segunda-feira, 15 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 279 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

278

Quando, do corpo macerado pelos afagos do tempo, evolam os últimos resquícios de promessas verdes, no recanto mais esconso dos céus nascem nuvens grávidas de dor e lágrimas.

As gaivotas do pensamento, sobressaltadas pela premonição de uma aguda tempestade, guincham maus agoiros enquanto enterram os seus pousos nos grãos de massa cinzenta, como quem procura refúgio em porto seguro.

A chuva empedrada, capaz de romper a macieza do mármore, asfalta a praia da razão com dúvidas e uma película esbranquiçada desregula o raciocínio lógico.

Sem lua nem marés para dominar a intempérie da mente, o eixo do mundo desintegra-se e o corpo fica à deriva, entregue ao capricho da fortuna aleatória.

Resta esperar que alguns raios de lucidez consigam romper a densidade dos cúmulos sujos e iluminar um novo caminho, com menos obstáculos debilitantes.

EMANUEL LOMELINO

Cuidados ayurvédicos na menopausa (excerto 2) - Mira Pechirra

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Segundo o Ayurveda, esta é a fase vata da vida – em que o corpo tem uma tendência para acumular mais dos elementos ar e éter dentro de si, podendo surgir sintomas como afrontamentos, dores articulares, retenção de líquidos, ansiedade, perturbações do sono, alterações digestivas, perda de memória, irritabilidade, fadiga etc. Quanto mais desequilibrado o corpo estiver, mais pronunciadas são as flutuações hormonais que ocorrem nesta fase. Em equilíbrio, esta fase poderá ser o início de uma maior conexão com nossa criatividade, intuição e consciência. O climatério é, assim, um processo gradual, uma janela de oportunidade para que, nos próximos anos, possamos rejuvenescer o corpo, a mente e as emoções através de um estilo de vida e rotinas diárias saudáveis que incluem plantas e terapias de autocuidado.

EM - CONVERSAS MADURAS - COLETÂNEA - IN-FINITA

Lagoa dourada (excerto 1) - Maria Aliender

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Era uma vez... Lá pelas bandas do Maranhão, vivia um jovem casal loucamente apaixonados. Ela, morena cor de jambo, miúda e compacta com cabelos negros feito a noite escura do sertão, seus olhos pareciam duas estrelas cintilantes, seus lábios rosados e úmidos igual as astromélias revolutas respingadas do sereno da madrugada. Ele viril, loiro com os olhos azuis igual o céu de puro anil, com lábios naturalmente carnudos, moço honesto e traba- lhador, porém de família pobre que com certeza aos olhos do pai da moça não lhe seria um bom partido. Viviam o mais lindo dos romances já visto naquele povoado, um completava o outro feito o fogo e a faísca, a abelha e o mel, a flor e o beija-flor. Como o namoro era secreto e movidos pela chama ardente de um amor verdadeiro, mal podiam esperar o domingo chegar para então se encontrarem a tarde no campinho de futebol onde os homens jogavam e as mulheres torciam. Entre uma partida e outra, o casal trocava beijos quentes regados por juras de amor eterno. Juntos imaginavam serem os donos do tempo, pois este parecia parar para contemplar o amor dos dois.

EM - ENTRE ROSAS, TUIUIÚS E BONECAS DE MILHO - ELI COELHO, MARCOS COELHO, MARIA ALIENDER - IN-FINITA

domingo, 14 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 278 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

278

Sempre que mordo as palavras por dizer, falece-me o apetite de ser e fico a mastigar húmus e raízes desidratadas.

A cada frase mal proferida, expira-se-me a resistência à solitude, num abraço autofágico embrulhado em conformismo.

Pereço-me, sobretudo, nos episódios de excessiva sensibilidade autoimposta por altruísmo bacoco.

Desencarno-me a cada oblíqua troca de razões em que predominam lugares-comuns e frases feitas.

Sucumbo-me nas alvoradas indiferentes e nos pretextos crepusculares.

Fino-me na ausência de aceitação aos detalhes básicos em detrimento da grandeza fútil.

Feneço-me pela cegueira táctil à necessidade de eremitismo pontual e meditativo.

Apesar de tudo isto, o silêncio não anuncia a minha morte porque tenho morrido sonoramente vezes sem conta, tantos são os estertores lamentosos como trovões.

EMANUEL LOMELINO

Na sombra da culpa (excerto) - Luís Vasconcelos

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Querido leitor, se me é permitido, gostaria de fazer uma pequena observação relativamente a este texto. O abuso espiritual é uma realidade no místico mundo religioso.
Não pretendo ser o juiz da fé que cada um de vós poderá, muito legitimamente ter. A prestação de culto religioso é um direito absoluto consagrado na nossa Constituição.
Eu apenas pretendo partilhar consigo as minhas vivências e experiências pessoais na minha interação com a religião., mais concretamente com um sentimento de culpa obsessivo por ela despertado em mim e as nefastas consequências que teve na minha vida durante quase 40 anos. É simplesmente uma perspetiva pessoal do que considero fanatismo religioso e a forma como pode afetar profundamente mentes mais suscetíveis, frágeis e vulneráveis.

EM - COMEÇAR DE NOVO - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

sábado, 13 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 277 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

277

Quando o gerador de palavras fica entupido pelo espírito rebelde da ociosidade, olho para os livros adormecidos nas prateleiras e tento adivinhar o que cada um dos seus autores faria para desimpedir o estro. Então a loucura infiltra-se nos meus neurónios preguiçosos e sai algo como isto:

A filha do capitão (Púchkin), alertada pelo Doutor Jivago (Pasternak), soube que alguns humilhados e ofendidos (Dostoiévski) cheios de orgulho e preconceito (Austen) – os miseráveis (Hugo) -, tal como Ulisses (Joyce), viveram uma odisseia (Homero), numa das viagens à minha terra (Garrett), só comparável à tragédia da Rua das Flores (Eça).

Essa gente singular (Gomes), dotada de um dom casmurro (Assis), alcançou a libertação (Márai) quando a mãe (Gorki) de Síbila (Agustina) os acolheu na loja de antiguidades (Dickens), onde só o sangue cheira a sangue (Ahkmátova) e o mito de Sísifo (Camus) leva a cem anos de solidão (Márquez) numa jangada de pedra (Saramago).

A pérola (Steinbeck) desta história foi a mensagem (Pessoa) encontrada em casa de uma família inglesa (Dinis) onde foi revelada, à dama das Camélias (Dumas), a queda de um anjo (Camilo), em 1984 (Orwell).

A história termina aqui porque Anna Karenina (Tolstói) pôs-se a falar com Madame Bovary (Flaubert) sobre El-Rey Junot (Brandão) e as minhas artérias ficaram desobstruídas.

EMANUEL LOMELINO

A qualquer hora da noite (excerto 9) - Geórgia Alves

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Quando tudo para diante dos olhos de Cora, Jaú está de costas, ambos diante da porta do quarto de frente ao mar. Cora abre um segundo os olhos antes tão bem fechados e vê sepulturas. Sim, ondas batendo sobre lápides ao expor ossos. Jaú só para ao ouvir em seu ouvido, baixinho... 
– Ossos? – Ouvi errado. Pensou ele. 
É delírio. – Cora quis afastar a visão.

EM - A QUALQUER HORA DA NOITE - GEÓRGIA ALVES - IN-FINITA

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 276 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

276

Ah, a poesia! Essa meretriz, meiga, terna, despreconceituosa e solícita, que se abre, apaixonadamente, a todo e qualquer entendimento, sem olhar a condições e proveniências, com a necessária dose de lascívia e volúpia para provocar os mais intensos e epifânios orgasmos mentais.

Ah, a poesia! Essa mestre-escola do pensamento universal e multidisciplinar, que filosofa, como um engenhoso e mecânico caleidoscópio holístico, sobre a química geográfica da biologia física (ou transcendente), e arquitecta conceitos éticos e metafísicos para a arte quântica, com precisão matemática, por ser, ela própria, ângulos e vértices da geometria do conhecimento.

Ah, a poesia! Esse paliativo catártico que regula os batimentos cardíacos dos sentidos, eliminando a palidez da existência com as cores mais fulgentes e os brilhos menos ofuscantes.

Ah, a poesia! Esse opiáceo multiforme que, depois de ser injectado nos olhos, corre pelas veias do raciocínio transformando todas as sombras em lucidez vertiginosa e permitindo as viagens mais alucinogénias pelos labirintos da razão, porque tem na sua fórmula estímulos anticoagulantes.

Ah, a poesia! Ah, a poesia!

EMANUEL LOMELINO

Educação (excerto) - Renata Campos

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Ninguém nos ensina na escola sobre as substâncias que aplicamos perto de nossas glândulas mamárias. Usamos desodorante desde a adolescência até a velhice, a maioria contendo alumínio (um metal tóxico que pode causar danos desastrosos), isso sem falar no triclosan, um antisséptico que propicia a resistência bacteriana. Seguimos com parabenos (conservante) e os ftalatos que levam à desregulação de hormônios e ao câncer de mama.
O índice de aumento das doenças autoimunes e câncer nas mulheres vem crescendo. Muito se deve a um maior contato com toxinas vindas dos cosméticos. Deveríamos ter na escola uma matéria para as meninas sobre a saúde do adolescente, para que elas se capacitem com informações que permitam escolhas mais seguras.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

quinta-feira, 11 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 275 - Emanuel Lomelino

Imagem cml

Diário do absurdo e aleatório 

275

A irregularidade das calçadas condiciona as passadas nos labirintos tricotados pelas sebes e árvores das praças e os bancos de madeira, envelhecida pelos dias, esperam com paciência os leitores de jardim e alimentadores de pombos.

Os pintassilgos sobrevoam a azáfama das formigas ao som do violinista que silencia as ociosas cigarras. Num ramo altivo, berço de densa folhagem alaranjada, dois olhos de esquilo perscrutam os canídeos que passeiam, pelas trelas, os donos hipnotizados pelos pixéis dos ecrãs iluminados.

Nas águas barrentas, dois cisnes flutuam a atenção na família de patolas que se refugiou no centro do lago, fora de alcance do atrevimento de um infante trôpego, incentivado pelos risos histéricos e babados dos progenitores.

E tudo isto é embrulhado por ciclistas, trotineteiros e patinadoras, de calções curtos e justos, que não querem destoar do equilíbrio da paisagem nem diferenciar-se dos caminhantes e corredores de circunstância.

EMANUEL LOMELINO

Família Brasil - JackMichel

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Era proprietária de muitos hectares de terras dominadas por grandes plantações de cana-de-açúcar. 
A família propriamente dita era constituída pelo zeloso papai Lineu Brasil, pela carinhosa mamãe Apolônia Brasil e pelo poeta tio Tomás Brasil; isto é, sem contar com a fiel escrava Benedita apelidada “Benê”, que era também mucama e cozinheira. 
Quanto ao membro principal da família, que era a “menina dos olhos” de todos... isso é um outro capítulo!

EM - NA CORTE DE MADAME ARANHA - JACKMICHEL - IN-FINITA

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 274 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

274

Quando o génio entra de férias, supostamente vitalícias, e as incertezas perdem terreno para a indiferença, eis que as adversidades mexem os cordelinhos e encontram sempre uma solução para se fazerem sentir, em todo o fulgor da sua inconveniência ácida.

