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sábado, 16 de maio de 2020

EU FALO DE... PRECONCEITO


Considero-me um cidadão português, mas um autor lusófono. No universo da escrita sempre manifestei esta forma de identificação porque acredito que a criação literária não tem nacionalidade. Do mesmo modo, acredito que existem valores que deveriam ser universais e defendidos com sabedoria.
Tenho um grave problema de tolerância para com quem é fraco de inteligência e não tem pejo em utilizar a sua pequenez intelectual através de argumentos bacocos que, por norma instituida, costumam receber aceitação generalizada.
Não nego que, infelizmente, ainda existem muitos problemas sociais alicerçados em preconceitos, mas nunca serei daqueles que aceitam a mesma acusação de sempre de ânimo leve. A existência de um preconceito não faz de mim preconceituoso.
Faço estas linhas porque, no seguimento do envio da recente newsletter da In-Finita publicitando o CONEXÕES ATLÂNTICAS V, uma das primeiras respostas que recebemos foi esta que agora passo a transcrever:

“Uma simples questão, a lusofonia está sedeada em Portugal e Brasil? Angola, Moçambique, Cabo verde, São Tomé, etc? Se promovem estes concursos de segregação e retração literária peço para que não mais me adicionem a plataforma. Não estou aqui a aplaudir as demais nações, eu também tenho que dar azo aos meus. E a arte é universal. Não tem lusofonia da esquerda e da direita. Ou seja para lusofonia, ou que seja para Brasil e Portugal.”

Feita a transcrição, poderia facilmente dissertar sobre ela, mas limitar-me-ei a transcrever também a resposta que dei, em meu nome e em nome da In-Finita:

Bom dia Fulano Tal, (Oculto o nome por razões de privacidade e para não ser acusado também de incitação a linchamento público)

Do conteúdo do seu e-mail só retiramos uma verdade "a arte é universal", tudo o resto é argumentação fraca de alguém que ainda não consegue ultrapassar estigmas caducos. Se a questão de admissibilidade a esta iniciativa estivesse manchada pelo preconceito que nos acusa, só aceitaríamos participantes naturais do Brasil e Portugal, mas felizmente existem muitos autores lusófonos, de outras latitudes, a residir nestes dois países, inclusive de Timor, Macau, Guiné Bissau e Goa que, vai-se lá saber a razão, para si são "etc". 
A única segregação aqui presente é que, na sua opinião, não se pode chamar lusofonia a algo que não abranja a totalidade da geografia lusófona. Neste momento, logisticamente, é impossível para nós dar esse passo, mas acredite, no instante em que tivermos essa possibilidade vamos fazê-lo. Então, sim, terá razões para nos apontar o dedo. E não será por preconceito, será por motivos pessoais. A nossa noção de lusofonia é mais cristalina que a sua e tudo isto seria evitável se utilizasse a inteligência no lugar de auto-vitimização. Se ler João Melo, Noémia de Sousa, Ondjaki, Mia Couto e outros não menos importantes, talvez ultrapasse esse seu estigma de inferioridade que não faz sentido algum.
Aceitamos de bom grado o seu pedido de exclusão da nossa newsletter.

Cordialmente 
Emanuel Lomelino

Para terminar este desabafo, volto ao início deste texto, em que falo dos valores universais, para dizer que aquilo que mais me chocou no e-mail que recebemos foi a falta de educação do mesmo. Nem bom dia, boa tarde ou boa noite, nem uma assinatura no final.

Enfim, se criar uma iniciativa de língua portuguesa, com normas e regras de acordo com as possibilidades que a In-Finita tem neste momento, é motivo para nos acusarem de preconceito, estejam à vontade. Resta-nos a satisfação de sermos orgulhosamente bem educados e de cumprirmos os pedidos que nos fazem para não serem incomodados em futuras iniciativas.

Ah, já agora e como informação para quem não sabe: a sede da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) é na Rua de São Mamede 21, 1100-534 Lisboa, Portugal.

MANU DIXIT

segunda-feira, 30 de julho de 2018

FALA AÍ BRASIL... LUCIANA BESSA SILVA


LITERATURA PARA QUÊ?

