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quarta-feira, 25 de maio de 2022

A natureza do homem (excerto) - VALQUÍRIA IMPERIANO

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Blasfemando!
Se olharmos a natureza a nossa volta percebemos as transformações que nela ocorrem. O verde passa ao amarelo, o amarelo vira vermelho e o vermelho vira marrom quando a seiva deixa de alimentar sua vida. Essas mudanças podem afetar nosso o humor, não o humor da natureza porque a natureza consegue sempre renascer das próprias cinzas. O nosso humor. O humor do homem. O homem não consegue viver com o cinza da natureza, com a falta do sol, com o tempo fechado, esse tempo cinza, deixa-nos tristes, tira nosso sorriso do rosto, deixa-nos abalados. Não somos como a natureza porque não conseguimos renascer das cinzas, não conseguimos nem renascer de nós mesmos.
Cada folha amarela que aparece na nossa cabeça, ou seja cada acabelo branco, é um sinal de avanço no tempo. Um sinal que a nossa natureza está deixando a juventude em direção ao amadurecimento. Não temos temporadas, não temos estações como a natureza: o inverno, o verão, a primavera e o outono! Nossas estações não têm volta. Somos bebes, crianças, adolescentes, adultos, velhos e morremos.
Passamos de uma estação para outra sem volta. Eu acho que entristecemos nossa alma quando vemos a natureza transformando-se porque isso nos lembra que a natureza renova-se e nós somos conscientes, ou seja, temos a consciência consciente de que não voltaremos para trás. Estamos sempre avançando, dizem, para o futuro, mas eu não considero isso um futuro. Eu acredito isso como um futuro acabado.

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terça-feira, 10 de maio de 2022

Do Éden ao Olimpo (excerto) - LUANA SCHRADER

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Mulher, presença divina desde antes da criação da humanidade. Ser mulher é ser divindade, temida e desejada; repudiada e idolatrada. É ser essência e reverberação do poder imaculado em sua mais genuína potência.
Lilith e Eva, símbolos de pecado e temor; amor e rancor. Dualidades sistêmicas e plurais, livres de definições.
Afrodite, Hera, Artemis e Athena, deusas do Olimpo que regiam a vida; responsáveis pelo nascimento e pela morte, pela colheita e pela escassez, pelo inverno gélido e pela primavera florida. As deusas que definiam destinos e benefícios, desde as estações à suas emoções.
Mulheres sempre foram regidas por Gaia, sendo a personificação da real beleza e detentoras do fluir da vida; intuitivas e reativas, desde os primórdios, possuíram o poder da transmutação e transcendência.
Na arte, inspiração; na musicalidade do samba e MPB, musas inspiradoras; dos pintores e criadores, a mola propulsora da mais bela composição.
Mulheres, desde o princípio, foram eternizadas e retratadas em toda a sua graça e presença divina. Às vezes, odiadas e repudiadas, mas sempre fizeram parte da criação da humanidade.

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sábado, 30 de abril de 2022

Oh, ela não usa Louboutin! (excerto) - IONE MORAIS

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Agora eu uso!... Oi, meu nome é Clara Durães!
Ora, esse é um nome bem sugestivo dado às condições que vim ao mundo. Mas isso mudou, e mudou umas semanas atrás quando estava em frente à uma casa lotérica. Um grande anúncio chamou minha atenção: “MEGA SENA DE ANO NOVO”. Senti um comichãozinho na mão. Pensei: Por que não? Arrisquei os poucos trocados que tinha. Não deu outra. Ganhei! Ganheeiê! Já pude comprar um colchão daqueles que a gente se afunda toda. Sonho de pobre né, gente! Agora tenho grana e vou aproveitar ao máximo esse passaporte para a vida cult. Nada de andar a pé ou de buzu, ah, eu nem sei como se escreve, mas vocês entenderam, são inteligentes, gostam de criticar a escrita dos outros aí nas redes.
Bom, de volta às minhas ideias do que fazer com meu tutu. Daqui por diante, meu bem, é salto alto e muita badalação. Pastelão dormido, nem pensar! Chinelinho de dedo, bye bye! Quero um Lobotam, ou melhor, Louboutin, que é mais chique. Fui pesquisar, pois é para isso que o professor Google serve. Para dizer a verdade, o Google serve para tudo, daí vocês podem imaginar de como meus parentezinhos me acharam. E como tenho parente, é cada prima!

