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quarta-feira, 12 de junho de 2024

Abismo da Sombra do Esquecimento (excerto) - Alvaro Giesta

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

É inevitável que nestes dias, ainda tão próximos, mas que se vão afastando cada vez mais de nós que os vivemos (na pele) – os dias das Grandes Revoluções que mudaram a história que muitos teimam em afastá-los da memória pela indiferença – é inevitável, dizia, que haja quem faça questão de recordar esses dias por palavras escritas com ênfase e entusiasmo, e deixadas para a posteridade em obra impressa para os seus legentes. Uns, porque a esses dias, que mudaram a história, devem a quebra do jugo que lhes negou a liberdade durante décadas da sua existência e às revoluções ficaram eternamente gratos; outros, conquanto as desejassem também pelos mesmos e outros motivos, as encaram hoje com alguma desilusão e desesperança, porque elas não foram mais do que uma utopia que os governantes, que se lhes seguiram na condução das rédeas dos novos governos, se encarregaram, mais e mais, de transformar as ilusões de novos e melhores dias em mega-utopias.

EM - LIBERDADE - COLETÂNEA - IN-FINITA

sábado, 4 de abril de 2020

Em tempos de quarentena - ALVARO GIESTA


 [o medo vive atulhado no medo]
____
De olhos secos, onde as lágrimas se esgotaram
de tanto ter chorado, choro sobre os festivais
das matanças que ficaram impunes.
Corre a morte no medo da insegurança;
destrói fronteiras de sonho
este medo permanente que existe no ar.
Trancam-se as portas
que sempre estiveram abertas para os amigos
poderem entrar - cerram-se os peitos
aos incendiados olhares que espiam o medo
com medo do inimigo invisível
que se oculta em cada esquina à espera de matar.
Vultos sem rosto com medo de se tocarem
tropeçam no sítio onde vivem à espera da morte.
Este bairro vazio permanece apagado; vive-se
com medo de aqui viver - ontem, respirava-se
no meu bairro a noite como se fosse dia;
hoje, vive-se nele o dia em noite antecipada.
No meu bairro o medo vive atulhado no medo
- como a azeitona acamada em excesso na tulha
até ir a esmagar para a safra - aflige-me este medo
que espreita nas casas de janelas e portas trancadas
com medo das asas do anjo negro da morte:
- vampiro que a todo o momento nos vem abraçar.
O melro, que manhã cedo desgrenhava fio a fio
as ervas do jardim à procura da larva distraída,
fugiu a esconder-se em sítio escuro com medo
de morrer - só os incautos desafiadores da morte
se incendeiam na nudez de fúlgidos alvores
e intemeratas paixões diluvianas.  

autor: Alvaro Giesta (para "a noite dilacerada")


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