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quinta-feira, 30 de maio de 2019

DÉCIMA SEGUNDA DEMÊNCIA (excerto II) - JOÃO DORDIO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Tu nunca soubeste, mas eu sempre te abracei devagar, devagarinho...
Apertava-te tanto... tanto, mas sem te sufocar! E sem tu sentires
porque estavas longe, apesar de estares ali... ainda... ao pé de mim...
Sempre desabafei todo o género de coisas contigo. Umas vezes
devagar, outras vezes devagarinho. Umas vezes entre estas linhas
cinzentas sempre tão direitas, mas que nunca conseguiam impedir
que as letras ficassem tortas. Outras vezes desabafava em silêncio
no beijo que se perdia no sonho ou num delírio, pelo líquido daquela
garrafa de vinho...
Ai, quando eu morrer e fechar os olhos pela última vez, assim
devagar, muito devagarinho... ainda vou escrever uma última vez,
talvez a última das mil vezes, que sempre te amei e te tive nas letras
que escrevia! Até na última! Até no ponto final!
Porque, na verdade, o coração já bate hoje devagar, muito devagarinho.
E quando deixar completamente de bater, irei partir.
Outra e outra vez contigo - mil vezes! - como eu sempre escrevia!...
Mas agora, meu amor, somente debaixo do braço de quem nos
levar em forma de letras num bairro de casa velhas de paixão em
forma de livro...

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

sábado, 25 de maio de 2019

DÉCIMA SEGUNDA DEMÊNCIA (excerto I) - JOÃO DORDIO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Há um sacrifício de alma sem tempo, sem cronologia, que fala
de rituais de saudade, de anjos perdidos, mas poderosos, e histórias
de paixão.
Há um sacrifício de recolha de memórias. A alma fica como
guardadora de letras porque há um rebanho de frases. Um rebanho
cada vez maior na quinta-livro...
Não me apetece fazer nada sem ser respirar, mas ao respirar
faço-te tanto! Faço-te de tudo de letras! Peço ao céu e a todos os
deuses que, um dia, possa parar de respirar assim porque não quero
estar sempre a descrever o que sinto, como te sinto, como vives em
mim, como vivo contigo presente na tua ausência.
Há um rebanho de frases a passar e a pastar esta noite nos meus
cadernos. Há rebanhos como estes a passarem por todas as minhas
noites. Na quinta-livro...
Contar carneiros? Sou diferente e conto letras atrás de letras, à
frente de letras, a meio de letras. Peço apenas aos céus e a todos os
deuses que me levem um dia estes rebanhos...
Hoje soube pela demência que voltavas a ler comigo o que me
disseram para deixar lá em cima em forma de estrelas. Há um recado,
uma ordem, uma vontade, não sei. Nunca soube e duvido que alguma
vez venha a saber.

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

segunda-feira, 20 de maio de 2019

DÉCIMA PRIMEIRA DEMÊNCIA (excerto) - JOÃO DORDIO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Vai lá ver se a torneira está a pingar!

Pinga! Pinga! Pinga! Pinga! E eram mil linhas a escrever o mesmo,
que PINGA porque pingou o dia todo e a noite toda de todas as
semanas dos meses que completam o calendário de mim louco.

Pinga...

Ah, se visses e ouvisses e sentisses a água da torneira da respiração
e da recordação e dos momentos... ouvirias a pinga, pinga,
pinga! PINGA! Uma pinga que não pára! É terrível! É insuportável!
Olha o charco! Olha a poça! Um charco e uma poça de pingas!
Olha o mar de pingas porque o rio é pouco e porque no oceano já
pingou tanto, tanto, tanto! Tanto que a inspiração derrotou todos os
canalizadores e foi uma enxurrada de letras, palavras, frases, tudo
pingado! Pingadas pregadas depois ao asfalto e onde se ouvem os
gritos que milhares de poças loucas! E o que é uma poça louca?
Não sei definir concretamente, mas sei que eram muitas! Tantas!
Tantas! Tantas que se tornaram olhares mudos. Outras tornaram-se
olhares surdos e também visões surdas.

Pinga...

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

quarta-feira, 15 de maio de 2019

DÉCIMO PRIMEIRO ESCRITO (excerto) - JOÃO DORDIO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Era uma vez um voador...
Aquilo ali e aqui aos olhos do mundo era visto como um escritor,
mas ele voava...
- E tu? Voas?
Aquilo ali e aqui eu... coloca-se em vida das letras e passamos a
ser tudo! Em todos os locais com tudo o que se quer!
Hoje é tempo de as letras acordarem e de eu vestir o fato mais
bonito que tiver no armário com ou sem gravata. Hoje é o dia
mais bonito para dizer entre o Sol e a Lua e o menino que anda de
bicicleta que o fato me fica bem com ou sem gravata e que eu vou
colocar mais tinta na caneta para ela se dispersar e perder por aí,
pelas formas mais pequeninas do alfabeto...
Hoje é tempo das formas pequeninas do alfabeto se organizarem
e acordarem o mundo para a minha instabilidade emocional ou
loucura mental. Vesti-me, por isso, com o meu melhor fato que
tinha no armário, com ou sem gravata, e fui para o jardim e para o
parque infantil da memória! A bola descansava e a bicicleta rolava
pelos caminhos mais estreitos, mas sempre arranjados em redor do
pequeno castelo de sonho, uma fortaleza necessária à imaginação...
Hoje é tempo de pescar e sonhar de fato numa gala engalanada
repleta de tabuleiros de comida pequena, mas muito saborosa...

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

sexta-feira, 10 de maio de 2019

DÉCIMA DEMÊNCIA (excerto) - JOÃO DORDIO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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“Mãos ao ar”, gritaste tu ontem – há bocado! – ou aos bocados
porque tu disseste também e logo a seguir que eu só assim poderei
acalmar. “Mãos ao ar”, disseste repetidamente enquanto respiravas,
aos saltos, o teu coração também estava aos saltos! E as palavras
a saírem pela mente! Sim, pela mente porque era tudo em pensamento!
Um discurso de pensamento alucinado!
“Dá-me tudo! Dá-me tudo de ti!”, sonhei novamente...
- Eu gosto tanto de ti...
Ainda te lembras...
Ou ainda me lembras...
“Mãos ao ar”, voltei a sonhar que disseste ontem. Ou há bocado,
bocadinho...
O assento era ao contrário. Era para me dares... para que me
dares um abraço ou para me devolveres todos os que guardaste
enquanto não me viste...
Dá-me! Dá-me já! Dá-me os abraços e os beijos que deveriam
vir a seguir!
Baixo as mãos porque não está aqui ninguém...
O discurso do pensamento demente terminou por momentos
e as pessoas que estavam e não estavam na praça desta demência
regressaram às sua vidas de não vida. Já sabem... elas não têm vida!
Não têm a vida delas nem têm vida na tua... porque não existe aqui
nada!

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

domingo, 5 de maio de 2019

DÉCIMO ESCRITO (excerto) - JOÃO DORDIO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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- Quando é que fazes anos?
- Não faço...
- Isso não é possível!
- Eu passei quase a fazer anos. É assim que comemoram todos
os que voam por dentro.
- Não estou a perceber...
- Eu também não percebo porque estás a falar comigo se não
está aqui ninguém...

Os poetas que voam por dentro não envelhecem porque, um
dia, alguém descobriu que se podia fazer um poema de quase aniversário.
Por isso, os poetas são eternos tal como são eternos todos
os seus escritos e todos aqueles que por eles foram lembrados, elogiados,
amados... E, assim, nasceu a paixão! Nascidas de um poema
de quase aniversário estão, igualmente, todas as musas sentadas...
a escutar...

O poema do dia dos meus anos tem todas as letras de todos os
outros poemas de todos os outros dias em que não faço anos. Tem
as mesmas letras, mas confundidas por outra ordem de mente, por
outro sentido de outro dia... porque o poema do dia dos meus anos
fica também lá atrás no olhar fixo do calendário que assinala que
a minha mãe, naquele preciso dia, há muitos anos, me colocou no
mundo. E eu fico ainda aqui muitos desses anos depois, a reunir e a
aconchegar as letras por todos os outros dias, mas particularmente
nas noites em que não são as noites em que faço anos. Porque ainda
há sempre aqueles escritos para fixar ao olhar de quem passa por
mim passados esses anos e passadas essas pessoas...

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

terça-feira, 30 de abril de 2019

NONA DEMÊNCIA (excerto) - JOÃO DORDIO

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Vinha a chegar...

Em todas as vidas estive a chegar quando o molde do corpo já
chamava por ti pelo passado. Eram só letras, mas dos lábios vieram
outros espaços de lábios que já não eram os meus espaços. O adeus
nunca chegou a entrar nos meus ouvidos. O adeus não veio a chegar...

Cheguei ao final da tarde à aldeia que me viu nascer. Sempre foi
uma biblioteca linda, com magníficas prateleiras de histórias que, um
dia, também lá chegaram. Nasci e ali viram-me também a chegar.
Certos deuses e demónios, certas fadas e duendes. Até dragões!
Nasci e viram-me crescer. Viram-me voar e chegar pelas nuvens.
As dos livros aos quadradinhos que devorava como oxigénio...
A luz de dentro das não-almas dos que sobrevivem apenas na escuridão
surpreendeu o mundo e a minha aldeia cresceu. Passo por
lá todas as noites a cumprimentar os meus fantasmas e os outros
seres das vidas apertadas que os prédios-livro obrigam a sofrer...
Parei de entornar letras absurdas pelas frases loucas quando
abandonei a aldeia. A biblioteca fecha cedo e como o triciclo tem
a roda torta e o acento desconfortável não quero chegar tarde ao
jantar. Não vejo a hora de crescer e viver o que tenho a viver num
corpo mais desenvolvido. Coloquei uma série de prédios-livro na
mala da escola e lá fui.
- És tu? Já em casa a esta hora? Não tiveste aulas?

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quinta-feira, 25 de abril de 2019

NONO ESCRITO (excerto) - JOÃO DORDIO

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A casa estava velha, mas vi-te à mesma nua pela sala!
- Pára de beber, Poeta!
Escuta...
A casa estava muito velha, com as paredes a precisarem de uma
pintura urgente, mas vi-te despida a passear à minha frente! A casa
estava velha, sem móveis e sem quaisquer adornos de decoração,
mas tu passaste... nua e bela, ali mesmo à minha frente!
A minha mente é uma casa velha onde a tua imagem renasce
em criança já com corpo de mulher - aquele corpo que me habituei
a abraçar e a possuir na paixão dos sonhos! - e com aqueles lábios
com o molde dos meus e com tantos gemidos!...
- É apenas mais uma garrafa que ficou vazia!
Cala-te! Não estás a ouvir os gemidos que inundam ainda a minha
casa velha?...

Hoje passeio pelos corredores da minha casa velha sempre abraçado
a ti. Coloco a toalha na mesa já sem haver mesa, coloco os
copos de ar para despejar a garrafa que também não existe...
Todas as noites faço um brinde na minha casa velha aos momentos
que ainda tenho contigo e cada vez que os escrevo, apaixono-
me novamente por esse corpo nu que não sai da frente dos
meus olhos! E cada vez que os descrevo, faço-o com uma caneta
velha que só sabe executar a sua missão num bloco velho onde o
negro da capa dá cor a todas as noites, nas tais noites em que só eu
me escureço...

