Quem
estudou ciências humanas, ou humanidades como se dizia nos anos oitenta, deve
lembrar-se, certamente, que a maior dificuldade dos professores era fazer com
que os alunos conseguissem interpretar textos e identificar os elementos
estilísticos incluídos. Eram aulas e aulas dedicadas a esta matéria e, na
globalidade, os resultados não eram dos melhores e ficavam aquém do razoável,
porque na cabeça de alguns alunos pairava a eterna questão: mas isto serve para
quê?
Ao
contrário do que manda a regra, a esta pergunta, feita no presente do
indicativo, a resposta mais lata tem de ser dada no pretérito imperfeito: isso
serviria para que existisse maior compreensão das mensagens, não acontecessem
erros de avaliação, mal-entendidos e, cerrem-se os dentes, não proliferasse uma
pobreza franciscana ao nível da criação literária.
Observando,
com olhos de ver, o universo da escrita (mas não só), fica claro que essa
dificuldade docente nunca foi ultrapassada, tal a profusão de equívocos
linguísticos e interpretativos.
Essa
incapacidade de entendimento e identificação de figuras de linguagem, sejam
semânticas, sintáticas, ou outras, é tão perceptível quanto triste e, sem o
risco de incorrer em exageros, até faz corar as resmas de papel rasurado.
Posto
isto, garanto que são menos aqueles que repararam no litote que precedeu o eufemismo,
lá atrás, no primeiro parágrafo, do que quem atentou na personificação usada no
anterior, ou em outros recursos distribuídos entre ambos.
À
pergunta: isto serve para quê? A minha resposta concisa é: para eu fazer um
exercício de escrita usando o maior número possível de figuras de estilo e
ultrapassar, por grande margem, o limite de espaço previsto para este texto.
EMANUEL LOMELINO