quinta-feira, 23 de maio de 2024

A qualquer hora da noite (excerto 17) - Geórgia Alves

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Levantam, sem preposição, quatro da manhã. O pescador faz saber, por acaso, a hora de partir. Lá estão. Paulo e Simão rolam jangada sobre troncos. Passa meio corpo além da coberta. Não saltitam ao verem vultos se chegam. Paulo levanta lanterna e a fumaça do querosene queima a narina de Cora. Em viva carne, já era dada às crises de rinite. Fritou mais por dentro. Assustado, ficou dizendo baixinho em seu ouvido, “afinal recebo meu primeiro espirro sincero”, Jaú brinca com o zelo que levou o amor às alturas, até ali. 

EM - A QUALQUER HORA DA NOITE - GEÓRGIA ALVES - IN-FINITA

quarta-feira, 22 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 316 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

316

Dizem que a morte é eterna, mas creio que este adjectivo não é o mais adequado. Para mim é mais correcto dizer que a morte é definitiva.

Para algo ser eterno é necessário apresentarem-se as provas substantivas dessa eternidade. E, até agora, ninguém foi capaz de nos garantir que a morte é estendida no tempo, para todo o sempre.

Já a condição definitiva prova-se por si mesma porque a prova reside no facto de, da própria morte, ninguém ter vindo refutar a sua irrevogabilidade.

O problema não está na morte, mas sim da adjectivação que se lhe dá. É uma característica humana qualificar e quantificar tudo, e mais alguma coisa, sem levar em consideração a etimologia das palavras.

Posto isto, e porque nada mais tenho a acrescentar sobre gramática fúnebre, resta-me mencionar outra certeza definitiva: tal como na vida, também na morte ninguém conseguiu inventar uma máquina do tempo. Se isso algum dia acontecer, pode ser que alguém nos venha esclarecer sobre o tema central deste texto.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 21 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 315 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

315

Há um fio condutor na disposição de cada palavra nas frases contundentes. O discurso, mesmo irreverente e atribulado, é explícito e não sobram dúvidas por esclarecer. Sente-se a força vital de cada verbo à medida que avançamos na leitura, sem problemas interpretativos. Tudo é cristalino na pureza dos sentidos, sem segundas intenções nem desejos ocultos.

Depois temos a descrição palpável dos cenários e personagens verosímeis até ao tutano, que nos entram corpo adentro, sem pedir licença, provocando-nos espasmos internos a cada reflexo espelhado de nós mesmos.

A trama injeta-se-nos na pele com toda a impetuosidade da sua essência aditiva e ficamos dependentes da curiosidade que nos assola e só conseguimos saciar juntando as peças do puzzle, eliminando as pontas soltas e desvendando todos os ângulos do enredo.

Depois de decifrada a última página, ficamos com a boca seca enquanto os níveis de adrenalina baixam à normalidade e desejamos ardentemente uma sequela ou que a próxima leitura nos faça sentir as mesmas arritmias. Assim são os bons livros. Aqueles que realmente valem a pena.

EMANUEL LOMELINO

Chegam os convivas! (excerto) - JackMichel

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Era verdade! Era verdade, sim... os convidados chegavam prestigiando o festim! 
O General Aranhão foi o primeiro a chegar, todo condecorado... com vontade de dançar! 
A despeito de tudo, chegou a Duquesa Aranhenta... com suas joias de nobre e com seu jeito de briguenta! 
Já o Frade Aranhinha, muito magro e encovado... não parava de rezar o Pai Nosso, pedindo proteção ao sol e à todo povo de Aranhol! 
A chegada da Condessa Aranhal foi muito legal... pois todos sabiam que ela era liberal e não levava nada a mal! 
O Comandante Aranhito sorriu ao chegar... pois Aranhol era, para ele, o seu segundo lar! 
Delicada mesmo foi a chegada da Marquesa Aranhosa... que dizia que era simples, com cara de pomposa! 
O Barão Aranhêta chegou rindo de tudo... e explicou, em seguida, que fazia aquilo porque não era mudo!

EM - NA CORTE DE MADAME ARANHA - JACKMICHEL - IN-FINITA

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 314 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

314

No resumo de mais um dia, sem brilho e vazio de sonhos, sobressaem as novas fissuras nas palmas das mãos e a rugosidade da pele indiferente a hidratações.

O crepúsculo é somente mais um virar de página e a lua apenas ilustra a negritude que paira, como ave de rapina, nesta rotina repetidamente sensaborona.

Entre tomos de coisa alguma, e outros nadas, sobrevivem rasuras de lucidez revoltosa, mas sobretudo apática.

Este cenário de apocalipse existencial é filho de um conformismo oxigenado pelas batalhas travadas em nome de crenças desfasadas, no tempo e espaço, como um ritual masoquista de louvor a um desenquadramento consciente e impregnado no âmago.

E com a nova alvorada reiniciam-se os passos flagelados e os voos espirais que justificam as ampulhetas.

EMANUEL LOMELINO

Maria: As mulheres em Mim (excerto 3) - Sofia Preto

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Assim, ao jeito da inspiração da mulher que se levanta e apressa, todas intuímos que é preciso reconhecer as forças e as finitudes, e, com elas, cair na conta da Alegria íntima e profunda… para cuidar, pedir ajuda e Ser na multiplicidade de dons e talentos.
A biologia da mulher ajuda a narrar o movimento e a pressa… Parece que, primeiro, partimos para um outro e esquecemos o “Eu Sou”, deixamos o círculo sagrado – a mandala feminina – desencontrar-se de uma escuta e intimidade premente. Teremos que ressignificar o ritmo como se ele falasse na primeira pessoa da conjugação verbal… Não de um modo indiferente, mas de um modo atravessado e integrado.

EM - CONVERSAS MADURAS - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 19 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 313 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

313

Já fui crédulo nas marés lunares, mas o voo dos pelicanos, em contraluz, revelou-se tão frouxo quanto as ondas que desmaiam nas areias costeiras.

Já acreditei na frescura primaveril, mas todas as migrações deixam um rastro de negritude e as savanas escondem melodias necrófagas.

Já confiei nas brisas refrescantes de verão, mas de todas as luzes nascem sombras que ocultam a natureza dos horizontes mais ambicionados.

Algures, nas inúmeras encruzilhadas percorridas, perdi a chave da candura e, pela primeira vez, enxerguei as verdadeiras cores da cobiça e do embuste.

Por mais que os abutres de ocasião abram as asas com sorrisos luminosos, há sempre notas de rodapé no final de cada página de gentileza.

EMANUEL LOMELINO

Sozinho (excerto 3) - Luís Vasconcelos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Tínhamos sido não apenas o maior foco da sua atenção, preocupação e dedicação, era muito mais profundo e intenso! Fôramos a sua única e exclusiva razão de viver. Se eu e o meu irmão não existíssemos, quando o meu pai foi varrido desta vida de uma forma tão bárbara, brutal e cruel por um comboio assassino, ela não teria resistido e tenho a certeza absoluta que não ficaria por cá muito mais tempo. Aguentou-se por nós, sacrificou-se por nós, deu-se por nós, esqueceu-se de si mesma por nós. Na vida pode-se ter o amor de muitos homens e mulheres, mas ninguém nos faz sentir tão amados incondicionalmente como uma mãe.

EM - COMEÇAR DE NOVO - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

sábado, 18 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 312 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

312

Dou por mim a pensar no quão estranho é a ideia de sermos ímpares no universo. De não haver outro lugar com o mesmo género de beleza natural que desfrutamos aqui, neste nosso planeta solar.

Quão bizarro é o conceito de habitarmos o único espaço com as características da Terra, sabendo que o cosmos é composto por uma infinitude de geologias.

As dúvidas e questionamentos atropelam-se na mente e, de hipótese em hipótese, o grau de aleatoriedade chega a parâmetros inenarráveis.

No meio das incertezas brota a esperança de que todo o conceito que envolve a nossa singularidade seja falho e, noutro qualquer ponto de qualquer galáxia, existam mais Terras habitadas, mas com melhor exploração das capacidades intelectuais.

Se for para ser igual nos defeitos, é mil vezes preferível sermos o único aborto cósmico.

EMANUEL LOMELINO

A qualquer hora da noite (excerto 16) - Geórgia Alves

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Todos os dias a moça faz o trabalho dela em euforia. Ao som da rolha, servia pratos em sincronia fina. Maria Rita desapareceria sem deixar ver seus passos, leves e curtos, de volta à cozinha. Jantamos à luz das lamparinas. 
Nem ela, nem ele, nem havia o nós nos sonhos mais ternos, anteviam a salvação do mundo se daria por tal beleza tão suprema. A imaginação superada. Entendeu dar-te tempo e escolher Pedras Ternas. Não concordara de início, depois não foi necessária mais nenhuma palavra senão as malas prontas e o corpo no carro.

EM - A QUALQUER HORA DA NOITE - GEÓRGIA ALVES - IN-FINITA

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 311 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

311

Embrulhado no desconforto agudo de mais uma manhã, observo o envelhecimento acelerado das mãos e sinto as correntes enfurecidas dos rios que pulsam em cada uma das veias, como houvesse uma urgência líquida a irrigar os novos desfiladeiros da pele.

Por momentos vejo a geografia dos poros e as contrações dermatológicas são proporcionais à assustadora dilatação obtusa dos dedos – gigantes cansados e doloridos – que gritam sensibilidade e incómodo.

Esfrego os mapas nascidos nas palmas, numa tentativa vã de acender novos focos de resistência, mas o calor emanado simplesmente serve para confirmar a perda de capacidade hermética causada pelas calosidades dos dias e pela erupção vulcânica das escaras que enfurecem à primeira fricção.

Neste processo descubro que as mãos já não servem para guardar segredos nem para fazer truques de magia.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 310 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

310

Dá-me graça assistir, desta poltrona sem foco, à modéstia exibicionista de alguns pseudoautores que, com penas sem tinta e lavras emprestadas, passam por ícones imaculados e assertivos.

A história repete-se, em círculos herméticos, com discursos de ocasião, cheios de frases batidas em castelo e clichês feitos por encomenda.

Por muito penoso que seja, não sobra alternativa que não passe por parabenizar, estes arautos da comunicação, pela ousadia e confiança com que fabricam os seus currículos, repletos de valências nuas de significado e importância, mas que, aos olhos dos beijadores de rabos, chegam como bacharelatos.

Há que dar mérito a quem, apesar dos engodos e falinhas mansas, enchem salas de iludidos e os bolsos de celebridade.

Tudo o resto é rodapé de outras prosas sem holofotes.

EMANUEL LOMELINO

Uma vez... em Aranhol - JackMichel

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Uma vez apresentadas e já na teia acomodadas, puseram-se ambas a falar: menina e aranha, lampeiras, como amigas brejeiras, a tagarelar: 
“Então, Nôrzinha... sê bem-vinda, à nossa querida Aranhol: um mundo feito de teias, onde somente brota o sol!”. 
“Obrigada, Madame Aranha. Mas se a senhora me permite, quero conhecer sem demora, tudo o que de lindo por aqui existe!”. 
“Tem razão, cara Nôrzinha... devo lhe mostrar as galerias, sem correrias!”. 
“Madame... mas de que galerias a senhora fala? Será de alguma sala?”. 
“Não, Nôrzinha... cada coisa por vez! Aqui, tudo corre, como num jogo de xadrez!”. 
Assim sendo, a menina e a aranha foram andando... se enlinhando, num trançado complicado feito de teias-fio... até que avistaram, ao longe, uma longa galeria toda azul anil.

EM - NA CORTE DE MADAME ARANHA - JACKMICHEL - IN-FINITA

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 309 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Diário do absurdo e aleatório 

309

As palavras soam a pombas brancas quando flutuam no encanto do olhar lacrimejante. Um arco-íris espalha a magia colorida do sentimento fervente. Soltam-se odes melodiosas, qual sinfonia celestial. O tempo desacelera. O entorno deixa de existir. Os raios de sol ocultam-se. O mundo para.

As preces vagueiam entre o pedido de absolvição e a necessidade de bênção, como se o clamor das frases feitas tivesse o poder de apagar memórias, escaras e elos quebrados. Nas sombras, há um desfilar de dedos e teias de aranha. A presença obscura de arrelias, vacuidade e déjà vu são parcelas de uma equação com resultado previsível. Há o afloramento de histórias caducas que ressuscitam futilidades e destapam embalagens vazias. Depois temos as fábulas de um só sentido – sem sentido – com moral desenquadrada da realidade.

O céu fica cinzento e verte, gota a gota, cada nota de um fado enviesado e sem remorso, como fosse conduzido na plenitude de uma embriaguez vadia. Calam-se as guitarras. Mutam-se as vozes. Silencia-se a vontade.

EMANUEL LOMELINO

Maria: As mulheres em Mim (excerto 2) - Sofia Preto

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Aqui, do lado de fora da vida e daquilo que se apresenta como o lado direito dela… temos forma, textura, cor, perfume, sabor e sutileza entre o espanto e o milagre concreto da Vida. Vamos sendo acarinhadas, cuidadas, orientadas e introduzidas neste misto de vínculo e autenticidade. Habitando a vida numa criatividade simples e em playfulness (brincadeira).
Vivemos uma aprendizagem… um ato de cocriação no qual é possível ir de uma consciência atordoada, de um dever ser, até um lugar interno, como diz Henry Miller, “as viagens fazem-se para dentro”. E aqui, em ternura e admiração, desde as entranhas, expressa-se um “Eu Sou” mais inteiro e pleno… no qual tocamos o Corpo (Físico, Mental, Emocional e Espiritual) com maior compromisso.

EM - CONVERSAS MADURAS - COLETÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 14 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 308 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

308

Somos seres de humores e, por isso, cada momento é irrepetível, porque específico. Por mais que se recriem ambientes e condições, dificilmente conseguimos repetir sensações.

À partida, esta constatação parece inabalável pelas verdades que encerra. No entanto, prestando atenção, verificamos que no seu conteúdo esconde-se um paradoxo.

Se, por um lado, é muito difícil que as nossas acções resultem sempre da mesma forma, levando-nos a vivenciar o mesmo grau de euforia, por outro, como se explica que a insistência numa determinada atitude resulte sempre na mesma insatisfação?

Tendo refletido neste paradoxo, cheguei a uma única conclusão: a tese da irrepetibilidade só é aplicável às boas sensações. Nas nefastas, a repetição resultará sempre em algo negativo. O mesmo é dizer que as boas sensações são uma paleta muita vasta e variável, enquanto um mau momento será sempre um mau momento.

EMANUEL LOMELINO

Sozinho (excerto 2) - Luís Vasconcelos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

No dia 28 de Dezembro de 1999, cerca das 16 horas, encontrava-me no cemitério, vendo baixar à terra o caixão que transportava o corpo da pessoa que eu mais amava, e de quem menos me queria separar. Havia muita gente à minha volta, mas sentia-me só. A dor, sobretudo quando o sofrimento é emocional, é sempre muito silenciosa, escura e solitária. Perder alguém é algo que só a nossa própria alma conhece e sente. Não era simplesmente alguém mais que estava a ser devorado pela terra penetrando numa misteriosa escuridão e, pelo menos para mim, aterradora. Era a minha mãe, a pessoa que mais me tinha amado e me amaria a vida inteira.

EM - COMEÇAR DE NOVO - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 307 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

307

Apesar dos queixumes – porque os gritos, mesmo em silêncio, têm o condão de aliviar a carga negativa que transportamos nos ombros – descubro-me imune aos contratempos da vida.

A apatia, a inércia, o modo impassível, que me outorgam, como etiquetas tatuadas, revelam o quão falsos são os diagnósticos quando sou analisado com critérios que nunca forma meus e pelos quais nunca me regi.

A vida ensinou-me a não criar expectativas sobre ela própria e a seguir sempre em frente, independentemente das circunstâncias e das consequências, com a cabeça erguida e sem olhar para o que foi, o que teria sido, o que podia ser, ou, para aquilo que será.

A lição maior é simples de entender. A vida jamais será uma conjugação verbal e deve ser vivida, apenas e só, pelo que é.

EMANUEL LOMELINO

A qualquer hora da noite (excerto 15) - Geórgia Alves

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
Conheçam a In-Finita neste link

Logo quando a conheceu, estava como um bebê que terminou de mamar. Já quase se arremessando contra seu seio. Pensando com a boca contra os seis, com a boca que falava as coisas bem ditas diante do corpo de homem. Sim, tinha predisposição a amá-la e não se via em terras animadamente tropicais, indisposto. 
Seu brinquedo preferido, escolher o decote de Cora para alvo, tomado de alegria pela visão da árvore e da separação das maçãs maceradas pelos dedos.

EM - A QUALQUER HORA DA NOITE - GEÓRGIA ALVES - IN-FINITA

domingo, 12 de maio de 2024

Diário do absurdo e aleatório 306 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

306

É triste viver num mundo que nos pinta com a tinta de deturpação, dando à essência de cada um tonalidades disformes fora de contexto.

Quem for organizado é taxado de obsessivo, quem não for é desleixado. Aqueles que meditam e refletem antes de agirem são perversos ou desconfiados, já quem age por impulso é irresponsável. Os que dão uso à disciplina vivem presos na rotina, os que prescindem dela são rebeldes. Os assíduos e pontuais são chamados de rígidos ou severos, quem falta ou chega atrasado é libertino negligente. Os introvertidos são vistos como antissociais, os extrovertidos são chamados de loucos.

Mas o mais inquietante é ver que a maioria não consegue viver a sua essência e tem os armários repletos de máscaras para usar de acordo com as circunstâncias.

Depois estranham aqueles que se afastam e viram eremitas!

EMANUEL LOMELINO