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sexta-feira, 28 de junho de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 24) - Geórgia Alves

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A brisa cheira a pedra e sal. O vento sopra sem pedir licença às narinas feridas. O nariz chorou noite adentro. A mudança de ares começaria a fazer efeito? Não levou os costumeiros cigarros. Apenas com o que cobrir as partes íntimas e as mãos livres, afinal dadas a quem conhecia há apenas um par de meses. Foram ao lugar onde o vai e vem oco das ondas embala o sono, onde os mortos jaziam à beira-mar, e Simão, vizinho deles, cozinha para si mesmo. Filmado, o pescador continuou trançando as palhas, com único luxo: o fogão a lenha onde as brasas queimam sobre as ruínas da Igreja de Pedras Ternas. Há anos não mais de pé, tombadas por trás do cemitério. 

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domingo, 23 de junho de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 23) - Geórgia Alves

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Acha aquilo a melhor bebida em toda sua vida. Dó da cozinheira, esta era farta da comida da vila, com tanta água salgada tudo que vinha do mar perdera o gosto e a graça. Na boca e no colo dela. Heleno tinha alegria que brota dos cachos. Era padrinho de Nino. E sempre começava o dia dando de comer às bichinhas, desmanchado em lágrima, feito menino, feliz e bobo.

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terça-feira, 18 de junho de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 22) - Geórgia Alves

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Confirmando veredicto. Para engravidar, e manter a gravidez até o final seriam necessários esforços. A começar pela comida. Guada, desde menina, conhecia bem Heleno, dono de admirável galinheiro, com centena de bichinhas de raça, pura estirpe. Galinhas vermelhas, como a avó de Guadalupe, Ludmila.
 Ruivas e recém-nascidas das primeiras galináceas americanas, batizadas New Hampshire. Com ovos e carne branca, fácil resistir às carnes vermelhas. Ainda o bom humor do compadre Heleno. Homem gentil, bem dado. Guadalupe flutua ao lado dele.

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quinta-feira, 13 de junho de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 21) - Geórgia Alves

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Longe dos cuidados pela sobrevivência dos outros pôde pensar na própria. Guadalupe se via como indivíduo. No princípio do passeio foi assim. Olhando o mundo passar pela janela e os pneus devorando a estrada. Andar de carro, afinal, não era tão ruim. Nem nauseou. 
Depois, a pobre cozinheira sente os bichos que prepara em vasilhas, a quem dera a comer em piquetes. Na clínica da capital mais próxima, Arco Branco, aplicam a massa gelada nas partes. Já foi bem difícil de esquecer. Depois entram com bracinho mecânico. Lá dentro a coisa, sem olhos, enxerga.

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sábado, 8 de junho de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 20) - Geórgia Alves

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Chegado dia dois, dos mortos, o povoado fica vazio. Povo atento às datas religiosas, marés. Naquela hora viram. Simão era o gênio, bem humorado e perspicaz. Paulo tinha um gênio. A violência de seu pai–patrão o tornou não brutal, mas arguto e espirituoso. Deixa nele rastro de silenciosa inteligência. O bom companheiro de viagem, marca, anota tudo que Paulo precisará depois. Inteligência fina, Paulo, a esfinge, chama-o “o filho adotado que um dia me será útil”. Nem na volta, economizará no português litorâneo das bandas de Pedras Ternas.

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segunda-feira, 3 de junho de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 19) - Geórgia Alves

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Paulo amuou-se a viagem inteira e nos fez voltar mais cedo. Como Pedro, negaria três vezes no dia que lhe perguntaram se nos conhecia. Eu sem a imagem da captura do chocolate, teu riso bobo, e a morta da cova rasa vinha o tempo todo de volta à cabeça. Adequadamente assuntará depois. Era puro impulso, às vezes, assim, é só fogo.

