quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A gaiola do vento - ROSA ALVES

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A rua estava deserta naquele dia. Não havia ninguém além de mim a espreitar da vidraça… Depressa desci as escadas e ganhei a rua.
No adro da Igreja de São Mamede, o vento se encarregou de espalhar as folhas rente ao chão. E no Jardim Botânico, permaneci sob a sombra das velhas árvores. Se eu dormir poderei acordar os sonhos escondidos entre as batidas do coração.
Levanto-me e volto a caminhar para o lago que reflete o que acontece no céu. Sua água calma e contida parece estar alheia ao que se passa. O lago é o mapa das emoções vividas e a memória do tempo que fatalmente evapora. Nele cabe toda a expressão do prazer e da dor e às vezes é necessário mergulhar e atravessar o limite para descobrirmos uma parte dos seus mistérios.
Ouço apenas as folhas secas quebrando-se na medida em que ando. Não é mais o silêncio mais que me incomoda – é a solidão repentina que me deixou apavorada e sem motivo para cuidar dos cabelos.
Nem mesmo o tempo, que testemunhou a tudo e conhece bem as verdades, saberia explicar-me agora essa pausa. O tempo, o vento, as folhas secas e os meus cabelos despenteados – é o que há e não há outra coisa para te contar a não ser que procuro pelas pessoas.
Preciso encontrar alguém que me explique o que se passou enquanto eu dormia. Ontem foi um dia normal…
E numa clareira lá embaixo, avisto uma pequena multidão! As pessoas estavam vestidas de preto e de costas para mim, que estou de branco. Parecem assistir a um espetáculo com a atenção concentrada e no mais absoluto silêncio.
Me aproximei devagar. Fui me infiltrando e esbarrando nas pessoas para perceber se estavam realmente vivas – elas respiravam! Eu é que estava com a respiração por vezes suspensa.
Ao centro estavam dispostas em círculo algumas gaiolas abertas. Os pássaros assustados com a audiência, desaprenderam suas cantigas. E o vôo? Será que ainda saberiam voar?
Cheguei mais perto deles e, como por um encanto, saíram finalmente de suas gaiolas e tomaram o seu destino.
Imediatamente, todos olhamos para cima... e suspiramos aliviados. E, como parte de um mesmo bando, o vento e as aves circularam livremente por entre as árvores em rumo ao infinito, como se todo o céu de Lisboa lhes pertencesse.

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quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Metrópole - RÔ CARMO

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O ano era 1983, me lembro bem. Estudávamos, as quatro irmãs, em um colégio no centro da cidade, e tínhamos que subir a imensa e famigerada rua da Bahia diariamente pra chegar à escola. Minha irmã Meirinha, alguns anos mais velha, segurava minha mão; e isso me conferia uma soberba liberdade: presa assim, elevava os olhos acima dos imensos edifícios, abria as asas. À iminência de qualquer perigo, ela apertava minha mão e eu aterrissava em terra firme. Acontecia largas vezes ao longo do trajeto.
Entanto, no meio do caminho, havia O cinema. Sim, “O”, pois não conhecia nenhum outro. Ganhava meu olhar de pronto! Os cartazes eram janelas pra um mundo que nunca soubera, mas já amava. Era uma sugestão diária, que se insinuava na ida para a escola e se concretizava na volta. Nomes de filmes dançavam na minha cabeça, cartazes suscitavam histórias e o resto eu resolvia só, imaginando. Enquanto desenrolava a tarde, em meio às aulas, construía, a partir do pouco que capturara dos cartazes com meus olhares oblíquos, todo o resto necessário: cenário, roteiro, música.
Certo dia do ano de 83, outono/inverno, por certo_ ainda sinto a mão fria de minha irmã a guiar-me_ meu olhar procura, como de hábito, o refúgio de sempre. Nesse átimo de segundo, já eu antecipava o sorriso, sabendo que veria os cartazes de “Tootsie” estampados nos dois batentes das janelas do cinema. Não, não foi isso que vi. E, pela primeira vez, quem guiava a caminhada era eu, puxando veementemente a mão de minha irmã, forçando-a a atravessar a rua para ver de perto o que seria o fim de meus sonhos? O prédio do cinema estava em frangalhos: tapumes por todos os lados, escombros aqui e ali, passantes. Como podiam passar sem perceber que “O” cinema_ e isso abarcava, na minha meninice, todos os cinemas do mundo_ vinha abaixo?
E pensava: Não tive a chance! Imaginei incontáveis vezes minha entrada triunfal pela porta da frente, supondo seguramente que veria o melhor filme de todos os tempos; mas não tive a chance. Mais que isso: roubaram-na de mim.
Como poderia, depois desse desacontecimento, seguir Bahia até a escola? O que me esperaria na volta? Naquele dia, como nos próximos que se sucederam, testemunhei a vagarosa demolição do Cine Metrópole. Nenhum cartaz pra instigar minhas histórias, nenhuma música pairando sobre a cena inventada. Cena? Que cena? E a cada olhar lançado para os lados do prédio (art déco), cada dia menor; me assaltava uma tristeza funda, e uma dúvida incessante tamborilava em mim: Seria o cinema só ilusão?

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terça-feira, 28 de setembro de 2021

Paredes do tempo - PRISCILLA RODRIGUES

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Uma parede descascada é como a voz do tempo dizendo que passou por ali.
O tempo que, por vezes, passa rápido e por outras, lento, mostra tudo o que existe e que por vezes insistimos em não querer ver. O tempo, linearmente criado entre o passado, o presente e o futuro, desenha por onde passa as marcas do que se viveu, ou do que se deixou de viver.
Naquelas paredes descascadas, na parte de fora da casa da minha vó, durante a minha infância, podia-se ver o tempo. O tempo da casa, da família e de cada integrante que por ali passou. O tempo dos meus avós, jovens, construindo aquelas paredes e, aumentando um cômodo, a cada filho que nascia; o tempo do meu pai, que nasceu, cresceu e viveu ao redor daquele lugar; o tempo que foi meu, enquanto por ali estive.
Uma casa de bairro, em cidade do interior, sem zelador ou síndico. Casa com varanda e portão, de quintal com terra, com roseiras que cercavam e delimitavam o espaço, ensinando que dali para a frente era a rua. Suas paredes expostas contavam que havia vivido dias de sol, mas também muitos de chuva.
Eu prefiro me lembrar dos dias de sol, quando corria pelo entorno da casa fazendo barulho e espalhando sorrisos. Prefiro me lembrar de quando parava a brincadeira para arrancar pequenas lascas daquelas paredes, criando no meu tempo, a marca da criança feliz que habitou aquele presente, hoje passado.
Às vezes acontecia de o tempo nublar, expondo de forma mais evidente o cinza do cimento por baixo da pintura que esfolava. Nesses dias, olhava para as imagens que ali se formavam imaginando rostos e paisagens que me levavam para o mais belo futuro que conseguia criar.
Mas, embora minhas memórias prefiram me levar para os dias de sol, eram os dias de chuva os que mais marcavam aquelas paredes. Toda a água que escorria, infiltrava através de suas ranhuras, entranhando tudo aquilo que vinha de fora, evidenciando e escancarando as impressões deixadas pelo tempo.
Eu ainda estava por lá quando as paredes foram consertadas. Foram cobertas por revestimento impermeável, frio e duradouro, protegendo-as no futuro, de novas formas a serem reveladas pelos anos que ainda viriam. Apagando por fora o passado, que continuava marcado por dentro.
Hoje o tempo continua passando por aquelas paredes, sem as descascar e sem as marcas que minha presença poderia deixar.
Passou.

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Demasiado ser - FARAH SERRA

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Eis então que estou cá, na fase do meio, aos 40. Existindo em pleno contraste com o modo no qual vivi os meus 20, 30 anos, quando sabia muito bem o que queria fazer, onde pretendia ir e era realmente boa em arrancar elogios. Hoje, surpreendentemente, vivencio incertezas e medos. Além de um desejo irreprimível de conquistar algo, de marcar um ponto, de deixar uma pegada, de me sentir viva, útil, desejada.
Não sei bem como, mas não tenho dúvidas de que foi nesse tempo finito de 40 anos, em que ocorreram um número infinito de situações (até mesmo coisas que eu não acreditava que poderiam acontecer comigo), que me tornei quem sou hoje.
Calcular a minha vida a essa altura é inquietante. É como se tudo tivesse se tornado aquilo que, em algum momento, imaginei que seria. De criança, tinha como certo que um dia me tornaria mãe. Não era um verdadeiro sonho, simplesmente era assim que deveria ser. Um pouco como encontrar um marido companheiro, um trabalho que gostasse e a minha independência financeira. A inquietude está no fato de que tudo é muito diferente daquilo que imaginei. A única conclusão a que chego é que evolui com a idade. Certamente prosperei. Evolui como pessoa, mudei minha personalidade. Talvez seja mesmo a maturidade que coloque o nosso pé no mundo real. Complexo. Entranhado.
“Mas você deve por isso de lado agora, pois o dever te chama. [...]. Seu povo precisará da sua força e liderança. Eu já vi três grandes monarcas serem derrotados pelo fracasso em separar satisfações pessoais do dever. Você não deve se permitir cometer erros similares. E, ao guardar o luto pelo seu pai, você deve guardar luto por outra pessoa, Elizabeth Mountbatten, pois ela agora foi substituída por outra pessoa, Elizabeth Rainha. As duas Elizabeths entrarão frequentemente em conflito. O fato é que a Coroa deve vencer. Deve sempre vencer.”
Essa foi a carta que Lilibet (a Rainha Elizabeth II) recebeu da Rainha Mary (sua avó), antes de assumir o seu reinado no seriado The Crown. Eu a trouxe aqui porque, poucos anos depois de me tornar “Rainha da minha família expatriada”, comecei a sentir o danado peso dessa Coroa e a perceber o quanto as duas Farahs estavam se gladiando – sim, mais do que em conflito, elas estavam em pé de guerra.
Claro que isso não aconteceu de uma noite para a outra, eu pressentia que as coisas começavam a cambalear. Mas, no início, era uma oscilação tão leve, que eu, totalmente presa em construir a minha identidade, não dei a devida importância.
Acho que, de fato, só percebi a grandeza dessa transformação sistêmica quando me tornei mãe. Na complexidade da minha relação mãe e filha, me dei conta de que acabamos sabendo mais sobre nossos filhos do que sobre nós mesmos. Eu vejo a minha filha por inteiro, vejo até mesmo a parte que nem ela mesma vê, e ela, imagino eu, também vê essa minha parte oculta, que eu não vejo. Bem como dizem, ser mãe é lidar com as próprias sombras.
Sincronicamente a isso, aquele controle, que saboreei aos 20 anos, de ter poder sobre tudo o que acontece, me foi usurpado. Repentinamente, eu não encontrava mais aquela minha perfeição, física e moral, e muito menos aquela minha confiança desmesurada de que eu estava à altura das minhas batalhas e sonhos. Perdi a mão de mim. Inesperadamente, encontrei-me sem saber como me posicionar diante dos meus propósitos mais holísticos – pessoal, familiar, profissional; de vida, no mundo, no Universo.
Como afronta, taurina que sou, comecei a levar a minha vida muito a sério. E viver começou a se tornar um fardo difícil de se carregar. O cansaço – físico mental e emocional – estava imperando. Nesse atoleiro do viver como uma mulher forte, comecei a sobreviver sobrecarregada de todos os estigmas impostos à minha geração. Eu estava me transformando em uma pessoa que não queria ser. E quanto mais me afundava nesse lamaçal, sujo e pegajoso, mais eu ouvia o grito da minha filha pedindo por uma mãe inteira. Do meu marido, almejando por uma esposa inteira. Do meu trabalho, cobrando uma profissional inteira. Enquanto eu implorava por uma Farah inteira.
A angústia desse caminhar estava tão grande que, visando minha salvação, meu instinto feminino desviou a rota e adentrou no silêncio. Mergulhei em mim. Na ausência do barulho, encarei o vazio, a falta de respostas imediatas. Nessa jornada de autoconhecimento desvendei um grande mistério: o meu poder de cocriação é muito forte, eu já conquistei praticamente tudo que almejei. Todos os meus pensamentos, sentimentos, crenças, germinaram dos meus sonhos e floresceram justamente aqui, onde estou agora, diante desse pedaço de papel em branco que espera por uma nova história.
Honrei, celebrei, agradeci e aceitei que estava de frente a mais um ponto de mutação em minha trajetória. O momento era mais que oportuno para mudar algumas coisas e tudo começou no meu próprio modo de pensar. Eu não precisava do mundo externo para realizar uma mudança. Não precisava que alguém me salvasse, que me amasse ou me levasse daqui. Era eu mesma, a pessoa que estava esperando. Só precisei escolher como reagir àquela realidade e me colocar a serviço de tamanha transformação.
Tornou-se uma questão de honra resgatar a Farah, a alegria, que há em mim. Entrei nessa batalha de peito aberto, recuperei a minha velha companheira – a coragem, e me aliei à positividade. Envolta nessa tríplice-aliança firmei um acordo onde declarei que jamais o dever irá imperar sobre o meu bem-estar pessoal, decretei resistência às adversidades, assegurei que só farei isso com a leveza, a despreocupação diante do frenético ritmo da vida e sem duvidar, em momento algum, de que sou muito mais do que me consinto ser. Então, comecei a promover um rearranjo, uma reacomodação interna para aceitar as partes boas e ruins de ser tudo o que sou.

O caminho é simples, mas profundo. Existe o tempo das coisas e o meu exercício é me lembrar disso todos os dias. O tempo natural das coisas é um tempo diferente, é o tempo das grandes transformações.

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segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Máscaras - NATACHA MAGALHÃES

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O resto do líquido no fundo da taça desafiava-a. Aproximou a taça dos lábios e inclinou-a, deixando que a sobra escorresse pela sua garganta. Olhou para a garrafa vazia e sacudiu os ombros, como se pedisse desculpas. Pedia desculpas por ser fraca, miserável. Desculpas por não saber lidar com coisas que todos diziam ser simples. Pedia desculpas por buscar alívio na garrafa, única forma de atenuar a dor que a consumia por dentro. Olhou-se ao espelho e o reflexo da sua imagem parecia debochar dela e da sua fraqueza. Olhou de novo e ensaiou um sorriso aberto. O mesmo que tinha de levar ao escritório e exibir o dia todo aos colegas e ao chefe. Tens um sorriso lindo, um candeeiro da alma. Que sabiam eles sobre luz e escuridão? Obrigou-se a entrar na banheira e deixou que a água do chuveiro escorresse da cabeça aos pés, esperando que essa fosse capaz levar pelo ralo os pensamentos mais nebulosos. A rotina de banhar-se e escovar os dentes era quase tortura, como quase tudo que fazia. Arrastou-se até ao quarto. Ultimamente locomovia-se assim. Obrigava os pés a se movimentarem. Também naquilo, os colegas reparavam. Aqueles estafermos reparavam em tudo! Cegos na mesma! Preocupados que estavam em discorrer sobre as suas vidinhas e vaidades viviam qual zarolhos em terra de cegos.
Tirou do guarda-fato o traje do dia. Como sempre se vestia com esmero, quase como as superstars das revistas de tendências de moda. Fazia questão que assim fosse. Tinha de ser algo que arrancasse elogios e olhares de inveja ou luxúria. Lutou com o cabelo rebelde, prendendo-o à nuca. Escolheu uns sapatos de salto alto, que não destoassem do conjunto e dedicou alguns minutos à tarefa mais complicada. A maquilhagem era a camuflagem perfeita para esconder tudo. Com a base e um pouco de pó e lá se iam as olheiras e as rugas nascidas das noites não dormidas e da ansiedade que a abocanhava. Arrematava com um batom, sempre uma cor viva para embelezar ainda mais o sorriso teatral. Estava pronta. Altiva, poderosa. Ninguém suspeitaria de nada. Ela era a imagem perfeita do bem-estar e da felicidade. Quando regressasse, mergulharia de novo a alma e coração na dor. E quem sabe mandaria tudo àquela parte e desfazia-se daquela existência de faz de conta.
Evelyn era seu nome. No bilhete de identidade era Eveline. Mas ela fazia questão de se apresentar como Evelyn e de assim ser chamada por todos. Soava a nome francês, très chic. Era lindíssima, desde pequenina estava habituada a ouvir elogios à sua aparência física. Corpo escultural, a custa de horas passadas em ginásios e aqueles jejuns intermitentes da moda, que a obrigavam ficar sem comer por horas. Estava sempre bem vestida, de salto alto, maquiagem perfeita. Tudo nela era perfeito. Até a simpatia era perfeita: sorria com todos, tinha sempre palavras amáveis, era doce, meiga, atenciosa. Desdobra-se em atenções para todos. Sim. Evelyn era perfeita. E todos no escritório adoravam-na. Pelo menos assim parecia.
Marta vinha observando Evelyn. Não poderia ser sempre assim aquela miúda, ninguém era assim, sempre perfeita, sem desmanchos, sempre de bem com todos. Havia ali peças desencaixadas. Marta já vinha reparado no nervosinho miúdo de Evelyn, espelhado nos ligeiros tremores das mãos quando martelarem o teclado. Havia também aqueles poemas melancólicos que a moça publicava na sua rede social. À Marta aquilo soou recado. Tinha quase certeza de que Evelyn vivia sob uma carapaça. Num desses dias, Marta viu a máscara a cair-lhe. Foi num momento em que todos tinham saído para o almoço. Não reparando que a colega havia ficado. Evelyn debruçou-se sobre a secretária, deixou cair os ombros sempre eretos e suspirou. Foi como se o mundo todo lhe pesasse nos ombros, naquele instante. Depois, uma pequenina lágrima escapou-lhe dos olhos e rolou pela linda face, antes que Evelyn a esmagasse com a ponta do indicador. Mas depois vieram outras. E mais outras. Correu para a casa de banho.
Ontem, Evelyn não veio trabalhar. Também não avisou que não viria. Ninguém se ralou, não era a primeira vez. E as ausências eram agora mais constantes, sempre justificadas com mal-estar e idas ao médico.
Hoje o escritório está de luto. Ninguém queria acreditar. Demasiado chocante para se acreditar. Marta recusou-se a fazê-lo. Um sentimento de culpa germinava dentro dela. Evelyn morreu. Melhor, matou-se. A mãe encontrou-a esvaída em sangue, pulsos cortados. Ao lado, um bilhete “Hoje liberto-me. Finalmente serei livre. Cansei de ser perfeita. Mas como viver nesse mundo, se ninguém quer imperfeições?"

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domingo, 26 de setembro de 2021

Se eu fosse personagem - MIRIAM LEIRIAS

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Prometi, sim. Fiz uma promessa: eu iria lhe dar voz.
Procurei, procurei, você viu. Quero lhe dizer e não tenho coragem: não achei foto, documento, nem pessoa que pudesse falar de você.
Não consegui.
Talvez fosse demasiado para mim. E eu no meu desejo de justiça, na minha onipotência dos anos mais jovens, acreditei que eu pudesse. Não pude.
Não fui capaz nem de fazer ficção como imaginei.
– O que pude fazer fiz, levei seu nome a muitos lugares, contei uma possível versão, dancei, conheci alguns dos lugares em que você viveu, me apaixonei, me desapaixonei. Conheci pessoas que me reafirmaram a crença na humanidade. Experimentei comidas, que despertavam a alegria de compartilhar e que provavelmente você sabia fazer. Passei a querer escrever melhor para contar sua história, e nessa parte tive prazeres e dores. Mas que história contar?
Escrevendo, ou tentando escrever este relato, lembrei-me de meu filho, seu bisneto, falando diante do impossível: – mãe, e se você fosse rica, e comprasse uma Mercedes? Agora sou eu que penso: – e se pesquisando nos arquivos ou mesmo no Museu da Pessoa, encontrasse algum dado que chegasse próximo de alguma informação sobre você? E se, por um acaso alguém me trouxesse um nome com seu sobrenome e dissesse que era sua parenta?
Os desaparecidos, presos políticos, alguns puderam ser velados, mesmo simbolicamente. Você não. Ou foi e não sei?
Serei eu personagem? Assim sendo ou pretendendo, vou à Festa do Boi, no Morro do Querosene. Faço meu ritual de homenagem a você e de despedida aos sonhos que não vingaram. Embebedo-me, com os ritmos marcados pelo zabumba, xequerê matraca e chocalhos, pelos corpos, pelas danças e catuaba. Tudo debaixo ou ao redor do Baobá,
Árvore do Esquecimento. Dou sete voltas ao seu redor, no sentido contrário, do que os negros escravizados eram obrigados a fazer.
No momento em que o mestre Tião do Maranhão vai sacrificar o Boi Mimoso para alimentar Catirina prenha e precisada, esse deitará no chão, aceitando o sacrifício, assim também, deitarei na terra. Esperarei o golpe, como também o Boizinho. Boi e sonhos vão mudar de estado e de tempo. Irão aparecer na próxima festa do Renascimento do Boi. Os sonhos aguados poderão vicejar com consistência, com robustez. E o Boi Mimoso alimentará nossa alegria possível.
Terei passado a pira da procura para quem ficou tocado pela história, seja da família ou não. Escrevo na terra com os dedos:
AQUI JAZ UM SONHO.
OU NÃO?

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sábado, 25 de setembro de 2021

O algoz e a sobrevivente - MEIRE RABELO

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Aos oito anos de idade ela se dá conta de sua existência. Uma menina mulher negra que crescia, gradativamente em uma pequena ilha e ela vinda de um pequeno município do Maranhão. Filha de um motorista de ônibus interestadual, que não sabia nem lê e nem escrever e de uma dona do lar. Os anos se passam, sem muitas diversões de crianças e adolescência, era do estudo pra casa e sem muitos amigos de sala. Uma menina negra, meiga de cabelo carapinho chamada Dandara.
A sua mãe, dependente do seu Pai pra tudo e submissa. Mas uma boa mãe. O tormento de Dandara era quando chegava à noite. Era sempre sua obrigação. Quando seu Pai chegava à noite, era tarefa de Dandara esquentar sua comida enquanto ele tomava banho. Mas com esse a fazer de todas as noites ela era abusada sexualmente pelo seu Pai. Quando algumas vezes sua mãe se levantava o pai disfarçadamente dava um jeito da mãe não perceber. Em qualquer momento que o pai estava em casa, a Dandara servia de cobiça para seu instinto libidinoso. Em apenas um cortar de unhas dos pés, o calcanhar do pé de seu pai, servia pra passar sobre a sua vulva horas em horas, as vezes até mesmo a pequena estava tão cansada e a cochilar era aprisionada. O seu corpo inteiro da menina era desejo para o pai em qualquer canto da casa em que foi criada, em um pequeno bairro, da grande e pequena Ilha de São Luis do Maranhão. Que incomodo e que dor em suas partes intimas, mas nada podia fazer. Chorava apenas.
O seu sofrimento transformara-se em ódio do seu algoz, o seu próprio pai. Inúmeras vezes o seu pedido de NÃO, não era ouvido e ou nunca foi ouvido pelo seu algoz. Ele abria suas pernas com as mãos e as vezes de forma violenta, por debaixo de suas cobertas na calada da noite e enfiava seu dedo em sua vagina pra que pudesse penetrar mais e satisfazer seus instintos mórbidos e doentios. O dia amanhecia e as laterais de sua vagina ficavam todas doloridas, chegava o seu ciclo menstrual, um alivio a dor e perseguição do seu algoz. Dias felizes! E quantas vezes pedia pra que ficasse sangrando por toda a vida, assim tinha paz. Os dias passavam lentamente a tristeza a lentidão da mente foi ficando aprisionada. Ao completar seus 15 anos de idade, os interesses dos homens em Dandara aumentaram e o seu pai, foi ficando mais feroz e o ciúme a posse o desejo só aumentava exageradamente e que nenhum homem podia se aproximar. Oh! Deus!
Deus tirou seu pai (o algoz) da família. Mas o algoz ficou em suas entranhas para sempre, tornou-se uma sobrevivente. Um brinde a Dandara e outras meninas sobreviventes! Um brinde ao seu algoz! Ele acha que venceu! Será?

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sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Dasdô e a Máquina de Costura - MARLI DE FÁTIMA AGUIAR

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Dias e dias ouvia-se o cozer da máquina de costura. Ela era conduzida a mão, pois não havia eletricidade. Era de ferro, preta, bonita e delicada. De vez em quando ouvia Dasdô gritando da sala de costura: “Mininu vem pô a linha na guia pra mim!!” Todas as crianças que estavam ali brincando no quintal de terra de chão batido vinham em disparada. Pois para elas era um oficio divertido, e sabiam que naquele momento podiam fazer parte na construção da obra de Dasdô.
A máquina era muito antiga, velha e carregava muitas histórias, ela ganhara a máquina de sua mãe, e também as habilidades para a costura. Dasdô já com idade acima dos 40 anos também carregava e costurava suas histórias, histórias de sua família e histórias do mundo. Ali, na máquina, ambas iam juntando as partes dos tecidos-vida, peça a peça e formando uma roupagem completa. A máquina de costura era pesada e ficava no canto da sala. Os movimentos de engrenagens e fitas, agulha e linhas, em sintonia com os movimentos de Dasdô, mãos, olhos atentos, joelhos e pés. Havia uma relação íntima entre aquelas senhoras, uma supria as necessidades da outra, e ambas conseguiam abrigar, vestir, aconchegar toda a família nos tempos difíceis.
Dasdô adorava costurar, fazia vestidos, calças, blusas, lençóis, panos de prato e tudo que conseguia inventar. Ela se realizava! Aquela mulher com tantos filhos para cuidar, nunca frequentou aulas de corte-costura - na época isso não existia, nem mesmo escola primaria. Esta arte aprendera com a mãe de sua mãe, e orgulhava-se desta herança. Herdara também os saberes das matriarcas ancestrais, o dom de parteira, benzedeira, curandeira.
Os cortes de Dasdô eram precisos para os corpos dos meninos que tinha. Uma vez e outra ela os tiravam da poeira para “provar” as medidas e certificar de que realmente havia acertado em seus corpos magros e barrigas grande. E quando terminava dizia: “Tá bão. Pode vorta a brinca”. Estes saiam correndo como ventos de Iansã e só se ouvia o barulho de batidas estrondosas de portas velhas de madeira quando passava o ultimo corpo-menino, alegre e gritando, e com a certeza de que algo bom viria pela frente, uma festa, um passeio, porque estavam sendo confeccionadas roupas novas.
O cheiro de tecido novo no nariz das crianças as embriagavam e se misturava a euforia e a excitação de ter uma peça nova e o prenuncio de algo bom no porvir, a festa de São João, as rezas de terços, bolo de milho e de fubá, pipoca, ki-suco de groselha, várias histórias e muita gente no vilarejo em volta de uma fogueira.
Na família haviam roupas para duas ocasiões, dizia Dasdô: “o molambo é de ficar em casa, e as bunitas é de sair”. Mas esta última se usava pouco, porque pouco também eram os passeios, as crianças logo cresciam e a roupa já não lhes serviam... Porém, Dasdô as reciclavam passando do maior para o menor, fazia o mesmo com os sapatos, os brinquedos... Os tecidos daquela Senhora eram na sua maioria panos de sacas brancas alvejadas. Este processo era lento onde as mulheres usavam água de cinzas do fogão que passavam nas roupas e as deixavam quarar por horas esticadas na grama ao sol próximo ao rio tendo uma imagem bonita de tapetes coloridos ou colchas de retalho.
Enquanto acontecia a quaragem Dasdô e outras mulheres cantavam, catavam piolhos na cabeça das crianças, faziam tranças umas nas outras e contavam histórias. O tecido ficava branquíssimo, e, só dela olhar para os panos, já imaginava o corte que dali sairia. As vezes o marido de Dasdô retornava da cidade após a venda da colheita do feijão, trazendo no embornal rolos de tecidos, carreteis de linhas. Se a colheita fosse boa, trazia também doces e brinquedos. Neste dia, ela o esperava na janela velha de madeira da casa enquanto o sol se punha, e a noite ia chegando lentamente no vilarejo.
Quando avistava seu vulto apontando ao longe em seus passos largos entre tarde-noite, corria a seu encontro, dava-lhe um abraço e um sorriso e ele retribuía. Dasdô ansiosa para iniciar a sua nova criação, descobria a máquina, tirava o pó, abria os tecidos e cheirava-os carinhosamente. E na luz de lamparinas Dasdô iniciava sua criação, no movimento frenético do cozer e a confusão dos pés, mãos, olhos, joelhos controlando os pontos, as linhas e agulha na nova peça, assim como na costura da vida.

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quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Crescência - MARINA MARINO

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Seu nome era Crescência. Natural da Bahia, não me recordo mais o nome da cidade. Apareceu quando criei um curso para a alfabetização de adultos aqui em São Paulo, lá pelo ano de 2.008. Foi a primeira aluna a se matricular. Enquanto eu preenchia sua ficha de inscrição, fiquei sabendo mais sobre ela.
Crescência achava que tinha 76 anos, porque sua certidão foi feita bem depois de seu nascimento, então não tinha certeza de sua idade. Nasceu em uma grande família com muitos irmãos homens e algumas mulheres. Ela era a mais velha das meninas. Os meninos iam à escola, as meninas não podiam ir. O pai não permitia, dizia que não era coisa para mulher.
E assim levou a vida, dentro de casa, aprendendo o que se pode fazer lá. Numa certa altura, um pretendente apareceu e ela se casou. Mudou-se para São Paulo, onde iam estabelecer família.
A primeira coisa que reparou ao chegar na cidade foi que havia uma escola na rua onde moravam. Mas o marido a queria em casa, cumprindo seus afazeres domésticos, cuidando dos filhos. Naquela época, não sobrava tempo para estudar.
Depois de alguns anos, a escola abriu um curso de alfabetização noturno. Crescência ficou sabendo e foi até lá pegar informações. O marido achou que à noite não era um bom horário para ela ficar fora de casa, quem lhe serviria o jantar? E Crescência desistiu de estudar.
Os anos foram passando, até que Crescência enviuvou. Então começou a fazer coisas que nunca tinha feito antes. Passou a frequentar uma roda de tricô, onde podia conversar com mulheres bem diferentes dela. Foi aprender dança de salão à noite, já que não tinha jantar para servir. Ah, e foi jantar fora também, com as novas amigas, pelo menos uma vez por semana.
Até que um dia, ficou sabendo do nosso curso e chegou à sala de aula cheia de esperança. Queria aprender a ler para ler receitas de doces, as fofocas sobre novelas nas revistas e os folhetos de ofertas do supermercado.
E foi por aí que iniciamos com ela, pelos folhetos de compras, logo na primeira aula. A princípio ela se assustou, achava que não sabia “ler”, mas logo descobriu que lia, lia sim, lia as imagens dos produtos, reconhecia os números dos preços, identificava os supermercados, só não decodificava as letras. Isso foi o suficiente para que sua estima em relação à leitura aumentasse e suas crenças sobre “não vou conseguir” diminuíssem.
Então realizou o grande sonho de sua vida, aos 76 anos, Crescência floresceu.

