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sábado, 27 de agosto de 2022

Lições do alto mar (excerto) - ANANDA LIMA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O físico também requer cuidados. Então, buscar um profissional nutricionista para orientar uma alimentação saudável faz parte desse processo, atividade física também. Confesso que, nesse aspecto sou bastante relapsa, mas tenho estabelecido uma luta íntima para me disciplinar. A caminhada me atrai, dá sensação de liberdade, aproveito o momento para pensar questões do cotidiano e para conversar com o meu anjo guardião.
Essa vivência me fez constatar a existência de alguns desertos durante a jornada. Esses desertos são momentos específicos, temos consciência de que poderemos ter todo o amparo familiar e de amigos, mas a vivência é nossa. Ninguém poderá viver por nós, passar pelo que precisamos passar. Podem nos acompanhar, mas não podem nos substituir. Então, essa tomada de consciência é muito importante para nos fortalecer e encorajar diante do medo e da incerteza, para trazer confiança às pessoas que estão cuidando da gente e, principalmente, para contribuir com o tratamento. Podemos ter os melhores médicos, os melhores recursos, mas se não contribuirmos com o nosso emocional, nossa postura, ficaremos pelo caminho. Em muitos momentos, tive medo, não conhecia os procedimentos, não sabia das reações, como reagiria. Mas ia com medo mesmo, confiando na ciência e em Deus.

EM - 2020 PARTINDO PARA ALTO MAR - ANANDA LIMA - IN-FINITA

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Ancorando no porto (excerto 2) - ANANDA LIMA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Certa noite, um mês depois de retornar para casa e ter terminado as sessões de rádio, senti uma dor intensa na mama direita. Em seguida, uma sensação de queimação interna, parecia lavas de um vulcão descendo e queimando. Fiquei assustada. Tentei manter a calma para não deixar a família em pânico, mas interiormente, comecei a pensar, o câncer voltou e agora veio pior. Pedia a Deus para estar errada.
Ao ir na médica, constatamos que foi uma reação da radioterapia. A médica explicou que é comum ter reações, apesar de pouco se falar. Normalmente, fala-se muito da quimioterapia. Em alguns pacientes é comum ter algumas reações após às sessões de rádio.
Fiquei muito aliviada após o exame e as orientações da médica. Entendi que passaria a viver com certo medo e sobressalto em relação ao meu corpo e a qualquer alteração.
Por outro lado, sentia-me ancorando no porto. Estava de volta ao meu lar, junto da minha família, livre do tumor. Realizados os principais procedimentos para o tratamento, agora era seguir e deixar que o tempo sinalizasse percursos. Sabia que vez ou outra seria levada para a embarcação, seja para fazer acompanhamento médico, seja a insegurança natural de quem teve um câncer.

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quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Ancorando no porto (excerto 1) - ANANDA LIMA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Quando estamos muito tempo em alto mar, o que mais queremos é ancorar num porto seguro. A vacina foi se mostrando como um antídoto eficaz para lutar contra o vírus da COVID-19. O Brasil, timidamente, inicia o processo de vacinação, mas com interrupções frequentes por falta de insumos para elaboração de mais vacinas ou falta de vacinas vindas de outros países. O conflito de interesses leva o país ao caos. Constatamos que, nossos governantes não governam para o povo, mas para seus próprios interesses.
Enquanto isso, vivemos um misto de emoções. A esperança da vacina que já era realidade em muitos lugares. O medo de novas ondas de contaminação, bem como de novas cepas, visto que onde ocorreu foi ainda pior que a primeira experiência.
Os estudos acerca do vírus eram incipientes, não se tinha entendimento pleno de sua ação, variações e as sequelas por ele deixadas. Seguíamos com esperança diante do avanço da ciência em garantir vacinas em tempo tão hábil.
Tive que atravessar o estado, em média, umas dez vezes durante esse ano para fazer o tratamento mais intensivo. Exigiu muito de nós, em todos os sentidos. Era uma travessia em tempos atípicos, permeada de melindres.

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sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Traçando novas rotas (excerto) - ANANDA LIMA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O ano de 2020 se colocava como desafiador. Para a grande maioria das pessoas era a primeira vez a viver uma pandemia, até então, apenas estudada em livros. Ninguém nunca imaginou que um dia poderíamos viver algo assim, que aquele vírus, noticiado em dezembro de 2019 na China, iria ocasionar tantos malefícios.
Mas o que fazer com tudo aquilo que estávamos a viver? Iríamos continuar apenas como expectadores, a reclamar? Teríamos condições de ressignificar aquele momento?
Muitas pessoas se redescobriram durante a experiência de 2020. Mudaram de atividade profissional, se aperfeiçoaram profissionalmente estudando mais e se reinventaram. Algumas enxergaram coisas que estavam cotidianamente diante dos seus olhos, mas não viam. Seja a graciosidade do companheiro(a), seja a grandeza dos filhos que estavam a lhes dar grandes ensinamentos. Descobriram o verdadeiro sentido da palavra lar, que transcende a casa. Outros, se autoconheceram e estavam a si lapidar, como diamantes.

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domingo, 7 de agosto de 2022

Encontrando pistas (excerto 2) - ANANDA LIMA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Conforme avançávamos a quilometragem, meu coração acelerava, chorava, copiosamente. Como desejei aquele momento! Era um reencontro com a cidade, com o bairro, com a casa, com a família. Era um choro de alegria, de encontros. Abraçar minha netinha, minha filha, minha mãe, senti-las, era uma sensação inexprimível. Olhei para cada canto da casa e amei profundamente tudo o que ali tinha. Não era o aspecto material que me importava, mas a representação emocional que aquele lugar simbolizava naquele momento. Era o retorno ao meu lugar de pertencimento, de histórias, de constituições diárias.
Sem dúvida, essa experiência me oportunizou maior valorização da família, do lar, do meu lugar no mundo.
Meu emocional foi se equilibrando e, rapidamente, a cirurgia cicatrizou-se. Daí, a importância de entendermos que o fator emocional é muito importante para o tratamento de qualquer patologia. A medicina não fará milagres se o paciente não colaborar com o equilíbrio de seu emocional. É natural termos medo do desconhecido, é natural ficarmos mais introspectivo, mas não podemos deixar que isso seja uma constância, que isso nos domine. É preciso ter esperança e uma atitude positiva diante de si e da situação que nos chega.

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terça-feira, 2 de agosto de 2022

Encontrando pistas (excerto 1) - ANANDA LIMA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Voltar para casa, após tanto tempo distante, era um bálsamo. Saímos de madrugada, nem dormimos direito. As restrições permaneciam em alguns setores da sociedade. Algumas coisas eram liberadas a retornar, mas com protocolos de segurança a serem seguidos.
Aquela viagem de retorno tinha um sentido muito especial pra mim. Eu desejava aquilo com todas as minhas forças. Durante o percurso íamos ouvindo músicas, lendo livro, conversando e assim, fomos vencendo as distâncias. Passamos para ver meu pai que sofria demais com tudo o que estava acontecendo. Ele mora na região norte do estado. Dormimos uma noite lá e seguimos para casa. Nosso destino era o Oeste.
Alguns quilômetros, após termos atravessado o rio São Francisco, senti uma atmosfera diferente. O céu era vibrante, limpo, poético. As plantas típicas do cerrado emolduravam a paisagem. Olhava para tudo aquilo, via e sentia poesia. Comecei a chorar.
A sensação que tinha era de liberdade. Era como se eu estivesse aprisionada, exilada. Como dói você desejar ir para casa e não poder. Fiquei imaginando o quanto sofreram homens e mulheres exilados, ao longo da história, sem poder retornar às suas origens.