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terça-feira, 28 de maio de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 18) - Geórgia Alves

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Antes disso tudo era contido e solenemente pensado. Sentido de tanto pensar. Um para o outro, como passos de uma valsa. Havia mais espaço para elegâncias e trocas de um bem-querer milimetricamente calculado. Jaú troca de lugar na jangada, segue de pé com as mãos apoiadas nos ombros de Cora. Contendo as lágrimas de seu belo nariz. Sentada num tronco banco da embarcação.

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quinta-feira, 23 de maio de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 17) - Geórgia Alves

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Levantam, sem preposição, quatro da manhã. O pescador faz saber, por acaso, a hora de partir. Lá estão. Paulo e Simão rolam jangada sobre troncos. Passa meio corpo além da coberta. Não saltitam ao verem vultos se chegam. Paulo levanta lanterna e a fumaça do querosene queima a narina de Cora. Em viva carne, já era dada às crises de rinite. Fritou mais por dentro. Assustado, ficou dizendo baixinho em seu ouvido, “afinal recebo meu primeiro espirro sincero”, Jaú brinca com o zelo que levou o amor às alturas, até ali. 

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sábado, 18 de maio de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 16) - Geórgia Alves

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Todos os dias a moça faz o trabalho dela em euforia. Ao som da rolha, servia pratos em sincronia fina. Maria Rita desapareceria sem deixar ver seus passos, leves e curtos, de volta à cozinha. Jantamos à luz das lamparinas. 
Nem ela, nem ele, nem havia o nós nos sonhos mais ternos, anteviam a salvação do mundo se daria por tal beleza tão suprema. A imaginação superada. Entendeu dar-te tempo e escolher Pedras Ternas. Não concordara de início, depois não foi necessária mais nenhuma palavra senão as malas prontas e o corpo no carro.

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segunda-feira, 13 de maio de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 15) - Geórgia Alves

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Logo quando a conheceu, estava como um bebê que terminou de mamar. Já quase se arremessando contra seu seio. Pensando com a boca contra os seis, com a boca que falava as coisas bem ditas diante do corpo de homem. Sim, tinha predisposição a amá-la e não se via em terras animadamente tropicais, indisposto. 
Seu brinquedo preferido, escolher o decote de Cora para alvo, tomado de alegria pela visão da árvore e da separação das maçãs maceradas pelos dedos.

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quarta-feira, 8 de maio de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 14) - Geórgia Alves

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Desde este dia, aleatoriamente se vê Cora na observação fixa de uma ambulância abandonada em terreno baldio, qual imagem de si mesma, como se na brancura enferrujada do veículo expusesse seu descaso consigo e o mal ímpeto de querer sempre amar e consertar as coisas que não têm jeito, naquela fixação punha-se na vitrine escolhida, ao fim e ao cabo, pelos mortos em vida. Tantos deram últimos suspiros da alma. Feito Cora. Homens trabalham naquela ambulância depois que deu a olhar, sobre suporte de oficina da vizinhança, trator fará eternidades deste dia.

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sexta-feira, 3 de maio de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 13) - Geórgia Alves

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Até destroços de avião parecem menos com a imagem do belo corpo, perdera toda massa nos últimos tempos. Havia falhas na vivacidade da pele. Vira desde princípio o jeito de ser tigre e cavalo sem freios, positivo. 
A ânsia guardada no corpo vira fenda na testa franzida pela atitude assombrosa de denegar o Estado de amor em que se encontra. 

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domingo, 28 de abril de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 12) - Geórgia Alves

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Depois da mínima morte. E quem não tem olhos ou ouvidos, quem não é capaz de ver como o amor nos faz levitar. E a alma passeia tal se faz em galeria de arte, vendo o outro, seguindo pelo emaranhando das digitais. 
Estão vis à vis, à parte, espero que não pairem dúvidas. Amam-se todos os dias desta vida. Duvidas? Oh, não, não duvides, imagines nunca mais comer a fruta preferida, o que fazer com a língua? Sem a cor preferida, a que serve olhar a tela? Sente falta do cheiro? Pois bem. Cora é o odor que Jaú precisa e lembra quando adormece. Depois de fazerem amor.

