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quarta-feira, 29 de junho de 2022

Uma jangada chamada esperança (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Inicialmente, ainda via a água límpida, transparente, ondulante de um azul-esverdeado único, misturada com um outro azul, não menos belo, acima dela. Também ainda alcançava com a vista a jangada que abandonara à mercê das intempéries e das fracas forças que a sustinham à tona da vida. Também ela, agora, sobrevivia só.

Luz! Era a luz que ia perdendo à medida que ia descendo e engolindo o sal que lhe inundava os pulmões, lhe asfixiava a respiração, lhe toldava os sentidos e o fazia perder a consciência. Sentia o corpo entregue à uma única via que penosamente o fazia descer a caminho da escuridão e do silêncio.

E descia. Já não sentia o corpo, nem o fardo de culpas, de desculpas, de castigos, de momentos dolorosos, de perdas, de sofrimentos, de perdões, de desgosto sofridos e infligidos, de desilusões... apenas ia descendo e mantendo os olhos abertos, bem abertos para tudo absorver, enquanto podia.

E, assim, foi vendo passar por si todos os companheiros de viagem de uma vida, como num filme ao contrário, do fim para o princípio, num paradoxo sem igual para com quem ia descendo para o fim onde iria encontrar outro princípio.

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sexta-feira, 24 de junho de 2022

Uma jangada chamada esperança (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Aos poucos, com gestos suaves, como que não querendo magoar, foi desatando os nós e as voltas com que os limos, as algas e a vontade estavam agarrados à jangada que vogava sem rumo, no compasso que as ondas dançavam melancolicamente. A pele curtida, marcada fundo, cicatrizada pelas quedas e pelo tempo, era uma chaga aberta, exposta impiedosamente ao sol e ao sal, que a água cobria e descobria numa brincadeira cruel.

“É agora!”. Teria que ser naquele momento! Naquele agora em que as grandes tormentas se tinham afastado, talvez por instantes, e o mar estava calmo, sossegado e pensativo com o que fazer à jangada que tenazmente agarrava aquele esquecido da vida.

Estava cansado da jornada, desiludido com as suas forças, desistente da luta antecipadamente perdida com ondas que nem sempre foram assim tão meigas e, não fora aquele pedaço de esperança a que se agarrava, já há muito que por ali, ao cimo da água de oceanos que desconhecia existir, ele não estaria.

Estava, de facto, exausto! Não tinha mais forças e não queria testar mais limites. Teria que ser, sem mais demoras! E, assim, continuou a desamarrar-se da jangada, que deixaria de fazer sentido existir, também ela, pois uma jangada só o é enquanto há um náufrago para dar esperança.

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domingo, 19 de junho de 2022

Conto Quântico (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A sala de entrada está desocupada. Não há mobiliário, nem cortinados, nem quadros ou fotografias, nem carpetes ou tapetes, nem candeeiro, nada… nada, excepto este ar que me enleia e me segreda que a sala está repleta. Os meus passos lá perduram, as minhas mãos, que tantas vezes passaram pelas paredes, lá estão, e o meu olhar permanece em cada ponto para onde eu agora olho. A sala tem-me, a mim, e eu permito-lhe isso. Sabe-me bem ser bem recebido, por ela e por mim mesmo…

Lentamente, para melhor viver o momento, percorro as outras partes da casa. Em frente à sala de entrada, directamente voltada para a porta, está outra divisão a que eu chamei, em tempos, o quarto de dormir. Tem uma pequena e funda janela para as traseiras da casa e assemelha-se às janelas dos cárceres. A memória asfixia-me. Também esta divisão está vazia e também ela está repleta!

Silenciosamente, peregrino de mim próprio, percorro o espaço da pequena casa, na penumbra que a pouca luz me permite e a memória transporta-me, de uma sala a outra, de momento em momento, até me encontrar em frente à janela da frente da casa.

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terça-feira, 14 de junho de 2022

Conto Quântico (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Com uma vontade própria que desconheço em mim, avanço um pouco mais e estanco, de novo, o movimento titubeante dos meus pés. Fico em frente à janela fechada, com uma portada interior semiaberta. Daqui de fora, eu quase nada consigo ver para dentro, devido ao contraste luminoso entre espaços, fora e dentro, luz e penumbra.

O interior parece-me lúgubre e escuro, sem sinais de pessoas nem de objetos, apenas o vazio. Mas a casa, em si mesma, tem vida, e eu sinto-a como muito familiar. Não meço o tempo que aqui estou. Apenas estou, estando, olhando, sentindo… não me recordo de antes ter estado do lado de fora da janela, olhando para o que estava e que agora não está lá dentro, estando… A casa atrai-me, chama-me, desafia-me a reviver o seu espaço, a sua alma… e eu vou.

Dirijo-me à porta, logo ali ao lado. A porta tem um postigo que, como sempre, cede a uma ligeira pressão dos meus dedos, como se lesse as minhas impressões digitais e me permitisse aceder ao seu eu, convidando-me a percorrê-la e a senti-la, talvez para ela me percorrer e sentir, de novo, também. O ruído do arrastar das suas dobradiças, como um queixume de solidão, ou uma dorida boas-vindas, diz-me que ninguém mais cuidou delas depois de mim. 

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quinta-feira, 9 de junho de 2022

Conto quântico (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Decido pisar os meus passos, de novo, pela última vez, como se fosse dono do meu eterno caminhar, sendo ele eterno enquanto eu dele me lembrar, e também soubesse que jamais aqui voltarei. Mas decido, neste momento, que sim e que… não. Subirei e não mais aqui tornarei a subir! Mas ainda terei que descer. Então, subo.

Caminho sobre pedras e areia. Tropeço nos mesmos pontos onde sempre tropecei, mas não desvio o olhar da casa isolada que vai desvendando a sua presença ao meu olhar. Paro, sem me aperceber por que razão o faço. Autómato e operador deste equipamento, o meu corpo, que não controlo totalmente. Apenas olho para a casa. De mim, nada sai, para além do meu olhar; dela, tudo entra de rompante em mim, violenta e doce, inesperadamente, na espera daquilo que não sabia se receberia, pois não tinha a certeza da sua ainda existência, pois desconhecia que a deixaria invadir-me deste modo! Também ela é a mesma. Semblante triste e abandonado, na espera eterna por alguém que dela se sentisse ela, numa simbiose que nunca tive capacidade, antes, para permitir acontecer. Uma porta e uma janela. Era assim que me lembrava dela e ela não me desiludiu: é assim que ela é e que sempre foi.

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sábado, 4 de junho de 2022

O pai do ano (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Enfrentou o branco da porta do frigorífico, durante uns segundos. O seu olhar deteve-se num magneto, ao nível dos seus olhos, como se ali estivesse com o firme propósito de ser lido. E relembrado. E, assim, sempre acontecia… depois, arrefeceu a memória, com a porta já aberta e cristalizou a humidade líquida do tempo ido.

De dentro daquele armário frio, saíram garrafas, limas e gelo que iriam presentear um tempo recém-chegado.

Enfrentou, de novo, a porta agora fechada do electrodoméstico mais usado em casa. Por breves momentos, sorriu como se sorrisse para quem lhe tinha oferecido o íman, pousou tudo na mesa que, pacientemente, esperava e passou à acção.

Preparou bebidas, juntou aperitivos, provou aqui, depenicou ali, ornamentou um tabuleiro com modos de aprendiz de feiticeiro, deitou um último olhar ao símbolo agarrado ao frigorífico e seguiu para a sala.

– És um batoteiro! – afirmava um dos convivas presentes.

– Eu?!! – questionava outro, com o ar mais cândido do Universo, mas que se desfazia numa lauta gargalhada que a todos contagiava e que iria repetir-se pelo estender de mais um entardecer em família.

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domingo, 29 de maio de 2022

Os mil reflexos de uma solidão (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Estava cansada, notava-se, e as sobrancelhas, a precisar de mais atenção, mostravam-se ligeiramente arqueadas numa interrogação brusca daquele momento. Acima delas, começava a desenhar-se um traçado orográfico identificador de preocupações constantes, de decisões eternamente adiadas, de felicidade diluída e perdida de esperança em esperança.

Franzindo, agora, mais o sobrolho, tentava perscrutar o que lhe podia ir na alma, uma vez que, dizem, os olhos são o seu espelho, mas não o conseguiu, pois encontrou uma barreira tenaz, como se ela lhe dissesse: “Aqui, não entras, pois já nada mais me resta, para além da (pouca) dignidade!”.

Endureceu-se-lhe, momentaneamente, o semblante depois desta tentativa, quase imoral, de querer entrar num templo proibido, sem autorização nem convite, e ter acesso à sua arca dos segredos, onde tinha guardado momentos e recordações dos quais já nem ela própria se lembrava! Tinha que assim ser, depois de ter perdido, constantemente, parte de si, por todos os caminhos e pessoas que fora percorrendo. Ser mais uma mulher, é fácil; difícil, pois, é ser Mulher, e esta dificuldade paga-se caro e escreve-se em traços profundos e definitivos, como cicatrizes, na face e na alma!

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terça-feira, 24 de maio de 2022

Os mil reflexos de uma solidão (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Foi, perante este rápido pensamento, então, que ela retomou a postura inicial, ligeiramente altiva, e ergueu os olhos para a mulher que a fixava de frente, lhe estudava os gestos e apreendia os sinais. Tentava, por seu lado, descodificar os traços físicos e psicológicos daquela figura que a enfrentava tão minuciosa quanto curiosamente. Podia dizer-se, até, que se estudavam mutuamente.

Aquela não era uma mulher de quem se pudesse dizer que era velha, ainda muito longe disso, mas dava a sensação de que se queria mostrar como tal ou, pior, não se importava nada em parecê-lo e havia gritos de tristeza e amargura riscados fundo na sua pele ligeiramente flácida. No geral, tinha traços firmes que eram de uma beleza comum, avessa a grandes alardes ou demonstrações públicas daquilo que sabia serem as suas melhores características.

Olhava-a de frente e, sem ponta de desdém ou inveja, achava que aquele cabelo já passara por melhores dias. Estava desalinhado, sem gosto e com as pontas quebradas. Vários trilhos em contraste indicavam a presença alarmante de precoces cabelos brancos e, talvez, precisasse mesmo de algum cuidado diário.

A esta observação, respondeu-lhe um olhar triste magoado… aqueles olhos tinham ausência de brilho, de mensagem. Já tinham tido, muito provavelmente, uma existência diferente mas, por ora, apenas transmitiam a imagem de um deserto noturno, vazio e distante.

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quinta-feira, 19 de maio de 2022

Reptos (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Então, resolvi utilizar um estratagema que, dizia-se, resultaria na sua plenitude: assim que as provas físicas fossem realizadas, eu não as faria, evitando, desta forma, ser avaliado e, pensava eu, poderia destacar para outra arma que não aquela…

Se bem imaginei, com aquela ajuda alheia, melhor o fiz: evitei todas as provas e, no fim da manhã, lá estava eu, feliz da vida, no fim da tabela de valores dos Monitores de Educação Física da Escola (não consigo, agora, lembrar-me, infelizmente, quem eram eles), com traços em vez de algarismos quantitativos: uma maravilha, um feito enorme, um orgulho de esperteza!

Nem tudo na vida é justo ou célere e, muito menos, ambos ao mesmo tempo mas, naquele dia, as forças que nos dominam estavam todas viradas contra mim (passe a injustiça daquilo que acabo de escrever) e a justiça foi célere, personificada na figura e na voz daquele homem com uma tira dourada grossa e uma outra estreita em cada ombro. Acercou-se de mim, sereno e consciente da desproporção gigante existente entre nós, que a autoridade militar e a experiência lhe proporcionava, e perguntou-me:

– “Então, rapaz, porque é que não efectuaste nenhuma prova?”

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sábado, 14 de maio de 2022

Reptos (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Gosto imenso de reptos e, acima de tudo, de auto-reptos, que são aqueles que, na minha opinião, claro, melhor contribuem para nos formar como adultos responsáveis, aqueles que fazem de nós aquilo que nós somos! Mas, nem sempre assim foi…

Quando somos jovens, gostamos de desafios (por definição básica do termo “jovem”), de riscos, de sentir a adrenalina a congelar-nos e aquecer-nos no mesmo instante mas, tememos decisões que envolvam profunda e decididamente o nosso futuro. Creio que se pode compreender isto pela falta de experiências e vivências que só a vida e as dificuldades nos proporcionam e que os jovens ainda não possuem. Com certeza que esta visão poderá não se aplicar a cada um nós como definitiva mas… aplicava-se a mim, naquela época.

Nos meus verdíssimos vinte anos, fui seleccionado (ainda hoje não entendo quem descobriu em mim resíduos de um perfil físico ou psicológico especiais) para prestar provas em Vale de Zebro, a “nossa” Escola! Naquela época, em 1976, apesar de já ter comido algum do pão que o Diabo amassou, não tinha a mínima ideia nem do que significava a sigla FZ (muito menos, FZE!) nem do significado profundo e marcante para tantos portugueses de ser Fuzileiro!

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segunda-feira, 9 de maio de 2022

O fantasma do fantasma (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Como será que ele me vê? Que achará ele de mim? Que palavras diria, se as pudesse dizer? Sinto-me curioso, faço-lhe perguntas, tento brincar, mas não… nada dá certo! Ainda se eu, alguma vez, tivesse aprendido a brincar!…
Por vezes, dou por mim a fazer planos daquilo que irei fazer, do que lhe irei dizer, como irei andar e sentar-me para ele me seguir, me copiar, mas quando ele chega nada me ocorre, nada sai bem, nenhuma palavra animadora é dita, nenhum gesto estudado é feito como foi, de facto, estudado e o feito não surte efeito! Mas porquê?! Assim, não posso ajudá-lo… é tudo, apenas, um jogo de luz e sombras sobre a pele.
Quando um amigo necessita de ajuda, temos que o ajudar, apoiá-lo, fazendo sacrifícios, revolvendo o mundo, em busca de solução, imaginando novas palavras, dando o que de melhor temos mas, apesar de eu não acreditar em fantasmas, sinto-me amigo deste, sinto que, se calhar, temos algo em comum e, se conseguisse fazer com que ele se sentisse melhor talvez ele não aparecesse mais e eu seria mais feliz, também!

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quarta-feira, 4 de maio de 2022

O fantasma do fantasma (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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A minha relação com este fantasma é, como com qualquer outro fantasma, de índole meramente pessoal, de cariz estritamente nosso! Apesar de se dar a ver quando não preciso muito dele e apenas quando não há mais ninguém em casa, relacionamos-nos, posso dizer, bastante bem e, como outro grande amigo que se preze, ele é um bom ouvinte. Suponho, até, que possa ter algum problema de linguagem, uma vez que nunca se exprime oralmente, apenas gesticula com o corpo, meneando a cabeça, indicando que me ouve e me entende bem. Digamos que nos aceitamos, nos nossos silêncios e nos meus monólogos.
A sombra que ele projecta na parede e noutros objectos mostra-me um velho, alguém em total declínio, frustrado, desalentado. Acho que se ele me falasse eu o poderia ajudar, poderia ser eu a ouvir, a escutar as suas tristezas, os seus desgostos e pensamentos e, depois, aconselhá-lo ou, pelo menos, tentar fazer dele uma presença feliz! Talvez ele, desta forma, encontrasse o caminho de onde se transviou, encontrasse paz, ganhasse coragem e atingisse os seus fins, regressando ao seu mundo! Ou, o seu fim…
Mas, não! Nada consigo para ele e ele em nada auxilia. Não acredito que seja propositada a sua presença, penso mesmo que ele aparece porque precisa de companhia, de alguém que olhe para e por ele. Custa-me imenso! O grande problema é que eu não tenho arte, nem engenho, e parece-me que ele se entrega mais quando também eu preciso mais. Será por isso que ele vem ter comigo?

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sexta-feira, 29 de abril de 2022

O fantasma do fantasma (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Há um chavão popular que diz que todos nós temos os nossos fantasmas! A sabedoria do povo é proverbialmente conhecida como acertada (às vezes…) e assim continuaria a ser se eu não conhecesse alguém que não tem fantasmas, de nenhuma espécie, que adormece bem a qualquer hora, que não pensa naquilo que já passou, que convive bem com a história ou, simplesmente, pouca atenção lhe dá! A vida faz-se de trás para a frente e não o oposto! Acho que esta pessoa é feliz, bem mais do que aquilo que eu consigo ser, nas mesmas condições.
Mas eu não. Eu não sou assim. Vivo muito com as pessoas que já cá não estão e, para além destes, não consigo viver sem os “meus” fantasmas! Aqueles que eu concebo, dependendo de cada situação. Devo dizer já, que tenho imensos, diria, até, que tenho alguns de estimação e em grande estima: alguns vivem comigo desde sempre e outros… invento-os! Para quê? Não há um objectivo para existirem, há antes uma causa que me leva a criá-los. E a causa está em mim, logo, o fantasma está em mim, eu sei-o. Provavelmente, por muito menos, já terá havido alguém considerado louco…
No entanto, mesmo sendo eu a criá-los, ou talvez por isso mesmo, não acredito em fantasmas. Não! Eu não acredito em fantasmas! É paradoxal, mas é a minha posição perante eles, logo perante mim próprio: aqueles que eu invento, invento por necessidade, mas não me fio neles. É como um sistema de auto-defesa!

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domingo, 24 de abril de 2022

Crónica de um silêncio ido (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Silêncio.

Foi em silêncio ensanguentado que um dia se apresentou à vida, retirado de um desesperado ventre que gritava liberdade e agarrado por mãos desconhecidas que agitaram e rasgaram o momento, com um primeiro choro magoado, e que, depois, depositaram a sua vida noutras mãos das quais nunca soube ternura, apenas o irrequietismo esquizofrénico de uma vida perturbada e sem direito a um silêncio de revolta!

Tinha sido também em silêncio que o seu ser fora gerado. Um silêncio envergonhado, contido, sem muitas palavras para dizer... apenas gestos, tempo e despedida.

Durante toda a sua melancólica existência foi aprendendo a viver no silêncio e a aceitá-lo como guarida, confessor e confessionário, ombro amigo, compreensivo, acolhedor abrigo onde se protegia do ruído de um mundo com regras espartanas que não entendia e onde não lhe foi permitido ser criança.

Foram muitas, mas todas vãs, as tentativas de viver fora e para além daquele universo cada vez mais estreito mas, sempre que lá regressava, levava consigo o peso, a carga, a culpa e a dor, de não ter sabido estar mais tempo distante!

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terça-feira, 19 de abril de 2022

O menino que não ria (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Chegava à porta, assomava o rosto dócil ao postigo, pedia autorização com o olhar e ali ficava, olhar meigo, algo triste e ausente, olhando para as mãos, agulhas, linhas, roupas e parava no sorriso que o acolhia, como se já o esperasse.
– Olá! Bom-dia! - saudava-o uma voz amiga que já se habituara ao som pouco audível da resposta, numa fuga envergonhada do olhar.
– Bom-dia, dona Natércia!...
E a azáfama que dava vida ao que vida dava a quem as vestia, prosseguia durante algum tempo sem que os intervenientes alterassem o ritmo dos seus gestos. A costureira acelerava a faina, para que mais breve recebesse o valor pré-acordado com a cliente e o menino era personagem de histórias que a senhora conhecia dele e das razões que faziam dele aquele menino tão parado, frágil e quase assustado, mas doce, educado e paciente.
– Então, não vais brincar? – despertava-o aquela voz serena e gentil de mundos e fantasias que apenas ele poderia deles falar. Mas a sua boca apenas se abria para dizer algo que a dona Natércia dificilmente ouvia e concluía que a resposta seria negativa.
Entretanto, enxurrada atrás de enxurrada, grossas gotas de alegria e de liberdade franca passavam-lhe nas costas, rua abaixo, rua acima, e ele voltava-se de frente para o murmurejar irrequieto da miudagem que pontualmente o convidava e incitava a fazer parte da louca felicidade sem peias.
– Olá, “tara” linda! - chegava até ele a voz inconfundível e divertida da única filha da costureira, oriunda dos fundos escuros da casa que ele imaginava sem fim.

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quinta-feira, 14 de abril de 2022

O menino que não ria (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Pela estreita rua descia o rio estridente de alegria, como águas tumultuosas que voltavam a subir contra a corrente encontrando outros gritos, outras correrias e outros abraços, mais eternos do que qualquer uma daquelas crianças poderia imaginar, naquele momento.
Depois, tudo recomeçava, sem haver uma razão plausível para recomeçar. A miudagem nada percebia de lógica e o seu único fito era saborear instantes e arquivar memórias para um futuro que não fazia parte do vai-e-vem por cima do empedrado irregular que agarrava os pés e recebia os tombos de dores prontamente caladas e de lágrimas bem guardadas nas mangas das camisolas e nas costas das mãos para lavar, assim que voltassem a casa.
No entanto, por ali, havia um menino diferente, na maior parte das vezes. Descia a íngreme escada de madeira, com buracos tapados à pressa por onde os ratos, obstinados na sua faina, voltava eu a passar. Assim que a escada terminava, num pequeno patamar de pedra, logo à rua o recebia na corrente barulhenta, intrépida e agitada da rapaziada em constante movimento. Mas, em vez de seguir o rumo daquele caudal, sem azimutes definidos, aquele menino de olhar meigo, algo triste e ausente, encostado à margem esquerda de quem subia a rua, para não ser levado pela enxurrada sem freio que, sem cansaço, não se detinha nem conhecia obstáculos que a detivesse, o menino dirigia os seus passos para quatro portas acima, de postigo aberto para que a luz pudesse fazer-se presente e iluminasse as roupas que se agarravam as mãos de quem tão bem as tratado. O postigo aberto também permitia ver a vida correr fora de casa, da mesma que oferecia a visão de quem trabalhava à luz do dia a quem na rua passasse. Era assim que acontecia tantas e tantas vezes com aquele menino.

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sábado, 9 de abril de 2022

Diálogos entre avô e neto - A mentira (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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À entrada da porta, pendurado na maçaneta, estava um aviso que não admitia segundas interpretações: “Estou zangado! Deixem-me em paz!”. O avô leu calmamente e, depois, virou o aviso do avesso onde, em contraponto, se podia ler: “Estou bem-disposto! Entrem!”. Repôs a tabuleta como estava antes e sorriu compreensivo com o neto. Talvez nunca antes ele tivesse sido tão complacente mas, desde o nascimento do neto, tinha amolecido ou, como ele preferia pensar, estava agora mais sábio, melhor preparado. Acenou afirmativamente com a cabeça, como se desse razão a ele próprio ou a um outro homem que vivesse num universo paralelo, com todo o seu código genético e que consigo convivia amiúde.
Educadamente, bateu à porta com os nós dos dedos e esperou por uma resposta que sabia que não aconteceria. Repetiu o gesto, agora um pouco mais sonoro, mas o resultado foi, esperadamente, o mesmo. Então, passou ao plano “B”: deu início à imitação do chilreio de um pássaro imaginário que, tempos antes, tinha treinado com o neto e que tinham combinado ser uma chave secreta, que seria apenas do conhecimento de ambos, e serviria para situações de emergência, como aquela. Pensando não ter sido ouvido, o avô ia repetir o assobio quando a porta entreabriu uma nesga por onde podia ver apenas a metade da cara que o via a ele, por inteiro.

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segunda-feira, 4 de abril de 2022

O ninho das carriças (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Era Primavera…

Floresciam os primeiros amores-perfeitos em canteiros de aprendizes, saudados pelo vermelho garrido de campos de papoilas, mesmo ao lado das nespereiras vestidas com o que restava dos seus frutos, como enfeites natalícios prematuros, alaranjados e depenicados, que as aves, os pequenos roedores e as formigas tinham deixado para deleite da terra que os recolheriam, assim que a força da atração terrestre fosse superior à debilidade do caule que os sustinha e já tão pouco alimentava.

Entretanto, os gatos bravios iam semeando pelos montes o ronronar do apelo sexual previsto e colhendo namoros efémeros, zaragatas noturnas e cicatrizes duradouras; tentando jogar ao “gato e o rato”, não para evitar que estes últimos subissem às nespereiras mas, antes, para as gatas alimentarem o resultado dos tais namoros que, agora, não lhes largavam as tetas. Também, por pouco tempo… apenas até a dentição de leite ser mais cortante que o amor materno, escondido nos canaviais e protegido de cobras
e outras visitas mal-vindas!

Por breves e suaves momentos, uma brisa perdida fazia-se sentir bem-vinda e as canas dançavam dolentes num vai-e-vem amarelo-esverdeado permitindo, dessa forma, o desvendar de caminhos antigos e do miar-bebé que via, então, pela primeira vez, a chama intensa bem alta que lhe atemorizava o olhar felino, mas que o convidava a descobertas e saltos que apenas ele poderia e saberia ousar.

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terça-feira, 29 de março de 2022

O olho vermelho do gato Bernardo (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Como vendedores de peixe que eram, os donos da casa faziam as suas refeições à base de peixe e, recordo-me muito bem, eu fazia parte da sua família, que nunca por lá me lembro de ter visto alguma outra. Como elemento querido e por eles inúmeras vezes defendido, tinha acesso à sua mesa e ficou-me presente na memória, para sempre, as deliciosas sopas de peixe que tão bem sabiam cozinhar! Por vezes, porque não tinha grande coisa para fazer e quando não me ausentava para casa dos meus avós, ali mesmo na rua ao lado (quase…), eu ajudava a Dona Gracinda e o Ti Chico naquilo que podia (ou, se calhar, não os ajudava assim tanto) e estes foram momentos gratificantes de tal forma que estou agora a fazer-lhes justiça e gostaria que eles tivessem podido saber desta minha gratidão. Nunca o souberam, porque quando os voltei a ver, depois de sair da casa deles para ir morar para o Seixal, aos sete anos, só lá voltei perto dos dezassete e era um rapaz amargurado, ferido, tímido e sem grandes palavras para ninguém… e, pouco tempo depois, um seguiu o outro para a Terra do Nunca.
Ter morado aqui, com estas pessoas tão amigas, sempre prontas a apoiar-me e defender-me, perante a insensibilidade e rudeza (palavras suaves…) dos familiares mais próximos, foi um bálsamo temporário que me permitiu a espaços breves sentir-me criança. …então, sempre que a noite chegava, eu alimentava a minha imaginação infantil e ingénua, tremendamente ingénua (perto do aparvalhada!).

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sábado, 19 de março de 2022

Livre, como só os pássaros livres são! (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Certamente, de forma não consciente, foste semeando um jardim de metáforas na entrada de uma casa a que chamavas vida e deliciavas os sedentos sentidos de significados e significantes com o odor que exalava dos exóticos recursos expressivos, que te coloria os passos e te fazia sorrir, ao entrar e ao sair dos dias que te convidavam a viver sem reservas e sem a noção de qualquer medo.
Sem infinito que a limitasse, erva verde e sadia crescia na inversa proporção da tristeza de outras eternidades que a memória sem fadiga te depositava no respirar dos tempos que não te deixaram saudade e tapava vitoriosa uma linha ferida de indignidade, já coberta e repintada em branca cal, que marcava o limite do teu sonhar, como se fosse uma fronteira hostil imposta entre dois mundos.
Era frágil e ténue a linha, mas sempre a evitaste pisar e jamais a ultrapassaste! Limitavas-te, como sempre te limitaste, a admirar a liberdade ingénua dos pássaros que viajam indiferentes a leis e regras pouco humanas. E que, desta forma, cometem o “crime” de voar nas asas da liberdade sem o saberem!

EM - CONTOS E CRÓNICAS (IN)TEMPORAIS - VÍTOR COSTEIRA - IN-FINITA