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quarta-feira, 27 de julho de 2022

Navegando juntos (excerto) - ANANDA LIMA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Muitas mulheres são abandonadas por seus companheiros quando mais precisam deles. É muito comum, infelizmente, mulheres diagnosticadas com câncer se verem sozinhas neste processo. Alguns homens dizem não suportar a convivência com a mutilação e com o tratamento que leva anos.
Quando escolhemos uma companhia afetiva para a vida, normalmente imaginamos a partilha de alegrias, cumplicidade na vivência, amparo nas torrentes. Não é uma realidade para muitas mulheres, pelo contrário, além dos desafios impostos pela doença, ainda há o sofrimento envolvendo a vida afetiva e familiar.
Fazer um tratamento de câncer significa sofrer alterações no corpo, seja em decorrência de uma cirurgia ou uso contínuo de medicamento. As cirurgias estão cada vez mais procurando preservar a mama, a autoestima das mulheres. A mama é símbolo da feminilidade, tem relação com a vaidade e estima de muitas mulheres.
Essa experiência dolorosa me mostrou a força do amor, como ele se faz presente nas sutilezas da vida, especialmente nas adversidades.

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sexta-feira, 22 de julho de 2022

À deriva em alto mar (excerto 5) - ANANDA LIMA

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Hospital grande. O barulho de macas indo e vindo é enorme. Aquilo, aparentemente simples, causa-lhe uma expectativa, um frisson. Mais cedo estava ansiosa com a mudança de horário, mas as músicas e preces em áudio me ajudaram acalmar.
Ao despedir-me do meu marido, quis chorar, mas tentei conter. Fui para a minha jornada. A enfermeira passou o cinto e começou a empurrar a maca. Lembrei-me de várias mensagens recebidas dias antes, que diziam: confie na luz, entregue-se à luz.
Pensei por um instante: a luz aparecerá no centro cirúrgico? A luz será de um dos meus chakras? Irei me desdobrar e verei a luz próxima a mim ou em mim?
Eram tantas hipóteses para aquelas mensagens. Agora estava deitada, passando por inúmeros corredores e quando olhava para cima eram tantas luzes em sua extensão. Seriam aquelas luzes? – Pensava.
Se fosse, já tinha perdido várias oportunidades de mergulhar nelas, pois já tinha passado por diversas.
Enfim, chegamos no elevador. Subimos. Chegando ao destino, a porta se abriu. Era um ambiente animado, música suave. Dei um leve sorriso. Pensei: aqui é bom, tem uma atmosfera legal. Tinha um homem e uma mulher conversando, todos de azul, com aquelas roupas especiais. Já fui deduzindo que seriam os médicos responsáveis por minha cirurgia.

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domingo, 17 de julho de 2022

À deriva em alto mar (excerto 4) - ANANDA LIMA

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Até o momento não conhecia o médico que faria a cirurgia. Ouvir aquilo de uma paciente, era um excelente parâmetro. Conversamos um pouco mais, então quis me recolher interiormente. Fui assistir uma palestra espírita, não conseguia me concentrar em leitura. Estava ansiosa. Até que o sono veio.
A madrugada foi movimentada. Primeiro, entrou uma enfermeira cantando no quarto e medicou as pacientes que já tinham feito cirurgia. Voltamos a dormir. Depois, apareceu uma médica. Acordei com ela junto de mim dizendo que o horário da cirurgia havia mudado, em vez de 7 h seria às 9 horas. Fiquei até com dificuldade de discernir se era sonho ou realidade. Fiquei meio aérea, até que a ouvi falando outras coisas com outras pacientes. Concentrei-me na informação dada. Aquilo era importante. Minha mente, minhas emoções, tudo estava concentrado para as 7 horas da manhã. Antes do dia amanhecer, mais uma enfermeira passou pelo quarto. Ríamos de tudo o que acontecia. O assunto principal a cada “acordada” era a fome que tomava conta de todas ali, comida de hospital é bem restrita. 

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terça-feira, 12 de julho de 2022

À deriva em alto mar (excerto 3) - ANANDA LIMA

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O Hospital Aristides Maltez é um grande hospital, atende pessoas de toda a Bahia e até de outros estados. É especializado em câncer. Atende todo tipo de câncer, inclusive o infantil. Comecei a me conectar com aquele espaço, tendo admiração pelo trabalho empreendido pelos idealizadores e colaboradores.
Chegou o dia de internar-me para a cirurgia. Interna-se um dia antes para realizar os procedimentos pré-cirúrgicos necessários, adequadamente. Meu marido e minha irmã me acompanharam o máximo que puderam, mas chegou um momento em que eles não podiam mais.
Iniciava ali um deserto em alto mar. Nem sei se isso é possível, mas no sentido figurado, acredito que sim. Talvez seja mais plausível dizer que estava sozinha numa ilha, correndo forte risco de ser inundada pelas águas.
Feita a triagem, fui encaminhada para o quarto. Havia seis camas, algumas mulheres já estavam lá, já tinham feito cirurgia. Nos acomodamos. Quarto grande, arejado, organizado. Estava me acomodando. Deixaram meu marido entrar rapidamente. Ele viu que eu estava bem, acho que o acalmou um pouco. Como não podia demorar, logo teve que se retirar. Levei um livro, fone de ouvido para escutar algumas palestras sem incomodar minhas companheiras de quarto.

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quinta-feira, 7 de julho de 2022

À deriva em alto mar (excerto 2) - ANANDA LIMA

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Alimentada pelo diagnóstico de uma doença grave, sentia-me corajosa a expressar meus pensamentos e ideias, muitas vezes sem filtro algum. Tinha hora que parecia estar ficando louca. Coisas que jamais falaria, estava encorajada a dizer. Comecei a notar o quanto estava ferindo as pessoas, isso foi me angustiando. Resolvi me afastar de algumas atividades que ainda permanecia de maneira remota.
Voltar para casa antes da cirurgia foi bom. A sensação de ter alguns dias para aproveitar a família e o meu cantinho era maravilhosa. Então, veio a ideia de alimentar um canal na plataforma YouTube com textos de minha autoria e algumas contações de histórias. Isso era, implicitamente, a expressão do drama que ora vivia, queria oportunizar às pessoas, caso ocorresse algo grave, o acesso ao que tinha produzido.
O câncer é uma doença milenar que causa pânico nas pessoas. Mesmo com os avanços na medicina, sempre tem um olhar de tragédia sobre ela. E eu estava ali me afetando dramaticamente.
Até então não tinha me preocupado em viver. Estava aflita com a família, com os meus escritos. Não tinha parado para pensar se o tratamento daria certo ou não. Era como se eu estivesse me sabotando, tentando bloquear o que estava vivendo.

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sábado, 2 de julho de 2022

À deriva em alto mar (excerto 1) - ANANDA LIMA

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A pandemia avançava sobre o país e no mundo inteiro. As imagens da Itália, França e Estados Unidos impactavam a todos. Corpos sendo colocados em câmaras frigoríficas, enterros coletivos. Era desolador o que vivíamos.
O que parecia ser uma suspensão de atividades por quinze dias, estava se firmando sem data para retorno. As escolas, as universidades e o comércio estavam fechados, com suas atividades suspensas. A essa altura, encontrávamo-nos em alto mar, à deriva, à espera de um vento favorável ou de um milagre da ciência.
Os telejornais, as revistas, jornais eletrônicos estampavam a crise sanitária que o mundo vivia. O Brasil, ainda tinha outro agravante, tinha uma crise política ou para melhor denominar, uma guerra política. Não sabíamos se nos preocupávamos com a expansão do vírus ou com a briga de interesses e egos dos nossos gestores.
As pessoas estavam reagindo de diferentes maneiras. Muitas estavam em pânico; outras depressivas, por estarem há tanto tempo isoladas, com restrições na vida social; e outros, ainda, queriam viver como se não houvesse amanhã, de forma completamente irresponsável.

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segunda-feira, 27 de junho de 2022

Içando velas (excerto 8) - ANANDA LIMA

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Um amigo tinha conseguido um horário com outra mastologista. Para não desmerecer o seu esforço em me ajudar, fui à consulta que era na mesma semana, na quinta-feira. Estranhamente, a médica sinalizou que seria necessária uma biopsia antes de qualquer procedimento. Achei estranho, porque era diferente da explicação dada pelas duas médicas anteriores. Mas era uma mulher bem experiente. Fomos para casa na dúvida se fazia ou não. Depois de longas conversas em família, resolvemos fazer. No dia seguinte, estava indo para a clínica sinalizada por ela. Um procedimento extremamente doloroso. Quando deitei na cama, uma médica fazia a ultrassom e a outra inseria a agulha que era movimentada conforme a orientação do aparelho. Senti uma desolação humana, uma vulnerabilidade. Senti a presença de amigos espirituais que me acalmaram.
Saí desse procedimento tão fragilizada, parecia que tinha perdido parte das minhas forças, minha energia. A clínica ficava próxima à orla. Antes de entrar no carro quis, ainda que frágil, olhar o mar. Ventava muito, tinha policiais próximos, não era permitido aproximação e nem permanência na orla. Então, senti por alguns instantes a brisa do mar, contemplei aquele horizonte infinito que estava diante dos meus olhos e orei. 

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quarta-feira, 22 de junho de 2022

Içando velas (excerto 7) - ANANDA LIMA

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O setor da mastologia tinha algo diferente. Entreguei o meu amado cartão de matrícula à recepcionista e sentei. Nas paredes tinha alguns desenhos e traços que traziam beleza ao espaço. Observei que num canto tinha vários talões, fui lá e peguei um, comecei a manuseá-lo. Era pra contribuir com o hospital. Tinha informações de como fazer. Coloquei-o na minha bolsa.
Sentei, peguei o livro e segui a leitura. Passou um pouco, meu nome foi chamado. Estava sozinha, por medida de segurança meu marido não pôde entrar. Dia chuvoso, ele e meu cunhado estavam do lado de fora, esperando há tanto tempo. Por outro lado, era completamente compreensível, afinal as medidas tomadas pelo hospital eram mais que necessárias. O momento exigia outra organização e dinâmica de procedimentos.
Lá, segui em direção à sala à qual fui enunciada. Quando cheguei, uma médica vibrante e acolhedora estava diante de mim. Ela me escutou, olhou os exames, em seguida me examinou. Então, confirmou o mesmo diagnóstico dado pela primeira especialista.
Ali estava a segunda confirmação de que tinha algo que merecia mais atenção na minha mama. A médica, completamente empática, foi cuidadosa ao confirmar. Ela explicou que no meu caso tinha que iniciar pela cirurgia e que já iria agendar naquele momento.

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sexta-feira, 17 de junho de 2022

Içando velas (excerto 6) - ANANDA LIMA

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Enfim, fui chamada à tão esperada entrevista, à tão esperada enfermeira. Cheguei na sala com o meu sacolão de exames. A cadeira encontrava-se a certa distância, fui orientada a sentar-me. A enfermeira fez alguns questionamentos, anotações; mediu peso, pressão, temperatura; olhou os exames, solicitou que aguardasse na recepção, que seria chamada pela atendente para receber o tão sonhado cartão de matrícula. Não me disse nada sobre quando e como seria atendida.
Voltei para a sala de espera. Abri o livro para continuar a leitura. Daí, entra uma mulher, que chama a equipe da recepção e dá alguns comandos. Neste instante, escuto ela dizer “quatro vagas”, mas não sabia do que se tratava. Passou mais um pouco, fui chamada no balcão. A moça me pergunta se teria disponibilidade para passar pela médica naquela tarde, meu coração em milésimos de segundos vibrou interiormente. Peguei aquele cartão de matrícula com tanta vontade, queria gritar de tanta alegria. Quando olhei o relógio já era quase meio-dia, tinha menos de uma hora para estar no setor de mastologia.
Minha energia já era outra, de esperança. De certa maneira a pandemia estava me favorecendo, muitas pessoas que moravam no interior não estavam indo às consultas e procedimentos por conta das restrições sociais. Então, naquela manhã surgiram quatro vagas e uma era minha!

