quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 100 - Emanuel Lomelino

Conheço-me por inteiro, de polo a polo, em todas as coordenadas e pontos cardeais. Sei os meus atalhos, desvios e encruzilhadas. Domino a minha geografia, até de olhos fechados, de trás para a frente e em linha recta. Vejo-me na plenitude do ser (pensante e corpóreo) e sinto-me na totalidade das fracções que me compõem.

Sou antropólogo, matemático e historiador da minha essência – para o bem e para o mal – ciente das multifacetadas circunstâncias e vicissitudes que me moldaram e, porque sou obra em permanente construção, continuarão a esculpir-me nos dias por vir.

Sou o mais feroz crítico dos meus defeitos e impetuoso defensor das limitadas virtudes que exalo, sem alarde, com plena noção de quão ténue é a linha que as separa da evitável soberba.

Sou como sou, na consciência dos actos e na legitimação de existir do meu jeito.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 99 - Emanuel Lomelino

Lancei, ao vento, um papagaio de papel, com o formato de diamante e frases que voam alto. Daquelas que nos levam a acreditar que as palavras fazem eco nos corações, mesmo os mais empedernidos.

A brisa acariciou cada letra, como quem beija o mais sagrado dos cálices divinos, e o ar ficou prenhe de plumas celestiais a oscilar como flocos de neve.

O céu chorou sete lágrimas pingentes, uma por cada cor do arco-íris que, sorridente, agraciou o mundo com a sua benevolência graciosa.

Duas cotovias ladearam o papagaio de papel, qual escolta imperial, numa sincronia notável. Ora para a esquerda, ora para a direita, ora planando, ora subindo, ora descendo, num voo perfeito de tão belo.

Rompi o fio, como quem corta o cordão umbilical, e deixei o papagaio de papel ganhar vida e escrever, nos céus, o seu próprio destino.

Ainda hoje escuto, nos murmúrios das aragens vespertinas, a sinfonia das palavras que escrevi no papagaio de papel. E sinto-me tão livre quanto ele. Só não tenho as cotovias ao meu lado.

EMANUEL LOMELINO

Grito (excerto 2) - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Mariana aproximou-se. As chaves tremiam entre os dedos. A fechadura girou devagar, arranhando o silêncio.

Empurrou a porta.

Dentro, a penumbra parecia viva. O ar tinha cheiro de passado — aquele perfume amadeirado que ela jurava ter jogado fora. O corredor estendia-se à sua frente como um túnel sem fim.

— Marcos...? — sua voz saiu como sopro, quebradiça, engasgada.

Nada respondeu.

Deu um passo.

O assoalho rangeu como um grito preso.

Mais um passo.

Algo se moveu. Uma sombra sutil, talvez. Ou apenas o tremor dos olhos marejados.

EM - IDÍLIO EM FRAGMENTOS - ADRIANA MAYRINCK - IN-FINITA

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 98 - Emanuel Lomelino

Muitas vezes, antes de dar asas ao cumprimento do meu ofício de lazer, revejo as primeiras páginas deste compêndio de exercícios e nasce em mim uma frustrante revolta pela pobreza franciscana que tenho derramado.

Apesar do número de fiéis leitores, sempre generosos no acompanhamento, os textos soam-me tão insonsos quanto miseráveis e dificilmente me satisfazem. Há sempre algo que, na hora da concepção, passa despercebido, mas na releitura ganha destaque como estivesse manchado de fluorescência.

Admito que o meu sentido de autocrítica ultrapassa, amiúde, os níveis de razoabilidade, mesmo na avaliação de meros exercícios sem pretensões literárias, porém, sem ele a minha escrita estagnaria.

E, convenhamos, os maus textos não só aborrecem como também emburrecem.

EMANUEL LOMELINO

O paraíso são as memórias (excerto 14) - Tita Tavares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

O meu pai, aprumado e perfilado entre os demais músicos, mantinha-se atento ao mínimo sinal de comando. Com o ouvido estendido no ar, à escuta do silvo, nada nem ninguém quebrava a sua atenção. Sem descanso, numa espera que parecia infindável, os olhos bailavam-lhe, num vai-e-vem entre o maestro e os carris, à coca do voo da batuta e do ressoar dos trá-fá-fás e pouca-terra.

EM - O PARAÍSO SÃO AS MEMÓRIAS - TITA TAVARES - IN-FINITA

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Contos que nada contam 53 (À beira do lago) - Emanuel Lomelino

À beira do lago

As gaivotas estão alinhadas no pontão, à espera do momento certo para agitarem as asas, enquanto os cágados sobem aos solários para aquecerem as carapaças e os patolas dividem pasto com os pombos – oportunistas-mor do parque.

Na outra margem do lago, a avó delicia-se com o espanto infantil que a netinha demonstra ao ver o aspersor regar a relva luxuriosamente verde.

Os bancos de jardim começam a ficar ocupados por gente sem horário, viciados em ecrãs táteis, novos românticos e apreciadores de solidão ao ar livre.

Num canto resguardado, o PT da moda dá instruções gímnicas ao escanzelado que, banhado pelo esforço, tenta transparecer atleticismo para impressionar as loiras saradas que usam o trilho próximo.

Joggers, runners, ciclistas e trotineteiros cruzam-se invisíveis, na pista de alcatrão laranja, com a voluptuosa patinadora quase desnuda, cuja movimentação acelerada provoca alvoroço no pontão. Uma a uma, as gaivotas abrem as asas, levantam voo e grasnam à sua passagem. Os cágados mergulham para arrefecer as carapaças, os patolas refugiam-se sob a água aspergida e só os oportunistas-mor continuam, impávidos e serenos, entregues à rapinagem, numa indiferença pombalina.

EMANUEL LOMELINO

Do Brasil à Suíça (excerto 14) - Samaritana Pasquier

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Seu sofrimento era profundo. Acompanhei-a na sua viagem de retorno. Pegamos um carro e depois uma canoa para chegar à sua cidade. Tenho até hoje a lembrança nítida dessa mãe em lágrimas e do pequeno caixão perto dela. Após o enterro, passei alguns dias com ela e voltei para casa deixando-a na sua grande dor. Quanto ao meu irmão, ele estava viajando a trabalho.

EM - DO BRASIL À SUÍÇA - SAMARITANA PASQUIER - IN-FINITA

sábado, 7 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 97 - Emanuel Lomelino

Gosto de abrir os livros às vozes do passado e deixar-me envolver pelos trâmites de outrora.

Passeio nas diligências do saber pretérito, percorro trilhos e veredas, pernoito em albergues e estalagens, atravesso aldeias e lugarejos, escuto as modinhas camponesas, os fandangos ciganos, as valsas aristocratas.

Navego em caravelas, trirremes, faluas e outros batéis, lado a lado com marujos e outros navegantes.

Monto dromedários nos desertos, iaques himalaias, jumentos bérberes, cavalos mongóis, elefantes asiáticos, licórnios e outras mitologias.

Embrenho-me em jardins sumptuosos, bosques, florestas, searas, prados, castelos, palácios, cárceres, coliseus, fóruns, becos e tabernas.

Escuto filosofias e saberes milenares, observo comportamentos seculares, respiro superstições e crenças intemporais, bebo conhecimento universal, entro em estreito contacto com culturas eternas.

Depois fecho os livros e pondero no que aprendi sem acreditar na remissão da humanidade nem na absolvição dos desvios da modernidade.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 96 - Emanuel Lomelino

A necessidade de trabalhar nas palavras é, mais que um dever imperativo, a solução para desanuviar a mente depois das escoriações provocadas pela dureza de um dia interminável.

Há uma urgência de reflexão que lateja no âmago até roçar o desespero e o corpo exige uma pausa restauradora, só atingida num estágio de solidão física e na ausência de lucidez da dor.

Respiro fundo. Fecho os olhos. Abstraio os sentidos. Sacudo os incómodos. Abraço o silêncio. Entro no universo do vazio. Nada.

Inspiro lentamente, como quem absorve o tempo a conta gotas. Olho a folha branca que espera, pacientemente, o primeiro beijo de tinta. Expiro como quem dá o tiro de partida, deixo que as palavras fluam a seu bel-prazer e abracem, com serenidade, a paz instalada.

Com elas surge a libertação suprema. Através delas instala-se uma harmoniosa conciliação com o mundo; com a vida; comigo.

Escopros, ponteiros, macetas, hematomas, esfoladelas, sangue, suor, cansaço (não necessariamente por esta ordem) deixam de significar penosa realidade e, aqui, regressam à sua condição de meros vocábulos.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 95 - Emanuel Lomelino

Em criança, logo, numa fase prematura e ingénua da minha existência, comecei a acumular alguns sonhos, como tesouros preciosos que defenderia com a própria vida.

O tempo encarregou-se de concretizar uns, eliminar outros, substituir alguns e frustrar a maioria.

Os anos passaram, comecei a ver o mundo com outras cores e aprendi a delinear os objectivos com outra precisão, porque a experiência assim o exigia, mas sempre sem deixar de sonhar grande.

Durante a caminhada foram muitas as adversidades impossíveis de contornar que me obrigaram a fazer escolhas e a ser mais criterioso. Então deixei de ser um acumulador de sonhos para me transformar em coleccionador de projectos por realizar.

À falta de oportunidade, ou capacidade, para levar tudo a bom porto, apertei mais a malha da exigência e segui na luta escolhendo as batalhas a travar.

Porém, porque a vida apresenta muitas encruzilhadas e o cansaço dos desaires não mata, mas mói, fui deixando cair grande parte da bagagem sonhada para dar algum alívio às costas.

Foi nesse momento que percebi que o meu sonho maior, que apenas vagueava no meu inconsciente, foi o único que sobreviveu à caminhada, resistindo a todos os meus tropeços, enganos e quedas.

Feitas as contas, não fui eu que concretizei este sonho. Foi ele que me filtrou.

EMANUEL LOMELINO

Grito (excerto 1) - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Os dias passavam pesados como chumbo. Mariana sabia que o tempo era o seu único refúgio. Consumia-se entre lembranças, silenciosamente. Não ousava partilhá-las com ninguém. 

Ao regressar do trabalho, caminhou lentamente pelos degraus, ouvindo apenas o som dos próprios passos, cada um deles mais pesado que o anterior. Mas ao chegar à porta do prédio, o tempo pareceu quebrar.

Ali, repousando como se nunca tivessem saído do lugar, estavam os sapatos dele — alinhados com a mesma precisão obsessiva de sempre, como dois sentinelas guardando um segredo.

O frio que correu por sua espinha não era apenas do inverno. Era um pressentimento.

EM - IDÍLIO EM FRAGMENTOS - ADRIANA MAYRINCK - IN-FINITA

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 94 - Emanuel Lomelino

Não sei se alguém já escreveu uma tese de doutoramento, sobre genética, abordando a possibilidade do ADN humano conter um gene oleiro. Acredito que, estudando o assunto de forma aprofundada, há grandes probabilidades de ser um ótimo tema para dissertação, uma vez que podemos encontrar inúmeras provas que nos levam a considerar como possível a existência desse gene.

Nos primeiros anos de vida, todos nós, sem excepção, somos moldados pelos país e professores. Este processo, chamado educação, é socialmente aceite, por se tratar de simples transmissão de conhecimento.

No entanto, depois de ultrapassada essa fase de aculturamento natural, em muitos momentos da nossa vida, encontramos muita gente com a pretensão de nos moldar segundo os seus critérios, procurando adequar a nossa forma de agir e pensar, não ao que mais nos convém, mas sim ao que melhor serve os seus interesses.

Outros há que nos querem “embelezar” dentro dos seus próprios padrões estéticos, sempre em mutação, como se estivéssemos numa linha de montagem para produção em série e permanente reciclagem.

O maior problema desta realidade é que o hábito de produzir clones, culturais ou plásticos, já está tão enraizada nas sociedades modernas que, pasmem-se os incrédulos, até os próprios clonados são responsáveis pelas novas clonagens.

E são tantas as pessoas com essa tendência ceramista que não é difícil acreditar na existência de um gene específico. Falta só aparecer a tal tese de doutoramento.

EMANUEL LOMELINO

O paraíso são as memórias (excerto 13) - Tita Tavares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

A nossa vida está carregada de símbolos e mitos que nos ajudam a compreender o mundo e as relações humanas. Através de histórias e lendas sobre deuses e deusas, que retratam a evolução do mundo e as suas culturas ancestrais, em que nos revemos, acabamos por aceitar o absurdo das nossas próprias experiências.

EM - O PARAÍSO SÃO AS MEMÓRIAS - TITA TAVARES - IN-FINITA

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 93 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Dei-me a liberdade de ignorar o tempo, e o clima, e iniciei a caminhada sem destino premeditado.

Deixei-me guiar pelo instinto e permiti-me mergulhar nos pensamentos de forma deliberada.

Pesei, na balança da consciência, os prós e contras de todas as possíveis decisões para a resolução das minhas dúvidas mais prementes.

Cirandei, pelas ruas da cidade que me enche as medidas, mesmo não sendo minha, quase em piloto automático. Apenas andando de mãos dadas com as reflexões.

Nesta deambulação, dei por mim a entrar na livraria por impulso, como se aquela porta fosse apenas mais uma esquina contornada, parei diante de um livro de capa preta, peguei-o, girei-o noventa graus, juro que sorri, levei-o à caixa, paguei, sai.

Fiz a caminhada de regresso, já sem pensar na vida. Apenas me indaguei sobre a razão de ter entrado naquela livraria, pela primeira vez em trinta anos, pegado no primeiro livro que cruzou o meu olhar e sentir que a caminhada, supostamente feita ao acaso, afinal, estava previamente destinada – por vontade de Nietzsche.

EMANUEL LOMELINO

Do Brasil à Suíça (excerto 13) - Samaritana Pasquier

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

A morte não parou de acompanhar nossa família. O irmão a quem levava o almoço no hospital, encontrou outra companheira e tiveram juntos um bebê. Essa menina de 9 meses ficou muito doente e foi transportada para a capital para ser tratada com mais recursos. Mas, infelizmente, os médicos não conseguiram salvá-la. Fui ao encontro dessa mãe que havia perdido seu primeiro e único bebê. Seu sofrimento era profundo.

EM - DO BRASIL À SUÍÇA - SAMARITANA PASQUIER - IN-FINITA

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 92 - Emanuel Lomelino

Abram as portas do fórum e permitam que todas as testemunhas dissertem como lhes aprouver. Escutem as versões de cada uma delas, como quem escuta um hino – em reflexão silenciosa e contemplativa.

Anotem todas as denúncias, cismas, queixas, dúvidas, melindres, temores, desconfianças, suspeitas e imputações. Deixem-nas fazer todas as acusações. Anotem tudo. Deliberem na independência do vosso juízo e sentenciem - se tiverem de o fazer.

Eu, na qualidade de réu assumido, limitar-me-ei a escutar todos os relatos, como quem se delicia ao ouvir os contos mais fantasiosos, plenos de drama e repletos de “achismos”.

Seja qual for o desenlace, seja qual for o entendimento deste tribunal, nascido da vontade protagonista e alavancada em propósitos coscuvilheiros, receberei os autos de pronunciamento como quem anseia ler o argumento adaptado, para cinema, de uma ficção sensaborona.

Por mais que tentem, nunca conseguirão biografar o meu trajecto, a minha caminhada, os meus conceitos, as minhas decisões, sendo fiéis aos acontecimentos, sem que eu decida favorecê-los com a única verdade que me define – a minha.

Até lá, e para não caírem no ridículo, sugiro que no final da vossa colectânea de adivinhação coloquem a frase: “toda e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 1 de fevereiro de 2026

No fundo do baú 91 - Emanuel Lomelino

Quando visto o uniforme para garimpar o que sou, olho-me ao espelho e louvo os traços que o tempo vincou no meu rosto, com a maestria que só ele possui.

Vejo minuciosamente, de lupa em riste, e não detecto ruga mal colocada, ou nascida sem razão. Todas se explicam, e aplicam, na minha essência, como um traje feito à medida, por encomenda.

Na aspereza natural da derme curtida, destacam-se algumas cicatrizes merecidas, outras tantas por negligência, mais algumas que, embora saradas, ainda tem memória dolorida.

Então, tento lembrar-me das minhas feições imberbes, como quem se entrega à tarefa de descobrir as diferenças, porque todas as fotos deixaram de estar em exposição quando foram colocadas nos álbuns do esquecimento. Nenhuma escapou à crueldade do engavetamento, não fosse alguma lembrar-se de ganhar vida e azucrinar, com feitio igual ao meu, o dia-a-dia de alguém.

E assim, quase sem traços visíveis da aparência anterior, mas honrado pelo desenho do tempo, caminho de cabeça erguida mostrando ao mundo a prata que a vida me vem outorgando.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 31 de janeiro de 2026

No fundo do baú 90 - Emanuel Lomelino

Todos criticam a existência do “Grande Irmão”, mas, em simultâneo, querem ter acesso livre à vida dos demais. (hipocrisia).

Não tenho problema algum em andar por ruas e edifícios inundados com câmaras de vigilância. A minha revolta (hipérbole) é com aqueles que se julgam no direito de saber todos os meus passos.

Sinto. Vejo. Compreendo. Mas jamais me comovo com a demonstração de interesse (eufemismo). “A César o que é de César”, inclusive a privacidade.

Há silêncio nos olhares que perscrutam o rosto, como quem procura decifrar-me no mais íntimo de mim (intromissão). As miradas mudas não perturbam a minha paz, porque conheço os intentos dessas buscas e sei vestir-me de invisibilidade.

E em tudo isto existe uma ironia (que não é figura de estilo) porque aprendo mais sendo observado do que os observadores aprendem sobre mim.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

No fundo do baú 89 - Emanuel Lomelino

Volta e meia deparo-me com momentos de feroz lassidão – como agora – em que sou inundado por uma chuva de memórias entrelaçadas, de tempos cruzados sem cronologia, de sangramentos, de glória, de lágrimas, de risos, de luto, de paz, de erupção, de anseios…

São períodos breves, mas intensos, que desgastam o ânimo até à fronteira da vulnerabilidade. Um cansaço indescritível apodera-se do espírito e do corpóreo, com a mesma violência irrespirável. 

São instantes esparsos, contudo, paridos pelo eterno dilema entre o uso da resiliência e a vontade de prescindir. A mente transforma-se num fórum e os argumentos jorram, com fúria combativa, criando um caos híbrido que deambula entre o desejo e a razão.

Nessas alturas – como agora – procuro refúgio na sabedoria clássica e entrego-me aos pensamentos de Schopenhauer, Púchkin, Nietzsche, Sá-Carneiro, Pessoa… para descobrir, na pele e com assombro, que a vida é como uma viagem de comboio e cada encontro é um apeadeiro.

EMANUEL LOMELINO

Inverno - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

De volta ao apartamento, Mariana sentiu um vazio. Cada objeto parecia gritar o nome dele. Chorou tudo o que havia contido. Ela se permitiu dormir por algumas horas. Precisava recompor-se. Mas o silêncio parecia guardar algo por dizer.

O inverno parecia mais rigoroso. Bruxelas estava muda. As ruas pareciam congeladas no tempo, como uma cidade submersa em um globo de neve onde tudo havia parado — exceto a dor. O apartamento, um túmulo de memórias. O silêncio da casa era denso, quase sólido, como se pudesse ser cortado com as mãos. Isolara-se de tudo. Fugia de si mesma. Enlouquecia.

EM - IDÍLIO EM FRAGMENTOS - ADRIANA MAYRINCK - IN-FINITA