           Conceituar ou definir um vocábulo não é uma tarefa fácil, sobretudo se o vocábulo é Literatura, palavra de caráter polissêmico e polifônico. Em sua obra, O que é Literatura? Sartre afirma que a função e a natureza da Literatura encontram-se organizadas a partir de três questionamentos:

           Primeiro “o que é escrever?”. Segundo o autor, escrever é uma maneira do homem se desnudar, se revelar para si e para o mundo. Ao escrever, o escritor expõe seus pensamentos, suas ideias, seus conceitos sobre si e sobre o universo.  “Por que escrever?”. Para Sartre, o escritor escreve para revelar acontecimentos. Há uma transferência da realidade para a obra escrita. Os fatos, quando transpostos para o livro, assumem um significado grandioso, é uma espécie de (re)significação dos acontecimentos vividos. Por último, “Para quem escrever?”. Conforme o filósofo, o escritor faz um pacto com o leitor, para que ele colabore para (re)pensar o mundo e a realidade na qual está inserido.

Lajolo (1995) declara que as perguntas sobre Literatura ultrapassam os séculos, porém as respostas são sempre provisórias porque a cada época surgem novos conceitos. E acrescenta: “as definições propostas para a Literatura importam menos que caminho percorrido para chegar até ela”. (LAJOLO, 1995, p. 72). Na impossibilidade de conceituar um termo tão rico e expressivo, reflitamos sobre sua existência e para quê estudá-la. Afinal, a “(...) a literatura existe. Ela é lida, vendida, estudada. Ela ocupa prateleiras de bibliotecas, colunas estatísticas, horários de aula (...)” (LAJOLO, APUD ESCARPIT, 1995, p. 6).

Como todo tipo de Arte, a Literatura está vinculada à sociedade em que se origina. É raro encontrar um escritor “indiferente” à realidade, pois de alguma maneira, ele participa dos acontecimentos vividos pela sociedade. Isso não significa, necessariamente, que o escritor transforme sua obra num mero panfleto de denuncia social.

Ortiga  et al (2010 ) afirmam que a Literatura é importante, pois auxilia as ciências, sobretudo, as sociais, pois se trata de uma forma de expressão que evidencia os fatores mais importantes de uma sociedade como seus problemas, seus costumes, sua política, sua economia etc.

É preciso registrar que há uma inversão de valores em nossa sociedade: quanto mais obras são publicadas mais cresce o ódio à literatura, “considerada como uma intimidação e um fator de “fratura social” (COMPAGNON, 2009, p. 23). Não bastasse, ele declara que “a iniciação à língua literária e à cultura humanista... parece vulnerável na escola e na sociedade de amanhã” (COMPAGNON, 2009, p. 23). Cada vez mais se trabalha menos a Literatura no contexto escolar.

A literatura é o produto do árduo trabalho do escritor, que através de pesquisas, leituras e técnicas produz o texto literário. Trata-se de um meio privilegiado de comunicação. Vale salientar que ela não é essencialmente útil, no sentido de resolver os problemas políticos, sociais e econômicos existentes em nossa sociedade. Mas contribui, essencialmente, para a formação dos homens, levando-os a refletir sobre si e sobre o outro. Inquieta-nos, proporciona prazer, emoção e entretenimento.

Literatura para quê? Trata-se de uma poderosa ferramenta que permite ao homem conhecer melhor a si, ao outro e o mundo no qual está inserido; é um instrumento de desenvolvimento intelectual, quando permite ao leitor compreender certas questões éticas e morais.

Luciana Bessa Silva

BIOGRAFIA:

* Nascida em Fortaleza em 27/04/1976, mas atualmente reside na cidade do Crato-CE. Doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Ceará e pesquisadora da poética de Carlos Drummond de Andrade. Integrante do Coletivo Camaradas, da Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno e da Academia de Letras dos Municípios do Estado do Ceará. Faz parte do 5º volume do livro Mulheres do Brasil (2000) e Antologia II Conexões Atlânticas (2018).


Referências:

COMPAGNON, A. O Demônio da Teoria: literatura e senso comum [Trad. Cleonice Paes   Barreto Mourão]. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2009.

LAJOLO, Marisa. O que é Literatura.  São Paulo: Nova Cultural: Brasiliense, 1986 (Coleção Primeiros Passos)

SARTRE, Jean-Paul. O que é Literatura? Trad. Carlos Felipe Moisés. 3 ed. São Paulo: Ed. Ática, 1999.


quinta-feira, 17 de maio de 2018

EU FALO DE... NO CAMINHO CERTO


Já escrevi, e disse algumas vezes, que sempre estive ciente da necessidade de, enquanto In-Finita, mostrarmos obra feita, independentemente dos trabalhos realizados no passado.

Senti sempre que teríamos de ultrapassar resistências e enfrentar uma tremenda falta de entendimento sobre o projecto.

Também acertei quando disse que esses obstáculos seriam contornados, pouco a pouco, sem grandes dramas, porque, mais tarde ou mais cedo, acabaríamos por ver alguns resultados positivos, por mínimos que fossem, pelo esforço, perseverança e, sem modéstias, qualidade dos trabalhos e profissionalismo.

O projecto In-Finita começou muito perto da estaca zero, sem grandes meios; com parcas condições; mas com muita garra e a certeza absoluta que o caminho traçado é o mais assertivo.

Há muito para palmilhar neste trajecto, que definimos, mas as cores guerridas da nossa vontade, abnegação e entusiasmo já estão a dar nas vistas – tal qual como preconizei.

Mesmo a conta-gotas, com passos pequenos mas seguros, parceria a parceria, as novidades vão aparecendo. E brevemente, a visibilidade e o alcance serão ainda maiores.

MANU DIXIT

sábado, 31 de março de 2018

ADRIANA FALA DE... VOZES IMPRESSAS


“ A vida é a arte do encontro”, como dizia Vinícius de Moraes, baseada nisso, nada mais justificável do que homenagear sete anos de existência das Edições Vieira da Silva, que promove com excelência a arte do encontro e das palavras na sensibilidade poética de cada autor.

VOZES IMPRESSAS, um presente para ser oferecido e relido, é o encontro do sentir, de vivencias e talentos impressos, é a alma exposta de cada poeta que faz parte da trajetória de editora.

Essa foi a minha apresentação no livro coletivo VOZES IMPRESSAS, meu primeiro trabalho de coordenação literária em Lisboa. Fiquei surpresa e gratificada pela receptividade imediata da editora com a sugestão de um trabalho comemorativo e a aceitação dos autores que enviaram seus poemas, em um processo de quase três meses entre recolha, seleção, revisão, e cuidados em manter na paginação, cada estrofe primando pela qualidade poética. Desde a capa até à última página, a ideia da simplicidade  e  leveza, ficaram do jeito idealizado, bem entendido pela editora e sua equipe, onde a única preocupação era emocionar, através das VOZES IMPRESSAS de cada autor.

O lançamento foi uma mistura de tudo isso. Comemoração e emoção, por motivos pessoais e profissionais. Nas palavras de incentivo do Emanuel Lomelino apresentando o livro, e também responsável pelo meu primeiro contato com a editora e que com a sua experiência e alto nível de exigência, muito tem-me ensinado nessa caminhada.

Comemoração e emoção, por motivos pessoais e profissionais. Foi uma grande confraternização e encontro de autores, brasileiros, portugueses e africanos, onde me senti privilegiada em fazer do meu trabalho esse encontro de pessoas, histórias, culturas e sentidos.

E é ainda nesse clima de encontros e celebração, que agradeço às Edições Vieira da Silva, pela confiança em meu trabalho, e ao carinho recebido por parte dos autores participantes. Agostinho Silva, Albertina Pereira (Violeta), Alcino Ferreira, Alexandre Acampora, Ana Matias, Ana Teresa Machado, António Boavida Pinheiro, António M R Martins, António Pereira Bartolo Coutinho, Armando Leite, Beni Chaúque, Célia Moura, Dário Vidal, Delfim Carvalho, Francisco Luís Silva, Isabel Antunes, Isabel Bastos Nunes, Isabel Esperança, Isabelle Fochier, Jane Revet, João Sevivas, João Videira Santos, Jorge Emanuel Oliveira Dinis, Luiz Otávio Oliani, Manuel Machado, Manuel Timóteo de Matos, Margarida Gomes, Maria Antonieta Oliveira, Maria Cristina Estrompa, Maria Elisabete da Silva Matos, Maria Estrela do Mar, Maria João Machado, Ngunza Domingos Alberto, Octávio Carmo Santos, Oliveira Santos, Paulo Galheto Miguel, Prazeres Jacinto, Rosa Lapinha, Sara Timóteo, Susana Campos e Vieirinha Vieira.

As Vozes Impressas continuam ecoando. Como sou a favor das Antologias e Coletâneas, para a integração dos autores e conhecimento de suas obras, além da facilidade de uma divulgação mais ampla por ser coletiva, atingindo leitores e criando laços entre os poetas.