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domingo, 12 de junho de 2022

Içando velas (excerto 5) - ANANDA LIMA

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A noite foi de ansiedade. Amanheceu chovendo. Logo cedo, eu, meu marido e meu cunhado fomos para o hospital. Enorme o espaço. Parou o carro para que eu pudesse descer, enquanto eles iam procurar um lugar para estacionar. Fui buscar o setor de triagem, algumas pessoas foram me sinalizando. Quando cheguei nessa ala, fiquei impactada. Eram muitas pessoas. Eram pessoas sentadas, em pé, em macas, parecia uma cena de filme de guerra. Entrei na fila. Fiquei observando aquele cenário, veio uma vontade enorme de chorar, já não tinha certeza do que estava vendo. Meu marido e meu cunhado demoraram um pouco para chegar.
Por fim, meu marido se aproximou. Notou que eu não estava bem, ficou ali tentando me acalmar. Tentava disfarçar as lágrimas. Junto àquela multidão, o fato de estar chorando poderia despertar o medo de contaminação em outras pessoas. Depois de um bom tempo, fui chamada para entrar em uma sala de espera, mas não podia ter acompanhante, por questões de segurança. Eram novos tempos, novos protocolos de segurança. 

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terça-feira, 7 de junho de 2022

Içando velas (excerto 4) - ANANDA LIMA

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Por sorte e cautela, no carro tinha água e algum alimento que nos auxiliava numa parte da viagem. Havia momentos no carro que o silêncio era dominante. Eu, com as minhas inquietações, e meu marido certamente com as dele. Ficávamos observando aquelas paisagens, doía o coração quando víamos pontos de alimentação e comércio fechados. Ali estávamos tendo dimensão da pandemia, da gravidade do momento.
Numa parte da estrada resolvi ler um livro. Aproveitei para lê-lo em voz alta, para meu marido. Ora lia, ora comentávamos algo que nos chamava atenção. Fomos vencendo as distâncias. Não fomos parados nenhuma vez pela polícia rodoviária. Seguimos sem maiores percalços.
Quando chegamos na casa da minha irmã, todos nos esperavam no portão. Segurei para não chorar. Ela possui uma alegria singular, mas a senti um tanto comovida. Estavam todos em casa, sem trabalhar, de quarentena. Aguardamos a tão esperada terça-feira, dia em que iria para o hospital referência em câncer no Estado, o Aristides Maltez. Inicialmente, estava torcendo para que meu encaminhamento fosse para o Hospital Irmã Dulce, a santa da Bahia. Ela e o seu legado me inspiravam confiança.

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quinta-feira, 2 de junho de 2022

Içando velas (excerto 3) - ANANDA LIMA

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A viagem era diferente de todas que já tinha feito em minha vida. Arrumar as malas, documentos, exames, nunca foi tão penoso para mim. Ia e não sabia quando voltava. Não sabia o que iria acontecer.
Na noite anterior à viagem, escrevi uma carta para minha filha. Deixei sobre a mesa para que ela pudesse encontrar com facilidade. Na carta, falava do nosso amor e de nossos compromissos uma para com a outra. Falava o quanto ela era importante como bússola na minha vida. Pois, foi por ela que tracei e percorri todos os caminhos até ali.
Não foi uma noite fácil, tampouco dormimos. A viagem era cheia de incertezas, tínhamos receio de a polícia rodoviária proibir que seguíssemos o itinerário. Então, coloquei no carro uma sacola imensa, bem visível, com os exames e o relatório médico. Caso fôssemos parados e questionados sobre a razão de estar nos locomovendo em tempos de pandemia, seria plausível para convencer os policiais.
Quantas incertezas vivíamos. Era a incerteza do que iria acontecer com o tratamento, era a incerteza de poder chegar realmente ao destino para iniciar o tratamento... a mente estava em ebulição. Por outro lado, vivia um medo enorme de o meu marido se contaminar com o novo vírus, pois na infância ele teve sérios problemas respiratórios. Se algo acontecesse a ele, naquele momento, me sentiria culpada.