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quarta-feira, 22 de setembro de 2021

O beijo da Borboleta - MARIÂNGELA TOLOI

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A borboleta beijou o seu ventre e nele nasceu uma flor que depois de nove meses, desabrochou.
A espera faz o tempo andar devagar, quanto mais se espera, mais lento anda o tempo. Esse tempo será de preparo?
Ouviu o sino da igreja batendo oito horas, era domingo, dia de missa.
Rezou em silencio olhando para um quadro de Nossa Senhora, pendurado na parede, acima da porta, precisava de ajuda, a dor contorcia o seu corpo, apenas uma mão amiga lhe amparava, a dor vinha e ia. O tempo continuava na sua lerdeza desesperadora, ela tinha pressa que chegasse ao fim aquela agonia, mais dor, maior ainda e quem chegou, foi quem esperava.
O caminho foi tortuoso e cheio de gritos! O vidro de um armário, à frente dela, refletiu a chegada, ela viu partes do seu corpo dilacerado, restos de casulo pendurados, sangue... viu tudo, até que chegou alguém para fazer a reconstrução e tampou a sua visão. E lá veio o tempo de novo, longo, doído e cheio de ansiedade de pegar nos braços o ser parido. 
Ai que pena, a borboletinha veio com uma asa quebrada!
Pobre borboleta defeituosa, não poderá voar e não será amada como as outras, afinal, defeito é defeito e se não tem conserto, será para sempre!
Ela chorou, chorou, chorou muito, não se conformava, o tempo não a tinha preparado para isso!
Tentou de várias maneiras consertar o defeito, foi cada dia num lugar, cada método diferente do outro, uma judiação, e nada adiantou. Enquanto isso, a borboletinha sorria para ela, batendo a asinha sã, alegre, dócil, inocente, mamando no seu peito. Que borboletinha boazinha!
Quatro vezes seu ventre recebeu o beijo da borboleta, quatro seres diferentes ela pariu, cada um tinha o seu próprio desenho e suas próprias cores, cada um ela amou de uma maneira particular, confessou que a borboleta aleijada foi a mais difícil de amar, não sabia se por culpa sua ou por culpa dela. Culpa.
O tempo as distanciou no meio da vida e as reaproximou no final. Houve amor sim, não houve foi intimidade entre elas.

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terça-feira, 21 de setembro de 2021

O reino dos sorrisos proibidos - MARIANA FREITAS

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O menino fechou o olho e sonhou com um reino onde abraçar era proibido.
Mostrar o sorriso também não podia. Ninguém se tocava.
E pra demonstrar amor, era preciso ficar longe.
Nesse reino, o menino não tinha com quem jogar futebol. Também não ia na escola. Aprendeu a aprender com uma tela. A mesma tela que todo mundo parecia fixar o olhar. O mesmo olhar que era agora cheio de medo e desconfiança.
O menino chorou.
Antes de cair no chão, sua lágrima tocou uma lagarta apressada que passava por ali. Nesse reino, até as lagartas tinham pressa.
Depois de experimentar o cinza da solidão, o menino colorido estava decido a ganhar uma amiga, a lagarta acelerada.
Pegando o bicho na mão, o menino perguntou:
– Pra onde você vai com tanta pressa?
– Vou pra um reino onde eu posso andar no meu ritmo, onde as árvores se transformam com as estações.
– Lá nesse reino tem abraço?
– Abraço, sorriso, afeto.
– Me leva junto com você?
A lagarta colocou o menino nas costas e, nesse instante, nasceram asas da cor do arco ris no bichinho. Os dois voaram juntos, atravessando oceanos, tempestades e maremotos.
Quando o sol voltou a brilhar, o menino abriu os olhos e o reino cinza havia desaparecido. As telas também. E também os panos de cobrir sorrisos.
Ele olhou pela janela do quarto e viu a borboleta mais colorida que podia existir, voando ao redor das crianças que jogavam futebol na rua.
Ele abraçou sua mãe e foi jogar com eles.

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segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Embriaguez - MARIA LUCIRENE FAÇANHA

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Um homem banhado em calma e meditação.
Quem o vê assim, pensa, falta um amor? Que nada, bêbado das belezas que o rodeiam. A música o alcança, trazendo com ela as pupilas verdes de Elisa, os lábios entreabertos num sorriso maroto capaz de despertar pecados mortais. Uma embriaguez o invade: vontade de cantar canções antigas, de dançar agarradinho, de recitar poemas ao pé do ouvido, tirando a poeira das rugas que hoje saltam aos olhos e coração. Passa a mão no rosto como a querer dissipar esse fiozinho de tristeza que o remete ao tempo que passou.
A morte é uma fêmea desalmada, tão brasileira e desgraçada que mata os rios, as matas, os animais.
Da varanda vira Elisa entrar no carro, os faróis se perderem entre tantos na avenida movimentada. As luzes coloridas e a lua a alcançam com as mãos. Não lembra muito. Lágrimas o desmontam.

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domingo, 19 de setembro de 2021

Uns com os outros - MARIA LAURINDA R. SOUSA (LAU)

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Meu corpo responde aos nomes pelos quais me chamam. Tenho memórias que são arquivos. Um olho voltado para trás – para o infinito de uma origem nunca alcançável. Outro, voltado para o presente-futuro. Esperançoso? Não sei. Dependo do que vier a construir. Com todos; uns com os outros.
Sou todos os nomes inscritos em mim; impressões que se misturam e compõem múltiplos mosaicos. Comecei Penélope. Diz a história, escrita por Homero, que fiquei em casa tecendo e destecendo num ardil para afastar os que queriam se casar comigo e tomar o lugar de Ulisses. Lugar de espera e afastamento do desejo. Nunca me deixaram registrar as lutas que enfrentei para salvar minha terra das invasões, enquanto ele, Ulisses, o herói, se afastava para seu mundo de aventuras. Pudesse eu ter escrito a Odisseia e o relato seria outro.
Foi com minha liberdade de águia - lá do alto do céu - que vi todas as árvores da floresta, diversidade de insetos, bichos e aves. Acompanhei os índios que deslizavam em canoas pelo rio Amazonas. Caçavam e pescavam nas margens de seus afluentes. Reverenciavam a mata que lhes garantia a vida. Foram meus olhos atentos que viram pequenos curumins pintados com as cores vermelhas daquelas árvores. Trepando nos cipós feito macacos. Brincando de imitar o som dos pássaros.
São meus olhos que veem, nestes últimos anos, as matas queimadas, o fogo comendo, como urubu fosse, as carcaças abandonadas do que antes eram corpos em vida e movimento.
Sobrevivi, por um tempo, à devastação provocada pelo monstro extrativista, mas as cenas de horror - dos corpos soterrados, das casas destruídas, do ar e água contaminados -, tomaram conta de minh'alma. Meu olhar vaga desolado pela paisagem. Feito pássaro velho, que não suporta a mudança de gaiola, morro de tristeza.
Sou todos os que migram. Aves voadoras que abandonam lugares inóspitos em busca de terras onde seja possível criar seus ninhos. Acompanho meu povo na travessia por outras águas e ocupo as ruas das terras invasoras para denunciar os ataques à minha gente e à floresta, e defender o direito legítimo de nosso território.
Sou essas mães pretas que choram, todos os dias, sobre o corpo de mais um de seus filhos e respondo de punho levantado, lutando por justiça. Por minha voz ecoa no mundo o abuso de tantas armas e falas assassinas.
Sou, enfim, todas as mulheres que cantam as artimanhas de suas lutas para vencer as guerras cotidianas e escrevem, hoje, novas narrativas de suas Odisséias.

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sábado, 18 de setembro de 2021

Lisboa, Menina e Moça - MARIA JOSÉ ESTEVES

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– Senhores passageiros, dentro de segundos iremos levantar voo. Agradecemos que se mantenham com os cintos de segurança apertados! – escuto em silêncio e o coração salta como um pássaro assustado entre as costelas.
O avião inicia a sua corrida pela pista. De olhos cerrados visualizo um campo de flores; a serenidade envolve o meu espírito e o pavor desaparece. Abro os olhos e retorno ao lugar junto à janela. Por mil vezes que a tenha sobrevoado é sempre em êxtase que admiro a luz branca de Lisboa. Os edifícios roçam os nossos pés.
– Um dia teremos uma tragédia no centro da cidade! – comento para o passageiro sentado ao meu lado. São pensamentos que me atormentam. Para me abstrair observo as avenidas, os edifícios, os jardins que reconheço das vivências na cidade.
Sobre o Vale de Alcântara destacam-se os arcos do Aqueduto das Águas Livres, cuja dimensão adivinha a grandeza da cidade, no século dezoito. Em contínuo, emergem de entre o casario, como guerreiros medievais, as três torres de vidro das Amoreiras. Mais uns segundos e avistamos o tapete verde do Parque Eduardo VII e as árvores floridas da Avenida da Liberdade. A ilusão de um quadro pintado de verde, salpicado de pontos coloridos, dissimula a poluição da cidade.
O avião segue a sua rota e, numa ligeira inclinação sobre uma das asas, permite observar, no alto de uma das sete colinas, o Castelo de São Jorge. Imponente, espreita o Tejo a seus pés e o Cristo Rei que, da outra margem, abraça Lisboa. Num vermelho que corta o horizonte avista-se a Ponte 25 de Abril.
Sou chamada à realidade pela voz do comandante: – Senhores passageiros! Vamos iniciar a nossa viagem sobre o Atlântico. Não se prevê turbulência, mas mantenham os cintos apertados! – respiro fundo e a tranquilidade ressurge na minha alma.
Num último olhar, ainda deslumbro navios de cruzeiro que aguardam a sua vez para entrar Tejo adentro. Sobre o convés, os passageiros fotografam os monumentos que serpenteiam a margem. A Torre de Belém destaca-se entre os restantes. Estão ávidos de conhecer a cidade, as calçadas, as gentes e os seus costumes – “Lisboa, menina e moça”, no cantar do fadista.
No ar espalha-se o aroma do café que me recorda o bulício das esplanadas à beira Tejo. Os estudantes, com computadores à mistura com chávenas de café, alternam as acesas disputas com a mudez e imobilidade sobre os écrans; as senhoras septuagenárias, com as suas fatiotas e cabelos incensuráveis, bebem o chá com o tradicional pastel de nata, em alegre cavaqueio; os turistas deleitam-se com o azul do rio Tejo, num momento de repouso após calcorrearem as ruas e as colinas da cidade.
Acomodo-me no banco e pego no livro que vai ser o meu parceiro durante as próximas sete horas.

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Revisitando o espelho do meu quarto - DAIANA PASQUIM

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Claraboia de histórias. Quintal de arvoredo para abraçar troncos. Treze anos. Era a idade que eu tinha quando me mudei para aquela casa de alvenaria branca com janelas de alumínio Sasazaki. Daquela moldura apreciava o verde, o canto dos pássaros, convidando o universo ao meu quarto de adolescente. Tintas, papel, a máquina de escrever Olivetti de segunda mão, as cópias de minhas lições de datilografia, meus cartazes de Jornada Jovem... ah, isso era sensacional. Cada gaveta que eu abria, dava com um papelzinho que meus amigos haviam escondido para ocasiões inesperadas. Tinha aquele cheirinho inigualável da amizade, quando parece que a vida se mostra na antítese tão eterna, e tão efêmera. Tinha o cartaz: “não corra atrás das borboletas, plante flores que elas virão até você”, que eu reforçava a caligrafia anualmente, quando o frio, o calor, o sol, o tempo, iam apagando as letras.
Ah, espelho, espelho meu... que visão de mim você dá hoje? Cúmplice que mirava as coreografias inventadas deslizando meias pelo chão sintecado. Na parede sul, da mesa de madeira maciça construída pelo meu bisavô paterno, criava as mais incríveis cenas. Magenta, amarelo ocre, verde musgo, vinho, verde oliva, azul-celeste, roxo, vermelho escarlate – escolhia as cores para a arte da tarde. Era camiseta, cartaz, um simples papel, muitos panos de prato, algumas fraldas. Ursinho, frutas, flores. Meu quarto tinha cheiro de tudo, tudo que me revelava: da tinta, do suor da dança, do cheirinho gostoso da limpeza recém-feita e da madeira hidratada com a cera. Eu já falei que o meu espelho ficava no centro do guarda-roupa? Isso foi no começo, porque logo que eu comecei a trabalhar como recepcionista do hospital, a primeira coisa que fiz foi substituir o velho roupeiro prensado por um bem bonito. Era 1998, custou R$ 279 e tinha dois espelhos, um em cada porta central, do lado de fora. Eu me contemplava por inteiro. Era a minha caixa de pandora. Calça bailarina, camisetas, blusinhas curtas, abdominais, espelho, pinceladas, espelho. Puro vício inocente. Um dia, a professora da oitava série deu para lermos “Círculo Vicioso” e a cada três coisas que o personagem fazia, uma era “cigarro e fósforo”. Daí, saquei que minha fraqueza era espelho. Todas as noites ele me guiava os bobs, para acordar com o cabelo bonito na manhã de escola. Anos mais tarde, estudando Psicologia da Comunicação, descobri que se dá a isso o nome de Narcisismo. Larguei um pouco os arquétipos, para não perder o foco da vida.
Minha penteadeira era interna e rescendia perfume de moça, hidratante para o corpo e sabonetes. Ah, eu me sentia tão bem abrindo aquelas portas... o dono da parede oeste. Bijuterias de adolescência, só tinham valor sentimental. Muitas compradas em praias, que na metade do ano já estavam bem feias. Passava o ano esperando as férias para usar meus biquínis.
Minha cama era de casal e no criado mudo, o minisystem. Aprendi a fazer mágica e me beneficiar das palavras logo cedo. Aos 13 anos, ganhei um concurso de redação e transformei o prêmio em música. Tinha poucos CDs – que começavam a surgir no mundo. E uma infinidade de fitas k7. Uma delas estava sempre “no ponto” para gravar a transmissão da rádio FM. Largava a cera, o balde, a vassoura, a massa de pão, o que fosse, para correr e apertar “Rec”. Aos quinze, já tinha uma playlist interessante.
Entre as paredes branco-gelo, tinha a chuva de pensamentos que me assolava. Descrição galáctica de tarefa fatigante (por que precisamos de tantos trecos para sobreviver a este ciclo?). A âncora desta travessia foi a velha Olivetti, das lições de datilografia ao meu primeiro romance escrito, que se perdeu. Como adorava “batucar” as duras teclas e tecer, tessituras tantas, um macrocosmo de percepção juvenil. Vizinhava com a estante de aço, singelamente pintada de azul bebê, com todos os meus livros, cadernos, revistas femininas, penduricalhos e tranqueiras dessa fase tão bagunçada da vida. Embaixo, ficavam os calçados. Depois, vinham as revistas, embrião da minha trajetória jornalística.
Mas sabe qual era a parte mais importante do meu quarto? É uma que permanece comigo até hoje: a essência da minha alma. Hoje vislumbro tudo o que parecia nebuloso da moldura do bosque.
Virginiana às avessas, mantenedora de diversificados badulaques. É caixa dentro de caixa, para guardar outra caixa. Todas elas, artimanhas de narrativas: coloridas, bonitas, diversos compartimentos, enfeitadas, com adesivos. Meticulosamente, tudo separado, às vezes misturado. Caixas pra arrumação, caixas pra bagunça, caixa pra cintos e meias, para as cartas, bilhetes e marcas do namoro. Meu namoro com a vida, com a paixão de estar viva, com minhas relíquias íntimas, esse namoro em si mesma, apoiada na representação do real para não perder o norte. É este espelho, espelho meu, que me trouxe as fantasias que enlaçam meu além-mulher.

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sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Um novo olhar - MARIA FERNANDA MELGAÇO

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Ouviu a porta metálica bater atrás de si. Lembrou-se, incrédula, daquela última vez que passara ali, naquele corredor de azulejos brancos e azuis: scarpin preto envernizado, camisa de seda pérola, batom vermelho, cabelo escovado. Quem a vira passar naquela vez, com certeza, se espantaria de saber que aquela mulher fugia dos próprios olhos no espelho. Toda manhã, a mesma perseguição: seus olhos, carregados de tristeza, fugiam da recriminação daquele olhar refletido. Sofria. Mesmo com todas as suas conquistas: professora universitária aos trinta anos. E todos os seus privilégios: mulher branca, de classe média.
Passaram-se dois anos desde aquele dia. O dia em que procurou a morte para fugir do sofrimento. Quem só vira o scarpin, a camisa, o batom, o cabelo, deixara passar os olhos, fixos nos azulejos, ausentes de vontade de viver. Mas a morte... a morte é perversa. Ela escolhe quem levar consigo e quem deixar para trás, que foi o seu caso. Não sem marcas.
– Inválida eu? – murmurou.
Dois anos que não pisava ali. E, agora, que já trazia vida nos olhos, autoconfiança, projetos futuros... não mais a queriam. De fato, a Academia fecha portas para mulheres, mas, com um pouco de insistência e ousadia (leia-se competência e feminismo), ela conseguira entrar há alguns anos. Agora? Depois de tratar-se física e psicologicamente, após o ocorrido, ela era uma nova mulher. Estava certa de que a vida tinha valor para si. Porque, para o mundo, ela nada mais valia?
Lembrou-se do peso que sentira naquele dia, há dois anos. Da dificuldade que enfrentava para se levantar todos os dias. Das máscaras que precisava vestir para omitir a tristeza de seus olhos. Do olhar sempre voltado para o chão. Agora estava livre das máscaras. Libertara-se dos grilhões. Porém, para alguns olhares, o valor de uma mulher está na aparência. Antes, viam-na como jovem, bonita, bem sucedida. Agora? Agora ela era inválida. Não só as portas batiam atrás de si, como construíam muralhas para que ela nunca mais pisasse na Academia.
Não quis desistir. Desta vez, não estava sozinha. Sabia que, agora, buscaria seus olhos refletidos no espelho. Sabia que eles se fitariam longamente. Que eles a encorajariam. Porque, diferente do que ouvira naquela sala, de onde saíra, ela não era inválida! Sua vida valia muito: valia tudo. Olhou para trás, a porta metálica fechada. Viu seu reflexo nela. Buscou seus olhos, lá estavam: cheios de vida. Agora, ela teria um longo caminho pela frente. Sabia que não seria fácil. Também sabia que, enfim, tinha forças para seguir nele. Forças para olhar para frente, buscar olhos amigos nos corredores em que passasse. Era uma mulher com deficiência, mas, diferente daquele dia, há dois anos, não lhe faltava nada!

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quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Fécula - MARIA AMÉLIA ELÓI

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Você precisa dar uma sova bem dada. Sem dó. Amassar muito mesmo, com jeito, com força, até desmanchar cada caroço. O pão de queijo é um milagre - ela costumava dizer, sorrindo, com as mãos melecadas.
Não o pão de queijo que se compra na padaria, no supermercado ou na lanchonete. Não o que já aparece enrolado, congelado, unidades desgrudáveis (às vezes não tão fáceis de separar), com marca mineira no pacote plástico, pronto pra ir ao forno. Nem o que chega assado às três e quarenta da tarde, num pacote de papel pardo, pelo motociclista do aplicativo que usa máscara bamba sob o nariz. Nem muito menos o que se recebe à meia-noite, pra aproveitar o seu ubereatsdescontão, entregue pela ciclista grávida quase rebentando, sob chuva despejada de balde. Não esse pronto que lhe oferecem a todo o tempo, em grande escala, instantâneo. Esse tipo de pão de quê pode saciar a ânsia calórico-proteica do seu marido, ser calmante para o filhote que não aceita dormir agora, pode reanimar você para mais algumas horas de trabalho, mas não é milagre. Fake alimentício na era da reprodutibilidade técnica.
Você escalda a fécula de mandioca com a mistura do óleo e do leite fervente. Não exagera na pitada de sal. Os ovos caem como grandes olhos abertos, escorrendo, gelatinosos, na mistura branca, e vão corando a massa. Dentro da gamela, a mistura vai ficando cada vez mais visguenta. Aí você salpica o queijo ralado com vontade, sem nunca ter medida certa. A receita é que não adianta muito a receita. De preferência, ingredientes caipiras. Você capricha no queijo e dissolve tudo com esperança de que vai dar certo. Sobe aquele cheiro bom enquanto se escuta o barulhinho fofo. A massa do polvilho vai ganhando liga e sabor. Você vai com jeito, com paciência. E não para de sovar, porque a vida é uma luta mesmo. Na cozinha, nas relações, em toda a obra, misturar ingredientes dá trabalho. Depois você unta bem as mãos, enrola os pãezinhos e bota na forma. Dá um espaço bom, porque senão eles emendam.
Aqui em casa, desde que sou filha dela, o ritual é sagrado: a Baixinha sovando e modelando um quilo de pão de queijo, às vezes dois quilos. Assa uma forma e guarda o restante. Sempre tem milagre no congelador, pedindo pra ir ao forno. Levei pão de queijo no jardim de infância, no ensino médio, na faculdade. Levo pro serviço. Os convidados do meu casamento comeram pãezinhos feitos e servidos por suas mãos conchinhas, pretas por fora e claras por dentro.
A mudança do interior de Minas quase Bahia pra Brasília, a pobreza, os cuidados com as filhas pequenas, a viuvez, as faxinas sem falhar nem dia santo, a compra do lote no Riacho II, a construção da casa, o nascimento da neta. Ela venceu batendo a massa. Força de gigante num corpo quase anão. Pias altas, janelas e portas enormes, cantinhos difíceis, muita sujeira – tudo aguardando a esfrega dela. Fé na seiva das urgências de um dia atrás do outro, aceitação no manejo da fécula, sobrevivência. Esperança nascida não sei de onde. E sempre o bom humor.
Ultimamente um pouco mais tranquila, as coisas mais encaminhadas. Ela aprendendo a diminuir a carga. Aí veio a dormência nas mãos, a gastrite, a úlcera, a covid, o câncer que já estava e ninguém sabia. Traga a morfina, pelo amor de Deus. Traga a coroa de flores. Tudo tão rápido.
Estava lá no fundo do congelador, atrás dos potes plásticos. Eu vi e peguei o último pacote. Os últimos pães de queijo amassados pela minha Baixinha. Saíram do forno corados, fofinhos, o queijo puxando, aquela liga de amor estendida. Amido transformado em milagre. Pão de queijo mesmo, de verdade.
Ela soube celebrar. Achou encanto em tudo o que viu. Um jeito muito próprio de transformar. As despedidas não acabam. Eu, minha irmã e minha sobrinha no café da tarde, contritas. Tudo foi ela quem fez. Tudo traz ela de volta. Tudo foi ela quem deu. Sempre. O nome, a família, a casa, a cor da pele, o crespo do cabelo, o estudo, a coragem, o alimento. Só não ensinou este nunca mais.
É. Você precisa dar uma sova bem dada, desmanchar cada caroço.