Até breve,

Adriana Mayrinck

quinta-feira, 22 de março de 2018

EU FALO DE... DESCULPAS DE SEMPRE



Todos sabemos que a vida é cheia de imponderáveis e surpresas de última hora. E como todos têm consciência desta possibilidade, não raras vezes (para ser simpático e não dizer "demasiadas vezes"), usam-na como desculpa para justificar ausências.

Não é a primeira vez que falo deste tema e, em todas as outras vezes, dei o exemplo de alguém que me pergunta: "Para quando o próximo livro?" e sempre que lanço um (já foram oito) morre-lhe um familiar. Inclusive, já lhe transmiti que estou seriamente a pensar deixar de editar para evitar que fique só neste mundo. Mas essa história já é por demais conhecida e o propósito deste texto é outro.

Recentemente estive no lançamento da obra colectiva VOZES IMPRESSAS, coordenada por Adriana Mayrinck, e pude constatar que na plateia, de mais ou menos 50 pessoas, estavam menos de metade dos autores participantes, mas com uma peculiaridade que não podia deixar de comentar.

Tal como referi na minha intervenção, de apresentação da obra, é muito interessante, e revelador, ver gente que se deslocou, de Tomar, Gaia e Matosinhos, até Lisboa, para interagir com outros autores pouco mais de hora e meia, e regressar, enquanto a maioria, que reside próximo da zona onde o evento foi realizado, fez questão de não aparecer.

Como referi, na introdução deste texto, há sempre imponderáveis e todos estamos sujeitos a imprevistos, mas também não deixa de ser verdade que, excepções à parte, os ausentes foram os mesmos de sempre.

Existem hábitos que dificilmente mudarão, tal como as desculpas para justificar ausências. O tempo nunca é adequado, a hora é sempre imprópria, o local não é o melhor, etc. Quem melhor que os de Tomar, Gaia e Matosinhos para dar razão a essas desculpas!

MANU DIXIT

sábado, 3 de março de 2018

FALA AÍ BRASIL... CRISTINA LEBRE (VI)

Como jornalista, revisora e escritora, há tempos observo a escrita de diversos gêneros textuais, de toda a sorte de fontes, desde textos escritos nas redes sociais, aos livros, jornais, anúncios, cartões de visita, cartazes pela cidade, outdoors e outros mais. E afirmo que é estarrecedora a quantidade de erros ortográficos e de concordância gramatical.
Parece que o ataque à norma culta é geral. Raro é o momento em que nos deparamos com uma sentença corretamente escrita, mesmo nas grandes cidades, nos meios mais modernos de comunicação. Não adianta a gente zoar o “eletrecista” do interior, em muitos blogs o que se vê é um grotesco “parabéns À todos” !!!!!!
Sei que há problemas muito mais graves do que este acontecendo no Brasil, mas a deficiência na escrita da Língua Portuguesa, no meu ponto de vista, é também uma questão de extrema relevância. Por isso clamo aos que não dominam a escrita: contratem os serviços de um bom revisor!
Basicamente o próprio Word dos nossos computadores tem um corretor, embora nem sempre esteja correto. Além dele também temos à disposição o Dr. Google, que esclarece (quase) todas as dúvidas. Com tudo isso o melhor mesmo é contratar os serviços de um revisor. Enfim, são inúmeras as possibilidades de se escrever com proficiência, possibilidades essas que estão ao alcance de qualquer profissional interessado.
Segundo o Professor Leandro Karnal, e estrutura da linguagem está sendo totalmente modificada por conta da necessidade de rapidez na informação. Tudo bem. Não se está falando aqui em longas frases, não há mesmo espaço para isso. O tempo, este artigo cada dia mais exíguo, decreta o fim das orações subordinadas, é compreensível. O que importa é que, por menor que seja a mensagem, ela seja escrita corretamente.
Vale lembrar também que linguagem virtual é diferente de linguagem escrita. O chamado “Internetês”, uma adaptação própria da língua para o meio cibernético, abrevia cada vez mais as palavras para que se possa aproveitar o máximo de tempo possível no envio de uma informação. Assim, você vira “vc”, beleza vira “blz”, e por aí vai. É lícito, convém que seja assim para que a comunicação seja feita de maneira célere.
Assim também temos os emoticons, figuras que traduzem nossas emoções para que a gente não precise descrevê-las com palavras escritas, e as hastags, verdadeiras imposições a qualquer post hoje em dia. Aliás, a ferrramenta hastag é assunto complexo e rico a ser focalizado em um estudo próprio. Na sua forma, ela resume o conteúdo de uma mensagem sem que se use nem ao menos um verbo. E o mais incrível, ela une milhões de internautas e posts sobre um mesmo assunto somente pela utilização do símbolo "jogo da velha". É uma fantástica ferramenta de hipertexto. Porém, mister é salientar, isso só acontece dentro o universo virtual. Não se redige um comunicado, ou mesmo um anúncio, somente com o tal joguinho da velha e uma palavrinha grudada a ele. Por mais que possa parecer enfadonho, ainda é preciso escrever.
A linguagem é um organismo vivo, ela sofre mutações constantes frente ao dinamismo da comunicação. A questão é que, se você vai escrever, deve fazê-lo de forma correta, sem agredir o leitor e a própria língua. Ainda não dá para redigir um trabalho acadêmico salpicado de hastags. O que se precisa distinguir é linguagem escrita formal e linguagem virtual. São ambientes distintos de escrita.
Enfim, o trabalho do revisor é de suma importância para a confecção de um bom texto. E a chave do sucesso da mensagem. Sucesso a todos!

Cristina Lebre
Jornalista, escritora, revisora de textos acadêmicos e livros, apresentadora de eventos e secretária executiva. Cristina Lebre é autora dos livros "Olhos de Lince" e "Marca D'Água", à venda nas livrarias Gutemberg de Icaraí e São Gonçalo - ou diretamente pelo e-mail lebre.cristina@gmail.com


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

AS CRÓNICAS DA AVÓZITA... ANTOLOGIAS E COLECTÂNEAS


Hoje apetece-me escrever sobre um tema que parece fazer confusão a muito boa gente.

Sim, participo em todas as antologias e colectâneas para as quais seja convidada, desde que não me exijam a compra de mais do que um exemplar.

É verdade que já tenho mais do que um livro publicado, de poemas escritos só por mim, porque hei-de então “misturar” aquilo que escrevo, com poemas de outras pessoas que poderão, ou não, escrever como eu?! A resposta é simples, foi assim que comecei, entrando em antologias e colectâneas e dando a conhecer os meus poemas. Também assim, fui lendo outros autores e, com alguns deles, aprendendo.

E depois destas conjecturas, é evidente que continuarei a participar em antologias e colectâneas, mas, ressalvo, desde que não me exijam o pagamento de mais do que um exemplar.

MARIA ANTONIETA OLIVEIRA


domingo, 25 de fevereiro de 2018

ADRIANA FALA DE... POLICROMIA PARA CEGOS

O tempo. A vida. A invisualidade. A poesia. A imortalidade. E tudo o que envolve e está inserido nesses elementos, o livro POLICROMIA PARA CEGOS traz em todo o contexto da obra e além das entrelinhas. Um trabalho bem elaborado e lapidado por quatro mãos. As mãos que direcionam as palavras que bailam na não visão, mas que fazem ecos no sentir. A percepção dos poetas que atrevem-se a vivenciar experiências que não lhe são comuns para despertar a atenção para aqueles que nos rodeiam e diferem por estarem em paralelo e, ao mesmo tempo, em um mundo íntimo e desconhecido para nós, que temos um sentido a mais.

A liberdade de expressar o que supostamente é percebido de um modo diferente, em forma de poesia, com palavras utilizadas em completude e sintonia por dois poetas que fizeram da arte da escrita, e de vivências distintas, uma pequena e significativa obra que enternece e alimenta a alma, a cada página virada. O lirismo que escorre por entre as linhas e por nossos olhos úmidos, ao depararmos com a harmonia e a leveza poética de um estado não comum em nosso pensar. Perceber o outro, a vida e os seus significados além do que se vê. Entrar em um mundo tão particular, se deixar ficar, explorar e vivenciar sem pré-conceitos ou resistências.

Jesús Recio Blanco e Emanuel Lomelino mergulharam a fundo nessa escuridão que antevê a luz, a sensibilidade do olhar para o que não se vê, o tempo de construção poética, a arte intrínseca no mundo que se faz descoberto sem a experimentação, a percepção do sentido do outro, com suas vivências, dificuldades, agonias e libertação, a essência individual na análise cotidiana e a visão de quem está do lado de fora olhando para o não comum, convida o leitor a apurar os sentidos e desnudar-se do habitual.

POLICROMIA PARA CEGOS fala do tempo com ou sem limitações, fala da vida interior, do seu transbordar e da lição que ela nos traz, fala dos invisuais e de suas percepções, fala da imagem de uma escuridão iluminada, das experiências do outro que se faz oculto por um limite imposto, da imensidão do sentir dos poetas, da solidariedade e atenção, fala das diferenças. Fala da arte das palavras, desde a imagem da capa, ao pulsar inerente de cada poema, que transforma o instante da leitura em um fio condutor para o despertar da imortalidade, de uma outra visão, a interior, que ultrapassa a última página.

DRIKKA INQUIT

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

EU FALO DE... PARCERIA IN-FINITA/PALÁCIO BALDAYA


A experiência diz-me que os primeiros passos de qualquer projecto são sempre os mais difíceis. Mas felizmente existem momentos de excepção que nos enchem a alma e levam a acreditar nas escolhas e caminhos que fazemos. É o caso da recente parceria IN-FINITA/PALÁCIO BALDAYA.

Após o sucesso do primeiro evento, e boa impressão que deixámos junto dos responsáveis do Palácio Baldaya, fomos convidados para organizar o II Sarau, integrado nas festividades de inauguração da Biblioteca. Aceitámos e o resultado foi mais que satisfatório. Para além da adesão de autores (alguns repetentes) desta vez tivemos uma interessante afluência de público que, no final, nos veio agradecer pelos belos momentos de poesia.

Para nós não poderia existir maior elogio, tendo em consideração que o nosso objectivo é criar uma maior interacção entre os diversos agentes do universo da escrita e público. E isso foi plenamente conseguido neste segundo evento.

Mas o sucesso não é apenas da IN-FINITA. É também de todos os autores que têm contribuído com as suas participações. É por eles que temos estado a trabalhar e vamos prosseguir a nossa empreitada, mantendo o foco naquilo que achamos ser essencial deixando, simultâneamente, a nossa marca enquanto prestadores de serviços.

Apesar de ainda estarmos a viver a "ressaca" do recente êxito, já estamos a trabalhar nos certames futuros (o próximo é já no dia 10 de Março), com a esperança de, pelo menos, conseguirmos manter o nível de qualidade dos dois primeiros eventos.


MANU DIXIT

sábado, 3 de fevereiro de 2018

ADRIANA FALA DE... FALTA DE INTERPRETAÇÃO

Falta de interpretação. Um sintoma crescente nas redes sociais.


Acompanhei o surgimento da internet e das redes sociais quase no final da minha adolescência. Em todo o meu tempo de formação, escolar e de vida, fui orientada a ler e interpretar, sempre. E hoje, deparo-me com tantas situações explícitas em que, com apenas uma leitura mais atenta, tudo é esclarecido, mas as pessoas fazem comentários tão despropositados que me remete ao olhar inquisidor de uma professora nas minhas aulas de português, com sua caneta vermelha ativa, onde éramos cobrados a interpretar textos. (E nem vou comentar outros assuntos, relacionados à mal escrita, que se disseminam nesta era digital). Se fosse a geração que cresceu na era copia e cola, até poderia compreender, embora não aceite, a dificuldade de percepção. Mas ao se tratar de autores, senhores da escrita e pessoas habituadas ao universo literário, fica difícil entender tamanha dificuldade. Só posso creditar esse fato à rapidez em que inserimos a nossa vida e nossos pensamentos nesse tempo digital, onde os segundos passam a toda a velocidade e que as  postagens e respostas devem seguir o mesmo percurso, sem tempo de análise. Demorei a ser adepta desse novo jeito de viver mas por necessidade de manter contato com amigos distantes e depois por ser uma útil ferramenta do meu trabalho, um pouco reticente e resistente a esse fenômeno que nos torna dependentes, e expostos, mesmo que se tenha cuidado em manter a privacidade pessoal, sucumbi a esse apelo da modernidade. Mas ainda caminho entre a cruz e a espada, questionando, observando, analisando e por que não criticando, aqui com os meus botões, essa necessidade cotidiana da humanidade estar conectada ao facebook, instagram e twitter, entre outros, correndo o risco de perder, aquela pessoa próxima que faz aniversário, uma postagem interessante ou evento que passou despercebido. Sou depende por necessidade, e a experiência de ter ficado uma semana inativa me fez sentir um peixe fora d'água e ainda perder alguns contatos, e percebi o quão exigente e mediático é esse nosso espaço virtual. Apesar de continuar em defesa do tempo off line, do café quente, um bom papo e olho no olho, desejo que o tempo siga no seu fluxo e que as pessoas adequem-se a ele, também nessa era instantânea, no mínimo, lendo, interpretando, para depois responder com coerência e assertividade, contribuindo para a continuidade de uma linguagem correta, que só faz enriquecer a nossa tão especial língua portuguesa.

