terça-feira, 31 de agosto de 2021

Trivessia - DAIANA PASQUIM

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A cabana não era de qualquer das cores inventadas pelo homem. Era caprichosamente desenhada pela ação secular do vento e da umidade, dia após dia, com as mudanças das estações do ano. Definir em poucas palavras sua aparência, seria: surrada pela natureza. Isso conferia certo mistério para aqueles três metros quadrados. Com a porta entreaberta era possível enxergar as panelas amassadas de tantos cozidos, penduradas em um dos cantos, donde se revelava a metade de uma chapa sobre tijolos amontoados. Estas quatro paredes cobertas por palhinhas dispostas em feixe, lado a lado, protegiam da vida aquela senhora reclusa, não-vinda, mas nascida ali, como um broto de árvore que rebenta, cresce e vai se ramificando amplamente ao envelhecer.
A senhora da cabana detinha conhecimentos herbários aos quais a vila recorria: para picada de bicho brabo ou doença danada, daquelas que deixavam de cama. Ela era pouco vista rodando por aí, mas muito visitada, apesar de pouco amistosa, nunca negava um atendimento em caso de necessidade. Sua linguagem se traduzia muito mais em ações, que em palavras. A expressão corporal de acolhida, a mão estendida com o fruto, flor ou erva certeira, o aceno de cabeça e o olhar firme era toda a posologia que aquela gente queria. A senhora da cabana era dona de um olhar profundo e inspirava uma magnífica confiança. Era esse olhar que salvava seu vocabulário enxuto e preciso. Mesmo sendo tão prestativa à vila, sem paga nem reza, nutria uma solidão “ensimesmada”. Por mais que parecesse, a natureza não lhe bastava. Em seu passado, uma ruptura continuava ecoando.
Isso até o dia em que as gêmeas chegaram. Duas desgrenhadas loiras, madeixas compridas e entrançadas com vários fios solto moldados pelo vento, canelas finas e pescoços compridos. Mas o que denotava sem dúvida o parentesco era o mesmo olhar profundo e a escassa expressão vocabular. Suas presenças, contudo, tinham um “que” de alegre vistos naquelas pequenas flores em verde, no vestido acinzentado de um fundo que já foi branco.
De casa em casa, passaram pela vila em busca de algo, ou alguém. Primeiro, na dona Ana Benzedeira, depois logo começaram todos a falar das gêmeas viajantes. Inspiravam 17 anos. Até que um dia não restou mais dúvida: as garotas seriam da linhagem da senhora da cabana. Filhas, corriam à boca pequena, pela vila toda. Mas demorou para que chegassem lá. Por mais que tão logo aparecessem no povoado já soubessem da existência, demoraram alguns dias para perfilarem-se defronte àquela cor não inventada pelo homem. Foi naquele por de sol de sexta-feira que, lado a lado, apareceram em frente a porta da cabana. Não encontraram a velha logo de cara. Mesmo uma quase eremita estranhamente havia saído de casa naquela tarde. Quem sabe por que viria a ser aquela uma noite de pleníssima lua cheia. Aquela que costumam chamar de Lua de Sangue.
As gêmeas continuaram na soleira da cabana a aguardar. O sol desceu. De repente, as folhas das árvores em derredor puseram-se a mexer. Uma crescente onda se aproximava... o compasso da mãe anciã começou a acelerar. Seus olhos se encontraram. Anos de espera e separação. Mudas, naquela constante e familiar linguagem que às três mulheres lhe eram conferidas. A senhora da cabana diminuiu o passo, agora mais leve, menos constante. Não era possível o que os seus olhos traziam. Poderia mesmo confiar na íris?
Não eram gêmeas, eram trigêmeas. Pisando aqui na Terra, a senhora da cabana carregava sozinha aquele DNA triplo, que a deixava erma em si mesma. Quem sabe até mesmo por isso, encerrada o fosse: não era uma, era trina. Ao olhar-se no espelho d’água enxergava multifaces. O rio, dias mais cheio, dias mais vazio, com turbulências como a própria metáfora do estrangeiro que volta às origens. Útero é água. Em dado momento, estiveram as três unidas. Em apenas uma, o coração bateu. Tão cedo aprendeu que nunca se entra duas vezes no mesmo rio. Nem nós, nem as águas, seremos as mesmas. Recebeu a visita da terceira margem. Uma questão metafísica em sua loucura e solidão, do feminino com fluídos e ervas. O peito dela se aqueceu de travessias. Uma grande luz se antecipou da lua e a infusão aconteceu. O clarão fora de longe avistado.

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segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Sempre Comigo - CRISTINA RODRIGUES