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quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Quando o Carnaval chegar - MARGARETH PEREIRA

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Ele nem visitava nossa casa todo dia, porque era muito ocupado. Quando vinha era para conversar com meu primo que morava connosco. Nem sei bem se eram amigos de verdade, mas eu entendia que sim, porque apesar de seu jeito meio diferente, eles se falavam. Os dois pareciam dizer o tempo todo que não falassem com eles. Davam a impressão de que eram invisíveis. O amigo falava pouco e baixo, quase sussurrando. Ele tinha uma cabeleira enorme, cacheada e traços finos naquela pele negra. Eu que àquela época devia ter uns doze anos o via como uma pessoa enorme, caneluda e magrela. Mas sua aparência não me importava muito, o que mais me chamava atenção naquela pessoa era uma coisa que ficava na sala de sua casa e que me fascinava: uma máquina de costura. Eu aproveitava aquele entra e sai de gente da minha casa para ir, de vez em quando, me debruçar na pequena janela que dava para a sala de sua casa. Era lá que os dois ficavam a fazer algo que eu considerava mágico.
Mas havia os que optavam pelo carnaval de rua. Esse era o preferido do costureiro. Para toda gente, eram dias liberados, onde se esqueciam problemas e dívidas. Os Papangus nas ruas assustavam as crianças que corriam para se esconderem embaixo das camas. Já o costureiro, eu percebia que ele se tornava outra pessoa. Na verdade, hoje sei que naqueles carnavais ele podia ser ele mesmo. Eram dias onde, aquele que mal fala no dia a dia, sorria e voltava todo animado do baile de carnaval. Saía todo maquiado, usando um salto que o deixava mais alto do que o poste da rua. Era assim que eu o via. Tinha muito brilho nas suas roupas e ninguém ousava imitá-lo. Reluzia de tanta purpurina. A maquiagem era forte porque o carnaval pedia isso. Em quatro dias de muita festa o costureiro se travestia: Quase não tinha lábios, mas o batom vermelho se destacava tanto quanto a sombra azul.
Eu queria ser como ele. Vestir roupas coloridas, animadas. Não sei se vai demorar muito, mas ainda vai chegar um carnaval onde eu vou poder também fazer minha própria fantasia, vou me vestir de confetes e serpentinas, vou poder sair com pessoas como eu e que gostam do que, nem posso dizer que gosto. O costureiro fugia de todos os padrões de beleza. Mas conseguia ser ele mesmo, pelo menos no carnaval.

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terça-feira, 14 de setembro de 2021

E a felicidade? - LUCILA BONINA

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Vírus, vítimas, UTIs, respiradores.
Isolamento, máscaras, contágio.
Corrupção, desinformação, ignorância.
Incêndio, devastação.
Estresse, ansiedade, angústia.
E a Felicidade?
Sufocada pela crueza da realidade dessa realidade, a felicidade precisa respirar.
Dentro do teu coração ela precisa de uma lufada de ar.
Socorre-a! Ainda é possível uma manobra de ressuscitação:
Até um tímido, ligeiro, inesperado ou surpreendente sorriso provê oxigênio à felicidade.
Respira tua felicidade!
Se te aperceberes que apesar de tudo, a lua não desistiu de se exibir no céu para o teu olhar, e continuará lá...basta que ergas a cabeça.
E que os passarinhos, no meio da tragédia, não deixam de entoar sua resistente cantiga pontualmente.
Deixa a felicidade em ti respirar, quando aquela voz amiga te diz como é bom ouvir tua voz.
Inspira profundamente, nutre tua felicidade, quando reconheceres no coração humano, justamente em momento de lancinante sofrimento, uma capacidade desmedida de altruísmo, de abnegação, de empatia e superação, em atos concretos de solidariedade.
Revigora tua felicidade com o nobre oxigênio da criatividade de que é capaz a tua arte e a arte daqueles e daquelas que caminham contigo.
Abre teu sorriso sempre que puderes; deixa tua felicidade respirar.
E exala a tua felicidade. Ela não é tua meta, já que é teu único caminho, trilhado passo a passo.
Reconhece-a!

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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

O último suspiro do mouro - LEA VIEIRA

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“E agora o senhor não mais haverá de se admirar de que a lembrança desse incidente na Acrópole me tenha perturbado tantas vezes, depois que envelheci (...)”
“Um distúrbio de memória na Acrópole”, Freud (1936)

Minha amiga,
Tendo retornado de viagem há alguns dias, a contragosto, mas de todo modo inteira, não quis perder a oportunidade de compartilhar com você minhas primeiras e segundas impressões sobre lugares e paisagens que têm, desde então, assediado minha mente, em sono e em vigília.
De tudo que vi, posso dar conta com alguns comentários e muitas fotos, exceto por uma imagem: diante do penhasco de Ronda, meu coração parou! Hélios deteve sua carruagem no céu para a luz demorar-se sobre a enorme ferida na terra, resquício sobrenatural de alguma guerra de titãs, ou de uma chuva de meteoros; é quase certo que alguns dinossauros foram engolidos ali, quando o chão se abriu até o fundo do vale, dividindo o mundo conhecido em dois, para a eternidade. No fundo do penhasco corre um rio que muito bem podia ser o Aqueronte (o inferno está em toda parte), mas é Andaluzia, e o rio é o Guadalevin.
E assim, pela segunda vez na vida, enterrei meu coração na beira de um rio e, o que é muito perturbador, sem nova chance de resgate. Na vez anterior, passou-se uma geração antes que pudesse tê-lo de volta; não tenho mais tanto tempo, minha vela queima muito rápido agora. Na tentativa de aplacar minha angústia, retornei ao meu querido Freud: ali mesmo, na beira da ravina, lembrei do seu relato de uma experiência emocional desagradável ao realizar seu sonho de visitar Atenas. Isso era do que me lembrava e, de fato, parece ter ocorrido. Mas o meu conforto veio daquilo que eu não recordava: trata se, na verdade, de uma carta aberta de felicitações para um amigo septuagenário, no momento em que o próprio Freud contava com 80 anos e se permitia, depois de uma breve saudação inicial, mergulhar em considerações um tanto amargas sobre incredulidade, negação, pais e, inevitável, sobre velhice.
Na particular simetria que se apresentou para mim, há exatos 80 anos Freud octogenário evocava, numa pirueta associativa que ele próprio chama de pausa momentânea no texto, a história do último rei mouro da Espanha, que recusou a mensagem de que sua querida Alhambra tinha sido tomada pelos católicos simplesmente queimando a carta e matando o mensageiro. Boabdil não terá sido o primeiro a usar o expediente, naturalmente. Ocorre que eu tinha partido de Granada, no dia anterior à epifania em Ronda, com um pensamento recorrente, algo que li no Mirador San Nicolas (donde se tem uma visão fantástica de Alhambra), uma outra história pouco lisonjeira e muito tocante sobre “o último suspiro do mouro”, o mesmíssimo rei mouro: a caminho do exílio, Boabdil olha mais uma vez para a cidade, e chora; sua mãe não perdoa: “chora como uma mulher o que não soubeste defender como um homem”! A frase cortante, além de suscitar várias fantasias sobre o comportamento de mães muçulmanas no século XV, parece de resto ser bastante conhecida na região e, afinal, eu vinha de Granada, mas Freud... não!
Dessa forma, minha amiga, eu que não sou dada a superstições e careço de grande imaginação, fui levada a acreditar que a carta de Freud, com seu conteúdo absolutamente original e aparentemente despropositado, foi deixada pública e repleta de pistas com o propósito de encantar futuras gerações que, eventualmente, ainda dominassem seu código. Não sei se me entende, gente comum, infeliz a seu modo, que sente angústia, lê e busca consolo em velhos livros, que falam sobre coisas velhas e duradouras, como é a Acrópole, como é Alhambra, como é o inesquecível rei mouro de coração partido, como é o desejo humano de conhecer e viajar, como é o medo humano de não mais poder viajar e de morrer, como era o Freud octagenário há 80 anos, como já sou eu também, velha e duradoura o bastante para reencontrar num velho livro algum sentido humano compartilhado para uma experiência que, de outra forma, não teria sentido algum.
São Paulo, 23 de julho de 2016.

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