quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Esta mulher que não sou eu - ROSE PEREIRA

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Até aqui, me custa aceitar no que tenho me tornado, onerada pela transformação natural exterior, que agora me impele na contramão do meu eu e me faz parecer cada vez mais distante do que pretendia para minha vida.
A expressão da verdade mora dentro de mim e vou fingindo, sobrevivendo, na esperança de logo me encontrar por inteira, de ser feliz pelo simples fato de existir. Não que eu me diga uma mulher infeliz, não é bem isso. Trata-se da resiliência com que sou vista e de fato vivencio, mas que por dentro não se recobra facilmente ou se adapta puramente à má sorte e às mudanças.
Ingratidão seria dizer que ainda procuro motivos na vida para me trazer contentamento, afinal, tenho filhos maravilhosos, perfeitos, saudáveis que me fazem sentir plena. Além disso, possuo adendos que também dão sustentação à felicidade humana, como moradia, salário razoável, amigos e afazeres prazerosos no cotidiano. Isso sem falar que ainda me acho bonita e atraente.
No entanto, alheia a minha própria vontade, a essência me cobra a alma. O fulgor de uma realização que me compraz, converge entre a vaidade e o desassossego. Disso venho escapando, me escondendo nas terapias, nas fotografias que faço em torno a mim, e, principalmente, nos vários relacionamentos amorosos que encarei ao longo do tempo, cada um, como metade de mim – e que descobria, depois, que não me encaixava a nenhum deles.
A solidão a dois, no contexto das minhas experiências, é o ponto que sempre me fez sentir oculta à vista do mundo, inferiorizada enquanto mulher, sem ação. Paradoxal, para uma ativista que faz da sua arte o resgate do sagrado feminino.
Talvez não me faça entender completamente, ou, quem sabe, exista quem conheça exatamente desse sentimento recato.
Se meu corpo por um lado expele desejos, desperta paixões e atrai facilmente, vivo um amor após o outro, sem procurar saber se dará certo ou não. Nessa luxúria, escolho o que não se espera, o problemático, o depressivo, o dependente e sempre com características físicas bem diferentes do anterior – isso pelo prazer de regozijar-me desse poder feminino e afrontar os meus juízes. Evidentemente, por outro lado, o cotidiano logo me mostra que uma convivência formada dessa maneira não se fortalece, e passo a culpar cada um deles pela repulsa que vou sentindo. A fadiga toma conta, o silêncio grita e o nojo de mim e de cada corpo vazio sobre mim imperam.
Mesmo sabendo, continuo insistindo nessa insensatez, talvez para desafiar a capacidade de mudar o que não pode ser mudado, por medo de ficar sozinha com minha presença, ou como mecanismo de autoflagelação.
Parece louco esse sentimento. De fato, enlouqueço, adoeço, perco as forças, e vou me calando, definhando à procura de uma solução para a culpa que carrego, premeditando dia e noite como livrar-me da sina e de como encarar, mais uma vez, os filhos e os outros, diante da minha inconstância.
Enquanto, por fora... sou aço!
Ainda vivo assim. Envergonhada de mim, sem conseguir relacionar-me de maneira saudável, esperando a perfeição dos outros. Experiências, ainda sem querer, cercadas das lembranças infantis que fomentam cada passo na vida. Tropeços submetidos às contradições, traições, violências, humilhações, costumeiras de todo tempo, e não me vejo no direito de requerer justiça, pela consciência de saber o que vivo, o que quero e o que não consigo ser.
Uma mulher em mim que não reconheço...

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quarta-feira, 27 de outubro de 2021

A cientista - FLAVIA ZOGBI

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No quinto andar do departamento de ciências de Harvard, uma janela está iluminada todas as noites. A sala de May Hirome fica iluminada ate o amanhecer. Ela está trabalhando em um projeto inovador e está entusiasmada porque acredita estar na reta final.
Em breve será a exposição dos trabalhos e isso a deixa muito motivada. Quase todos os dias fala com seu colega chinês Kon Chin que conheceu numa palestra de um famoso cientista russo que os fez pensar sobre esse tema que estão trabalhando juntos.
Os cientistas com medo de que alguém copie seu trabalho usam maquina de escrever e o computador para se comunicar, já que um vive em Londres e o outro em Pequim.
Chega o dia esperado, eles vão encontrar-se e conversar os detalhes que faltam para a apresentação para umas quinhentas pessoas vindas de vários países. Seu trabalho consiste em encontrar o substituto uma proteína , uma super proteína encontrada em plantas da China, muito raras e pouco pesquisada.
Eles estão ansiosos, pois numa se apresentaram para tantas pessoas. Acreditam no potencial da formula e seu futuro para as próximas gerações, será um substituto da carne quando esta começar a desaparecer.
Fim da apresentação. Todos os aplaudiram e mostraram-se interessados em saber mais detalhes. Os dois saíram felizes com o sucesso e começaram a sentir o cansaço da jornada. May foi para seu quarto do Hotel e Kon Chin foi ao bar beber algo para comemorar. Lá encontrou uma moça muito simpática e como ele não estava acostumado era uma prostituta que queria ir ao quarto dele. Como estava meio tonto e com sono a moça ofereceu-se para acompanhá-lo.
No dia seguinte, Kon Chin está com dor de cabeça e não se lembra de muita coisa do dia anterior apenas que a palestra foi um sucesso, quando foi procurar seu material ele havia sumido. Mas como? O que aconteceu?
Alguém bate na porta. Sua colega entra em seu quarto com a bagunça que vê na cama, armários remexidos e pergunta o que aconteceu a Chin.
Ele, um pouco sem graça diz o que aconteceu na noite seguinte e está preocupado porque acredita ter perdido o trabalho.
Ela está tranquila, pois o material está bem guardado no cofre do Hotel. Ela preferiu cuidar e não deixar nas mãos ingênuas do amigo. Ele suspira e agradece a confusão. Esses homens só pensam em mulheres, pensa Hirome.

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segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Em carne viva - FÁTIMA D'OLIVEIRA

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Foram estas as tuas exatas palavras: queres casar comigo?
E foi assim, com três simples palavras em forma de questão, que viraste todo o meu mundo do avesso; que me abriste uma ferida, que pulsa e lateja.
Aconteceu de repente, sem menos nem mais e quando nada o fazia prever: fomos para o terraço para tentar fugir da opacidade que teimava em transformar a nossa existência ainda mais baça e da azáfama e lufa-lufa diária, assim como do irritante e incessante ruído de fundo que ameaçava transformar-se na banda sonora das nossas vidas e estávamos muito quietinhos a observar as estrelas, envolvidos pelo abraço terno da noite e acariciados pela brisa suave e fresca que corria solta e livremente, quando... aquilo aconteceu, quando a tua malfadada espontaneidade tomou conta de ti e tu, muito pura e simplesmente, te deixaste ir.
E o que é pior... quer dizer, pior não sei: mas irónico, sim – com toda a certeza. Bom, seja como seja O que eu sei, e sei-o no mais íntimo e profundo de mim, sinto-o marcado a ferro e fogo nas minhas entranhas, é que a tua pergunta foi, se calhar, extemporânea. Porque tu não me amas: nem sequer estás apaixonado por mim. Então, porque raio queres casar comigo?... E permite-me responder: tu não queres. Tu apenas... entusiasmaste-te. Eu explico: quando estávamos no terraço, alguém tinha uma janela aberta e podia ouvir-se, a altos berros, a voz quente e insinuante do John Legend a cantar “All of me”. Embalado pelas palavras doces de mel e canela, fizeste-me a tal pergunta. Curiosamente, toda esta nossa situação, este belo berbicacho onde nos encontramos, também me lembra uma canção, mas não é “All of me”: é antes “I’m not in love”, dos 10CC. Conheces? Assenta que nem uma luva neste... neste... neste imbróglio que tu e só tu te atreveste a criar.
Mas o que magoa mais e rói e remói bem no fundo cá dentro, é a quase certeza absoluta, mas absolutíssima mesmo, absolutérrima, de que tu, assim que proferistes aquelas palavras agora malditas, te apercebeste do tamanho do erro, da enormidade do que tinhas acabado de fazer. E tu, em vez de o assumires e reconheceres o engano, como que te encolheste e ficaste muito quietinho no teu canto. Não sei se por alguma noção ridícula e ultrapassada de cavalheirismo, se por orgulho, se por cobardia, não quiseste dar o dito por não dito. E isso doi, sabias?... Doi muito, doi até demais. Porque mais valia arrogares o teu momentâneo lapso de discernimento e consequente deslize de língua, e arcares com as consequências do teu equívoco, responsabilizando-te assim pelo sucedido. Mas não: mais do que fazeres absolutamente… nada, tu na verdade... paralisaste. E chega a ser doloroso, sabes? Mais do que ver o desespero perfeitamente espelhado no teu olhar, observar a aflição completamente escarrapachada no teu rosto, chega ser cómico. Sarcasticamente falando, é claro. Porque tu transbordas medo. E dúvida. Até pode ser que involuntariamente, mas a verdade é que me estendeste uma passadeira vermelha e convidaste-me a ser a má da fita desta nossa história. Mais do que isso, rogaste-me. Suplicaste-me.
E agora? O que é que eu faço? O que é que tu achas que eu devo fazer?... Ser aquela pessoa adulta, segura e madura que ambos merecemos e ser racional, ter os pés bem assentes na terra e assumir, de uma vez por todas, este papel de bruxa má da nossa história que à força tanto tentas enfiar por mim abaixo? Ou então, seguir a tua deixa, não fazer absolutamente nada e abandonar-me ao sabor da maré para, por um lado, castigar a tua precipitação tão completamente fora de tempo, incapacidade de reconhecer isso mesmo e a tua recusa em não deixar cair o ônus da responsabilidade quando o devias ter agarrado com unhas e dentes e, por outro, condenarmo-nos a alguns possíveis infortúnios, amargos de boca e malas-ventura?... O que achas?... Fecho a ferida de uma vez por todas e coloco um ponto final neste nosso parágrafo, ou deixo-a aberta e que seja o que nós quisermos, com um ponto de interrogação e reticências?... Sim? Não?... Sim? Sopas?... Diz-me!...