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A manhã estava vazia, imersa num olhar apagado. A linha do horizonte, perfeita, sem os retoques subtis das tardes quentes e ondulantes. No ar pairava o cheiro a invocar flores campestres e searas sacudidas pelo vento. A noite fora fresca, as portadas das janelas ficaram abertas e uma aragem fina tinha varrido o espaço, como uma carícia na pele nua. Tudo parecia estar no seu devido lugar, tudo exceto os meus pensamentos, sempre em desalinho, a sacrificar a calma aparente. Desliguei o despertador atempadamente para não acordar com a campainha a tinir-me nos ouvidos, e emergi num torpor enganador de quem ainda dorme um sono sossegado. As noites continuavam inquietas, o sono agitado era pontuado pelo toque das tuas mãos no meu corpo e a tua voz nos meus ouvidos. Acordava coberta de suor e com o gosto do teu beijo, ainda, nos meus lábios. A manhã devolvia-me imperativamente ao dia e à realidade mentirosa: tu não estavas, nem nunca tinhas estado. Talvez para manter a tua voz em mim, deixava-me ficar por mais uns minutos na cama, presa ao desejo, de olhos fechados, imaginando que os teus dedos longos continuavam o seu passeio pela minha pele. Cerrava teimosamente os olhos para não te perder, e a tua presença ali ficava, como uma manta que me aconchegava e devolvia a certeza que, embora ausente, estiveras comigo.
Finalmente deixei-me acordar, espreguicei-me e bocejei. Puxei o lençol para me cobrir e levantei-me levando-o comigo, ele seguiu-me lambendo o chão até à casa de banho. A pequena janela do aposento deixava entrar os raios imprecisos da manhã, por entre a portada, e os mesmos desenhavam reflexos difusos na parede. A luz e a sombra unidas em contornos bem definidos, num bailado sem pertença, (um pouco como nós).
Parei junto ao espelho e olhei-me, nos meus olhos estava refletido o desejo. Estranho olhar esse, uma mescla de anjo e de demónio. Por dentro dessas janelas profundas espreitei o meu amor por ti. Os meus olhos tinham escurecido, o meu olhar brilhava com a mesma intensidade que as candeias na escuridão. Sorri, como quem vê uma miragem que é só sua. Porque há coisas que ninguém nos pode tirar.
Nasceste há muito tempo atrás, quando o meu mundo escurecia. Eu chamei-te sem pronunciar o teu nome e tu vieste sem conheceres o meu. Surgiste como uma brisa, uma bruma sorrateira, um cheirinho a café numa manhã de inverno. Chegaste como uma mão que surge do nada e nos agarra no derradeiro segundo antes de cairmos no abismo. A minha bússola tinha perdido o norte e só me indicava o sul. Dentro de mim pereciam os sonhos e cresciam as incertezas, a par com a mania que o amor não me estava destinado. Acordei para o mundo a sentir-me só e esse sentimento nunca me abandonou. Estar só era o meu fado, tentei contornar essa certeza e acreditar no engano. Tornei a olhar-me no espelho e passeei-me pelos contornos do rosto, as marcas no corpo, o suave respirar no meu peito. Deixei o lençol escorregar e fui lendo as histórias escritas nas rugas da minha pele, descobri-lhe os sinais, as ausências de carinho. Talvez o amor não fosse para mim, mas o tempo coutou-me que a insanidade tudo permite, as peças mudam de lugar, as incertezas podem virar certezas, o errado parecer tão certo. A insanidade permite-nos ser livres, ilimitados, complacentes com a anarquia. Permite-nos acreditar, e isso é tudo o que eu mais preciso neste momento.
Tu não existes, bem sei, mas inventei-te com a certeza que estarias sempre comigo. Assim, nunca estou só. As noites embora inquietas são partilhadas nos teus braços, encosto-me a ti e tu deixas-me ficar. Conheces os meus medos, a fragilidade dos momentos que nos fazem felizes, a fugacidade dos ápices cruciais. Partilho contigo os pensamentos ousados, os olhares demorados, o formigueiro na pele que se deseja, escuto a tua voz que me embala e visto-me com o teu sorriso.
Amanhã o dia amanhecerá novamente juntando-se a todos os dias passados. Insistirei em cerrar os olhos mais uns minutos para não te perder, em manter a sensação vertiginosa do desejo consagrado, gravado na pele, os beijos guardados sobre o coração, os gemidos agasalhados na voz. Manterei a paz que vem com o silêncio. Despertarei para procurar o teu olhar, ouvir a voz que preenche o vazio. Acreditar no abraço que me resgata do mundo, o beijo que me aquece e ilumina. Porque tu não existes... bem sei, mas ninguém precisa de saber que estás sempre comigo.

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domingo, 29 de agosto de 2021

Memórias de Vida - CRISTINA FERREIRA GREGO

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Sentada em frente ao computador e de olhos absortos na página em branco, o título martelava-me na cabeça. Trajava de pijama e robe. O cigarro apagado, permanecia entre os dedos da minha mão engelhada.
Lembranças da minha existência. Pareciam excertos retalhados de outros tempos, de uma vida sentida por outra que não eu. Não dormi naquela noite, que se fez madrugada, arrastando as horas até ao entardecer. No escritório, as luzes apagadas e a cortina pendente atrás de mim, criava um travão ao sol e uma barreira para o mundo. Os minutos foram gastos entre a dor que me atormentava o físico e a dúvida que me lacerava a alma.
As palavras do meu marido ecoavam pela casa. Chamava o meu nome e dizia insistentemente que os convidados chegariam em breve. Os setenta e dois anos carregava-os eu, mas ousava celebrar a data perante os outros. Existirá pior motivo para comemorar? O de um corpo que me trai e me devolve uma imagem em decadência. Um espírito que carrega o fardo de estórias imaginadas e que inusitadamente não quis passar para o papel enquanto jovem. Ou talvez me tenha faltado o talento. Agora, encontram-se condensadas em placas, nas metástases que me invadem o cérebro. Vesti-me sem o aprumo de outra época. A vaidade, era um pecado que já não habitava em mim.
Acho que dei as boas noites e que, embora calma, trazia uma palidez de cera. A noite foi invadida por um aguaceiro forte, ouvia-se uma chuva grossa e pesada lá fora. Nunca mais esquecerei esse momento, as pessoas a falarem não sei de quê e eu a percorrer a sala com o olhar, o chão, as paredes, o enorme salgueiro por trás da varanda. Enchi um copo com uísque e saboreei, enquanto o ardor escorria pela minha garganta. Olhei de longe o meu marido. Ousei lembrar-me das linhas do seu corpo jovem e de como tantas vezes me deixei amar entre aquelas paredes. Continuei a beber. Pousei o segundo copo e fiquei. Sentia-me mal, nunca me senti assim, murmurei numa lassidão arrastada.
Silêncio brusco. Espantoso como o meu eu se havia transformado noutro alguém, noutra personagem menos imediata e menos concreta. A minha imagem no vidro contornada pelo reflexo das luzes sabotava a minha essência. A iminência da morte dava-me a passividade de quem já se sente ausente. Se ao menos me fosse dado o tempo suficiente para escrever a minha última obra. Sentia o constante desinteresse da mulher desabitada de pessoas e de lugares, de tempos e de sentimentos.
As gargalhadas dos outros contornavam a lacuna do meu vazio. Tocavam-me e felicitavam-me pela riqueza de vida que acumulava. Um casamento feliz e tantas obras editadas. Décadas de palavras aglutinadas e prensadas nas estantes de quem me quer ler. Memórias que se esvaem no presente. O meu coração pulsava de tristeza. Senti-me uma condenada, que ao deambular entre os convidados, abria vagarosamente e voluntariamente a minha cova. E eles, no seu papel de cangalheiros, me cobrissem com pazadas de terra.
Remeti-me a um vagar introspetivo que arrastei comigo até ao piso superior. Escutei o ranger da madeira na pesada porta do nosso quarto. Os passos, que sabia de cor, tornaram-se mais longos e espaçados. A janela entreaberta deixou entrar o frio que me enregelou os ossos. Fixei o salgueiro, que pareceu jorrar lágrimas que entranhavam na terra, formando um ciclo único de dor. Fechei os olhos e deixei o peso do meu corpo arrastar-me para terra.
Perdi a vida anterior. E a interior, bem entendido, tinha as referências do passado onde moraram os afetos e os laços sentimentais que me impeliram a escrever, mas que tardavam em chegar.

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sábado, 28 de agosto de 2021

Vinte Anos Depois - CLÉVIA WESTPHALEN

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Os guarda-chuvas colidiram na faixa de pedestres num fim de tarde. Na urgência do sinal que amarelava soltaram um "desculpa, desculpa" distraído. Reconheceram-se pela voz. Oi, há quanto tempo! Que bom ver você! Não vamos ser atropelados justo agora, que tal um café? Sem esperar resposta a conduziu pelo braço. O tempo retém as significâncias e resgata o guardado com precisão cirúrgica, se a vida assim dispuser. Lembrou dos anos de dinheiro curto quando, na volta do cinema dividiam um filé no restaurante da esquina.
Frente a frente na cafeteria o assunto fugiu. Ela quebrou o silêncio e perguntou, como vai a vida? Ele foi evasivo, tangente. Continua escorregadio, pensou. Casaram jovens, se separaram maduros. O casamento dele terminou antes que o dela. Quando sentiu que a coisa degringolava, ela se agarrou na ilusão do amor eterno. Há de passar, pensou. Não passou. Ele remoçou. Namorou, dourou a pele e coloriu a vida. O basta foi brado dela.
União sem filhos – único laço indestrutível – não houve mais natais nem aniversários, tréguas onde a civilidade, em nome da prole, é obrigatória. Nunca mais se viram até aquele dia chuvoso. O papo se arrastava cheio de vazios, ele alegrinho e sem assunto; ela, com uma enciclopédia na ponta da língua. Onde você mora? Jamais imaginei encontrá-la atravessando a rua. A cafeteria já ia fechar. Temos que ir, ela disse. Percebia que o que entenderam como sucesso na vida tinha absorvido os vinte anos de união. Finda a labuta de comprar o apartamento maior, o carro melhor, havia segurança financeira e um casamento em frangalhos. Ela lutou para ressuscitar o que já não era. Ele não queria mais nada.
Quando se viu sozinha mudou de cidade, de amigos e de história. Construiu a vida na sua justa medida. Vamos nos encontrar sem hora marcada, foi a sorte que me trouxe você! Olhava para ela, feliz. Vai que dá para sermos amigos, ela pensou. Maduros, não tinham mais premências a atropelar a razão, mas precisava pensar antes de deixá-lo entrar novamente na sua vida. Brincou que iria implicar com ele. Vou me incomodar com o seu cabelo e como você me esconde dos amigos que não me apresenta. Não, não, mudei muito, acredite. Não acreditou, mas ficou tentada a deixar-se iludir. Como quando, fascinados pelos voleios do mágico, enxergamos o que não existe.
Posso ligar para você? Quando ela começava a recitar o número, o celular dele tocou. Não atende, mas inclina a cabeça para digitar uma mensagem. Quando ergue o olhar, desperdiça o sorriso amarelo. Ela não está mais ali.

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sexta-feira, 27 de agosto de 2021

De nuvem em nuvem... - CLÁUDIA CARVALHO MENEZES

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Estava admirando o céu de minha janela, quando uma nuvem em formato de escada me convidou para um passeio inevitavelmente belo! Abri a janela, subi a escada macia e aveludada, toque de seda nos pés. A cada degrau uma surpresa, quanto mais distante da terra, mais a terra era um algo só, amálgama de tudo: carros, prédio, casas, pessoas. Quanto mais subia ao céu, mais meu coração se alargava, minha mente arejava e não sentia os limites deste corpo, tão hermeticamente fechado em si mesmo. Olhava para baixo, e a terra ia ficando sem prédios, sem praças, sem diferenças, tudo um só, um todo único, sem bordas, um contínuo! Quanto mais acima, mais minha mente declinava numa abertura sem retorno! No topo da escada de nuvem, com o ser em plena acolhida para o universo, nada como se jogar sem medos, porque eu, a nuvem, a terra, tudo era um só existir... saltei!
Um avião me levou a outra nuvem, parecida com um dragão com sua boca escancarada! E fui logo adentrando ao convite formal de digestão de minha pessoa, mas nada de ácidos e sim uma sensação gostosa dos vapores de água a lavar o que restasse de passado e futuro. Apenas aquele momento tão ímpar, o presente, único momento que verdadeiramente existe e que muitas vezes desperdiçamos... Mas ali, o que pensar? Nada! O que sentir? Nada! Apenas existir! E existir no meio do esquecimento, sem o tempo...
A nuvem pesada perdeu altitude, transpassou uma árvore. Aproveitei seus galhos e volto a perceber meu corpo, mas um corpo que experimentou a liberdade de estar fora de si! Não dá para voltar atrás. Entre o galho e eu não há limites, tudo é um só. Sussurro ao galho, ele se curva e me lança ao céu...Caio em uma nuvem que lembra as areias da praia de minha infância. Meus pés, tão à vontade, percebem a firmeza de um algodão. E quanto mais caminho, mais próximo do sol, e suas luzes criam um espetáculo à parte, pintam a seu bel prazer as areias desta minha praia... de cinza claro a cinza escuro, de branco a dourado... Não me canso contemplar tão magnífica tela celestial. Deito e respiro a nuvem! Tudo sou eu! Quanto mais absorvo a realidade que vem de fora, mais se dilui meu eu na experiência do encontro...
Há palmeiras no meio de uma avenida, que deixam a paisagem de minha praia ainda mais real! Sento-me embaixo da palmeira, sinto o chão, caminho no meio fio, atravesso a rua, volto pra casa. Entro no prédio, pego o elevador, abro a porta, caminho até a janela e sorrio para o céu que sou eu...

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quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Do avesso ao verso - CHRIS HERRMANN

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Naquele dia quente, eu completava 501 anos, com cara de ‘brotinho’ de 45, quer dizer, 445 anos. Meus descendentes formavam metade da população de Duisburgo, aqui na Alemanha. Todos muito ocupados para comparecer festinha que não foram convidados porque eu não queria, enviaram seus hologramas para me parabenizar. E eu, tadinha, muito ocupada com meus exercícios (débeis) mentais, agradeci a todos em todas as línguas que estudara nos últimos 400 anos. Ou seja, todas as línguas esquecidas e mortas do planeta.
Porém, ninguém me entenderia, ainda que tivesse prestado a atenção. Em seguida, estava me preparando para dizer AGORA CHEGA, DEIXEM-ME IR EMBORA PRA CATENDE, quando uma criança de uns 5 anos, que não era um holograma, se aproximou de mim e me perguntou em uma língua que eu ainda não tinha estudado mas compreendia, sem nem mexer os lábios:
“Vó Chris, você está triste?”
E eu: “Sim, penso que me transformei em uma selvagem que não compreende mais este mundo novo.”
E ela: “Não é verdade, vó. É este mundo velho, repleto de seres selvagens que não compreendem e nunca respeitaram os seres humanos sensíveis e solidários.”
Eu: “Você sabe isso tudo com apenas 5 anos?”
Ela: “O tempo dos humanos é infinitamente menor que um piscar de olhos no universo, vó.”
Eu: “Por que você está me dizendo tudo isso, criança?”
Ela: “Porque eu sou você há milionésimos de um piscar de olho universal e não queria que você fosse embora triste.”
Eu: “Se eu gritar de dor você me acorda?”
Ela: “impossível você sentir dor nesse travesseiro de eternidades, vó. Além do mais, eu serei o seu cobertor e você o meu cueiro”.

