domingo, 28 de novembro de 2021

Mulher: o ser desejante - MARCELA BUENO

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Pensei muito sobre o que escrever a respeito do meu universo feminino, tenho um bocado de histórias a contar. Aliás, nós mulheres temos muito a dizer, a contestar, a reivindicar, a gritar, a exigir.
O meu feminino nasceu espelhado em uma mãe forte, independente e lutadora, que sempre me mostrou o quão necessário era buscar se erguer e viver sem precisar de dinheiro alheio.
Cresci com este intuito ambicioso, em tempos em que ainda não o classificaria como um ato feminista. Na verdade, nunca me vi como tal. Pelo contrário, tinha uma certa aversão a esse título – aquele poder da sociedade patriarcal sobre o consciente coletivo.
Abracei a metrópole, disputei espaço em um mercado profissional de predominância masculina, morei sozinha, corri o mundo e fui independente. Reconheço que, por vezes, fui insubordinada e isso mudou algumas trajetórias, ao mesmo tempo em que foi a minha arma para me manter no meu lugar de direito.
Fácil não foi – muito longe disso, fui engolida por leões que, indigestos, me lançavam de volta. Foram danosos, deixaram cicatrizes, mas ainda mais histórias interessantes. Enfim, tenho muito orgulho de tudo o que conquistei como mulher, sabendo que ainda há um longo caminho para que esse sentimento seja unânime no universo feminino.
Mas, na verdade, o que quero contar é sobre um constrangimento particular no meu ser mulher. Algo que sempre me incomodou, mas que não me permiti falar até então. Seja por imaginar ser um mau comportamento, seja por não me sentir confortável em compartilhar a minha íntima relação com o corpo, seja pela crença arraigada da subordinação e dos pudores femininos.
O fato é: será que sou livre para transar? Ser independente inclui ser livre para escolher com quem e quando fazer sexo? Isso nunca ficou claro para mim, apesar do assunto sempre ter sido tratado com ampla naturalidade na minha criação.
Não é o sexo, o ato de fazer ou não, o tabu e o incompreendido. Falo sobre o sentimento de culpa e de pecado que o acompanha. Um sentimento que seguramente surge do pensamento coletivo, das crenças e valores de uma sociedade que por séculos foi pautada na tradicional família cristã, onde a mulher ocupava o lugar de objeto e não de sujeito.
Muito já se fez, é verdade. Adquirimos mais liberdade, mais direitos e menos olhares repressores sobre o verdadeiro arbítrio sobre o nosso corpo. O que não exclui, no entanto, a punição individual, aquele pensamento de ser rotulada, discriminada e preterida pelo outro.
Sinto que ainda há muitas questões por desvendar. Será que somos seres ou objetos quando nos apresentam “manuais de bons costumes” com indicadores de prazos para ter a primeira relação sexual com o parceiro e não o afastar do nosso sonho de altar? Somos seres ou objetos quando temos que manter os pelos pubianos aparados e portar uma lingerie de rendas apetitosas? Somos seres ou objetos quando um corpo desejoso é sinônimo de um corpo esbelto? O que será que somos quando um corpo que superou a menopausa é considerado um corpo fora da praça sexual?
Acredito ser mais que um trabalho de aceitação individual feminina. Vivemos em função do outro, somos coletivos e determinados pelos nossos comportamentos. O outro não nos vê pelo que pensamos, mas pelo que expressamos.
Assim que (se) expor publicamente é estar sujeito a julgamentos. Então, o que me cabe não é me julgar e me culpar por ter transado com quem e quantos, quando e como desejava, isso faz parte do meu gozo particular, mas sim saber como lidar com o público inquisidor.
Hoje, mãe, em uma relação afetiva estável, pré-menopáusica e com a libido em latência estou em paz com as minhas decisões e relações sexualmente frenéticas que vivi, mas eu precisei me colocar nessa posição de expectativas sociais para isso.
Assim, mulher, a mensagem é: seja um ser que respeita os seus desejos sexuais e não se culpe por querer, por se excitar e por ansiar. Não seja o objeto de desejo, mas o ser desejante e ativo. Aquele que se satisfaz em plenitude – o que pensarão ou dirão de ti, pertencerá ao outro.

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domingo, 21 de novembro de 2021

Ovo da serpente - VALÉRIA VICTORINO VALLE

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O bifrontismo serpeia o universo cartesiano e o imaginário do cotidiano.
E o homem é a serpente do próprio homem nesse veneno antagônico de Ser.
No contorcer das dualidades de sobrevivência em ambientes inóspitos e hostis, na caça absurda do mundo real às avessas, nessa obra que extirpa o codificado, nesse poema que destrói o vigiado, ondeiam agora a perplexidade e a estranheza.
Move-se a serpente no expelir do ovo e esse, incubado em insólitas membranas, serpenteia a angústia interior e cobreja a caixa de Pandora da realidade.
Diante desse perpétuo e irrequieto espetáculo de poder, ziguezagueia a lógica da anarquia e a força da astúcia a imaginar a quarentena, contagiante e persistente, dessa Serpente no mundo:
A rastejante-tinhosa escapa da cabeça da Medusa,
O demônio-coxo domina o espectro dos mitos, a Hidra transmutada vence os Titãs do Olimpo, e
pactua o jogo da verossimilhança instituída nesse ovo transfigurado.
O extraordinário inimaginável e dicotômico meandra o racional:
A presença da víbora no lugar de Gregor na Metamorfose Kafkaniana,
O bicho-preto serpenteia na cegueira branca de Saramago,
O rubro ofídio enrodilhado usurpa o trono de Aslam em Nárnia,
A cobra devoradora da Uiara em Macunaíma invade a Ursa Maior,
O negro feitiço de Évora que adentra a Casa Verde do Alienista,
A serpente sinuosa faz a ecdise e protege Brutus a ser morto na casca,
O devorar e o digerir de Teleco, o Coelhinho, no fantástico dos dias...
Esse ovo chocado de ambiguidades, paradoxos e maniqueísmos,
alimenta-se da aparição das incertezas e dos medos impostos pelo falo do poder.
A ignorância gestada na manipulação e na perspicácia dos fortes determina o clichê paradigmático e algorítmico no qual eclode o eterno vencedor e se esmaga o vencido para sempre.
A serpente choca seu ovo que rompe e encontra eco nesse poder tirânico agravador das enfermidades humanas: a intolerância, a falsidade, a corrupção e a difusão do ódio.
Contudo, ainda é tempo para o imprevisível e o imponderável, a renovação e regeneração também circulam o ovo.
Uma ascensão insólita cobreia a Serpente de cada dia, entre o mistério da hesitação e o mister da alteridade, nasce o Ouroboros, o círculo da vida, em busca do resgate do axioma fundamental do cosmos do respeito, pois essa serpente ainda pode enlaçar a dignidade e a integridade do Outro.
Afinal o doce riacho serpenteia o negrume das duras pedras...

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quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Nascida para vencer - MARY PINHEIRO

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De uma cidade do interior de Alagoas, Mary é a sétima de dez filhos de uma família típica do Nordeste. Filha de pais sem instrução escolar, mas ricos de princípios morais e cristãos. Concepções tão arraigadas que deixam ‘no chinelo’ muitos ‘doutores’, pois trazem consigo educação ‘de berço’, que vai além da caneta e atinge a alma, que valoriza mais o SER que o TER.
Vindos do alto sertão, fizeram morada no Sítio Jijuíba, onde criavam sua prole e tiravam seu sustento. Ali, Mary crescia cercada de amor e companheirismo dos seus familiares, ajudava seus pais na lavoura e com os afazeres domésticos.
Apresentava ela uma característica diferenciada dos demais: gostava de silêncio e tinha um comportamento bem recluso. Aprendeu a ler muito cedo, por isso foi aceita na escola primária antes da idade padrão. Ela apresentava uma evolução cognitiva superior à sua idade. Aos seis anos, cursava a primeira série forte – nome dado às turmas mais avançadas, e era solicitada pela professora para dar suporte aos colegas na leitura e na resolução das atividades. Desenvolvera, assim, um enorme prazer pela leitura e escrita. Sonhava em ser professora. E ficava longos períodos sozinha, brincando com bonecas de milho, suas alunas, escrevendo em folhas de laranjeira, o que julgava ser os cadernos, usando os espinhos como lápis. Quando, lá na casa, a família sentia sua falta era porque era hora de almoçar ou jantar.
Vendo os filhos crescerem e que a escola do sítio já não oferecia as demais séries de estudo necessárias, aqueles pais que não tiveram a chance de estudar, mas que não queriam ver os filhos sem a mesma oportunidade, compraram na cidade mais próxima uma casa simples que serviria de abrigo para dormirem após as aulas. Foi assim que Mary e seus irmãos foram estudar na cidade. Trabalhavam meio período na lavoura e, ao meio-dia, enfrentando chuva ou sol, subiam grandes colinas até a cidade para frequentarem as aulas. Mary chegava a chorar quando, por motivos maiores, precisava faltar às aulas. Estudar, desde muito cedo, tinha se tornado a sua grande paixão.
Na quarta série, conheceu uma professora que seria sua inspiração pelo resto dos seus dias: a Professora Luíza. Aquela mulher meiga e tão sensível às necessidades dos escolares, com sua maneira firme de lecionar e sua didática impecável, conquistou a menina, que suspirava: “Quando eu for uma professora, quero ser igualzinha à Dona Luíza!”
Oriunda de família cristã, desde a adolescência foi inserida nos trabalhos da Igreja, em aulas de catequese e grupos de jovens, funções que desempenhava muito bem. Na juventude, pensou em ser religiosa consagrada, chegando até o noviciado em uma congregação religiosa na Bahia, deixando sua contribuição na educação de crianças e jovens em creches e escola técnica.
Fez Magistério e, finalmente, iniciou sua experiência na tão sonhada profissão. Passou muitos perrengues por ser iniciante e a falta de experiência lhe custou alguns traumas iniciais, típicos de qualquer começo. No estilo erro/acerto, foi se aprimorando e tomando cada vez mais gosto por aquilo que fazia. Foi a primeira da família a concluir o nível superior. Fez Pedagogia e Psicopedagogia. Ao ser aprovada em concurso público da rede estadual, trabalhou em diversas modalidades de ensino e continua cada vez mais encantada com a possibilidade de contribuir com a transformação da vida de jovens cheios de sonhos, ou daqueles esvaziados e sem expectativa de uma vida melhor, pois seu objetivo é abrir caminho em suas vidas e corações para que alcancem os voos que desejam, seguindo seu lema: nascemos para vencer.
Os anos se passaram, muitas dificuldades enfrentadas e vencidas com maestria. Hoje, casada e mãe de três filhos, segue sua vida se dividindo entre a família e a profissão, ensinando a todos o que de mais valioso aprendeu com seus pais: valorizar o SER em detrimento do TER. Ela acredita que essa é a única maneira de se formar pessoas melhores e de se contribuir para o tão sonhado mundo melhor.
Mary é aquela típica professora que se entrega de alma ao ensino, que enfrenta dificuldades e busca constantemente por novas habilidades para alcançar seu público. Ultimamente, essa incansável sonhadora está concluindo sua segunda graduação, agora em Letras. Leciona Sociologia e faz parte de um grupo de pesquisa da escola onde trabalha, desenvolvendo a iniciação à pesquisa científica no ensino médio. Mary pretende ainda cursar Psicologia para ajudar jovens em situação de vulnerabilidade social, e conseguirá, ela sabe que NASCEU PARA VENCER!

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quarta-feira, 17 de novembro de 2021

A nova literatura brasileira: A mulher negra como protagonista da sua própria história - RITA PINHEIRO

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O século XX traz uma ascendente valorização das raízes culturais no país e consequentemente uma maior visibilidade das produções artísticas negras na literatura, música e artes plásticas. Os padrões eurocêntricos, até então reinantes, se vê diante do surgimento de padrões estéticos próprios do povo brasileiro.
Anteriormente limitadas à marginalidade, as culturas negras e indígenas passam a situar-se no centro das discussões, forçando a todos - editoras e leitores - a se colocarem em lugar de escuta e requerendo de forma irreversível um estudo mais aprofundado dessas produções culturais.
No mundo contemporâneo as escritoras trazem nas suas produções a sua própria história, a nossa e de tantas outras que se vêem contempladas nessas narrativas. A literatura negra surge como forma de resistência, nasce da necessidade de ter poder sobre a narração das suas próprias experiências e da urgência de ocupar espaços que antes lhe foram negadas.
Com percursoras como Maria Firmina dos Reis, que em 1822 lançou o romance “Úrsula”, e Carolina Maria de Jesus, autora do livro “Quarto de despejo: Diário de uma favelada”, o Brasil literário negro feminino traz uma gama de representatividade reconhecida pelo mundo pela qualidade que estes tem promovido na estruturação de discussões e amplificação de vozes como: Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Mel Duarte, Jovina Souza, Paulina Chiziane, Noémia Souza, Carla Akotirene, dentre muitas que têem suas publicações como campeões de vendas num país com uma baixa taxa de leitores.
Escrever, publicar, é alimentar sonhos, libertar medos e construir uma nova história.

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segunda-feira, 8 de novembro de 2021

Todas elas estão em mim - RENATA MELO

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Minhas lutas, especialmente as internas, sempre foram travadas com o objetivo de entender quem sou eu, o que faria da vida, que legado deixaria ao final e, principalmente, quais seriam as minhas realizações nesse percurso. O que, de fato, me faria achar um significado em existir e ser feliz...
Desde cedo me senti muito ligada à história dos que me antecederam na família, como se deu esse enredo até o meu nascimento. Talvez, por interessar-me tanto por isso, ao descobrir como foi, trouxe para mim a responsabilidade de dar continuidade a ela.
De tudo que ouvi, a vida das minhas antepassadas era o que mais me chamava a atenção. Embora os homens também estivessem lá, eles nunca foram o meu grande foco de observação. Desde pequena, eu conseguia perceber a importância delas em tudo que era contado por minhas avós. Ah, como eu adorava (e ainda adoro) ouvi-las!
Minha árvore genealógica é repleta de mulheres fortes e com experiências densas. Mulheres à frente do seu tempo e de muita complexidade. Imigrantes vindas da Itália em viagens que duraram mais de 30 dias com filhos no ventre e outros a tiracolo. Mulheres que trabalharam incansavelmente para prover uma estrutura mínima para suas famílias. Mulheres que protagonizaram suas jornadas.
Certamente, com o tempo e em minha formação, essas experiências foram compondo o que me tornei. Inconscientemente, busquei por caminhos em que eu igualmente pudesse protagonizar a minha jornada, não “dependendo de ninguém” e fazendo a diferença no mundo, de alguma forma.
Sempre tive apoio dos meus pais e com isso dediquei rapidamente minha vida à construção da minha jornada profissional. Em algum momento, percebi que esse era o caminho inverso ao de todas as histórias que ouvia, nas quais as mulheres ficavam nas casas, cuidando dos filhos enquanto os maridos trabalhavam fora.
Embora esse fosse o enredo, não era bem verdade que as mulheres não trabalhavam além da rotina do lar. Além da casa e filhos, elas cuidavam das fazendas, costuravam para a família toda e para a casa, gerenciavam a rotina das pessoas e coordenavam toda a dinâmica familiar estabelecida. Elas eram as grandes líderes daquele contexto todo.
É como as vejo agora, foi como as vi desde o início. E se elas conseguiram, tendo uma rotina densa de família em paralelo, imagina o que eu poderia conseguir, se pudesse focar apenas na minha carreira profissional? Tornei-me o que criei em meu imaginário. Trabalhei duro e por anos, sem qualquer zelo e cuidado com minha feminilidade e intuições. Venci ambientes bastante machistas e masculinos e com minha dedicação e trabalho, conquistei meu espaço.
Até que, inevitavelmente, me percebi distante do que me motivou a buscar o meu feminino. Faltava algo. Eu tinha minha total independência, havia experimentado e provado minha força como mulher, mas, para quê? E para quem eu contaria sobre tudo isso? Quem teria orgulho da minha história, como eu tenho das mulheres que me antecederam e me fizeram ser quem sou?
Quando me vi nessa rota, me aproximei do que de fato me encantava em minhas ancestrais: a capacidade incrível que todas elas tinham de consolidar uma vida de suporte prático ao lar, mas sem jamais renunciarem à maior de todas suas forças, a do feminino.
Esse reencontro foi doce. Existiram (e existirão ainda) dias bastante amargos, é verdade. Todavia, até esse momento, ter tido essa percepção me conectou ainda mais a elas.
Edifico minha família e sigo trabalhando intensamente no mundo corporativo, buscando sempre trazer quem realmente sou para cada minuto do meu dia, em qualquer um desses ambientes. Eu me olho no espelho e reconheço meus traços e de onde cada um deles provêm. Tenho orgulho. Acolho-me. Acaricio minhas cicatrizes e marcas. Eu me busco nelas.
E, por meio da gratidão e compreensão, honro aos longos dias de navegação em alto mar das minhas ancestrais, aos 24 partos das minhas bisavós, entre vitórias e perdas. Aos assédios, choros e frustrações que sofreram. À luta solitária de minha avó materna para criar seus três filhos, viúva, e em seu luto sustentá-los através de uma vida passada na máquina de costura dia e noite. Da sabedoria da minha avó paterna, em cultivar seu amor-próprio e desbravar o mundo lançando-se ao trabalho fora do lar, destemida em recomeços e sempre em busca da sua própria felicidade. E, finalmente, honro minha mãe. Pela sua doação constante para cuidar de todos, garantir a segurança e a união da nossa família, renunciando, muitas vezes, ao seu próprio desejar.
A elas, dedico minha luta diária de não me esquecer de quem sou e de como cheguei aqui; de manter a minha fé e ser feliz.

