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sábado, 14 de junho de 2025

Ao pé-da-letra 8 - Emanuel Lomelino

Ao pé-da-letra 

8

Neste tempo que é o meu, os anos são cúmulo de água, cloreto de sódio, sangue, reticências, pontos e vírgulas.

Reúnem-se dores e lamentos que se transformam em bagagem-de-mão e escalam-nos até aos ombros, para terem uma vista privilegiada dos horizontes que nos esperam.

Os caminhos; os elementos; as ideias; os anseios; as esperanças; as derrotas; os contratempos; tudo são facas de gumes afiados preparadas para cortar a derme à primeira oportunidade; ao primeiro deslize; à primeira desatenção; ao primeiro baixar de guarda.

Noutro tempo que também foi o meu, as cicatrizes (físicas e mentais) eram medalhas de crescimento e a sensibilidade recusava ficar à flor-da-pele e nunca despertava por dá-cá-aquela-palha.

Os monossílabos não originavam depressões. As encruzilhadas não provocavam ansiedade. Os arrufos não geravam separação. Os atritos não empunhavam belicismo. Todos sabiam que a banha da cobra era escorregadia e o óleo-de-fígado-de-bacalhau sabia mal, mas nem por isso havia dúvidas existenciais nem associações de apoio a seres cheios de não-me-toques.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 7 de maio de 2025

Ao pé-da-letra 7 - Emanuel Lomelino

Ao pé-da-letra 

7

Quisera ser tempestade ribombante para, com a luminosidade dos raios e rouquidão dos trovões, atormentar as dualidades das marés lunares.

Quisera ser vulcão e cuspir rios de lava abrasadora sobre as vulnerabilidades infundadas que, quais etiquetas inamovíveis, falsamente denigrem o carácter mais brando e casto.

Quisera ter a acidez vernácula para combater a violência covarde de quem se esconde nas sombras do anonimato e depois passeia, altivo e de saltos altos, nas vergonhosas passadeiras vermelhas do engodo.

Quisera ter todos os verbos à flor da pele para, com a língua afiada, romper a brandura dos discursos, chamar os bois pelos nomes e colocar os pontos nos “is”.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 22 de outubro de 2024

Ao pé-da-letra 6 - Emanuel Lomelino

Ao pé-da-letra 

6

Normalmente usamos o chavão “a vida é uma selva” para demonstrarmos indignação sobre um episódio qualquer. Mas, se aprofundarmos a ideia, chegamos à conclusão que podemos aplicá-lo a um dia completo. Vejamos:

De manhã cedo saímos para trabalhar e há sempre uma coruja ou um bufo, por trás de cortinas baloiçantes, a ver quem bateu a porta do prédio. Depois surge um babuíno a cravar um cigarro ou um morcego, que retorna à sua gruta, a perguntar as horas. Na fila do autocarro, há sempre papagaios a palrear alto coisas sem noção, e alguns ratos que tentam furar a fila. Durante a viagem, olhando pela janela, vemos imensos burros e camelos a conduzir e que, volta e meia, são ultrapassados por chitas cheias de pressa. No acesso ao metropolitano temos sempre algumas lesmas e preguiças a impedir passagem e há um ou dois hipopótamos com dificuldade em desviar o corpanzil para deixar passar quem quer entrar na carruagem. No interior da composição, já sentadas, vão bastantes pavoas emproadas, com os rostos untados de óleos, pastas, cremes e essências. Aqui e ali avistamos alguns suricatas a esticar o pescoço – ora para a esquerda, ora para a direita – como tentando detectar possíveis predadores. Há muitas hienas de gargalhadas estridentes, mas é só. Nesta arca de Noé sobre carris, também conseguimos ver um número considerável de pinguins vestidos com os seus fatos de gala. Chegados à estação pretendida, todos sobem as escadas como fossem gnus a trepar uma encosta íngreme depois de atravessarem o Nilo infestado de crocodilos.

Durante o dia cruzamo-nos com elefantes trombudos, gazelas esqueléticas e outros herbívoros a pastar nas esplanadas, jumentos de portaria, guaxinins a explorar papeleiras, melgas evangélicas, doninhas fedorentas e, em alguns pontos da cidade, um sem número de espécies exóticas, borboletas, mariposas, traças, que se misturam com formiguinhas autóctones, lebres apressadas e alcateias de lobos desocupados.

Isto para não falar dos escorpiões e lacraus venenosos, serpentes que querem ver alguém morder a maça, anacondas que abraçam em asfixia, aves de rapina a perscrutar as calçadas em busca de presas, e necrófagos a sobrevoar algumas carcaças, que já pereceram, mas não foram avisadas.

Digam lá se a vida diária não é uma selva!

EMANUEL LOMELINO

domingo, 29 de setembro de 2024

Ao pé-da-letra 5 - Emanuel Lomelino

Ao pé-da-letra 

5

Já ninguém acode ao “aqui d’el rei” porque quem manda é o umbigo e os aflitos de hoje são mais do que as mães.

Já ninguém acredita no “olh’o lobo” porque deixaram de existir cordeiros e todos estão iludidos com a possibilidade de serem predadores.

Já ninguém aceita “descalçar a bota” porque os caminhos são pontiagudos e não há quem se dê ao trabalho de grandes trabalheiras.

Já ninguém quer saber das “pedras no sapato” porque os sapateiros são espécie em vias de extinção e as meias-solas estão fora de moda.

Já ninguém grita “fogo” porque, em vez de bombeiros, os primeiros a chegar são os inúteis alarmes ambulantes pixelizados, que desconhecem a existência de baldes e mangueiras e, tampouco sabem como se abre uma torneira, ou o que é uma boca de incêndio.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Ao pé-da-letra 4 - Emanuel Lomelino

Pintura Columbano Bordalo Pinheiro
Imagem pinterest

Ao pé-da-letra 

4

O universo da escrita, nos diversos patamares que o compõem, usou a globalização de forma desmesurada e, consequentemente, deu origem a alguns fenómenos – vulgo personagens – que, apesar dos elevados níveis de incompetência, jamais assumem os fracassos e outorgam culpas a terceiros.

Outros, com mais-olhos-do-que-barriga e mania-das-grandezas, suprassumos virtuais na elaboração de obras opacas, alardeiam capacidades acima-da-média, que nunca tiveram, e nem dão conta de estarem a fazer-a-cama onde se deitarão.

Mas os piores de todos são aqueles que não demonstram qualquer remorso, nem sentem peso na consciência, quando cospem-nos-pratos de onde comem a visibilidade que têm.

Em comum, todos eles são, por norma (há excepções), velhos-do-Restelo.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Ao pé-da-letra 3 - Emanuel Lomelino

Ao pé-da-letra 

3

Um dos problemas da humanidade é ignorar a etimologia das palavras e, por isso, desvalorizar ou sobrevalorizar algumas situações da vida.

Vejamos, como exemplo simples, a preocupação.

Tal como a própria palavra explica, estamos perante uma “pré-ocupação”, logo, uma ocupação antes de tempo.

Pensar em algo de forma antecipada não traz mal algum ao mundo, bem pelo contrário, pode ser a forma mais simples de resolver um problema futuro, no entanto, a tendência é exacerbar os pontos negativos e isso, na maioria das vezes, acaba por toldar o discernimento necessário para a sua resolução.

Sem desvalorizar as consequências e a necessidade de ultrapassar-se um obstáculo, esta é uma das palavras que, encarada ao pé-da-letra, ajuda a tornar a vida mais leve e menos desgastante. Porque tudo deve ter conta, peso e medida.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Ao pé-da-letra 2 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Ao pé-da-letra 

2

Paciência é uma qualidade que nem todos têm e aqueles que a praticam caminham para a extinção. Não por morte física, mas sim pelas diversas mortes que o usuário deste atributo acaba por sofrer ao longo da vida.

Por mais paciente que alguém possa ser, é tremendamente nefasto estar sempre a encher balões de tolerância, pelas burradas, aselhices, asneiras e disparates alheios.

Todos esses “passares-de-pano” – vulgo, relevar de erros – são micro-organismos que minam o espírito, por mais combativo e resolvido que seja, começando a instalar-se sem causar danos, mas, com o tempo e acumulo, passam a criar condições para que os pensamentos mais sombrios e a exasperação comecem a aflorar.

Ser paciente é uma virtude, no entanto, mais do que ter paciência-de-chinês, todos devemos reconhecer que, tal como muitas outras coisas na vida, também a paciência tem limites e passá-los pode revelar-se extremamente tóxico.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 3 de agosto de 2024

Ao pé-da-letra 1 - Emanuel Lomelino

Ao pé-da-letra 

1

Os lugares-comuns e as frases-feitas são, cada vez mais, sentenças para boi-dormir ou inglês-ver. Todos as dizem, mas ninguém acredita porque não há aplicabilidade prática.

Vejamos o exemplo do velho adágio “o dinheiro não traz felicidade”.

Para início de conversa, o que é felicidade? Talvez seja o prazer de um encontro; um momento de silêncio num lugar paradisíaco; ter um filho; um jantar romântico à luz de velas e ao som de uma orquestra; uma viagem de sonho.

Em qual destes exemplos existe a prescindibilidade do vil-metal? Nenhum. Há sempre um custo associado. Assim sendo, a felicidade, quer queiramos ou não, depende sempre do dinheiro.

Muito dirão: Ah, estás a analisar demasiado ao pé-da-letra! Até podem ter razão. E, se assim for, então o problema dos infelizes está no facto de serem preguiçosos por não meterem mochilas às costas e irem a pé visitar lugares paradisíacos ou ver um amigo que mora longe; por não plantarem o que querem comer e beber; não saberem tocar instrumentos… e não saberem que a felicidade de ter um filho não se esgota no parir – há que cuidar, educar, ver crescer e encaminhá-lo para a vida… e tudo isso demanda o quê? Ups… dinheiro.

Vocês podem dizer que o dinheiro não traz felicidade, mas sem ele pouco terão dela.

EMANUEL LOMELINO