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domingo, 24 de outubro de 2021

A Arte de descascar laranjas - ETIANI THAIS GARCIA

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Para sentir o sabor do sumo da laranja, é preciso descascar.
Eu me sinto de volta a minha infância descascando uma laranja.
A voz de uma menina, chega os meus ouvidos dizendo:
– Vó, descasca uma laranja?
Eu ia lá, correndo escolher a melhor laranja.
A laranja mais atrativa diante dos meus olhos.
E ela, descascava a laranja sem quebrar a casca, um caracol se formava ou seria caleisdescópio?
Um formato fabuloso era formado pela casca da laranja. E aquela criança que observa as coisas que os adultos fazem arte, passava a admirar aquela arte de descascar laranjas.
E com o passar do tempo, minha vó dizia:
– Vocâ já tem idade para descascar a laranja sozinha.
– Mas eu gosto da laranja descascada por você.
– Você parece uma artista com a laranja e a casca, que saí tão bonita e inteira.
E ela amorasamente descascava a laranja que eu escolhia.
Até que um dia, eu tomei coragem e fui descascar a laranja.
– Vó, a casca quebrou.
E ela dizia:
– Ahhh, vocâ escolheu a laranja com a casca murcha, assim quebra mesmo.
Não sei se ela dizia isso para ser gentil com aquela criança, ou se ela realmente falava a verdade que não era vista, pela menina.
A casca murcha.
Mas a menina cresceu, e quando encontrava laranja, tinha que ela mesmo descascar, ou ela descascava
ou ela ficava sem chupar a laranja.
E ela, sempre era indagada por gente que não conhecia a arte de descascar laranjas.
– Descasca em cruz, é mais prático e rápido. E se quer saber, mais laranja é consumida.
E ela impacatada respondia:
– Eu gosto de laranja descascada assim, tem mais sabor.
E se quer saber, é mais doce.
Coisa estranha ver uma laranja cortada em quatro partes. Bonito é a laranja inteira, com uma tampinha, que parece a tampinha de uma panelinha.
Bonito mesmo, é descascar a laranja e ver arte na casca que ficou inteira. Intacta de uma forma que te conecta com quem você foi e é.

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terça-feira, 19 de outubro de 2021

O tísico - CARMEN LÚCIA DE QUEIROZ PIRES

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Era apenas uma adolescente quando foi com sua mãe visitar uns parentes.
Ia com certo receio uma vez que haviam lhe tido que marido da parenta era tísico.
Segundo informações que recebeu, o tísico era portador de uma tuberculose que não matava, mas também não tinha cura. Por ser transmissível o doente tinha que ficar isolado num quarto, sem contato com os demais.
Nunca entendeu porque sua mãe foi fazer aquela visita, nem porque teve que acompanhá-la.
Era noite e lhe deu a impressão que na casa só havia um único ponto de luz, na sala.
Lá pelas tantas, o infeliz no seu quarto teve um acesso de tosse, que não parava. Apesar disso sua mãe e a parenta continuavam a conversar como se nada ouvissem, o que em seus ouvidos soavam como gritos de socorro.
No ano passado quando esteve internada com COVID, lembrou-se desse episódio. Ela passou um bom período tossindo e em determinada noite quando a enfermeira tentava, em vão, pegar-lhe a veia, teve mais um acesso tosse.
Tossia, tossia e quanto mais tossia, mais queria tossir. Naquele momento veio a lembrança daquela visita nefasta, da tosse do tísico e da falta de sentido dela e sua mãe estarem alí.
Quando sua tosse arrefeceu demorou a dormir, assim como demorou a dormir quando retornou da casa do tísico, impressionada com sua tosse.
No hospital as lembranças vinham à sua mente e se perguntava: Qual a necessidade de ter ido à casa do tísico? Por que teve a sina de pegar COVID e ir parar no hospital? Por que ela e o tísico tossiam tanto? Por que vidas desencontradas se misturam e repetem destinos tão parecidos?
Nossas doenças, vírus e bactérias, nos levam ao isolamento devido ao medo da transmissão.
Tal qual o tísico, ela não sabia o seu destino e sua tosse lhe dava a sensação de mau agouro.
Porque será que sua memória lhe fez retornar há cinquenta anos atrás? Não sabia responder!
Nossa mente, os medos guardados em nosso subconsciente emergem em determinadas situações, querendo talvez nos dizer que tudo na vida vai e volta, em momentos distintos do nosso querer ou não querer.
Ao terminar nossa conversa, ela acrescentou:
– Hoje eu me vacinei! O destino do tísico eu não sei!

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segunda-feira, 18 de outubro de 2021