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domingo, 7 de novembro de 2021

Trauma - LUCIENE AVANZINI

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Numa noite escura, após um encontro de oração, Eurico volta para casa, caminhava tranquilo e pensativo. Lembranças de um passado recente povoavam seus pensamentos. Atravessa a avenida e vai se aproximando do portão lateral do Cemitério do Alecrim. Um cemitério antigo, histórico e cheio de mistérios. De repente, ouve um barulho horripilante, acompanhado de um arrastar de correntes. Sente o pânico tomar conta de seu ser. Paralisado de medo, tenta gritar para pedir ajuda a alguém que está vindo do outro lado da rua. Sua voz fica presa na garganta dificultando a respiração. Eurico luta contra esse inimigo oculto que é o seu medo. Sabe que um cabra mole e covarde, mas precisa sair dali. Sentimentos em conflito, impedem que tome qualquer atitude.
Não consegue reagir. Calafrios percorrem seu frágil corpo jovem. Já não consegue raciocinar. O perigo é iminente. Não bastava a dificuldade de respirar?! Seu corpo tomba... Debatendo-se, sente alguém sacudindo violentamente seu corpo. Pensou... morri! Tremendo da cabeça aos pés, decide abrir os olhos, um de cada vez...
Uma jovem, muito estranha estava em pé ao seu lado. Ainda meio atordoado, tenta enxergar melhor, pois tinha uma miopia congênita e seus óculos, na hora do pavor, havia se espatifado no chão. Ao se aproximar mais da jovem, percebe que ela usava um véu que cobria seu rosto parcialmente. Chega mais perto e fica estarrecido, ela tinha seu rosto desfigurado, deixando à mostra parte da sua estrutura óssea facial. O instinto de sobrevivência fala mais alto e ele saí em disparada. Até hoje, Eurico lembra com pavor desse episódio na sua vida. E não tem quem o faça voltar a andar por aquelas bandas do Bairro do Alecrim.

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segunda-feira, 1 de novembro de 2021

O Muro - ISABEL SOFIA DOS REIS-FLOOD

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O DIA EM QUE A EUROPA SE DESUNIU SOB O SIGNO DA INTOLERÂNCIA E VOLTOU A UNIR-SE MAIS TARDE: FOI A 9 DE NOV. DE 1938 E 1989
FEZ 80 E 30 ANOS RESPETIVAMENTE

Muro. Entrave à re e conciliação. Monumento que nos leva a acreditar que o homem pode ser insaciável na procura de resguardar o que possui ou encontrou. É dele. Apenas dele e de mais ninguém. Como ele, só mesmo o muro inacessível, constante, imperturbável, erguido de ódios e sussurros de ameaças. O medo que supera o outro, em mostrar o sol, mas não o dó, nem o si, nem outra nota musical.

Sentado no muro, o homem perscruta em redor da sua construção. Outros muros se erguem. A paisagem assim é labiríntica e pouco nobre. A luz penetra a atmosfera e cai por entre muros apressada. Cada muro reflete o seu dono. Há para todos os gostos. Novos de betão. Gastos pelo tempo que os cravos salvaram de balas perdidas. Madeira fugidia, como as florestas tropicais que em sonhos sarapintam as águas que caem em sobressalto das cascatas omniscientes. Arbustos onde pousam soldadinhos de chumbo que algum filho do homem perdeu em sua batalha infantil. Pedra. Fria dura.

Esverdeada pelo tempo que tudo sara, menos o homem que regride, erguendo o muro da vergonha que nos separa em dois, quando tem duas faces e depois há o yin e o yang que explicam tudo tão bem. Muro para que te quero? Sempre haverá uma fronteira invisível entre nós? Talvez não. Assim basta eu ter mais tu, um olhar de uma mão cheia de esperança num amanhã onde a pomba anunciará a mensagem libertadora que se despede da era das muralhas. Para que tal suceda, no entanto, há que esperar, porque agora reina a confusão e confuso ninguém pensa direito. O mundo gira, a Babilônia ruiu. Falamos inúmeras línguas, muros transparentes, não cerne, mas parte do problema. Não há comunicação em estar-se só, e à nossa volta, um muro.

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quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Esta mulher que não sou eu - ROSE PEREIRA

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Até aqui, me custa aceitar no que tenho me tornado, onerada pela transformação natural exterior, que agora me impele na contramão do meu eu e me faz parecer cada vez mais distante do que pretendia para minha vida.
A expressão da verdade mora dentro de mim e vou fingindo, sobrevivendo, na esperança de logo me encontrar por inteira, de ser feliz pelo simples fato de existir. Não que eu me diga uma mulher infeliz, não é bem isso. Trata-se da resiliência com que sou vista e de fato vivencio, mas que por dentro não se recobra facilmente ou se adapta puramente à má sorte e às mudanças.
Ingratidão seria dizer que ainda procuro motivos na vida para me trazer contentamento, afinal, tenho filhos maravilhosos, perfeitos, saudáveis que me fazem sentir plena. Além disso, possuo adendos que também dão sustentação à felicidade humana, como moradia, salário razoável, amigos e afazeres prazerosos no cotidiano. Isso sem falar que ainda me acho bonita e atraente.
No entanto, alheia a minha própria vontade, a essência me cobra a alma. O fulgor de uma realização que me compraz, converge entre a vaidade e o desassossego. Disso venho escapando, me escondendo nas terapias, nas fotografias que faço em torno a mim, e, principalmente, nos vários relacionamentos amorosos que encarei ao longo do tempo, cada um, como metade de mim – e que descobria, depois, que não me encaixava a nenhum deles.
A solidão a dois, no contexto das minhas experiências, é o ponto que sempre me fez sentir oculta à vista do mundo, inferiorizada enquanto mulher, sem ação. Paradoxal, para uma ativista que faz da sua arte o resgate do sagrado feminino.
Talvez não me faça entender completamente, ou, quem sabe, exista quem conheça exatamente desse sentimento recato.
Se meu corpo por um lado expele desejos, desperta paixões e atrai facilmente, vivo um amor após o outro, sem procurar saber se dará certo ou não. Nessa luxúria, escolho o que não se espera, o problemático, o depressivo, o dependente e sempre com características físicas bem diferentes do anterior – isso pelo prazer de regozijar-me desse poder feminino e afrontar os meus juízes. Evidentemente, por outro lado, o cotidiano logo me mostra que uma convivência formada dessa maneira não se fortalece, e passo a culpar cada um deles pela repulsa que vou sentindo. A fadiga toma conta, o silêncio grita e o nojo de mim e de cada corpo vazio sobre mim imperam.
Mesmo sabendo, continuo insistindo nessa insensatez, talvez para desafiar a capacidade de mudar o que não pode ser mudado, por medo de ficar sozinha com minha presença, ou como mecanismo de autoflagelação.
Parece louco esse sentimento. De fato, enlouqueço, adoeço, perco as forças, e vou me calando, definhando à procura de uma solução para a culpa que carrego, premeditando dia e noite como livrar-me da sina e de como encarar, mais uma vez, os filhos e os outros, diante da minha inconstância.
Enquanto, por fora... sou aço!
Ainda vivo assim. Envergonhada de mim, sem conseguir relacionar-me de maneira saudável, esperando a perfeição dos outros. Experiências, ainda sem querer, cercadas das lembranças infantis que fomentam cada passo na vida. Tropeços submetidos às contradições, traições, violências, humilhações, costumeiras de todo tempo, e não me vejo no direito de requerer justiça, pela consciência de saber o que vivo, o que quero e o que não consigo ser.
Uma mulher em mim que não reconheço...

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quarta-feira, 27 de outubro de 2021

A cientista - FLAVIA ZOGBI

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No quinto andar do departamento de ciências de Harvard, uma janela está iluminada todas as noites. A sala de May Hirome fica iluminada ate o amanhecer. Ela está trabalhando em um projeto inovador e está entusiasmada porque acredita estar na reta final.
Em breve será a exposição dos trabalhos e isso a deixa muito motivada. Quase todos os dias fala com seu colega chinês Kon Chin que conheceu numa palestra de um famoso cientista russo que os fez pensar sobre esse tema que estão trabalhando juntos.
Os cientistas com medo de que alguém copie seu trabalho usam maquina de escrever e o computador para se comunicar, já que um vive em Londres e o outro em Pequim.
Chega o dia esperado, eles vão encontrar-se e conversar os detalhes que faltam para a apresentação para umas quinhentas pessoas vindas de vários países. Seu trabalho consiste em encontrar o substituto uma proteína , uma super proteína encontrada em plantas da China, muito raras e pouco pesquisada.
Eles estão ansiosos, pois numa se apresentaram para tantas pessoas. Acreditam no potencial da formula e seu futuro para as próximas gerações, será um substituto da carne quando esta começar a desaparecer.
Fim da apresentação. Todos os aplaudiram e mostraram-se interessados em saber mais detalhes. Os dois saíram felizes com o sucesso e começaram a sentir o cansaço da jornada. May foi para seu quarto do Hotel e Kon Chin foi ao bar beber algo para comemorar. Lá encontrou uma moça muito simpática e como ele não estava acostumado era uma prostituta que queria ir ao quarto dele. Como estava meio tonto e com sono a moça ofereceu-se para acompanhá-lo.
No dia seguinte, Kon Chin está com dor de cabeça e não se lembra de muita coisa do dia anterior apenas que a palestra foi um sucesso, quando foi procurar seu material ele havia sumido. Mas como? O que aconteceu?
Alguém bate na porta. Sua colega entra em seu quarto com a bagunça que vê na cama, armários remexidos e pergunta o que aconteceu a Chin.
Ele, um pouco sem graça diz o que aconteceu na noite seguinte e está preocupado porque acredita ter perdido o trabalho.
Ela está tranquila, pois o material está bem guardado no cofre do Hotel. Ela preferiu cuidar e não deixar nas mãos ingênuas do amigo. Ele suspira e agradece a confusão. Esses homens só pensam em mulheres, pensa Hirome.

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segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Em carne viva - FÁTIMA D'OLIVEIRA

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Foram estas as tuas exatas palavras: queres casar comigo?
E foi assim, com três simples palavras em forma de questão, que viraste todo o meu mundo do avesso; que me abriste uma ferida, que pulsa e lateja.
Aconteceu de repente, sem menos nem mais e quando nada o fazia prever: fomos para o terraço para tentar fugir da opacidade que teimava em transformar a nossa existência ainda mais baça e da azáfama e lufa-lufa diária, assim como do irritante e incessante ruído de fundo que ameaçava transformar-se na banda sonora das nossas vidas e estávamos muito quietinhos a observar as estrelas, envolvidos pelo abraço terno da noite e acariciados pela brisa suave e fresca que corria solta e livremente, quando... aquilo aconteceu, quando a tua malfadada espontaneidade tomou conta de ti e tu, muito pura e simplesmente, te deixaste ir.
E o que é pior... quer dizer, pior não sei: mas irónico, sim – com toda a certeza. Bom, seja como seja O que eu sei, e sei-o no mais íntimo e profundo de mim, sinto-o marcado a ferro e fogo nas minhas entranhas, é que a tua pergunta foi, se calhar, extemporânea. Porque tu não me amas: nem sequer estás apaixonado por mim. Então, porque raio queres casar comigo?... E permite-me responder: tu não queres. Tu apenas... entusiasmaste-te. Eu explico: quando estávamos no terraço, alguém tinha uma janela aberta e podia ouvir-se, a altos berros, a voz quente e insinuante do John Legend a cantar “All of me”. Embalado pelas palavras doces de mel e canela, fizeste-me a tal pergunta. Curiosamente, toda esta nossa situação, este belo berbicacho onde nos encontramos, também me lembra uma canção, mas não é “All of me”: é antes “I’m not in love”, dos 10CC. Conheces? Assenta que nem uma luva neste... neste... neste imbróglio que tu e só tu te atreveste a criar.
Mas o que magoa mais e rói e remói bem no fundo cá dentro, é a quase certeza absoluta, mas absolutíssima mesmo, absolutérrima, de que tu, assim que proferistes aquelas palavras agora malditas, te apercebeste do tamanho do erro, da enormidade do que tinhas acabado de fazer. E tu, em vez de o assumires e reconheceres o engano, como que te encolheste e ficaste muito quietinho no teu canto. Não sei se por alguma noção ridícula e ultrapassada de cavalheirismo, se por orgulho, se por cobardia, não quiseste dar o dito por não dito. E isso doi, sabias?... Doi muito, doi até demais. Porque mais valia arrogares o teu momentâneo lapso de discernimento e consequente deslize de língua, e arcares com as consequências do teu equívoco, responsabilizando-te assim pelo sucedido. Mas não: mais do que fazeres absolutamente… nada, tu na verdade... paralisaste. E chega a ser doloroso, sabes? Mais do que ver o desespero perfeitamente espelhado no teu olhar, observar a aflição completamente escarrapachada no teu rosto, chega ser cómico. Sarcasticamente falando, é claro. Porque tu transbordas medo. E dúvida. Até pode ser que involuntariamente, mas a verdade é que me estendeste uma passadeira vermelha e convidaste-me a ser a má da fita desta nossa história. Mais do que isso, rogaste-me. Suplicaste-me.
E agora? O que é que eu faço? O que é que tu achas que eu devo fazer?... Ser aquela pessoa adulta, segura e madura que ambos merecemos e ser racional, ter os pés bem assentes na terra e assumir, de uma vez por todas, este papel de bruxa má da nossa história que à força tanto tentas enfiar por mim abaixo? Ou então, seguir a tua deixa, não fazer absolutamente nada e abandonar-me ao sabor da maré para, por um lado, castigar a tua precipitação tão completamente fora de tempo, incapacidade de reconhecer isso mesmo e a tua recusa em não deixar cair o ônus da responsabilidade quando o devias ter agarrado com unhas e dentes e, por outro, condenarmo-nos a alguns possíveis infortúnios, amargos de boca e malas-ventura?... O que achas?... Fecho a ferida de uma vez por todas e coloco um ponto final neste nosso parágrafo, ou deixo-a aberta e que seja o que nós quisermos, com um ponto de interrogação e reticências?... Sim? Não?... Sim? Sopas?... Diz-me!...

