segunda-feira, 18 de maio de 2026

No fundo do baú 186 - Emanuel Lomelino

Perguntaram-me como seria o filme da minha vida. A resposta foi tão instantânea como uma curta-metragem.

Do nascimento até agora, já vivi inúmeras aventuras, algumas dramáticas, outras hilárias, estive envolvido em situações pitorescas e outras complicadas, escalei muitas montanhas ao longo das peregrinações por bastantes lugares, tive os meus fracassos, alguns sucessos, muitas hesitações, fiz boas escolhas e tomei muitas mais equivocadas, mas não consigo identificar episódios com originalidade suficiente para merecerem ficar registados em película.

Na realidade, tudo espremido, o potencial filme seria tão minúsculo que pareceria mais um anúncio publicitário do início do século XX – mudo, a preto e branco, e para ficar perdido no arquivo empoeirado de uma qualquer cinemateca anónima.

EMANUEL LOMELINO

Em Branda Alvorada... (excerto) - JackMichel

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Amanhecendo em minha alma, onde não dia há séculos, estou feliz!
E, para comemorar este tão maravilhoso fato digno de açular os mais perilustres encômios reais que Kronborg grangeou com sua beleza renascentista ou que o Château de Beauregard aprestou-se a dar ao Val de la Loire, com sua galeria de 363 retratos históricos...
Eu simplesmente corri a um vale undoso, verdoengo nos glabros extremos de sua extensão infinda de Parnaso.

EM - APOLLO MAN - JACKMICHEL - IN-FINITA

domingo, 17 de maio de 2026

Prosas de tédio e fastio 136 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

136

Traçando um segmento de recta entre as janelas do entendimento e as ambições alucinadas que brotam nas linhas do horizonte, vislumbro a génese dos meus desencantos e a razão suprema da minha reclusão consciente.

Nesta cela sem amarras nem grilhetas, sobra-me o conforto de continuar fiel aos nobres juízos de quem se abastece na vertigem do “lógos” grego.

Mas a reclusão helénica, por si só, não é suficientemente forte para impedir que alguns raios de frustração e nuvens de incredulidade aflorem no recanto mais impotente do ânimo.

Tudo isto, feitas as contas e achados os coeficientes, nada mais é do que a prova definitiva de que a transpiração do mundo não nasceu em Maratona, mas sim da cobiça desmesurada e da infame ganância, cujos odores ferem mais do que as algemas apertadas com que me visto.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 16 de maio de 2026

No fundo do baú 185 - Emanuel Lomelino

Há muito que decidi, com plena consciência do acto, deixar de andar ao sol e mostrar-me ao mundo apenas a conta-gotas, especialmente durante tempestades diluvianas.

Sei da importância do processo de sintetização da vitamina D, mas nunca tive problema algum em assumir os estragos colágenos porque envelhecer é inevitável e nunca gostei de brilho emprestado ou genérico porque ofusca, cega e ilude.

Prefiro o cinzentismo que me define e só a mim pertence pelo simples facto de poder revelar-me, com maior liberdade e satisfação, tal qual sou, no anonimato das sombras e sem intromissões despropositadas nem, sobretudo, ilegítimas.

Pelo mesmo motivo tenho uma predilecção especial por becos e vielas, em detrimento das avenidas largas e intermináveis.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 15 de maio de 2026

No fundo do baú 184 - Emanuel Lomelino

E se existisse apenas uma estrela no céu, uma nespereira na terra, um cavalo-marinho no mar, uma pedra num só rio e as maçãs fossem alimento das víboras?

E se em vez de asfalto existissem apenas túneis de toupeira, um cachorro mudo, um papagaio viciado em café, uma enxada e uma prostituta low-cost?

E se chovessem rosas azuis, os prados fossem lilases, o sal soubesse a alfazema, o estrume cheirasse a Dior e o vermelho fosse caminho de cabras?

E se os pés tivessem guelras, as unhas nascessem nas pálpebras, se fumasse pelos cotovelos e os braços derretessem a cada aceno?

Se a natureza fosse absurdamente distinta daquilo que é, tal qual conhecemos, apenas restaria um par de coisas inalteradas: a beleza do pôr-do-sol e a tendência humana para a autodestruição.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 14 de maio de 2026

No fundo do baú 183 - Emanuel Lomelino

Quando era criança, e estava constantemente a ralar os joelhos ou a esfolar outras partes do corpo, ouvia os mais velhos dizerem que as dores, que então pouco sentia, viriam com a idade. Sempre achei muito estranho esse vaticínio e até o esqueci durante grande parte da vida.

Eis senão quando, chegado ao equador da existência secular, o corpo, qual despertador orgânico, começou a tocar e não há forma de o silenciar.

Dói caminhar, dói sentar, dói mexer, dói ficar estático, dói mover, dói tocar, dói ouvir, dói ver, dói falar, enfim, dói tudo, por tudo e mais alguma coisa, inclusive pensar.

Esta dor, que são várias dores em sequência, faz-me acreditar que, mais do que avisos, aquilo que os mais velhos faziam, quando eu era criança, era dar voz às suas próprias dores, demonstrando empatia pelas dores que hoje sinto e eles bem conheciam.

A diferença entre os dois tempos está no facto de, agora, não existirem crianças a brincar na rua e a ralar joelhos ou a esfolar outras partes do corpo. E, sobre essa dor, que desconheço, eu não sei como demonstrar empatia.

EMANUEL LOMELINO

As sombras (excerto 9) - Maria Cabana

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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À tardinha brincas no adro da igreja com os demais, aqueles que não te ignoram, que não desdenham de ti. E fazem rodas de lenço, e há bailaricos, tu aprecias os pares dançando e namorando ao som da música, só alegria, tanta magia. E volta a noite, o escuro, tanto medo do escuro, das sombras, mesma da tua própria sombra, que se mexe, quando tu te mexes.

EM - AS SOMBRAS - MARIA CABANA - IN-FINITA

quarta-feira, 13 de maio de 2026

No fundo do baú 182 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Quando existe vontade tudo é possível.

Faço contas de cabeça, procuro soluções, testo ideias, exercito modelos e fórmulas até conseguir colocar em prática conceitos elaborados por mim.

Insisto, com resiliência, tentando provar que há sempre uma possibilidade e nada é inviável quando não nos desviamos de um propósito, de um objectivo, por mais difícil que ele possa parecer à partida.

Tal como este texto que, apesar de estar longe do seu epílogo e talvez necessitar de uma eternidade para ser terminado - porque tudo leva tempo -, tem sido escrito com esmero, e atenção redobrada, para que possa chegar ao seu final de forma satisfatória. Ou pelo menos convicto de que sou capaz de ser bem-sucedido.

Tive de reformular duas frases, lá atrás, pois duas letras tentaram escapar ao meu crivo e isso prejudicaria este exercício de escrita.

Afinal, não precisei de muito tempo. Bastou meia hora para provar que é possível escrever um pequeno texto sem recorrer à utilização de artigos definidos. Quem sabe, um dia, tentarei fazer algo semelhante com artigos indefinidos ou preposições.

EMANUEL LOMELINO

Atrás Da Via-Sacra... (excerto) - JackMichel

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Incontinenti, ela se abriu.
Convidou-me a entrar um padre de excitante face de pecado, onde se destacava a barba castanho-dourada da cor ocre do bife à milanesa, cujo ofertou-me o lacrima christi, exclamando: “Soberbo!”, ao beber um cálice da ambrosíaca bebida advinda das vinhas cultivadas nas faldas do Vesúvio.
Quando libei o primeiro gole, ainda haurindo a metomania descer pela garganta, senti meu corpo levitar à prumo dos sentidos tomados por uma lassidão turva.

EM - APOLLO MAN - JACKMICHEL - IN-FINITA

terça-feira, 12 de maio de 2026

No fundo do baú 181 - Emanuel Lomelino

Oiço toda a gente a queixar-se da vida, a contestar o aumento disto e aquilo, a alardear falta de tempo e de oportunidades, a apontar o dedo às elites e aos estranhos, mas nunca admitir a culpa por ter ficado estagnada e pouco fazer, além de se opor ao mundo em causas banais, para mudar o rumo da própria vida.

Escuto os discursos patéticos, antitudo e mais alguma coisa, de pessoas que “educam” os filhos à base de consumismo, colocando-os entretidos em frente de telas, entregues à sua sorte e vontade, enquanto, os progenitores, gastam a sua falta de tempo e oportunidades a acompanhar “reality shows” e a ambicionar a vida glamorosa dos “nascidos com o cu para a lua”.

Sinceramente, já não acredito que o rumo seja revertido. Neste espaço-tempo em que estou, erradamente, inserido, vejo uma sociedade em cacos, com os valores morais invertidos e a contribuir para que as novas gerações nada mais tenham do que cabeças ocas e dependência em fármacos psicadélicos.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 11 de maio de 2026

No fundo do baú 180 - Emanuel Lomelino

Oiço o som metálico do trompete, que sai das colunas, e na mente ecoa-me um cenário distante, no tempo e no espaço, como uma lembrança acabada de nascer no improviso de Coltrane. Mas não é jazz, nem memória. É uma imagem vívida de outra era, outra realidade, talvez desejo, quem sabe sonho irrealizado.

Confuso, quedo-me, de olhos fechados, a escutar a sinuosa melodia que flutua indiferente ao impacto que me aplica, e vejo, tão nitidamente como o agora, um episódio de vida que, tenho a certeza, nunca foi meu. Existem dejá vus de momentos jamais vividos?

Abro os olhos pela urgência ofegante de voltar a mim e à realidade que me rodeia. O som dissipou-se, não sem deixar-me o corpo perturbado e trémulo.

As pernas bambas, prestes a colapsar, pedem-me que encontre um lugar para me sentar até que as palpitações regressem à normalidade. Receoso, caminho devagar até ao único banco vazio que vislumbro. Sento-me após uma caminhada eterna e tento colocar as ideias em ordem.

O coração desacelera e a lucidez é-me devolvida. Respiro fundo e, com a maior tranquilidade que o raciocínio me concede, concluo que estive, mais uma vez, à beira de uma síncope.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 10 de maio de 2026

No fundo do baú 179 - Emanuel Lomelino

Com o acúmulo de dias pardacentos, que não me transportam a lugar algum, vou-me vestindo de silêncios e indiferença.

Olho em redor e apenas vislumbro números circenses banhados de vulgaridade e executados por carrancas enfadonhas, como se a originalidade moderna fosse uma repetição contínua de carnavais passados, contudo, a preto e branco.

Esta matização básica, insonsa de significado ou propósito, inflige-me dotes de frivolidade e frieza, como se todo o meu ser físico fosse constituído por blocos de gelo oxigenado pelas insignificantes aragens polares.

Mas desenganem-se aqueles que veem nesta insensibilidade austera um temperamento acomodado e cego. A mudez, além de boa conselheira, permite observar a transparência de todas as matizes e intenções.

Silêncio não é sinónimo de apatia, inércia, passividade ou alheamento.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 9 de maio de 2026

No fundo do baú 178 - Emanuel Lomelino

Hoje as sombras estão mais presentes que nunca. A escuridão estende os braços frios sobre cada esquina, beco e viela, tentando envolver no seu manto de breu tudo o que intenta luzir.

Há um sopro de mau agoiro personificado num uivo felino, rouco, contudo, tão monocórdico quanto arrepiante, intercalado com o som metálico de uma goteira ritmada e o ronco de uma árvore chacoalhada pelo Zéfiro persistente.

À distância de um receio fundado escuta-se o embate de saltos com os paralelepípedos da calçada, numa corrida acelerada, quase em duplo desespero.

No céu ribombam trovões em sequência, como elos de uma corrente interminável. Mas dos raios luminosos, que normalmente se seguem, nem sinal. Só som e escuridão.

Esta noite as sombras estão mais presentes que nunca.

EMANUEL LOMELINO

As sombras (excerto 8) - Maria Cabana

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Tu vestes o teu vestido janota, aquele de laços que herdaste da filha da vizinha, já muito gasto, mas é o teu melhor vestido. E toda feliz vais à missa, de seguida à catequese. Aproxima-se um dia importante, o da primeira comunhão. Não sabes o que é, tens curiosidade em saber. A catequista explica-te palavra por palavra como vai ser e o que fazer.

EM - AS SOMBRAS - MARIA CABANA - IN-FINITA

sexta-feira, 8 de maio de 2026

No fundo do baú 177 - Emanuel Lomelino

Apesar do grau de exigência que me coloco, adoro a minha falibilidade. É certo que me irrito com todos os passos mal medidos, com todas as derrapagens, com todos os deslizes, no entanto, entendo que as falhas fazem parte do processo e a melhor forma de as combater é admitir o erro e seguir adiante.

A parte confusa de tudo isto está na primeira afirmação que fiz neste texto: “… adoro a minha falibilidade”. Como pode alguém, que se diz exigente, ficar satisfeito com o facto de ser falível? A resposta é tão simples quanto óbvia.

Se refletirmos um pouco, facilmente entendemos que existe uma relação de causa-efeito a unir os dois conceitos. A exigência só faz sentido havendo imperfeição e esta é impulsionadora do carácter exigente.

No fundo, aquilo que advogo é a conscientização de que a génese da minha personalidade está umbilicalmente associada ao facto de ser, ad aeternum, um Ser imperfeito. Logo, se não fosse falível também não seria exigente.

EMANUEL LOMELINO

Suspiros... (excerto) - JackMichel

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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À tarde, discorrendo vãmente pelo pensamento, são cinco horas.
Sob o ciclorama vertente de belezas, mergulhado na coercitividade víride das céspedes colmadas e olmos umectantes e a agrestia da sutílima paisagem que se esfaz, já se reflete o crepúsculo sulcado em alacroísmos...
Assim, acompanhando o venturoso séquito do sol, dirijo-me ao recanto clássico de um clivo sáfaro que fica à côté da vacilação de minha alma, no lado prudhomnesco e original da turva consciência ábsona ao sofrer, onde tudo é claro de reações e o céu está sempre iluminado!

EM - APOLLO MAN - JACKMICHEL - IN-FINITA

quinta-feira, 7 de maio de 2026

No fundo do baú 176 - Emanuel lomelino

Já perdi a conta às vezes que metaforizei este paradoxo que existe em mim.

Por um lado, sou espírito ermitão, com sede de deserto e vontade de ficar em contínua meditação, abraçar os silêncios mais profundos, sentir a sangue pulsar nas veias, enxergar a passagem de cada segundo e alcançar o máximo de epifanias que o conhecimento possa outorgar.

Noutro prisma, sou o eterno amante do sedentarismo conformista; recluso num tempo que não me pertence, aonde me sinto desenquadrado, sem desejo de mudança – por revolta ou rebeldia – existindo apenas.

Por outro lado, sinto-me um nómada sem endereço certo nem rumo concreto, sedento por encontrar o lugar perfeito para instalar esta carcaça envelhecida e criar um entreposto de isolamento premeditado. Sou um beduíno, sempre irrequieto, em busca de um espaço para assentar arraiais, longe deste outro espaço que me restringe, aprisiona e bestializa.

Depois, enquanto me debato com esta triplicidade esquizofrénica, olho em redor e vejo inúmeras caravanas de camelos que circulam nos mesmos desertos que eu, com a diferença a residir nos holofotes que os acompanham. Então multiplica-se a necessidade visceral de metaforizar este labirinto temporal aonde me sinto enclausurado e de onde tenho ânsias de libertar-me.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 6 de maio de 2026

No fundo do baú 175 - Emanuel Lomelino

Há o tempo. Sempre incompreendido e mal medido. Sempre contestado e gasto a despropósito. Sujeito à dualidade humana. Dependente do livre-arbítrio dos humores.

Mas o tempo faz-se lonjura e exige esforço porque não para, não espera, não se controla nem se deixa domesticar.

E a vida segue, com um objectivo oculto e um final premeditado, nos compassos inclementes do tempo que, pedindo respostas, não desacelera, mas esgota-se porque a sua duração é a nossa duração.

Por isso, o tempo é unidade de medida. Dele próprio, de nós e do intervalo que nos separa do fim inevitável.

E a equação do tempo é simples de descrever: entre a terra e o céu (ou inferno) há a distância de uma vida por compreender e uma morte por alcançar.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 5 de maio de 2026

Contos que nada contam 56 (Epifania de um sonhador) - Emanuel Lomelino

Epifania de um sonhador

Em criança, logo, numa fase prematura e ingénua da minha existência, comecei a acumular alguns sonhos, como tesouros preciosos que defenderia com a própria vida.

O tempo encarregou-se de concretizar uns, eliminar outros, substituir alguns e frustrar a maioria.

Os anos passaram, comecei a ver o mundo com outras cores e aprendi a delinear os objectivos com outra precisão, porque a experiência assim o exigia, mas sempre sem deixar de sonhar grande.

Durante a caminhada foram muitas as adversidades impossíveis de contornar que me obrigaram a fazer escolhas e a ser mais criterioso. Então deixei de ser um acumulador de sonhos para me transformar em coleccionador de projectos por realizar.

À falta de oportunidade, ou capacidade, para levar tudo a bom porto, apertei mais a malha da exigência e segui na luta escolhendo as batalhas a travar.

Porém, porque a vida apresenta muitas encruzilhadas e o cansaço dos desaires não mata, mas mói, fui deixando cair grande parte da bagagem sonhada para dar algum alívio às costas.

Foi nesse momento que percebi que o meu sonho maior, que apenas vagueava no meu inconsciente, foi o único que sobreviveu à caminhada, resistindo a todos os meus tropeços, enganos e quedas.

Feitas as contas, não fui eu que concretizei este sonho. Foi ele que me filtrou.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 4 de maio de 2026

No fundo do baú 174 - Emanuel Lomelino

É curioso observar que a grande maioria das pessoas que, enquanto jovens, questionavam a utilidade prática de algumas matérias ensinadas nas escolas, é a prova viva de que a humanidade é demasiado suscetível a influências subliminares.

Veja-se, por exemplo, a geometria e a trigonometria. Tirando os que estudavam engenharia ou arquitetura, ninguém conseguia ver a sua aplicabilidade. No entanto, hoje, todos, sem excepção, perante a falta de linearidade da vida, demonstram ter várias faces ou lados, procuram os melhores ângulos e prismas para se enquadrarem em alguns círculos, havendo quem consiga criar esferas de influência. Os mais obtusos estão gradativamente a alterar a vida, enquanto os mais agudos, o máximo que conseguem é ter vidas quase paralelas, muitas vezes envolvidos em triangulações, das quais, se escapam, é sempre à tangente. Depois temos aqueles mais rasos que nem vale a pena falar.

Ora, tendo em conta a aversão juvenil a estas matérias, os comportamentos geo-trigonométricos só podem ser explicados por influência subliminar.

Seja como for, se alguém conseguir elaborar uma teoria melhor, estou disposto a mudar a minha linha de raciocínio, 180º.

EMANUEL LOMELINO