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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

O escutador da quaresma (excerto 24) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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– Bela e Severina são a razão do meu viver. Nasceram logo após a primeira guerra conjugal. Depois que vi tanta confusão, tanta briga com agressão, repensei minhas hipóteses anteriores que descreviam a dualidade de forma mais romântica, ainda sem levar em conta o lado sombrio que sempre habita um dos pilares que sustentam pares, para si e para todos. Conversei com amigos, revistei manos e escritos para entender essa coisa estranha cuspidora de fogo que sai da mesma boca jorradora de palavras que também embalam o amor. Foi aí que as meninas vieram para equilibrar esse jogo da vida. Não se preocupe com as meninas, são sossegadas apesar de tudo, cada uma tem seu protetor, uma segue Thanatos e outra Eros. Não precisará gastar palavras com elas, dê-lhes apenas muitas porções de observação. Passam o dia todo brincando de subir e descer enquanto a Flora, a boneca insistente e impermanente, escorrega, mas não cai, nem se atira da gente.

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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

O escutador da quaresma (excerto 23) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A locomoção na rua era, praticamente, impossível. A concentração de pessoas era tamanha que havia espaço somente para circular o ar. Sem saber qual caminho seguir: parar ou fugir, o Escutador se assustou com tanta gente junta, amontoada à espera de autorização para deixar o espaço público. Ele avaliou que poderia levar muito tempo até que toda aquela multidão conseguisse fazer a dispersão. Dessa forma, não quis arriscar o trabalho que tinha aceitado no Casarão do Espanto. O Escutador temeu não conseguir mais se soltar da multidão e foi aproveitando cada espacinho que se abria à sua frente para sair da rua de beleza invulgar.
O Escutador invadiu os vácuos espaciais e atencionais daquela aglomeração atônita com o balé um tanto surdo de umas Bolinhas pelo ar. Ele precisava apertar seu passo para sair do apertamento da multidão e chegar ao Casarão que ao certo sabia sua localização.

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domingo, 18 de fevereiro de 2024

O escutador da quaresma (excerto 22) - Renata Quiroga

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O Espanto tinha ligação banalmente imperial com todas as partes da geografia racial. Sem bem querer nem tampouco ofender: estação social, ponto final do poder. Além dessa voz estranha, que se aumenta no meio da trama, dessa poetice que acompanha a história toda, o Casarão tinha mesmo uma fronteira física com o Arco que adornava a cidade, local onde seriam feitas as comemorações da passagem do ano de 19 para 20. Por isso, o Escutador foi à rua juntar-se a milhares de pessoas que esperavam a passagem do ano e suas diferentes formas de celebração.
Seu plano era brindar a chegada do novo ano naquela atmosfera de aromas refinados como uma espécie de combustível para a missão que acabara de engajar-se. Ao tocar das doze badaladas, iria se dirigir para o trabalho lá no Casarão do Espanto.

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terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

O escutador da quaresma (excerto 21) - Renata Quiroga

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Apaixonava-se o Escutador pelo chamado a ouvir a todos do Casarão e depois trazê-los, disfarçadamente, de volta para seus lugares. Ele aceitou o convite feito pelos Organizadores do Casarão do Espanto. Iria colaborar com a política de reentrada dos estrangeiros no mundo igual. Foi alertado pelos Organizadores da cidade que os Habitadores poderiam voltar para suas casas, desde que não fizessem barulho. A ordem dos iguais ainda precisava ser respeitada! Para não acordar o pessoal, deveriam entrar pela porta lateral e não fazer carnaval.
O Escutador fez todas as suas contas. Refez seus planos e arrumou suas malas. Assim que chegasse ao casarão passaria uma única noite de descanso e no dia seguinte começaria sua escutação. Essa noite de boas-vindas era também de Réveillon.

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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

O escutador da quaresma (excerto 20) - Renata Quiroga

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A notícia do fechamento do Casarão espalhou-se celeremente por todas as centenas de abóbadas da cidade. Chegou aos ouvidos e às escutas. A história do retorno dos Fala Estranha para o lugar do qual não deveriam ter saído, foi perfurando diversos tímpanos, tocando a gravidade do timbalão do chão até chegar na renomada escuta do Escutador. O Escutador sempre soube que isso não daria muito certo. Sempre foi opositor expresso da reclusão dos Fala Estranha, da expulsão de toda aquela forma tão singular de expressão do lugar onde nasceram e viveram e guardaram memória que viraram lembranças de suas histórias e de suas andanças. Ele passou a vida lendo dicionários com verbetes rebuscados, com imagens ilustrativas, com sílabas partidas, e antônimos bem parecidos com sinônimos, por isso torcia muito para que fosse feita a tão necessária reforma dos cuidados aos Fala Estranha.

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sábado, 3 de fevereiro de 2024

O escutador da quaresma (excerto 19) - Renata Quiroga

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Esse alguém é um sujeito oculto porque tornou-se muita gente que se juntou para grafar a oração pelo entendimento que não existe loucura e muito menos normal. Pergaminho e Tinteiro também comentavam a situação em seus versos: “A civilização implica demais com a natureza, quer moldá-la, amarrá-la, amor da sala sem visitar a casa inteira, quer entender a espécie humana como um bolo sem fatias. Tudo errado. Cada um é único, ímpar. Essa história de seleção social só pode dar confusão e tumulto geral: quem destoa é louco e maltratado, porém quem da adaptação toma posse e assina o trat

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domingo, 28 de janeiro de 2024

O escutador da quaresma (excerto 18) - Renata Quiroga

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Estava tudo combinado: cada um fala com quem o entende e quem o entende ouve a sua fala. Foi passando muito tempo lá dentro do Casarão e o que no início era Espanto transformou-se em Alucinação. Os Habitadores viviam em igualdade prometida, e com isso perderam as diferenças, perderam as crenças e sumiram na multidão. Apesar dos Administradores promoverem comida boa; passeio ao ar livre; entretenimento; quartos limpos e arejados, os Habitadores eram pássaros engaiolados. Viram que igualdade era heterônimo de padronização lá dentro do Casarão. Queriam ser visíveis e não apenas vistos com a vista que, a prazo, foi desaparecendo com o Eu de cada Habitador. Queriam ser escutados com o ouvido de quem flutua em suas associações, e não apenas no que se esconde dentro de uma orelha - forma similar à uma concha fechada, afundada com palavras abafadas.

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terça-feira, 23 de janeiro de 2024

O escutador da quaresma (excerto 17) - Renata Quiroga

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Uma estranha fúria da natureza levou muita chuva, muito vento, muito raio e muito tormento para a fronteira entre essa casa de tratamento e o centro do acolhimento. A fronteira adoeceu suas estradas, houve muito desabamento, pontes caídas, estradas esburacadas, rios transbordados, ruas alagadas. Foi perdida a ligação entre a cidade e o Casarão. Gente sitiada! Gente Chateada!
Era uma ruptura do de fora com o de dentro, todos os eus desacompanhados no interior da comunidade. Eram muitos, mas muitos sós e mortificados pelo isolamento. Foi avisado ao pessoal de Fala Estranha que, a partir daquele momento, não seria mais necessário o uso do nome pessoal, aquele escolhido pelos primeiros Cuidadores das pessoas, aquele com o qual cada um tinha um relacionamento íntimo, o nome que seus ouvidos conhecem bem desde que nasceram.

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quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

O escutador da quaresma (excerto 16) - Renata Quiroga

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– Como prometemos, anteriormente, vocês não irão ter preocupação com nada. Tudo aqui é por nossa conta. Não precisarão tocar em moedas ou cédulas. A economia gira no Casarão como truque de mágica, é maravilhoso não ter que usar o vil metal e poder desfrutar de tudo aqui dentro, na verdade o nome da moeda corrente aqui é liberdade. Não se perturbem em andar na moda, a roupa no casarão é democrática e igual para todos, tamanho U. Documentos podem ser arquivados, lavrados no escaninho à direita, aquele que tem uma placa escrita: Invisíveis Preferidos. Outra coisa muito importante é a entrega dos pertences na recepção. Todos devem deixar seus pentes, espelhos, foto de parente, livro (caso tenham interesse por esse tipo de bobagem). Como podem perceber, objeto pessoal por aqui é usado na contramão, vira pessoal objeto. Serão todos, de uma forma sempre geral, bem cuidados, perfumados, e pro cabelo pentes dourados. Deixem vocês mesmos todos, por inteiro, do lado de fora. Perfilem seus restos, entrem e obedeçam à vontade.

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sábado, 13 de janeiro de 2024

O escutador da quaresma (excerto 15) - Renata Quiroga

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Se reuniram para pensar a nova solução: seria possível um lugar toldo que abrigasse as diferenças como parte das pessoas? O reino animal talvez tivesse algo a mostrar: o deformismo de um ocipodídeo, possuidor de uma quela maior que a outra, não lhe dá legenda de manco ou alcunha de deficiente. Ao contrário de estigmas que selam preconceitos, a elegante convivência da espécie composta por éticos crustáceos o batizou de caranguejo-violinista. Essa forma especial de caranguejo recebeu esse apelido justamente para afastar hostilidades, pois é entendido que enquanto pisa a areia de forma irregular, chama a maré ao som da imaginação. A natureza manda muito bem seus recados ao seu humano, informa que tudo é naturalmente desigual: cada um tem sua face de normal, cada um tem seu mancar musical.

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segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

O escutador da quaresma (excerto 14) - Renata Quiroga

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Um vento fortíssimo acompanhou as tentativas de ingressos dos Fala Estranha no Condomínio da Razão. O pessoal de fala inquieta não passava no portão, não tinha medida de altura para literalidade, nem largura de racionalidade. Eram magrinhos de concreto e gordinhos de ilusão. Suas formas livres não encaixavam na geometria entalhada na madeira do pórtico que encarcera a simetria e expatria a analogia. As regras do Condomínio da Razão eram claras, buscavam a manutenção da cordialidade entre todos e, portanto, as diferenças não eram bem-vindas, expulsas seriam as subversivas subjetividades, entrariam palavras somente bonitas e axiais ao controle.

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quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

O escutador da quaresma (excerto 13) - Renata Quiroga

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Durante muito tempo, os Fala Bonita tentaram transformar os Fala Estranha em moradores do condomínio Razão. Os Fala Estranha ora se empolgavam com a ideia de viver em um lugar com boas condições de vida, ora pensavam em lhe chutar o portão. O fato é que mesmo aqueles que cediam ao convite e aproximavam-se da entrada do Condomínio percebiam um estranho fenômeno que não lhes permitia o acesso mesmo que voluntário e de bom gosto.
Os administradores da cidade se apressaram para realizar a movimentação dos Fala Estranha para a Razão. Organizaram diversos transportes que, cordialmente, pegariam cada Habitador Estranho em suas próprias e impróprias residências. Havia madeleines, croissants e macarons coloridos para calar a boca do estômago dos inscritos no Condomínio murado.

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quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

O escutador da quaresma (excerto 12) - Renata Quiroga

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O Condomínio da Razão tinha segurança exclusiva, poste de luz elétrica e água doce encanada, tinha tranquilidade escancarada e estampada por todas as máscaras. A liberdade era uma garantia de todos, era dividida de forma igualitária entre os ilustres moradores. Cada irmão, independente da necessidade, tinha seu quinhão exato de liberdade.
Nas ruas internas da Razão, mantinha-se a concepção arquitetônica de vias projetadas pela padronização. Com tanta coisa igual, a criatividade não tinha nenhum espaço reservado na vida dentro do Condomínio da Razão. As correntes da soltura arrastavam os passos irmanados em fusão, na confusão de serem fax, pares similares. Todos tinham a liberdade de se igualarem como em um túnel de espelhos que diante de tantos reflexos, perde-se o rumo, orienta-se pelos enganos ópticos de um outro eu. Moviam-se amalgamados uns aos outros, velando suas identidades particulares.

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sábado, 23 de dezembro de 2023

O escutador da quaresma (excerto 11) - Renata Quiroga

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Só que a névoa era feita em tramas que formavam nós que entravam pela fala das pessoas e prendiam-se em suas gargantas. Não havia cuidador que conseguisse uma boa pastilha para escorregar os nós gargalo abaixo até o fundo da garrafa, da garganta engarrafada e atordoada com o barulho das buzinas do trânsito frenético da cidade bem humorada.
O ciclo caminhava igual e os não ditos amontoavam-se em pilhas, os nós já eram tantos que não havia quase ar circulante. Milhares de gotículas de não ditos pairavam no ar condensando a realidade e suas fantasias. O peso era tão grande que parecia existir um piano branco e preto estacionado no ar. Não tinha jeito: caía novamente a água sobre toda a cidade!

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segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

O escutador da quaresma (excerto 10) - Renata Quiroga

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Quando os raios altos debruçavam seu olhar para o solo, conseguiram arrancar o que tinha ficado aguado das experiências daquela gente, sugavam tudo aquilo que lhes fazia mal estar. Era uma linda mágica que parecia consertar o defeito das conversas, magia que eliminaria os desafetos entre os grupos de fala diferente e de fala bonita.
Nesse momento parecia até surgir um ar conciliatório entre as duas partes da cidade que travavam mímicas de paz enquanto a névoa ajudava a confundir uns aos outros das expressões desagradáveis que causavam dor e tristeza. Ao contrário da tão desejada leveza, o peso pesado ia para o tal calado que ficara aguado e tinha somente evaporado. A magia não o fazia desassomar, ao contrário ela se exponenciava em bolsões líquidos de não ditos.

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quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

O escutador da quaresma (excerto 9) - Renata Quiroga

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A nuvem trazia, sempre, uma sensação fresca, infiltrando-se diariamente no mesmo horário para fazer seu show, sua pantomima de trocar partes, pingos e goteiras por salseirada inteira. Ela não faltava ao seu compromisso de condensar a ação em deslocamento de ar, de ar comprimido preso na garganta, guardado nos armários atmosféricos. Ao final de todo esse processo, como precisava cobrir outros ares com a mesma rotina, ia embora deixando todas as cabeças soltas para trás. Começava tudo novamente no rodar da ciranda do ciclo pluvial. Uns achavam que o circuito da chuva, ao invés de ajudar o pessoal a se entender, era um ritual demoníaco que prendia cada um dentro de sua própria rede moinho. Era feito aquela gente que venta sua vida incessantemente igual, pactuada com o retorno, irmanada com a repetição. Outros entendiam como compromisso tratado no leito de sorte, aquele que recebemos no nascimento, no qual ao fado somos lançados. De qualquer forma, o desfecho era sempre o mesmo, era tudo um eterno outra vez. A nuvem que era igual para todos se modifica ao encontrar cada um, cada história.

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sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

O escutador da quaresma (excerto 8) - Renata Quiroga

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Como ninguém se entendia, nem os Administradores nem o povo da cidade sabiam bem o que estava acontecendo, nem tampouco que solução viria depois de tanto engasgo de voz. Por conta de tanta indecisão ficou decidido que as tratativas de convivência entre os Diferentes e os Iguais passariam para as mãos de um terceiro elemento. Este viria para marcar o contraponto das ideias dos Administradores. O terceiro sempre entra no jogo para defini-lo, o número 3 no jogo é desempate, é o desfazedor de embate. 
A Chuva foi então convocada pelos Administradores para acompanhar a partida da vida e ser esse terceiro elemento intermediador. Enquanto o viver ia rolando no campo da existência, a chuva deveria acontecer por cima de tudo para garantir o bom funcionamento da economia do lugar.

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domingo, 3 de dezembro de 2023

O escutador da quaresma (excerto 7) - Renata Quiroga

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Era um grupo com semblante gemelar. Sentimentos, pensamentos, o mundo e suas visões, seguiam todos a mesma marcha. A perfeição estética da Fala Bonita fez seu grupo ser capaz de controlar a cidade e cuidar para que tudo funcionasse perfeitamente. Era um esquadrão de combate ao inimigo Erro. Não mais que merecidamente, assumiram o cargo vitalício de Diretores da cidade. Cada um dos Fala Bonita era um Diretor em ação da nação sem vogal.
Já o pessoal de Fala Estranha não tinha dublagem paga pelo anunciante, do contrário tinha estilo próprio, mas tão próprio, que cada um falava ao seu modo único. Eles tinham a mania de dar vida às palavras, elas é que eram as donas de si mesmas e não seu falador.

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terça-feira, 28 de novembro de 2023

O escutador da quaresma (excerto 6) - Renata Quiroga

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A fala bonita entoava a rima perfeitamente, enjoadamente rimada entre os versos dos diversos cidadãos que nasceram distintivos, mas de tanto rimar unificaram-se em metade deles mesmos. Não mais reconheciam seus sinais de nascença, as sardas da padronização já haviam se multiplicado e transformado os Fala Bonita em iguais. Há tempos que também travaram guerra com a Dúvida. Não entendiam por que ela vivia o dia todo conversando e falando dentro da cabeça dos Fala Estranha. Uns achavam que era ciúme da fortíssima amizade entre os Fala Estranha e a Dúvida. Mas, na verdade, como os Fala Bonita não se identificavam com estranhamentos e questionamentos jamais iriam bater papo com a Dúvida. Como queriam a Verdade sem diálogo com a Dúvida, decidiram descartar em lixo desligável do planeta todo e qualquer curso de rio que desemboca incerteza.

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quinta-feira, 23 de novembro de 2023

O escutador da quaresma (excerto 5) - Renata Quiroga

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Coabitavam, na Cidade Luz, pessoas que frequentavam as praças, os cinemas e os cafés, contudo quase ninguém se entendia. O lugar era compartilhado por dois tipos de pessoas: os Iguais, conhecidos como Fala Bonita, e os Diferentes, desconhecidos como Fala Estranha. Os Diferentes descendiam dos Divididos e os Iguais, sucessores dos Normais, aqueles que de quase nada sofreram, além de narcisose, inventose e uma aguda normose.
Era certo que Diferentes e Iguais não haviam aprendido o mesmo idioma. Os Diferentes não usavam o código oficial do local que viviam e pior, cada um falava sua própria língua. A convivência entre os dois grupos sempre foi atravessada por muita confusão, e com o passar do tempo a qualidade das relações sofreu muitas rupturas.

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