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quinta-feira, 26 de maio de 2022

Em terra firme (excerto 4) - ANANDA LIMA

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Chorei por algum momento. Senti um afago de quem acolhe, acalenta. Permaneci ali naquela energia silenciosa por alguns minutos até que outras pessoas chegassem sem nada perceber. Realizei as atividades propostas e ao término, fiz o comunicado do que estava acontecendo. Percebi um certo susto, mas nem eu estava entendendo direito tudo o que estava acontecendo e, por isso sentia dificuldades de ser clara.
Nesse mesmo dia recebi a ligação de um médico amigo, trazendo orientações e palavras que me acompanharam em todo o percurso “Você não está sozinha!”– disse ele. O final de semana foi desafiador, pois tinha algumas atividades assumidas anteriormente, mas ao mesmo tempo, soava como oportunas para dialogar com as pessoas, cientificá-las da minha situação. Consegui conversar com os grupos envolvidos sem me emocionar e assim me afastar de algumas atividades.
Na segunda-feira, fui à escola conversar seriamente com meus alunos e falei a respeito da necessidade de me afastar. A partir daí, fui em busca de meios para a realização do tratamento. Com certa dificuldade, mas ainda conseguia me sentir em terra firme, ainda que sem muita noção do amanhã.
Hoje, refletindo com distância dos acontecimentos, percebo que inicialmente minha preocupação era com os outros, a família, os amigos, as atividades assumidas. Morrer não me afligia, mas pensar em deixar a família me preocupava bastante. Era uma sensação que tinha coisas a serem feitas, que as pessoas precisavam de mim. Fico refletindo se neste pensamento não havia um tom de prepotência da minha parte, no sentido de me sentir o eixo familiar.

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sábado, 21 de maio de 2022

Em terra firme (excerto 3) - ANANDA LIMA

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Os dias se passaram e o mar tinha ficado distante. Viajamos mil quilômetros desde o centro do país só para reverenciá-lo. Agora era hora de retornar à normalidade da vida. Voltamos ao cotidiano com trabalhos, estudos, atividades sociais e religiosas. Eram as terras firmes do Oeste.
Os primeiros dias do novo ano corriam dentro da normalidade. Vez ou outra, era noticiado mais casos do novo vírus na China, mas continuamos não dando importância. A vida seguia.
Final de janeiro, a sensação de incômodo na mama se repetiu. Em fevereiro novamente. Antes que o mês finalizasse, fui diretamente à mastologista. Ela, após escutar-me atentamente sobre o que sentia, fez o exame apalpando minhas mamas. Indicou a necessidade de se fazer uma mamografia. Dias depois, o exame foi realizado e o laudo constatou uma alteração que precisava ser investigada. Solicitou uma ultrassonografia da mama que foi feita no mesmo dia. Então, no dia doze de março, a médica confirmou algo que desconfiava estar acontecendo comigo.
Enquanto estava deitada na cama para o exame e a doutora me examinava com aquele aparelho, algo em mim dizia que aquilo iria mudar a minha vida, que eu me preparasse. Veio uma vontade de chorar, mas tentei segurar. Observei um certo silêncio por parte da médica e seu olhar clínico, investigativo na condução do exame, como se buscasse certeza do que via.

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