DRIKKA INQUIT

sábado, 27 de janeiro de 2018

ADRIANA FALA DE... PÓS-VERDADE


Nesse tempo de pós-verdade, um conceito que não apenas se restringe a assuntos relacionados, mas que também mistura-se no cotidiano de todos nós, incentivado pelos espaços virtuais que abrem caminho para a exposição de opiniões e crenças pessoais criando um palco sem limites para todos os tipos de comentários. O limiar tênue entre a razão, a coerência, o ego, a auto promoção e a vaidade misturam-se com o fato em si, e em um bailado interessante, às vezes até cômico, e deveras preocupante, pessoas falam e fazem o que querem, invadindo sem respeito a opinião ou atitude alheia, sem ao menos aprofundarem-se no assunto, ou no mínimo, a sensatez para ler o que está escrito. As emoções exacerbadas, acredito que por frustrações ou necessidade de se fazer aparecer, leva pessoas que nas imagens divulgadas, com livros e prêmios, parecem mais um ser desesperado por se fazer notar, com comentários despropositados e totalmente descabidos. Observo de perto e também com uma certa distância essa atuação com uma sensação de que algo não faz sentido, e que a literatura e tudo o que a ela se relaciona, deveria ser tratada com uma certa reverência, postura e profissionalismo. E como faço parte desse universo da escrita, e como profissional, analiso o mercado, perfis e condutas de autores e editoras, muitas perguntas sem respostas habitam meus pensamentos, nesse espetáculo em que o que é certo ou errado, sensato ou inconsistente, foge totalmente das regras que se imagina de atuação profissional. E com isso, fico a refletir, sobre como caminha a humanidade, com as novas gerações habituadas a essas cenas de hipocrisia e pós verdade, onde cada um, de acordo com suas emoções tenta ocupar espaços, seja ao custo que for. Como sempre defendi que roupa suja se lava em casa e que determinados assuntos se discute entre quatro paredes, fico perplexa ao amanhecer vendo uma senhora para lá da meia idade, lavando roupa suja no facebook, e o que é pior, contra ela mesma, tentando contaminar quem estivesse por perto e denegrir o trabalho alheio,  pois como não a conheço, foi a impressão que tive. E lamento mais ainda, pois se diz autora premiada, com vários livros e participações, e tive o desprazer de saber da sua existência não pelas obras que espero que sejam um contributo para cultura, no qual perdi totalmente o interesse de ler, mas sim, por não saber utilizar uma rede social para seu benefício, pois se existe a possibilidade do privado, é nítido que o tumulto que a senhora quis provocar, é uma mera tentativa de se auto promover, da pior forma. O mercado está cheio de lobos com pele de ovelha, de camuflagens e máscaras, de sorrisos e facas, como sempre foi, mas que hoje, é disseminado incontrolavelmente pela vitrine que invade nosso dia a dia e que, se não nos distanciarmos, e apurarmos os fatos com cautela e uma percepção lógica e justa, vamos sempre confundir gato por lebre.


DRIKKA INQUIT

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

EU FALO DE... OBSESSÃO E SERIEDADE


O número crescente de autores a conseguir editar já não espanta ninguém. A proliferação de chancelas é de tal ordem que só não edita quem não quer. Esses são dois factos reais e indesmentíveis.

Também não causa surpresa as constantes reclamações sobre o trabalho de algumas chancelas. Há sempre autores descontentes e os dedos apontam constantemente nas mesmas direcções. Facto real e compreensível.

Aquilo que, pelo menos para mim, é ridículo e inexplicável e, para a maioria, porventura passa despercebido, é a obsessão, quase doentia, que algumas chancelas nutrem pelos selos concorrentes.

Apesar de ter uma opinião muito objectiva sobre o que deve ser a relação entre autores e chancelas, e o papel de cada um, consigo entender algumas queixas e as razões de ambos os lados.

O que não consigo entender é essa fixação destrutiva que alguns usam para desviar autores. Compreendo ainda menos quando, os "donos da verdade suprema", usam os autores, como instrumentos de arremesso, para atingir fins, que não são compatíveis com o trabalho que se propuseram fazer e que, muitas vezes, cumprem da mesma forma insatisfatória.

É ridículo, para não dizer absurdo, constatar que há quem se faça passar por virgem ofendida quando perde mais tempo a discutir a virgindade alheia e aponta os telhados dos outros em vez de cuidar e fortalecer o seu.

Ninguém obriga ninguém a editar por esta ou aquela chancela, e cada autor tem de assumir a sua escolha, com tudo o que daí advier, bom e ruim.

Quanto aos editores... esses devem limitar-se a demonstrar, na prática e com trabalho, que são melhores que os demais. Ninguém é melhor que os outros denegrindo-os. Como diz o velho ditado "para ser sério não basta parecê-lo", é preciso ser sério mesmo.

MANU DIXIT

domingo, 21 de janeiro de 2018

EU FALO DE... ASSUMIR ERROS


Num dos textos anteriores falei da frustração que sinto quando me deparo com trabalhos que mereciam uma exposição bem maior do que aquela que eu e os meus projectos podemos e conseguimos oferecer.

Tal como referi nesse texto, para lá da frustração, também existe uma enorme dose de regozijo pelo facto dos autores, que convido para integrar os meus projectos, depositarem confiança nas minhas capacidades.

No entanto e porque há sempre pedras no caminho, nem tudo são rosas e essa é uma outra realidade, com a qual muito tenho aprendido.

Se, na frustração que falo no primeiro parágrafo, esse sentimento advém da impotência ou incapacidade que tenho para dar maior visibilidade aos trabalhos que me chegam às mãos, há uma outra frustração associada ao parágrafo anterior que surge apenas porque, infelizmente, há sempre quem se julgue a última bolacha do pacote.

Nenhum dos trabalhos que fiz está isento de erros meus, seja por omissão, desatenção, ou até mesmo incapacidade. Mas jamais deixei de assumir essa responsabilidade e nunca a sacudi para ombros alheios.

Os projectos que estão em andamento, entre os quais uma nova colecção, esta de contos, não serão perfeitos mas, tenho a certeza, merecerão de mim todo o esforço e dedicação, para que fiquem o mais perto que conseguir.

E quando o resultado desses projectos aparecer aos olhos do público cá estarei, mais uma vez, para assumir as minhas falhas sem desculpas e com mea culpa – por inteiro.


MANU DIXIT

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

ADRIANA FALA DE... NEM TODOS OS AMORES CRESCEM

NEM TODOS OS AMORES CRESCEM... abranda, inquieta, desperta, seduz, questiona, busca e mergulha a fundo em todas as vertentes e possibilidades de sentir o amor.

A procura, o êxtase, a cumplicidade, a serenidade, o encontro, a conexão, a desilusão, a descoberta, os preconceitos, a loucura, o interesse, a fusão, o sexo, o desespero, a indiferença, a ironia, o descaso, a violência, a solidão. Todas essas palavras bailam implícitas ou explícitas no romance quase poético de André Marques. O uso constante das metáforas, o lirismo nas figuras de imagem, que passam bailando por nossos olhos, consumidos na leitura, nos conduzem para enredos que falam da alma humana e todos os dissabores e encantamentos que só esse sentimento nos leva a vivenciar.

Um livro que fala de amor. De histórias de amor. De pessoas que sentem amor. Aquelas que seguindo o conceito tradicional não se enquadram no que chamamos de final feliz, mas que na sombra de nós, mexe e instiga, fala de preconceitos, sensações e possibilidades de ser e viver o amor e tudo o que ele provoca na antítese de si mesmo. E nos deixamos levar pela leveza das palavras bem colocadas em frases curtas e pontuadas. Pela percepção em olhar a si e o que está por trás do olhar do outro. As tramas provocadas pelas escolhas, pelo destino, pelas consequências. Personagens que são espelhos de nós. Gente que sente, que sonha, que sofre, que busca:  A completude.

"As palavras culminam em ventania. E quem recebe o ar agitado com agrado tem o pensar desobrigado. Na longa noite, preservo a lua acima do meu nariz. Assemelho-me a um evidente aprendiz. (...) " André Marques


E como um aprendiz, personagem e autor, aproximam-se de nós, leitores,  também peregrinos nas vertentes do que o amor nos traz, nos aprisionamentos e cárceres que construímos, seja no mito que herdamos em detrimento desse sentimento, ou na libertação do nosso ser individual assumindo a des-construção do que fomos e escolher, simplesmente, amar. NEM TODOS OS AMORES CRESCEM, é uma alquimia de palavras, histórias, personagens, conflitos, substâncias e sentidos que fazem ou não coerência na complexidade de se ver, sentir e viver o estado puro, cru, duro de algo que não se domina, compreende, retém, mas se eterniza.

DRIKKA INQUIT