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

sábado, 20 de abril de 2019

OITAVA DEMÊNCIA (excerto) - JOÃO DORDIO

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Os poetas nascem e morrem sem aprenderem a dizer adeus...
porque é sempre um até já. E isso já eu próprio deveria saber mesmo
sem ter conseguido alguma vez perceber... que é sempre um até já
para antes, para agora e para depois! Já deveria saber mesmo sem
aprender por outras vidas que é sempre um até já... e é e será sempre e
sempre assim foi... pois haverá sempre uma nova vida, reencarnação,
momento, recordação... onde tudo irá recomeçar sem memórias, sem
dor, mas com mais aprendizagens...
Não se dirá nunca adeus quando uma alma parte da vida de um
poeta porque, se de nós parte outra alma, sem uma asa pássaro
algum poderá voar...
É por isso que os poetas não dizem adeus. Nunca aprenderam
nem nunca aprenderão! Porque mesmo voando por dentro, também
eles caem sem essa outra asa.
No dia em que me devolver por momentos à normalmente, vou
comprar asas suplentes e manuais de adeus! Para acabar de vez com
isto tudo! Duvido que sirvam para alguma coisa, mas nem a eles
conseguirei também dizer adeus...
Porque levo tempo a morrer...

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segunda-feira, 15 de abril de 2019

OITAVO ESCRITO (excerto) - JOÃO DORDIO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Às vezes levo-te para sítios onde nunca estiveste e para onde me
voas...

Palavras! São palavras onde eu também... te voo...
Sabes que são só palavras ou talvez um respirar de vocábulos
libertados nestas folhas para alguém vir ler e conhecer! Ou então
ninguém...

Palavras! São palavras! São só palavras!

Palavras ou beijos e “rebeijos”, escritos e reescritos e rebuscados...
por vezes tão somente levados e “relevados”, trazidos de outras vidas
que se fizeram corpo nesta vida. São tudo... são este abraço, este
beijo, é tudo... tudo o que me dás sem nunca realmente me dares, é
tudo sem que nunca tenhas estado aqui porque, por vezes ou sempre
ou só agora... estiveste longe ou aqui comigo, ao destino em destino,
aqui ao lado e aqui em fado...

Palavras! São palavras da demência! São só... demências!

Abraço-te! E é tanto! E é tão tudo o que a respirar a dois nos
trás! Partilhar tudo no mundo só para ele também perceber porque
passaste a ser o oxigénio deste corpo suspenso!

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

quarta-feira, 10 de abril de 2019

SÉTIMA DEMÊNCIA (excerto) - JOÃO DORDIO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Em viagem comigo. Para me devolver.
Quando me devolvo à essência aparecem as perguntas...
Ontem perguntei-me como se colocariam as lágrimas de volta.
Será que existe alguma forma de as colocar para dentro? Por vezes
os poetas escrevem para colocar lágrimas em forma de letras, mas
ainda não conseguiram descrever como se colocam as lágrimas
para dentro.
Já não sairia poesia? Os abraços dados sem corpos passariam a
existir agora com corpos e sem letras inventadas?...
Perguntei aos deuses como é que se poderiam devolver as lágrimas.
- Não penses nisso e escreve! As lágrimas só têm um sentido!
Olhei para o bloco e acompanhei o caminho das letras seguintes.
As palavras e as frases realmente também só tinham um sentido.
Devolvi-me mais um pouco e continuei a viagem comigo.
Continuei à janela do “meu teu nosso” amor...
Estava à janela e tu também estavas no olhar que te lançava os
“meus teus nossos” olhos...
E estavas...
Estavas ao vento e tu vieste tocar-me na cara num “meu teu
nosso” toque disfarçado dessa brisa mais forte. Os cortinados abanaram
com o abraço invisível e eu saí...
Ao teu encontro!
Saí porque estavas no céu e esse céu é sempre o pensamento
de ti sobre ti em ti somente em ti. Pensamento “meu teu nosso”.
Num encontro das almas...

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

sexta-feira, 5 de abril de 2019

SÉTIMO ESCRITO (excerto) - JOÃO DORDIO



A maior parte das vezes estás à janela de todas as janelas. Mesmo
naquelas com varandas e varandins! Mesmo naquelas com quintais
e terraços!
A maior parte das vezes estás em todos os locais por onde passo
de carro e te observo na paisagem, aquela paisagem de mente e de
recordação e de saudade... nesta cidade que me vê nascer todos os
dias sem me conhecer. Nesta cidade de janelas para um mundo que
nunca foi o meu... e que também nunca poderá ser o teu porque...
tu também não és dele!
- Sabes onde deixei tudo isto escrito? Num pedaço de papel que
era a conta do supermercado e que tinha dentro do saco das compras.
E escrevi enquanto conduzia...
- Mas isso é perigoso! Porque não gravas no telemóvel?
- Só sei gravar no meu gravador de mente...
Vejo-te e sinto-te em tanta coisa. Depois consegues ficar em tão
poucas, disfarçada de letras pequeninas e tortas. Consegues... tanto!
Como é que consegues caber lá dentro? Como é que o lá dentro é
tudo contigo e connosco? Como é que pode passar o vazio sem nós?

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

sábado, 30 de março de 2019

SEXTA DEMÊNCIA (excerto) - JOÃO DORDIO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Mesmo quando me deito sem ti adormeço sempre contigo. Sinto-te
no respirar e consigo abraçar-te no espelho da minha loucura cujo
reflexo acaba por ser o conjunto de letras que dão as palavras que, de
tão juntas que estão, fazem as frases da nossa vida em livro de Paixão!

Mesmo quando escrevo sem ti, quem for ler, sabe que lá estás!
E eu também estou... contigo!

O líquido a escorrer toda a noite pela garganta enquanto te vejo
sem corpo... numa espécie e forma e demência de barco e mar revolto,
mas as tempestades oceânicas na minha cabeça só sabem
afundar barquinhos de papel de letras!
Sabes, meu amor, o barquinho de papel de letras da minha tola
inspiração foi ao mar da água de vocabulário buscar peixe, ilhas e
algumas sereias. E que tempestades encontrou!
Nessa tempestade veio também o vento e o sabor a ti que a musa
deixou na pata direita da gaivota mais maluca que por ali passava,
aquela que sonha em ser pombo de correio! Todos sabem qual é!
Mas o barquinho, no final, atracou...

Do meu barquinho de papel saíram as letras para te contar como
te gosto no tudo...
Mesmo no tudo do líquido e pelo líquido da garrafa com que
também te abraço...

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

segunda-feira, 25 de março de 2019

SEXTO ESCRITO (excerto) - JOÃO DORDIO

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Não tenho fome de sono. Por isso, percorro todas as noites este
caminho solitário com o casaco da insónia de escrever pela escuridão...
embora o candeeiro esteja sempre ligado. E hoje e esta noite
e mais esta noite, a juntar a todas as outras, vou ligar-me a todas
as letras e a tudo aquilo que elas consigam descrever. Sempre sem
fome de sono, mas esfomeado pela saudade, pelas memórias que
se fazem passar por mim disfarçadas de oxigénio. Enquanto que,
agasalhado pelo casaco da insónia, continuo sem fome de sono pela
noite dentro de todas as noites.
Não tenho fome de sono! Não tenho! Não tenho fome de sono,
mas vivo esfomeado de ti! Dos teus dias de ti comigo, esfomeado
do teu olhar, do teu abraço, dos teus beijos...

Ah, a fome dos teus beijos e do quente do teu abraço com o
corpo a escaldar! Mas continuo sem fome de sono...

Deitado acordado, parado a andar pela cama, a voar pelos delírios
que as letras fingem saber descrever. Hoje, nesta noite sem
fome de sono, sou dono de todas as coisas loucas que a saudade me
vem servir numa bandeja repleta de linhas que a caneta - essa está
sempre cheia de fome! - percorre sem saber parar.
Por estes caminhos tormentos de estados e estradas de emoções
aprendi a devolver-me. Sem fome de sono pela noite das minhas
noites loucas...

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quarta-feira, 20 de março de 2019

QUINTA DEMÊNCIA (excerto) - JOÃO DORDIO

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Tenho tantos olhares, abraços e beijos para te dar...

Ontem trouxe-te a ver todos os olhares, abraços e beijos e passeios
de mão dada que camuflei em milhares de letras, palavras e frases
nesta biblioteca de momentos, desejos, saudades e memórias de ti.
Ontem trouxe-te aqui para que visses e confirmasses que a minha
própria respiração ou o simples piscar de olhos levam essas mesmas
letras, essas mesmas palavras e essas mesmas frases que definem um
sentimento que mente e coração fazem explodir e espalhar nestes
livros... que não são livros...
Já te disse...

São os momentos em que somos!
São os desejos em que nos deliciamos!
São as saudades quando nos afastamos!
São as memórias do que fizemos e queremos repetir!

Nestes ou noutros corpos! Nestas ou noutras vidas que teremos...

Ontem pensei ainda mais em ti só para te trazer aqui. Ao meu
mundo... aquele mundo solitário dos poetas que sabem voar...
- As coisas que tu sabes!
As coisas que eu sei e as coisas que invento para me devolver...
Estava agora a juntar as letras para dizer tudo e veio tudo porque
vem sempre tudo quando agarro a tua mão. Lá do longe... Porque
vem sempre tudo no copo derramado duma inspiração parva que
bate à porta sem haver porta e se assoma à janela sem haver janela
porque a casa de mente fica longe e em lado nenhum!

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sexta-feira, 15 de março de 2019

QUINTO ESCRITO (excerto) - JOÃO DORDIO

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Fiquei assim aqui... assim, mil anos nos mil beijos que a ternura
me levou a dar-te assim aqui... assim, apaixonadamente porque só
quando se fica assim aqui... assim, nas letras é que é mesmo paixão!
Assim aqui... assim, loucamente sem olhar a comentários ou reparos
que assim aqui... assim, nunca terão efeito. E sabes porquê,
meu amor?
Porque assim aqui... assim, tão abraçados nas letras que te dedico
nada mais cabe sem ser os mil beijos que cada olhar no meu olhar
te leva. Um olhar assim aqui... assim, a modos que hipnotizante...
Mas deixa lá, meu amor...
Assim aqui... assim, beija-me novamente! Tu agora mil vezes só
porque me leste e percebeste que somos tudo em paixão e que cada
letra é mais um beijo louco!
Assim aqui... assim!
Beija-me porque somos aqueles loucos assim aqui... assim, sem
limites ou horizontes! E eu a adoro-te tanto, meu amor! Assim
aqui... assim!
E esta noite...
Não digas mais nada esta noite porque já tenho sem nunca ser
dono...
O teu sorriso!
O teu olhar!
O teu abraço!
O teu beijo!

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domingo, 10 de março de 2019

QUARTA DEMÊNCIA (excerto) - JOÃO DORDIO

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A gente quis. A gente que é da gente...
E só a gente é que sabe o que o eco que cada um traz e na mente
esse outro eco aquilo que nos abraços faz e...
Olha! É paixão! E a gente quis! E a gente quer!
Mais e mais e mais!

Passo a passo e cada passo é beijo! Cada olhar é orgasmo! Cada
caminho são abraços e ecos os tais ecos tão insuportáveis como
viciantes...
Olha! É mesmo paixão! Uma paixão daquelas que eu quis sempre
contigo e daquelas que tu sonhaste comigo e que os outros - aquela
gente! - não percebe como somos e como nos respiramos!

Olha!

Estamos aqui como a gente sempre quis! No beijo ou em letras ou
dentro um do outro sendo o eco do orgasmo e o grito pelos cabelos
que pelas minhas mãos são puxados nesta luxúria de prazer extremo!

Olha... sempre te quis!

E se eu aqui... me estivesse...
Era um tesouro encontrado!

Os olhares que ficam e que aberta a arca não se encontram letras
deste alfabeto para os explicar...

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terça-feira, 5 de março de 2019

QUARTO ESCRITO (excerto) - JOÃO DORDIO

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Fui de encontro ao teu abraço no final dos dedos, no agarrar da
mão, frente ao olhar, ao toque dos lábios nos lábios e língua entrelaçada
na língua e o teu abraço chegou...

Ele costuma chegar mesmo sem corpo...
Todas as noites...

Hoje com corpo, o teu abraço ficou para todos os outros dias
em que não estás estando afinal sempre... e a minha mente ficou
no teu abraço quente - a escaldar! - no dedo que percorre o rosto,
na mão que percorre os cabelos, nos lábios que percorrem outros
lábios e todas as partes do corpo que a imaginação não detém nem
controla...
Costumo habitar nesse corpo pelas casas do meu bairro de memórias...
todas as noites. A linha que não vês não pode ser cortada.
Enleia-se, dá nós, perde-se a ponta! E noutras vidas recomeça tudo
e ela volta a ligar-nos...
Um mensageiro vestido de inspiração colocou a minha mão a
escrever e a descrever abraços e eu fiquei por lá de encontro a eles.
Como Poeta que caminha com a caneta a fazer de sapatos e as folhas
do meu bloco a fazer de estrada. Por aí... pelas memórias do
meu bairro de mente...

Hoje queria apenas um abraço e um beijo teu...

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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

TERCEIRA DEMÊNCIA (excerto) - JOÃO DORDIO

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Há um bengaleiro que certas pessoas insistem em gabar e respirar.
Outras em vestir-se lá dentro. Não percebo como é que se vestem
naquilo que, à partida, já não tem futuro.
Ignorei o bengaleiro onde deixei tudo o que não me servia e que
já não me vestia. A rua onde moro não tem aquele teatro. O pano
desceu e o palco deixou certos atores a falarem sozinhos. O bengaleiro
foi ficando vazio porque a minha alma se foi enchendo de ti.

Trouxeste vida ao meu coração!
Deixei a sobrevivência naquele teatro e a sua rua acabou por ir
ficando distante!

Havia dois livros naquele teatro. O das reclamações e o que me
fazia a mim, a quem chamam de Poeta.. respirar. Quando o teatro
fechou, o vento trouxe os momentos e as experiências. Pelo meio
da ventania, o corpo foi seguir a alma e juntaram-se noutra rua.
Esta noite quero apenas vestir-me dela! Com ela! Por ela! No
fim, bato palmas e saio, mas levo o meu corpo, a minha alma, os
ecos e as sombras... tudo colado a ela! Cola-paixão! Muito complicado
e difícil de despegar! Impossível, ouvi sussurrar os deuses,
os anjos e os demónios! Confirmei no beijo. E fiquei-me.

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

TERCEIRO ESCRITO (excerto) - JOÃO DORDIO

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Como é que as letras se ouvem assim?
Como é que as letras se vão ouvir assim nas pautas?

Tormentos de pautas, abraços invisíveis, beijos que se transformaram
e ficaram como borboletas e flores de jardim! Lindos, eu sei
que lindos! Eu sei que... saborosos!
Sei que vêm pelos ouvidos já sem letras, já por notas em pautas
empurradas pela paixão!

Eu sei! Eu sei que sim!

Eu também sei que te adoro, mas continuo sem saber como é
que as letras se tocam assim sem chegarem a ti ou como é que as
letras vão gritar pelos silêncios daqui, dali, por todo o lado onde
aterrarem as borboletas e os cheiros das flores!

Posso saber se a tua barriga tem borboletas e cheiro a flores?

Como é que o coração não salta para fora do meu corpo? Tu acabaste
de chegar apesar de já estares aqui! Tu acabaste de trazer mil
borboletas e mil flores para o meu redor! Diz-me! Confessa-te e
confessa-me! Como é que o coração não salta para cima da mesa?
Depois observei melhor e estava de letras... de letras e mais letras!
Se encostares o ouvido às minhas folhas ouves o meu coração!
Tens dúvidas? Por agora escuta apenas e não faças barulho! Vou
aqui dizer-te em silêncio disfarçado de letras como é que sinto tudo
aquilo que, sem saberes, me faz viver!

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA