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sábado, 22 de março de 2025

Pouline (excerto) Sara Timóteo

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A esposa de José era dotada de uma estatura baixa e muito harmoniosa de formas. O rosto era eclipsado pelos olhos bordejados por pestanas longas. Olhar extraordinário esse, que parecia nada ter retido de todos os horrores que já vira. Maria encontrava-se na posse de um medalhão de prata com a imagem da Virgem Maria sobre o qual ela e a tia Amélia (pouco antes do passamento desta última) haviam realizado um sortilégio com a finalidade de garantir o regresso de José da guerra.
Contudo, Maria acordara sobressaltada nas últimas noites, após sonhar com José sufocando com o próprio sangue. Devido a estes perniciosos momentos de pesadelo, ela encontrava-se cansada, desmotivada; inclusive, já fora repreendida pela enfermeira-chefe.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS IX - COLETÂNEA - IN-FINITA

sábado, 17 de agosto de 2024

Sob os auspícios de Júpiter (excerto) - Sara Timóteo

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Calisto despertou do sono de duas horas autoinduzido por melatonina trazida da Terra ancestral. Dado que em breve Júpiter completaria a sua rotação de nove horas e cinquenta e cinco minutos e vinte e nove ponto seis-oito-cinco segundos, era forçoso que o sono desse lugar ao estádio desperto. Precisava de dar à luz aquilo que se esperava dela.
Atordoado, o olhar dela deslocou-se até à Sala Reprodutora. Ainda esmaecida devido à sesta, procurou as instruções em cima da estante de alterne. Não surgira por lá o cartão de cor branca trazido por um mensageiro alado. Hoje, permaneceria em paz.

EM - LIBERDADE - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 21 de agosto de 2022

Jogo de xadrez (excerto) - SARA TIMÓTEO

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A tua mão repousa sobre o rebordo do cinzeiro enquanto me explicas o que se passou contigo durante estes anos de ausência. A verdade é que fomos namorados de adolescência e agora não sabemos como dirigir palavra um ao outro. Os teus olhos são inacreditavelmente azuis e o teu rosto parece esculpido a cinzel. Miguel Ângelo não te desdenharia como modelo para a Capela Sistina. Contudo, tu és moreno, não loiro. Não possuis aquela beleza robusta e musculada. És esguio e ágil. Moves-te de um modo predatório.
Tornaste-te num homem perigoso. Tens negócios em várias partes do mundo e investes na Bolsa. Decidiste que querias ver-me e, se te agradasse o que vias, ter-me mais uma vez ou quantas quisesses. Agora, para ti, trata-se de uma questão de tempo.
Eu faço o que sempre resultou contigo: abro as narinas e cheiro a tua pele. Fixo os teus olhos. As tuas pupilas expandem-se numa questão de segundos – as minhas também. Depois, digo-te não existir qualquer esperança para nós. Já passou muito tempo desde a última vez e eu estou apaixonada por outra pessoa.
Rimo-nos ambos à gargalhada. Trata-se de um jogo de xadrez – e funciona connosco.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 3 de outubro de 2021

Mãe Mena - SARA TIMÓTEO

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Dedicado à Mãe Mena, à Tânia, à Sónia, ao Tucha, à Cláudia, ao Rui, à Sheila e à Gisa
– Vou sentir a falta da Mãe Mena. – Rui tartamudeava as palavras, em vez de as pronunciar nesse português angolano do qual gostava de fazer gala quando estava eufórico.
Eram todos tão pobres que até a alegria lhes era emprestada. A felicidade nunca se demorava muito tempo naquele bairro de lata. Havia a bebida e, claro, tareias das quais as mulheres emergiam com braços torcidos e narizes tortos, cobertas de hematomas e cheias de feridas no corpo e na alma. Tios e pais viviam abertamente com as respetivas filhas e sobrinhas, gerando filhos com deficiência que as mães abandonavam ou liquidavam discretamente.
Havia momentos felizes, quando chovia; a água corria fresca para o bidão comunitário e podia tomar-se banho de esponja ou de toalha. Também saía a sorte grande ao bairro inteiro quando alguém conseguia um emprego fixo, partilhava o pouco dinheiro que lhe sobejava e organizava uma festa.
D. Mena teve sorte. Todos os seus sete filhos trabalhavam e ela era a rainha daqueles telhados de zinco e chapa. Os meninos do bairro viviam lá, porque a barraca dela era a única onde havia comida. As mulheres depositavam algum dinheiro nas mãos de D. Mena para ela tomar conta dos meninos e meninas, porque não sabiam ser mães. Por vezes, ausentavam-se durante semanas enquanto tentavam agarrar um homem que as conseguisse resgatar da vida no bairro e dos filhos indesejados, tantas vezes fruto de violações sobre os becos cobertos de lama.
A Mãe Mena era única mulher daquele bairro que se depilava e que conseguia manter-se apresentável, com o cabelo desfrisado ou trançado. Também não gerou filhos com deficiência e conseguiu manter as filhas afastadas da prostituição aberta e os filhos longe da droga.
Quando morrera por não ter sido atendida a tempo pelo Serviço Nacional de Saúde (pois continuava pobre e os pobres tornam-se invisíveis até ser tarde demais), os meninos e meninas (agora homens e mulheres com vários tons entre o negro e o café com leite) e todos aqueles que haviam colhido as primeiras carícias das suas mãos e as primeiras papas das suas colheres se juntaram e regressaram ao bairro. Foi dali que saiu o cortejo funerário, embora os filhos do bairro já estivessem todos distribuídos há muitos anos pelos bairros sociais, prisões, morgues, cemitérios. Alguns trouxeram conjugue e filhos do estrangeiro.
Também eu fui uma das filhas da D. Mena, embora não vivesse no bairro de lata. Quando as coisas em minha casa azedavam, era lá que passava o meu tempo, e foi ela que me deu o primeiro apoio incondicional que recebi. Acordava picada das pulgas e percevejos, e apanhei piolhos várias vezes, mas os melhores banhos que tomei foram naquele bidão e as festas mais felizes que frequentei foram as da Mãe Mena.
Agora, movo-me noutros círculos, como ela sempre me afiançou que sucederia. Não me perdi nem me deixei aprisionar por homens violentos, como ela tanto temeu que me sucedesse assim que deitei corpo.
No meu novo mundo, as pessoas falam uma espécie de português emp(r)estado, sem a cadência quente que aprendi a amar. Os corações dessas pessoas são frios e repousam sobre a pedra de mil desculpas para se escudarem nas suas vidas de plástico. Não existe partilha de comida até à última migalha, apenas interesse em lucrar com o outro ou em derrubá-lo. Cada vez que oiço uma dessas pessoas entoar palavras com afetação, faço mil vezes o luto da Mãe Mena e da música que habitou os seus lábios para sempre como a mais bela canção de amor.

 EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A pandemia - SARA TIMÓTEO

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Era o tempo em que as coisas morriam; ele via divagar pelo velho
rio cinzento os troncos arrancados ao chão da lezíria, bem como
as gaivotas envenenadas que arquejavam, moribundas, sobre as
ilhas de plástico que quase pareciam belas sob a luz cinzenta da
tarde eterna.
Nesse tempo falava-se de uma pandemia, algo que havia mudado
o bom curso da natureza das funções animais, humanas e
vegetais. Dos minerais não se conhecia história desalmada de perdas
e nem notícias deles havia, exceto daqueles que se calcavam
por via da labuta dos dias.
Era o tempo em que as coisas morriam. O nascimento era,
agora, reservado aos muito ricos, os únicos a conspirar para alcançar
uma velhice onde se alquebravam e enlouqueciam, vertendo
líquidos e sólidos sem memória das funções do corpo e destituídos
da glória alicerçada em feitos passados.
Pandemia outra não conhecera que não a da ganância humana,
uma ambição desmedida como uma fúria sem dono. E também
ele estrebuchava, animal, quando o desejo o possuía como uma
corrente alterosa de fraqueza e lume.
Morria, sabia-o com todo o unto que lhe desgrenhava os cheiros
e texturas do corpo. Era uma não-memória destinada a perecer à
sombra do dia esculpido pela fome.

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sábado, 25 de julho de 2020

Ginger Honey - SARA TIMÓTEO

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Há algum tempo que me endireitara. Agora, trabalhava num hospital e conseguira ascender, por via do trabalho contínuo e diligente, a uma posição em que trabalhava de segunda a sexta em horário de expediente. A minha vida figurava-se-me como uma reta aborrecida e sem final à vista. Contudo, a minha intuição dizia-me que esta rotina seria sol de pouca dura.
Gustavo era um homem bem-apessoado, de porte agradável e sorriso sempre pronto. Eu intuía que ele era cruel e, por esse motivo, afastava-me dele tanto quanto me era possível. Quando ele chegava à unidade de manhã, ia à minha pausa ou invocava inadiáveis compromissos noutro departamento do hospital. Assim imitámos o jogo entre o gato e o rato durante seis meses; e, como eu sabia desde sempre, nada de bom alguma vez nascera da imitação ou de jogos que se prolongam no tempo.
Olhares, toques e proximidade excessiva: a mercenária que havia em mim despertou de súbito e analisou este homem de maneira aturada e paciente.
Em caso extremo, considerei ficar com ele uns quinze dias e depois provocar uma qualquer situação para que ele me abandonasse (uma orgia com amigas e amigos poderia provocar o efeito pretendido). Tê-lo-ia feito, sem hesitar um segundo que fosse, mas os olhos negros dele, sorvedouros destituídos de brilho, alertavam-me sobre a existência de um abismo de onde jamais regressaria.
Este homem jamais seria meu cliente, mesmo quando iniciara a vida aos 12 anos. Era um homem perigoso. Para mal de tudo o que me levara até ali, ele apercebeu-se de que eu o desmascarara e iniciou o ritual de caça que sempre antecipava o grande gozo que sustentava a sua existência: matar.foder.destruir, obedecendo a esta ordem ou a qualquer outra. Mas a puta em mim era velha e sabia como defender-se. Esta era uma luta pela sobrevivência.
– Olá, Diana. Tudo bem?
Enfaixada num vestido de tafetá que me enlanguescia e aprisionada por uns sapatos de salto agulha num tom de azul-claro, murmurei que sim, que estava bem, mas com muito calor. Ele deu instruções à filha para nos deixar a sós e começou a tocar-me nos ombros e nos cabelos com grande afã.
Apartei-me dele e do cheiro que me repugnava tanto quanto pude. Céus, quantos quilómetros calcorreei naquela festa para que ele não me visse!
A fuga teve fim no momento em que a menina me seguiu para a casa de banho e afirmou ter medo de estar sozinha dentro dos lavabos.
Infelizmente para a menina, irritei-me com a perseguição velada e comecei a praguejar na minha língua de rua, diversa da fluência polida em língua inglesa que toda a gente admirava e invejava no hospital.
– Fucking wannabe hoe!
Logo surgiram três ou quatro matronas com ar preocupado que levaram a menina para longe da minha influência perniciosa. Fui convidada a sair da festa por ofensas perpetradas à moral e aos bons costumes, não sem que antes ele viesse falar comigo.
– Nunca pensei que tratasses assim a minha filha. Parece que não te conheço de todo, e é pena, porque sempre achei que tínhamos uma certa química.
– Não tenho de me justificar perante ti. Tu não me conheces, de facto. O melhor é ir-me embora. Até mais!

Neste momento, caros leitores, ouvintes e telespec(t)adores, o tiquetaque do relógio Richard Mille Caliber RM 019 Celtic Knot Tourbillon que comprei quando logrei sair das ruas mede os passos que me separam do confronto final com o meu predador atual. Antecipo este rendez-vous com a paixão que coloco nas soluções elegantes para qualquer problema.
O meu nome de guerra é Ginger Honey. A vida de rua em Santa Fé onde a minha mãe me largou com 11 anos para que o meu pai não nos encontrasse trouxe-me uma afeição desmesurada a três coisas nesta vida: foder, matar e ter muito dinheiro. São necessidades legítimas que encontram abrigo na alma de qualquer rapariga honesta e, com recurso a alguns instrumentos que transporto comigo, em breve poderei satisfazê-las.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 26 de abril de 2020

Em tempos de quarentena - SARA TIMÓTEO


“Vai ficar tudo bem”

Não te preocupes,
Vai ficar tudo bem.

Os mortos na Índia
(até em Espanha)
Continuarão a ser uma estatística
E até que os membros te pesem
Sobre essa carapaça que envergas
E os olhos se te cerrem de tanta febre,
Poderás continuar a construir
Esse palanque a partir do qual proferes o teu discursozinho
E vendes a tua arte ou uns sabonetes perfumados
Esse palanque que te serve de palco para mostrares como és bom, útil
E necessário.

“Morreu uma criança devido a complicações causadas pelo novo coronavírus.”
Não é possível! O vírus não afeta crianças.
Decerto os senhores doutores se enganaram na autópsia.
Talvez não exista, sequer, um coronavírus
-e seja apenas uma gripe ou um mal de laboratório
com consequências mais acentuadas
Para os fracos, sobretudo para os idosos, que
também não fazem grande falta.

-Regressemos ao trabalho!
(o meu amigo morreu)
-Não paremos a produção!
(coitado, já tinha outros problemas;
O facto de ter estado ligado
Durante três semanas ao ventilador
Foi uma mera coincidência)
- Contra os lorpas marchar, marchar!
Ah! Sabe-se que “vai ficar tudo bem”
Muito em breve…

Vende os teus sabonetes, arte, danças, ideias, discursos, e o que mais puderes
É aproveitar
Enquanto choram
Antes de ficar
Tudo (realmente)
Bem.

O resto é apenas uma estatística.

Sara Timóteo

Todos os textos publicados na rubrica EM TEMPOS DE QUARENTENA são da responsabilidade exclusiva dos autores e os direitos respectivos apenas a eles pertencem.