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domingo, 24 de outubro de 2021

A Arte de descascar laranjas - ETIANI THAIS GARCIA

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Para sentir o sabor do sumo da laranja, é preciso descascar.
Eu me sinto de volta a minha infância descascando uma laranja.
A voz de uma menina, chega os meus ouvidos dizendo:
– Vó, descasca uma laranja?
Eu ia lá, correndo escolher a melhor laranja.
A laranja mais atrativa diante dos meus olhos.
E ela, descascava a laranja sem quebrar a casca, um caracol se formava ou seria caleisdescópio?
Um formato fabuloso era formado pela casca da laranja. E aquela criança que observa as coisas que os adultos fazem arte, passava a admirar aquela arte de descascar laranjas.
E com o passar do tempo, minha vó dizia:
– Vocâ já tem idade para descascar a laranja sozinha.
– Mas eu gosto da laranja descascada por você.
– Você parece uma artista com a laranja e a casca, que saí tão bonita e inteira.
E ela amorasamente descascava a laranja que eu escolhia.
Até que um dia, eu tomei coragem e fui descascar a laranja.
– Vó, a casca quebrou.
E ela dizia:
– Ahhh, vocâ escolheu a laranja com a casca murcha, assim quebra mesmo.
Não sei se ela dizia isso para ser gentil com aquela criança, ou se ela realmente falava a verdade que não era vista, pela menina.
A casca murcha.
Mas a menina cresceu, e quando encontrava laranja, tinha que ela mesmo descascar, ou ela descascava
ou ela ficava sem chupar a laranja.
E ela, sempre era indagada por gente que não conhecia a arte de descascar laranjas.
– Descasca em cruz, é mais prático e rápido. E se quer saber, mais laranja é consumida.
E ela impacatada respondia:
– Eu gosto de laranja descascada assim, tem mais sabor.
E se quer saber, é mais doce.
Coisa estranha ver uma laranja cortada em quatro partes. Bonito é a laranja inteira, com uma tampinha, que parece a tampinha de uma panelinha.
Bonito mesmo, é descascar a laranja e ver arte na casca que ficou inteira. Intacta de uma forma que te conecta com quem você foi e é.

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terça-feira, 19 de outubro de 2021

O tísico - CARMEN LÚCIA DE QUEIROZ PIRES

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Era apenas uma adolescente quando foi com sua mãe visitar uns parentes.
Ia com certo receio uma vez que haviam lhe tido que marido da parenta era tísico.
Segundo informações que recebeu, o tísico era portador de uma tuberculose que não matava, mas também não tinha cura. Por ser transmissível o doente tinha que ficar isolado num quarto, sem contato com os demais.
Nunca entendeu porque sua mãe foi fazer aquela visita, nem porque teve que acompanhá-la.
Era noite e lhe deu a impressão que na casa só havia um único ponto de luz, na sala.
Lá pelas tantas, o infeliz no seu quarto teve um acesso de tosse, que não parava. Apesar disso sua mãe e a parenta continuavam a conversar como se nada ouvissem, o que em seus ouvidos soavam como gritos de socorro.
No ano passado quando esteve internada com COVID, lembrou-se desse episódio. Ela passou um bom período tossindo e em determinada noite quando a enfermeira tentava, em vão, pegar-lhe a veia, teve mais um acesso tosse.
Tossia, tossia e quanto mais tossia, mais queria tossir. Naquele momento veio a lembrança daquela visita nefasta, da tosse do tísico e da falta de sentido dela e sua mãe estarem alí.
Quando sua tosse arrefeceu demorou a dormir, assim como demorou a dormir quando retornou da casa do tísico, impressionada com sua tosse.
No hospital as lembranças vinham à sua mente e se perguntava: Qual a necessidade de ter ido à casa do tísico? Por que teve a sina de pegar COVID e ir parar no hospital? Por que ela e o tísico tossiam tanto? Por que vidas desencontradas se misturam e repetem destinos tão parecidos?
Nossas doenças, vírus e bactérias, nos levam ao isolamento devido ao medo da transmissão.
Tal qual o tísico, ela não sabia o seu destino e sua tosse lhe dava a sensação de mau agouro.
Porque será que sua memória lhe fez retornar há cinquenta anos atrás? Não sabia responder!
Nossa mente, os medos guardados em nosso subconsciente emergem em determinadas situações, querendo talvez nos dizer que tudo na vida vai e volta, em momentos distintos do nosso querer ou não querer.
Ao terminar nossa conversa, ela acrescentou:
– Hoje eu me vacinei! O destino do tísico eu não sei!

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segunda-feira, 18 de outubro de 2021

O corpo é como o sentimento, cresce! - VIEIRINHA VIEIRA

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Era muito menina, mas já temia a existência dos céticos. Muitas eram os que por vezes se amedrontavam com aqueles que sabiam, eram mais velhos e tinham outras experiências, tinha de respeitar os mais velhos e crescer aprendendo que não se deve questionar os que sabe... até porque ela não dizia nada de jeito!
Dentro do peito sentia que a ferida era profunda, mas ainda não tenha descoberto como lá chegar para curar.
Na verdade, a infância passou e ela quase nem deu por isso, chegou a adolescência e o desânimo por vezes parecia amontoar-se. O primeiro rapaz que beijou, sentiu nojo...passou o resto do ano a fugir dele como o diabo da cruz, por bem que não sabia o significado da frase, mas a mãe e o senhor prior usavam-na muitas vezes.
Veronica era uma observadora nata. Gostava de moda, mas tinha um certo prazer em mostrar a sua capacidade intelectual, era alta, ou seja, alta comparada com a grande maioria das raparigas da sua idade, mas não tão alta como Ana Maria. De cabelos loiros a esbarrar-lhe a anca, por onde passava não passava despercebido.
Veronica tinha um sorriso encantador e esboçava seus lábios de uma forma ternurenta, escusado será dizer que era a eleita da turma. Os rapazes babam-se para poder dizer-lhe um olá! O Filipe que era meu companheiro de carteira era um deles. Para o Filipe eu era uma boa amiga, e na verdade. Era mesmo!
Talvez mais que amiga, uma irmã. Isso porque tinha um irmão e sempre sabia o raciocínio dos rapazes com mais clareza.
Filipe era apaixonado por Verônica!
Escusado será dizer-vos que era eu que lhe escrevia as deliciosas cartas de amor.
Mas, tal como era amiga de Filipe, exatamente na mesma medida eu era amiga de Verônica. Havia sempre a ovelha negra da turma que por algum motivo ninguém gramava, a roíninhas. Mas esta era minha colega na vida dupla e partilhamos um segredo. Eu e os segredos. Verdade sempre fui uma boa guardadora de segredos e lá tentava apaziguar as coisas com a roíninhas...
Terminado o ciclo na verdade nunca mais os voltei a encontrar, mas trazia como apêndice a roinas mas sempre fica a recordação dos bons e dos não tão bons momentos que passamos juntos.
A amizade era daquelas coisas que nos fazia correr até a torre dos clérigos e ir espreitar a cidade ou então visitar a feira popular até já não poder mais... parece que ainda consigo ver Verônica correr com os seus botins de salto alto. Em plataforma de madeira, o hippie da época. Verônica nunca perdia sua posse e conseguia sorrir mesmo quando sabia que era ela que nos provocava os sorrisos.
Lembro da minha paixão pelo David e de guardar segredo desta ilusão juvenil, entre outras paixões que senti nunca fui de me deixar cair nas malhas das breves ilusões.
Mas não vos escrevo para falar de mim! Na verdade, não vos escrevo para falar de ninguém, apenas imaginar juntos...
Eram dezasseis horas em ponto e, nesse dia, Nélia tinha teste de português, seu nervosismo era de tal ordem que derrubava tudo por onde passava, ninguém compreendia nada. Entre todos ela era a quem chamávamos de tufão. Havia um motivo para que Nelia ficasse daquele jeito sempre que havia aula de português. Mas era mais fácil para todos não querer ver do que ser confrontados com a verdadeira causa dos porquês… logo após a aula ela saiu em direção a casa. Chorou horas seguidas, sabia que os seus objectivos estavam próximos assim como o verdadeiro motivo que a fazia chorar. Seria dor o que sentia? Ou capricho de uma menina que não se preocupava com nada... na verdade não há nada para nos preocupar! E Nélia sempre resolvia os seus problemas hoje. Nunca fora rapariga para deixar para depois. Ela sempre preferia enfrentar e deitar de cabeça tranquila.
Na escola todos sabiam da sua grande paixão pelo David! Será que este era o mesmo David da minha Paixão? ou não... teríamos sido colegas de turma ou apenas frequentamos o mesmo local? Até aos dias que correm ainda ninguém descobriu isso...
Na verdade, até David ficou sabedor do amor que Nélia sentia, ela não tinha medo de amar.
O romance inicia numa fase bastante controversa das suas vidas. Nélia tinha programado viajar para os Estados Unidos e David desejava curtir umas longas férias na Califórnia, haviam fatos omitidos mas isto dos humanos permite.
Tal como permite intervenções nos seus próprios sentimentos, como se muitos usassem um bisturi e removesse o que de errado havia em si mesmos.
E fora lá que conhecera Hugo!
Sem ter certeza se tinha acabado o seu relacionamento com David, Nélia torna-se distante e a determinada altura chega mesmo a afastar-se deste para que não acabasse em rolo. Mas que rolo... Já David em plena Califórnia só pensava em miúdas, praia, surf e uma cerveja.
Está-se mesmo a ver que nem tempo tinha para lembrar do amor de Nélia, sim. Ainda hoje me pergunta se David algum dia foi apaixonado por Nélia?
Nunca vou esquecer o dia 26 de Agosto de 2012, precisamente as 20 horas quando toca o telefone, cause nem quis acreditar quando ouço do outro lado Nélia! Sim, ela estava a ligar-me dos Estados Unidos. Mas porque eu?
Sim, Nélia sou eu como estas?
Desculpa incomodar, mas sabes alguma coisa do David? É que tento ligar com ele e não consigo ligação.
A minha vontade foi dizer-lhe: Nem espero que ele volte da Califórnia algum dia, mas contive-me e deixei sair um leve sussurro: Não.
E não sabens...
Nem deixei que terminasse a pergunta! Disse-lhe de imediato que não sabia de absolutamente nada, que não via o pessoal da turma dês da mesma altura que ela e o facto de não viajar para forma não significava que não tinha coisas para fazer. Até porque arranjara um emprego e nem sabia se voltava para o ano seguinte.
Senti a tristeza subir-lhe pelas cordas vocais!
Na mesma noite acabou por ceder ao convite de Hugo para um jantar, ali mesmo no restaurante do hotel.
Ai, amiga ele é tão encantador!
Lá a convenci a ir sem sentimento de culpa e pedi-lhe que me deixasse ao corrente da situação e tal como lhe tinha dito, afinal que mal poderia existir num jantar entre amigos. Apaixonar-se? Mas só quem já está livre de amarras ou sentimentos volta a criar novos laços e se esta se apaixonasse, seria um ótimo sinal indicativo do que já todos sabiam. A relação dela com David não tinha qualquer futuro.
O ano começou e eu tive de deixar o emprego para poder levar adiante a conclusão dos estudos, Nélia voltará dos Estados Unidos já fazia uns dias e David, ainda não tinha dado sinal da sua existência. Havia rumores que não voltaria mas na verdade este ao fim de quatro dias lá se apresentou e com uma cara de pau que todos julgaram estar a ver mal. Aproximou-se da Nélia como se ainda namorado fosse e ficou muito aborrecido quando esta o deixou a falar sozinho. Como se não bastasse ainda sobrou para mim, queria fazer de mim correio. Mas não teve sorte nenhuma.
Nélia afastou-se do grupo geral da turma e eu comecei a ser a sua grande amiga e contávamos os nossos segredos uma à outra quando não podíamos estar juntas, ligávamos, mas existia sempre feedback.
Escusado será dizer que Nélia e Hugo mantinham uma relação muito próxima e diria que chegaram mesmo a casar mais tarde, que hoje sou a madrinha de um dos seus filhos e que ver a Nélia feliz me faz bem, afinal somos como duas irmãs.
Ah, eu não cheguei a casar, no entanto tenho uma relação de longo tempo com Adriano. Acho que se vai manter assim por algum tempo, afinal só muda quem está mal.
David por exemplo, depois que perdera os pais teve de trocar a prancha de surf pelas bombas de gasolina e como todos do grupo a vida mudou.
Mas Nélia aprendeu a lição. A pressa nunca é boa conselheira, mas sabem uma coisa amigos? O mais importante é que ela encontrou a sua felicidade!
E já agora: E eu a minha! Formas diferentes, mas não menos felizes.

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Apesar de tudo, a resistência - ROSA GONÇALVES

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Nessas linhas, narro o diálogo entre duas mulheres da mesma linhagem sanguínea, mas nascidas em décadas diferentes. A mais jovem, envolta em uma situação amorosa conturbada, busca nos braços e conselhos da mais velha um conforto e uma saída. E, dessa forma, contam-se os fatos a seguir.
Laiane, paulista, casou-se aos 18 anos com um nordestino. Eram muito apaixonados. Desse amor, ainda no interior de São Paulo, tiveram três filhas. O homem sentia-se por demais orgulhoso por ser pai de meninas, apesar do deboche de um de seus familiares. Segundo esse parente, o progenitor só foi capaz de gerar “seca tuia”, em outras palavras, filhas. Com certeza, na visão desse familiar, esse pai passaria por problemas sérios, pois, para ele, mulheres são sinônimo de situações desagradáveis. Ele, pai de filhos em sua maioria, dizia ser privilegiado. Essa conversa jamais desanimou Zyan. Se tivesse mais filhas, mais alegre seria, falava para Osíris.
Certa manhã, Zyan recebeu uma proposta para morar na região amazônica brasileira. Em conversa com Laiane, decidiram encarar esse desafio. A mulher era seu pilar essencial. Assim, organizaram a mudança.
O homem seguiu em um pau de arara. A sua esposa e as filhas, de ônibus. Como as mulheres sofreram, na longa viagem, durante a década de 1970. Sempre surgiam burburinhos. No entanto, a mãe, muito segura de si, conseguia defender a prole e vencer os inúmeros assédios, na longa viagem.
Ao chegar na terra prometida, a família, aos poucos, conquistou espaço. Nesse local, nasceram mais um menino e outra menina. O pai, o grande herói da família, era um homem admirável e exemplar. Não media esforços para cuidar da esposa e dos filhos.
Até que, talvez pelo excesso de trabalho, acabou esquecendo de cuidar da própria saúde e descobriu que estava com leucemia. Precisou buscar atendimento médico fora de sua cidade. Zyan, acompanhado por Laiane, seguiram a um grande centro, para fazer o tratamento de saúde. O pai, na capital de São Paulo, começou a ficar muito mal. Desesperados, os filhos foram chamados para, quem sabe, a despedida.
Eis que, em um dia chuvoso, Zyan desencarnou, na terra da garoa. Mais uma vez, conversas desnecessárias apossaram-se de um dos parentes. Dessa vez, com um tom mais agressivo. Segundo esse cidadão, o retorno da família à Região Norte, era algo desaconselhável, por serem muitas mulheres, sem a presença do progenitor, todas iriam se tornar meretrizes. Nem imaginava o quão forte a mulher era.
Não foram essas palavras capazes de destruí-la. E, assim, encarou essa fase difícil e seguiu rumo ao seu lar com os filhos. Mesmo no período de luto, conseguiu forças e transmitiu segurança aos frutos de seu ventre.
De volta à sua cidade, Laiane e as filhas tiveram novos desafios. Com o tratamento do cônjuge e o deslocamento das filhas de forma não planejada, as despesas se multiplicaram. Laiane assumiu as tarefas no comércio da família, assim como das terras na zona rural. Por fim, decidiu fechar o comércio e passou a trabalhar como conselheira tutelar.
Foram longos anos em que chorou sozinha. Contudo, com fibra e persistência, narrou a sua história como personagem de destaque. Além disso, sempre incentivou muito os filhos a estudarem. Foi uma forma de atender ao último pedido do seu marido.
As várias etapas na vida feminina, assim contava a mulher mais velha, mostram que mesmo diante de situações negativas e luzes apagadas, a luta é contínua. Só assim, para sobreviver em um mundo repleto de desigualdades. Laiane representa as mulheres que buscam espaços dignos na sociedade, mesmo rodeadas de palavras desanimadoras.
E, essa história, minha netinha, é a história da sua bisavó paterna. Ela muito lutou (e luta) para formar a sua família e trazê-la unida. Que sirva como exemplo em sua longa e árdua caminhada enquanto mulher. Os desafios fortalecem as nossas lutas. Quando as barreiras chegarem, lembre-se dessa nossa longa conversa.

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domingo, 17 de outubro de 2021

A imigrante - MARIA CLEIDE BERNAL

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Maira nasceu em um lugarejo na caatinga do Nordeste, onde o verde da folhagem na estação invernosa se mistura com as chuvas que se derramam pela estrada e que se alastram em frente à casa dela. Três anos mais tarde começaria sua vida de imigrante, mudando-se para um lugar chamado Paracati, nas quebradas da Serra Grande. Ali viveria entre mangueirais e laranjeiras, desfrutando de banhos de cachoeira de corpo nu.
Seu pai era um camponês e a mãe uma mulher com fortes traços indígenas, mulher de muita fibra e de muito sofrimento, para criar os doze filhos do casal e digerir em silêncio a escassez, fazendo milagre com o pouco que extraía de uma terra árida e pedregosa. Até os sete anos ela tinha estudado, junto com seus irmãos, com um professor particular que lhe deu os primeiros passos na leitura. Um ano depois ela já estudava na sede do município, numa escola de religiosas que tinha um expediente dedicado aos filhos da burguesia da cidade e outro dedicado às crianças pobres que não podiam pagar a escola.
No período das férias Maira e seus irmãos voltavam para o pequeno sítio de onde saíram para rever os pais e conviver outra vez com o campo. Seu pai era uma figura autoritária e severa, mas de sentimentos e gestos nobres. Sabia que era difícil educar a todos os filhos, mas faria o possível e o impossível para que eles tivessem acesso à escola, por mais difícil que isto poderia ser. Uma vez ele me surpreendeu a menina a chorar, quando ela tinha ainda sete anos, porque queria estudar e ter uma profissão, sair daquelas quebradas de sol escaldante e sem perspectivas de futuro. Naquele momento seu pai tomou a firme decisão de alugar uma casinha na cidade e mandar suas duas filhas mais velhas tomarem conta da casa e das crianças para estudar na escola pública, mantida pela prefeitura do município e mais tarde na escola das freiras.
Na cidade a vida era muito diferente da que tinha levado nas quebradas do sertão. A pobreza era discriminada sem misericórdia na escola, no bairro, nas brincadeiras de roda, enfim por todos os lados. O colégio de freiras simbolizava a imagem do poder da burguesia local e a segregação daqueles que não podiam pagar o colégio, que para estudar teriam que ser bancados pela “bondade” das Irmãs de Caridade. O catecismo, a missa do domingo trajando o uniforme da escola, o medo do pecado e o sexo como coisa suja e pecaminosa, disseminado pelas freiras, eram cenas presentes no desabrochar da juventude naquela provinciana cidade. Assim, Maria cresceu entregue aos devaneios de vencer a pobreza, a discriminação e o preconceito. Um dia terminaria com tudo aquilo e iria morar na capital, conhecer gente educada e estudar em um colégio leigo.
Chegou à capital aos 12 anos, o pagamento do colégio provinha de uma bolsa de estudos arranjada por um político da cidade. A capital era um mundo totalmente novo, mas as dificuldades financeiras da família obrigavam a menina a trabalhar arduamente durante todo o tempo que não estivesse na escola. Trabalhou como operária de fábrica , professora primária e outras tantas oportunidades que lhe apareceram. Logo mais, veio a transferência para o Liceu, colégio público onde havia uma efervescência dos movimentos estudantis, aos quais se entregou.
Maira cresceu e tornou-se uma mulher bonita e sensual, era amada por muitos pela sua coragem e paixão por tudo que fazia e pela sua coerência, mas ao mesmo tempo antipatizada por aqueles que se sentiam ofendidos por este tipo de postura. Entrou na luta política desde os tempos da repressão aos movimentos populares e sindicais, durante os anos da ditadura militar.
A descoberta da sua sensualidade e da sua capacidade de sedução mudou o estilo de vida de Maira, que aos poucos foi deixando sua face severa para se transformar em alegre e cativante criatura. Foram muitos os seus amores e paixões, muitos até mesmo imaginários. A paixão pela vida e por tudo que se empenhava era a marca de sua personalidade.
Ser feliz era tudo que ela sempre desejou, numa trajetória de vida que cultivava a verdade, a ética e a solidariedade, buscando se afastar da hipocrisia e da percepção de um mundo falso e ilusório.
Ainda muito jovem Maira vivenciou o período da ditadura militar no Brasil e se engajou no movimento de resistência. Na época os movimentos por reformas de bases se fortaleciam com a chegada ao poder de um governo trabalhista. A oligarquia agrária e a burguesia industrial nascente temiam perder os seus privilégios fiscais e financeiros, que aliados aos militares promoveram um golpe de estado. Com a ditadura chegou também o cerceamento das liberdades individuais e coletivas, as perseguições políticas, as prisões, os exílios e todas as formas de opressão.
Os estudantes foram às ruas, a guerrilha floresceu na selva, surgiram os conflitos e as barricadas nas ruas das grandes cidades. Maira engajava-se na luta de resistência. Ela morava em um pequeno apartamento bem situado em um bairro de classe média, onde ninguém desconfiaria do que se fazia lá dentro. Foi aí que ela começou a acolher aqueles que fugiam das perseguições políticas e os mais ousados que atravessavam o país em busca de se engajarem na guerrilha do Araguaia, no norte do país.
Depois de 5 anos a ditadura já tinha eliminado muitas lideranças, colocaria os sindicatos sob intervenção militar e fecharia todas as possibilidades de resistência política. E veio a escuridão total com o endurecimento da ditadura, o ufanismo, o “milagre econômico” e o “ame-o ou deixe-o”. Maira, já profissional, se recolheu aos estudos, mas sem sossego, pois começaram as prisões de amigos e familiares, as perseguições da polícia política. Sofria ameaças em longos interrogatórios e estava quase sempre, seguida por pessoas suspeitas, até mesmo nos bares da cidade que eram frequentados pelos militantes de esquerda.
Um dia reconheceu que, sem alternativas para continuar a vida política, seria melhor um exílio voluntário. E ao conhecer Rodrigo, um dia preso em sua cidade como guerrilheiro colombiano, viveu um amor de companheirismo e cumplicidade. Casou-se de calça jeans e colar de búzios à maneira dos jovens da época, deleitada pelos ventos de liberdade que vinham de Liverpool. Casaram-se para ter as bênçãos da família e depois ela deixaria a cidade natal e as perseguições, fazendo uma pausa em sua militância apaixonada.
Uma longa viagem pela América do Sul afastava temporariamente a jovem das utopias e do desejo incansável de liberdade. Agora seria igual a tantas outras que encontram no casamento uma mudança de vida, muitas vezes sonhada. Entretanto, o casamento para ela seria a conjugação dos seus esforços por liberdades democráticas e ao mesmo tempo uma vida a dois em que as individualidades não seriam aniquiladas, como vinha ocorrendo com as pessoas de sua época.
Ao passar pelo Chile, o casal teve que seguir viagem sem demora, pois o toque de recolher cedo da noite, anunciava uma quartelada semelhante ou pior do que aquela que aconteceu no Brasil. Chegando à Colômbia, seu porto seguro, o primeiro desejo foi conhecer as Forças Revolucionárias colombianas que já dominavam quase um terço do território. Foi naquele momento que percebeu que seu sonho ficava distante. Seu companheiro, chegando ao país de origem, esboçava suas primeiras manifestações de desaprovação dos movimentos de libertação e de tantos outros de contestação aos governos déspotas aliados da Aliança para o Progresso e do governo norte-americano que tinha articulado junto com os políticos conservadores o golpe militar n o Brasil.
Pobre moça sonhadora, Maira nem sequer desconfiava que seus sonhos de liberdade estariam abalados diante da descoberta de uma “nova” concepção política do companheiro, muito mais conservadora do que aquela que ele expressava quando vivia no Brasil, mostrando uma repentina personalidade machista que ele assumia então, ao chegar em seu território de origem.
Os ventos de liberdade e de uma nova moral sexual que chegavam da Europa, depois da revolução de maio de 1968 na França, haviam gerado em Maira o desejo de ser feliz e conhecer pessoas libertárias para compartilhar um novo estilo de vida, uma nova moral nos costumes que revolucionavam a época. Mas no país distante os costumes eram ainda mais conservadores do que aqueles que ela tinha deixado em seu país. Como suportar mais uma desilusão? A trajetória libertadora de Maira apenas havia começado, longe do seu país e de sua gente.

