terça-feira, 3 de março de 2026
Do Brasil à Suíça (excerto 19) - Samaritana Pasquier
Na Gold Beach Sonhada... (excerto) - JackMichel
segunda-feira, 2 de março de 2026
No fundo do baú 118 - Emanuel Lomelino
O próximo objectivo literário passa por encontrar obras de Séneca e descobrir se ele realmente dividiu os homens em duas categorias: os que caminham em frente enquanto fazem alguma coisa e os que vão atrás só a criticar.
Caso a atribuição se confirme, terei de discordar, em parte, e dizer-lhe que se esqueceu daqueles que, deambulam entre as duas facções.
Sim, existem os proactivos. Os que traçam os seus próprios caminhos e vão construindo, pedra por pedra, o destino que melhor lhes convém. Seguem as suas convicções e assumem os riscos do erro.
Atrás vêm sempre os visionários de obra feita, com as línguas afiadas e prontos a apontar, efusivamente e de dedo em riste, todos os percalços, todos os equívocos, enfim, tudo e mais alguma coisa, sem sequer saberem do que estão a falar.
Entre uns e outros estão aqueles que, sabendo identificar possíveis vantagens ou inconvenientes, ora fazem caminhos paralelos aos primeiros, ora juntam as suas vozes sussurradas aos segundos.
Esses, chamemos-lhes dissimulados, camuflam as suas acções em trajectos marginais para fugirem aos olhos dos censores e murmuram opiniões para não serem escutados pelos empreendedores.
Se Séneca dividiu os homens em duas categorias, fica aqui o reparo ao seu pensamento. Caso não tenha sido ele, fico já com a dissertação feita e só tenho de alterar o destinatário.
EMANUEL LOMELINO
domingo, 1 de março de 2026
No fundo do baú 117 - Emanuel Lomelino
A loucura das horas furtivas – aquelas que envelhecem corpo e espírito – tem o condão de entorpecer as ideias impedindo a clarividência.
Quando não é combatida atempadamente, transforma-se numa vertiginosa sequência de delírios que tomam de assalto, de unhas e dentes, as vontades básicas, substituindo-as pelas mais insanas, como quem se omite das responsabilidades e transfere o poder de decisão ao subconsciente doentio.
Por isso, sempre que se encerra mais um dia, para não me deixar aprisionar nas teias desconfortáveis do aparvalhamento e aliviar a mente das toneladas de entulho acumulado, entro de cabeça num processo de elasticidade cerebral procurando, assim, reencontrar uma réstia de sanidade. Como? Entregando-me doidamente à leitura de uma obra clássica da literatura universal.
Abençoado terapeuta Celan!
EMANUEL LOMELINO
sábado, 28 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 116 - Emanuel Lomelino
Há quem se queixe de, por mais que recomecem algo, o desfecho ser sempre igual.
Mas a questão é simples e sempre a mesma: presumir que os sinónimos representam, fielmente, a mesmíssima coisa, quando não é assim.
Mesmo parecendo terem significação igual, existe uma enorme diferença entre reiniciar e repetir.
Reiniciar é voltar ao início, mas isso não obriga, em momento algum, fazer-se tudo exactamente da mesma forma: isso, sim, seria repetir.
Ora, tendo presente essa pequena, mas essencial, nuance, não é difícil entender que cada regresso ao ponto de partida é uma possibilidade de mudança. Isso implica voltar à estaca zero, mas enveredar por outro caminho, outra via.
Só colocando em prática essa consciência é que o desfecho final poderá ter hipóteses de ser diferente.
Se reiniciar e repetir fossem exactamente o mesmo era impossível evoluir.
EMANUEL LOMELINO
Do Brasil à Suíça (excerto 18) - Samaritana Pasquier
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 115 - Emanuel Lomelino
Mas, ao contrário de outras caminhadas, decidi arregaçar as mangas, desbastar os matagais mais densos, retirar, à força de músculos, os basálticos obstáculos, sem recuar nos inúmeros momentos em que alguns estilhaços, mais afiados do que cutelo de talhante, rasgavam a pele.
Hoje, avaliando as viagens, vejo que todas elas, independentemente do meu grau de resiliência e sacrifício, apenas me fizeram gastar as solas e voltar à estaca zero. Desta vez sem possibilidade de recauchutar os sapatos.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 114 - Emanuel Lomelino
Interessante como nos tempos modernos ainda existe quem pense que fazer um livro é colocar uma capa em redor de um monte de textos dactilografados.
Impressionante como nos nossos dias ainda existe quem pense que espartilhar textos em versos, alguns de forma disforme, pode ser considerado poesia.
Invariavelmente, neste universo de consumismo, ainda existe quem acredite que escrever, tal qual se fala e vive, e sem pensamento crítico, é um contributo para o desenvolvimento cultural de um povo e sua língua.
Infelizmente, nesta era de avanços tecnológicos, ainda existe quem negue a pureza e a perfeição da escrita dos tempos analógicos, como se o acto de escrever tivesse nascido milénios depois da própria escrita.
Intrigante como neste nosso tempo, de suposta escassa literacia, ainda existe quem assuma que ler contamina a sua escrita e restringe a capacidade criativa.
Inquietante, como numa época de pluralidade, ainda existe quem queira que as palavras, tanto escritas como lidas, sejam privilégio de alguns e não direito de todos.
Incoerente como ainda existem iluminados que, não se sabendo quem lhes outorgou a tarefa, querem ditar novas regras para a escrita porque são contra todas as regras.
Imbecilmente, neste tempo de muitas liberdades adquiridas, ainda há quem sinta as suas mais legitimas que as dos outros.
Ironicamente, neste tempo que é nosso, ainda há quem não saiba interpretar cada inflexão deste texto deduzindo ainda menos do que, reduzidamente, aborda.
Inspiram-se sem pensar e depois chamam-se escritores.
EMANUEL LOMELINO
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 113 - Emanuel Lomelino
Ao longo da história da literatura foram escritas muitas fábulas em que os animais ganhavam características humanas, como a fala. Mas não é sobre isso que vou dissertar. No decorrer do mesmo espaço temporal, foram muitos os escritos sobre bestas mitológicas, mas também não me debruçarei sobre isso. Tampouco escreverei sobre a etimologia de “Zoológica”, pelo menos na verdadeira assunção da ciência que estuda a origem da palavra.
Vou ser mais terra-a-terra e entender “Zoológica” como a lógica do zoo, ou a lógica dos animais. E porque me predisponho fazê-lo? Pelo simples facto de continuar a ver antas confundir “à” com “há”; burros que insistem em escrever “saiem” como se a palavra derivasse do substantivo “saia” e não do verbo “sair”; asnos que não sabem a diferença entre os verbos “caiar” e “cair” e usam “caiem” em vez de “caem”; porcos que chafurdam a escrita com excesso de pontuação; preguiças que não usam pontuação alguma; abutres que preferem usar escritos alheios no lugar de criarem; pavões que exultam os seus escritos banais e parcos de criatividade, só porque tiveram duzentos “gosto” e sessenta comentários numa postagem; papagaios que falam de escrita sem saber a diferença entre redondilha menor e maior; enfim, poderia continuar a desfilar muitos outros animais que identificaria ursos, leões, elefantes, focas, camelos, etc, para compor este zoo.
Mas a culpa destas bestas existirem também é minha porque transformo-me num David Attenborough ou num Jacques-Yves Cousteau e escrevo sobre a existência destes animais.
EMANUEL LOMELINO
Era apenas um pedaço de chocolate (excerto) - Adriana Mayrinck
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 112 - Emanuel Lomelino
Na democracia de um mundo perfeito todos têm direitos e deveres, em igual medida.
Na democracia de um mundo perfeito todos têm direito a expressar as suas opiniões, independentemente das razões que os assistem, e todos têm o dever de respeitar todas as opiniões alheias, principalmente as que divergem das suas.
Na democracia de um mundo perfeito a lei permite a manifestação pública de todas as opiniões, desde que feitas ordeiramente, e impede as reacções contrárias ao direito de opinar e manifestar.
Mas o mundo perfeito só existiria se a humanidade também o fosse, e como a democracia é usufruída por humanos, para muitos ela é o seu direito de manifestar opiniões e tudo o resto é antidemocrático, inclusive as opiniões dos outros e as leis que impedem alguém de impor a sua opinião sobre as demais. A democracia perfeita é uma utopia porque será sempre aquilo que cada um entender, até que os outros se calem e submetam.
Resumindo: muitos aproveitam o espírito da democracia para dizerem e fazerem o que lhes aprouver sem darem conta de estarem a agir como verdadeiros ditadores.
E tudo isto faz-me acreditar, cada vez mais, que apenas as artes são verdadeiramente democráticas e são o único elo da humanidade com a perfeição.
EMANUEL LOMELINO
O paraíso são as memórias (excerto 17) - Tita Tavares
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 111 - Emanuel Lomelino
Os livros! Esses seres mascarados de inânimes que, quando são abertos, agrafam a nudez das suas letras aos nossos olhos, fazendo-nos perder a noção de tempo e espaço enquanto nos transportam nas asas do deslumbre.
Os livros! Esses malvados seres que enfeitiçam a mente, guiando-nos pelos labirintos da reflexão, semeando ideias, instigando pensamentos.
Os livros! Esses pérfidos apóstolos da sabedoria que lavram, nos âmagos menos ociosos, a terra da razão, como quem, com toda a naturalidade e experiência, coloca roupa a secar ao sol.
Os livros! Esses censores da ignorância; esses opositores do analfabetismo; esses legisladores de literacia; que não receiam infetar-nos com o vírus do conhecimento.
Os livros! Esses camuflados seres opiáceos que nos fazem vagabundear, de página em página, como toxicómanos literários.
Ah, os livros! Metadona do meu vício.
EMANUEL LOMELINO
Do Brasil à Suíça (excerto 17) - Samaritana Pasquier
domingo, 22 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 110 - Emanuel Lomelino
Todos buscam, por vezes de forma desenfreada, contudo irrefletida, o conhecimento pessoal – vulgo autoconhecimento, ou autognose (sim, fui ver no dicionário).
Há quem dedique uma vida inteira nesse propósito sem encontrar resposta alguma. Outros há que estão sempre a encontrar respostas, mas sem conseguirem satisfazer-se com uma só.
Há quem alcance laivos de revelação nos momentos mais mundanos, porque vulgares (como numa roda de conversa) ou em níveis místicos, porque incorpóreos (como numa sessão espírita).
Já eu, encontro o maior conhecimento de mim quando estou a ler – independentemente do género. Embrenho-me nos textos e dou por mim e reagir, mentalmente, a cada personagem, a cada acção, a cada atitude, a cada frase. Descubro-me nos pensamentos que a leitura me provoca e, assim, vou-me definindo através de epifanias literárias.
EMANUEL LOMELINO
sábado, 21 de fevereiro de 2026
Contos que nada contam 54 (Noite de luar) - Emanuel Lomelino
Noite de luar
Soltam-se as plumas da noite e a lua – porta-estandarte de todos os astros – deixa-se ver no máximo expoente das suas crateras, como quem exibe umbigos e brotos. E nem a obscuridade dos cúmulos noturnos lhe retira o brilho emprestado.
Na sua nudez aristocrática e presunçosa derrama uma áurea hipnótica, quase magnética, que cativa os uivos caninos, o trinar das guitarras e os apetites canalhas dos malandros mais ousados.
Também os gatos, felinos com refletores nos olhos, demonstram boémia ao luar e por isso fazem dos telhados os seus lugares de eleição para escrutinarem eventuais descuidos de roedores audazes, juntando-se, assim, às corujas de olho grande e aos morcegos acrobatas.
E quando os aspersores molham os jardins, a horas fora-de-horas, são mais os sonos consumados do que as insónias imprevistas ou propositadas, e os pirilampos – quais vigilantes de turno – iluminam os caminhos aos louva-deus e às formigas que perderam a noção do tempo, por terem preferido assistir ao concerto integral das cigarras vagabundas.
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 109 - Emanuel Lomelino
Por mais idiota que pareça, começo a sentir as dores do envelhecimento. Não por, a cada dia que passa, aparecer mais um cabelo branco, tampouco por olhar no espelho e ver mais rugas no rosto, menos ainda por sentir que já não tenho a agilidade suficiente para retirar o dedo antes do impacto do martelo.
Estou a sentir as dores de ser quem sou, dentro de um corpo que envelhece, mas sem a capacidade de acompanhar, serenamente, o ritmo de todas as mudanças.
Sinto as dores de ter-me educado a pensar, a refletir, a ponderar, a analisar todos os ângulos de um problema, tentar arranjar as melhores soluções, aplicá-las e, caso seja necessário, retomar o processo e enveredar por alternativas.
Sinto as dores de não conseguir entender esta urgência modernista de catalogar os fracassos como sinais de caducidade, considerar o ontem obsoleto e não dar espaço ao pensamento livre.
Sinto as dores de não querer seguir em frente sem dar luta à vida. Sinto as dores de não ter a habilidade de simplesmente deixar-me ir na onda. Sinto as dores de não ser capaz de trilhar os caminhos mais fáceis – porque confortáveis.
Sinto todas as dores de envelhecimento porque, além de corpóreo, sou mental e, ao contrário das novas gerações, nunca me limitei a decorar os textos, prefiro compreendê-los e sujar as mãos - de lama ou sangue, não importa – porque, só assim, poderei sentir-me plenamente concretizado, mesmo nos falhanços.
Estou a envelhecer e a sentir todas as dores desta metamorfose.
EMANUEL LOMELINO
Ecos na Escuridão - Adriana Mayrinck
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 108 - Emanuel Lomelino
Afasto-me na urgência imperativa de encontrar a distância certa para ficar fora de alcance.
Não quero os meus olhos infectados com o mais ténue vislumbre das falsas asas de borboleta, impregnadas com o visco dos adjectivos desvirtuados.
Distancio as narinas dos cárceres balsâmicos que exalam maresias de refluxo e invadem, como tsunamis camuflados, as praias da minha individualidade.
Não quero provar os banquetes requintados, com acepipes sabendo a almíscar, mas confecionados nas esconsas adegas das abadias sem fé outorgada.
Quero distância. Por isso afasto-me. Quero ficar longe, cada vez mais longe, dos embustes e emboscadas que rastreiam os meus sentidos. Preciso escapar deste turbilhão e encontrar a serenidade de outros horizontes.
EMANUEL LOMELINO