quarta-feira, 22 de setembro de 2021

O beijo da Borboleta - MARIÂNGELA TOLOI

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A borboleta beijou o seu ventre e nele nasceu uma flor que depois de nove meses, desabrochou.
A espera faz o tempo andar devagar, quanto mais se espera, mais lento anda o tempo. Esse tempo será de preparo?
Ouviu o sino da igreja batendo oito horas, era domingo, dia de missa.
Rezou em silencio olhando para um quadro de Nossa Senhora, pendurado na parede, acima da porta, precisava de ajuda, a dor contorcia o seu corpo, apenas uma mão amiga lhe amparava, a dor vinha e ia. O tempo continuava na sua lerdeza desesperadora, ela tinha pressa que chegasse ao fim aquela agonia, mais dor, maior ainda e quem chegou, foi quem esperava.
O caminho foi tortuoso e cheio de gritos! O vidro de um armário, à frente dela, refletiu a chegada, ela viu partes do seu corpo dilacerado, restos de casulo pendurados, sangue... viu tudo, até que chegou alguém para fazer a reconstrução e tampou a sua visão. E lá veio o tempo de novo, longo, doído e cheio de ansiedade de pegar nos braços o ser parido. 
Ai que pena, a borboletinha veio com uma asa quebrada!
Pobre borboleta defeituosa, não poderá voar e não será amada como as outras, afinal, defeito é defeito e se não tem conserto, será para sempre!
Ela chorou, chorou, chorou muito, não se conformava, o tempo não a tinha preparado para isso!
Tentou de várias maneiras consertar o defeito, foi cada dia num lugar, cada método diferente do outro, uma judiação, e nada adiantou. Enquanto isso, a borboletinha sorria para ela, batendo a asinha sã, alegre, dócil, inocente, mamando no seu peito. Que borboletinha boazinha!
Quatro vezes seu ventre recebeu o beijo da borboleta, quatro seres diferentes ela pariu, cada um tinha o seu próprio desenho e suas próprias cores, cada um ela amou de uma maneira particular, confessou que a borboleta aleijada foi a mais difícil de amar, não sabia se por culpa sua ou por culpa dela. Culpa.
O tempo as distanciou no meio da vida e as reaproximou no final. Houve amor sim, não houve foi intimidade entre elas.

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terça-feira, 21 de setembro de 2021

O reino dos sorrisos proibidos - MARIANA FREITAS

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O menino fechou o olho e sonhou com um reino onde abraçar era proibido.
Mostrar o sorriso também não podia. Ninguém se tocava.
E pra demonstrar amor, era preciso ficar longe.
Nesse reino, o menino não tinha com quem jogar futebol. Também não ia na escola. Aprendeu a aprender com uma tela. A mesma tela que todo mundo parecia fixar o olhar. O mesmo olhar que era agora cheio de medo e desconfiança.
O menino chorou.
Antes de cair no chão, sua lágrima tocou uma lagarta apressada que passava por ali. Nesse reino, até as lagartas tinham pressa.
Depois de experimentar o cinza da solidão, o menino colorido estava decido a ganhar uma amiga, a lagarta acelerada.
Pegando o bicho na mão, o menino perguntou:
– Pra onde você vai com tanta pressa?
– Vou pra um reino onde eu posso andar no meu ritmo, onde as árvores se transformam com as estações.
– Lá nesse reino tem abraço?
– Abraço, sorriso, afeto.
– Me leva junto com você?
A lagarta colocou o menino nas costas e, nesse instante, nasceram asas da cor do arco ris no bichinho. Os dois voaram juntos, atravessando oceanos, tempestades e maremotos.
Quando o sol voltou a brilhar, o menino abriu os olhos e o reino cinza havia desaparecido. As telas também. E também os panos de cobrir sorrisos.
Ele olhou pela janela do quarto e viu a borboleta mais colorida que podia existir, voando ao redor das crianças que jogavam futebol na rua.
Ele abraçou sua mãe e foi jogar com eles.

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segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Embriaguez - MARIA LUCIRENE FAÇANHA

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Um homem banhado em calma e meditação.
Quem o vê assim, pensa, falta um amor? Que nada, bêbado das belezas que o rodeiam. A música o alcança, trazendo com ela as pupilas verdes de Elisa, os lábios entreabertos num sorriso maroto capaz de despertar pecados mortais. Uma embriaguez o invade: vontade de cantar canções antigas, de dançar agarradinho, de recitar poemas ao pé do ouvido, tirando a poeira das rugas que hoje saltam aos olhos e coração. Passa a mão no rosto como a querer dissipar esse fiozinho de tristeza que o remete ao tempo que passou.
A morte é uma fêmea desalmada, tão brasileira e desgraçada que mata os rios, as matas, os animais.
Da varanda vira Elisa entrar no carro, os faróis se perderem entre tantos na avenida movimentada. As luzes coloridas e a lua a alcançam com as mãos. Não lembra muito. Lágrimas o desmontam.

