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domingo, 26 de janeiro de 2020

DA FONTE LAMEIRA AO ALTO DO CAVALINHO - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Na Fonte Lameira, Miguel bebeu água com um sabor como nunca tinha experimentado. Estava absorvido nesse pensamento e nem deu pela presença de um pastor que o olhava junto a uma capela. Miguel resolveu dirigir-se ao pastor e perguntou-lhe: Sabes dizer-me a quem pertence esta Capela. Responde o pastor: Pertence ao “manhola” da santosa de Asturães. Miguel exclamou: Que idioma é esse? E o pastor respondeu: É o Verbo... ou Verbo da Gata Lapardana.
Então o pastor esclareceu: O Verbo é uma forma de dizer que os Asturianos usavam quando queriam comunicar sem que os estranhos percebessem. Olhe: manhola da santosa é o padre e manhola da esgrabilhação é o professor. Bacalhau diz-se “portela” e vinho é “zola”. Copo ou malga é “cachefre” e então um “cachefre de zola” é um copo de vinho. O verbo que mais se usava era o verbo “besar”; andar, correr é “lastideiro” e casa é “faunho”. Meu, minha é “meu enes”. Então “besar da lastideiro pró faunho de meu enes” significa eu andar para minha casa.
Hoje já ninguém sabe este Verbo e só a circunstância de um antepassado do Miguel ter feito uma espécie de dicionário permite que não se tenha perdido totalmente. O que é uma perda não pela erudição em si mesma, mas pelo que representou para os utilizadores e para a história.
E o pastor mais informou: o penedo que se encontrava a norte da fonte se chamava “cabeça de padre” em homenagem ao padre que erigiu a capela. Então, seguindo a linha de águas vertentes será a linha divisória, comandada pelo alto do espigueiro, o ponto mais alto da serra.
O caminho que Miguel foi sinalizando contemplava as linhas de “águas vertentes”. Nada de especial se apresenta excepto duas situações: a porta do lobo, local onde deveriam passar os lobos quando acossados em montarias, e o Alto do Cavalinho com esplendor igual ao Alto do Castelo. São por assim dizer, duas elevações irmãs.
Foi aqui que Miguel fixou outro ponto divisório.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

DA CANCELA À FONTE LAMEIRA (excerto) - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Aí está o Monte do Castelo cuja conicidade nos leva a ilusões de óptica, parecendo que tudo gira à sua volta. O Monte do Castelo seria assim como o centro do espaço e bem merecia, pois à medida que o visitamos mais nos surpreende. São as fontes de água pura, são os penedos de grande dimensão e não menor variedade e forma, são as pedras com laivos de opalas e quartzo puro, são os arbustos de espécies várias, são ainda os vestígios de civilizações antigas (árabes, romanas e até celtas) e acima de tudo a panorâmica que se avista da Ribeira Lima. “e este sitio se olham vestígios de trincheiras, e estradas encobertas tradição que fora tudo fabricado pelos mouros, tem o castelo chamado da Formiga, que o cerca em ponta aguda sitio deleitável à vista, e é tradição que neste monte residiram muito os mouros, onde se tem achado vestígios da sua habitação, por aparecerem tijolos, e ferros velhos” (in descrições paroquiais de 1758).
Chegado ao Cume a vista era ainda mais deslumbrante e Miguel imaginou que muitas teriam sido as disputas por este paraíso e imaginou que teria sido o bom senso que levou as duas freguesias a considerar que o cume era a marca divisória.
Miguel pensou então: pois se considerar este ponto como mieiro, certamente que a linha continuará até ao alto da montanha.
E mais entusiasmado ficou quando avistou uma capela (a Capela de Santa Justa) e não distante os restos de outra capela (Capela de Santa Rufina) que eram, cada uma, propriedade de cada freguesia.
Miguel logo se apercebeu que teria de subir ao Alto da Serra D’Agra para continuar o seu desiderato. Mas a subida parecia dura e como se aproximava a penumbra, decidiu-se por fazê-lo no dia seguinte.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

DO RIO À CANCELA (excerto) - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Miguel levantou-se cedo para continuar a tarefa. Resolveu seguir o caminho de Estivada, onde só não ficou extasiado com a beleza dos campos porque já tinha visto igual na Veiga da Lousa e Veiga do Sobreiro. Aqui a diferença, nesta Veiga de Estivada, é a proximidade do início da montanha, o que torna o quadro mais diverso, corre o dito rio de norte para sul da ponte para baixo, corta uma grande planície de que é agricultada de lavradores, que aprimora uma das margens do Rio Lima, a que frei Bernardo de Brito chama os Campos Elísio (in descrições paroquiais de 1758).
Em Estivada mora um herói: Chamam-lhe “Cavalaria” dado ter sido um valente soldado dessa arma, onde passou a sua mocidade.
Regressado à aldeia o seu comportamento nem sempre tem sido pacífico e daí a tornar-se um “varredor de feira” foi um instante.
E ele nada fazia para que não o considerassem assim, antes pelo contrário. Mas como diz o provérbio, “cântara tantas vezes vai à fonte que um dia quebra a asa”.
Pois um dia em que uma das querelas azedava lá estava o Cavalaria, mas desta vez também, e do outro lado, um jovem chamado Manuel Sousa, jovem de boa apresentação, educado, generoso, galã, bem ginasticado e senhor da força que a natureza lhe deu e a profissão ampliou.
Ora bem, o Sousa vai-se ao Cavalaria, muito rapidamente o derruba e, sem humilhação, o aconselha a mudar de atitude.
E aconteceu o inevitável. Daí em diante, quando Cavalaria fanfarrona da sua valentia, sempre alguém o questiona: e o Manuel Sousa? E a resposta seca e envergonhada é: a esse homem, eu respeito!

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sábado, 11 de janeiro de 2020

DA LOUSA AO RIO (excerto) - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Era meio da tarde e não havia nuvens no céu. Apenas uma ligeira brisa vinda do norte fazia tremer as folhas das árvores. O que Miguel via era tão profundo e tão belo que nem se apercebeu da presença da Poesia, que aliás não estava prevista. Miguel já não sabia se a beleza era a Poesia ou se a Poesia era a beleza. Fosse ou não qualquer delas, o certo é que sempre aparecia quando a paisagem ou o ambiente se aproximavam da perfeição. O que se avistava era uma sucessão de campos de forma rectangular, sendo as estremas bem definidas. Alguns dos campos já estavam com milho a crescer numa tonalidade verde que nenhuma tinta consegue sequer imitar. Outros campos estavam cobertos de ervas conhecidas, tais como malmequer, scilla, tremocilha, travisco, etc, de todas as cores, mas onde predominava amarelo, roxo, branco e púrpura. Miguel estava encantado e só a custo próprio desviou o pensamento para a tarefa que tinha de realizar. Então reparou que entre duas das leiras a estrema era mais elevada em direcção a sul e depois vira a ponte até ao rio. Miguel não hesitou em validar esta estrema como linha divisória.
Poesia pareceu muito alegre, não sabendo Miguel se assim estava por ver que ele já ganhara o espírito Asturiano, ou por compartilharem o mesmo quadro florido que dava pelo nome de Veiga da Lousa.
Miguel deu por acabada a tarefa do dia e aproveitou para tentar ouvir mais uma peripécia do Ti Reinaldo. Quando chegou ao Moinho estava o Tio Joaquim Landim, a contar heroicidades da sua existência. E sendo um exímio lutador do Jogo do Pau, também conhecido quanto a ser imaginativo ou mesmo deformador da verdade, contava uma das suas lutas “de varrer a feira” e terminava a descrição da luta dizendo: Oh meu amigo, isto tem que ser “pancada dada, pé mudado”. E fazia aí mesmo uma demonstração da técnica do Jogo do Pau.

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segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

DE BOUVIM A PORTELO DA LOUSA (excerto) - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Uma vez encontrado o início dos limites, Miguel estava indeciso se deveria seguir para nascente, descendo o rio, ou para poente, seguindo a ribeira das Andorinheiras. Decidiu descer ao longo do rio, que resultou da junção das ribeiras, passando a ter o nome de Rio Ciadouro, mas mais nomeado de Rio Asturães. Olhando atentamente, para perceber onde estava, viu que a margem direita era morfologicamente diferente da esquerda, indicando imediatamente que seria o rio a linha divisória.
Mas de repente a situação inverteu-se: agora a margem direita era plana e verdejante e a esquerda tornou-se montanhosa. Facilmente se concluía que a linha divisória de aí em diante, não seria o rio. Se aí colocássemos um marco seria o marco de Bouvim.
Cansado da caminhada, Miguel subiu até um pequeno morro, onde uma formação rochosa parecia um Castelo. Aí se sentou, mas rápido se levantou quando, daquele ponto, avistou a beleza e diversidade de cores. Não teve dúvidas: podia colocar aí um marco divisório.
Miguel estava a estranhar a ausência da Poesia e nem de propósito ela aí estava. Perguntou ao Miguel se tudo estava conforme imaginou, e disse-lhe: Daqui até encontrares de novo o rio, possivelmente, não me verás. No entanto quero deixar-te uma indicação que podes ou não, utilizar:

Da amieira com paisagem
Até à fonte de frem
De cerquidelo passagem
E das lebres também

Na cabana a gente sente
A presença de casa nova
A eira de cima não mente
O marco de pedra é a prova

Destes campos de milho
Desprimorar ninguém ousa
Se seguires o trilho
Estás no Portelo da Lousa

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quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

PONTE DO LOURINHAL (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Miguel acordou cedo, se é que se pode chamar sono a um descanso mental. Como disse, o tempo sobre o qual aqui tratamos não se mede em horas ou dias, mas sim em acontecimentos mais reais ou mais sentidos.
O dia estava primaveril e apetecia mesmo começar o trabalho de marcação. Por onde começar era o segundo problema, porque o primeiro era não ceder ao desejo de continuar a ouvir as estórias (peripécias) do Ti Reinaldo. Então Miguel tomou a decisão: vou mesmo iniciar o trabalho, disse para si mesmo.
Mas por onde começar? O melhor é perguntar à Poesia. Assim o fez, mas surgiu o primeiro obstáculo: Poesia estava super ocupada com as pessoas que, aproveitando o tempo magnífico, se resolveram a procurar a sua disponibilidade para melhor gravar os recantos de Asturães.
Miguel ficou um tanto desorientado, mas de repente lembrou-se: vou pedir ajuda ao Ti Reinaldo. Sabendo que dei a palavra a mim próprio que venceria o desejo de continuar a ouvir as estórias fantásticas.
“Palavra prometida, palavra cumprida”, pensou. E assim o fez.
Chegado ao moinho questionou o Ti Reinaldo, que lhe disse:
– Miguel, as tarefas devem começar pelo princípio e posso contar-lhe uma estória para o ajudar. Miguel ficou sem jeito, pois não podia ouvir a estória sem faltar à palavra que era honra, mas também não queria ser desagradável para o Ti Reinaldo. Surpreendentemente e na curva do caminho surge um pequeno grupo de pessoas, com a Poesia à frente, cada um trazendo um molho de linho que iam colocar no areal na extremidade da ilha, mergulhado na água para fazer parte do tratamento do linho. A Poesia percebendo a dificuldade do Miguel disse:

Esta ponte pede meça
À outra sua igual
Chamada do Lourinhal
Onde tudo acaba ou começa

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quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

BOTA ABAIXO REINALDO (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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A história que vou narrar, meu caro Miguel, foi protagonizada pelo Ti Reinaldo e tão próxima de mim que não resisto a pedir-lhe que me deixe descrever a situação, e locais em que tudo se passou.
Nela, é forte participante a GNR.
Na aldeia há uma capela de que já te dei notícia, dedicada a Santo Amaro, santo protector das fracturas ósseas, onde acorrem durante o ano muitos devotos em acção de graças por intervenção milagrosa havida.
À volta da capela há um adro, espaço que se avaliava baldio, com uma área de cerca de 1000 metros quadrados. Esse espaço era muito utilizado pelas mulheres vizinhas, para conversar, mas sobretudo para entoarem muitas canções populares. Este local também era preferido para os namorados e para fazer bailes ao ar livre.
Segundo anciãos que conheci, postulavam que o espaço baldio era maior que o existente. O que é facto é que um dia o putativo proprietário colocou marcos distantes, cerca de dois metros, das paredes da capela, reduzindo o baldio, para uma centena de metros quadrados. Não afirmo que a pessoa em causa não fosse de facto dono do terreno. Nessa data as propriedades não eram registadas, pois nem havia Conservatória Predial.
O caso não foi do agrado de Povo, especialmente dos moradores mais próximos, como era o caso do Ti Reinaldo.
Cabe aqui dizer que o Ti Reinaldo tinha vasto apetite por uns “verdinhos” e nunca rejeitava um “calinhos” (cálice pequeno) de bagaço. Em alguns dias repetia a dose vezes de mais, o que o tornava mais efusivo.

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sábado, 21 de dezembro de 2019

BOTAR O BINÓCULO - ERNESTO FERREIRA

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Miguel estava encantado com as estórias que ouvia e perguntava a ele mesmo como é que o Ti Reinaldo conseguia que as crianças fossem para casa. Sempre queriam ouvir mais um conto e o Ti Reinaldo explicou ao Miguel como fazia com que as crianças sentissem vontade de ir para casa. Bastava contar-lhes a “ladainha” que se segue:
Era uma vez um senhor já muito velho que sabia como adivinhar o tempo. Eu aprendi com ele e vou ver, meus meninos, como vai ser o tempo. Coloco o binóculo que tenho, viro-o para nascente e vejo o tempo que vai fazer. Chama-se a isto “botar o binóculo”:
Colocadas as mãos, uma aposta à outra, fazendo uma espécie de monóculo, começava a recitar, com voz forte e altiva:
– Aí vem nube (nuvem) negra
Não sei se é vento ou trovão
Se são raios ou coriscos
Se são do demo o inferno
Livrai-nos Senhor dos riscos
Das pedras do trovão
–“Fuginde” meninos, que vem aí uma “desgracia”!
Eh crianças que nenhuma ficava para ouvir o resto da ladainha.
E assim as enviava para casa.

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segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

O BANGALA DE FERRO (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Aceite-se aqui que “Bangala” é o mesmo que Bengala.
Era uma vez um homem que vivia na aldeia e tinha uma força colossal, nunca vista. Chamavam-lhe o Bangala de Ferro porque ele andava sempre com uma bengala toda feita em ferro. Era tão pesada que dois homens viam-se aflitos para a levantar do chão, enquanto ele sozinho, a manobrava como se fosse uma pena de ave. Naquele tempo todos os homens gostavam de ter lutas para ver quem era o melhor, fosse a cantar, fosse a dançar, fosse a cortar árvores, fosse em lutas de força ou a jogar o pau, jogo predilecto dos lavradores, etc. Ora bem, o nosso Bangala de Ferro era tão forte que nem valia a pena jogar contra ele. Isso desgostava-o e um dia resolveu ir correr mundo na cata de encontrar quem pudesse medir forças com ele.
Correr mundo nessa época era como tentar hoje visitar a Lua ou Marte ou entrar no negro desconhecido, tal como os marinheiros portugueses o fizeram.
E aí vai ele, mundo fora. Tinha andado aí umas três léguas quando encontrou um homem muito alto e forte que, percebeu logo, teria tanta força quanto ele. E disse-lhe: Eu sou o homem mais forte da minha aldeia e procuro quem possa medir forças comigo. Serás tu, esse homem? O homem respondeu não com palavras, mas com actos. Agarrou o tronco de um pinheiro, com mais de uma braça de perímetro, e num só puxão arrancou o pinheiro pela raiz. E disse: Eu também sou o homem mais forte da minha aldeia e chamam-me o “Arrinca Pinheiros”, mas não vamos medir forças porque sei que há um homem tão forte como nós ou ainda mais e gostaria de o conhecer. Vamos os dois procurá-lo. E continuaram o caminho na sua busca. Até que, uma dezena de léguas adiante, vêem um monte de pedras enormes e um homem, que parecia de pedra, sentado no cume. Ao vê-lo logo pensaram que deveria ser o tal homem superforte que se constava existir. E disseram: Nós somos os homens mais fortes das nossas terras e procuramos um companheiro forte como nós que queira fazer grupo connosco. Quem és tu? Ao que o homem respondeu: Não conheço homem mais forte que eu. Vede, eu arrasei um morro que existia aqui e coloquei as pedras onde me sento. Todos me conhecem como o “Arrasa Montanhas”.

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

A QUADRILHA DE LADRÕES - ERNESTO FERREIRA

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Miguel, a estória que vou contar até me causa arrepios, disse o Ti Reinaldo!
Era uma vez e em tempos não muito recuados, uma situação que, de todo, os Asturianos temiam. As quadrilhas de ladrões.
Tratavam-se, como se diz hoje, de grupos organizados com comando indiscutível, cujo comandante era chamado de Capitão.
Estes grupos atacavam selectivamente, e sempre locais ou situações em que levavam vantagem, dada a surpresa e o equipamento.
As igrejas eram grandemente visadas, dado não serem habitadas, terem caixas com dinheiro e objectos de valor.
São conhecidíssimas as quadrilhas de Chaves e a do Zé do Telhado que, embora com estratégias diferentes, espalham receios nas populações e que ainda hoje são muito temidos. Ocorreu até que alguns dos bandidos foram presos nesta aldeia após o célebre ataque na estrada Braga-Chaves.
Nessa época, sempre que alguém morria era sepultado dentro da igreja e, desde a morte até ao funeral, o corpo estava depositado dentro da igreja onde era acompanhado por familiares, normalmente dois compadres.
Ora, estando um aldeão no caixão e acompanhado por dois compadres, a meio da noite começaram a ouvir um ruído que logo perceberam ser um assalto.
Alarmados, e com receio do que lhes podia acontecer, resolveram utilizar a seguinte tática: retiravam o morto do caixão onde um deles se deitaria e o outro vestiria as vestes do Senhor dos Aflitos (padroeiro da aldeia) e colocava-se no altar respectivo. E se bem o combinaram, melhor o fizeram...
E bem a tempo porque não demorou muito para que a porta cedesse, e como previram tratava-se duma conhecida e temida quadrilha, à frente da qual vinha o Capitão. De imediato começaram a roubar tudo que lhes interessava e após estarem de retirada, um dos assaltantes disse ao Capitão que no caixão estava um morto.
O Capitão, homem de pouca fé e para mostrar ao grupo que nem aos mortos tinha medo, disse:
– Ora bem, amigos, venham cá porque já agora quero ver qual é a cor do sangue de um morto. E palavras não eram ditas, saca da cintura de uma espada e prepara-se para com ela atravessar o corpo do que ele julgava ser o morto.
Aflito, vendo chegar o fim dos seus dias, o falso morto grita:
– Oh Santos do Céu valei-me!
Ao que o outro compadre, feito Senhor dos Aflitos, responde gritando bem forte:
– Espera aí que eu já lá vou!
Perante isto, a quadrilha entrou em pânico e ó pernas para que vos quero. Fugiram todos deixando tudo que tinham roubado até aí, e até a espada do Capitão ficou no chão.

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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

AS PIEIRAS - ERNESTO FERREIRA

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Este conto, diz Poesia, é conhecido em várias versões, em que cada versão tem sempre dois elementos residentes: O Lobo e a Pieira.
Aqui procurando ser tão fiel quanto possível, a versão é a do Ti Reinaldo.
“Era uma vez um guardador de gado que andava na serra a cuidar do seu rebanho. Estava um dia cheio de sol e a pastagem escolhida nessa tarde estava muito apetecível para as ovelhas e cabras. Era um regalo para os olhos ver os animais a pastarem. Assim, o pastor foi-se esquecendo das horas sendo que o fim da tarde não esperava. O rebanho deveria ser recolhido ainda com a luz do dia, pois os lobos viviam e deambulavam por perto, constituindo um perigo para o rebanho. Os lobos, dizia-se, apenas obedecem às Pieiras, coisa de que o pastor se ria, pois não acreditava em Pieiras e muito menos que houvesse alguém a quem os terríveis lobos obedecessem.
Quando estava a reunir o rebanho, auxiliado pelo seu cão chamado Piloto, apercebeu-se que um lobo espreitava acoitado junto ao “penedo furado”. Este penedo era assim chamado porque era de facto furado, sendo até tido como um exame aos pecados em que podia estar qualquer pessoa. Para provar que a pessoa estava de bem com Deus deveria conseguir passar através do furo. Se não conseguisse era sinal de que estava em pecado. Já agora diga-se também que este penedo furado, junto ao caminho de Santa Justa era o certificado de virgindade de qualquer rapariga solteira. Se não conseguisse passar era certo que já não era virgem.
O pastor pensou: se deixo o lobo aproximar-se não evito que ele me mate uma ovelha. O melhor é atacá-lo para o pôr em fuga. E se bem pensou, melhor o fez. Foi em direcção ao lobo com o cajado em riste. O lobo ensaia a fuga e o pastor corre quanto as forças consentiam, para o levar para o mais longe possível. Mas eis que na sua corrida tropeça numa pedra saliente e zazcatrapaz pum, cai desamparado, bate com a cabeça numa pedra e fica desmaiado.
Entretanto o Piloto lá foi reunindo o rebanho e conduziu-o para o curral.
Era noite e a lua cheia começava a surgir no horizonte; o pastor inanimado estava só e sem consciência. Passadas umas três horas começou a despertar. A lua estava mais alta e alumiava quase como fosse dia. O pastor começou a despertar e viu uma enorme cabeça à sua frente. Era o lobo, talvez o alfa, mas ao invés de parecer ameaçador, parecia calmo e amistoso. Uma sonora gargalhada despertou mais o pastor que viu junto ao lobo uma graciosa dama que sorria para ele, ao mesmo tempo que afagava o focinho do lobo. Era uma Pieira!
Fixou o pastor e disse-lhe: Então agora acreditas nas Pieiras ou não? Ficas sabendo que te salvei dos dentes do lobo e quero que, para me pagares, em noites de lua cheia venhas ter comigo para saudarmos a beleza duma noite de luar. E a Pieira ordenou aos lobos que em noites de lua cheia, não atacassem nem pessoas nem animais... o que até hoje vem sendo cumprido, na aldeia e montes de Asturães.”

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domingo, 1 de dezembro de 2019

AS FEITICEIRAS - ERNESTO FERREIRA

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Olhe Miguel, disse o Ti Reinaldo, os contos (estórias) que envolvem feiticeiras ou feitiçarias são, para as crianças, os mais adorados pelos mistérios que contêm e também porque constituem algum sentimento de medo de uma qualquer coisa que não dominam.
Esta história foi-me contada pelo Ti Madorna, que a tinha ouvido de outro grande conversador, que não conheci.
Naquela época - e ainda hoje, de certo modo - no final da missa domingueira, os homens ficavam pelo adro em conversas diversas.
Em alguns destes eventos, era figura de proa alguém que, sendo habitante de freguesia vizinha, era um regalo ouvi-lo não apenas nas histórias que contava, mas também nas análises críticas aos maus e bons costumes.
Então vamos à história contada na pessoa do sujeito passivo, que assim disse:
“Pois ficam sabendo, meus amigos, que as feiticeiras existem e são capazes de coisas extraordinárias. Eu não lhes tenho medo, mas muito respeito, porque as conheço bem. Vejo-as da minha janela quando elas se entretêm a fazer fooorrninhos, que lhes dá muito prazer. Mas quando fazem fffooorninhos não devemos estar à cata, nem maliciosamente as impedir. Pois bem, na semana passada, ainda não era meia noite, fui acordado porque me estavam a erguer da cama. Senti que me levavam pelo ar, sentindo uns ventinhos nos queixos. A lua estava cheia e eu vi que quatro feiticeiras me levavam. As ramas que me tocavam fizeram-me conhecer que estava debaixo de salgueirais e por cima de silveirais, que são, todos sabem, as casas das feiticeiras Nisto senti que me pousavam no chão e eu perguntei: Meninas onde estou eu? É preciso não as tratar mal... Elas responderam-me: Estás na Chão de Agra. Está bem, meninas – não se pode tratá-las mal – por favor, levem-me à minha cama. Eu senti novamente uma brisa a passar-me nos queixos e a voar. Mais uns minutos e senti que novamente me pousaram e eu perguntei: Meninas, onde estou eu? Elas me responderam: Alto do Cavalinho. Muito bem meninas – não se pode tratá-las mal – por favor, levem-me para a minha cama. Senti que novamente me levavam e novamente me pousaram. Perguntei outra vez: Meninas – não se pode maltratá-las – onde estou eu? Ao que elas me responderam: Chão de Antesdelas. Voltei a agradecer e pedi que me levassem para a minha cama, sempre sem as tratar mal. Senti que novamente me levavam, senti um ventinho nos queixos, mas também senti as folhas da minha vinha a afagar-me e de seguida pareceu-me estar na minha cama e perguntei: Meninas onde estou eu? Recordo que não se pode tratá-las mal. Elas me responderam: Estás na tua cama. Então eu disse: Obrigado suas grandes p.tas. Não se pode tratá-las mal.
E, sobretudo, não as incomodar quando estiverem a fazer fffffooorrninhos!”

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terça-feira, 26 de novembro de 2019

O CONTRATO DO PASTOR - ERNESTO FERREIRA

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“Era uma vez um pastor que tinha esse ofício desde que se conhecia.
Os pais tinham morrido, era ele ainda criança, e houve uns vizinhos que tomaram conta dele. Na aldeia não havia escola e as crianças começavam a trabalhar logo que tinham um pouco de tino.
Este pastor foi então para casa desses vizinhos, lá no alto da montanha. Fazia todos os trabalhos, que eram a fonte de rendimento dos seus tutores. Mas principalmente fazia o ofício de pastor.
Todos os dias, logo pela “manhão”, quer fizesse frio ou calor, lá ia ele serra acima para as melhores pastagens.
Escola e Igreja nem sabia o que isso era. O mundo para ele era a família com quem vivia, ou melhor, pernoitava, as ovelhas e cabras, o cachorro que o ajudava na guarda e condução das ovelhas e a serra com todo o seu esplendor. Duma cana tinha feito uma flauta com a qual aquecia a alma e também servia para dar ordens ao rebanho. Ordens tão firmes como as dadas pelo estridente assobio com o qual também interpretava os sons do vira e da gota - danças e cantares tradicionais.
E a vida ia correndo sem novidades. Mas um dia em que resolveu levar o rebanho para um local mais distante, viu ao longe um grupo de pessoas que desciam a serra. Intrigado resolveu perguntar- lhes de onde vinham e para onde iam. Então uma das pessoas explicou: Nós vivemos no alto da serra e vamos para a aldeia ao Confesso da Páscoa. O nosso pastor perguntou: O que é o Confesso da Páscoa? Ao que a pessoa respondeu: Nós vamos ajoelhar em frente ao Senhor Padre, contamos as coisas que não devíamos fazer e os pensamentos maus que nos vieram à cabeça. O Senhor Padre então dá-nos uma penitência que, depois de cumprida, nos limpa dos pecados. Quem não se confessar é como um animal, concluiu o passante ao mesmo tempo que o animava a ir confessar- se. O pastor lembrou-se que costumava, às vezes, roubar uma ou outra “chouricita” aos seus tutores e que um dia tinha pensado fugir para correr mundo e entendeu que talvez fosse bom ser perdoado.
Juntou-se ao grupo e lá vai ele para a Igreja. Chegado aí viu as mulheres a colocar as saias pela cabeça, encostarem-se a um armário com rede e aí falarem com o Sr Padre. Ele fez o mesmo. Como não tinha saia colocou a manta pela cabeça e disse ao Senhor Padre o que entendia como seus pecados.
O confessor então, e pela gravidade dos “pensamentos e obras”, aplicou-lhe a penitência a cumprir: durante um ano tinha que viver apenas com pão e água. Ele aceitou, mas começou a pensar: pão ainda vá que não vá, mas água é que não pode ser; este contrato não me serve. Esperou que o Padre saísse do confessionário e perante a admiração dos penitentes que estavam na Igreja disse: Oh senhor de saia preta que estava naquele “curtelinho”. E repetiu: Oh senhor da cabeça rapada!
Logo que o Senhor Padre ficou atento, disse-lhe: Olhe, se quiser o contrato a pão e leite, muito bem; senão “ca..e” no contrato.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

O CANTAR AO DESAFIO (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Se há coisa Miguel, que dá prestígio na região, e em Asturães também, é ser bom cantador ao desafio, referiu Poesia. “Cantigas ao desafio” é uma forma de duas pessoas se enfrentarem oralmente, cantando, em que cada um procura colocar o adversário em “menor condição”. Isto traduz-se em cada um tentar ridicularizar ou diminuir o adversário ou auto valorizar-se comparando as virtudes de cada um, e de todo o género. A avaliação do valimento de cada um é feita pelo numeroso público que rodeia os cantores.
Isto quando o espectáculo tem lugar em festas e romarias. Hoje é vulgar encontrar mulheres a cantar ao desafio; outrora era muito mais raro e para ouvir uma cantadeira ao desafio só em simultâneo com um baile.
Há uma dança e música minhotas que se chamam “O Fado” que propicia estes debates cantados, já que sendo a melodia suave permite que se entenda perfeitamente o palavreado, ou seja, os “argumentos” de cada um.
O cantar ao desafio não é para qualquer um, pois para o ser, “com preceito”, três aspectos são obrigatórios.
O primeiro é que as quadras ou sextilhas tenham rima e o cantor tenha que ser repentista; em segundo lugar o último verso de cada cantador obriga à mesma sonoridade do primeiro verso do outro cantador; em terceiro lugar (este mais raro) a força da afirmação depende de correspondente parábola justificativa tida no Evangelho, ou de ensinamentos do Novo ou Velho Testamento.
O que implica bom conhecimento dessas obras e interpretá-las conforme melhor lhe convém.
Resta acrescentar que o palavreado picante é muito apreciado.
Infelizmente hoje é recorrente e impróprio o uso de termos que nem abrilhantam o canto nem tem qualquer valor poético.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

sábado, 16 de novembro de 2019

O CONFESSO DA PÁSCOA - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Miguel, a estória que se segue, para dizer a verdade, passou-se mesmo com o Ti Reinaldo e por isso vou pedir-lhe para ser eu a contar. Quero dizer-te, para melhor poderes julgar a atitude reflectida na nossa história, que estamos numa aldeia onde os habitantes, maioritariamente ligados à agricultura, são também profundamente crentes e observadores dos ditames do Senhor Abade.
De entre as realizações mais severamente avaliadas está o cumprimento do Confesso da Páscoa, que sempre tem lugar durante a Semana Santa.
Para o efeito são convidados os párocos das freguesias vizinhas, situação que é comum a todas as aldeias. Os padres deslocam-se a pé ou montados em cavalos garranos, de sua propriedade. De entre os padres que normalmente vêm à nossa aldeia, há um que é considerado muito severo nas penitências aplicadas e não menos severo durante o diálogo do confesso. É o justiceiro Padre Avieiro.
Acontece que o Ti Reinaldo não é dos melhores seguidores das regras de bom católico, só se confessando neste anual evento.
Desta vez calhou-lhe, para colocar em análise de pecador, o tal padre.
Normalmente e depois da bênção, o padre fazia a pergunta habitual: Há quanto tempo não se confessa? Isto significava: Há quanto tempo está em pecado?
Posta esta questão ao Ti Reinaldo, ele respondeu com a verdade: Senhor Abade, já não me confesso há um ano.
Com o conhecido mau feitio, o abade ripostou: Olhe que de ano anda a minha burra! (para que saibas Miguel, este é o tempo de gravidez das éguas...)
O Ti Reinaldo respirou fundo e atirou: Pois isso é que admira, Senhor Abade, pois a sua burra tem confessor em casa... E levantando- se, saiu da Igreja.
A partir dai o Ti Reinaldo entrou para o índex dos abades das redondezas... e de alguns paroquianos.

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segunda-feira, 11 de novembro de 2019

A MÃE DO RIO E OS ATAFAIOS - ERNESTO FERREIRA

Poesia sentia-se muito satisfeita por ajudar o Ti Reinaldo na lembrança das estórias. Desta vez, disse: Miguel, até aposto contigo como depois de ouvires a estória não serás capaz de ir para o rio, na zona do moinho.
Conforme já se disse o Ti Reinaldo exerce o ofício de moleiro, no moinho que existe anexo à ponte.
Como já viste, o moinho, sendo uma estrutura com peças em movimento, constitui um certo e real perigo para as crianças, sobretudo pelos mistérios que imaginam nos locais mais escondidos do moinho.
Assim, como potencial perigo existia a roda e a engrenagem no piso zero a que se chamava cabouco. Aí há engrenagens que transmitem o movimento circular vertical, em movimento circular horizontal. Dadas as potências em análise pode dizer-se que cada acidente pode ser mortal. O acesso mais fácil a essas engrenagens é possível através de uma passagem, tipo ponte sobre a regueira, que serve para acesso à manutenção e afinação.
Ora, o Ti Reinaldo tem que estar muito atento às crianças que por aí passam e então nada melhor que as assustar com os perigos que correm, se forem para esses locais perigosos. E então inventou perigos que as crianças, por mais que procurassem, não encontravam, mas sempre distantes do local onde havia os perigos.
Esses eram “a mãe do rio”, “os atafaios” e as “catacumbas”. E o Ti Reinaldo assim diz: Meninos a “mãe do rio” é uma cobra gigante, que tem umas correntes, que quando apanha os meninos a tomar banho agarra-os com as correntes, puxa-os para a água profunda - os pegos - onde morrem afogados.
Os “atafaios” são lacraus que tem uma unha enorme que quando apanham o pé de alguém lhe dão um golpe como fosse uma faca.
As “catacumbas“ são umas galerias de túneis que ninguém sabe onde acabam, começando no cabouco, e onde vivem fantasmas. Se alguém for ao cabouco poderá ser apanhado pelos fantasmas e nunca mais aparece.
O medo que a todos invadia, quando o Ti Reinaldo nos contava a sua e nossa realidade, da existência desses monstros, impedia qualquer desobediência. O resultado é que não havia miúdo que fosse sozinho para o Rio, e ir para próximo das rodas e engrenagens estava completamente fora de intenção.

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quarta-feira, 6 de novembro de 2019

O CONTO DAS MOCAS (excerto) - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Miguel, diz Poesia: dos contos do Ti Reinaldo, o Conto das Mocas é talvez o que melhor reflecte a amizade que tinha pelas crianças, sobretudo as que, como ele, tiveram uma infância com necessidades.
“Era uma vez um menino a quem morreu a mãe. O pai casou segunda vez e a partir daí a vida do menino passou a ser um inferno. A madrasta obrigava-o a trabalhar em serviços pesados, sem lhe dar de comer. Valia-lhe a madrinha para não morrer de fome. As madrinhas são como segundas mães. O menino andava triste e não sabia o que fazer à vida.
Um dia, mais desesperançado, resolveu fugir e correr mundo. E se assim pensou, melhor o fez. Aproveitou a saída do pai e da madrasta, que tinham ido para a feira da vila, e juntou a pouca roupa que tinha, colocou-a no alforge e aí vai ele a correr mundo.
Ao fim do dia, já ele tinha corrido cinco léguas, quando começou a cair a noite. Então é que se lembrou que não sabia onde dormir. A fome começou também a sentir-se, mas lá encontrou uma espécie de toca, debaixo de um penedo, onde dormiu toda a noite. Na manhã seguinte, cheio de fome, continuou o caminho, mas a cada passada que dava a fome ia sendo mais forte e as pernas iam ficando mais fracas. Até que a meio da manhã, cheio de fome e sem saber o destino, o menino sentou-se no chão a chorar. O desespero era maior que o choro. O sofrimento aumentava e a esperança rareava.
Mas de repente o menino sentiu um grande arrepio e olhando em frente viu uma senhora, raiando uma luz prateada, que de súbito lhe pareceu a madrinha que lhe dava de comer. E a senhora perguntou: Menino, porque choras?
O menino respondeu: Eu fugi de casa por causa dos maus tratos que me dava a minha madrasta e agora estou perdido e cheio de fome. Então a senhora deu-lhe um anel de ouro e disse-lhe: Pega este anel e sempre que quiseres, basta dizeres ao anel: “anel faz o teu dever”, e logo terás uma mesa, farta de comer. Dito isto, a senhora desapareceu. Era Nossa Senhora, mãe de Jesus, assim pensou o menino.
O menino quis experimentar e, ditas as palavras santas, logo apareceu uma mesa farta de comer... Comeu tudo o que quis, do bom e do melhor. Parecia que o céu se tinha aberto para ele. Estava neste mister quando lhe apareceu um viajante. Tratava-se de um homem de aspecto pobre, com um saco às costas, que, quando chegou ao pé do menino, perguntou-lhe porque estava ali a mesa. O menino explicou o milagre do anel.

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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

OS TOCADORES DE RABECA - ERNESTO FERREIRA

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Miguel, o Ti Reinaldo vai contar-te hoje o primeiro conto do seu reportório. É um conto em que a Rabeca é um elemento importante. Era um dos instrumentos musicais mais prestigiados nos tempos que já lá vão. É um instrumento de origem árabe, antecessor do violino e de muito menor qualidade sonora. Na região do Alto Minho raramente se vê, mas era muito popular no sec XVIII. Sobre este instrumento há um belo trabalho feito por Giaccometi, artista que fez várias recolhas etnográficas na aldeia e que até hoje, infelizmente, não teve ainda a merecida homenagem. Daqui por diante ouve o Ti Reinaldo.

“Era uma vez uma aldeia que muito se questionava e o povo dividia-se na apreciação da qualidade de dois tocadores de rabeca, que aí viviam.
Um chamava-se Venâncio; o outro Valentim. Na realidade onomástica, para o povo nessa aldeia do Alto Minho, eram o Benâncio e o Balentim. Numa faceta, eram por todos igualmente apreciados: eram amigos e se alguma adversidade havia entre os dois, era desejo de cada um ser mais perfeito tocador que o outro.
Porém, uma concorrência sádia, que se traduzia no incómodo que ambos sentiam nas paixões por vezes menos doces que os respectivos apoiantes interpretavam.
Até que Venâncio encontrou uma forma de acabar com a dúvida sobre quem era o melhor artista: se ele, se o Valentim. Assim propôs a Valentim o seguinte desafio:
– Oh, Balentim, desafio-te a que seja o Senhor dos Passos a dizer qual de nós é o melhor. Para isso cada um de nós vai dar três voltas à capela, a tocar uma rabecada. Finda essa, entra na capela, ajoelha-se em frente ao Senhor dos Passos e toca uma rabrianada (assim chamavam a peça musical tocada em arraial). Ajoelhado espera pelo julgamento do Senhor dos Passos. Valentim aceitou o desafio e calhou ser Venâncio o primeiro a cumprir a sua demonstração musical.
Deve saber-se que nessa altura o Senhor dos Passos, além de ser o Padroeiro da aldeia, era tido por todos os aldeões como Santo de bons ofícios e milagres, e senhor de opiniões e sentenças como nenhum juiz de fora seria capaz.
Verdade que nenhum dos aldeões alguma vez ouviu o oráculo do Senhor dos Passos na presença de testemunhos. Era sempre uma conversa a dois.
Mas ninguém se atrevia a duvidar que alguém mentisse invocando o santo nome do Senhor dos Passos em vão. Pelo sim pelo não, era conveniente aceitar.
Bom, no dia aprazado para a resolução da contenda, todos os aldeões se juntaram no adro de capela para assistir ao mais belo momento musical e alguns, desconfiados, para aquilatar da justiça do Senhor dos Passos. Já havia alguns “pedreiros livres” dissimulados, como era mais seguro.
Até que chegaram os dois contendores, alvos do maior respeito dos presentes.
Começou então o Venâncio que iniciou a primeira das três voltas à capela e dando desde logo azo a que os seus adeptos se mostrassem confiantes no melhor resultado. Findas as voltas entrou na capela e perante o Senhor dos Passos deu início ao tema que melhor sabia interpretar. No final ajoelhado em frente ao Santo esperou o seu veredicto. Como disse, este acontecimento era tido sem testemunhos. Após uns momentos, Venâncio levantou-se e tomou a saída da capela. No adro e perante a curiosidade de todos, e ansiedade dos seus adeptos, disse: O Senhor dos Passos ouviu-me
tocar e não disse nada, mas as lágrimas corriam-lhe pela cara abaixo, tão maravilhado estava com a minha actuação.
Seguiu-se o Valentim. De igual modo tocou a sua rabrianada, dando as voltas à capela e entrou na dita. Aí, em frente ao Senhor dos Passos, sozinho, como era de preceito, fez valer os seus dotes de tocador.
Cá fora a multidão esperava as palavras de Valentim para todos ficarem a saber a opinião, que seria lei daí em diante, do Senhor dos Passos.
Num silêncio sepulcral, Valentim disse:
– Oh, Benâncio, o senhor dos Passos para ti chorou, mas para mim até falou e disse: Ah Balentim, Balentim, podes ir tocar prá casa (dependia do ouvinte) que nunca ouvi tocar assim!
Opinião que passou a valer não só por vir de quem vinha, mas ainda pela força dos palcos onde podia actuar Valentim, na opinião do Senhor dos Passos.”

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sábado, 26 de outubro de 2019

AS ESTÓRIAS DO TI REINALDO (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Miguel, fixa esta frase: Reinaldo, um Artista que devemos recordar, diz a Poesia.
Os mais novos da aldeia não o conhecem como tal, mas todos sabem que é moleiro e sabe contar contos fantásticos. Os mais velhos, aqueles que com ele convivem, têm-no na conta, mais das vezes, de um pobre diabo que se sustenta das parcas maquias que são a moeda de troca pelo trabalho de moagem. A dura vida da aldeia, na época de carência, não deixa tempo para apreciações mais cuidadas. Cada um vale pelo seu poder económico, que no caso em apreciação se aproximava do zero. Felizmente que os jovens da minha época ouviram dezenas de vezes as suas estórias, contos e peripécias, sempre com a emoção de quem as ouve pela primeira vez. O que de todo não era falso já que o Ti Reinaldo, cada vez que conta um conto, lhe empresta uma nova tonalidade e emoção. Como qualquer artista doutra área da cultura. Esses jovens, hoje já na 3ª idade e com uma formação mais cuidada, recordam o contador de histórias e menos o moleiro. Tenho a sorte de ainda pertencer a esse grupo etário. Ao escrever algo sobre o Ti Reinaldo quero pagar-lhe em memória, para todo o sempre, os fantásticos momentos que me deu e dá, de exaltação do imaginário.
Um imaginário por vezes assustador, pois alguns dos seus contos metem figuras sinistras e situações em que Satanás é a mais santa das entidades envolvidas. Mas não é apenas um contador de estórias. Tem uma voz maravilhosa que, aliada ao familiar dom da música, o torna um expert do cantar seja ao desafio, seja a cantar as Janeiras, seja nas “ramboiadas” que adorava e adora.
Uma das manifestações mais apreciadas são as “tainadas”, normalmente aos domingos, depois do terço, ou no dia de S. Martinho, a 11 de Novembro, quando o provérbio, “no dia de S. Martinho,
vai à adega e prova o vinho”, está sempre presente. Eu aí nunca estou presente, diz a Poesia. Os viticultores juntam-se para, pela primeira vez, apreciar e qualificar o vinho da colheita de Setembro/Outubro. A prova dos vinhos é “aconchegada” com a ingestão de umas tapas (broa e chouriça) e com facilidade a euforia se torna desafiadamente sonora.

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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

O MOINHO DE ASTURÃES (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Miguel, disse a Poesia, para melhor te identificares com o Ti Reinaldo, é necessário que conheças locais e factos, que ele possa recordar.
Um deles é o moinho, provavelmente o símbolo mais valioso da freguesia.
Não se sabe exactamente o ano de construção, mas pensa-se que teria sido nos meados do século XVII.
Sabe-se, isso sim por documentos e escrituras existentes, que foi adquirido por Ana Joaquina da Rocha, antepassada (pentavó) de Miguel, aos senhores Viscondes de Bertiandos em três de dezembro de mil oitocentos e quarenta e nove, cuja escritura se plasma em parte:
... uma azenha e engenho de serrar e uma insua, pelo fôro anual de dez mil reis em dinheiro, uma galinha de lutuosa e laudémio de vintena etc, seguido de condições de garantia.
Este moinho tinha duas funções: moer cereais, especialmente milho, e serração de madeira. Por essa razão tinha duas rodas verticais, sendo que, após cessação da serração, este equipamento motriz foi utilizado na produção de energia eléctrica.
A função “serração”, que cessou no final do século dezanove, era interessante e ela obrigou à existência de uma porta com acesso à ponte românica. Assim os toros de madeira entravam pela porta virada à ponte e saíam para o eido pela porta do lado sul onde as tábuas eram encasteladas para promover a sua secagem e arrumação.
A função moagem terminou no século passado, existindo ainda em condições de funcionar. O Ti Reinaldo trabalha aí há uns bons 40 anos.
O moinho tem cerca de 100 m2 e, enquanto morada do Ti Reinaldo, tem uma cozinha, um galinheiro, a sala do equipamento e um quarto, este de piso elevado em relação ao salão da mó para defesa das cheias do rio, que são vulgares.
Como podes ver Miguel, o moinho e a ponte parecem gémeas, pese embora terem sido construídos em épocas bem distantes.
E com o conjunto das duas ilhas, a jusante e a montante da ponte, mais a corrente de água límpida, constituem um quadro que qualquer pintor não resistirá em gravar. Com o privilégio raro de, sob qualquer posicionamento, sempre ter em frente de si, quadro de infinita beleza.
(Miguel não conseguiu comprovar, mas dizia-se que a Poesia teria nascido aqui. Verdade ou não, assim o afirmam os aldeãos).
No rio, nadando ao seu modo e conforme as épocas do ano, podemos ver lampreias, enguias, barbos, escalos, trutas, bogas e solhas e fugidiamente o seu predador “pica-peixe” pássaro, com penas de múltiplas cores e o seu principal predador, as lontras. As trutas constituem a espécie mais procurada pelos pescadores desportivos e pelos visitantes, cada um com seu interesse. Os primeiros
para disputa de troféus; os segundos para observar os saltos espectaculares das trutas, na caça aos insectos que sobrevoam a água do rio.

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