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sábado, 16 de outubro de 2021

A blusa - ANA LAU FERREIRA GOMES

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Curitiba, anos 1980, Alameda Cabral. Você esbarrou em mim no restaurante macrobiótico, onde nossa turma costumava almoçar depois do colégio. Ao pé do meu ouvido, você disse que esqueci uma blusa de lã no seu apartamento. Eu era namorada do seu melhor amigo. E você, o melhor amigo do meu namorado. Ao lado do Teatro Guaira, o apartamento de seus pais era um dos pontos de encontro da nossa galera, em tardes vadias regadas a muito rock-in-roll.
Quando você me avisou da blusa, senti o cochichar de sua voz forte descer suave pelo meu ouvido. Percebi seu corpo quente precipitar-se junto ao meu. Uma estranha linguagem dos sentidos ali nos traia. Sempre que o via, algo me intrigava no jeito que você sentava no chão com as pernas entrecruzadas, a massagear os dedos dos pés. Algo me tocava fundo diante de seus brilhantes olhos e cabelos de escuridão. Nestes detalhes, parecia que um longo túnel de profundezas se abria entre nós. Grandes cílios ressaltaram sua beleza e eu começava a desejar que piscassem só para mim. Seus ombros fortes pareciam incansáveis a pedir um abraço meu. Seus braços e pernas torneados faziam minha imaginação deslizar no tobogã de suas curvas. Tudo em você era convite ao sensorial. Tornara-se cada vez mais incômodo convivermos, eu em par com outro, quem acredita amar, mas perturbava-me por desejar você. Já vinha de um tempinho a incomum taquicardia na sua presença. Mas eu não sabia se a via era única ou de mão dupla, até você me falar da blusa.
Contei as horas até ir buscá-la no seu apartamento. Dessa vez, estávamos só nós dois. No 15º andar do edifício, debruçados na janela do seu quarto, olhamos do alto a vida passar e esfuziantes estivemos ali juntos por horas! Sobre o que falamos? Não sei. Acho que o que foi dito pouco importou em meio a tantos gestos, sorrisinhos e olhares mútuos de cumplicidade e sedução. Depois desse encontro olho no olho, não pude mais nos negar. Chegara a hora de achar uma saída para o impasse, e, viesse o que viesse me permiti escolher você.
Sempre em grupo, ainda nos vimos umas tantas vezes, mas a água da chaleira seguia num crescente a ferver. Até o dia do casamento de seu irmão. A turma toda estava lá, e nós não conseguimos disfarçar que nos comíamos com os olhos. Eu de vestido rosa e ombros à mostra, emprestado da vizinha, dona de uma boutique chique. No cabelo, longo e ondulado, uma flor de mesma cor, tom sobre tom. Eu Rosa, você Cravo, como na canção de minha infância.
No fim da festa, você se ofereceu para me levar em casa. Fomos a pé, e a nossa própria festa começou no caminho. A chuva veio e molhou nossos corpos, tingindo-os de rosa paixão. Debaixo de uma marquise, nosso secreto e proibido amor foi finalmente assumido. O beijo e apertos que nos demos, pareceu engolir-nos por inteiro. Naquele raro momento de êxtase, acreditamos ter os nomes escritos lado a lado nas estrelas e, ingênuos nos entregamos às águas revoltas da lua.
O rock-in-roll que passamos a ouvir juntos no dia seguinte e por muitos e muitos outros dias, noites e madrugadas adentro, não mais tocou. O Rolling Stones ainda tem a sua cara, e as pedras rolantes que você me deixou nunca pararam de rolar.
Hoje é seu aniversário e acordei pensando em você. Há muito nos perdemos um do outro, quiçá noutra vida, noutro tempo, noutra imaginação. Muito antes de você embarcar numa viagem underground e deixar esse mundo.
A blusa que eu esqueci no seu apartamento muito nos aqueceu, mas findou por nos detonar. Seu tecido veio pouco a pouco a se esgarçar, até quando, já em retalhos, lancei-a ao mar.
Por vezes, sinto saudades de nossa juventude e de nós. Ainda amo aquele amor que senti por você, e parece que estou sempre a procurar por ele em outras plagas. Ao fim e ao cabo, percebo que o Cupido mora em mim e sua flecha sou eu.
Bendita maldita blusa!

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sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Medita na verdade e fica na verdade - RUTH COLLAÇO

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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O vazio, a paz e o tempo...
Aprendi que o tempo cura, que a mágoa passa, e que a deceção não mata.
Que os verdadeiros amigos permanecem, e que os falsos amigos se vão...
Que o hoje é o reflexo do ontem e o amanhã fruto do que semeamos hoje...
Deceções são meras expectativas que projetamos nos outros.
Compreendi que as palavras têm força e que o olhar não mente, pois ambos estão ligados à alma e que viver é aprender com os erros...
Aprendi que tudo na vida depende da vontade, que o melhor é sermos claros com nós mesmos...
E que o segredo da vida é viver... abraçando cada dia, cada momento, cada dádiva, cada lágrima ou dor, no conhecimento que me é dado pelo vazio, a paz e o tempo.

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