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terça-feira, 5 de maio de 2026

Contos que nada contam 56 (Epifania de um sonhador) - Emanuel Lomelino

Epifania de um sonhador

Em criança, logo, numa fase prematura e ingénua da minha existência, comecei a acumular alguns sonhos, como tesouros preciosos que defenderia com a própria vida.

O tempo encarregou-se de concretizar uns, eliminar outros, substituir alguns e frustrar a maioria.

Os anos passaram, comecei a ver o mundo com outras cores e aprendi a delinear os objectivos com outra precisão, porque a experiência assim o exigia, mas sempre sem deixar de sonhar grande.

Durante a caminhada foram muitas as adversidades impossíveis de contornar que me obrigaram a fazer escolhas e a ser mais criterioso. Então deixei de ser um acumulador de sonhos para me transformar em coleccionador de projectos por realizar.

À falta de oportunidade, ou capacidade, para levar tudo a bom porto, apertei mais a malha da exigência e segui na luta escolhendo as batalhas a travar.

Porém, porque a vida apresenta muitas encruzilhadas e o cansaço dos desaires não mata, mas mói, fui deixando cair grande parte da bagagem sonhada para dar algum alívio às costas.

Foi nesse momento que percebi que o meu sonho maior, que apenas vagueava no meu inconsciente, foi o único que sobreviveu à caminhada, resistindo a todos os meus tropeços, enganos e quedas.

Feitas as contas, não fui eu que concretizei este sonho. Foi ele que me filtrou.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 4 de abril de 2026

Contos que nada contam 55 (Discurso do inocente) - Emanuel Lomelino

Discurso do inocente

Abram as portas do fórum e permitam que todas as testemunhas dissertem como lhes aprouver. Escutem as versões de cada uma delas, como quem escuta um hino – em reflexão silenciosa e contemplativa.

Anotem todas as denúncias, cismas, queixas, dúvidas, melindres, temores, desconfianças, suspeitas e imputações. Deixem-nas fazer todas as acusações. Anotem tudo. Deliberem na independência do vosso juízo e sentenciem - se tiverem de o fazer.

Eu, na qualidade de réu assumido, limitar-me-ei a escutar todos os relatos, como quem se delicia ao ouvir os contos mais fantasiosos, plenos de drama e repletos de “achismos”.

Seja qual for o desenlace, seja qual for o entendimento deste tribunal, nascido da vontade protagonista e alavancada em propósitos coscuvilheiros, receberei os autos de pronunciamento como quem anseia ler o argumento adaptado, para cinema, de uma ficção sensaborona.

Por mais que tentem, nunca conseguirão biografar o meu trajecto, a minha caminhada, os meus conceitos, as minhas decisões, sendo fiéis aos acontecimentos, sem que eu decida favorecê-los com a única verdade que me define – a minha.

Até lá, e para não caírem no ridículo, sugiro que no final da vossa colectânea de adivinhação coloquem a frase: “toda e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Contos que nada contam 54 (Noite de luar) - Emanuel Lomelino

Noite de luar

Soltam-se as plumas da noite e a lua – porta-estandarte de todos os astros – deixa-se ver no máximo expoente das suas crateras, como quem exibe umbigos e brotos. E nem a obscuridade dos cúmulos noturnos lhe retira o brilho emprestado.

Na sua nudez aristocrática e presunçosa derrama uma áurea hipnótica, quase magnética, que cativa os uivos caninos, o trinar das guitarras e os apetites canalhas dos malandros mais ousados.

Também os gatos, felinos com refletores nos olhos, demonstram boémia ao luar e por isso fazem dos telhados os seus lugares de eleição para escrutinarem eventuais descuidos de roedores audazes, juntando-se, assim, às corujas de olho grande e aos morcegos acrobatas.

E quando os aspersores molham os jardins, a horas fora-de-horas, são mais os sonos consumados do que as insónias imprevistas ou propositadas, e os pirilampos – quais vigilantes de turno – iluminam os caminhos aos louva-deus e às formigas que perderam a noção do tempo, por terem preferido assistir ao concerto integral das cigarras vagabundas.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Contos que nada contam 53 (À beira do lago) - Emanuel Lomelino

À beira do lago

As gaivotas estão alinhadas no pontão, à espera do momento certo para agitarem as asas, enquanto os cágados sobem aos solários para aquecerem as carapaças e os patolas dividem pasto com os pombos – oportunistas-mor do parque.

Na outra margem do lago, a avó delicia-se com o espanto infantil que a netinha demonstra ao ver o aspersor regar a relva luxuriosamente verde.

Os bancos de jardim começam a ficar ocupados por gente sem horário, viciados em ecrãs táteis, novos românticos e apreciadores de solidão ao ar livre.

Num canto resguardado, o PT da moda dá instruções gímnicas ao escanzelado que, banhado pelo esforço, tenta transparecer atleticismo para impressionar as loiras saradas que usam o trilho próximo.

Joggers, runners, ciclistas e trotineteiros cruzam-se invisíveis, na pista de alcatrão laranja, com a voluptuosa patinadora quase desnuda, cuja movimentação acelerada provoca alvoroço no pontão. Uma a uma, as gaivotas abrem as asas, levantam voo e grasnam à sua passagem. Os cágados mergulham para arrefecer as carapaças, os patolas refugiam-se sob a água aspergida e só os oportunistas-mor continuam, impávidos e serenos, entregues à rapinagem, numa indiferença pombalina.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Contos que nada contam 52 (Faina) - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Faina

A praia esvazia-se de olhos postos nas pranchas que deslizam na ondulação costeira, enquanto, na barra, as traineiras são preparadas para a faina, assim que terminar o pôr-do-sol.

As mulheres de negro aglomeram-se no pontão para sacudir os lenços brancos, na angústia dos céus carregados, na incerteza eterna dos ventos e na esperança do retorno breve.

O farol ilumina a liquidez da noite, mas o horizonte fica escondido entre a penumbra e a maresia. O ambiente sepulcral só não é total porque as águas martelam a vulnerabilidade das embarcações ao ritmo das preces afãs. 

Às ondas do mar pouco importa se os grãos de areia fina já foram, um dia, seixos lisos ou se as gaivotas poisam para palitar os bicos nas conchas abandonadas. Tampouco querem saber se as estrelas-do-mar são incendiárias jurássicas a preparar terreno para outras espécies ou se, nessa noite, as redes serão capazes de expulsar a fome.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Contos que nada contam 51 (Sinfonia interrompida) - Emanuel Lomelino

Sinfonia interrompida

Tudo começou com o trovejar dos bombos seguido de um choro colectivo dos violinos, primeiro sussurrado, depois bradado. Só depois o clarinete buzinou uma passagem de nível e as colinas deixaram-se florir numa sinfonia de cores exóticas.

Houve uma vertigem zumbida que polinizou um dente-de-leão e as glicínias olharam o céu em prece pedindo, aos deuses florais, permissão para o regresso dos colibris.

A mariposa sacudiu a transparência das asas para receber a simpatia da brisa e serpentear entre as peónias bailarinas.

As campainhas tocaram triângulos a compasso e o salgueiro-chorão aproximou-se do rio para ver, mais próximo, a família de carpas-dragão que manchava a serenidade cristalina das águas.

O pica-pau trauteou morse no tronco rijo de uma laranjeira e a orquestra edílica deu lugar ao silêncio absoluto porque apareceu uma mochila a empurrar um ser bípede que estava noutra sintonia e decapitava margaridas.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 29 de novembro de 2025

Contos que nada contam 50 (Natureza absurda) - Emanuel Lomelino

Natureza absurda

Deambulando pelos trilhos da irrealidade, onde os céus alaranjados são rasgados pelas asas de criaturas fantásticas, mas nada aladas, as pedras sussurram peregrinações e as flores espirram alergias a cada gota de orvalho.

Os caminhos são percorridos em marcha lenta, quando não em ré, tal como as águas dos rios que fogem das tropelias dos oceanos grávidos e se infiltram nas margens salgadas pelo suor de sargaços em crise de identidade.

As árvores dos pomares têm os ramos entrelaçados e os abelhões de barro esculpem castanhas piladas no coração das trepadeiras para que as formigas de barriga vazia encham o bandulho antes que a orquestra de cigarras, grilos e pirilampos inicie mais uma demonstração psicadélica de artes conjuntas sem fins lucrativos.

Assistindo a toda esta cornucópia de absurdos, como uma criança a olhar um caleidoscópio, está um homem, armado até aos dentes, que se perdeu quando tentava encontrar uma espingardaria para se abastecer de munições a tempo do início da próxima guerra.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Contos que nada contam 49 (Um dia de Verão) - Emanuel Lomelino

Um dia de Verão

O dia está soalheiro. Apenas alguns flocos de nuvens esbranquiçadas pontilham o céu azul. Num dos bancos do jardim, alguém folheia o jornal como quem não se surpreende com notícia alguma. Ao seu lado, uma senhora tricota, pachorrentamente, talvez um cachecol para o Outono que aí vem, ou uma manta para o rigor do distante Inverno. Mais adiante, na esplanada, fronteira ao quiosque, onde uma miscelânea de transeuntes se reveza num interesse fingido pelas parangonas, vários casais – com e sem crias – degustam lanches rápidos antes de voltarem aos seus afazeres diários. Junto ao lago, onde são inúmeros os jovens que se banham, há uma miríade de sujeitos (homens e mulheres) em trajes formais, com os olhares vidrados em tudo quanto lhes surge nos ecrãs pixelizados, que mantém presos nas mãos, como se a vida dependesse desses apetrechos, enquanto, de uma coluna portátil, em alto e bom som, saem notas distorcidas e vozes estridentes. Adultos, crianças e várias raças de canídeos, em diferentes ritmos e passadas, partilham um espaço relvado mais amplo e sem árvores, ladeados por uma faixa rubra asfaltada onde se mesclam distintos amantes do exercício físico.

No meio desta azáfama, de um dia de Verão, Fulgêncio, vestido com o seu fato de bombeiro, uma mochila de primeiros socorros suspensa nas costas e a transportar, com a ajuda do seu colega, a maca onde colocaram mais um desafortunado morador de rua, que retiraram do edifício devoluto que estava a ser consumido pelas chamas há, pelo menos, duas horas, perante o desinteresse generalizado, questiona-se se tem o poder da invisibilidade ou é apenas mais uma vítima da indiferença reinante.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Contos que nada contam 48 (Cumplicidade nocturna) - Emanuel Lomelino

Cumplicidade nocturna

Na penumbra dos becos, os tijolos quebrados são testemunhas assíduas das vidas que se cruzam, entre pestilências, azares e necessidades, regadas a vícios e adições.

Abrem-se pernas e goelas ébrias, em rituais de praxe mundana, enquanto roedores e varejeiras, alheios aos marujos caídos e carochos ressacados, procuram as águas-furtadas de um contentor chamariz.

As sombras são armários onde os cobardes aconchegam as vertigens, os corcundas ganham linearidade, as pegas aliciam sob pressão de lâminas e chumbo, e os vasilhames dividem espaço com látex e filtros alcatroados.

No aconchego da escuridão noturna, os corretores de fumo e caldo especulam piercings, ao ritmo dos batuques abafados que saem das caves guardadas por adoradores de halteres.

Há um gato que mia, um caixote remexido, um pneu que derrapa, um copo que se estilhaça, um isqueiro que é acendido, um rosto que se ilumina, uma baforada que se cheira, um tumulto que se gera, um grito que se escuta, um vulto que tomba, uma poça que se forma, passos que fogem e o silêncio cúmplice que nada viu ou ouviu.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Contos que nada contam 47 (Desabafo de um pescador) - Emanuel Lomelino

Desabafo de um pescador

Depois de ter navegado tantas marés e enfrentado os seus diferentes humores, o sal impregnou-se na pele tão intensamente que os golfinhos e as gaivotas deixaram de ser novidade. A ferocidade dos ventos, que no início era sentida como chibatadas, agora é apenas afago. Içar e recolher velas passaram a ser tarefas executadas no automático.

Já me haviam alertado para a falta de atenção que tenho prestado ao meu entorno. Não tinha dado muita importância a esse reparo, no entanto, a bem da verdade, há algum tempo deixei de demonstrar interesse nas coisas irrelevantes porque serviam apenas como motivos de distração, para ajudar a passar o tempo nas viagens entre portos.

No entanto, hoje, ao embarcar para mais uma odisseia laboral, embrulhado na minha farda de profissional camuflado e com a máscara de marujo satisfeito no rosto, decidi voltar a dar uso à minha vertente observadora e pude constatar que o céu azul continua a ser riscado pelos aviões, a espuma das ondas permanece branca e, tirando os pinguins e albatrozes, os únicos seres que continuam a destoar são os corvos, que agora são mais urbanos litorais e não se emocionam ao ver espantalhos de camisa aos quadrados que, tal como eu, andam na faina para colocar bacalhau no prato.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 19 de outubro de 2025

Contos que nada contam 46 (Um ultimo esforço!) - Emanuel Lomelino

Um último esforço!

Durante toda a vida, Afonso dedicou-se ao trabalho como fosse um atleta de alta competição. Estava sempre disponível para umas horas extra, colocando de lado o cansaço, ignorando as mazelas, superando a complexidade das tarefas e a pressão exercida pelas chefias, imaculadas e bem dormidas, que lhe exigiam máxima aplicação e o empenho que não entregavam.

Por mais dedicado, assíduo e competente que Afonso demonstrasse ser, pediam-lhe sempre mais um esforço, mais uma diligência, mais uma cedência, mais um sacrifício, como tivesse nascido para ser apenas um operário sem vida própria.

Durante toda a vida, dedicou-se ao trabalho com esmero e profissionalismo e agora, deitado sobre o solo gelado, sob os olhares estarrecidos dos chefes, que o observavam à distância e em silêncio, Afonso concluiu que, toda a entrega e dedicação, todas as cedências e sacrifícios, nada mais eram do que sinais do quão negligente havia sido com a sua própria vida, e apenas tinham beneficiado aqueles que, mal todos os pedaços do seu corpo quebrado fossem colocados na ambulância, seguiriam para o conforto dos seus lares e aconchego das suas famílias.

Antes de falecer, a caminho do hospital, Afonso ainda teve discernimento para um derradeiro pensamento filosófico: “por mais colectivo que seja o último esforço, ninguém verte o sangue alheio”.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 30 de setembro de 2025

Contos que nada contam 45 (A confissão) - Emanuel Lomelino

A confissão

Vivo no bosque da vida, desde o berço, protegido por plantas e animais que nunca me foram estranhos. Ao longo do tempo fui construindo peça a peça, tijolo a tijolo, a verdade do meu mundo. Ano após ano, mês após mês, semana após semana, dia após dia, aculturei a minha mente, fiz-me homem à minha imagem. O tempo passou na sua vertigem e o bosque transformou-se na minha casa cujos alicerces eu próprio construí. Entre certezas e receios deixei-me envolver, pouco a pouco, nas teias da falsa ilusão. Necessidade inconsciente?! Consciência doentia?! Os anos escorreram-me entre dedos e apesar da vontade e do querer, nunca me libertei totalmente das algemas que me impediam de conhecer o mundo para além desta casa-bosque onde me refugiei.

Hoje, passeando pelos jardins do pensamento, dou conta dos sussurros da razão que o tempo me escondeu nas folhagens da utopia. Oiço os chilreios fantasiados da promessa que nunca o foi e interrogo os passos que dei. Palmo a palmo caminho por novas alamedas, vagueio entre flores cujo nome desconheço e tomo consciência do tempo perdido mas não lamento o que me fugiu. Hoje, confrontado com outras realidades, questiono-me sobre o passado e choro as lágrimas que há muito deveria ter vertido. Sei que continuo preso a um momento que nunca existiu mas também sei da vontade hercúlea que existe em mim para recuperar a posse de mim mesmo. Hoje reconheço que adormeci algures na vida e todo o tempo que dormi foi tempo perdido. Mas acordei! Despertei para uma nova vida, para uma nova realidade. Confesso que não me sinto completamente desencarcerado mas aos poucos estou a conseguir desfazer os nós desta corda que me sufocou toda a vida. Cresci!

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Contos que nada contam 44 (Na rua do olvido) - Emanuel Lomelino

Na rua do olvido

Na rua do olvido existe um velho casario, de madeira retorcida e pintada com as cores do esquecimento, cercado por rebanhos de urze seca de tão idosa.

Ultrapassado o portão de ferro forjado por artesãos rudes, abre-se um caminho de pedra vestida de musgo escorregadio, cor-de-azeitona moída, que nos dificulta os passos em direcção à porta torta e tosca que range de dor ao ser empurrada para revelar o interior bafiento da moradia.

A ampla entrada marmoreada com a sujidade do tempo antecede uma escadaria obliqua, que esconde as paredes forradas com retratos fantasmagóricos de figuras que agora são espectros vigilantes.

Numa das molduras, revestidas com tecido aracnídeo, adivinha-se o rosto sombrio de uma velha cortesã de longos cabelos negros transformados em tranças imberbes, presas no cocuruto, como que arrumadas no sótão do corpo.

Ao lado, um rosto masculino, de bigode labiríntico, cavanhaque juvenil e suíças exageradas, trajado de militar de enfeite – com direito a pluma na aba do ridículo chapéu fora de moda.

O resto da casa fica por descrever porque nestas coisas da memória, existem assuntos que podem ser falados enquanto outros são de foro pessoal e intransmissíveis.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Contos que nada contam 43 (O pasteleiro-florista) - Emanuel Lomelino

O pasteleiro-florista

Zacarias era um pasteleiro que, nos intervalos do seu ofício, passava o tempo a plantar flores. Por conta dessa actividade extracurricular, ele passou a ter a visibilidade que nunca havia alcançado através da profissão.

Com o tempo, o seu nome passou a ser reconhecido no mundo da floricultura e ninguém estranhou quando ele passou a fazer arranjos florais para uma florista recém-fundada.

Entre altos e baixos, as coisas foram funcionando e, mesmo nos momentos de menor demanda, Zacarias teve sempre o suporte da florista. Ora plantava flores por sua conta, ora fazia bouquets para a florista.

Só que um dia, por achar-se o suprassumo da floricultura e não ver o maior dos seus arranjos (que não o melhor – bem pelo contrário) exposto no melhor local do jardim, ele decidiu apontar o dedo à florista pela falta de exposição.

O pior do seu amuo nem foi a contestação, mas sim a forma dissimulada como decidiu chamar sobre si os holofotes do universo floral, contando a sua versão ofendida da história e pintando a florista como sendo um demónio de desonestidade.

Nesse momento de raiva ressabiada, esqueceu-se de dizer aos seus acólitos apoiantes que, ao contrário daquilo que as pessoas pensavam, nenhum dos serviços prestados à florista foram feitos por altruísmo. Todos os arranjos que fez haviam-lhe sido pagos à razão de uma percentagem por cada flor vendida.

Definitivamente, Zacarias pertence àquele grupo de pessoas que, sucumbindo ao vício da vaidade, faz discursos inflamados, para inglês ver, e acaba por esquecer os seus telhados de vidro e perde a noção da realidade.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 22 de julho de 2025

Contos que nada contam 42 (O religioso) - Emanuel Lomelino

O religioso

Romualdo nasceu no seio de uma abastada família extremamente conservadora, devota aos preceitos religiosos mais rígidos e sob influência de crendices e obstinações que moldaram o seu carácter introvertido, preconceituoso e, sobretudo, supersticioso.

Mais do que demonstração de fé, as benzeduras que fazia, em criança, eram provocadas pelo temor que sentia quando presenciava, ou ouvia algo, que lhe haviam incutido como pecado capital e merecedor de castigo divino, por julgar que testemunhar semelhantes afrontas ao divino fazia dele um cúmplice de prevaricação.

Quando alguém vociferava, ele benzia-se e murmurava um “pai nosso”; quando via um casal beijar-se, benzia-se e rezava uma “ave maria”; quando se cruzava na rua com uma adolescente de calções curtos e top minúsculo, benzia-se e evocava o espírito santo.

O seu fanatismo religioso chegou a níveis tão extremos que, ao atingir a idade adulta e com a inclusão que a maioridade lhe outorgou nos eventos sociais familiares, passou a acreditar que apenas ele era digno de bênçãos e favores divinos porque até a sua família infringia os sagrados mandamentos, pela prática da poliginia; por ter acumulado fortuna; pela ostentação revelada nos inúmeros banquetes que organizavam, pela quantidade de objectos de adoração existentes em casa; pela falta de rigor eclesiástico e abundância blasfémia.

Foi por conta dessa revelação que Romualdo fundou a Igreja da Submissão ao Cânone da Palavra, que chefia, gere e é o único membro admitido.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 27 de maio de 2025

Contos que nada contam 41 (Os tamancos da mãe) - Emanuel Lomelino

Os tamancos da mãe

Consciente de estar a anos-luz de poder ser considerada lerda, Anália sente que, por mais experiente que seja nas coisas da vida, não consegue desfazer-se daquela ínfima parte da sua personalidade que recusa abandonar a ingenuidade.

Embora a provecta idade a tenha feito ganhar um elevado grau de perspicácia, ela precisa sempre de mais do que nanossegundos para captar a totalidade dos intentos contidos em cada gesto, em cada atitude, em cada palavra.

Esta característica nunca a impediu de ver o mundo com as cores certas, apenas não permite que as enxergue no imediato. Mas Anália convive bem com isso e até diz, por graça, que o seu carácter vagabundeia entre a infância e a velhice.

Por conta desse traço de inocência, ela demorou algum tempo para concluir que a sensibilidade mesquinha, os pruridos precoces, os melindres desfasados e a falta de senso-comum não são padecimentos exclusivos das gerações deprimidas deste tempo. Há muitos adultos, alguns tão avançados na idade quanto ela, que foram contaminados pelo espírito afrontoso da futilidade leviana, agem tal qual adolescentes rebeldes em busca de protagonismo e fazem beicinho, ou birras monstruosas, quando as contrariedades da vida se atravessam no caminho.

Depois de chegar a esta conclusão irrefutável, Anália lembra-se, com frequência, dos tamancos da sua saudosa mãe.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Contos que nada contam 40 (Cortar o mal pela raiz) - Emanuel Lomelino

Cortar o mal pela raiz

Farto de ser avaliado pelos hipotéticos feitos que lhe eram imputados, por um extenso leque de catedráticos de cortinado (seres alcoviteiros e com pouco sal nas próprias existências), Genuíno apoderou-se das rédeas da vida e deu-lhe outro rumo, sem importar-se com as reacções que essa decisão suscitaria.

Romper com hábitos adquiridos não foi tarefa fácil, no entanto, ele estava disposto a abdicar, mesmo que temporariamente, de situações que lhe eram prazerosas, consciente de que, por vezes, são necessários sacrifícios para se atingir um bem maior.

Embora nunca tenha expressado o sentimento, essa mudança de postura - mais circunspeta, fechado sobre ele mesmo – revelou-se acertada e trouxe-lhe uma paz de espírito inigualável, que passou a ser imprescindível para manter um elevado nível de serenidade e conforto mental.

Hoje, apesar de ter mais dúvidas do que certezas, Genuíno sente-se um homem seguro, com total domínio sobre a sua vida e, acima de tudo, confortável quando tem de cortar algum mal pela raiz.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 16 de março de 2025

Contos que nada contam 39 (Festa de aniversário) - Emanuel Lomelino

Festa de aniversário

O ginásio do polidesportivo estava apinhado de gente. Gerações de descendentes reunidos para celebrar o centenário Anselmo. Filhos (dois), filhas (quatro), netos (cinco), netas (seis), bisnetos (quinze) bisnetas (treze), trinetos (vinte e três), trinetas (vinte e seis), quatro tetranetos e duas tetranetas.

Foi numa cacofonia de conversas de ocasião, sobre futilidades, risos e gargalhadas estridentes, correria e choro de crianças, e olhares distraídos nos ecrãs da moda, que Anselmo apareceu sem ser notado.

Lentamente, aproximou-se da mesa onde estava um enorme bolo de aniversário, olhou em redor, contou os rostos presentes, um a um, sorriu pela ironia do número coincidir com o seu século de vida, soprou o mar de velas apagando todas as chamas bailarinas e formulou o mesmo desejo dos últimos vinte anos: queria ouvir a voz da sua sombra, a única entidade que jamais o ignorou.

Saiu tão invisível como havia entrado e só foi descoberto duas horas depois, abraçado a si mesmo e com um sorriso triste, no seu leito de morte.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Contos que nada contam 38 (No acampamento sem-abrigo) - Emanuel Lomelino

No acampamento sem-abrigo

Leónidas respirou fundo para aplacar o seu estado de fúria, por ter sido obrigado a faltar ao trabalho, para uma reunião com o diretor de turma do seu filho.

Apesar de ser um aluno exemplar e ter excelentes notas, o professor informou que, há algumas semanas, após as aulas, Lúcio não tomava o caminho de casa e dirigia-se para o acampamento de sem-abrigos, que ficava no outro extremo da cidade. Perante o facto, sentiu-se na obrigação de alertar o progenitor.

Com o intuito de não ser precipitado no julgamento e saciar a curiosidade que aquela revelação havia suscitado, Leónidas decidiu investigar mais a fundo as actividades do filho. Esperou o fim das aulas e seguiu-o. Tal como o professor tinha dito, Lúcio não foi direto para casa e encaminhou-se para o lado oposto.

Chegado ao acampamento, Leónidas viu como algumas crianças maltrapilhas rodearam o seu filho e o acompanharam para o interior de uma tenda, tão miserável quanto eles.

Quando tentou aproximar-se para descobrir o que estava a acontecer, foi interpelado por um sujeito. O vozeirão do homem suou como um alarme e, rapidamente, Leónidas viu-se rodeado por alguns sem-abrigo.

Apesar da fúria, mas em inferioridade, explicou a sua presença naquele local e foi surpreendido por uma clamorosa manifestação de reconhecimento por ser pai de quem era.

Leónidas perdeu o soldo de um dia de trabalho, mas ganhou a consciência de ter um filho que, de forma altruísta, sigilosa e desinteressada, passava uma hora do seu dia a ensinar crianças desfavorecidas que não tinham possibilidades de frequentar a escola.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Contos que nada contam 37 (A conversa muda) - Emanuel Lomelino

A conversa muda

Ercília, sentada no seu banco de jardim favorito, interrompeu a leitura, do livro acabado de comprar na feirinha de antiguidades, para observar o jardineiro que parecia estar a conversar com as flores-de-alfazema.

Tal como ela, todos os que ali se encontravam cessaram os seus afazeres para presenciar a cena, que nada teria de inusitado se não fosse de conhecimento público, pelo menos de quem frequentava com regularidade aquele espaço de lazer e descontração, que o jardineiro era surdo-mudo.

Para Ercília, o mais inquietante daquela situação era o facto de, apesar do mutismo claro e evidente, ser invadida pela sensação de estar a presenciar um diálogo definitivo, tamanha a solenidade transmitida pelo olhar irrequieto do jardineiro e pelos movimentos lentos, mas incisivos, que ele fazia com as mãos, como quem revela uma confidência e espera compreensão.

Por breves instantes, os olhos lacrimosos do jardineiro cruzaram os seus e Ercília sentiu um ligeiro desconforto, como tivesse sido apanhada a escutar atrás de uma porta.

Nunca ninguém se deu ao trabalho de associar uma coisa à outra, mas a verdade é que aquele era o último dia de trabalho do jardineiro, antes de aposentar-se.

EMANUEL LOMELINO