnados encarnando tubarões pretos, são a roleta que esmaga a vaidade. Todos os prazos acabaram, por esgotamento, mesmo depois de prorrogados e dilatados. Resta-nos a hora em que o nosso relógio (biológico) parou. Como açúcar polvilhado em cima das estrelas.
Trombetas, que também são instrumentos de sopro anunciaram que o criminoso fugiu Como é costume os criminosos fogem para “parte incerta”, neste caso uma montanha num parque de reserva natural ou um “resort” de luxo num paraíso fiscal. A fuga, dos criminosos, não são uma acusação, são apenas uma declaração de distração. Fujo para não ser incomodado… é como pendurar na porta do quarto do hotel “do not disturb”. Estou apenas a preparar os barbitúricos e a meter na veia. Na versão dos espectadores
a receber “poeira nos olhos”.
Os cadáveres que costumam aparecer no chão, ou trazidos pela maré são varridos para os necrotérios, sem que se volte a pensar muito nisso. É trabalho. Tal como o viver num Lar para idosos é uma preparação aeróbica e espiritual para o sumiço. Depois, vai-se a ver…e aquela senhora entrevada, que não se levantava para nada, desapareceu. Foi chamada pelo… (preencher de acordo com a certeza)

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terça-feira, 1 de março de 2022

A fogueira da espera - VENTOS SÁBIOS

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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“... apertou os olhos ao sentir aquele arrepio forte que lhe sacudiu o peito e busto, dando forma à memória que trazia no corpo. De momentos suados, em que se negam promessas e se descobrem segredos, dos cantos mais recônditos de cada sonho que se acalenta ao longo da vida.
Ali, sozinha, enrolada numa coberta, alucinou vê-lo chegar, cheio de frio, gola do casaco subida, mãos trémulas, mas não por sentirem frio... boca gelada, arfava serenamente, abrindo caminho para o beijo que já dela fluía.
Sabia muito bem que não seria dia de o ver, muito menos de o ter, mas o que faz quem ama quando não tem quem ama, senão sonhar, deixar que o pensamento rapte os sentidos e suba colina acima procurando o deslumbre de quem é esperado e desejado.
Livre era o seu querer, como o vento que lambe as montanhas e beija as frágeis flores primaveris. Vestia os minutos da espera com echarpes de seda que deixava que lhe deslizassem pelo corpo, suave e lento, paciente... era a saudade pronta para ser morta, entregue aos caprichos de quem chegaria...
Lá fora chovia... ele chegou e afogou-lhe o os sentidos ao chegar.
Perdidos na noite, uivava o vento e gemia o quarto...”
Estremeceu.
Apertou-se no aconchego da manta, abeirou-se da lareira, enquanto esperava, adormeceu.

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sábado, 26 de fevereiro de 2022

O quadro - ROSALINA VAQUEIRO

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A conselho dos pais, fugira de um futuro incerto, com o jovem estudante de belas-artes, para uma vida estável, ao lado do promissor colega do pai, dez anos mais velho, que lhe deitava olhares cobiçadores, nas sardinhadas de verão. A paixão gritava-lhe pelas aguarelas do artista, pelos olhos esverdeados, como as sonhadoras paisagens da tela, que lhe transmitiam sonhos de pureza. A seu lado sentia-se Pietá,
Vénus de Milo.
- Isso são fantasias da adolescência. A menina não tem a noção do que poderá sofrer ao lado desse pobretanas. Com o Vítor terá um futuro assegurado. Ele tem uma carreira promissora no hospital. Pode até chegar a director.
Um dia, estava vestida de branco, numa cerimónia cheia de convidados escolhidos pela mãe, com um noivo escolhido pela mãe. Com o tempo perdera de vista as telas, o pintor, os anos, a vida, até o futuro director de hospital, a quem não suportara mais do que uns magros anos de insípida convivência.
Acabara responsável pela galeria de arte de uma amiga. Afinal, rodeada de quadros, que a faziam lembrar a adolescência, mas nenhum como aquele em que ele a pintara sentada sob uma árvore, a ler um livro, de saia rodada e chapéu largo de palhinha, bicicleta encostada, num campo repleto de malmequeres brancos. A amiga pedira-lhe para licitar duas obras, para a galeria. Sentada na sala do leilão, esquecera por um momento, as pessoas que entravam, alguém que se sentara ao seu lado. Divagava ainda, quando viu o quadro. Não é possível! Uma paisagem doce num campo de malmequeres! Deu um salto na cadeira. Ninguém poderia levar aquele quadro! Aquele não! Por favor! Aquele não! Não ouvia os números. Levantou o braço, toda a sua alma se ergueu e licitou o quadro. O martelo bateu e só depois se apercebeu da exorbitante quantia. Que fiz eu? E o que iria dizer à amiga? Aflita, queria anular a licitação. Alguém, em quem não reparara bem, mas que não lhe parecera completamente estranho, licitou o quadro, pagou o valor e mandou que lho entregassem. Quis saber quem era o homem do gesto estranhamente nobre, que saíra da sala. Ficou petrificada com a resposta: O único que poderia fazê-lo com facilidade – o autor.

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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

E se eu fosse a outra - ROSA FLOR

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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E se eu fosse a outra, te encontrasse nos caminhos de futuros incertos que percorri, te pudesse escutar, contasse segredos e te prendesse por momentos a mim, afagando a tua pele suada e quente, oferecendo-te o Céu num passe de mágica?

E se eu fosse a outra, te abrisse o meu coração, o adornasse com o teu, para que num gratificante abraço descesses às profundezas da minha alma, me amasses com paixão ardente sem medos e tocasses com fulgor as partes mais sensíveis do meu corpo?

Hoje és a minha mais grata inspiração!

Jamais te resistiria assim pudesse retroceder no tempo!

Como coartar a ânsia incontrolável de desejos e fantasias que em mim despertas?

Que mal teria explorar avidamente em ti simples devaneios, sorver cada gota do teu suor, acariciar-te com loucura amando-te sem timidez?

E se eu fosse a outra, porventura, teria o beneplácito do Cosmos, sendo por isso a tua Deusa e tu o meu Adónis.

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terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

Coisas a descobrir à beira das águas - FERNANDO CHAGAS DUARTE

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Não, não sou de grandes exigências. Um ovo, uma crosta de terra e pão, a partida, a simples ida e vinda ao inferno com os braços estafados, mutilados pelo trabalho sem hora, a construção em curso que nunca termina e vozes sonâmbulas nascidas através de um sol da meia-noite.
O sono satisfeito nos seios serenos e frescos de uma serra granítica a descer para o sul dos trigais e um cinto de couro velho a segurar o puído às calças e à vida, e as calças a serem presas à pele – que se deixaram envelhecer e perderam a idade própria da insónia e inocência.
As margens do rio a conversarem a nitidez das ervas puras e depois um céu vazio a encher-se da justiça das aves, ou uma pedra circuncisa e roliça que é atirada às águas pela luz viva que só há nos olhares interiores de uma e outra criança. Um silêncio milenar a responder-me de repente. Logo eu que não sou, nunca fui, de grandes exigências.

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domingo, 13 de fevereiro de 2022

Yin-Yang (excerto) - FÁTIMA D'OLIVEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Já tinha sido há uma série de anos, mas aquela história não lhe saía da cabeça: atormentava-a. Mais do que isso, assombrava-a.
Recuou, na sua mente, até quando ainda era estudante e mais uma vez reviveu aquele episódio… Ele tinha-lhe roubado a caneta, a sua muito estimada caneta, Ana Lis sabia-o, tinha mesmo a certeza. Absoluta, sintética, analítica e mais que fosse. Mas Dinis negava que tinha qualquer coisa a ver com o desaparecimento da caneta. Veementemente.
A caneta, preta e amarela, até tinha algum valor monetário, mas, mais do que isso, tinha muito valor sentimental.
Porque aquela tinha sido uma das poucas vezes em que os pais tinham aceitado pagar, gastar dinheiro, só porque sim. Não que a sua família fosse daquelas considerada, ainda que em tom depreciativo, pobretanas ou remediada: antes poupada. A Ana Lis, sempre lhe tinha sido incutido o valor do dinheiro: o mesmo não caía do céu nem nascia nas árvores. Por isso, ela tinha ficado agradavelmente surpreendida quando os pais de propuseram a oferecer-lhe a caneta que tanto desejava. E Dinis já tinha demonstrado, por mais do que uma vez até, um gosto quase que excessivo pela sua caneta: mais do que admirá-la, cortejava-a descaradamente. Se isso, por um lado, incomodava-a, pelo outro, lisonjeava-a. Afinal, mais do que pertencer ao grupo de meninos bem, Dinis era parte integrante do grupo dos fixes.
Quando Ana Lis tinha dado pelo desaparecimento da caneta, imediatamente perguntou a Dinis se por acaso tinha visto a sua caneta, pois não só era ele que se encontrava mais perto, como ela sabia que a tinha tido na sua posse até há bem pouco tempo. Também imediatamente Dinis negou qualquer responsabilidade.
Mas o que convenceu Ana Lis da culpabilidade de Dinis, foi a forma como ele respondeu: com desdém e arrogância. Até soberba.

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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Ocarina e Oboé (excerto) - CARLOS ARINTO


(cana verde de sopro, flauta de pã, pífaro e gaita de beiços)

– Que horas são?
– Ah! Ainda temos tempo.
– O que queres dizer com isso? Ignorar a minha pergunta e não me dizer as horas?
– Absolutamente
– Isso quer dizer o quê?
– Não quer dizer nada. Se soubesses o sacrifício que faço em estar aqui respondendo a perguntas idiotas…
– Estás-me a chamar idiota?
– É, como vês? Ser idiota é uma qualidade dos dias de hoje. Ser idiota faz parte do percurso… Limito-me a acompanhar a natureza. Qual natureza, adivinho que vais perguntar?
– Pois, não vou!
– Está bem, não perguntes…
Estamos ébrios com o Poder. Fomos eleitos e agora descansamos da orgia. Beijo o teu corpo que me sabe a “papéis de música” que é ao que sabem todas as ressacas.
O mal de ressacar é que quero sempre mais do teu corpo, dos eleitores, dos artistas, das vinganças e das coisas que ainda não sabemos que existem.
Pandemia nunca mais: vou assinar o decreto. Eu determino. Devo ter adormecido porque a perna começou a formigar. Tenho de fazer mais exercício.
– Diz-me, somos nós que estamos aqui?
– Sim, somos o planeta a galáxia ou as espumas de lava, poeiras e gazes e também seres moleculares, microscópicos ou infinitamente esporos e amibas – embora possam parecer “caravelas” ou orcas - que não vemos. Somos nós mesmos e outros e muitos e levíticas imagens sem peso, apenas ensaios, perfumes, cheiros. Cheiros a nevoeiros. Não, não façam tatuagens, elas escorregarão pela nudez dos mármores e se elevação dos templos até deixarem de existir, como colapsos e desmoronamentos sem fim, numa inversão da gravidade. A terra nunca será plana.
– Não compreendo.
– Não, ninguém pode compreender.
Cruzamo-nos num abraço sôfrego. Despenteamo-nos com os corpos transpirados. As nossas bocas unem-se, estamos conectados e somos um todo que se deseja, quer e recria.
A vida segue adiante.
Transplantamo-nos para uma sombra onde as intempéries não existem, aqui verdejam frescuras ondulantes que vibram.
Depois o tempo recomeça.
Sinto os teus seios pequenos contra o meu corpo, e és tu, outra vez. Sinto a curva do ventre e do vento que adorna a tua pele – na perpendicular das minhas mãos, na teia das minhas velas e remoinhos - como um linho engomado na diáfana fluidez da seda que esvoaça.

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