quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 204 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

204

A generalidade das pessoas confunde conhecimento com inteligência, mas este equívoco pode ser desfeito achando a relação entre ambos.

O conhecimento é acúmulo de saber. A inteligência é o entendimento prático do que se sabe e, após a primeira aplicabilidade desse saber, deixa de ser inteligência, passando a fazer parte do acúmulo de conhecimento.

Para melhor entendimento façamos este exercício: Temos uma criança pequena e um interruptor. Com o tempo ela vai saber que aquele objecto tem um nome, uma função, e que ela (criança) pode interagir com ele (objecto). Até aqui ela apenas tem conhecimento. A inteligência só aparece quando ela colocar em prática esse conhecimento e, através do interruptor, iluminar a sala escura.

No entanto, essa demonstração de inteligência não se repete, porque a repetição deriva do acúmulo de saber e já não de um acto de inteligência. Por mais vezes que a criança ligue ou desligue o interruptor, esse acto já não é de inteligência, mas sim de conhecimento porque, por experiência própria, já sabe o que acontece em cada um dos momentos.

Assim, podemos concluir que o conhecimento é uma condição evolutiva (porque há acréscimo de saber), enquanto a inteligência é uma condição momentânea (porque a demonstração de inteligência só tem uma aplicabilidade por cada saber).

Conhecimento e inteligência são dois conceitos que não podem ser confundidos, mas dependem, isso sim, um do outro.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 203 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

203

Refletir na vida possibilita-nos ordenar as informações, que adquirimos de forma aleatória (uma aqui, outra acolá, uma mais adiante, outra bem mais tarde), e dar-lhes uma concretude que, de outro modo, seria difícil atingir.

Este processo de revelação faz-nos alcançar um outro nível de entendimento, tanto das coisas complexas como das irrelevantes.

Peguemos como exemplo o epiteto “Idiota”. Ao longo da vida, em circunstâncias diversas, conhecemos personagens a quem a adjectivação serve na perfeição, contudo, com significâncias distintas.

Analisando a fundo a questão, chegamos à seguinte epifania: existem cinco tipos de idiotas.

1 – O tolo – aquele que tem um défice cognitivo e as sociedades reconhecem como louco.

2 – O burro – aquele que é ignorante por natureza e tem dificuldade de aprendizagem.

3 – O néscio – aquele que sofre de excesso de pureza, comummente apelidado de ingénuo.

4 – O bobo – aquele que entretém os outros, usando com inteligência as características dos anteriores para efeitos de comédia.

5 – O maquiavélico – aquele que usa as fraquezas alheias, de forma perversa, para proveito próprio e prejuízo dos demais.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 202 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

202

A conversa recente, com um companheiro de infância, sobre a minha obsessão pelos livros, teve o condão de fazer-me refletir e descobrir alguns enganos que alimentei durante grande parte da minha vida.

Engraçado como uma simples constatação pode dar-nos um novo ângulo, uma perspectiva diferente da nossa história, e levar-nos a descobrir, ou a vislumbrar, algo que, apesar das evidências, sempre conseguiu escapar ao escrutínio do pensamento lógico.

Até essa conversa, sempre afirmei que a minha relação com a literatura nasceu quando comprei o meu primeiro livro: “Bichos” de Miguel Torga. No entanto, como bem fui alertado, essa aquisição foi somente a minha consciencialização sobre literatura e não a minha história com os livros. Essa começou alguns anos antes quando os meus progenitores, à falta de consenso sobre qual deveria ser o meu nome, decidiram atribuir a minha identidade ao acaso, atribuindo-me o primeiro que aparecesse ao abrir, aleatoriamente, a Bíblia.

Criatividade e sorte à parte, definitivamente, a minha ligação com os livros remonta aos meus primórdios e começou com uma colectânea.

Sorry, Torga!

EMANUEL LOMELINO

domingo, 28 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 201 - Emanuel Lomelino

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Desenho de Marcos Alves

Diário do absurdo e aleatório 

201

Quando lhe perguntavam o que queria ser quando fosse grande, Conceição respondia, sem hesitações:

- Colecionadora de cores.

Esta resposta fazia os adultos rirem, mas Conceição não entendia onde estava a graça. Ela falava a sério. Queria mesmo ser colecionadora de cores e não havia no mundo quem fosse capaz de demovê-la de tal propósito.

Ninguém sabe se esses risos impulsionaram o seu desejo, mas a verdade é que hoje todos a conhecem, como Conceição das Cores, e formam enormes filas à entrada de sua casa para verem a maior colecção de cores do mundo.

Diz quem já lá esteve que a colecção é tão vasta e tão completa que, a cada nova cor adquirida, os olhos de Conceição foram-se transformando nos artigos mais raros da colecção e agora são dois enormes arco-íris.

EMANUEL LOMELINO

O escutador da quaresma (excerto 18) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Estava tudo combinado: cada um fala com quem o entende e quem o entende ouve a sua fala. Foi passando muito tempo lá dentro do Casarão e o que no início era Espanto transformou-se em Alucinação. Os Habitadores viviam em igualdade prometida, e com isso perderam as diferenças, perderam as crenças e sumiram na multidão. Apesar dos Administradores promoverem comida boa; passeio ao ar livre; entretenimento; quartos limpos e arejados, os Habitadores eram pássaros engaiolados. Viram que igualdade era heterônimo de padronização lá dentro do Casarão. Queriam ser visíveis e não apenas vistos com a vista que, a prazo, foi desaparecendo com o Eu de cada Habitador. Queriam ser escutados com o ouvido de quem flutua em suas associações, e não apenas no que se esconde dentro de uma orelha - forma similar à uma concha fechada, afundada com palavras abafadas.

EM - O ESCUTADOR DA QUARESMA - RENATA QUIROGA - IN-FINITA

sábado, 27 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 200 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

200

Quer queira ou não, para executar os desafios de escrita que me coloco, primeiro tenho de encontrar um tema e, por isso, algumas vezes, parece que estou a repetir discursos, ou a reforçar um ponto de vista.

A bem da verdade, fica difícil separar uma coisa da outra e não vejo razão que me impeça de, através destes treinos de criação, dissertar sobre os meus conceitos e ideias, ou fazer críticas e reparos ao que me aprouver.

De certa forma, fazê-lo é aumentar o desafio, criando uma espécie de “dois em um”, com a adição de novos problemas a pedirem solução. Neste caso, ser fiel e coerente em cada assunto abordado, defender todas as opiniões com o máximo de clareza sem correr o risco de ferir a lógica de uma ideia, e chegar ao final de um texto com a sensação de dever cumprido e agradado com o resultado.

Usando este texto como exemplo, dissertei sobre juntar o útil, dos desafios, ao agradável, de escrever sobre a forma como os executo, mantendo o foco num propósito concreto: não usar palavras com mais de nove letras.

EMANUEL LOMELINO

Escolhas (excerto 1) - Renata Campos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Era uma quinta-feira chuvosa, quando cheguei na casa da minha mãe no interior de São Paulo. Eu tinha passado a manhã dedicando meu tempo e carinho em fazer compras e preparar suas marmitas. Sentei-me à mesa com ela e servi um delicioso café coado com um pedaço de pão e manteiga. O som da chuva e o cheiro do mato me transportou para um momento de paz que durou poucos segundos quando minha mãe perguntou:
O que eu fiz de tão ruim para merecer esse final de vida?
Mãe, por que você acha que sua vida é tão ruim? Estou aqui numa quinta-feira, larguei minha casa, vim trazer sua comida, seus remédios e estamos tomando um delicioso café da tarde; isso não deveria ser reconhecido como um ato de carinho? Sem receber resposta, ela se levantou e dirigiu-se ao sofá para assistir televisão, um hábito que repetia todos os dias.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

Histórias novas contadas por velhos - Filomena Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Com mais tempo disponível, e tanta história vivenciada e guardada no baú da memória resolveu salpicar de palavras um amontoado de folhas de papel, protege-las com uma colorida capa, onde se podia ler “HISTÓRIAS NOVAS CONTADAS POR VELHOS”.
A apresentação do livro foi feita pelo Tiago em língua gestual, traduzida por seu filho para língua verbal.
Para comunicar com uma pessoa com dificuldades auditivas existe, para além da língua, um conjunto de posturas que poderão ser úteis na comunicação: ser visível, ser claro, ser conciso, ser paciente.
Esse cuidado era respeitado pelos familiares e amigos próximos do Tiago.
Orgulhosa, Susana sua esposa, companheira dos bons e maus momentos, encerrou o evento com a leitura do texto “labirinto da dor” humedecendo o rosto com uma e outra lágrima que se soltava descontroladamente.

EM - DAS RAÍZES AO CÉU - FILOMENA SILVA - IN-FINITA

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 199 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

199

Quem estudou ciências humanas, ou humanidades como se dizia nos anos oitenta, deve lembrar-se, certamente, que a maior dificuldade dos professores era fazer com que os alunos conseguissem interpretar textos e identificar os elementos estilísticos incluídos. Eram aulas e aulas dedicadas a esta matéria e, na globalidade, os resultados não eram dos melhores e ficavam aquém do razoável, porque na cabeça de alguns alunos pairava a eterna questão: mas isto serve para quê?

Ao contrário do que manda a regra, a esta pergunta, feita no presente do indicativo, a resposta mais lata tem de ser dada no pretérito imperfeito: isso serviria para que existisse maior compreensão das mensagens, não acontecessem erros de avaliação, mal-entendidos e, cerrem-se os dentes, não proliferasse uma pobreza franciscana ao nível da criação literária.

Observando, com olhos de ver, o universo da escrita (mas não só), fica claro que essa dificuldade docente nunca foi ultrapassada, tal a profusão de equívocos linguísticos e interpretativos.

Essa incapacidade de entendimento e identificação de figuras de linguagem, sejam semânticas, sintáticas, ou outras, é tão perceptível quanto triste e, sem o risco de incorrer em exageros, até faz corar as resmas de papel rasurado.

Posto isto, garanto que são menos aqueles que repararam no litote que precedeu o eufemismo, lá atrás, no primeiro parágrafo, do que quem atentou na personificação usada no anterior, ou em outros recursos distribuídos entre ambos.

À pergunta: isto serve para quê? A minha resposta concisa é: para eu fazer um exercício de escrita usando o maior número possível de figuras de estilo e ultrapassar, por grande margem, o limite de espaço previsto para este texto.

EMANUEL LOMELINO

Jujubas vermelhas e amarelas (excerto 5) - Daniele Barbosa Bezerra

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Ao lembrar-se de todas as escolhas da vida, de todas as cores, fora ficando sem vontade de abrir o pacote. Estava muito cansado, perdera a fome até, e além do mais, comer um pacote de doces naquela idade já não era tão saudável. Pensara na idade.
O ônibus já estava bem perto de sua parada. Com as jujubas na mão esquerda, bem apertadas, e sua pasta de executivo na outra, dera sinal para que o ônibus parasse. Descera agradecendo a corrida ao motorista e desejando-lhe uma boa noite.
Ao descer, um menino pede-lhe uma ajudinha “pelo amor de deus”. Sem ter dinheiro na carteira ou em mãos, entrega-lhe o pacote de jujubas. O menino feliz, não se fez de rogado. Chamara o irmão e dividira ao meio o pacote, de um lado as mais saborosas e do outro as menos. Entregara, alienadamente, ao irmão. Estes saíram felizes com os doces nas mãos sem saberem ainda sobre escolhas.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 198 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

198

Ser rigoroso no cumprimento de tarefas – que apelido de exercícios criativos – requer disciplina irrepreensível, que não pode ser violada, em nenhuma circunstância, independentemente da qualidade (ou falta dela) apresentada em cada texto.

O desafio é escrever. Escrever muito. Sem qualquer pretensão além da prática regular. Depois, com a maior naturalidade do mundo, ganha-se experiência, os processos ajustam-se, e a evolução acontece.

É necessário espírito de improvisação e um sentido crítico permanente para, em consciência, sermos capazes de distinguir os pontos fracos e encontrar formas de melhorar ou afinar metodologias. Fazendo uso desses predicados torna-se inevitável alcançar o progresso qualitativo desejado.

Mas há mais vantagens por se escrever diariamente e uma delas é o aparecimento de novas ideias para projectos futuros, sejam meros exercícios ou trabalhos de maior rigor literário.

Dito isto, e estando a pouco mais de metade destes Diários, já estou a trabalhar numa nova série de exercícios – menor que este, mas também em prosa – e que servirá para, pelo menos, limar algumas arestas em aspectos que acredito ter margem de manobra para melhorar, nomeadamente no controlo da extensão dos textos, treinando a capacidade de síntese.

Mas a lista não fica por aqui porque há mais ideias na forja.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 197 - Emanuel Lomelino

Imagem pngtree

Diário do absurdo e aleatório 

197

Volta e meia, nos meus exercícios de escrita, aludo à preguiça intelectual que ganhou raízes nas sociedades modernas. São tantos os exemplos que fica complicado não dar uso a essa constatação.

Esta epidemia de não-pensamento tem diversas origens, múltiplas razões e inúmeros motivos para continuar a propagar-se, sendo factor essencial e decisivo para que alguns “iluminados”, conscientes do fenómeno, ganhem força e consigam ser reis em terra de cegos formatados.

O mais preocupante é que esta enfermidade já esteve presente em outros momentos da história da humanidade, mas parece que, desta vez, quase ninguém consegue enxergar o óbvio.

Pelo andar da carruagem, acho que esta nova variante, vai ficar entre nós mais tempo do que as anteriores, tal a capacidade de contágio que tem revelado.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 196 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Diário do absurdo e aleatório 

196

Por natureza, e porque procuro desenvolver ideias próprias sobre várias temáticas, sou crítico dos radicalismos modernos, que só existem por falta de validade argumentativa e preguiça intelectual.

Reflectir deve ser sempre o primeiro passo para a existência de discussões construtivas e é através das divergências que se podem alcançar consensos e encontrar as melhores soluções para cada problema.

Neste contexto, e porque há assuntos que merecem debates amplos e sérios, congratulo-me pelo crescente interesse na problemática da saúde mental.

Apesar da questão ter sido levantada, recentemente, por figuras de relevo do universo desportivo, este problema não é novo, é mais abrangente e deve preocupar cada um de nós.

Sem retirar importância ao debate sobre as origens, motivos ou soluções, creio que a prioridade deve ser a consciencialização colectiva de estarmos perante uma situação grave que requer o máximo de sensibilidade nas abordagens e, por isso, são dispensáveis as ideias pré-concebidas e preconceituosas do passado.

As sociedades só evoluem quando os pensamentos acompanham.

EMANUEL LOMELINO

O escutador da quaresma (excerto 17) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Uma estranha fúria da natureza levou muita chuva, muito vento, muito raio e muito tormento para a fronteira entre essa casa de tratamento e o centro do acolhimento. A fronteira adoeceu suas estradas, houve muito desabamento, pontes caídas, estradas esburacadas, rios transbordados, ruas alagadas. Foi perdida a ligação entre a cidade e o Casarão. Gente sitiada! Gente Chateada!
Era uma ruptura do de fora com o de dentro, todos os eus desacompanhados no interior da comunidade. Eram muitos, mas muitos sós e mortificados pelo isolamento. Foi avisado ao pessoal de Fala Estranha que, a partir daquele momento, não seria mais necessário o uso do nome pessoal, aquele escolhido pelos primeiros Cuidadores das pessoas, aquele com o qual cada um tinha um relacionamento íntimo, o nome que seus ouvidos conhecem bem desde que nasceram.

EM - O ESCUTADOR DA QUARESMA - RENATA QUIROGA - IN-FINITA

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 195 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

195

Quando a manhã se acende num sorriso, a geada, afectuosamente, desmancha-se em lágrimas cintilantes, que o sol prestigia num afago morno.

No céu despontam os primeiros voos, num bailado de brisa e penas, acompanhados pela beleza sinfónica de um chilrear indefinido, nascido de gargantas irrequietas, contudo melódicas.

Há um gingar vaidoso nos passos mudos de um gato pardo, que atravessa o jardim florido, como quem festeja sete vidas preenchidas, apenas interrompido pelo rouco canto de um galo que anuncia a boa-nova.

De repente, com a pontualidade de um relógio suíço, todos os sons se evaporam para que o vento assobie na folhagem de uma laranjeira, libertando as fragrâncias cítricas e impulsionando o voo de uma alva mariposa.

Os sentidos estão a formigar de entusiasmo quando o despertador toca e a chuva, que bate feroz na janela, revela que tudo não passou de um sonho primaveril e a realidade, de mais um dia, é cinzenta como ontem.

EMANUEL LOMELINO

Primeiros passos (excerto 5) - Renata Campos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Esse livro é embasado nas escolhas das quais acredito fazer parte de um envelhecimento saudável e inteligente. Seguiremos juntas rumo ao desconhecido, afinal, não conheço esse lugar, ainda não estive lá. Mas quero chegar nele com atitudes reais que me coloquem num percurso de construção e alinhamento. Não se trata de um guia ou mapa com rota definida, é apenas um convite para seguirmos juntas e criarmos uma narrativa sobre o envelhecimento, mapeando como estamos, identificando nossos atuais problemas e traçando, em conjunto, um caminho rumo a um envelhecimento positivo e digno de orgulho. Acredito em um planejamento baseado em princípios holísticos e integrativos. É através dessa perspectiva que convido vocês a buscarem comigo hábitos diários que possam fazer a diferença em nosso processo de envelhecer.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

Empenhamento (excerto) - Filomena Silva

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De cabelo bem lavrado pelo pente, onde brancas se levantavam, davam-lhe um ar de empreendedor, respeitado naquela pequena vila, prestes a ser cidade.
Ao domingo era hábito frequentar o famoso café do senhor Meireles, com uma sala, reservada a senhores usadores de fato e gravata, desde o industrial bem na vida, ao empregado de escritório, banco ou loja comercial, mais senhores de ares do que de teres.
O cimbalino continuava a ser um vício incontrolável, tinha outo sabor a leitura do jornal, regada pelo sabor e cheiro intenso do néctar chamado café.
O filho foi educado no seio daquela família unida, abençoada pela avó que com eles viveu sempre, sendo a coordenadora das equipas da empresa.

EM - DAS RAÍZES AO CÉU - FILOMENA SILVA - IN-FINITA

domingo, 21 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 194 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

194

Quando a imprensa noticiou a morte de Rodolfo Renan, uma onda de consternação e tristeza espalhou-se por toda a comunidade. Tinha falecido o intelectual mais respeitado e todo o mundo, desde o mais novo ao mais velho, do mais pobre ao mais abastado, sentiu a perda.

Depois, quando foi divulgado que havia sido suicídio, as opiniões começaram a divergir. Uns consideravam, tal facto, como um gesto de coragem. Outros viam como covardia. Durante semanas a fio, houve acesos debates e as coisas chegaram a aquecer de tal forma que ficou impossível não estar num ou noutro lado da contenda.

Curiosamente, no meio de tanta discussão, os motivos que deram origem ao suicídio nunca foram abordados. Só aquando da publicação do testamento é que as pessoas deram conta dessa falha e ganharam consciência de que, durante anos, tinham desfrutado das palavras de Rodolfo Renan sem entenderem que a beleza delas lhes ofuscara o entendimento e não tinham sido capazes de decifrar os seus lamentos, as suas angústias, as suas tristezas, os seus temores. Só aí entenderam que não tinham percebido os gritos de socorro do intelectual.

Todos sentiram que aquela morte, mais do que ter originado a discussão num tema fracturante, teve o condão de alertar para a necessidade de ver-se além da estética, pois nunca se conhece alguém sem saber dos caminhos trilhados.

EMANUEL LOMELINO

Jujubas vermelhas e amarelas (excerto 4) - Daniele Barbosa Bezerra

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Caso começasse pelas favoritas, o amargor de um dia exaustivo seria prontamente abrandado pelo doce e quando fosse comer as cítricas já estaria vitalizado pelo prazer. Passaram-se paisagens, entraram e saíram pessoas do ônibus e ele não resolvera como fazer. Gesto tão simples. Que sujeito mais complicado! Sinto-me impaciente com essa dúvida sem sentido. Irrelevante para tantos outros problemas que ele tem a resolver.
Olhava o pacote com uma dúvida bem comum a tudo que fizera até então. Começar pelo prazer ou pelo desprazer? Não chegara a nenhuma conclusão. Aliás, a partir daí passou a pensar em todas as escolhas que tivera feito até então na vida. Muitas vezes, começara pelas jujubas vermelhas e outras vezes tivera começado pelas amarelas. Quer exemplos? Jujuba vermelha: quando decidira separar-se da mulher e voltar a morar com mãe. Espantado? É verdade. Essa escolha era daquelas bem vermelhinhas e perfumadas com aromatizantes deliciosamente artificiais. Sua mulher fora um tipo fútil que a tudo exigira e pouco dera em troca. Nem carinho, nem nada.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA

sábado, 20 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 193 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Diário do absurdo e aleatório 

193

Por mais habituado que esteja ao modo como sou visto e entendido, por quem, sabendo da minha existência, não interage comigo, continuo a esboçar sorrisos internos quando as percepções caem por terra e são verbalizadas manifestações de surpresa.

Há uma imagem que me tem acompanhado toda a vida, muito por minha culpa, confesso, e que induz em erro aqueles que só me conhecem das redes sociais ou do “ouvir falar”.

Quanto aos primeiros, nada pode ser feito porque, há muitos anos, só uso as redes sociais para trabalho de divulgação.

Em relação aos segundos, que apenas merecem uma reflexão mais aprofundada para efeito deste exercício de escrita, sobressaem duas ideias.

1 – Há quem se dê ao trabalho de incluir o meu nome em conversas com terceiros, dando-me uma importância que não reconheço nem almejo. E nada mais tenho a dizer sobre isto porque o que falam de mim não me diz respeito.

2 – Há quem faça deduções de carácter, apenas pelo que escuta. Esta constatação sugere-me alguns pensamentos.

a) há quem viva mais na ficção e no achismo do que com a realidade.

b) há quem prefira o rumor à verdade.

c) há quem dedique mais atenção à vida alheia do que à própria.

d) é mais confortável ver nódoas na toalha do outro.

e) quem fala dos ausentes também tem costas.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 192 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

192

O substantivo que melhor define as sociedades modernas é “preguiça”.

Nestas duas primeiras décadas do século XXI, ela disseminou-se, qual vírus contagioso, tornando-se quase uma característica genética da humanidade.

Podemos observá-la desde as pequenas coisas da vida – usar o carro para ir ao café, no fundo da rua; deitar lixo no chão havendo um caixote no outro lado da estrada – até às de maior impacto – resolver burocracias no final dos prazos; deixar para o dia seguinte a conclusão de um trabalho, que demoraria cinco/dez minutos, porque o patrão não paga horas extra.

Depois há a preguiça intelectual, que tem sido estimulada por aqueles que compreendem o fenómeno do seguidismo e sabem dissimular ideias e conceitos em actos e discursos tão cativantes que parecem dogmas infalíveis, sem pontas soltas, logo, sem necessidade de reflexão, mas fazendo crer, aos enfermos da preguiça, que são livres-pensadores e que a ideia original foi fruto do seu próprio pensamento (que nunca teve).

Dessa percepção de indiscutibilidade cria-se a apologia do não-pensamento, ou a sensação de que pensar é prescindível.

Assim nascem os rebanhos, educados a aceitar sem contestar e sem compreenderem que estão a ser formatados por pensamentos induzidos e a perder a capacidade de pensar pela própria cabeça.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 191 - Emanuel Lomelino

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El escritor - desenho de Carlos Ardohain

Diário do absurdo e aleatório 

191

O momento mais angustiante na vida de um autor não é o fracasso das suas criações, tampouco o sumiço repentino do estro. A angústia maior, que trespassa a alma vezes sem conta e dilacera cada átomo, acontece quando as palavras atraiçoam e esgravatam o íntimo como punhais rombos, sem um pingo de compaixão nem misericórdia.

Para os mais desprevenidos, cada traição é recebida no limite do despreparo e, por isso, sentida no extremo da dor – lancinante, feroz, inclemente.

Os mais calejados, não sendo imunes às estucadas e sofrendo em igual medida, conseguem, apesar das lágrimas de desilusão, ultrapassar o desconforto com maior celeridade, cicatrizar as feridas, e retornar ao ofício mais fortes.

Depois há os outros. Aqueles que, por nunca terem estado seriamente empenhados na escrita e, por essa razão, não terem ganhado consciência de autor, ignoram quão ténue é a linha que separa a traição das palavras e a arte escriba.

EMANUEL LOMELINO

O escutador da quaresma (excerto 16) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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– Como prometemos, anteriormente, vocês não irão ter preocupação com nada. Tudo aqui é por nossa conta. Não precisarão tocar em moedas ou cédulas. A economia gira no Casarão como truque de mágica, é maravilhoso não ter que usar o vil metal e poder desfrutar de tudo aqui dentro, na verdade o nome da moeda corrente aqui é liberdade. Não se perturbem em andar na moda, a roupa no casarão é democrática e igual para todos, tamanho U. Documentos podem ser arquivados, lavrados no escaninho à direita, aquele que tem uma placa escrita: Invisíveis Preferidos. Outra coisa muito importante é a entrega dos pertences na recepção. Todos devem deixar seus pentes, espelhos, foto de parente, livro (caso tenham interesse por esse tipo de bobagem). Como podem perceber, objeto pessoal por aqui é usado na contramão, vira pessoal objeto. Serão todos, de uma forma sempre geral, bem cuidados, perfumados, e pro cabelo pentes dourados. Deixem vocês mesmos todos, por inteiro, do lado de fora. Perfilem seus restos, entrem e obedeçam à vontade.

EM - O ESCUTADOR DA QUARESMA - RENATA QUIROGA - IN-FINITA