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quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Quando parei de subir em árvores - CÁTIA CASTILHO SIMON

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Como dizer em palavras o que havia acontecido? O que falar daquele amigo da família que ao me ouvir responder que não tinha mais ninguém em casa, forçou a porta e me jogou no chão? Como nomear o que aconteceu com o meu corpo que se contraiu e enrijeceu na esperança de ejetar o que violentamente se impôs entre as minhas pernas? Como chamar a um amigo que trai a confiança de todos assim? Inimigo? Não dá conta. Abusador é pouco, é outra coisa. As palavras que conheço podem descrever o que aconteceu a outras gurias da minha idade, mas a mim, não.
Agora fazia sentido a perturbação em sua presença. Estranhava a mudança de comportamento dele frente a meus pais; ignorava-me como se fosse invisível. Quando por acaso ficávamos a sós, em breves momentos, sentia o corpo esquentar como se o olhar dele me queimasse por inteira. Pelo canto do olho eu o via encarando-me, só desviava os olhos quando alguém se aproximava. Um dia tentei contar isso para a mãe que me cortou a palavra na hora. Disse que era coisa da minha cabeça e que o tal fulano era respeitoso como um filho. Ríspida, acrescentou que eu devia mudar as roupas que usava, pois não era mais criança. Então guardei todo aquele incômodo para mim, e não falei mais.
Atirada no chão, passei a mão entre as pernas e a viscosidade do sangue me assustou. Ele sequer me deixou falar, muito menos gritar. Faltou-me a voz e a energia necessária para escapar. A mão que me sufocou trancou todas as palavras, acho que até as engoli e ficaram atravessadas qual espinha de peixe na garganta. Nem sei mais a que hora do dia o fato aconteceu. Não saberia dizer por quanto tempo fiquei ali chorando encolhida ou puxando meus próprios cabelos pela raiva que me acometia.
Pensamentos desconexos me dominavam. Os comentários, dia desses, sobre uma menina morta pelo zelador do edifício retornaram feito flecha. Todos, todos aqui em casa colocaram a culpa na guria. Disseram que tinha facilitado, dado corda e enlouquecido o homem. E agora, como falar de mim? O que dizer? Iam me culpar por não ter mudado as roupas. Estava previamente condenada por insistir em agir como criança subindo em árvores, mostrando as pernas que resultavam lanhadas das insistentes aventuras que empreendia. Não conseguia precisar exatamente onde doía mais. Eu me doía inteira e aos pedaços. Por baixo da porta o vento e um pouco da água da chuva entraram feito um carinho que precisava, até que enxerguei o maldito shortinho embolado aos meus pés.
Esfregava o sabonete no corpo desejando apagar aqueles rastros, buscava palavras para dizer, para contar. Talvez a saída disso começasse por assumir a culpa de tudo - de qualquer forma o veredito estava dado, eu sabia. Alternava água fria e quente e não percebia a mínima diferença. Eu apenas desejava o jato forte da água em todo o corpo para lavar, limpar, quiçá esterilizar. Não sabia dizer o que sentia nem tampouco a quem contar, faltava-me a palavra.

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terça-feira, 24 de agosto de 2021

O vento soprou-me uma felicidade maior - CARLOTA MARQUES CANHA

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O vento soprou-me no rosto uma réstia de saudade em dia tão caiado de luz fina e brilhante. A brisa vai-se despindo, aos poucos, em aroma de maresia para inebriar-me naquela frescura intensa sob um sol quente de raios dourados em dunas quase desertas, enquanto as palavras de felicidade são arrancadas, por momentos, da boca que se sacia do travo de sal e mar tão incessante.
A espuma branca encostada na ondulação da praia beija-me os pés que caminham descalços de alguma fé, mas sabem por onde percorrer entre salpicos translúcidos daquele tempo.
Aquele sol tórrido e um mar espelho pousam-me nas mãos que se esgueiram para agarrar, tão ávidas de sentir, aquela hora que demorou, sim pausou em distância, mas graças a Deus não foi tão cedo embora.
O vento soprou-me e volta a sussurrar-me incessantemente para confirmar que a luz do horizonte que meus olhos humedecidos percorrem na corrente não é uma ilusão, mas o ideal de uma felicidade que ainda conservo e que guardarei alma dentro.
Pestanejo, anseio pelo momento e sinto que a hora não tardou e que preciso de agarrá-la, esta conexão de sol e mar são singulares quando pensei já não conseguir caminhar em direção àquele horizonte de luz e de esperança a que me propus guardar não importa quantas lutas, quantas desilusões terei que suportar, apenas deter-me, por instantes naquela tela maravilhosa e sorver aquele aroma e belo prazer.
As ondas fazem o seu leito na praia dos encantos, na praia onde meus joelhos já se curvaram para receber a água, ao mesmo tempo, que invoco a glória palavra dos deuses e banhar-me, voltar a banhar me na espuma onde se perfila a brancura da fé e da plena satisfação.
Quero acreditar que não estou a sonhar, que o momento é o certo num enleio de voraz vontade de voltar a sentir a felicidade maior que os olhos percorrem e deitam-se agora sob as estrelas da noite - deixo o corpo encostar-se á extensa duna para serenar e deixar-me acalmar na maresia e no idílico silêncio da noite.
– Pergunto á noite se hoje durmo ou se apenas me deixo pernoitar e encostar a tez ao seu manto e afundar-me, de vez, num sono real.
O vento nunca deixou de soprar-me a felicidade maior ao canto da dificuldade para me confirmar que ainda é tempo, sim tempo para buscá-la sem demora e, aqui e agora sei que nunca estive só - que a natureza me abraça sem perguntar na desconfiança do futuro e eu sei que estou viva e muito agora.
O vento, o sol, o mar e a noite estão no mesmo lugar e eu sei simplesmente com quem posso contar para continuar a acreditar que, mesmo nos umbrais da mágoa e desilusão, ainda há tempo para a minha e tão somente minha felicidade maior.

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segunda-feira, 23 de agosto de 2021

As Gueixas - CARLA DE SÀ MORAIS

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Sigam-me na leitura destas linhas e descubram comigo o mundo das gueixas. Um mundo rico em cores e tradições, mas também em hierarquias.
Sempre me fascinou e intrigou, de certa forma, o papel que elas desempenharam e ainda desempenham na sociedade japonesa.
Frequentemente associadas à prostituição, as relações íntimas não eram sistematicamente acordadas entre elas e os seus clientes.
Bastante numerosas nos seculos 18 e 19, as gueixas eram mulheres extremamente refinadas e cultas, que ofereciam os seus serviços aos homens de posição social elevada como damas de companhia, dedicando o essencial do seu tempo à prática das artes tradicionais japonesas. Aliás, o termo - “gueixa” - significa literalmente: - “pessoa das Artes” -.
É preciso dizer que, aquando do seu aparecimento, no princípio dos anos 1710, as gueixas eram principalmente homens. Eles eram uma espécie de bobos das cortes locais, encarregados de divertir através do canto, e da música, os clientes dos salões de chá.
Foi pouco a pouco, que as mulheres começaram a invadir este meio e se vê então aparecer um número de gueixas que se tornaram célebres e depois, muito rapidamente, a partir de 1800, só elas existiam.
No decorrer dos anos, elas obtiveram não só um estatuto oficial, mas também uma regulamentação das suas atividades (onde a prostituição estava recomendada) e uma tarifa fixada pelo governo.
Um elemento indissociável da gueixa é o seu kimono de seda, atado atrás com um grande laço, também em seda: o “obi”. Por baixo, a gueixa veste uma combinação com uma gola que deve ser cosida ao kimono e descosida para o poder despir. É uma operação complexa que necessita de ajuda exterior.
A maquilhagem e o penteado duma gueixa, são perfeitas obras de arte que variam em função do estatuto de aprendiz ou profissional. A tez branca e os olhos maquilhados de preto, são para as aprendizas, a quem se dá o nome de - “maiko” -. Aquelas com mais experiência, maquilham-se muito menos e se as suas bocas ostentam um batom vermelho, as - “maiko” - só o passam no lábio inferior.
O penteado, não é idêntico entre as - “maiko” - e as gueixas e de ser realizado por mãos experimentadas, pois, terá de durar uma semana e,para não se despentearem enquanto dormem, têm de dormir com um apoio para nucas – takamakura -. Nos dias de hoje, algumas delas usam perucas para ganharem tempo quando se preparam.
As gueixas, foram consideradas como estando sempre no topo da moda até ao princípio do século 20, antes de se tornarem nas guardiãs da tradição japonesa até aos dias de hoje.
Ser uma gueixa, é sinónimo de sacrifício, pois desde a infância elas devem ligar os pés para que estes não cresçam demais e sejam considerados inestéticos.
Atualmente, as gueixas não são muito mais que 200 e a maior parte sediadas em Kyoto.
Todavia, tem-se notado um forte interesse por esta profissão, talvez devido a uma forte mediatização na televisão e também na Internet. Assim, cada vez mais, jovens mulheres postulam para aprendizas – maiko -, ao lado das célebres gueixas de Kyoto.
Muito mais haveria para dizer sobre este mundo das gueixas, ícones importantíssimos da cultura japonesa.

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domingo, 22 de agosto de 2021

Sofia, incrível como a luz do dia - CARLA DE JESUS

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Certo dia, nasceu uma linda menina. Sofia é o nome dela. Ela é a certeza de que ninguém é igual. É única, é sensacional, é muito especial. Ela não é perfeita, e nem quer ser, porque sabe que ninguém é, mas é uma criança cheia de fé, e vem ensinar o que realmente é amar.
Essa princesinha carrega o cromossomo do amor. Ela sabe o que é amar incondicionalmente, e seu olhar fica em nossa mente, sempre surpreendente.
São tantas as qualidades, e com muita força de vontade inspira a todos a serem melhores com suas dificuldades. Carinhosa, amorosa, cheia de graça, cheia de sonhos.
Tão pequena e tão sábia, esbanja doçura e ternura nas palavras. Enche os dias de muita alegria. Dona de um sorriso irradiante, com uma energia contagiante.
Transborda bondade, com uma carinha de sapeca, adora uma boa conversa. Ela é ela, sempre tagarela, nasceu para espalhar amor, obra perfeita de nosso Senhor.
Esperta, inteligente, sorridente, divertida, ela é feliz. Seu desenvolvimento é de encantar, tem um raciocínio mais rápido do que de muita gente, ela é espetacular.
A gente aprende a cada dia, ela nos incentiva a sermos melhores como pessoas, e a carregarmos sempre coisas boas. Ela é a certeza de que Deus tem um plano perfeito para nossas vidas.
Seu único defeito é ser linda demais. Sofia é um presente de nosso Senhor dizendo: “Ela é linda assim mesmo, do jeitinho que é e, com ela, vocês aprenderão mais sobre mim.”
Ninguém fica triste se perto dela está. Existem momentos que ela nos faz rir, e outros que nos faz chorar. A gente sente a presença de Deus, maravilhosa, linda demais da conta, ela é amável, um serzinho inexplicável, veio nos ensinar tantas coisas lindas, será sempre bem vinda ao nosso coração.
Sofia é um convite a uma grande reflexão, de que cada pessoa que existe tem a sua missão, não existe erros nos planos de Deus, nada é por acaso, e não existem atrasos.
Pequena e grande, tem um jeitinho especial de ser. Ela nos ensina a darmos mais valor a tudo. Sempre sorrindo, com ela os nossos dias são mais doces, mais leves, e mais felizes.
Mora nela uma linda sensibilidade, que o mundo precisa ter, e através da vida dela e da sua essência, que isso se espalhe, pois ela veio trazer a certeza de que a Síndrome de Down é um mero detalhe.

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sábado, 21 de agosto de 2021

DEZ PERGUNTAS MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL... AMANDA PEREIRA SANTOS

Agradecemos à autora AMANDA PEREIRA SANTOS pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Poesia, prosa ou conto, porquê?

Eu particularmente gosto bastante de contos, tanto quando vou ler um texto quanto ao escrever. Adoro histórias curtas e, apesar de ter publicado algumas poesias, não tenho o costume de ler poesias.

2 - Quase um ano de pandemia, o que mudou na sua rotina, enquanto autora?

Muita coisa mudou. Por estar mais em casa, acabei me dedicando mais à escrita criativa. Durante muito tempo escrevi para marcas e empresas diversas, mas foi na pandemia que decidi focar mais na ficção, assim como comecei a me envolver com editais e concursos literários.

3 - O que tem feito para manter-se produtiva e dar continuidade aos projectos em tempos tão restritos?

Confesso que é difícil e nem sempre tenho disposição para produzir. Vez ou outra, preciso me "obrigar" a escrever para não abandonar os projetos atuais.

4 - Pontos positivos e negativos na sua trajetória na escrita.

Em relação aos pontos positivos, destaco as publicações dos meus escritos. Já os pontos negativos são muitos, desde textos que foram rejeitados por editoras a produções que nem divulguei por insegurança ou vergonha.

5 - O que pensa sobre essa nova forma de estar, onde tantas pessoas começaram a utilizar LIVES e VÍDEOS para promover suas atividades?

Acho incrível! Como publicitária, acredito que precisamos ter a mente aberta para as novas possibilidades que temos hoje. Eu por exemplo já participei de lives e publiquei alguns vídeos nas redes sociais, mesmo me considerando uma pessoa tímida. É maravilhoso poder conhecer o trabalho de artistas que provavelmente não conheceríamos caso não estivéssemos na internet.

6 - Acredita que o virtual, veio ocupar um espaço permanente, sobrepondo-se aos encontros literários presenciais, pós pandemia?

Eu não diria que o virtual vai se sobrepor aos eventos presenciais, mas com certeza as ferramentas digitais serão cada vez mais utilizadas. Acredito que é algo positivo, uma vez que aproxima pessoas sem levar em consideração as barreiras geográficas.

7 - Se pudesse mudar um acontecimento em sua vida literária, qual seria?

Eu queria ter começado a me dedicar aos meus projetos pessoais mais cedo, ter confiado mais em mim mesma e no meu trabalho.

8 - Indique-nos um livro que lhe inspirou

O Apanhador no Campo de Centeio, um dos meus preferidos.

9 - Quem é Amanda no reflexo do espelho?

Uma mulher forte, inteligente e feminista.

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

Por qual motivo decidi me dedicar à escrita. Sem dúvidas fui muito incentivada pelos meus pais, que desde pequena me motivaram a ler mesmo que eles não tivessem esse hábito e morássemos no interior. Hoje, eles lêem meus textos, compram meus livros e acompanham meu trabalho, elogiando até os textos mais ruins.

BIOGRAFIA

Goiana e bacharela em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda, Amanda escreve contos, poesias, crônicas e o que mais lhe vier à cabeça. Em 2019 lançou seu primeiro livro, Divagações. Desde então, frequentemente participa de antologias das mais diversas temáticas.

A Goiabeira - AURINEIDE THETHÊ ANDRADE

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A minha enxadinha pulou a janela do quintal e descavou uma goiabeira morta. A árvore era frondosa, algumas folhas onduladas e outras repolhadas, a sua copa era redonda, parecida com a lua cheia.
Ela cresceu juntando papéis e somando histórias, queria escrever algo para que ela e os outros tivessem o que ler. Assim chegou aos onze anos, cheia de histórias, sofreu ameaças, se escondeu, quando ouviu um verso e em cada poro seu brotou um turbilhão de ideias e ela riu outra vez. Então brotou Traição sem Pecado, que ela escondeu na gaveta.
Aos quatorze anos, ela em agrura ofuscou o seu brilho, desfaleceu debaixo dos monturos, só os seus olhos viam o sol. Aos quinze anos ela se fatigou, mas arrebatou a vida novamente, dividiu o seu leito e aprendeu a ser companheira. Aos dezasseis anos ela viveu, riu e viu que tinha outras vidas em sua vida.
Aos dezoito anos morreu outra vez. Aos dezanove anos, já revivendo, seus galhos murcharam, caíram as folhas, o sereno lhe animou, pois brotou folhas e flores, um novo rebento lhe fortaleceu.
Aos vinte e nove anos, caíram os seus galhos, formou-se uma fenda em seu tronco que, enfraquecido tentava se erguer, mas viveu novamente. Aos trinta e cinco anos, um broto floresceu e o céu ficou todo rosa e lilás!
Aos quarenta anos seus galhos estavam sem forças e seu tronco criou fendas. Aos quarenta e um anos, desfolharam seus galhos, podaram toda a sua frondosa copa, destruíram a sua sombra, quebraram seus ramos, ascenderam fogo, faziam samba, contavam piadas e gargalhavam no calor das labaredas. Tiraram toda a sua fortaleza! O seu tronco dilacerado e sem raízes, rolava de limiar em limiar esperando as migalhas, ante muitas diatribes.
Desnorteado diante do seu vai e vem, o tronco chorava e chorava e as suas lágrimas irrigavam as cicatrizes de suas raízes, mas nunca perdeu a fé e a esperança de brotar outra vez e fincar-se em algum lugar.
O seu galho lutou, conseguiu se escorar, se ergueu, emanou-se ao tronco que ficou de pé e brotou raízes. Quando aos quarenta e cinco anos, com o cessar das tempestades veio a flora, outra árvore frondosa com mais brilho e vigor do que as que vinham estrebuchando nas cinzas e renascendo dos rescaldos humilhantes. Nessa ocasião, começou a brotar galhos, saiu debaixo do trançado do Calumbi imbricado no Mamui, mais um rebento que tingiu o céu de azul! A goiabeira cresceu ramos em novas direções já sonhadas, dando outros frutos a serem degustados com outros sabores. Hoje ela é mais frondosa, tem o seu brilho, alcançou alguns de seus sonhos e, sustentada pelo Divino, já avistou muitos outros lugares além do seu muro.

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sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Mulher sabe o que quer - ANIETE GÓES

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Falamos NÂO com veemência à exploração do nosso corpo. O corpo que habitamos e temos o direito de proteger para vivenciar o que nos aprouver, somos autoras dos nossos momentos e escolhas, arquitetas da destinação e absolutamente livres.
NÃO admitimos que ninguém interfira em nosso querer, ou nos julgue a conduta, somos o amor em movimento, produzimos vida e só o corpo de mulher formata pessoas. O mundo nem seria povoado sem a contribuição da forma feminina, por que essa necessidade de subjugação?
BASTA de comportamentos estúpidos ancorados numa educação deformada de paradigmas decadentes sobre a convivência de genêros!
CHEGA de absurdos preconceitos, ditar regras para cultuar o domínio de machos, onde no homem tudo é admissível e na mulher condenável.
Afinal estamos inseridas em todos os campos de atuação da sociedade, contribuindo com talento, competência e desempenho criativo, integrantes da corrente de excelência da humanidade.
Que ciência define o “ser” masculino como superior ao “ser” feminino?
Simplesmente inexiste comprovação científica, é impossível, quando se trata de pessoas a biologia é explicativa e contundente, estamos nivelados como seres humanos, uma dualidade composta do yin e yang.
No entanto ainda identificamos claramente os tabus relativos à sexualidade humana, abusivos, rudes, ignorantes, hipócritas no que se refere a experiência feminina, na qual tudo é mais denso, escandaloso quando se trata de prazer.
Lutar sempre com o que temos de melhor, a coragem de agir com equilíbrio e discernimento, a comunicação, a capacidade de resistência, a sensibilidade emocional, a flexibilidade com autoridade, mobilização com ações de conscientização, discursivas sobre direitos humanos femininos e principalmente o amor à liberdade ser.
MULHER é um tipo de gente diferenciada e como tal merece consideração pela sua existência seja qual for sua procedência, classe social, aparência, raça e ou etnia, independente de tudo sua beleza é ímpar, força e especificidade humana se espalham pelo mundo e impõe sua presença.
É preciso trabalhar com afinco para exterminar essa cultura de que temos que nos comportar nos gestos, trajes, linguagem, posturas para não sermos agredidas, que despropósito, que consciência medieval, que
pensamento retrógrado!
NUNCA vamos nos render a esta estrutura social equivocada e violenta, todo amor e respeito por nós Mulheres do Planeta feminino Terra.
A Divina Criadora nos proteja da insanidade dos brutos e maledicências dos preconceituosos.
Que a liberdade de escolha prevaleça na vida de cada uma sem medo de ser feliz por ser do jeito que é, somos luz, energia, magia e sentimentos que fluem de todo nosso ser.
MULHER não se define no outro, já é definida por si mesma, uma entidade de múltiplas faculdades que se estrutura e restrutura continuamente.
Que o feminino saber preencha o mundo de afeto, paz e responsabilidade pela vida em todos os sentidos.

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quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Divagar sob a Lua - ANGELA FERREIRA

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Ouço uivo de lobos vindo da colina. Anunciam a claridade noturna.
Sinto o eriçar dos pelos tomarem meu corpo.
O pensamento voa como dente-de-leão ao soprar do vento.
O que esperar dessa hipnótica sedução?...
Dominada por um êxtase incontrolável, percorro floresta adentro, seminua, numa busca insaciável pelo desconhecido, sedenta pela possessão inexplicável de algo invisível que aumenta a cada passo.
Espreito, observo...
Sinto-me parte daquele contexto animalesco, cheio de magia e segredos, iluminados por pirilampos.
As horas passam...continuo magneticamente dominada pela energia dos fenômenos que me integram àquele ambiente.
Escuto algo...
Um misto de medo e satisfação me envolvem. Aguardo ansiosamente o momento.
Olho ao redor. Surge uma sombra imensa em minha direção.
Preparada!
Ofegante, batimentos acelerados. Fecho os olhos...
Como um imã, sinto a proximidade se intensificar.
Inesperadamente, como se o instante fosse eterno, desponta a aurora!
Um sentimento de decepção emerge.
No entanto, após o retorno à realidade, desperto para mulher que sou, dona de mim e das minhas vontades.

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quarta-feira, 18 de agosto de 2021

A casa amarela - ANDREIA BORGES DA SILVA

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Geni sabia que lhe sobravam poucos anos de vida. Isso não lhe assustava ou afligia. Era o decurso natural do tempo.
Sua vida tinha sido tranquila. Poderia resumir para uma boa vida.
Trabalhara como professora. Casara-se com um amor da adolescência e tivera uma filha.
Se alguém lhe perguntasse se havia sido feliz, até poderia dizer que sim. Não que sua vida tivesse sido um mar de rosas, mas também não tinha sido ruim.
Nunca lhe faltara nada material. Seu casamento fora feliz até a morte prematura de seu marido.
Sua filha dera algum trabalho sim. Mas qual o filho que não tira um pouco da paz dos pais?
Estava preparando o almoço para receber sua filha e o genro. Tinha feito uma macarronada com molho pesto. Queria combinar detalhes burocráticos após sua partida. Conversava com naturalidade sobre isso.
– Solange, plantei aqui no quintal um pé de acerola e outro de romã.
Quando eu morrer, você pode vender o imóvel para quitar suas dívidas. E pode deixar as plantinhas para a nova moradora.
– Credo, mãe. A senhora fala de um jeito. E até parece que conhece a pessoa que irá morar aqui.
– Eu sinto que será uma boa moça. Ela cuidará de tudo muito bem.
Um mês após o almoço, Geni faleceu, dormindo.
Solange colocou o imóvel à venda. Ficou alguns meses sem aparecer comprador, por causa da crise financeira que o país atravessava.
Depois de quase um ano, apareceu uma moça muito interessada no imóvel. Ela queria sair do apartamento e morar em uma casa, com mais espaço para ela e seus animais de estimação.
Após algumas semanas, Flávia decidiu-se pela casa amarela.
Ela adorou saber dos pés de acerola e romã. Um dos seus desejos era de que sua nova casa tivesse espaço para um pomar e uma hortinha.
No dia da escritura, Solange lhe falou que Flávia era exatamente como sua mãe descrevera como a futura compradora da casa.
Então, Flávia lhe contou que certa vez uma senhora, muito parecida com a Dona Geni da foto, a abordou na rua e falou para ela cuidar bem de suas plantas.

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terça-feira, 17 de agosto de 2021

Estações - ANANDA LIMA

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A vida pode ser comparada as estações do ano.
Há dias que somos verão. Resplandecemos vida, inspiração, motivação interior. Seguimos o curso da vida com alegria, com entusiasmo, com firmeza e a intensidade que ela nos pede.
Há dias que somos outono, nos recolhemos dentro de nós mesmos para reconhecimento interior, aprofundamento das nossas emoções. Assim como as folhas, deixamos algumas emoções irem para longe, depois de longa convivência, é hora de renovação.
Há dias que somos inverno. Chove dentro de nós. Reconhecemos que ainda somos pequenos em emoções e atitudes. Um frio nos envolve, passamos a reconhecer as nossas fragilidades. As folhas do outono, com as promissoras chuvas e clima úmido, adubam a terra. Assim, esse momento de introspecção serve para fortalecer nossa essência, nos permitindo uma visão melhor de nós e do mundo. Estamos mais seguros, mais resistentes para a caminhada.
Há dias que somos primavera. Brota em nós ideias, atitudes, sentimentos de grande elevação, nos permitindo uma vivência mais feliz. Exalamos boas energias como perfumes dos lírios. Germina em nossos dias a alegria de viver, do labor, da partilha, das emoções. Nossa vida floresce como resultado de nós mesmos.
Assim como as estações, precisamos nos reconhecer como seres em construção, que segue um curso para o amadurecimento, crescimento individual. Mas, sem dúvida, é preciso sensibilidade e coragem para esta travessia que a vida nos apresenta ciclicamente. Caso contrário, seremos reféns das nossas atitudes, que se repetem em ciclos, sem nunca atingir o lume alto da vida.
Seja nos dias quentes, frios, sombrios ou floridos, precisamos ter a certeza, de que tudo passa. O sol se põe, a chuva cessa, as folhas se firmam, as flores se resguardam. Assim, somos nós. Há momentos de nos posicionar, há momentos de nos silenciar, há momentos de olhar para adiante, há momentos de olhar para trás para reconhecer a caminhada feita e, assim, traçar outros percursos, se necessário for.
Não nos assombremos com a estação que nos encontramos, ela é necessária para o nosso crescimento. Coragem. Tudo passa!

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segunda-feira, 16 de agosto de 2021

O enterro do baiacu - ANA LIA ALMEIDA

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A maré alta sorvia as lágrimas da menina assustada. Gritava e chorava de medo daquele bicho fedido cheio de espinhos em que ela havia quase tropeçado. Morto na areia, sobrevoado por uma moscaria, jogado para cima e para baixo pelas ondas.
As primas da menina, uma de cada lado, a amparavam pelos braços, num misto de nojo e susto.
A tia, nervosa, queria saber se ela havia pisado no baiacu. "Bai-a-cu", soletrou baixinho enquanto balançava a cabeça dizendo que não. Até o nome do bichinho era feio, coitado. Como pode um ser vivo tão horroroso habitar um oceano cheio de conchinhas e pedrinhas coloridas?
A tia sabia dos perigos daquele peixe. Bem pequena, o pai a levava para pescar de vez em quando e assim aprendera alguns segredos do mar.
Contou às meninas do medo que teve de um baiacuzinho inflado na rede de pesca do avô delas. O inchaço é a proteção deles, ensinava, porque nadam muito devagar e não conseguem fugir quando estão em apuros.
Aquele bichinho não era apenas feio, mas também muito fatal. O veneno que guarda é o bastante para matar trinta homens. “Tia, eu vou morrer?”, a menina voltou a chorar.
A moça parou os olhos numa lembrança de seu pai, a morte de um conhecido enganado por um pescador. Havia um desafeto na história, um assunto de traição, parece que o sujeito havia engravidado a noiva do pescador.
Acabou comendo carne de baiacu envenenada sem saber. Seus lábios e dedos ficaram dormentes e ele se tremia todo quando começou a vomitar por cima e por baixo. Já estava morto ao chegar no hospital.
Mas a menina sequer havia tocado no bicho, tinha, portanto, a vida inteira pela frente. Tranquilizada, resolveu enterrar o bichinho com as primas, para ninguém mais se arriscar naquela praia. Além do mais, todas as gentes e também os peixes merecem um fim digno.
Completando as solenidades fúnebres, as meninas foram providenciando um rápido velório. Ali mesmo, na beira da praia, enrolaram as cangas na cabeça em modo de carpideiras. Entoaram um padre-nosso, "rogai por nós, pescadores", as mãos unidas até o amém.
A viúva não compareceu, anunciaram em tom solene, no encerramento da cerimônia. Nadava já com outro peixe, nas redondezas do oceano Atlântico.

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domingo, 15 de agosto de 2021

As Duas - ANA CRISTINA HENRIQUE SILVA

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As duas olhavam o barco na linha do horizonte. Ele atravessa vagaroso as ondas em direção ao cais. A pequena segura pela mão materna. Enquanto a filha se distraia vendo o barco crescer à sua frente, a mãe tinha os olhos atentos.
Elas esperavam. Pés fincados no píer. Dali caminhariam de volta para casa. Antes, porém, parada obrigatória no carrinho do algodão doce. A criança se deliciaria com a nuvem colorida, esquecida da espera. A mãe por sua vez seria só lembranças.
O ritual se repetia todas as tardes de domingo. As duas caminhando até o cais. Na mãe, o desejo da chegada. Na filha, a alegria por dividir aqueles momentos ao lado dela.
Bom sentir-se segura por aquelas mãos. O silêncio compartilhado, o cheiro do mar e o vento brincando de bagunçar os cabelos.
Quando o barco aportava, o olhar da mãe buscava aflito o rosto daquele que um dia lhe jurara amor. A pequena olhava por olhar, há muito esquecera aquele rosto. Buscava pela mente algum registro: olhos, boca, voz... Nada. Vez ou outra a mente lhe presenteava com flashes: Uma imagem de uma mão máscula segurando a sua, o som de um sorriso alto, um cheiro, um sentimento doce. Os flashes vinham e iam tão rápido que ela não conseguia deter. E por mais que se esforçasse, o rosto do homem não mais existia para ela. Para não magoar a mãe, cumpria o ritual fingindo procurá-lo entre os que desembarcavam.
Somente quando o último passageiro saia do barco, a mãe suspirava, apertava com mais força a mão da menina. Depois, aguardava a partida do barco, levando uns poucos passageiros. E enquanto o barco desaparecia no horizonte, a mãe fazia sua prece silenciosa. A pequena só pensava no retorno para casa, a boca já preparada para saborear o pedaço do céu prometido no caminho de volta.
Na cabeça da pequena a felicidade era simples: o vento brincalhão, a guloseima doce e a mão frágil da mãe segurando a sua.
Somente as duas. E para a menina nada mais lhe faltava.

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sábado, 14 de agosto de 2021

Guardiã do Cerrado - AMANDA PEREIRA SANTOS

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Jaci era filha da natureza. Cria da mãe terra, nasceu em um rio de águas cristalinas, da mesma cor de seus olhos. Era noite de lua cheia.
Enquanto as crianças da sua idade entediavam-se com as brincadeiras tradicionais, contentava-se em admirar a paisagem ao seu redor e entreter-se com os animais.
Vivia em um chalé no meio do Cerrado, cercado por morros e quedas d'água. Era simples, mas não precisava de mais.
Os adeptos a um estilo alternativo diriam que sua vida era perfeita, fora dos padrões sociais. Até que tudo mudou quando finalmente completou dezoito anos.
Era noite novamente quando uma luz invadiu as janelas da residência. Então, ouviu uma batida na porta. Abriu-a e viu uma forma feminina que irradiava as mais diversas cores.
A figura estendeu-lhe a mão e ela não pensou duas vezes antes de segui-la até o exterior da propriedade. Não sabia como nem o porquê, mas sentia uma energia que a atraía, como se as duas estivessem conectadas.
Lá fora, o frio penetrava o tecido fino de suas vestes e fazia com que seu corpo tremesse dos pés à cabeça. O escuro prevalecia, contrastando com o brilho das estrelas. Mas foi a lua que tirou o fôlego de Jaci. Uma lua cheia, completamente deslumbrante.
Por alguns instantes, esqueceu da companhia sobrenatural ao seu lado e manteve os olhos erguidos em direção ao céu. Então, uma voz doce e serena interrompeu o silêncio.
– A sua hora chegou. Junte-se a mim. Torne-se um só com o universo. Somente assim a paz reinará.
– Diga-me o que fazer e farei.
As palavras saíam de sua boca como se tivessem autonomia.
– Prometa à lua que assumirá seu papel como protetora da região.
E assim Jaci fez. Quando sua vida terrena findou-se, seu espírito permaneceu.
Tornou-se guardiã do planeta, protetora dos seres vivos e de bom coração.
Há quem acredite que, ainda hoje, é possível vê-la. Está sorrindo lá do alto, nas noites de lua cheia.

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