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quarta-feira, 27 de abril de 2022

Relâmpago (excerto) - GABRIELA LUÍS

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Tínhamos finalmente saído para um jantar romântico e o desejo pairava no ar.
A nossa amizade era muito recente, mas a química era intensa, ele fazia-me rir e lançava-me um olhar maroto, desafiante, de que eu gostava.
De forma inteligente, trocávamos mensagens, falávamos de música e de livros que nos marcaram, histórias das aventuras que vivemos, países e locais que conhecemos, pessoas e qualidades que enaltecemos, não esquecendo um pouco de brincadeira, pois essa era a sua maneira de me manter a pensar nele, de o ter na minha cabeça.
Estivemos a dançar, mas tinha chegado a hora de avançar para algo mais, e, à saída de um bar, uma discussão entre rapazes criando receio e confusão, serviu de pretexto para ele me dar a mão e abraçar-me, senti o seu corpo.
No elevador olhei-me no espelho, havia algo ali no meio, uma espécie de carência. Senti o meu telefone vibrar, como se me dissesse para parar, mas não quis atender, já sabia o resultado e não iria fugir, pois no fundo era tudo o que eu queria viver, uma noite de prazer, doar-me àquele ser, era uma sorte imensa, poder ter a sua presença e a oportunidade surgiu.

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segunda-feira, 25 de abril de 2022

A primeira dança (excerto) - FÁTIMA SOARES

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Era carnaval, ela tinha dúvida se ainda gostava do mela-mela, molha-molhas das crianças. A irmã mais velha em frenesi se preparava a noite. O baile no clube popular. A grande sensação seria a chegada dos convidados, rapazes mascarados.
Com muito custo, conseguiu autorização da mãe para uma olhadinha, devia voltar antes das 10 da noite. E nada de dançar com homem feito. Não tinha fantasia, usou o mesmo vestidinho simples das tardes de domingos. Sapatilha. Um pouco de batom e uma tiara colorida, conceções da mãe em dia especial.
Foi das primeiras a chegar no clube. A música tocava alto, o discotecário no pequeno palco aquecia a máquina.
Algumas moças já estavam no terraço esperando os convidados. Quantos seriam? Palhaços, Pierrôs, Arlequins... Quem dançou, quem beijou um mascarado ano passado? Cochichos e risos. Naquela conversa não cabia a menina com dúvidas se já havia crescido.
Entrou no salão quase vazio... Deu uma volta observando os enfeites nas paredes, forma de espantar a timidez ou estranhamento. Capiba se calou, discotecário anunciou Zé Kéty, Máscara Negra.

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sexta-feira, 15 de abril de 2022

O menino perdido (excerto) - CARLA GISELE BATISTA

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Meu sobrinho Antônio tinha 5 anos quando o convidei a vir passar uns dias em Recife. Achei lindo quando disse decidido, antes que consultássemos pai e mãe, que viria.
Eu, ele, e um casal de amigos, fomos passar o final de semana em um hotel perto do Forte Orange, na ilha de Itamaracá. Crianças adoram piscina quando se cansam do mar. Teríamos opções.
No sábado de manhã nos sentamos em uma das mesas nas barracas em frente ao Forte Orange, e dá-lhe comer besteirinhas que ele não conhecia. Antônio então me disse tia, quero ir ao banheiro. Eu, que nunca convivera mais de perto com crianças, respondi displicentemente que ele fosse ao banheiro da nossa barraca, que estava ao fundo, em frente à mesa.
Quando ele saiu andando, olhei pr'aquele menininho e me dei conta “você está louca!? como é que diz para uma criança deste tamanho ir ao banheiro sozinha!?”. Levantei e fui atrás. Quando cheguei na barraca-bar, e já não via Antônio, perguntei onde estava o banheiro. O rapaz me disse que os banheiros de todas as barracas eram comuns, apontando a direção.

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segunda-feira, 11 de abril de 2022

Acordem, mulheres! (excerto) - BERNADETE SAIDELLES

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Desconfie de grande amor que aterriza na sua vida feito pluma na flor. Um lindo homem que se encanta e se apaixona repentinamente vendo em ti o sal que busca para seu angu.
Conheci numa clínica uma viúva, menos de sessenta anos que, enlouquecida de “amor”, vendeu a casa para enviar o dinheiro ao tal “príncipe encantado” que tardiamente o encontrara com seu cavalo branco encilhado na porta do Messenger. Virtualmente ela montou, sentindo o sangue a ferver nas veias, galoparam pelos ventos da Web, mas de fato apenas seu dinheiro troteou pelos ares da insensatez e foi parar nas mãos de mais um covarde, sedutor, que abusa da boa-fé de mulheres inexperientes, que acreditam em juras de amor, tão verde, que jamais amadurecerá.
Quantas mulheres ainda caem nesse golpe? Mulheres de todas as idades, que conquistaram tantas coisas, mas não garimparam a autoestima dentro de si. Ninguém compra paixão, menos ainda, amor. Enviar dinheiro para alguém que mora longe, supostamente rico, com belas fotos em excelentes lugares, é ingenuidade de quem está carente. Mulheres que contam intimidades para pessoas que nunca viram, enviam fotos eróticas (nudes) sem saber onde irão parar, compartilham endereço, localização... quando até crianças estão bem alertadas para evitarem tais fatos.

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sábado, 9 de abril de 2022

A intuição e o medo (excerto) - ANGELA MARCIA DE SOUZA

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Certo dia, eu estava na janela de minha casa que fica em um bairro muito bonito próximo ao Parque do Sábia. Chegou uma jovem em seu carro branco e começou a descer suas coisas materiais. Não demorou muito, desceu do carro um cachorro. Ele era de porte pequeno, na cor branca e muito peludinho. Assim que desceu, foi logo correndo, como quem quisesse conhecer todo o espaço. A garota, que eu não sabia o nome, continuou com os seus afazeres e seu cachorro a perturbá-la. Eu fiquei ali, expiando pela janela. Moça bonita de cabelos pretos e cacheados. Ela não me viu. Eu também não fiz questão. Passado uma hora e meia, lá vem ela novamente. Agora com uma gata na mão. Uma gata da raça siamesa, linda, toda embrulhada em seu casaco. Corro pra buscar meu celular. Queria tirar uma foto daquela cena tão cotidiana. Mas, quando voltei não tinha a gata e nem tão pouco a garota. O carro também já não estava mais lá. Fiquei inquieta e pensando.... Será que ela volta? Será uma nova moradora do bairro? Como eu gostaria de conhecê-la. Voltei para dentro e fui logo imaginando tudo sobre ela.

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terça-feira, 5 de abril de 2022

Intuitivamente (excerto) - ANA MENDES

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Naquela manhã tinha acordado com uma rara sensação de choro, de tristeza, de algo pesado. No banheiro, depois de um bom banho quente, vesti o roupeiro e fui para a cozinha preparar um café bem forte, para me animar. Funcionava sempre a meio gás antes do primeiro café e precisava despertar daquele torpor. Preparando as torradas com mel e manteiga, embora sem apetite, senti-me melhor e de minutos a instantes ou mesmo momentos relaxei. Afinal estava de férias e o Marco deveria passar em casa e levar-me com ele para a montanha, para passarmos 3 dias juntos. Ele passava o tempo agitado, naquele frenesim do escritório e eu no hospital também. Merecíamos este retiro. Também para nos encontrarmos um pouco. Ultimamente ele andava ausente, estranho e irritadiço...A vida moderna, dizia a minha mãe. Mas eu por vezes tinha a sensação de que estava a mais na vida dele e esta sensação de certa forma, mantinha-me mais distante dele e até evitava tocar no assunto do casamento, para não pressionar. Afinal já nos frequentávamos há 2 anos, mas tínhamos a vida toda pela frente. Um dia chegaria a minha vez, a nossa vez!
Quase que tinha conhecido os pais dele um mês antes, mas como ele me esticou a mão de longe e entrou no carro com eles, nem pude cumprimentá-los. Também estava atrasada, ía começar o turno da noite e não me podia dar ao luxo de chegar mais uma vez atrasada. Com as greves os transportes públicos, a vida estava difícil para todos. Para os grevistas e nós.

