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sábado, 1 de janeiro de 2022

Maternidade – CLÁUDIA CARVALHO MENEZES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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O que significa ser mãe?
“Mãe é padecer no paraíso...”
            “Coração de mãe não se engana... “
            “Mãe sempre sabe o que faz... “
            E por aí vai, uma lista enorme de mesmices para todas as mães, nem tão mesmas assim. E quão super qualidades! Até mesmo de adivinhar o futuro:” mãe sempre sabe o que é o melhor para o filho.” MAS, paremos para pensar que por trás de uma mãe existe uma mulher, tão humana como qualquer outro humano e que de super, tem apenas o desejo de o ser, como todos os outros humanos!
            Será possível acolher a mulher-mãe, humana e que na sua humanidade forja o seu super!
            - Quantas incertezas durante toda a gravidez!
            - Tantas incertezas durante toda a educação!
            - Será que vai dar certo assim?
            - Vamos tentar desse jeito, daquela maneira...
            - Tentando e acertando, tentando e errando...
            Não há receitas de bolo. Reconhecer os erros é tarefa difícil, no entanto necessária para se tentar acertar. Cada pessoa(filho/filha) é uma pessoa.
 E nesse emaranhado de dizeres (mãe é...  mãe não é...), surge uma mãe solitária na tarefa de cumprir tão difícil desígnio, destino, missão... Temos de libertar a “mãe” desses mil artifícios que aprisionam a maternidade numa tarefa de reproduzir filhos(mulheres/homens) iguais para manterem o mundo no “tudo como esta´”.
            Temos de gritar não. A mãe não é 100%, simplesmente porque não precisa ser, basta ser ela mesma, humana. E o mais incrível, é que revestida desta verdade essencial, a maternidade tem sua nobreza engrandecida, pois é envolta nessa humanidade com suas limitações, que se enfrenta a missão de ser mãe.
De fato, mãe não é a pessoa e sim a atitude, mãe é em si a maternidade: capacidade de gerar um novo ser, no ser que nos tornamos a cada momento. Essa sublime e divina tarefa de ser humanamente mãe, mãe humana é que é verdadeiramente transcendente, divina, capaz de gerar! Gerar seres humanos únicos e autônomos.
            Reconheçamos, em todas as mães, mulheres que únicas em si mesmas seguem se construindo e ajudando a construir o mundo.

EM - VERSO & PROSA - COLECTÃNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

De nuvem em nuvem... - CLÁUDIA CARVALHO MENEZES

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Estava admirando o céu de minha janela, quando uma nuvem em formato de escada me convidou para um passeio inevitavelmente belo! Abri a janela, subi a escada macia e aveludada, toque de seda nos pés. A cada degrau uma surpresa, quanto mais distante da terra, mais a terra era um algo só, amálgama de tudo: carros, prédio, casas, pessoas. Quanto mais subia ao céu, mais meu coração se alargava, minha mente arejava e não sentia os limites deste corpo, tão hermeticamente fechado em si mesmo. Olhava para baixo, e a terra ia ficando sem prédios, sem praças, sem diferenças, tudo um só, um todo único, sem bordas, um contínuo! Quanto mais acima, mais minha mente declinava numa abertura sem retorno! No topo da escada de nuvem, com o ser em plena acolhida para o universo, nada como se jogar sem medos, porque eu, a nuvem, a terra, tudo era um só existir... saltei!
Um avião me levou a outra nuvem, parecida com um dragão com sua boca escancarada! E fui logo adentrando ao convite formal de digestão de minha pessoa, mas nada de ácidos e sim uma sensação gostosa dos vapores de água a lavar o que restasse de passado e futuro. Apenas aquele momento tão ímpar, o presente, único momento que verdadeiramente existe e que muitas vezes desperdiçamos... Mas ali, o que pensar? Nada! O que sentir? Nada! Apenas existir! E existir no meio do esquecimento, sem o tempo...
A nuvem pesada perdeu altitude, transpassou uma árvore. Aproveitei seus galhos e volto a perceber meu corpo, mas um corpo que experimentou a liberdade de estar fora de si! Não dá para voltar atrás. Entre o galho e eu não há limites, tudo é um só. Sussurro ao galho, ele se curva e me lança ao céu...Caio em uma nuvem que lembra as areias da praia de minha infância. Meus pés, tão à vontade, percebem a firmeza de um algodão. E quanto mais caminho, mais próximo do sol, e suas luzes criam um espetáculo à parte, pintam a seu bel prazer as areias desta minha praia... de cinza claro a cinza escuro, de branco a dourado... Não me canso contemplar tão magnífica tela celestial. Deito e respiro a nuvem! Tudo sou eu! Quanto mais absorvo a realidade que vem de fora, mais se dilui meu eu na experiência do encontro...
Há palmeiras no meio de uma avenida, que deixam a paisagem de minha praia ainda mais real! Sento-me embaixo da palmeira, sinto o chão, caminho no meio fio, atravesso a rua, volto pra casa. Entro no prédio, pego o elevador, abro a porta, caminho até a janela e sorrio para o céu que sou eu...

 EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA