sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Um dia acordamos e tudo é normal! – CARMEN LÚCIA DE QUEIROZ PIRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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- querida como está sua cachorrinha?
- está muito grande, essa semana ela menstruou!
- oh! e ela tem idade para isso?
- sim! ela tem nove meses e irá fazer a cirurgia.
- cirurgia? cirurgia de quê?
- ela será castrada...
- castrada? por quê?
- tem no contrato dela de compra e venda...
- ela não poderá ter filhotinhos! o que você acha disso?
- não sei, não pensei a respeito disso
 
fiquei entorpecida! lembrei que me criei vendo animais, como galinhas e bois, sendo castrados para engordarem e serem comidos pelo homem.
 
era tudo tão normal...
 
lembrei das belas aves, aprisionadas nas gaiolas, cantando para o deleite de seus algozes, outras com suas asas cortadas para não mais voarem e serem cativas para o resto de suas vidas breves!
lembrei da escrava Isaura com sua boca amordaçada, para não falar o que seus donos não queriam ouvir.
lembrei das mulheres mutiladas para não sentirem o prazer no ato do amor.
lembrei do grito silencioso das mães separadas dos seus filhos, para darem leite aos filhos das sinhazinhas.
 
era tudo tão normal...
 
lembrei dos atuais milionários, cheios de dentes nas bocas, indo para o espaço. 
lembrei dos pedintes e imigrantes com seus cartazes nos semáforos do meu bairro: "tenho fome"
lembrei dos pobres de espírito que vivem da corrupção e da ladroagem
lembrei dos políticos e suas politicagens
 
parece ser tudo tão normal... 
 
lembrei da célebre frase: "os fins justificam os meios"
oh! Deus! não consigo achar nada normal!
voltei-me para inocência da minha interlocutora mirim, para a história de sua linda cachorrinha. 
fui dormir pensando e acordei pensando nelas.
na menina que ainda não pensa e na cachorrinha que ainda não sente.
para primeira: qual o sentido da vida? para a segunda qual a finalidade de sua vida?
ambas pegaram o trem no meio do caminho, não sabem para onde estão indo ou melhor para aonde estão sendo levadas.  
 
tudo é normal? o ser a serviço do ser? nós o que somos?
 
QUO VADIS DOMINE

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terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Caxica – CARLA DE SÀ MORAIS

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Foram sem dúvida as férias de verão mais espectaculares que ela viveu. Filipa desejou que elas nunca mais chegassem ao fim.

Naquele ano, os seus pais, sempre receosos pela sua saúde frágil, deixaram-na na Caxica, uma das fazendas de café do tio António, irmão mais novo do seu pai.

Quando se entrava na fazenda, era preciso percorrer cerca de 2km até se chegar à casa. A estrada, era em terra batida e ao longo dela e de cada lado, uma grande mata repleta de árvores e arbustos floridos e de animais que por vezes se surpreendia a passearem descontraídos.

Quando por fim se avistava a casa, era uma grande casa térrea, de estilo colonial e as suas paredes eram revestidas com mosaicos de cor alaranjada; tinha um terraço coberto por uma trepadeira de flores amarelas e o pátio era tão grande, que podia acolher mais de 20 automóveis. Tinha 12 quartos e 10 casas-de-banho, 1 grande sala de refeições e 2 salões enormes para as festas e recepções.

Na parte de trás, havia o equivalente a um bosque e uma parte dele tinha sido transformado em jardim. Uma grande mesa rectangular decorava este espaço, assim como gaiolas gigantes com pombas e pássaros de várias espécies, vários baloiços aqui e ali e até um coreto tinha. Mais afastado, estavam as capoeiras com galinhas, patos e perus, os currais com porcos, cabras e ovelhas e os estábulos com dois cavalos magníficos.

Para uma menina da cidade, que vivia numa casa dita normal, tudo aquilo era deslumbrante.

Mas o seu tio, não era só o dono e o gestor da Caxica, o seu tio era o enfermeiro voluntário que cuidava da saúde física e emocional, dentro das suas competências, de todos os trabalhadores, habitantes da fazenda, que eram seus empregados, que por sua vez, passavam a palavra a outros da região e arredores.

Os dias foram passando a brincar e tratar dos animais, a andar a cavalo com o rapaz da estrebaria, e baloiçar em todos os baloiços.

A comida era ótima e variada. O João, que era o mordomo e também o chefe cozinheiro, levava-a para a cozinha e deixava-a ajudá-lo nas coisas simples.

O que ela gostava mesmo, era de vê-lo fazer o pão com ovos que ele depois moldava em trança e era servido todos os dias ao pequeno-almoço, quentinho, com manteiga e doce de maracujá ou papaia, de manga ou ananás. Omeletes e ovos mexidos ou estrelados, com os ovos acabadinhos de pôr pelas galinhas, chouriço frito, e bifes, bolo de mandioca ou de milho. A mesa era farta e o pessoal doméstico também usufruía desta fartura.

A Francisca, era a sua camareira. Era doce e meiga.

Tinha começado a frequentar a escola há um tempo atrás, e já lia algumas frases. Ficou radiante quando viu os tantos livros coloridos da coleção ‘’Anita’’ que a Filipa tinha levado. O momento de ir para a cama, tornou-se festivo. Todas as noites, depois do banho, sentavam-se as duas no chão a lerem todas aquelas estórias. Houve mesmo uma vez que adormeceram as duas, uma contra a outra até ao dia seguinte. Foi uma grande risada e foi assim também que veio a ideia de pedir ao tio António se deixava dormir a Francisca no mesmo quarto que ela; pedido que foi aceite.

Naquela fazenda, esquecia-se o rebuliço do quotidiano, a vida era vivida com sossego.

O tio António era uma pessoa pousada, calma e muito generosa. O mesmo não se podia dizer do seu capataz que estava sempre em desacordo com ele e de quem todos tinham muito medo; até a Filipa o evitava.

Uma semana antes das férias acabarem, o tio António levou a Filipa em todas as suas expedições pelas fazendas e pelas aldeias onde viviam os empregados que trabalhavam nas roças de café e apesar de só ter 10 anos, viu o humanismo no trato que o seu tio tinha com aqueles trabalhadores, que quase de Sol a Sol labutavam. Ouviu-o com frequência dizer que precisavam de se repousar um dia ou dois e quando eles se negavam por causa do medo que tinham do capataz, ouviu-o também dizer, que ele mesmo lhe falaria.

Este testemunho de altruísmo, de bondade e empatia, ficou para sempre gravado no espírito da Filipa, fazendo com que ela crescesse com verdadeiros valores e com respeito por todo o ser humano, independentemente da sua condição sociocultural.

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sábado, 18 de dezembro de 2021

Tempestade de verão – ATÍLIO CIRAUDO

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“Ai. Saudade é uma coisa azul e amarga, com carne por fora e espinho por dentro”.
Caio Fernando Abreu em carta a Hilda Hilst 

   Como uma tempestade de verão, você vem, tumultua todos os meus sentimentos e me enche, como água barrenta, tudo que os anos assentaram cordialmente para que as tristezas não viessem tomar conta do que já é e foi determinado. O tempo levou o que antes ainda estava imaturo e indefinido, que interrompido por impulsos levianos não deixou evoluir o que antes eram doces ilusões, juventude que despertava. Mesmo conflituados os desejos vinham como ânsias do novo, impróprios ou não, eram vividos e sentidos sem consequências externas.

Diversas tempestades vieram e foram, como sempre é. Umas anunciadas outras repentinas.

Mas, o incomodo da última, a atual, não cala a sua intenção; buscar no passado as respostas que num único e simples momento ter sido consequentes para o ato derradeiro: o rompimento definitivo da amizade.

Busquei abrigo e encontrei na saudade, na tristeza e na solidão aliados que me nutriam, confortando-me e fazendo-me crer que o passado já tão longe ia e que nada traria de volta, restando minúcias do que estava perdido. E perdido me encontro agora, sem abrigo e dúvidas me assaltam. Tenho realmente consciência do que posso encontrar? Buscar somente na impulsividade, o que é fato, é o caminho mais propício? As referências já não existem e não sei qual foi o trato que recebeu da vida, se conserva o doce do olhar, o carinho da entrega, o afeto na compaixão, o afago na dor, o sorriso na alegria de amar, a tudo e a todos.

A fúria dos ventos que arrancam minhas raízes desenterra do profundo o que se fazia isolado e esquecido, rompem partes, mantem intactos os mais puros e reais sentimentos que organizados suavemente por uma leve brisa anunciando que esta, por fim, esta tempestade passou. E como diz a canção “... qualquer dia amigo eu volto a te encontrar”. E assim será, mesmo que seja somente em mim, dentro, guardado como já está.

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Criação – ANTÓNIO ALMAS

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Percorro com a ponta dos dedos a imaginária linha do teu sorriso como um pincel decorando-os de carmim. Invento o toque pressionando o vazio e sentindo como me devolve a sensação de pele, a textura dos poros arrepiados dum corpo nu tocado pelo olhar das letras.

 

Abstraio os demais sentidos, quero focar-me na possibilidade de tocar o nada, fazer dele tanto que estás ali sentada, pousando para um olhar clínico de quem não vê senão com a ponta da alma.

 

Sinto! Sinto tanto que parece ser real aquilo que invento. Há uma sensação morna no ar, o calor dum corpo despido mesmo à frente do meu rosto, um silêncio mudo que diz tanto como se houvesse palavras a flutuar nos teus cabelos escorridos.


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sábado, 11 de dezembro de 2021

Quintal I – ANCHIETA ANTUNES

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No meu quintal não permito vilania, nem raízes de ódio, muito menos a espreita de tocaia no tronco da figueira. No mercado da vingança o ganho é pífio, com taxas de alto risco, sem garantia de retorno, ou com retorno negativo. No quintal da minha casa plantei uma “piccola” semente com promessas de frutos, de grande sombra para proteger a pureza dos sonhos banhados com a luz da esperança.

No meu quintal as raízes são vistas através de um solo de vidro, para evitar duvidas, principalmente, para não achincalhar o conceito da virtude, a pureza da oração da aurora. Sonhos e realizações fervilham no cadinho do amanhã. No quintal da minha casa planto mil flores, mil cores no caleidoscópio da felicidade em andamento nos trilhos da liberdade de expressão. Observo Deus verter suas lagrimas puras para dar vida às sementes que não canso de plantar; não preciso regar, nem podar: apenas observar seu crescimento, desfrutar das fragrâncias, das sombras, dos frutos. No meu quintal vivo o “dolce fare niente” da coisa conseguida, do fato consumado do sorriso que escancara a alegria na boca, nos olhos, no coração. A cruz que tenho que carregar nos ombros foi feita de gravetos, e pesa menos que a súplica de perdão.

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sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

No dia da sua morte – ANA TEIXEIRA

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No dia da sua morte você não estava lá.
Não estava porque a morte não existe, então, você viajou.
Você estava com as estrelas, os planetas e o sol, no vasto infinito do universo. Estava refletindo sobre sua existência, seus amores, seus desamores. Sim, desamores, porque, embora ainda longe da perfeição, você não sabia sentir ódio, nem mesmo de um pernilongo que te acorda no meio da noite.
Então você foi colocando tudo numa balança e a cada segundo surgiam novas lembranças e novos pensamentos. A mente não tinha descanso; estava povoada de sentimentos, emoções e pessoas.
De repente, você se lembrou de que havia morrido...
Imediatamente foi transportada para o jardim do hospital. Era tão bonito e tão florido, que nem parecia um hospital.
Aproximou-se um homem de meia-idade, grisalho, alto e magro, com uma expressão leve e receptiva. Parou próximo ao banco em que você estava sentada e ficou olhando para você.
Imediatamente um pensamento invadiu a sua mente: acho que terei de partir.
Mas o homem de semblante calmo nada dizia, nada fazia. Somente observava.
Você ficou intrigada e teve curiosidade de ver o seu corpo.
Imediatamente você foi transportada para a singela capela que ficava anexa ao hospital.
Havia somente três salas e uma delas estava ocupada.
Você viu muitos amigos e familiares próximos e outros que não via há tempos. Todos com semblante triste.
Você tentou falar com eles, mas todos estavam alheios à sua presença. Somente um gato no canto da sala olhou para você e abanou o rabo. Ficaste feliz por um tempo, mas logo o bichano levantou e saiu.
Então você criou coragem e aproximou-se do caixão. Levou um susto grande e só não desmaiou porque estava morta...
Nesse momento, aquele distinto senhor que estava no jardim apareceu e fez menção em amparar-te. Como estava muito fraca, aceitou a ajuda.
No momento em que seus braços a envolveram, você sentiu o chão desaparecer e tudo aquilo foi se tornando um vulto, uma memória distante.
O tempo passou. Dias, noites, semanas, meses. Você não conseguia saber a dimensão do tempo passado. Mas sentia-se mais viva do que nunca. Saudável, mais jovem, com mais vitalidade. Não sabia explicar como.
Agora você trabalhava com crianças. Auxiliando-as em sua educação. Aquele lugar era uma escola, muito linda, reluzente, ampla, com todas as janelas iluminadas pelo sol.
Não se comparava a lugar nenhum na terra. Era muito melhor.
Você estava feliz.

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sábado, 4 de dezembro de 2021

Entusiasmo – ALINE BRANDT

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Quando eu não estiver mais aqui... Abra todas as janelas. Gosto da casa bem arejada. Compre livros novos... Mas lembre-se de cuidar dos antigos. É fácil encontrar companhia em histórias. Caminhe, descalço, pelo jardim. A sensação de liberdade é indescritível. Tome banho de chuva. Faz bem para a alma e recarrega as energias.
Vá até uma padaria. Peça café e um pedaço de torta de chocolate. É preciso, de vez em quando, se permitir exageros. Sinta o perfume das flores. Em meio a um jardim florido bons sentimentos se multiplicam.
Ouça, ao amanhecer, o canto dos pássaros. É revigorante ser acordado com tamanha gentileza. Observe o nascer ou o pôr do sol. Sempre gostei mais de dias cinzentos. É impossível, contudo, não se alegrar com a beleza do céu em um dia ensolarado.
Dance ao som de Elvis Presley. Não se incomode se parecer, aos olhos de outras pessoas, careta ou ultrapassado. Música boa não tem prazo de validade.
Quando eu não estiver mais aqui - e não souber o que lhe cai bem - vista-se de amor... Espalhe amor... Seja amor... Porque o mundo está precisando de gente disposta a oferecer bons sentimentos.
Enquanto eu estiver aqui, contudo, abrirei janelas... Comprarei livros... Caminharei descalça... Tomarei chuva... Frequentarei cafés... Sentirei o perfume das flores... Acordarei com o canto de pássaros... Observarei o sol... Dançarei ao som de Elvis Presley... E vestirei amor. Farei tudo isso em sua companhia... Para que tenha boas lembranças quando eu não estiver mais aqui.

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sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Michelle – ALESSANDRA BARCELAR

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Os fracos morrem sem amor. Não me ligaram para avisar a primeira vez que ela foi internada.
Já tinha aquilo dentro de mim. À noite, quando o único som era o dos ratos andando pelo telhado, eu cobria o rosto. Deixava minha mão descer. Fazia medições para ter certeza do que era ter aquilo.
Sentado de frente para uma janela no centro da cidade, começo a temer pelo encontro marcado para daqui a pouco.
“Faz mais de quinze anos que você foi embora e nos deixou nessa latrina. Com que direito aparece agora?”
“Saí, porque meu corpo só carregava um”.
“Você é um bosta. Acha que sua carteira aberta é uma parte de benevolência”.
Virei as costas e fui em direção à porta do quarto. Temia vê-la de uma forma diferente daquela que conheci anos antes.
“Vamos à benzedeira. Tudo tem jeito nessa vida. Só não tem jeito pra morte”.
“Pra morrer basta estar vivo”.
Seu corpo arfava sobre a maca. Braços amarrados com gazes. Olhos catatônicos. Um tubo enfiado pela boca e lábios arroxeados. Sobre o corpo, um lençol já amarelado pelo uso em outros corpos deixa parte de seu colo nu à vista.
“Sua mãe acha esse jeito estranho. Pergunta se nunca reparei em nada.”
“A loucura faz parte. Acho que é só um jeito de pensar que sai descarrilhado da cabeça”.
Minha irmã chorava copiosamente sentada numa cadeira. Amparada pelo banana do marido, questiona Deus.
As pessoas pelos corredores. Éramos fantasmas para elas. Cada um tem seus próprios doentes e recebe suas más notícias a seu tempo.
“Que porra é essa no seu caderno? Quem é? Eu não acredito que Deus me castigou assim!”
“Sua mãe perguntou sobre essas coisas no seu caderno. Eu disse que era brincadeira de alguém da escola”.
A pele dela há muito era um leito de rio seco. Os lábios roxos em nada lembravam a vivacidade vermelha de outrora. Será que ela ainda tem aquele cheiro? Levei uma surra um dia porque mexi nas coisas dela. Perfume. Batom. Pó. A mangueirinha do chuveiro abriu vergões em minha pele. Chorei por todos os motivos. Passei vergonha na escola.
“Sabe, eu te defendia na escola. Briguei quando te zoavam. Uma vez fiquei com o olho roxo. Aí, um dia, você vira as costas e some.”
“O mundo só é grande se a gente abre espaço”.
“Claro que ela não iria aceitar, mas ela chorava feito pedra minando água”.
Logo vai chegar minha tia. A boa samaritana da família. Usa saia e faz tudo que o pastor manda. Vai me olhar inquisidora. Perdeu tudo, menos a pose. Cumprimentará minha irmã. A filha que ela queria. A filha que ela tentou roubar da minha mãe. Até berço comprado já tinha. Não era justo uma menina bonita naquela miséria.
Ainda há fios espalhados aqui e ali pelo seu couro cabeludo. Suas fotos da juventude mostravam um cabelo volumoso. Usava bobes para fazer os cachos. Nas excursões para a praia, nunca molhava os cabelos. Dizia que frequentava os bailes dos anos 70. Deve ter dançado Jackson Five e Donna Summer.
“Ela nunca soube que era você quem mandava o dinheiro. Eu dizia que era da venda de Avon”
“Todo suor dá dinheiro”.
“Eu fingia não ouvir as piadas quando passava no bar. Às vezes, eu pensava em estourar e virar um diabo doido lá dentro. Sei que te achavam uma aberração e que a culpa era minha. Para os outros, a culpa é do pai, que não deu exemplo”.
“O exemplo é só uma embalagem para não derramar o que tem dentro”
Meu pai apareceu com o médico. O doutor colocou a mão em seu ombro e fez um afago. Passou pela minha irmã e fez o mesmo. Diante de mim, um susto. Perguntei a ele se ela conseguia entender algo. Ele disse que naquele estado ainda resta consciência. Ela ouve? Sim.
Abri a porta e a enfermeira pediu licença. Coloquei a mão sobre seu colo e segurei sua mão. Senti-a fria, mas ainda arfava sob o lençol.
- Eu fiz a escolha certa, mãe. A senhora não aceitou nunca, mas a natureza da gente é um bicho que não dá pra domar. Mãe, eu te perdoo. Guardamos rancor demais pra levar agora. Eu só queria um pouco de atenção, porque eu sempre soube do que eu gostava.
Chorei e abaixei a cabeça. Beijei sua testa já gelada. Seu peito subiu alto. Cheio de ar.
Um apito ininterrupto tomou conta da linha verde na máquina ao seu lado.

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domingo, 28 de novembro de 2021

Mulher: o ser desejante - MARCELA BUENO

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Pensei muito sobre o que escrever a respeito do meu universo feminino, tenho um bocado de histórias a contar. Aliás, nós mulheres temos muito a dizer, a contestar, a reivindicar, a gritar, a exigir.
O meu feminino nasceu espelhado em uma mãe forte, independente e lutadora, que sempre me mostrou o quão necessário era buscar se erguer e viver sem precisar de dinheiro alheio.
Cresci com este intuito ambicioso, em tempos em que ainda não o classificaria como um ato feminista. Na verdade, nunca me vi como tal. Pelo contrário, tinha uma certa aversão a esse título – aquele poder da sociedade patriarcal sobre o consciente coletivo.
Abracei a metrópole, disputei espaço em um mercado profissional de predominância masculina, morei sozinha, corri o mundo e fui independente. Reconheço que, por vezes, fui insubordinada e isso mudou algumas trajetórias, ao mesmo tempo em que foi a minha arma para me manter no meu lugar de direito.
Fácil não foi – muito longe disso, fui engolida por leões que, indigestos, me lançavam de volta. Foram danosos, deixaram cicatrizes, mas ainda mais histórias interessantes. Enfim, tenho muito orgulho de tudo o que conquistei como mulher, sabendo que ainda há um longo caminho para que esse sentimento seja unânime no universo feminino.
Mas, na verdade, o que quero contar é sobre um constrangimento particular no meu ser mulher. Algo que sempre me incomodou, mas que não me permiti falar até então. Seja por imaginar ser um mau comportamento, seja por não me sentir confortável em compartilhar a minha íntima relação com o corpo, seja pela crença arraigada da subordinação e dos pudores femininos.
O fato é: será que sou livre para transar? Ser independente inclui ser livre para escolher com quem e quando fazer sexo? Isso nunca ficou claro para mim, apesar do assunto sempre ter sido tratado com ampla naturalidade na minha criação.
Não é o sexo, o ato de fazer ou não, o tabu e o incompreendido. Falo sobre o sentimento de culpa e de pecado que o acompanha. Um sentimento que seguramente surge do pensamento coletivo, das crenças e valores de uma sociedade que por séculos foi pautada na tradicional família cristã, onde a mulher ocupava o lugar de objeto e não de sujeito.
Muito já se fez, é verdade. Adquirimos mais liberdade, mais direitos e menos olhares repressores sobre o verdadeiro arbítrio sobre o nosso corpo. O que não exclui, no entanto, a punição individual, aquele pensamento de ser rotulada, discriminada e preterida pelo outro.
Sinto que ainda há muitas questões por desvendar. Será que somos seres ou objetos quando nos apresentam “manuais de bons costumes” com indicadores de prazos para ter a primeira relação sexual com o parceiro e não o afastar do nosso sonho de altar? Somos seres ou objetos quando temos que manter os pelos pubianos aparados e portar uma lingerie de rendas apetitosas? Somos seres ou objetos quando um corpo desejoso é sinônimo de um corpo esbelto? O que será que somos quando um corpo que superou a menopausa é considerado um corpo fora da praça sexual?
Acredito ser mais que um trabalho de aceitação individual feminina. Vivemos em função do outro, somos coletivos e determinados pelos nossos comportamentos. O outro não nos vê pelo que pensamos, mas pelo que expressamos.
Assim que (se) expor publicamente é estar sujeito a julgamentos. Então, o que me cabe não é me julgar e me culpar por ter transado com quem e quantos, quando e como desejava, isso faz parte do meu gozo particular, mas sim saber como lidar com o público inquisidor.
Hoje, mãe, em uma relação afetiva estável, pré-menopáusica e com a libido em latência estou em paz com as minhas decisões e relações sexualmente frenéticas que vivi, mas eu precisei me colocar nessa posição de expectativas sociais para isso.
Assim, mulher, a mensagem é: seja um ser que respeita os seus desejos sexuais e não se culpe por querer, por se excitar e por ansiar. Não seja o objeto de desejo, mas o ser desejante e ativo. Aquele que se satisfaz em plenitude – o que pensarão ou dirão de ti, pertencerá ao outro.

EM - UNIVERSO FEMININO - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 21 de novembro de 2021

Ovo da serpente - VALÉRIA VICTORINO VALLE

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O bifrontismo serpeia o universo cartesiano e o imaginário do cotidiano.
E o homem é a serpente do próprio homem nesse veneno antagônico de Ser.
No contorcer das dualidades de sobrevivência em ambientes inóspitos e hostis, na caça absurda do mundo real às avessas, nessa obra que extirpa o codificado, nesse poema que destrói o vigiado, ondeiam agora a perplexidade e a estranheza.
Move-se a serpente no expelir do ovo e esse, incubado em insólitas membranas, serpenteia a angústia interior e cobreja a caixa de Pandora da realidade.
Diante desse perpétuo e irrequieto espetáculo de poder, ziguezagueia a lógica da anarquia e a força da astúcia a imaginar a quarentena, contagiante e persistente, dessa Serpente no mundo:
A rastejante-tinhosa escapa da cabeça da Medusa,
O demônio-coxo domina o espectro dos mitos, a Hidra transmutada vence os Titãs do Olimpo, e
pactua o jogo da verossimilhança instituída nesse ovo transfigurado.
O extraordinário inimaginável e dicotômico meandra o racional:
A presença da víbora no lugar de Gregor na Metamorfose Kafkaniana,
O bicho-preto serpenteia na cegueira branca de Saramago,
O rubro ofídio enrodilhado usurpa o trono de Aslam em Nárnia,
A cobra devoradora da Uiara em Macunaíma invade a Ursa Maior,
O negro feitiço de Évora que adentra a Casa Verde do Alienista,
A serpente sinuosa faz a ecdise e protege Brutus a ser morto na casca,
O devorar e o digerir de Teleco, o Coelhinho, no fantástico dos dias...
Esse ovo chocado de ambiguidades, paradoxos e maniqueísmos,
alimenta-se da aparição das incertezas e dos medos impostos pelo falo do poder.
A ignorância gestada na manipulação e na perspicácia dos fortes determina o clichê paradigmático e algorítmico no qual eclode o eterno vencedor e se esmaga o vencido para sempre.
A serpente choca seu ovo que rompe e encontra eco nesse poder tirânico agravador das enfermidades humanas: a intolerância, a falsidade, a corrupção e a difusão do ódio.
Contudo, ainda é tempo para o imprevisível e o imponderável, a renovação e regeneração também circulam o ovo.
Uma ascensão insólita cobreia a Serpente de cada dia, entre o mistério da hesitação e o mister da alteridade, nasce o Ouroboros, o círculo da vida, em busca do resgate do axioma fundamental do cosmos do respeito, pois essa serpente ainda pode enlaçar a dignidade e a integridade do Outro.
Afinal o doce riacho serpenteia o negrume das duras pedras...

EM - MULHERES A UMA SÓ VOZ - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Nascida para vencer - MARY PINHEIRO

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De uma cidade do interior de Alagoas, Mary é a sétima de dez filhos de uma família típica do Nordeste. Filha de pais sem instrução escolar, mas ricos de princípios morais e cristãos. Concepções tão arraigadas que deixam ‘no chinelo’ muitos ‘doutores’, pois trazem consigo educação ‘de berço’, que vai além da caneta e atinge a alma, que valoriza mais o SER que o TER.
Vindos do alto sertão, fizeram morada no Sítio Jijuíba, onde criavam sua prole e tiravam seu sustento. Ali, Mary crescia cercada de amor e companheirismo dos seus familiares, ajudava seus pais na lavoura e com os afazeres domésticos.
Apresentava ela uma característica diferenciada dos demais: gostava de silêncio e tinha um comportamento bem recluso. Aprendeu a ler muito cedo, por isso foi aceita na escola primária antes da idade padrão. Ela apresentava uma evolução cognitiva superior à sua idade. Aos seis anos, cursava a primeira série forte – nome dado às turmas mais avançadas, e era solicitada pela professora para dar suporte aos colegas na leitura e na resolução das atividades. Desenvolvera, assim, um enorme prazer pela leitura e escrita. Sonhava em ser professora. E ficava longos períodos sozinha, brincando com bonecas de milho, suas alunas, escrevendo em folhas de laranjeira, o que julgava ser os cadernos, usando os espinhos como lápis. Quando, lá na casa, a família sentia sua falta era porque era hora de almoçar ou jantar.
Vendo os filhos crescerem e que a escola do sítio já não oferecia as demais séries de estudo necessárias, aqueles pais que não tiveram a chance de estudar, mas que não queriam ver os filhos sem a mesma oportunidade, compraram na cidade mais próxima uma casa simples que serviria de abrigo para dormirem após as aulas. Foi assim que Mary e seus irmãos foram estudar na cidade. Trabalhavam meio período na lavoura e, ao meio-dia, enfrentando chuva ou sol, subiam grandes colinas até a cidade para frequentarem as aulas. Mary chegava a chorar quando, por motivos maiores, precisava faltar às aulas. Estudar, desde muito cedo, tinha se tornado a sua grande paixão.
Na quarta série, conheceu uma professora que seria sua inspiração pelo resto dos seus dias: a Professora Luíza. Aquela mulher meiga e tão sensível às necessidades dos escolares, com sua maneira firme de lecionar e sua didática impecável, conquistou a menina, que suspirava: “Quando eu for uma professora, quero ser igualzinha à Dona Luíza!”
Oriunda de família cristã, desde a adolescência foi inserida nos trabalhos da Igreja, em aulas de catequese e grupos de jovens, funções que desempenhava muito bem. Na juventude, pensou em ser religiosa consagrada, chegando até o noviciado em uma congregação religiosa na Bahia, deixando sua contribuição na educação de crianças e jovens em creches e escola técnica.
Fez Magistério e, finalmente, iniciou sua experiência na tão sonhada profissão. Passou muitos perrengues por ser iniciante e a falta de experiência lhe custou alguns traumas iniciais, típicos de qualquer começo. No estilo erro/acerto, foi se aprimorando e tomando cada vez mais gosto por aquilo que fazia. Foi a primeira da família a concluir o nível superior. Fez Pedagogia e Psicopedagogia. Ao ser aprovada em concurso público da rede estadual, trabalhou em diversas modalidades de ensino e continua cada vez mais encantada com a possibilidade de contribuir com a transformação da vida de jovens cheios de sonhos, ou daqueles esvaziados e sem expectativa de uma vida melhor, pois seu objetivo é abrir caminho em suas vidas e corações para que alcancem os voos que desejam, seguindo seu lema: nascemos para vencer.
Os anos se passaram, muitas dificuldades enfrentadas e vencidas com maestria. Hoje, casada e mãe de três filhos, segue sua vida se dividindo entre a família e a profissão, ensinando a todos o que de mais valioso aprendeu com seus pais: valorizar o SER em detrimento do TER. Ela acredita que essa é a única maneira de se formar pessoas melhores e de se contribuir para o tão sonhado mundo melhor.
Mary é aquela típica professora que se entrega de alma ao ensino, que enfrenta dificuldades e busca constantemente por novas habilidades para alcançar seu público. Ultimamente, essa incansável sonhadora está concluindo sua segunda graduação, agora em Letras. Leciona Sociologia e faz parte de um grupo de pesquisa da escola onde trabalha, desenvolvendo a iniciação à pesquisa científica no ensino médio. Mary pretende ainda cursar Psicologia para ajudar jovens em situação de vulnerabilidade social, e conseguirá, ela sabe que NASCEU PARA VENCER!

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quarta-feira, 17 de novembro de 2021

A nova literatura brasileira: A mulher negra como protagonista da sua própria história - RITA PINHEIRO

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O século XX traz uma ascendente valorização das raízes culturais no país e consequentemente uma maior visibilidade das produções artísticas negras na literatura, música e artes plásticas. Os padrões eurocêntricos, até então reinantes, se vê diante do surgimento de padrões estéticos próprios do povo brasileiro.
Anteriormente limitadas à marginalidade, as culturas negras e indígenas passam a situar-se no centro das discussões, forçando a todos - editoras e leitores - a se colocarem em lugar de escuta e requerendo de forma irreversível um estudo mais aprofundado dessas produções culturais.
No mundo contemporâneo as escritoras trazem nas suas produções a sua própria história, a nossa e de tantas outras que se vêem contempladas nessas narrativas. A literatura negra surge como forma de resistência, nasce da necessidade de ter poder sobre a narração das suas próprias experiências e da urgência de ocupar espaços que antes lhe foram negadas.
Com percursoras como Maria Firmina dos Reis, que em 1822 lançou o romance “Úrsula”, e Carolina Maria de Jesus, autora do livro “Quarto de despejo: Diário de uma favelada”, o Brasil literário negro feminino traz uma gama de representatividade reconhecida pelo mundo pela qualidade que estes tem promovido na estruturação de discussões e amplificação de vozes como: Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Mel Duarte, Jovina Souza, Paulina Chiziane, Noémia Souza, Carla Akotirene, dentre muitas que têem suas publicações como campeões de vendas num país com uma baixa taxa de leitores.
Escrever, publicar, é alimentar sonhos, libertar medos e construir uma nova história.

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segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Todas elas estão em mim - RENATA MELO

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Minhas lutas, especialmente as internas, sempre foram travadas com o objetivo de entender quem sou eu, o que faria da vida, que legado deixaria ao final e, principalmente, quais seriam as minhas realizações nesse percurso. O que, de fato, me faria achar um significado em existir e ser feliz...
Desde cedo me senti muito ligada à história dos que me antecederam na família, como se deu esse enredo até o meu nascimento. Talvez, por interessar-me tanto por isso, ao descobrir como foi, trouxe para mim a responsabilidade de dar continuidade a ela.
De tudo que ouvi, a vida das minhas antepassadas era o que mais me chamava a atenção. Embora os homens também estivessem lá, eles nunca foram o meu grande foco de observação. Desde pequena, eu conseguia perceber a importância delas em tudo que era contado por minhas avós. Ah, como eu adorava (e ainda adoro) ouvi-las!
Minha árvore genealógica é repleta de mulheres fortes e com experiências densas. Mulheres à frente do seu tempo e de muita complexidade. Imigrantes vindas da Itália em viagens que duraram mais de 30 dias com filhos no ventre e outros a tiracolo. Mulheres que trabalharam incansavelmente para prover uma estrutura mínima para suas famílias. Mulheres que protagonizaram suas jornadas.
Certamente, com o tempo e em minha formação, essas experiências foram compondo o que me tornei. Inconscientemente, busquei por caminhos em que eu igualmente pudesse protagonizar a minha jornada, não “dependendo de ninguém” e fazendo a diferença no mundo, de alguma forma.
Sempre tive apoio dos meus pais e com isso dediquei rapidamente minha vida à construção da minha jornada profissional. Em algum momento, percebi que esse era o caminho inverso ao de todas as histórias que ouvia, nas quais as mulheres ficavam nas casas, cuidando dos filhos enquanto os maridos trabalhavam fora.
Embora esse fosse o enredo, não era bem verdade que as mulheres não trabalhavam além da rotina do lar. Além da casa e filhos, elas cuidavam das fazendas, costuravam para a família toda e para a casa, gerenciavam a rotina das pessoas e coordenavam toda a dinâmica familiar estabelecida. Elas eram as grandes líderes daquele contexto todo.
É como as vejo agora, foi como as vi desde o início. E se elas conseguiram, tendo uma rotina densa de família em paralelo, imagina o que eu poderia conseguir, se pudesse focar apenas na minha carreira profissional? Tornei-me o que criei em meu imaginário. Trabalhei duro e por anos, sem qualquer zelo e cuidado com minha feminilidade e intuições. Venci ambientes bastante machistas e masculinos e com minha dedicação e trabalho, conquistei meu espaço.
Até que, inevitavelmente, me percebi distante do que me motivou a buscar o meu feminino. Faltava algo. Eu tinha minha total independência, havia experimentado e provado minha força como mulher, mas, para quê? E para quem eu contaria sobre tudo isso? Quem teria orgulho da minha história, como eu tenho das mulheres que me antecederam e me fizeram ser quem sou?
Quando me vi nessa rota, me aproximei do que de fato me encantava em minhas ancestrais: a capacidade incrível que todas elas tinham de consolidar uma vida de suporte prático ao lar, mas sem jamais renunciarem à maior de todas suas forças, a do feminino.
Esse reencontro foi doce. Existiram (e existirão ainda) dias bastante amargos, é verdade. Todavia, até esse momento, ter tido essa percepção me conectou ainda mais a elas.
Edifico minha família e sigo trabalhando intensamente no mundo corporativo, buscando sempre trazer quem realmente sou para cada minuto do meu dia, em qualquer um desses ambientes. Eu me olho no espelho e reconheço meus traços e de onde cada um deles provêm. Tenho orgulho. Acolho-me. Acaricio minhas cicatrizes e marcas. Eu me busco nelas.
E, por meio da gratidão e compreensão, honro aos longos dias de navegação em alto mar das minhas ancestrais, aos 24 partos das minhas bisavós, entre vitórias e perdas. Aos assédios, choros e frustrações que sofreram. À luta solitária de minha avó materna para criar seus três filhos, viúva, e em seu luto sustentá-los através de uma vida passada na máquina de costura dia e noite. Da sabedoria da minha avó paterna, em cultivar seu amor-próprio e desbravar o mundo lançando-se ao trabalho fora do lar, destemida em recomeços e sempre em busca da sua própria felicidade. E, finalmente, honro minha mãe. Pela sua doação constante para cuidar de todos, garantir a segurança e a união da nossa família, renunciando, muitas vezes, ao seu próprio desejar.
A elas, dedico minha luta diária de não me esquecer de quem sou e de como cheguei aqui; de manter a minha fé e ser feliz.

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domingo, 7 de novembro de 2021

Trauma - LUCIENE AVANZINI

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Numa noite escura, após um encontro de oração, Eurico volta para casa, caminhava tranquilo e pensativo. Lembranças de um passado recente povoavam seus pensamentos. Atravessa a avenida e vai se aproximando do portão lateral do Cemitério do Alecrim. Um cemitério antigo, histórico e cheio de mistérios. De repente, ouve um barulho horripilante, acompanhado de um arrastar de correntes. Sente o pânico tomar conta de seu ser. Paralisado de medo, tenta gritar para pedir ajuda a alguém que está vindo do outro lado da rua. Sua voz fica presa na garganta dificultando a respiração. Eurico luta contra esse inimigo oculto que é o seu medo. Sabe que um cabra mole e covarde, mas precisa sair dali. Sentimentos em conflito, impedem que tome qualquer atitude.
Não consegue reagir. Calafrios percorrem seu frágil corpo jovem. Já não consegue raciocinar. O perigo é iminente. Não bastava a dificuldade de respirar?! Seu corpo tomba... Debatendo-se, sente alguém sacudindo violentamente seu corpo. Pensou... morri! Tremendo da cabeça aos pés, decide abrir os olhos, um de cada vez...
Uma jovem, muito estranha estava em pé ao seu lado. Ainda meio atordoado, tenta enxergar melhor, pois tinha uma miopia congênita e seus óculos, na hora do pavor, havia se espatifado no chão. Ao se aproximar mais da jovem, percebe que ela usava um véu que cobria seu rosto parcialmente. Chega mais perto e fica estarrecido, ela tinha seu rosto desfigurado, deixando à mostra parte da sua estrutura óssea facial. O instinto de sobrevivência fala mais alto e ele saí em disparada. Até hoje, Eurico lembra com pavor desse episódio na sua vida. E não tem quem o faça voltar a andar por aquelas bandas do Bairro do Alecrim.

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