Quando os caminhos ficam leves e consegue-se percorrê-los em ponto-morto, sem necessidade de gastos extra em esforço e desconforto, e as nuvens parecem querer revelar o brilho azul do céu diurno, eis que o fado arranja sempre um jeito de ser dedilhado tempestuosamente na paleta cinza e íngreme da sorte madrasta.

Quando o sossego é um voo planado, sereno e tranquilo, ao sabor de brisas camaradas, e os horizontes são balsâmicos na sua extensão, eis que Zéfiro acha sempre uma forma linear de boicotar a contemplação mansa das searas e sopra rajadas opacas de vinagre e absinto gelado.

Quando a vida parece lubrificada e tudo corre sobre rodas, eis que as pedras apelam ao deus dos seres inanimados e poluem as engrenagens da esperança, substituindo a mansidão pelo caos, a calmaria pela desconfiança, a paz pela teoria das cordas.

EMANUEL LOMELINO

Cuidados ayurvédicos na menopausa (excerto 1) - Mira Pechirra

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Viver o climatério com o conhecimento ayurvédico é uma libertação dos condicionamentos e limitações de uma sociedade que vê o envelhecimento como um processo de deterioração física e mental. Segundo a medicina ayurvédica, o climatério ou a perimenopausa não é mais do que um período de mudanças físicas, mentais, emocionais e espirituais, no qual a natureza direciona a mulher a recolher-se ao seu íntimo. É um período de reflexão e revisão de valores, objetivos, conceitos. A mulher passa a usufruir da sua sabedoria, que passa a ser partilhada, de forma livre e despreocupada, afetuosa e bonita, sem preocupações e limites, com a família e comunidade.

EM - CONVERSAS MADURAS - COLETÂNEA - IN-FINITA

Um pingo de amor (excerto 2) - Maria Aliender

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O final de semana passou rapidamente e o homem voltou a puxar a safra, mas não exatamente naquele lugar, porém uns co- legas também caminhoneiros o mandaram mensagem e fotos do gatinho e disseram que ele havia voltado. Foi então que um des- ses colegas veio para a cidade e Léu pediu para que o trouxesse e entregasse para a sua esposa que mal podia esperar. Por falta de embalagem para o transporte, o puseram em uma caixa de veneno com alguns furos e o trouxeram em cima da carroceria de uma camionete e imagino que se fosse escrever um diário do percurso e daquele dia e dos demais que viriam, ele escreveria assim: Querido Diário, estou em um lugar escuro, balança muito, tenho enjoos, estou com medo, pois não sei pra onde vou. Por que aquele homem que me tratava não vem me resgatar?

EM - ENTRE ROSAS, TUIUIÚS E BONECAS DE MILHO - ELI COELHO, MARCOS COELHO, MARIA ALIENDER - IN-FINITA

terça-feira, 9 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 273 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

273

Abençoadas alvoradas, e finais de tarde, em que ofereço a mim próprio alguns momentos de lazer e mato o tempo com estes exercícios de escrita, despretensiosos e sem compromisso.

São instantes que, na minha redoma de silêncio autista, permitem libertar-me dos grilhões de um fado odiado, que me consome e intoxica até ao tutano, e dão-me alento para tentar recuperar a sanidade que me foge todos os dias; a cada segundo, a cada expiração, a cada piscar de olhos.

Por mais absurda e obsessiva que esta rotina possa parecer, embrenhar-me na construção de textos aleatórios e isentos de literariedade é tão regenerador como respirar oxigénio puro para expurgar os venenos ingeridos na poluição dos dias.

Para desgraça já me chega a degeneração física natural da vida.

EMANUEL LOMELINO

Balneário ao rubro (excerto 2) - Luís Vasconcelos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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“Deixa-te ficar aqui sossegado. Eu vou chamar o professor Matos uma vez mais sublinho que a escolha dos nomes é aleatória, ou talvez não!).). Tem de ser ele a resolver isto. Não te preocupes, eu desço já com ele!”. Por momentos respirei de alívio. O professor Matos era quem dava aulas de educação física à minha turma. Também ele era conhecido por ser extremamente duro e exigente. não admitia faltas de respeito ou indisciplina nas suas aulas. Os minutos pareceram horas. Finalmente ele chegou: “Luís, conta-me o que se passou?” Eu olhei para ele, ao mesmo tempo, com ar de súplica e de raiva. “Expulsaram-me do balneário dos rapazes.

EM - COMEÇAR DE NOVO - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 272 - Emanuel Lomelino

Imagem folha

Diário do absurdo e aleatório 

272

Deambulando pelos trilhos da irrealidade, onde os céus alaranjados são rasgados pelas asas de criaturas fantásticas, mas nada aladas, as pedras sussurram peregrinações e as flores espirram alergias a cada gota de orvalho.

Os caminhos são percorridos em marcha lenta, quando não em ré, tal como as águas dos rios que fogem das tropelias dos oceanos grávidos e se infiltram nas margens salgadas pelo suor de sargaços em crise de identidade.

As árvores dos pomares têm os ramos entrelaçados e os abelhões de barro esculpem castanhas piladas no coração das trepadeiras para que as formigas de barriga vazia encham o bandulho antes que a orquestra de cigarras, grilos e pirilampos inicie mais uma demonstração psicadélica de artes conjuntas sem fins lucrativos.

Assistindo a toda esta cornucópia de absurdos, como uma criança a olhar um caleidoscópio, está um homem, armado até aos dentes, que se perdeu quando tentava encontrar uma espingardaria para se abastecer de munições a tempo do início da próxima guerra.

EMANUEL LOMELINO

A qualquer hora da noite (excerto 8) - Geórgia Alves

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Finalmente. Os desejos coincidem. Ele retribui o beijo. Seu corpo é grande, mesmo para o dela, ambos andam pesados por estes dias. Por isso procurar pelo reencontro em Pedras Ternas. Aqueles dias seriam dias de reencontro. Enquanto a abraça, Jaú lhe beija os olhos, já estão, a esta altura, bem fechados, e os corpos passam a se mexer ao som do vai-e-vem das ondas. É o que parece ser.

EM - A QUALQUER HORA DA NOITE - GEÓRGIA ALVES - IN-FINITA

domingo, 7 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 271 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

271

Estou cansado das primaveras atrasadas, com flores estéreis e sem cor, espargidas de aromas inodoros. Prescindo dos favos de mel acerados pelas obreiras, sem solas nem décimo terceiro, e dos tijolos de milho prensado pelas ferraduras desenxabidas dos asnos-rei, também conhecidos como vendedores de banha-genérica – porque a banha da cobra já não compensa.

Não quero mais esperar pelas marés de lua cheia nem pelo rodopio vertical das andorinhas acrobatas, em fins de tarde sem pôr-de-sol. Tampouco me interessam os aprendizes de Fernão Capelo, ou versões “pimba” das fábulas, onde lebres e cágados são personagens isentas de fiabilidade.

Cansei-me de todas as histórias inundadas de lugares-comuns e de oásis com palmeiras virtuosas, dromedários adormecidos, e odaliscas vergadas ao império do silicone. Já não tenho pachorra para evangelizações discursivas e esgotei a paciência nos testemunhos dos criativos de ponto cruz e bombazina.

Até os hálitos de menta e tomilho fumado deixaram de perfumar o ar que respiro, assim que estendi a toalha da fadiga e liguei a ventoinha de incenso.

Abdiquei do estéreo e voltei a mono.

EMANUEL LOMELINO

Solidão (excerto) - Renata Campos

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A solidão chega sem pedir permissão, se instala em nossa alma nos momentos mais diversos. Como podemos ajustar esse sentimento durante nosso processo de envelhecimento? Chegamos a um momento de vida em que passamos cada vez mais tempo sozinhos e olhar para um novo aprendizado, conectar-se com novas oportunidades pode ser a chave que abre a porta de saída.
A vida é a história que escrevemos todos os dias. Em certo capítulo, as crianças crescem e se vão, os laços afetivos do casal sofrem ajustes e em alguns casos, se quebram, chegando ao divórcio ou à viuvez. Diante de qualquer acontecimento, ela não para, e o cotidiano continua girando com dias de sabor doce e outros amargos.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

sábado, 6 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 270 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

270

Olho as rugas do espelho e os brilhos solares trespassam a íris cega e irreconhecível, tornando qualquer imagem uma sombra esguia que recusa os holofotes da realidade.

Há minerais baços por detrás de cada bafo gelado e as narinas são crateras que expelem geiseres esquentados na tremedeira involuntária, de um dorso retraído e enrolado sobre si, consequência natural de mais uma morte.

Há um luto dermatológico acompanhado pelas fanfarras, nada jazzísticas, dos acordes doloridos que brotam de cada escara mal cicatrizada. As manchas avermelhadas são mapas temporais dos golpes infligidos ao ritmo da descrença, do desapontamento, do conformismo masoquista e da submissão arbitrária de todos os sentidos.

Não há verde que reanime o âmago nem andorinhas a anunciar uma nova primavera. Há caducidade em todos os poros salinos e um breu que apregoa futuras finitudes.

EMANUEL LOMELINO

Fazenda União – 1868 - JackMichel

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Era um belo casarão construído ao estilo antigo, cujo possuía gravado em sua fachada o pomposo ano de 1868. 
Nele havia varandas... escadarias... salões... quartos... cozinha... engenho... roda d’água... porão... pomar... jardim... 
Bem... quanto à família que nele morava... isso é outra estória! 

EM - NA CORTE DE MADAME ARANHA - JACKMICHEL - IN-FINITA

sexta-feira, 5 de abril de 2024

Diário do absurdo e aleatório 269 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Diário do absurdo e aleatório 

269

Pulquéria acordou com um cadeado de remelas a prender-lhe as pálpebras e uma bigorna pousada na cabeça. Proferiu dois jargões cabeludos que lhe feriram os tímpanos como se os sinos de Notredame estivessem hospedados nos seus ouvidos. Rangeu os dentes, que lhe pareceram poluídos de poeira, e repetiu os impropérios, desta vez só em pensamento para que as badaladas não se repetissem.

Todo o corpo alertava para um forte aumento da força gravitacional que a prendia ao seu leito, onde nunca tinha sentido tamanho desconforto. Tentou mover-se em vão. Só os dedos respondiam aos comandos do seu cérebro descompensado. Por mais que tentasse, não conseguia alcançar a lucidez de raciocínio que a ajudasse a compreender as razões para uma revolta corporal tão intensa. Essa circunstância só aumentava a opressão que sentia no peito, quase no limite do necessário para a existência de respiração – uma espécie de claustrofobia (algo de que nunca padecera).

Para agravar a ansiedade, havia um silêncio absurdo que só era quebrado por uma goteira longínqua e um expressivo cansaço que a puxava, invariavelmente, para sonos picotados, dos quais despertava com a sensação de ter escutado uma voz murmurar: - Está aí alguém?

Na dúvida, entre estar presa num sonho mau ou a perder a sanidade, Pulquéria respondeu: - Estou aqui! – O esforço despendido empurrou-a, mais uma vez, para um sono forçado.

Quando voltou a despertar, tinha um pano húmido sobre o rosto e sentiu que o seu corpo flutuava aos solavancos. Gemeu e ouviu uma voz masculina, firme mas tranquilizadora: - Está tudo bem!

Ainda não sabia, mas tinha sido a única sobrevivente da derrocada da residencial, onde estava hospedada desde o início da semana. Que rica maneira de começar as férias.

EMANUEL LOMELINO