segunda-feira, 23 de março de 2026
Do Brasil à Suíça (excerto 23) - Samaritana Pasquier
O Pirata Love-Mar... (excerto) - JackMichel
domingo, 22 de março de 2026
No fundo do baú 138 - Emanuel Lomelino
As questões são pertinentes. Por que diabos procuro adquirir o maior número possível de livros clássicos? Por que razão tenho um fascínio tão grande por obras intemporais? Para quê gastar tempo e dinheiro em literatura? Qual o propósito de reunir tantos, e tão díspares autores, géneros, temáticas, abordagens?
Poderia dar uso a mil e um argumentos, cada um mais válido que o anterior, mas temo que nenhum deles seja inteiramente esclarecedor sem o complemento dos restantes.
Fazê-lo pela metade seria dizer meias-verdades e omitir factos. Enumerar todas as razões revelar-se-ia uma tarefa hercúlea - porque demorada, mas, sobretudo, por ser demasiado fastidiosa para satisfazer a curiosidade alheia.
Assim sendo, e sem o mínimo de temor pelos julgamentos que esta obsessão pode suscitar, deixo ao critério de cada um a avaliação da esquizofrenia que me move.
EMANUEL LOMELINO
sábado, 21 de março de 2026
No fundo do baú 137 - Emanuel Lomelino
Sempre fui apologista das discussões literárias – tertúlias (que não devem ser confundidas com “saraus” porque são eventos distintos) – pela possibilidade que dão para debater conceitos, tanto de criação como de leitura.
Infelizmente, esse género de encontros é cada vez mais raro, para não dizer inexistente, porque as artes deixaram de estar associadas a conceitos filosóficos claros, e os artífices nem sequer sabem definir as suas criações. Tudo é feito pelo simples acto de fazer.
Por outro lado, quando temos a sorte de assistir a uma tertúlia, ficamos com um tremendo amargo de boca pela enxurrada de argumentos vagos, que são proferidos com a maior das convicções, mas sem conteúdo aproveitável ou isento de lacunas.
É triste verificar que, para além do vazio intelectual dos criadores, os consumidores deixaram de ser exigentes e aceitam qualquer coisa. Já não há critério. Já não existe contraponto. Já não há opinião. Já não existe crítica. Só dogmas. Alguém diz que é arte e todos aplaudem, sem hesitar, sem contestar, sem questionar.
Para ser assim mais vale não haver tertúlias. Ou então acabe-se com a arte.
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 20 de março de 2026
No fundo do baú 136 - Emanuel Lomelino
Quando surgem aqueles dias em que só queremos deitar o esqueleto e simplesmente abraçar a inércia, é necessário um esforço sobre-humano para nos obrigar a cumprir algumas tarefas que, não sendo essenciais, nos propomos executar.
Hoje é um desses dias. Depois de um retemperador banho quente, o corpo começou a insinuar a vontade de ficar estático, imóvel, quieto, estatelado sobre a cama, e não fazer coisa alguma. Creio que ainda houve um momento de hesitação, da minha parte, mas o que tem de ser tem muita força e não posso abrir um precedente porque quando se facilita uma vez…
Para se atingir esta capacidade de não embalar na preguiça é fundamental ter-se um elevado grau de disciplina mental que, no meu caso, acaba por auxiliar bastante, quase como factor determinante para que não haja um só dia sem que eu faça, entre algumas outras coisas, pelo menos, um exercício de escrita.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 19 de março de 2026
No fundo do baú 135 - Emanuel Lomelino
Os dias cozinham-se iguais, numa mesmice tão sórdida quanto submissa, sem ensejos nem revoltas.
Lábios gretados, frieiras nas mãos, escaras soltas, narinas empoeiradas, vontade que se esvai, conformismo que se instala.
O cansaço apodera-se, sem tréguas nem piedade. Reavivam-se vis emoções, já sentidas na plenitude da miserabilidade. Também aquela inércia tão lancinante como grilhetas carcerárias.
Mas nem tudo é ácido porque, no final de cada dia, chega sempre o silêncio crepuscular, com livros debaixo dos braços e a habilidade de teletransportar a mente para mundos que anestesiam até que a realidade regresse no buzinar do despertador.
EMANUEL LOMELINO
O paraíso são as memórias (excerto 21) - Tita Tavares
quarta-feira, 18 de março de 2026
No fundo do baú 134 - Emanuel Lomelino
Não foi sem assombro que descobri a existência de niilismo na minha personalidade.
Apesar do termo não me ser estranho, por razão do meu interesse artístico-literário, e até conhecer um pouco desta corrente filosófica, nunca deduzi que uma parte de mim pudesse ser influenciada, mesmo que ligeiramente, por esta doutrina.
A verdade é que, em relação à percepção que tenho da vida, com todas as minhas dúvidas e questionamentos, nunca me considerei mais do que céptico, pela simples razão de não conseguir vislumbrar, com carácter decisivo, uma razão válida que justifique a existência de um propósito, ou sentido, pré-definido.
Eis senão quando, nesta fase adiantada da minha existência física, descubro que a descrença num sentido para a vida, tal como ela se revela para mim, é considerado niilismo existencial. Só não sou completamente niilista porque não vejo a humanidade, como um todo, insignificante.
EMANUEL LOMELINO
Do Brasil à Suíça (excerto 22) - Samaritana Pasquier
No Tálamo De Dixe... (excerto) - JackMichel
terça-feira, 17 de março de 2026
No fundo do baú 133 - Emanuel Lomelino
Há uma máxima da antropologia que nos diz que para conseguirmos entender melhor outras civilizações temos de colocar de parte tudo o que aprendemos sobre o nosso entorno.
Porque nunca conseguirei ler todos os livros essenciais, não sei se alguém escreveu sobre a aplicabilidade desta ideia em formatos mais reduzidos.
Seja como for, tenho usado esse conceito no intuito de compreender os comportamentos que me cercam e tem dado certo. Pelo menos não fica tão confuso entender as razões que dão origem a atitudes que me são estranhas.
No entanto, a posteriori, levantam-se-me outras questões antropológicas porque, apesar de ter controlo sobre as minhas faculdades, tenho uma mente inquisitiva que recusa viver com dúvidas e não se inibe de colocar novas perguntas, a cada resposta encontrada.
Feito este parêntese, depois de entender os motivos que originam determinada acção, fico a pensar como é possível que, no seio de uma mesma civilização, possam existir comportamentos tão distintos e valores tão díspares.
Entre as várias hipóteses que considerei, só uma consegue apaziguar o turbilhão mental em que, sistematicamente, embarco: o objecto de estudo é o humano, logo, pelas suas características natas, e embora possamos encontrar uma linha condutora, é possível coexistirem incontáveis faces na mesma moeda.
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 16 de março de 2026
No fundo do baú 132 - Emanuel Lomelino
Por mais que pense, não consigo encontrar uma razão inequívoca e definitiva que justifique o medo que a generalidade das pessoas tem de estar sozinha, como se ficar ou estar só fosse o tormento mais nefasto que alguém pode experimentar.
Mais incompreensível é o descrédito dado ao isolamento, enquanto fonte de ignição para o raciocínio pacífico, que é o único caminho estável para que exista clareza de ideias e o pensamento não se revelar contaminado pelo entorno.
Creio que a génese desta aversão global é fruto de uma conotação, errada, entre quietude e solidão. Uma não origina nem é, obrigatoriamente, consequência da outra.
O silêncio é a casa da reflexão mais séria e íntegra, logo é benéfica para quem dele usufrui.
EMANUEL LOMELINO
domingo, 15 de março de 2026
No fundo do baú 131 - Emanuel Lomelino
A vida dedilha-se ao ritmo das horas e, mesmo nas pausas inoportunas, tudo soa a orquestração eterna.
Há um género de maestro invisível – tempo – que cadencia cada passo, como estivéssemos, desde o berço, sujeitos a rigor e disciplina harmónica.
Quando sou assaltado por este pensamento absurdo emerge em mim uma tremenda e imperativa vontade de fazer um improviso jazzístico e deixar-me levar numa pauta em contramão.
Talvez seja o meu lado irreverente a querer demonstrar-me que não se esgotou e ainda tem muitos acordes para tocar e, assim, preencher com novas melodias o grande concerto que tem sido a minha vida.
EMANUEL LOMELINO
sábado, 14 de março de 2026
No fundo do baú 130 - Emanuel Lomelino
Recuando alguns anos, o processo mais simples de quantificar o grau de inteligência de alguém era o teste de QI, com vinte e dois desafios às aptidões cognitivas.
Criando um segmento de recta, entre a estupidez e a inteligência, algures encontrava-se um ponto intermédio equidistante.
Através desse método científico conseguia-se aferir o valor médio de inteligência de uma sociedade, um país, uma cidade, um bairro, uma escola. E com os resultados obtidos delineavam-se estratégias para colmatar os pontos fracos do conhecimento humano. Isto é, lutava-se contra a burrice, com inteligência e bom senso.
Escrevi os dois primeiros parágrafos no pretérito porque, por tudo aquilo que podemos observar nas sociedades modernas, os testes devem ter sido descontinuados.
Não
há outra forma de compreender como é que, de um momento para o outro, a
estupidez passou a ser a doutrina dominante. Tanto que, hoje, o bom senso
morreu e a voz dos inteligentes é censurada para não ofender a sensibilidade
dermatológica dos estúpidos.
EMANUEL LOMELINO
A Engomadeira (excerto) - Edna M. V. Soares
O paraíso são as memórias (excerto 20) - Tita Tavares
sexta-feira, 13 de março de 2026
No fundo do baú 129 - Emanuel Lomelino
Ler, por si só, já é um vício. Mas a coisa ganha contornos de dependência quando, por exemplo, nos embrenhamos na leitura sobre metafísica.
Para compreendermos esta “filosofia primeira” começamos por ler Aristóteles. Absorvemos conceitos, definições e logo queremos mais. Então passamos para Kant e a coisa adensa-se de tal forma que não temos outro remédio que não passe por lermos Heidegger e Leibniz.
Quando nos apercebemos da tremenda ressaca mental em que nos enfiámos, já não conseguimos passar sem aprofundar o conhecimento e passamos a ler, também, os críticos da metafísica, como Comte e Nietzsche, e os que, não sendo críticos desta ciência filosófica, foram severos opositores da sua vertente racionalista, como Schopenhauer.
O pior é quando começamos a ler referências a outros filósofos, cujas obras são mais difíceis de encontrar, e damos por nós a vasculhar as prateleiras das livrarias na ilusão de encontrar alguma dessas relíquias. Quando isso acontece é sinal que entrámos na fase mais complicada da adição literária: a obsessão.
EMANUEL LOMELINO
Do Brasil à Suíça (excerto 21) - Samaritana Pasquier
O Conde Da Bengala... (excerto) - JackMichel
quinta-feira, 12 de março de 2026
No fundo do baú 128 - Emanuel Lomelino
Volta e meia desincorporo-me e, afastando-me um pouco, fico a olhar-me na tentativa de perceber o que continua a mover-me.
Faço isto porque, há muito, deixei de encontrar respostas no meu interior, agora vazio e abandonado de estímulos.
Longe vão os tempos de grandes reflexões, maiores projectos, gigantescas demandas. Todo eu era um contentor de ambições, ideais e proactividade.
Hoje, pairando sobre mim, deixei de identificar aquele olhar decidido e resoluto – quase intrépido – que me fazia encarar todos os desafios da vida com a cabeça bem erguida, numa postura natural de confiança absoluta.
Os valores continuam presentes, as certezas permanecem seguras, as intenções estão imutáveis, as convicções bem enraizadas, contudo, o vigor vem-se esfumando, a energia esgota-se a cada expiração, a vontade esbate-se a cada passo, a importância das coisas tem diminuído a olhos vistos.
Vejo-me à distância e só reconheço a voragem de querer saber mais, de pensar com mais critério e melhorar valências. Mas já não vislumbro a sede de partilhar nem a urgência de me explicar – nem mesmo a mim próprio.
EMANUEL LOMELINO