domingo, 15 de fevereiro de 2026
Grito (excerto 3) - Adriana Mayrinck
sábado, 14 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 103 - Emanuel Lomelino
As pessoas têm um medo insano do silêncio que as leva a urrar as maiores atrocidades, como quem faz piruetas sempre que a luz dos holofotes incide sobre si.
São poucos aqueles que sabem valorizar a solidão consciente e reconhecer o silêncio como um lugar privilegiado onde ninguém, para além do próprio, deve ingressar.
Um espaço, bem no âmago, onde a consciência consegue respirar livremente e restabelecer-se num ambiente de intimidade e conforto, em que o vazio total é sinónimo de paz.
Infelizmente, há quem desconheça o carácter paliativo do silêncio e o confunda com solidão emocional, e por essa razão usam todos os artifícios para jamais ficarem fora do alcance dos olhares alheios. Esses, pobres vítimas do engodo, nunca serão capazes de compreender o quão falaciosa pode ser uma multidão e como é um engano pensar que caminhando em grupo se ludibria a solidão nefasta.
Mas o pior é não entenderem que existe quem faça do silêncio um porto de abrigo e reflexão, opte por trajectos alternativos, longe das ribaltas e sem grandes alardes, porque é dentro de nós que nos encontramos verdadeiramente.
EMANUEL LOMELINO
O paraíso são as memórias (excerto 15) - Tita Tavares
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 102 - Emanuel Lomelino
A vida tem-me escamado os sentidos como se a minha existência fosse um cúmulo de estações que se repetem ciclicamente.
Sinto-me um objecto renascentista, nas mãos do destino, quando os dias revelam ser dejá vu em looping, uma e outra e outra e outra vez.
A aspereza vulcânica, que pensava ter exterminado e dera lugar ao reinado de uma gentil suavidade, nascida de uma necessária e útil cordialidade, e que me impedia de reagir em impulsos nefastos, regressou ainda mais explosiva, como quem retorna ao ponto de partida após uma ausência consciente, deliberada e com horas contadas.
A tolerância escoa-se em animalescas correntezas de impaciência, tal como o rio mais feroz e indomável.
Conclusão… por mais que embelezemos os cenários a essência jamais se altera porque as pedras serão sempre pedras, por mais que alisemos as rudes arestas pontiagudas.
EMANUEL LOMELINO
Do Brasil à Suíça (excerto 15) - Samaritana Pasquier
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 101 - Emanuel Lomelino
Existem livros que nos permitem reencontrar a chama de vida que o tempo, inclemente, procura extinguir.
São páginas de sabedoria que enchem o âmago e conseguem entranhar-se no canto mais íntimo de nós, ressuscitando a vontade de sorrir para a lua e abraçar as estrelas.
Existem livros que nos falam as palavras certas, no momento mais necessário, como uma poção de energia rejuvenescedora.
São páginas paliativas que reforçam a nossa imunidade às maleitas desta era de inversão, de radicalismos fúteis e bacocos, de pragas analfabetas e desinteligência nata.
Existem livros que são portas e janelas abertas para mundos de ideias, pensamentos e raciocínios, cada vez mais escassos, e que provocam as nossas próprias reflexões, fazendo-nos exemplos perfeitos da máxima de Descartes “Cogito ergo sum”.
EMANUEL LOMELINO
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 100 - Emanuel Lomelino
Conheço-me por inteiro, de polo a polo, em todas as coordenadas e pontos cardeais. Sei os meus atalhos, desvios e encruzilhadas. Domino a minha geografia, até de olhos fechados, de trás para a frente e em linha recta. Vejo-me na plenitude do ser (pensante e corpóreo) e sinto-me na totalidade das fracções que me compõem.
Sou antropólogo, matemático e historiador da minha essência – para o bem e para o mal – ciente das multifacetadas circunstâncias e vicissitudes que me moldaram e, porque sou obra em permanente construção, continuarão a esculpir-me nos dias por vir.
Sou o mais feroz crítico dos meus defeitos e impetuoso defensor das limitadas virtudes que exalo, sem alarde, com plena noção de quão ténue é a linha que as separa da evitável soberba.
Sou como sou, na consciência dos actos e na legitimação de existir do meu jeito.
EMANUEL LOMELINO
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 99 - Emanuel Lomelino
Lancei, ao vento, um papagaio de papel, com o formato de diamante e frases que voam alto. Daquelas que nos levam a acreditar que as palavras fazem eco nos corações, mesmo os mais empedernidos.
A brisa acariciou cada letra, como quem beija o mais sagrado dos cálices divinos, e o ar ficou prenhe de plumas celestiais a oscilar como flocos de neve.
O céu chorou sete lágrimas pingentes, uma por cada cor do arco-íris que, sorridente, agraciou o mundo com a sua benevolência graciosa.
Duas cotovias ladearam o papagaio de papel, qual escolta imperial, numa sincronia notável. Ora para a esquerda, ora para a direita, ora planando, ora subindo, ora descendo, num voo perfeito de tão belo.
Rompi o fio, como quem corta o cordão umbilical, e deixei o papagaio de papel ganhar vida e escrever, nos céus, o seu próprio destino.
Ainda hoje escuto, nos murmúrios das aragens vespertinas, a sinfonia das palavras que escrevi no papagaio de papel. E sinto-me tão livre quanto ele. Só não tenho as cotovias ao meu lado.
EMANUEL LOMELINO
Grito (excerto 2) - Adriana Mayrinck
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 98 - Emanuel Lomelino
Muitas vezes, antes de dar asas ao cumprimento do meu ofício de lazer, revejo as primeiras páginas deste compêndio de exercícios e nasce em mim uma frustrante revolta pela pobreza franciscana que tenho derramado.
Apesar do número de fiéis leitores, sempre generosos no acompanhamento, os textos soam-me tão insonsos quanto miseráveis e dificilmente me satisfazem. Há sempre algo que, na hora da concepção, passa despercebido, mas na releitura ganha destaque como estivesse manchado de fluorescência.
Admito que o meu sentido de autocrítica ultrapassa, amiúde, os níveis de razoabilidade, mesmo na avaliação de meros exercícios sem pretensões literárias, porém, sem ele a minha escrita estagnaria.
E, convenhamos, os maus textos não só aborrecem como também emburrecem.
EMANUEL LOMELINO
O paraíso são as memórias (excerto 14) - Tita Tavares
domingo, 8 de fevereiro de 2026
Contos que nada contam 53 (À beira do lago) - Emanuel Lomelino
À beira do lago
As gaivotas estão alinhadas no pontão, à espera do momento certo para agitarem as asas, enquanto os cágados sobem aos solários para aquecerem as carapaças e os patolas dividem pasto com os pombos – oportunistas-mor do parque.
Na outra margem do lago, a avó delicia-se com o espanto infantil que a netinha demonstra ao ver o aspersor regar a relva luxuriosamente verde.
Os bancos de jardim começam a ficar ocupados por gente sem horário, viciados em ecrãs táteis, novos românticos e apreciadores de solidão ao ar livre.
Num canto resguardado, o PT da moda dá instruções gímnicas ao escanzelado que, banhado pelo esforço, tenta transparecer atleticismo para impressionar as loiras saradas que usam o trilho próximo.
Joggers, runners, ciclistas e trotineteiros cruzam-se invisíveis, na pista de alcatrão laranja, com a voluptuosa patinadora quase desnuda, cuja movimentação acelerada provoca alvoroço no pontão. Uma a uma, as gaivotas abrem as asas, levantam voo e grasnam à sua passagem. Os cágados mergulham para arrefecer as carapaças, os patolas refugiam-se sob a água aspergida e só os oportunistas-mor continuam, impávidos e serenos, entregues à rapinagem, numa indiferença pombalina.
EMANUEL LOMELINO
Do Brasil à Suíça (excerto 14) - Samaritana Pasquier
sábado, 7 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 97 - Emanuel Lomelino
Gosto de abrir os livros às vozes do passado e deixar-me envolver pelos trâmites de outrora.
Passeio nas diligências do saber pretérito, percorro trilhos e veredas, pernoito em albergues e estalagens, atravesso aldeias e lugarejos, escuto as modinhas camponesas, os fandangos ciganos, as valsas aristocratas.
Navego em caravelas, trirremes, faluas e outros batéis, lado a lado com marujos e outros navegantes.
Monto dromedários nos desertos, iaques himalaias, jumentos bérberes, cavalos mongóis, elefantes asiáticos, licórnios e outras mitologias.
Embrenho-me em jardins sumptuosos, bosques, florestas, searas, prados, castelos, palácios, cárceres, coliseus, fóruns, becos e tabernas.
Escuto filosofias e saberes milenares, observo comportamentos seculares, respiro superstições e crenças intemporais, bebo conhecimento universal, entro em estreito contacto com culturas eternas.
Depois fecho os livros e pondero no que aprendi sem acreditar na remissão da humanidade nem na absolvição dos desvios da modernidade.
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 96 - Emanuel Lomelino
A necessidade de trabalhar nas palavras é, mais que um dever imperativo, a solução para desanuviar a mente depois das escoriações provocadas pela dureza de um dia interminável.
Há uma urgência de reflexão que lateja no âmago até roçar o desespero e o corpo exige uma pausa restauradora, só atingida num estágio de solidão física e na ausência de lucidez da dor.
Respiro fundo. Fecho os olhos. Abstraio os sentidos. Sacudo os incómodos. Abraço o silêncio. Entro no universo do vazio. Nada.
Inspiro lentamente, como quem absorve o tempo a conta gotas. Olho a folha branca que espera, pacientemente, o primeiro beijo de tinta. Expiro como quem dá o tiro de partida, deixo que as palavras fluam a seu bel-prazer e abracem, com serenidade, a paz instalada.
Com elas surge a libertação suprema. Através delas instala-se uma harmoniosa conciliação com o mundo; com a vida; comigo.
Escopros, ponteiros, macetas, hematomas, esfoladelas, sangue, suor, cansaço (não necessariamente por esta ordem) deixam de significar penosa realidade e, aqui, regressam à sua condição de meros vocábulos.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 95 - Emanuel Lomelino
Em criança, logo, numa fase prematura e ingénua da minha existência, comecei a acumular alguns sonhos, como tesouros preciosos que defenderia com a própria vida.
O tempo encarregou-se de concretizar uns, eliminar outros, substituir alguns e frustrar a maioria.
Os anos passaram, comecei a ver o mundo com outras cores e aprendi a delinear os objectivos com outra precisão, porque a experiência assim o exigia, mas sempre sem deixar de sonhar grande.
Durante a caminhada foram muitas as adversidades impossíveis de contornar que me obrigaram a fazer escolhas e a ser mais criterioso. Então deixei de ser um acumulador de sonhos para me transformar em coleccionador de projectos por realizar.
À falta de oportunidade, ou capacidade, para levar tudo a bom porto, apertei mais a malha da exigência e segui na luta escolhendo as batalhas a travar.
Porém, porque a vida apresenta muitas encruzilhadas e o cansaço dos desaires não mata, mas mói, fui deixando cair grande parte da bagagem sonhada para dar algum alívio às costas.
Foi nesse momento que percebi que o meu sonho maior, que apenas vagueava no meu inconsciente, foi o único que sobreviveu à caminhada, resistindo a todos os meus tropeços, enganos e quedas.
Feitas as contas, não fui eu que concretizei este sonho. Foi ele que me filtrou.
EMANUEL LOMELINO
Grito (excerto 1) - Adriana Mayrinck
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 94 - Emanuel Lomelino
Não sei se alguém já escreveu uma tese de doutoramento, sobre genética, abordando a possibilidade do ADN humano conter um gene oleiro. Acredito que, estudando o assunto de forma aprofundada, há grandes probabilidades de ser um ótimo tema para dissertação, uma vez que podemos encontrar inúmeras provas que nos levam a considerar como possível a existência desse gene.
Nos primeiros anos de vida, todos nós, sem excepção, somos moldados pelos país e professores. Este processo, chamado educação, é socialmente aceite, por se tratar de simples transmissão de conhecimento.
No entanto, depois de ultrapassada essa fase de aculturamento natural, em muitos momentos da nossa vida, encontramos muita gente com a pretensão de nos moldar segundo os seus critérios, procurando adequar a nossa forma de agir e pensar, não ao que mais nos convém, mas sim ao que melhor serve os seus interesses.
Outros há que nos querem “embelezar” dentro dos seus próprios padrões estéticos, sempre em mutação, como se estivéssemos numa linha de montagem para produção em série e permanente reciclagem.
O maior problema desta realidade é que o hábito de produzir clones, culturais ou plásticos, já está tão enraizada nas sociedades modernas que, pasmem-se os incrédulos, até os próprios clonados são responsáveis pelas novas clonagens.
E são tantas as pessoas com essa tendência ceramista que não é difícil acreditar na existência de um gene específico. Falta só aparecer a tal tese de doutoramento.
EMANUEL LOMELINO
O paraíso são as memórias (excerto 13) - Tita Tavares
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 93 - Emanuel Lomelino
Dei-me a liberdade de ignorar o tempo, e o clima, e iniciei a caminhada sem destino premeditado.
Deixei-me guiar pelo instinto e permiti-me mergulhar nos pensamentos de forma deliberada.
Pesei, na balança da consciência, os prós e contras de todas as possíveis decisões para a resolução das minhas dúvidas mais prementes.
Cirandei, pelas ruas da cidade que me enche as medidas, mesmo não sendo minha, quase em piloto automático. Apenas andando de mãos dadas com as reflexões.
Nesta deambulação, dei por mim a entrar na livraria por impulso, como se aquela porta fosse apenas mais uma esquina contornada, parei diante de um livro de capa preta, peguei-o, girei-o noventa graus, juro que sorri, levei-o à caixa, paguei, sai.
Fiz a caminhada de regresso, já sem pensar na vida. Apenas me indaguei sobre a razão de ter entrado naquela livraria, pela primeira vez em trinta anos, pegado no primeiro livro que cruzou o meu olhar e sentir que a caminhada, supostamente feita ao acaso, afinal, estava previamente destinada – por vontade de Nietzsche.
EMANUEL LOMELINO