O corpo é como o sentimento, cresce! - VIEIRINHA VIEIRA

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Era muito menina, mas já temia a existência dos céticos. Muitas eram os que por vezes se amedrontavam com aqueles que sabiam, eram mais velhos e tinham outras experiências, tinha de respeitar os mais velhos e crescer aprendendo que não se deve questionar os que sabe... até porque ela não dizia nada de jeito!
Dentro do peito sentia que a ferida era profunda, mas ainda não tenha descoberto como lá chegar para curar.
Na verdade, a infância passou e ela quase nem deu por isso, chegou a adolescência e o desânimo por vezes parecia amontoar-se. O primeiro rapaz que beijou, sentiu nojo...passou o resto do ano a fugir dele como o diabo da cruz, por bem que não sabia o significado da frase, mas a mãe e o senhor prior usavam-na muitas vezes.
Veronica era uma observadora nata. Gostava de moda, mas tinha um certo prazer em mostrar a sua capacidade intelectual, era alta, ou seja, alta comparada com a grande maioria das raparigas da sua idade, mas não tão alta como Ana Maria. De cabelos loiros a esbarrar-lhe a anca, por onde passava não passava despercebido.
Veronica tinha um sorriso encantador e esboçava seus lábios de uma forma ternurenta, escusado será dizer que era a eleita da turma. Os rapazes babam-se para poder dizer-lhe um olá! O Filipe que era meu companheiro de carteira era um deles. Para o Filipe eu era uma boa amiga, e na verdade. Era mesmo!
Talvez mais que amiga, uma irmã. Isso porque tinha um irmão e sempre sabia o raciocínio dos rapazes com mais clareza.
Filipe era apaixonado por Verônica!
Escusado será dizer-vos que era eu que lhe escrevia as deliciosas cartas de amor.
Mas, tal como era amiga de Filipe, exatamente na mesma medida eu era amiga de Verônica. Havia sempre a ovelha negra da turma que por algum motivo ninguém gramava, a roíninhas. Mas esta era minha colega na vida dupla e partilhamos um segredo. Eu e os segredos. Verdade sempre fui uma boa guardadora de segredos e lá tentava apaziguar as coisas com a roíninhas...
Terminado o ciclo na verdade nunca mais os voltei a encontrar, mas trazia como apêndice a roinas mas sempre fica a recordação dos bons e dos não tão bons momentos que passamos juntos.
A amizade era daquelas coisas que nos fazia correr até a torre dos clérigos e ir espreitar a cidade ou então visitar a feira popular até já não poder mais... parece que ainda consigo ver Verônica correr com os seus botins de salto alto. Em plataforma de madeira, o hippie da época. Verônica nunca perdia sua posse e conseguia sorrir mesmo quando sabia que era ela que nos provocava os sorrisos.
Lembro da minha paixão pelo David e de guardar segredo desta ilusão juvenil, entre outras paixões que senti nunca fui de me deixar cair nas malhas das breves ilusões.
Mas não vos escrevo para falar de mim! Na verdade, não vos escrevo para falar de ninguém, apenas imaginar juntos...
Eram dezasseis horas em ponto e, nesse dia, Nélia tinha teste de português, seu nervosismo era de tal ordem que derrubava tudo por onde passava, ninguém compreendia nada. Entre todos ela era a quem chamávamos de tufão. Havia um motivo para que Nelia ficasse daquele jeito sempre que havia aula de português. Mas era mais fácil para todos não querer ver do que ser confrontados com a verdadeira causa dos porquês… logo após a aula ela saiu em direção a casa. Chorou horas seguidas, sabia que os seus objectivos estavam próximos assim como o verdadeiro motivo que a fazia chorar. Seria dor o que sentia? Ou capricho de uma menina que não se preocupava com nada... na verdade não há nada para nos preocupar! E Nélia sempre resolvia os seus problemas hoje. Nunca fora rapariga para deixar para depois. Ela sempre preferia enfrentar e deitar de cabeça tranquila.
Na escola todos sabiam da sua grande paixão pelo David! Será que este era o mesmo David da minha Paixão? ou não... teríamos sido colegas de turma ou apenas frequentamos o mesmo local? Até aos dias que correm ainda ninguém descobriu isso...
Na verdade, até David ficou sabedor do amor que Nélia sentia, ela não tinha medo de amar.
O romance inicia numa fase bastante controversa das suas vidas. Nélia tinha programado viajar para os Estados Unidos e David desejava curtir umas longas férias na Califórnia, haviam fatos omitidos mas isto dos humanos permite.
Tal como permite intervenções nos seus próprios sentimentos, como se muitos usassem um bisturi e removesse o que de errado havia em si mesmos.
E fora lá que conhecera Hugo!
Sem ter certeza se tinha acabado o seu relacionamento com David, Nélia torna-se distante e a determinada altura chega mesmo a afastar-se deste para que não acabasse em rolo. Mas que rolo... Já David em plena Califórnia só pensava em miúdas, praia, surf e uma cerveja.
Está-se mesmo a ver que nem tempo tinha para lembrar do amor de Nélia, sim. Ainda hoje me pergunta se David algum dia foi apaixonado por Nélia?
Nunca vou esquecer o dia 26 de Agosto de 2012, precisamente as 20 horas quando toca o telefone, cause nem quis acreditar quando ouço do outro lado Nélia! Sim, ela estava a ligar-me dos Estados Unidos. Mas porque eu?
Sim, Nélia sou eu como estas?
Desculpa incomodar, mas sabes alguma coisa do David? É que tento ligar com ele e não consigo ligação.
A minha vontade foi dizer-lhe: Nem espero que ele volte da Califórnia algum dia, mas contive-me e deixei sair um leve sussurro: Não.
E não sabens...
Nem deixei que terminasse a pergunta! Disse-lhe de imediato que não sabia de absolutamente nada, que não via o pessoal da turma dês da mesma altura que ela e o facto de não viajar para forma não significava que não tinha coisas para fazer. Até porque arranjara um emprego e nem sabia se voltava para o ano seguinte.
Senti a tristeza subir-lhe pelas cordas vocais!
Na mesma noite acabou por ceder ao convite de Hugo para um jantar, ali mesmo no restaurante do hotel.
Ai, amiga ele é tão encantador!
Lá a convenci a ir sem sentimento de culpa e pedi-lhe que me deixasse ao corrente da situação e tal como lhe tinha dito, afinal que mal poderia existir num jantar entre amigos. Apaixonar-se? Mas só quem já está livre de amarras ou sentimentos volta a criar novos laços e se esta se apaixonasse, seria um ótimo sinal indicativo do que já todos sabiam. A relação dela com David não tinha qualquer futuro.
O ano começou e eu tive de deixar o emprego para poder levar adiante a conclusão dos estudos, Nélia voltará dos Estados Unidos já fazia uns dias e David, ainda não tinha dado sinal da sua existência. Havia rumores que não voltaria mas na verdade este ao fim de quatro dias lá se apresentou e com uma cara de pau que todos julgaram estar a ver mal. Aproximou-se da Nélia como se ainda namorado fosse e ficou muito aborrecido quando esta o deixou a falar sozinho. Como se não bastasse ainda sobrou para mim, queria fazer de mim correio. Mas não teve sorte nenhuma.
Nélia afastou-se do grupo geral da turma e eu comecei a ser a sua grande amiga e contávamos os nossos segredos uma à outra quando não podíamos estar juntas, ligávamos, mas existia sempre feedback.
Escusado será dizer que Nélia e Hugo mantinham uma relação muito próxima e diria que chegaram mesmo a casar mais tarde, que hoje sou a madrinha de um dos seus filhos e que ver a Nélia feliz me faz bem, afinal somos como duas irmãs.
Ah, eu não cheguei a casar, no entanto tenho uma relação de longo tempo com Adriano. Acho que se vai manter assim por algum tempo, afinal só muda quem está mal.
David por exemplo, depois que perdera os pais teve de trocar a prancha de surf pelas bombas de gasolina e como todos do grupo a vida mudou.
Mas Nélia aprendeu a lição. A pressa nunca é boa conselheira, mas sabem uma coisa amigos? O mais importante é que ela encontrou a sua felicidade!
E já agora: E eu a minha! Formas diferentes, mas não menos felizes.

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Apesar de tudo, a resistência - ROSA GONÇALVES

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Nessas linhas, narro o diálogo entre duas mulheres da mesma linhagem sanguínea, mas nascidas em décadas diferentes. A mais jovem, envolta em uma situação amorosa conturbada, busca nos braços e conselhos da mais velha um conforto e uma saída. E, dessa forma, contam-se os fatos a seguir.
Laiane, paulista, casou-se aos 18 anos com um nordestino. Eram muito apaixonados. Desse amor, ainda no interior de São Paulo, tiveram três filhas. O homem sentia-se por demais orgulhoso por ser pai de meninas, apesar do deboche de um de seus familiares. Segundo esse parente, o progenitor só foi capaz de gerar “seca tuia”, em outras palavras, filhas. Com certeza, na visão desse familiar, esse pai passaria por problemas sérios, pois, para ele, mulheres são sinônimo de situações desagradáveis. Ele, pai de filhos em sua maioria, dizia ser privilegiado. Essa conversa jamais desanimou Zyan. Se tivesse mais filhas, mais alegre seria, falava para Osíris.
Certa manhã, Zyan recebeu uma proposta para morar na região amazônica brasileira. Em conversa com Laiane, decidiram encarar esse desafio. A mulher era seu pilar essencial. Assim, organizaram a mudança.
O homem seguiu em um pau de arara. A sua esposa e as filhas, de ônibus. Como as mulheres sofreram, na longa viagem, durante a década de 1970. Sempre surgiam burburinhos. No entanto, a mãe, muito segura de si, conseguia defender a prole e vencer os inúmeros assédios, na longa viagem.
Ao chegar na terra prometida, a família, aos poucos, conquistou espaço. Nesse local, nasceram mais um menino e outra menina. O pai, o grande herói da família, era um homem admirável e exemplar. Não media esforços para cuidar da esposa e dos filhos.
Até que, talvez pelo excesso de trabalho, acabou esquecendo de cuidar da própria saúde e descobriu que estava com leucemia. Precisou buscar atendimento médico fora de sua cidade. Zyan, acompanhado por Laiane, seguiram a um grande centro, para fazer o tratamento de saúde. O pai, na capital de São Paulo, começou a ficar muito mal. Desesperados, os filhos foram chamados para, quem sabe, a despedida.
Eis que, em um dia chuvoso, Zyan desencarnou, na terra da garoa. Mais uma vez, conversas desnecessárias apossaram-se de um dos parentes. Dessa vez, com um tom mais agressivo. Segundo esse cidadão, o retorno da família à Região Norte, era algo desaconselhável, por serem muitas mulheres, sem a presença do progenitor, todas iriam se tornar meretrizes. Nem imaginava o quão forte a mulher era.
Não foram essas palavras capazes de destruí-la. E, assim, encarou essa fase difícil e seguiu rumo ao seu lar com os filhos. Mesmo no período de luto, conseguiu forças e transmitiu segurança aos frutos de seu ventre.
De volta à sua cidade, Laiane e as filhas tiveram novos desafios. Com o tratamento do cônjuge e o deslocamento das filhas de forma não planejada, as despesas se multiplicaram. Laiane assumiu as tarefas no comércio da família, assim como das terras na zona rural. Por fim, decidiu fechar o comércio e passou a trabalhar como conselheira tutelar.
Foram longos anos em que chorou sozinha. Contudo, com fibra e persistência, narrou a sua história como personagem de destaque. Além disso, sempre incentivou muito os filhos a estudarem. Foi uma forma de atender ao último pedido do seu marido.
As várias etapas na vida feminina, assim contava a mulher mais velha, mostram que mesmo diante de situações negativas e luzes apagadas, a luta é contínua. Só assim, para sobreviver em um mundo repleto de desigualdades. Laiane representa as mulheres que buscam espaços dignos na sociedade, mesmo rodeadas de palavras desanimadoras.
E, essa história, minha netinha, é a história da sua bisavó paterna. Ela muito lutou (e luta) para formar a sua família e trazê-la unida. Que sirva como exemplo em sua longa e árdua caminhada enquanto mulher. Os desafios fortalecem as nossas lutas. Quando as barreiras chegarem, lembre-se dessa nossa longa conversa.

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domingo, 17 de outubro de 2021

A imigrante - MARIA CLEIDE BERNAL

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Maira nasceu em um lugarejo na caatinga do Nordeste, onde o verde da folhagem na estação invernosa se mistura com as chuvas que se derramam pela estrada e que se alastram em frente à casa dela. Três anos mais tarde começaria sua vida de imigrante, mudando-se para um lugar chamado Paracati, nas quebradas da Serra Grande. Ali viveria entre mangueirais e laranjeiras, desfrutando de banhos de cachoeira de corpo nu.
Seu pai era um camponês e a mãe uma mulher com fortes traços indígenas, mulher de muita fibra e de muito sofrimento, para criar os doze filhos do casal e digerir em silêncio a escassez, fazendo milagre com o pouco que extraía de uma terra árida e pedregosa. Até os sete anos ela tinha estudado, junto com seus irmãos, com um professor particular que lhe deu os primeiros passos na leitura. Um ano depois ela já estudava na sede do município, numa escola de religiosas que tinha um expediente dedicado aos filhos da burguesia da cidade e outro dedicado às crianças pobres que não podiam pagar a escola.
No período das férias Maira e seus irmãos voltavam para o pequeno sítio de onde saíram para rever os pais e conviver outra vez com o campo. Seu pai era uma figura autoritária e severa, mas de sentimentos e gestos nobres. Sabia que era difícil educar a todos os filhos, mas faria o possível e o impossível para que eles tivessem acesso à escola, por mais difícil que isto poderia ser. Uma vez ele me surpreendeu a menina a chorar, quando ela tinha ainda sete anos, porque queria estudar e ter uma profissão, sair daquelas quebradas de sol escaldante e sem perspectivas de futuro. Naquele momento seu pai tomou a firme decisão de alugar uma casinha na cidade e mandar suas duas filhas mais velhas tomarem conta da casa e das crianças para estudar na escola pública, mantida pela prefeitura do município e mais tarde na escola das freiras.
Na cidade a vida era muito diferente da que tinha levado nas quebradas do sertão. A pobreza era discriminada sem misericórdia na escola, no bairro, nas brincadeiras de roda, enfim por todos os lados. O colégio de freiras simbolizava a imagem do poder da burguesia local e a segregação daqueles que não podiam pagar o colégio, que para estudar teriam que ser bancados pela “bondade” das Irmãs de Caridade. O catecismo, a missa do domingo trajando o uniforme da escola, o medo do pecado e o sexo como coisa suja e pecaminosa, disseminado pelas freiras, eram cenas presentes no desabrochar da juventude naquela provinciana cidade. Assim, Maria cresceu entregue aos devaneios de vencer a pobreza, a discriminação e o preconceito. Um dia terminaria com tudo aquilo e iria morar na capital, conhecer gente educada e estudar em um colégio leigo.
Chegou à capital aos 12 anos, o pagamento do colégio provinha de uma bolsa de estudos arranjada por um político da cidade. A capital era um mundo totalmente novo, mas as dificuldades financeiras da família obrigavam a menina a trabalhar arduamente durante todo o tempo que não estivesse na escola. Trabalhou como operária de fábrica , professora primária e outras tantas oportunidades que lhe apareceram. Logo mais, veio a transferência para o Liceu, colégio público onde havia uma efervescência dos movimentos estudantis, aos quais se entregou.
Maira cresceu e tornou-se uma mulher bonita e sensual, era amada por muitos pela sua coragem e paixão por tudo que fazia e pela sua coerência, mas ao mesmo tempo antipatizada por aqueles que se sentiam ofendidos por este tipo de postura. Entrou na luta política desde os tempos da repressão aos movimentos populares e sindicais, durante os anos da ditadura militar.
A descoberta da sua sensualidade e da sua capacidade de sedução mudou o estilo de vida de Maira, que aos poucos foi deixando sua face severa para se transformar em alegre e cativante criatura. Foram muitos os seus amores e paixões, muitos até mesmo imaginários. A paixão pela vida e por tudo que se empenhava era a marca de sua personalidade.
Ser feliz era tudo que ela sempre desejou, numa trajetória de vida que cultivava a verdade, a ética e a solidariedade, buscando se afastar da hipocrisia e da percepção de um mundo falso e ilusório.
Ainda muito jovem Maira vivenciou o período da ditadura militar no Brasil e se engajou no movimento de resistência. Na época os movimentos por reformas de bases se fortaleciam com a chegada ao poder de um governo trabalhista. A oligarquia agrária e a burguesia industrial nascente temiam perder os seus privilégios fiscais e financeiros, que aliados aos militares promoveram um golpe de estado. Com a ditadura chegou também o cerceamento das liberdades individuais e coletivas, as perseguições políticas, as prisões, os exílios e todas as formas de opressão.
Os estudantes foram às ruas, a guerrilha floresceu na selva, surgiram os conflitos e as barricadas nas ruas das grandes cidades. Maira engajava-se na luta de resistência. Ela morava em um pequeno apartamento bem situado em um bairro de classe média, onde ninguém desconfiaria do que se fazia lá dentro. Foi aí que ela começou a acolher aqueles que fugiam das perseguições políticas e os mais ousados que atravessavam o país em busca de se engajarem na guerrilha do Araguaia, no norte do país.
Depois de 5 anos a ditadura já tinha eliminado muitas lideranças, colocaria os sindicatos sob intervenção militar e fecharia todas as possibilidades de resistência política. E veio a escuridão total com o endurecimento da ditadura, o ufanismo, o “milagre econômico” e o “ame-o ou deixe-o”. Maira, já profissional, se recolheu aos estudos, mas sem sossego, pois começaram as prisões de amigos e familiares, as perseguições da polícia política. Sofria ameaças em longos interrogatórios e estava quase sempre, seguida por pessoas suspeitas, até mesmo nos bares da cidade que eram frequentados pelos militantes de esquerda.
Um dia reconheceu que, sem alternativas para continuar a vida política, seria melhor um exílio voluntário. E ao conhecer Rodrigo, um dia preso em sua cidade como guerrilheiro colombiano, viveu um amor de companheirismo e cumplicidade. Casou-se de calça jeans e colar de búzios à maneira dos jovens da época, deleitada pelos ventos de liberdade que vinham de Liverpool. Casaram-se para ter as bênçãos da família e depois ela deixaria a cidade natal e as perseguições, fazendo uma pausa em sua militância apaixonada.
Uma longa viagem pela América do Sul afastava temporariamente a jovem das utopias e do desejo incansável de liberdade. Agora seria igual a tantas outras que encontram no casamento uma mudança de vida, muitas vezes sonhada. Entretanto, o casamento para ela seria a conjugação dos seus esforços por liberdades democráticas e ao mesmo tempo uma vida a dois em que as individualidades não seriam aniquiladas, como vinha ocorrendo com as pessoas de sua época.
Ao passar pelo Chile, o casal teve que seguir viagem sem demora, pois o toque de recolher cedo da noite, anunciava uma quartelada semelhante ou pior do que aquela que aconteceu no Brasil. Chegando à Colômbia, seu porto seguro, o primeiro desejo foi conhecer as Forças Revolucionárias colombianas que já dominavam quase um terço do território. Foi naquele momento que percebeu que seu sonho ficava distante. Seu companheiro, chegando ao país de origem, esboçava suas primeiras manifestações de desaprovação dos movimentos de libertação e de tantos outros de contestação aos governos déspotas aliados da Aliança para o Progresso e do governo norte-americano que tinha articulado junto com os políticos conservadores o golpe militar n o Brasil.
Pobre moça sonhadora, Maira nem sequer desconfiava que seus sonhos de liberdade estariam abalados diante da descoberta de uma “nova” concepção política do companheiro, muito mais conservadora do que aquela que ele expressava quando vivia no Brasil, mostrando uma repentina personalidade machista que ele assumia então, ao chegar em seu território de origem.
Os ventos de liberdade e de uma nova moral sexual que chegavam da Europa, depois da revolução de maio de 1968 na França, haviam gerado em Maira o desejo de ser feliz e conhecer pessoas libertárias para compartilhar um novo estilo de vida, uma nova moral nos costumes que revolucionavam a época. Mas no país distante os costumes eram ainda mais conservadores do que aqueles que ela tinha deixado em seu país. Como suportar mais uma desilusão? A trajetória libertadora de Maira apenas havia começado, longe do seu país e de sua gente.

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sábado, 16 de outubro de 2021

A blusa - ANA LAU FERREIRA GOMES

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Curitiba, anos 1980, Alameda Cabral. Você esbarrou em mim no restaurante macrobiótico, onde nossa turma costumava almoçar depois do colégio. Ao pé do meu ouvido, você disse que esqueci uma blusa de lã no seu apartamento. Eu era namorada do seu melhor amigo. E você, o melhor amigo do meu namorado. Ao lado do Teatro Guaira, o apartamento de seus pais era um dos pontos de encontro da nossa galera, em tardes vadias regadas a muito rock-in-roll.
Quando você me avisou da blusa, senti o cochichar de sua voz forte descer suave pelo meu ouvido. Percebi seu corpo quente precipitar-se junto ao meu. Uma estranha linguagem dos sentidos ali nos traia. Sempre que o via, algo me intrigava no jeito que você sentava no chão com as pernas entrecruzadas, a massagear os dedos dos pés. Algo me tocava fundo diante de seus brilhantes olhos e cabelos de escuridão. Nestes detalhes, parecia que um longo túnel de profundezas se abria entre nós. Grandes cílios ressaltaram sua beleza e eu começava a desejar que piscassem só para mim. Seus ombros fortes pareciam incansáveis a pedir um abraço meu. Seus braços e pernas torneados faziam minha imaginação deslizar no tobogã de suas curvas. Tudo em você era convite ao sensorial. Tornara-se cada vez mais incômodo convivermos, eu em par com outro, quem acredita amar, mas perturbava-me por desejar você. Já vinha de um tempinho a incomum taquicardia na sua presença. Mas eu não sabia se a via era única ou de mão dupla, até você me falar da blusa.
Contei as horas até ir buscá-la no seu apartamento. Dessa vez, estávamos só nós dois. No 15º andar do edifício, debruçados na janela do seu quarto, olhamos do alto a vida passar e esfuziantes estivemos ali juntos por horas! Sobre o que falamos? Não sei. Acho que o que foi dito pouco importou em meio a tantos gestos, sorrisinhos e olhares mútuos de cumplicidade e sedução. Depois desse encontro olho no olho, não pude mais nos negar. Chegara a hora de achar uma saída para o impasse, e, viesse o que viesse me permiti escolher você.
Sempre em grupo, ainda nos vimos umas tantas vezes, mas a água da chaleira seguia num crescente a ferver. Até o dia do casamento de seu irmão. A turma toda estava lá, e nós não conseguimos disfarçar que nos comíamos com os olhos. Eu de vestido rosa e ombros à mostra, emprestado da vizinha, dona de uma boutique chique. No cabelo, longo e ondulado, uma flor de mesma cor, tom sobre tom. Eu Rosa, você Cravo, como na canção de minha infância.
No fim da festa, você se ofereceu para me levar em casa. Fomos a pé, e a nossa própria festa começou no caminho. A chuva veio e molhou nossos corpos, tingindo-os de rosa paixão. Debaixo de uma marquise, nosso secreto e proibido amor foi finalmente assumido. O beijo e apertos que nos demos, pareceu engolir-nos por inteiro. Naquele raro momento de êxtase, acreditamos ter os nomes escritos lado a lado nas estrelas e, ingênuos nos entregamos às águas revoltas da lua.
O rock-in-roll que passamos a ouvir juntos no dia seguinte e por muitos e muitos outros dias, noites e madrugadas adentro, não mais tocou. O Rolling Stones ainda tem a sua cara, e as pedras rolantes que você me deixou nunca pararam de rolar.
Hoje é seu aniversário e acordei pensando em você. Há muito nos perdemos um do outro, quiçá noutra vida, noutro tempo, noutra imaginação. Muito antes de você embarcar numa viagem underground e deixar esse mundo.
A blusa que eu esqueci no seu apartamento muito nos aqueceu, mas findou por nos detonar. Seu tecido veio pouco a pouco a se esgarçar, até quando, já em retalhos, lancei-a ao mar.
Por vezes, sinto saudades de nossa juventude e de nós. Ainda amo aquele amor que senti por você, e parece que estou sempre a procurar por ele em outras plagas. Ao fim e ao cabo, percebo que o Cupido mora em mim e sua flecha sou eu.
Bendita maldita blusa!

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sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Medita na verdade e fica na verdade - RUTH COLLAÇO

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O vazio, a paz e o tempo...
Aprendi que o tempo cura, que a mágoa passa, e que a deceção não mata.
Que os verdadeiros amigos permanecem, e que os falsos amigos se vão...
Que o hoje é o reflexo do ontem e o amanhã fruto do que semeamos hoje...
Deceções são meras expectativas que projetamos nos outros.
Compreendi que as palavras têm força e que o olhar não mente, pois ambos estão ligados à alma e que viver é aprender com os erros...
Aprendi que tudo na vida depende da vontade, que o melhor é sermos claros com nós mesmos...
E que o segredo da vida é viver... abraçando cada dia, cada momento, cada dádiva, cada lágrima ou dor, no conhecimento que me é dado pelo vazio, a paz e o tempo.

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quinta-feira, 14 de outubro de 2021

O inverno - ROSÁRIO PEDROSO

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A antiquíssima dor no peito voltou. Laura passa agora um inverno gélido, pessimista, em que o diálogo telefónico e online são esgotantes. Uma frustração muito antiga presentifica-se: um desencontro absoluto em relação a todos os entes assombra-lhe a saúde. Aquela sensação de fragilidade cavava fundo uma saudade dos perfumados laranjais da Andaluzia. Contudo, ciclópico, um tempo verdasco, mas simbólico, invade tudo: os afetos tardios, os negócios, o dia a dia. A isolação transforma-se aos poucos numa ferida aberta, num pus tóxico. Nem os exercícios de Chi-Kung aprendidos com a amiga, Luna, estavam a ser suficientes para travar a dor. Luna Azure era uma doce criatura de voz melódica, quando nasceu, numa noite de lua nova, a mãe pediu ao pai que a menina se chamasse Luna porque eram assustadoras as noites transmontanas de lua nova. Luna foi desejo de lua para aquela mãe, sozinha, sem falar português, no hospital de Mirandela. Agora, Luna, com o país em situação de catástrofe, tinha-se distanciado. Todos eram desconhecidos. Laura Lírio volta ao versilibrismo, talento que tinha abandonado depois do afastamento de Sandro Greco, uma paixão exótica. Mas eis que a inspiração volta, é uma pulsão biológica, aflora junto das nascentes. Mesmo em dia de tempestade, procura nascentes de terra negra, lameiros, vegetação selvagem para se tranquilizar e inspirar. Uns dizem que é uma poeta simbolista, outros surrealista, outros abstracionista. Laura sente-se estrangeira, julga modelar sensações repentinas, transformar em palavras emoções em fuga. Como mulher sente-se traída por algumas mulheres, do fascismo, ficara na sociedade portuguesa o toque violento dos controleiros e controleiras, o sadismo de dominar o outro pelas ideias, pelo modus vivendi, a maquilhagem, os cremes, a roupa, o comportamento familiar e social, uma mania de grandeza imperial. Os homens parecem agir do mesmo modo, mas com uma discrição astuta, quase impercetível para espíritos distraídos. Intuitivamente, apercebe-se de uma estranheza entre os humanos. A amizade esvazia-se aos poucos de afeto e torna-se uma forma de modelar e fiscalizar o outro. Agora que Portugal é considerado no “The Economist” como uma democracia com falhas, sente-se feliz com o regresso a Santa Cruz de Alexandro Marino, depois da semana de alta-costura em Paris, cujos desfiles foram mostrados na sua maior parte em formato digital. Está fascinado com a coleção de Giambattista Valli, um convite à introspeção. Finalmente, tem a companhia de alguém civilizado. Alexandro instala-se na Praia Azul, é amigo do dono, o hotel permanece fechado, emprestou-lhe um apartamento.
Com as livrarias encerradas e a proibição de comprar livros nos supermercados, pede alguns livros a Laura. Não pode andar sempre a viajar carregado de livros, para além disso, gosta de passear pelas livrarias dos países que visita, conhecer as novidades. Depois doa os livros. Com todas aquelas tempestades de fevereiro, somente consegue ler poesia. Conheceram-se no Norte e tornaram-se confidentes, mas a amizade é cheia de sobressaltos, sustos, interrupções: primeiro uma morgada minhota, depois a Gi, com o encanto da fotografia e sempre a correr mundo. Acontece que por influência da pandemia os trabalhos da Gi perderam luz e sinceridade. Alexandro procura agora o diálogo com as velhas amizades. Lê a obra Doze Mapas de Mário Cláudio, oferecido por Laura, repete algumas frases do eminente poeta, “o que me interessa no convívio com os outros é aquilo a que poderia chamar a alma dos outros. E essa alma tem de ser escavada, ou ficamo-nos pela superficialidade, e eu faço isso através da escrita”, que recolheu na internet, diz que gosta de ir ao “Citador”, contudo declara que ainda não se sente preparado para começar a escrever, tem apenas pequenas anotações num pequenino bloco que o acompanha, mas tem esse projeto, o projeto de escrever um grande romance. Já Laura dedica-se exclusivamente à escrita automática, queixa-se da família que considera a sua poesia absurda, até paranoica. Então, na tentativa de a encorajar, Alessandro lê-lhe um aforismo de Teixeira de Pascoaes, que tinha anotado no bloco, “Poeta quer dizer Possesso. Não devemos confundir os artistas do verso com os criadores de Poesia. Os primeiros interessam apenas à literatura, ao passo que os segundos têm um interesse vital e universal, como uma flor ou uma estrela”. Um dia voltariam a Amarante, parariam junto à casa do poeta e voltariam a debater o seu saudosismo em homenagem ao brilhante conversador. Não há onde comprar um café, é proibido, então vão até à zona da praia do Barril, entram no Supermercado Amanhecer e compram duas águas tónicas, vão para junto do porto deserto e brindam a uma amizade para sempre, pois, concluem, que a amizade salva das pandemias enraizadas em todos os quotidianos.

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quarta-feira, 13 de outubro de 2021

IN-FINITA APRESENTA... OS POEMAS QUE O DIABO AMASSOU de INÊZ OLUDÉ DA SILVA

Às vezes o melhor que podemos fazer por um livro, e respectivo autor, é dar a conhecer a primeira impressão. Assim sendo, aqui fica o prefácio que Adriana Mayrinck escreveu para o livro OS POEMAS QUE O DIABO AMASSOU, de Inêz Oludé da Silva

Prefácio

Poesia nua e crua, igual a terra árida do Sertão Nordestino. Poesia latente e desbravada, igual a semente que rasga o solo em busca de sol. Poesia transbordante e verdadeira, igual a chuva que cai, após a seca castigante, com trovoadas e relâmpagos. Poesia que transcende a memória, a história, o tempo, a imagem. Poesia sentida, vivida e pisoteada. Poesia dolorida pelas adversidades e lutas da vida. Poesia de resistência e alerta em gritos silenciosos e torturados. Poesia de amor, embalada em uma rede feita à dois – e que se propaga. Poesia ferida, que traz mar - cas de tempos difíceis. Poesia libertadora que atravessa oceanos e voa como pássaro que faz ninho em todo lugar. Poesia que transforma, que chama, que arrebata. É assim, a poesia de Inêz Oludé da Silva. Despida, autêntica, forte, e sobretudo, pince - lada de arte! Arte da palavra, do sentir, do experimentar o mundo tal como é. Sem máscaras, sem comodismos, sem melindres. Arte que jorra e se deixa espalhar com a coragem de uma mulher que tece fios e se reveste de vermelho, por dentro e por fora. O vermelho abrasado, sanguíneo, afogueado que representa as primeiras pinceladas em uma tela em branco, que se chama vida. 8 os POEMAS que o DIABO AMASSOU INÊZ OLUDÉ DA SILVA 9 O poema que o diabo amassou é vida pura, poesia e arte. Um livro construído por esta mulher/poeta/artista/militante que vê o mundo de cima, em seus voos e além dos horizontes. Mas finca seus pés nas terras por onde passa. Deixa nas telas, nos livros, nos vídeos, no coração de quem tem a imensa honra de conhecê-la, pinceladas inapagáveis com a sua marca registrada, que é o sorriso e a palavra. No papel e no eco - talhada, tatuada, gravada com o vermelho vivo das suas memórias - de amor e ódio. Mais amor que espalha, menos ódio - que combate. Não há metáforas ou subjetividades. A palavra está, tal como é, em sua perfeição linguística. Cada página deste livro é envolvida e absorvida pela magia da poesia que Inêz conhece como ninguém. O poder de transformar e a fórmula para esta alquimia, talvez esteja envolvida pela poeira quente e o vento de onde veio, ou arrebatada pelo sol que traz no olhar.

Adriana Mayrinck

Biografia da autora 

INÊZ OLUDÉ DA SILVA: Artista artivista, poeta subversiva, com formação em história da arte, arqueologia e pintura monumental. Membro da coalizão de artistas da Unesco pela difusão da história da geral da Africa e diretora do Museu-Valise da história da escravidão, parceiro da Onu - Unesco. Participou das publicações organizadas pelas editoras In-Finita e Helvétia. Ed. Harmattan, Paris, Depoimentos, 68, a geração que queria mudar o mundo, Ed. Marcas da memória, Ministério da Justiça. Em lançamento Cartas de Amor e de ódio, Ed. Kotter e Os Poemas que o diabo amassou, Ed. In-Finita. Em preparação Revoada para a Paz e As águas da memória.

 


 

O castigo - ROSALINA VAQUEIRO

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É hora do regresso da escola. Joelho esfolado, sacola de pano à tiracolo, boné atravessado, calção sujo das brincadeiras, saltitando, pontapé aqui outro ali no cascalho, nos galhos, nas pedritas da serra, Dérito entra em casa assobiando uma modinha.
– “Alfarenhêros, méquinhos e cães de caça é tudo a mêma raça”
Cumpre a saudação habitual, beijando a mão da mãe
– “Sua bênção nhôra nhã mãe”
– “Deus t’abençoe mê filho. Óh rapazito duma figa mãs adonde é que ouvistes atão essa moda?”
– “Ara, ouvi da escola, adonde haverá de sere?”
De enxada ao ombro, o pai regressa da horta com couves para a janta
– “Tu toma tento, rapaz, olha ca mestra s’ouve lá isso põ-te de castigo”.
– “Ê cá ca m’ importa!”
– “Anda daí mais eu botar serralhas e couves à criação - ós coelhos e às galinhas”
Dérito sai pelo carreiro enlameado em direção às capoeiras em passadas largas imitando um” andar à home”, como o pai, homem novo, escorreito e desempenado.
– Ara atão dize lá qu ‘é lá isso de não te amofinares cos castigos da mestra. Nunca tal vi”
– “É ca mestra bota a gente de castigo pra baixo da scretára. Um home fica ali caladito e sem bulir”.
– “ Pois ...atão! É castigo! Mas que tem lá isso? A modes que na tou t’apercebere...
– “Ah, nhôr mê pai, mais atão na tá pus olhos adentro d’um homem? Um home quedo, sim botar falação cum vivalma, interte-se cum o quê? Ara, a olhar pás pernas da D. Ernestina pois atão! Ela é cá cada uma! Gordas qu’inté parece uma bacorita!!!
De alguidar no avental, migando as couves para o caldo da janta, a mãe viera espreitar a conversa dos “homens”. Olhando enternecida os seus dois amores, murmura de si para si, com um sorriso de orgulho e enlevo:
– “Rais parta ó rapaz! Sai à cepa, o danado!”

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terça-feira, 12 de outubro de 2021

O mistério da mala velha - INÊZ OLUDÉ

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Inspirado do poema de Paulo Mapu, lembranças e conversas à distância com outros manos
Na casa da minha mãe havia uma malinha velha, mais antiga do que velha. Desde quando estava fechada nos guarda-roupas da minha mãe, não se sabe, desde a mais remota infância, tenho ela na lista das coisas que me dão saudade. Até hoje, entre os irmãos, cada um para o seu lado, nos lembramos da malinha com nostalgia.
A malinha não era dela, mesmo se guardava também seus pertences, ela era só a guardiã do tesouro que pertenceu ao meu pai. Ali zelava o seu registro de nascimento com nome de mãe e pai, data e lugar onde nasceu, seu alistamento militar onde consta que foi expulso do exército, por insubordinação, motivo de meu orgulho. Lembro esta frase do meu pai quando nos contava como jogou um prato de feijão na cara do coronel que tinha obrigado ele a ir lavar seu cavalo, quando foi pracinha do exército. Assim se deu o fato, tal qual ele nos contou. O coronel arrogante, se aproximou do meu pai (que ainda era solteiro) e ordenou de lavar seu cavalo. Meu pai estava almoçando e almoçando ficou e respondeu calmamente que não estava ali para isso. O coronel pegou o único pedaço de charque (carne seca) que tinha no prato, que meu pai estava guardando para o final, como faziam todos os soldados, porque a vianda era raríssima na cuia dos soldados. O coronel pegou a carne seca, jogou no chão e pisou com o calcanhar, esfregando com muito sadismo, olhado fixamente na cara de meu pai com um sorriso sardônico. O sangue do meu pai ferveu, levantou dum pulo só e não hesitou: meteu o prato com o resto do feijão na cara dele, esfregando com muito prazer. Foi preso e expulso do exército e nos mostrava a carteira de reservista com o carimbo "expulso" rindo com muito orgulho. Isso aconteceu pelos anos trinta por aí. Até hoje me perguntou como o coronel não o matou ou mandou matar, porque era negro. Na malinha também tinha, outros documentos de menores importâncias.
Nesta malinha marrom, mamãe, guardava de tudo um pouco. A malinha tinha histórias, verdadeiras ou inventadas, o caderno de poesia, que o meu Velho escrevia, hoje ninguém sabe do seu paradeiro. O seu álbum de retratos com fotos amareladas pelo tempo, as testemunhas de familiares que se foram, de outros ainda com vida, de gente que já não me lembro, de pessoas desconhecidas, de amigos já extintos, outros que sumiram no meio do mundo, e nunca mandaram notícias, além de alguns esquecidos.
Tem contas de água e luz, os pagamentos da casa. Os seus carretéis de linha, as agulhas, os dedais, novelos de lãs, apetrechos da máquina Singer, da qual nunca se separou, e as agulhas de tricô e crochê.
Havia um álbum de figurinhas, um álbum de selos vindo de longe, que lhe presenteei quando regressei ao Brasil após oito anos de ausência, no tempo da ditadura. Este álbum raríssimo, datava da segunda guerra mundial, me foi dado pela viúva de um resistente belga antifascista, que colecionava as estampas com o símbolo nazista da Europa ocupada, em cada selo, o resistente escrevia insultos e insolências, por isso, tinha valor, contra o ditador austríaco, escolhido pelos alemães, para envergonhar o mundo.
Havia um cartão postal onde se podia ver, um Cristo muito engraçado e brega, era em três dimensões e quando só mexíamos, piscava o olho e parecia sorrir. Uma série de oito selos da Bélgica, também em três dimensões e um canivete, do tempo que papai ainda fazia sua própria barba.
Havia ainda, dois times de botões, com jogadores bem lustrados, um feito de chifre de boi outro de quenga de coco, embrulhado numa flanela, feito com muito capricho por um dos meus irmãos, mas todos eles jogavam, o futebol de botões.
Tinha vinte amuletos que fabriquei na prisão de Villa Devoto, em Buenos Aires, na época da ditadura, para fazer passar o tempo. Feitas com ossos de carneiro, polidos pacientemente, pintaditos com chá, onde desenhei pássaros e sois, tudo o que me fazia falta. Minhas primeiras obras de arte, estes também se perderam.
Tinha ainda suas relíquias sagradas, um terço de madrepérola, santinhos de sua crença, livrinho de orações e um Espírito Santo, feito de lata de sardinha, que ela usava para rezar antes de dormir, à noite já bem adentrada e depois de acordar, nas horas da madrugada.
Há vinte e cinco anos, meu pai se foi. O ultimo objeto que foi guardado na sua malinha, foi seu atestado de óbito. A malinha desapareceu, ninguém sabe explicar o sumiço, ninguém sabe dizer onde anda a sua
malinha, se perdeu foi roubada, sabe-se lá, com ele eu penso que não foi. Ou foi?

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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Entre o antes e o depois - FÁTIMA D'OLIVEIRA

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O livro preferido da sua mãe era “Mulherzinhas” (“Little women”) de Louisa May Alcott e a personagem desse livro que a sua mãe mais apreciava era Josephine, a Jo. Como tal, o seu nome era Josefina. Mas todos a conheciam por Jôjô.
Naquela noite de passagem de ano, Jôjô não estava com vontade nenhuma de celebrar. O ano que findava tinha sido malfadado, o ano em que tudo tinha mudado: o ano da pandemia. Quem diria que uma coisa tão ínfima – o vírus –, seria capaz de tais avarias, danos e estragos? E o ano que aí vinha não se adivinhava melhor. Pelo menos, no que a Jôjô dizia respeito. Para onde quer que se virasse, só via pessoas a desejarem, a esperarem e a suspirarem pelo fim da pandemia. Mais a mais agora, com o aparecimento das várias vacinas, havia muito boa gente a pensar que isto da pandemia agora não passava de favas contadas e a atirarem pela janela todas as medidas de segurança estabelecidas pelas autoridades de saúde. Mas Jôjô não pensava assim. Pois ela tinha consciência de que até as vacinas fazerem qualquer tipo de efeito, de que até o efeito das mesmas se começassem a fazer notar, ia demorar muito tempo: o processo ia ser longo. E sinuoso. Portanto, o melhor para todos seria continuar a cumprir as regras de segurança estabelecidas pelas autoridades de saúde. Pelo menos, até se alcançar a tão desejada imunidade de grupo. Ou então, até o vírus de tornar parte do ambiente que nos rodeia. E de nada valia a pena esperar que as coisas voltassem a ser com dantes, pois isso não ia acontecer: tudo tinha mudado. Definitivamente. E quanto mais depressa as pessoas se começassem a habituar à ideia, melhor seria. Para todos.
Veio à memória de Jôjô uma frase de Giuseppe Lampedusa[1]: “É preciso que tudo mude para que tudo se mantenha.” Pois… Mas agora as coisas não podiam ser bem assim… Era preciso que tudo mudasse, sim, mas nada se iria poder manter. Não que esse facto perturbasse muito Jôjô. Ela sabia que o chamado distanciamento social afetava muito boa gente. Mas a ela… não lhe fazia grande espécie. Beijos e abraços… passava bem sem eles. Nunca tinha sido uma pessoa... não, afetiva não era a palavra… afetuosa, talvez. Jôjô podia ser uma pessoa de muitos e profundos afetos, agora de demonstrações... nem por isso. Nunca sabia o que fazer ou dizer e então, não fazia nada: ficava muda e queda. Sempre. Para não meter os pés pelas mãos e meter a pata na poça.
Jôjô também se lembrou de um filme de 2014: “Kingsman – Serviços Secretos”, realizado por Matthew Vaughn e com Colin Firth, Michael Caine, Mark Strong e Samuel L. Jackson. A primeira vez que o tinha visto tinha-o achado bom entretenimento. Mas agora, à luz dos acontecimentos mais recentes, achava-o estranhamente… profético: o vírus SARS-CoV-2, ou lá como é que se chamava o vírus que estava na origem da COVID-19, era a resposta do planeta, que estava a efetuar uma purga.
Ao mesmo tempo, Jôjô achava a doença, a COVID-19, embora transversal, horizontal, vertical e até diagonalmente, extremamente injusta. Porque parecia sempre que pagava o justo pelo pecador. Parecia sempre que era quem tinha menos culpas no cartório, que quem mais levava por tabela, pois a triste verdade era que quem mais merecia apanhar um valente susto, infelizmente também era quem tinha mais acesso aos melhores cuidados de saúde. Por mais injusto que isso fosse ou parecesse. E isso era mesmo, mesmo, MESMO muito injusto: imensa, extrema e tremendamente injusto.
Com o olhar pousado no écran da televisão ligada, mas sem realmente ver o que quer que estava a dar, Jôjô lembrou-se de Brigite, uma residente na casa de cuidados continuados onde trabalhava e que padecia de uma doença considerada rara e com um nome demasiado estranho. Apesar de estar já total e completamente dependente de terceiros para o que quer que fosse devido à progressão implacável da sua doença, Brigite continuava extremamente lúcida e dona de uma mente incomensuravelmente arguta e perspicaz, assim como possuidora de um sentido de humor muito peculiar e sarcástico, acutilante, muitas vezes desarmante. E veio à memória de Jôjô um desabafo amargo de Brigite: que tinha ouvido num noticiário qualquer, em relação à vacina para a COVID-19, que se tinha conseguido condensar 10 anos de investigação em 10 meses. Ora, Brigite tinha plena consciência de que 10 anos era normalmente o período de tempo que separava a descoberta de um novo fármaco e a sua chegada efetiva às farmácias; também percebia que a COVID-19 era uma urgência a nível mundial; mas bolas... 10 anos em 10 meses?... Então e as outras doenças?... Não interessavam?... Era como se as farmacêuticas não vissem com bons olhos o desenvolvimento de certos produtos, nomeadamente de medicamentos que curassem, por não serem rentáveis: era muito mais proveitoso responder aos quês do que aos porquês e lucrativo tratar os efeitos do que as causas. Perante este discurso desencantado de Brigite, Jôjô ficou sem saber o que dizer e apenas acenou tristemente com a cabeça.
Mas agora, nesta noite de passagem de ano, parada a olhar para o écran ligado da televisão ainda que sem realmente o ver e perdida em si e nos seus pensamentos, Jôjô não conseguiu evitar-se sentir entalada entre dois mundos, duas realidades: o que tinha havido e sido, e o que tinha de haver e ser. Entre o antes e o depois. Suspirou e apesar de ainda não ser meia-noite e como não tinha a mínima vontade de celebrar o que quer que fosse e muito menos a entrada no novo ano – ao contrário da grande maioria, Jôjô não tinha grandes expectativas para o ano que se avizinhava: vislumbrava-o antes como uma incógnita: um gigantesco ponto de interrogação –, foi-se deitar.

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domingo, 10 de outubro de 2021

A cela - ANGELITA GUESSER

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Sexta-feira 16 de outubro, saio da sala que religiosamente frequentei por 10 anos, desço os poucos lances de escada e já estou na rua. Caminho pelas calçadas de Pelotas, sutilmente coloridas por seus imensos ipês amarelos. Me dou conta que é início da primavera. Estou parada na esquina da Andrade Neves com Gomes Carneiro por mais de 10 minutos. O vento suave traz o cheiro agradável das flores que recobrem os canteiros dos edifícios, me causando uma sensação agradável, mas meus pensamentos, estão agitados como um furacão. Com grande esforço consigo ordenar alguns poucos, e repasso mentalmente as orientações da terapeuta. Meu coração, bem mais acelerado que o normal, prenuncia um ataque de pânico. Aceitei a alta, agora tenho que ser forte. Sempre soube que nunca fiz ou farei algo de imponente na vida, nunca construirei monumentos ou catedrais, mas acabar com as conquistas acumuladas com muito custo nesses anos de terapia, seria como assumir a continuidade do trabalho de Jack Estripador, em mim mesma, repetidamente. Continuo a caminhar por mais duas quadras, e não conseguindo controlar a respiração me encosto no grande paredão de cimento cinza que está à minha frente. Fecho os olhos, na tentativa de retomar a lucidez. Tento respirar lentamente, uma, duas, dez vezes, sem sucesso. Ainda imóvel, com os olhos fechados, encostada na segurança do paredão que não me engole, lembro da técnica de visualizar uma praia deserta, o mar, as ondas – qualquer coisa que me traga um pouco de estabilidade. De repente sinto a respiração retomar seu ritmo normal, sinto meus batimentos desacelerando, acredito que sobreviverei por mais 30 minutos, tempo suficiente para eu chegar em casa. Retomo o trajeto que idealizei por quase uma década, e com passos apressados num ritmo fora do normal, levanto a cabeça e me torno alheia às pessoas que passam por mim. Sigo em frente sempre, vez ou outra os transeuntes esbarram em meus braços, agora trêmulos. Retomo a confiança de 15 minutos atrás, a mesma que me fez sair de cabeça erguida do consultório, continuo a andar. Só penso em Denis, em Giovanna e o quanto quero lhes falar, dizer que me sinto livre depois de uma vida inteira de autoflagelo. Quero estar em casa, estar pronta para seguir, reconstruir nossas vidas de onde paramos. Percebo o movimento frenético das pessoas aumentar repentinamente. Parecem estar com algum tipo de ânsia, vejo o céu escurecendo e todos fugindo da possível tempestade que se aproxima. O vento aumenta sua velocidade fazendo com que folhas e flores rodopiem em todas as direções, num balé frenético, descompassado, mas hipnotizante. Fico tonta só de olhar, sinto meu corpo girar junto com as folhas; o vento está bem mais forte, não mais exala o odor agradável dos jardins, mas sim de fumaça e terra. Parece que estou levantando voo, meus pés mal tocam o chão, só consigo me concentrar em chegar em casa, preciso contar-lhes que tudo acabou, que estou livre. Os primeiros pingos da chuva tocam minha face e, desorientada com toda a agitação das pessoas, percebo que estou perdida, tranco a respiração para manter a calma e sinto alguém me segurar pelo braço. Adélia me seguiu até ali, ela olha firmemente dentro de meu pânico e me conduz até seu carro. Adélia é uma mulher negra, alta e magra, dona de um porte intimidador, mas seguro, também é dona do poder de transformar realidades, principalmente as doentias. Ela é a responsável por me fazer acreditar na capacidade de superação que todos carregamos. Com sua ajuda, em poucos minutos, me encontro parada na portaria de meu prédio. Procuro sem pressa a chave em meus bolsos, até que as encontro inesperadamente em minhas mãos. Permaneço parada por mais algum tempo, tomo coragem e rumo para o saguão. Aperto com as mãos trêmulas o botão do elevador, mas desisto, procuro a porta que leva às escadas. Subo os treze andares e percebo que pouco restou para me impedir de enfrentar o que está atrás daquela porta. Subi com meus próprios pés aqueles treze andares, e dependo deles para chegar até o topo. Quando giro a chave e abro a porta, o tempo volta a correr e me deparo com minha imagem refletida na vidraça — uma mulher frágil com as mãos amarradas. A realidade me assalta e por trás dos vidros vejo Giovanna com seu vestidinho branco, bordado, enfeitado como de uma princesa, linda!, perfumada, sandálias sem meia, como sempre. Há quantos dias não contava o tempo? Por que entregar-se a um hábito sem perguntar a razão? Entre um momento e outro de lucidez lembro que estou ali para uma rápida visita. Ainda apoiada no batedouro da vidraça, os flashs das imagens do corpo de Denis no chão me roubam o momento. Ouço o arrastar de adeus dos pés de Giovanna, com grande esforço olho mais atentamente e vejo Adélia parada ao meu lado. Já é hora de retornar para a cela.

 EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA