segunda-feira, 8 de junho de 2026
No Solar Do Príncipe... (excerto) - JackMichel
domingo, 7 de junho de 2026
No fundo do baú 206 - Emanuel Lomelino
Estou cansado das primaveras atrasadas, com flores estéreis e sem cor, espargidas de aromas inodoros. Prescindo dos favos de mel acerados pelas obreiras, sem solas nem décimo terceiro, e dos tijolos de milho prensado pelas ferraduras desenxabidas dos asnos-rei, também conhecidos como vendedores de banha-genérica – porque a banha da cobra já não compensa.
Não quero mais esperar pelas marés de lua cheia nem pelo rodopio vertical das andorinhas acrobatas, em fins de tarde sem pôr-de-sol. Tampouco me interessam os aprendizes de Fernão Capelo, ou versões “pimba” das fábulas, onde lebres e cágados são personagens isentas de fiabilidade.
Cansei-me de todas as histórias inundadas de lugares-comuns e de oásis com palmeiras virtuosas, dromedários adormecidos, e odaliscas vergadas ao império do silicone. Já não tenho pachorra para evangelizações discursivas e esgotei a paciência nos testemunhos dos criativos de ponto cruz e bombazina.
Até os hálitos de menta e tomilho fumado deixaram de perfumar o ar que respiro, assim que estendi a toalha da fadiga e liguei a ventoinha de incenso.
Abdiquei do estéreo e voltei a mono.
EMANUEL LOMELINO
sábado, 6 de junho de 2026
No fundo do baú 205 - Emanuel Lomelino
Olho as rugas do espelho e os brilhos solares trespassam a íris cega e irreconhecível, tornando qualquer imagem uma sombra esguia que recusa os holofotes da realidade.
Há minerais baços por detrás de cada bafo gelado e as narinas são crateras que expelem geiseres esquentados na tremedeira involuntária, de um dorso retraído e enrolado sobre si, consequência natural de mais uma morte.
Há um luto dermatológico acompanhado pelas fanfarras, nada jazzísticas, dos acordes doloridos que brotam de cada escara mal cicatrizada. As manchas avermelhadas são mapas temporais dos golpes infligidos ao ritmo da descrença, do desapontamento, do conformismo masoquista e da submissão arbitrária de todos os sentidos.
Não há verde que reanime o âmago nem andorinhas a anunciar uma nova primavera. Há caducidade em todos os poros salinos e um breu que apregoa futuras finitudes.
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 5 de junho de 2026
No fundo do baú 204 - Emanuel Lomelino
Sempre afirmei que o tempo, aonde existo, nunca me pertenceu. O desenquadramento tem-se avolumado com os anos e o acerto desta percepção tem-se entranhado em mim como uma tatuagem interna que me enfraquece, tal qual uma hemorragia crescente.
A cada tique-taque da minha existência, cai-me sobre os ombros o desfasamento entre o que vivo e o que me foi negado pelos mínimos caprichos de um qualquer deus menor, para seu deleite e minha inevitável sina, como fosse um brinquedo nas mãos de uma criança.
Reconhecer esta condicionante tem-me obrigado a reformular constantemente as minhas prioridades, ao ponto de ter prescindido de algumas convicções, em vez de substituí-las por outras mais adequadas a este tempo e à consciência que tenho dele.
Por não haver retorno, ou segunda chance, quero acreditar que o erro supremo foi concretizado na montagem e que algures, noutro espaço temporal paralelo, está alguém tão desenraizado como eu aqui.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 4 de junho de 2026
No fundo do baú 203 - Emanuel Lomelino
Definitivamente, não vale a pena entrega total, dedicação absoluta, sacrifícios contínuos nem perseverança.
Mais dia, menos dia, de um momento para o outro, com culpa ou sem ela, há desinflação na utilidade e o interesse esbate-se como tinta gasta pelas agruras das estações.
A memória é frágil, oposta ao impulso, e as cortinas do tempo fecham como se tudo fosse um palco vazio após o último acto de uma qualquer peça de teatro em fim de digressão.
Talvez exista um interruptor para acender e apagar as vontades que se julgavam mútuas e, porque nunca o foram, vida que segue.
As coisas são mesmo assim. Um dia chega a fatura e, das duas uma, paga-se um valor exorbitante pelo simples facto de ser-se ou é-se descartado como farrapos velhos ou embalagens vazias. E não importa reclamar, bater o pé ou contestar. Tudo tem prazo de validade. Inclusive nós.
EMANUEL LOMELINO
As sombras (excerto 13) - Maria Cabana
quarta-feira, 3 de junho de 2026
No fundo do baú 202 - Emanuel Lomelino
Chegará o dia em que o ritmo cardíaco de um beija-flor será uma lembrança nostálgica de um mundo perdido e seremos acometidos pela saudade dos caleidoscópicos colibris e dos afagos gauleses e atrevidos que depositam em cada flor, em troca de néctar açucarado.
Nesse momento seremos alvejados pelos olhares acusadores dos brincos-de-princesa e estrelícias, como fossemos sinónimo de extermínio e a nossa existência significasse apocalipse.
Confrontados com a impossibilidade de redenção, veremos mariposas desfalecer à nossa passagem, as açucenas e os nenúfares vão murchar e as estrelas apagar-se-ão, como carregássemos uma longa e necrófaga foice.
Então, cabisbaixos e corroídos pelo remorso da indiferença, lançar-nos-emos, dos precipícios mais íngremes, numa espiral de lamentos inócuos e falhos, como se esse acto de contracção nos redimisse do egoísmo com que polvilhámos o solo que nos pariu.
Somos a génese do nosso próprio cataclismo.
EMANUEL LOMELINO
Enamorado Passeio... (excerto) - JackMichel
terça-feira, 2 de junho de 2026
No fundo do baú 201 - Emanuel Lomelino
Não me impinjam pessoas de utópicas esperanças, grávidas de vertigens fúteis e especializadas em esturjão. Prefiro o cheiro destas páginas – genéricas das tertúlias de Montmartre – que são como geniais pautas de tangos tropeçados nos pátios da Graça, perfumados a arroz de cabidela.
Não me imponham falsas marés de fortuna, com suas ondas de fama adquirida ao preço de vénias heréticas. Prefiro o anonimato sombrio destas salas de papel reciclado, que pululam nas inúmeras Varsóvias lusas que tresandam a tabaco contrabandeado.
Não me poluam com essas histórias imberbes sobre a importância dos lugares-comuns e dos matizes de um arco-íris furtuito. Prefiro a policromia cega da consciência popular que se traduz no linguajar das guitarras harmónicas que decoram as tasquinhas e pedem cálices de ginjinha e sangria.
Não me peçam para ser contranatura e renegar José Régio. A ironia cansada dos meus olhos arrasta-me, com meu consentimento, pelos loucos caminhos da individualidade. E sigo, passo a passo, com o bolso carregado de verdades minhas e algumas de Botto, O’Neill, Ary e Ruy Belo.
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 1 de junho de 2026
No fundo do baú 200 - Emanuel Lomelino
Acordo com a melodia cadenciada de chuva tocada a vento, que beija a janela do quarto. Recolho-me no conforto quente dos lençóis de linho e sinto a frescura gélida da mão esquerda que havia-se rebelado, pernoitando no lado externo do edredão. Recuso olhar o relógio.
Oiço o som inconfundível de borracha a deslizar na água, deduzo a passagem de um carro elétrico e a quantidade de precipitação acumulada na estrada. A iluminação da rua permite-me ver a sombra dos ramos, da Tília-de-folhas-grandes ainda despida pelas estações, e a corrida irregular das gotículas que deslizam na janela. Recuso olhar o relógio.
Os sons invernais recuam-me os pensamentos até ao início da adolescência, cerro os olhos, enrolo-me nas dores de meio século, e deixo-me cair num sono modorrento e nostálgico.
Mais um carro que passa. E outro. E outro. E a estridência do despertador mata-me a inocência de um sonho breve, retornando-me à realidade de mais um dia de tormenta – não só climatérica – porque a poesia é fado e infortúnio.
EMANUEL LOMELINO
domingo, 31 de maio de 2026
No fundo do baú 199 - Emanuel Lomelino
O discernimento vem com a idade e é nesse momento que as epifanias brotam como água em fonte inesgotável.
O trigo já aparece separado do joio; os coxos são mais esguios do que os trapaceiros; as duas faces das moedas são indisfarçavelmente distintas; todos os bois, além de nome próprio, também têm apelido, proveniência e intenções patenteadas; as utopias e os dogmas perdem importância; as sombras esbatem-se; os brilhos deixam de ofuscar; a lucidez é rainha; o medo é bobo; a vida é um fiapo de tempo; a morte é uma inevitabilidade e continua a ser um mistério.
Mas toda esta perspicácia às vezes fere. É uma quase automutilação. Vil, sanguessuga, vampiresca, medonha, assustadora. E dá vontade de saber menos do que na adolescência, ser inconsequente, inanimado, como uma página ingenuamente branca.
EMANUEL LOMELINO
sábado, 30 de maio de 2026
No fundo do baú 198 - Emanuel Lomelino
Arrasto-me pelos dias, cada vez mais sombrios, com um saco de incómodos às costas, um cigarro mal prensado nos lábios, e os olhos cegos ao desconforto.
Com os pés treinados nas caminhadas sem rumo, testo a firmeza das cordas bambas, prescindindo de artes circenses para encontrar equilíbrio e estabilidade. Basta-me olhar o vazio para que os passos soem a trotes melodiosos sem lugar a sinfonias orquestradas.
Subo escadas intermináveis pousando apenas os calcanhares para não acordar os calos do dedão, enquanto mantenho as mãos ocupadas a transportar os bisturis que me laceram, como finalistas a praxar caloiros.
Depois, fico horas a deambular entre o conformismo idiota e a revolta silenciosa, como estivesse a preencher puzzles de Sudoku, só para passar o tempo até chegar a altura de recolher-me e purificar-me nas palavras – a única droga que consegue anestesiar-me o âmago.
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 29 de maio de 2026
No fundo do baú 197 - Emanuel Lomelino
Este sentimento de desadaptação está costurado no meu âmago desde sempre. Lembro-me de, em criança, muito pequeno ainda, sentir-me deslocado no tempo, como se a cegonha tivesse ficado retida num engarrafamento de décadas provocado por uma paralisação dos serviços administrativos aéreos da Natalidade.
Esse atraso na entrega fez com que eu só visse a luz do dia bem mais tarde do que seria suposto. Pelo menos, valha-nos isso, o tempo de traslado é independente do de gestação, caso contrário eu teria nascido mais velho do que a Sé de Braga.
Tirando esse detalhe do desacerto temporal, não tenho mais nada a colocar no livro de reclamações. Os movimentos de rotação e translação dão-me os dias, as noites e as estações. A gravidade não me deixa flutuar – isso é óptimo para quem tem vertigens -, o céu varia entre o azul e os tons cinzentos, o mar anda entretido com os seus humores e marés, tanto a fauna como a flora são incríveis. Enfim, é tudo tão perfeito que a única coisa que posso reclamar da vida é estar aqui no tempo errado.
EMANUEL LOMELINO
As sombras (excerto 12) - Maria Cabana
quinta-feira, 28 de maio de 2026
No fundo do baú 196 - Emanuel Lomelino
Por vezes o fogo da vontade perde vigor e transforma-se numa ténue faúlha, que só não se extingue porque nos momentos de alento invertido, sobram ligeiras ondas de resiliência que, embora em banho-maria, impedem que o sentir seja obliterado por uma brisa de fraqueza.
Tal como os arco-íris, os ápices débeis da mente são miragens que tentam grudar-se ao céu do raciocínio, na esperança de ganhar protagonismo, como fossem autores de lavras plagiadas, a desfilar nas sombras de falsas passadeiras vermelhas, sem holofotes nem comendas.
Esses instantes frágeis, quando bem identificados, são manuais empíricos, do lado negro do ser, que ajudam na compreensão dos extremos da personalidade.
Cabe a cada um dar uma utilidade holística, ou parcial, ao aprendido – quando munidos de capacidade reflexiva e isenção de preguiça.
EMANUEL LOMELINO
Na Floresta... (excerto) - JackMichel
quarta-feira, 27 de maio de 2026
No fundo do baú 195 - Emanuel Lomelino
Há um abismo, criado propositadamente, que dificulta o acesso ao mais íntimo de mim, porque só a mim pertenço, só a mim me justifico, só a mim me cumpro.
Por muito que deduzam pedantismo, tomara cada um ver-se o centro do universo, qual astro com órbita personalizada, e poder acionar ou desligar, dependendo do sentir, a força gravitacional que permite a aproximação de outros corpos celestes.
Muitos usam expediente semelhante, no entanto, sempre subjugados ao engrandecimento material que os “atraídos” proporcionam.
O meu egocentrismo, consciente, é espiritual, intimista, irreversível, meu. A mais ninguém pertence, a mais ninguém é útil, a mais ninguém enriquece.
E, pasmem-se os desavisados, esta convicção prática jamais foi impeditiva dos meus contínuos altruísmos, dos quais tampouco alardeio ao mundo. Quem vê, sabe. Quem desconhece, ignora. E convivo bem com ambos os espectros, porque só a mim cativo.
EMANUEL LOMELINO
terça-feira, 26 de maio de 2026
No fundo do baú 194 - Emanuel Lomelino
Sinto que estou a derramar-me até ao extremo do vazio; até ao limite da sensibilidade; até à falésia da consciência, qual abundante cascata de coisa alguma.
Nestes dias em que liquidifico a minha existência deixo de ser corpóreo, liberto-me das emoções, abraço a vacuidade profunda e agrilheto os pensamentos no mais esconso subterrâneo.
Embrulho-me na agudeza protetora e segura do silêncio absoluto e deixo o meu espírito vazado deambular pela neutralidade do espaço.
Somente o nada consegue ser, em mim, o equilíbrio, a prudência, a sensatez, a razão, o tão desejado porto de abrigo.
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 25 de maio de 2026
No fundo do baú 193 - Emanuel Lomelino
Há uma heterodoxia evidente no silvo melífluo da brisa que beija as folhas de uma árvore. É um ciciar da natureza; um aviso intimista, mas tão expressivo quanto os brados das ondas que esculpem os maciços rochosos. Contudo, mantemo-nos indiferentes.
Existe um discurso, nas vozes das tempestades, que passa despercebido a olho nu. É um código do ambiente; um sinal de alerta, tão dual como o ressonar de um vulcão adormecido na antecâmara do seu estrondoso despertar. Contudo, mantemo-nos apáticos.
Há uma oscilação atmosférica em todas as épocas como um entrelaçar festivo de quadras temporais. É um sussurro climático; uma advertência tão cadenciada quanto o degelo dos mais primitivos glaciares. Contudo, mantemo-nos passivos.
Existe um tempo que se esgota como uma ampulheta quebrada. É a noção de perenidade a extinguir-se como o Cretáceo. Contudo, mantemo-nos impávidos porque essas coisas só acontecem aos outros. Quais outros?
EMANUEL LOMELINO
domingo, 24 de maio de 2026
No fundo do baú 192 - Emanuel Lomelino
A turbulência dos dias não quer saber se o arco-íris é filho do sol e da chuva ou reflexo da cúpula que dá razão aos esfomeados terraplanistas.
De leste chegam uivos ogivados rugidos por gargantas mais inocentes do que gárgulas esquimós, enquanto, daquela janela aberta para o Tejo, ecoa uma voz de barítono com hálito de açorda e chamuça.
Nos carris do elétrico, encerados pela morrinha recente, deslizam saltos altos, “raios partam” e outros impropérios indiferentes às moedas, largadas à laia de piedade, no boné do humorado maltrapilho, que tem banca permanente no adro da igreja e um cartaz a informar: multibanco avariado.
Na porta da tasca sorvem-se ginjinhas espirituosas e lançam-se olhares – cada um com o seu significado – para os “camones” na esplanada e aos que passam, de mochilas às costas e ansiosos por fotografar os azulejos quebrados das fachadas devolutas.
O céu anuncia o anoitecer precoce de mais um domingo e não há tempo a perder com notícias de Gaza ou Kiev porque é dia de clássico na tv e expulsão num reality show.
EMANUEL LOMELINO