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domingo, 19 de setembro de 2021

Uns com os outros - MARIA LAURINDA R. SOUSA (LAU)

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Meu corpo responde aos nomes pelos quais me chamam. Tenho memórias que são arquivos. Um olho voltado para trás – para o infinito de uma origem nunca alcançável. Outro, voltado para o presente-futuro. Esperançoso? Não sei. Dependo do que vier a construir. Com todos; uns com os outros.
Sou todos os nomes inscritos em mim; impressões que se misturam e compõem múltiplos mosaicos. Comecei Penélope. Diz a história, escrita por Homero, que fiquei em casa tecendo e destecendo num ardil para afastar os que queriam se casar comigo e tomar o lugar de Ulisses. Lugar de espera e afastamento do desejo. Nunca me deixaram registrar as lutas que enfrentei para salvar minha terra das invasões, enquanto ele, Ulisses, o herói, se afastava para seu mundo de aventuras. Pudesse eu ter escrito a Odisseia e o relato seria outro.
Foi com minha liberdade de águia - lá do alto do céu - que vi todas as árvores da floresta, diversidade de insetos, bichos e aves. Acompanhei os índios que deslizavam em canoas pelo rio Amazonas. Caçavam e pescavam nas margens de seus afluentes. Reverenciavam a mata que lhes garantia a vida. Foram meus olhos atentos que viram pequenos curumins pintados com as cores vermelhas daquelas árvores. Trepando nos cipós feito macacos. Brincando de imitar o som dos pássaros.
São meus olhos que veem, nestes últimos anos, as matas queimadas, o fogo comendo, como urubu fosse, as carcaças abandonadas do que antes eram corpos em vida e movimento.
Sobrevivi, por um tempo, à devastação provocada pelo monstro extrativista, mas as cenas de horror - dos corpos soterrados, das casas destruídas, do ar e água contaminados -, tomaram conta de minh'alma. Meu olhar vaga desolado pela paisagem. Feito pássaro velho, que não suporta a mudança de gaiola, morro de tristeza.
Sou todos os que migram. Aves voadoras que abandonam lugares inóspitos em busca de terras onde seja possível criar seus ninhos. Acompanho meu povo na travessia por outras águas e ocupo as ruas das terras invasoras para denunciar os ataques à minha gente e à floresta, e defender o direito legítimo de nosso território.
Sou essas mães pretas que choram, todos os dias, sobre o corpo de mais um de seus filhos e respondo de punho levantado, lutando por justiça. Por minha voz ecoa no mundo o abuso de tantas armas e falas assassinas.
Sou, enfim, todas as mulheres que cantam as artimanhas de suas lutas para vencer as guerras cotidianas e escrevem, hoje, novas narrativas de suas Odisséias.

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sábado, 18 de setembro de 2021

Lisboa, Menina e Moça - MARIA JOSÉ ESTEVES

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– Senhores passageiros, dentro de segundos iremos levantar voo. Agradecemos que se mantenham com os cintos de segurança apertados! – escuto em silêncio e o coração salta como um pássaro assustado entre as costelas.
O avião inicia a sua corrida pela pista. De olhos cerrados visualizo um campo de flores; a serenidade envolve o meu espírito e o pavor desaparece. Abro os olhos e retorno ao lugar junto à janela. Por mil vezes que a tenha sobrevoado é sempre em êxtase que admiro a luz branca de Lisboa. Os edifícios roçam os nossos pés.
– Um dia teremos uma tragédia no centro da cidade! – comento para o passageiro sentado ao meu lado. São pensamentos que me atormentam. Para me abstrair observo as avenidas, os edifícios, os jardins que reconheço das vivências na cidade.
Sobre o Vale de Alcântara destacam-se os arcos do Aqueduto das Águas Livres, cuja dimensão adivinha a grandeza da cidade, no século dezoito. Em contínuo, emergem de entre o casario, como guerreiros medievais, as três torres de vidro das Amoreiras. Mais uns segundos e avistamos o tapete verde do Parque Eduardo VII e as árvores floridas da Avenida da Liberdade. A ilusão de um quadro pintado de verde, salpicado de pontos coloridos, dissimula a poluição da cidade.
O avião segue a sua rota e, numa ligeira inclinação sobre uma das asas, permite observar, no alto de uma das sete colinas, o Castelo de São Jorge. Imponente, espreita o Tejo a seus pés e o Cristo Rei que, da outra margem, abraça Lisboa. Num vermelho que corta o horizonte avista-se a Ponte 25 de Abril.
Sou chamada à realidade pela voz do comandante: – Senhores passageiros! Vamos iniciar a nossa viagem sobre o Atlântico. Não se prevê turbulência, mas mantenham os cintos apertados! – respiro fundo e a tranquilidade ressurge na minha alma.
Num último olhar, ainda deslumbro navios de cruzeiro que aguardam a sua vez para entrar Tejo adentro. Sobre o convés, os passageiros fotografam os monumentos que serpenteiam a margem. A Torre de Belém destaca-se entre os restantes. Estão ávidos de conhecer a cidade, as calçadas, as gentes e os seus costumes – “Lisboa, menina e moça”, no cantar do fadista.
No ar espalha-se o aroma do café que me recorda o bulício das esplanadas à beira Tejo. Os estudantes, com computadores à mistura com chávenas de café, alternam as acesas disputas com a mudez e imobilidade sobre os écrans; as senhoras septuagenárias, com as suas fatiotas e cabelos incensuráveis, bebem o chá com o tradicional pastel de nata, em alegre cavaqueio; os turistas deleitam-se com o azul do rio Tejo, num momento de repouso após calcorrearem as ruas e as colinas da cidade.
Acomodo-me no banco e pego no livro que vai ser o meu parceiro durante as próximas sete horas.

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