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terça-feira, 23 de abril de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 11) - Geórgia Alves

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Houve um breve suspiro, Cora se recupera da sensação de tontura, Jaú da enorme frustração e contenção de amor quase feito, deita-se enquanto ela desfaz as roupas da mala, colocando-a ao lado do corpo dele, seu grande mistério é saber como foi capaz de abrir os olhos, estava tão enlevada pela sensação de ternura, de desejo de fazer amor. 
Jaú quase não escuta mais, sua voz fica baixa, como um grão de areia quisesse emitir sons sobre o arrastar tanques da primeira grande guerra. Voz em luta contra o pesado silêncio que toma conta do quarto.

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quinta-feira, 18 de abril de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 10) - Geórgia Alves

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Cora congela diante da imagem. O corpo dela não é mais de cinco segundos antes. Nem o dele. Jaú se afasta. Pensa, “viemos passar segunda lua-de-mel, neste paraíso, e quem é você Cora, para dizer esta palavra em meu ouvido?” Não diz nada, mas encara a mulher por um segundo. Reflete o que vai dizer, aquele instante pode se repetir pela eternidade. Uma eternidade que não deseja. 

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sábado, 13 de abril de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 9) - Geórgia Alves

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Quando tudo para diante dos olhos de Cora, Jaú está de costas, ambos diante da porta do quarto de frente ao mar. Cora abre um segundo os olhos antes tão bem fechados e vê sepulturas. Sim, ondas batendo sobre lápides ao expor ossos. Jaú só para ao ouvir em seu ouvido, baixinho... 
– Ossos? – Ouvi errado. Pensou ele. 
É delírio. – Cora quis afastar a visão.

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segunda-feira, 8 de abril de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 8) - Geórgia Alves

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Finalmente. Os desejos coincidem. Ele retribui o beijo. Seu corpo é grande, mesmo para o dela, ambos andam pesados por estes dias. Por isso procurar pelo reencontro em Pedras Ternas. Aqueles dias seriam dias de reencontro. Enquanto a abraça, Jaú lhe beija os olhos, já estão, a esta altura, bem fechados, e os corpos passam a se mexer ao som do vai-e-vem das ondas. É o que parece ser.

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quarta-feira, 3 de abril de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 7) - Geórgia Alves

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Cora escuta e percebe o que tinha em mente, percebe que, neste exato momento, é tomado de calafrios somente de imaginar que ela não deseje o mesmo e que a liberdade dela não querer venha se interpor ao que sente. Por acaso, algum pensamento bobo, alguma racionalidade inconveniente venha, por acaso, roubar-lhe gratuitamente o direito a ter aquele corpo. O corpo de Cora sobre o dele. 
Ela deixa o vento soprar seus cabelos.

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quinta-feira, 28 de março de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 6) - Geórgia Alves

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Sim. Para ele, era preciso checar, tragicamente, que tudo que tinha como grande algo que possuía nesse mundo, sequer era dele e urgia que ela fosse capaz de perceber o desejo dele. Cora repousa os olhos como Cristo rendido e é pega na expressão desse jogo infindável entre eles, o que une dois corpos ainda é mistério para o homem, sobretudo o homem que dá de ombros ao desejo que sente diante de um corpo de mulher. Sobretudo um homem que jamais consegue fixar seu desejo em um mesmo corpo.

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sábado, 23 de março de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 5) - Geórgia Alves

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Ouvem a voz da outra cozinheira dizer seu nome, e logo voltam à resolução de ter em mãos a chave que levará ao bangalô reservado. A mocinha, imersa, segue a enfileirar suas esculturas feitas de fios finíssimos. Logo decoram o centro da mesa. 
É a primeira vez deles naquela praia. Cora e Jaú, representante de uma marca de enlatados cuja especialidade é abrigar besuntadas em óleo comestível sardinhas. 
É verdade que um dia, foi pescador.

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