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domingo, 9 de março de 2025

Ludovina e a promessa (excerto) - Laurinda Rodrigues

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Quando a avó era velha e ela criança, Ludovina tinha dado um empurrão na avó daqueles que treinava na escola e a avó partiu uma perna, ficou meses sem sair de casa e, um dia, Ludovina teve a notícia de que a avó partira para o céu.
Embora o céu fosse para Ludovina o local das estrelas, era tão sincera a zanga da mãe e tão tristes os olhos e as lágrimas que Ludovina prometeu nunca mais dar empurrão.

Estranhava assim sempre que, em crescida, os outros lhe dissessem que era necessário “dar um empurrão”, quando encalhava no trabalho ou nos amores.
Estranhava com a memória do corpo, porque a promessa se apagara na história pessoal.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS IX - COLETÂNEA - IN-FINITA

sábado, 30 de julho de 2022

Episódio: O Mestre e o Discípulo (excerto) - LAURINDA RODRIGUES

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O mestre e o discípulo chegaram ao monte alentejano, num dia de frio e sol.
Mal pararam o carro, viram que, na enorme figueira, mesmo em frente da casa, estava um pássaro, preso na rede (que protege os figos dos devoradores), esbracejando, sem conseguir encontrar o caminho de regresso ao espaço.
O discípulo desceu a correr, para ir tentar soltá-lo, enquanto o mestre arrumava o carro.
A tarefa, a que se juntou o mestre, não foi fácil: a ave tinha uma pata completamente envolvida na rede e já ferida. Tiveram de cortar a rede, para retirá-la.
Depois, ambos começaram a ainda mais difícil tarefa de retirar os pedaços dr rede da pata ferida. Delicadamente.
À vez, um agarrava a ave entre as mãos e o outro ia desembrulhando…

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 12 de setembro de 2021

O construtor de janelas - LAURINDA RODRIGUES

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Ludovina abriu a janela e respirou fundo.
Mesmo em frente, na linha do horizonte, subia o sol, numa mancha laranja.
O ar estava fresco, transparente e o cheiro da terra, depois de dormida com o orvalho, resplandecia.
Ludovina sentiu-se plena até às lágrimas: as que a aragem lhe trazia à face; as que a face lhe levava à aragem.
Assim era a construção do mundo, a construção de um dia, a construção do tempo.
Ludovina lembrava, na memória do corpo, sensações semelhantes ou iguais, mas sabia, naquele exato momento, que estas eram únicas e irreprodutíveis. E, todavia, eram totais.
Agasalhou-se e veio para a rua.
Nas pedras do pátio, iniciou a cerimónia: virou as mãos para o sol, palmas abertas erguendo-se com a mancha alaranjada; saltitando cada vez mais alto, até ao limite da evidência da luz.
Sentiu um cansaço de uma energia não recuperada pelos desvios em pequenos carreiros, mas a estremecedora convicção da dádiva do sol, união de filamentos luminosos ao centro da terra.
Ludovina regressou para a moldura da janela e sentou-se: o pensamento parado, o corpo parado, sem objetivos, sem perspetivas.
Era tal qual o caminho que levava ao sol. Livre, disponível. Fizessem o que fizessem as cabeças dos homens, estava lá, na moldura da janela de madeira, pintada de vermelho sangue, pequena, pesada, forte; a janela de um alentejo falado, vivido fugazmente, mais pelas palavras do que pelas emoções.
E não era emoção que transparecia. Era como que vazio, totalmente transparente e incolor de cristais prismáticos de luz, na convergência para um ponto não definido em qualquer ponto.
Ludovina estava muito fresca, tão fresca como a aragem, tão fresca como o orvalho e não fazia parte da aragem, não fazia parte do orvalho: era assim como uma entidade planadora, desintegrada de todo o corpóreo, até dela própria.
Ludovina olhou e viu o seu cão que lhe lambia os pés ainda descalços: soube que ele tinha fome; Ludovina tinha fome: sentiu vontade de comunicar com a realidade da casa.
O sol estava, agora, perfeitamente identificado no céu.
Ludovina fechou a janela.

 EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Paradigma da felicidade - LAURINDA RODRIGUES

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Sou feliz porque tive dois filhos, inteligentes, íntegros e ternos.
Sou feliz porque plantei árvores que dão frutos, sombra e são símbolo
da paisagem alentejana.
Sou feliz porque editei livros, bonitos de apresentação e com poemas
que traduzem o que sou, que posso partilhar com os outros,
sem vinculação.
Sou feliz porque fui e sou apaixonada por homens com quem tive
momentos intensos, sonhos imensos e realidades conturbadas.
Sou feliz porque me sinto livre, porque fui e serei anti-convencional,
indiferente às hierarquias e rebelde às instituições.
Sou feliz porque me sinto uma guerrilheira das sombras e tenho mitos
que me inspiram o coração e a mente.
Sou feliz porque conquistei aquilo que me propus conquistar
e que deixei quando deixou de me fazer sentido.
Sou feliz porque não preciso de viver, hoje, agarrada ao passado
do que fui, do que tive, do que dizem que eu sou.
Sou feliz porque tenho projetos e projetos no aqui e agora
e que não me importa se vou ou não materializar.
Sou feliz porque gosto de ouvir música, de ver cinema, de dançar.
Sou feliz porque o nascer do sol no Monte me transfigura
e o pôr do sol no mar me tranquiliza.
Sou feliz porque gosto do cheiro da relva acabada de cortar e molhada.
Sou feliz porque gosto de sentir o meu corpo como uma entidade
diferente de todas as outras entidades e que pode dar prazer
e receber prazer.
Sou feliz porque sou romântica e sonhadora.
Sou feliz porque gosto de ser feliz e de me sentir feliz.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA