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domingo, 23 de março de 2025

Retrato de família (excerto) - Solange Cianni

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Os homens bebem vinho e riem das piadas machistas. Ele, José, ria tímido com canto da boca mas por dentro... que graça tinha? Que homem tem que fazer muitos filhos, que mulher tem que obedecer o marido calada, que lugar de mulher é na cozinha e por aí vai.
Ele não podia contar que quem manda é ela, que grita com ele porque não engravida, xinga de frouxo, bate a porta, dorme no outro quarto. Não podia.
Água fervendo no fogão, joga a massa na panela e tampa. Uma pica a cebola com os olhos cheios, a outra corta as tiras de tomate sem as sementes. Na frigideira o azeite já está no ponto para fritar a beringela com pimentão.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS IX - COLETÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Borboleta - SOLANGE CIANNI

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Quando eu morrer...
Não quero o meu caixão coberto de cravos. O cheiro não me agrada.
Lembra os enterros fúnebres, com choros e lamúrias.
Não quero nada disso, por favor!
Quero rosas... vermelhas, amarelas e brancas.
Vermelhas porque sempre vivi com o furor e a delicadeza de uma mulher apaixonada.
Amarelas porque sou um anjo do sol e amante da luz. Finalmente brancas porque sempre persegui a paz e imagino que morrer é simplesmente repousar no colo dela.
Quero a presença das minhas amigas evolutivas, irmãs de alma, parentes e amigos queridos, celebrando, junto comigo, este momento sagrado, fazendo-me eterna na morada da memória de cada um que lá estiver.
Quero música! Violão, cantos e palmas, muitas palmas... E, se as ciganas dançarinas quiserem, podem dançar ao meu redor.
Eu vou adorar!
Nesse caso, que não falte o fogo, que tudo cura e transmuta.
É fundamental que haja incensos nesta hora, para atrair anjos e beija-flores.
Espirros de água benta eu também faço questão, para que todos quando dali saírem, sintam-se abençoados e em comunhão com o mistério no qual estarei mergulhada.
E, quando, enfim, me deitarem na terra, peço silêncio.
Um respeitoso silêncio, condizente com o momento solene onde uma sacerdotisa retorna ao lar, após uma longa jornada.
Que a terra me saboreie no tempo certo e o meu corpo se torne vitamina deste planeta professor que me acolheu neste percurso aprendiz.
Que as pessoas, então, me cubram de pétalas multicores. 
Cantando, uníssonas, o mantra “OM”...
Depois de tudo consumado, retornem caminhando sem pressa, abraçadas, rumo aos seus afazeres cotidianos, levando consigo a reflexão do que é de fato essencial nessa fagulha de vida, frente a imensidão do Universo.
Quero ainda que todos os presentes recebam margaridas brancas e amarelas na saída, para que possam voltar às suas atividades plenos de serenidade e saudade, sem pena ou culpa.

Nessa hora, com certeza, os bem-te-vis e joões-de-barro cantarão uma opereta de despedida composta especialmente para mim, em nome da nossa amizade e parceria.
Um sentimento de gratidão, então, tomará conta dos corações de todos que ali estiverem, pela oportunidade de cada um no tempo devido, poder cumprir a sua tarefa na vasta existência.
Oferecerei, finalmente, um sopro de amor e um beijo estalado aos meus filhos e ao meu amado.
E então todos seguiremos em paz, celebrando o milagre que é estar vivo eternamente...
É assim que eu quero.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 5 de abril de 2020

Em tempos de quarentena - SOLANGE CIANNI



Sobre as aparências que enganam

Se quando eu te reencontrei
Você só percebeu o quanto envelhecida fiquei
Desconsiderando
Os buracos profundos que me afundei e
E os caminhos tortuosos que desbravei
Te convido, então, a me olhar mais uma vez
Pensar nas trilhas dos infernos que percorri
E lembrar que eu sobrevivi!
E, se ainda assim, se assustar com a idade que aparento
Saiba que sou muito mais velha ainda por dentro.

Solange Cianni
Março/2020 - Bsb/ Brasil
7º dia de quarentena/coronavírus


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