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segunda-feira, 4 de abril de 2022

A Arquitetura do Caos (excerto) - AMANDA ALEXANDRE DA SILVA PRADO

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Sobressaltar essas vozes dissonantes, ir ao encontro de abismos em formação. Eu não calculo a queda, suplemento selvagem que me nutre. Sussurro nas trevas segredos para casa, ela me escuta tão bem que posso ouvi-la responder.
Faço disposições desarmônicas, mas anseio com convicção que tudo seja perfeito. Eu não almejo a perfeição das proporções, do padrão. Eu falo de um outro lugar, vale do impossível. Você conhece?
O passado se mostra nas paredes, fantasmas me presenteiam com frases codificadas, alucino com sombras infindáveis que possuem suas próprias epopéias. Estou disposta a entendê-las.
Dói, uma agrura que se alastra, a dor construiu essas portas, que eu aprendi a trancar, então sigo apaixonada pelas chaves.
Sou viciada, repetitiva, gosto de sublinhar frases, mas estou agora sublimando, com palavras, esse sentimento de desesperança, esse impulso quase incontrolável de ver e ter sangue nas mãos. Que vontade de rasgar essa pele; E ver esse semblante dilacerado é a apoteose do meu palco imaginário.

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domingo, 3 de abril de 2022

As compensações do saber (excerto) - ALINE BRANDT

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Anna acordou cedo naquele dia... Estava ansiosa... Mas irradiava felicidade. Depois de um banho demorado se deu ao luxo de comer bolo de chocolate - acompanhado de uma xícara de café. “Hoje posso. É um dia especial.”
Colocou seu melhor vestido... Como adorno somente os brincos que ganhou, dos pais, no dia da formatura. “Não são os mais valiosos mas, com certeza, são os que, para mim, têm maior valor.”
Os filhos (Carlos e Vitório) chegariam, em poucos minutos, para buscá-la... Se o marido estivesse vivo a acompanharia. “Faria questão de ficar na primeira fila. Charles sempre foi generoso... Supervalorizava minhas virtudes.”
Anna seria homenageada. Ainda não conseguia acreditar que receberia tamanha prova de reconhecimento. Antes de sair de casa, porém, Anna se permitiu voltar no tempo... “Porque existem momentos marcantes capazes de transformar vidas.” E Anna desejava recordar o dia em que teve certeza de que nascera para “conquistar o mundo”.

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sexta-feira, 1 de abril de 2022

Sombrios segredos (excerto) - ADELAIDE VEIGA


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Infeliz o dia em que o coronel Josefino Teixeiras passou pelas terras do meu pai para pedir abrigo e alimento para o gado. Eu tinha uns 16 anos, esbanjava beleza e graciosidade, o que despertou a cobiça do homem mais temido da região sul de Goiás e de seu filho Josué. Este era um rapazote, um ano mais velho que eu. Minha mãe tinha me dado à luz já avançada em idade e sua saúde era perrengue, como também era a saúde do meu pai. Sem pensar duas vezes, eles me entregaram para ser mulher de quem eu menos esperava, na esperança de me dar segurança. Cinco meses depois, lá estava eu trocando alianças e juras de fidelidade com um completo desconhecido para mim. Em nossa noite de núpcias, Josefino, meu marido me deflorou com violência.
‒ É pra mostrar como eu sou macho! Disse ele, bufando na minha cara. Senti nojo e meu estômago revirou-se. Uma dor lancinante invadiu minhas entranhas.
No outro dia, Josefino estendeu os lençóis na janela do quarto, enquanto segurava meu pescoço com o braço, para que todos vissem e soubessem que eu era uma virgem. Josué, meu enteado demonstrou certo desprezo pela atitude do pai e me olhou de cima a baixo, como se me desejasse para ele. Nove meses depois, já estava com minha primeira filha nos braços, e Josefino não se aquietou. Todos os dias era estuprada por ele e assediada por seu filho, de quem eu escapava milagrosamente de ser violentada também.

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