terça-feira, 7 de abril de 2026

No fundo do baú 153 - Emanuel Lomelino

A generalidade das pessoas confunde conhecimento com inteligência, mas este equívoco pode ser desfeito achando a relação entre ambos.

O conhecimento é acúmulo de saber. A inteligência é o entendimento prático do que se sabe e, após a primeira aplicabilidade desse saber, deixa de ser inteligência, passando a fazer parte do acúmulo de conhecimento.

Para melhor entendimento façamos este exercício: Temos uma criança pequena e um interruptor. Com o tempo ela vai saber que aquele objecto tem um nome, uma função, e que ela (criança) pode interagir com ele (objecto). Até aqui ela apenas tem conhecimento. A inteligência só aparece quando ela colocar em prática esse conhecimento e, através do interruptor, iluminar a sala escura.

No entanto, essa demonstração de inteligência não se repete, porque a repetição deriva do acúmulo de saber e já não de um acto de inteligência. Por mais vezes que a criança ligue ou desligue o interruptor, esse acto já não é de inteligência, mas sim de conhecimento porque, por experiência própria, já sabe o que acontece em cada um dos momentos.

Assim, podemos concluir que o conhecimento é uma condição evolutiva (porque há acréscimo de saber), enquanto a inteligência é uma condição momentânea (porque a demonstração de inteligência só tem uma aplicabilidade por cada saber).

Conhecimento e inteligência são dois conceitos que não podem ser confundidos, mas dependem, isso sim, um do outro.

EMANUEL LOMELINO

A Casa da Saudade (excerto) - Valdimiro Lustosa Soares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A nossa casa era modesta, porém muito grande. Tinha oito quartos, uma enorme sala, copa, cozinha, três banheiros e mais uma sala pequena destinada às refeições. Todos os quartos eram grandes. Inicialmente, o quarto onde meu pai ficava a escrever, a tocar seus instrumentos musicais e a ler seus livros era o primeiro da casa, ou seja, ficava bem na entrada, quase na porta da rua, na parte esquerda. Lá ficavam seus instrumentos musicais: violão, violino, acordeom, flauta, pandeiro e o indefectível bandolim - instrumento da sua preferência.

EM - CONEXÕES ATLÂNTICAS X - COLETÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 6 de abril de 2026

No fundo do baú 152 - Emanuel Lomelino

Refletir na vida possibilita-nos ordenar as informações, que adquirimos de forma aleatória (uma aqui, outra acolá, uma mais adiante, outra bem mais tarde), e dar-lhes uma concretude que, de outro modo, seria difícil atingir.

Este processo de revelação faz-nos alcançar um outro nível de entendimento, tanto das coisas complexas como das irrelevantes.

Peguemos como exemplo o epiteto “Idiota”. Ao longo da vida, em circunstâncias diversas, conhecemos personagens a quem a adjectivação serve na perfeição, contudo, com significâncias distintas.

Analisando a fundo a questão, chegamos à seguinte epifania: existem cinco tipos de idiotas.

1 – O tolo – aquele que tem um défice cognitivo e as sociedades reconhecem como louco.

2 – O burro – aquele que é ignorante por natureza e tem dificuldade de aprendizagem.

3 – O néscio – aquele que sofre de excesso de pureza, comummente apelidado de ingénuo.

4 – O bobo – aquele que entretém os outros, usando com inteligência as características dos anteriores para efeitos de comédia.

5 – O maquiavélico – aquele que usa as fraquezas alheias, de forma perversa, para proveito próprio e prejuízo dos demais.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 5 de abril de 2026

No fundo do baú 151 - Emanuel Lomelino

Quem estudou ciências humanas, ou humanidades como se dizia nos anos oitenta, deve lembrar-se, certamente, que a maior dificuldade dos professores era fazer com que os alunos conseguissem interpretar textos e identificar os elementos estilísticos incluídos. Eram aulas e aulas dedicadas a esta matéria e, na globalidade, os resultados não eram dos melhores e ficavam aquém do razoável, porque na cabeça de alguns alunos pairava a eterna questão: mas isto serve para quê?

Ao contrário do que manda a regra, a esta pergunta, feita no presente do indicativo, a resposta mais lata tem de ser dada no pretérito imperfeito: isso serviria para que existisse maior compreensão das mensagens, não acontecessem erros de avaliação, mal-entendidos e, cerrem-se os dentes, não proliferasse uma pobreza franciscana ao nível da criação literária.

Observando, com olhos de ver, o universo da escrita (mas não só), fica claro que essa dificuldade docente nunca foi ultrapassada, tal a profusão de equívocos linguísticos e interpretativos.

Essa incapacidade de entendimento e identificação de figuras de linguagem, sejam semânticas, sintáticas, ou outras, é tão perceptível quanto triste e, sem o risco de incorrer em exageros, até faz corar as resmas de papel rasurado.

Posto isto, garanto que são menos aqueles que repararam no litote que precedeu o eufemismo, lá atrás, no primeiro parágrafo, do que quem atentou na personificação usada no anterior, ou em outros recursos distribuídos entre ambos.

À pergunta: isto serve para quê? A minha resposta concisa é: para eu fazer um exercício de escrita usando o maior número possível de figuras de estilo e ultrapassar, por grande margem, o limite de espaço previsto para este texto.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 4 de abril de 2026

Contos que nada contam 55 (Discurso do inocente) - Emanuel Lomelino

Discurso do inocente

Abram as portas do fórum e permitam que todas as testemunhas dissertem como lhes aprouver. Escutem as versões de cada uma delas, como quem escuta um hino – em reflexão silenciosa e contemplativa.

Anotem todas as denúncias, cismas, queixas, dúvidas, melindres, temores, desconfianças, suspeitas e imputações. Deixem-nas fazer todas as acusações. Anotem tudo. Deliberem na independência do vosso juízo e sentenciem - se tiverem de o fazer.

Eu, na qualidade de réu assumido, limitar-me-ei a escutar todos os relatos, como quem se delicia ao ouvir os contos mais fantasiosos, plenos de drama e repletos de “achismos”.

Seja qual for o desenlace, seja qual for o entendimento deste tribunal, nascido da vontade protagonista e alavancada em propósitos coscuvilheiros, receberei os autos de pronunciamento como quem anseia ler o argumento adaptado, para cinema, de uma ficção sensaborona.

Por mais que tentem, nunca conseguirão biografar o meu trajecto, a minha caminhada, os meus conceitos, as minhas decisões, sendo fiéis aos acontecimentos, sem que eu decida favorecê-los com a única verdade que me define – a minha.

Até lá, e para não caírem no ridículo, sugiro que no final da vossa colectânea de adivinhação coloquem a frase: “toda e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”.

EMANUEL LOMELINO

As sombras (excerto 1) - Maria Cabana

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E quando o sol se punha lânguido e sereno. E a lua vinha de mansinho, o escuro dominava todo e qualquer cantinho. Na casa viviam sombras todas imaginárias de histórias contadas de outras vidas passadas. A lareira apagada, a candeia sem petróleo, os fósforos sem lugar onde procurar. E neste turbilhão de emoções medonhas, corriam à vizinha em socorro de lume para acender a lareira, era a única maneira da casa se iluminar. Então se fazia luz e calor, a refeição e a razão de ser, tudo isto era a vida ao anoitecer.

EM - AS SOMBRAS - MARIA CABANA - IN-FINITA

sexta-feira, 3 de abril de 2026

No fundo do baú 150 - Emanuel Lomelino

Imagem istockphoto

Volta e meia, nos meus exercícios de escrita, aludo à preguiça intelectual que ganhou raízes nas sociedades modernas. São tantos os exemplos que fica complicado não dar uso a essa constatação.

Esta epidemia de não-pensamento tem diversas origens, múltiplas razões e inúmeros motivos para continuar a propagar-se, sendo factor essencial e decisivo para que alguns “iluminados”, conscientes do fenómeno, ganhem força e consigam ser reis em terra de cegos formatados.

O mais preocupante é que esta enfermidade já esteve presente em outros momentos da história da humanidade, mas parece que, desta vez, quase ninguém consegue enxergar o óbvio.

Pelo andar da carruagem, acho que esta nova variante, vai ficar entre nós mais tempo do que as anteriores, tal a capacidade de contágio que tem revelado.

EMANUEL LOMELINO

Seguindo O Pífaro Celestial... (excerto) - JackMichel

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À feição inaudita da pedra filosofal de Meca que encerra dons que soam qual anafis em provenção de dádivas pagãs para os hadji que vão ali para obter a remissão de seus pecados orientalistas, toda vez que minha ilusão cerra os ouvidos para os ruídos externos da Terra, eu ouço acordes da Pathétique mudada em timbre de pífaro que lhe confere aspecto meigo e afinado, causando impressão vã.
Certa vez, porém, resolvi seguir este pífaro celestial para descobrir onde levava.
Avante!

EM - APOLLO MAN - JACKMICHEL - IN-FINITA

quinta-feira, 2 de abril de 2026

No fundo do baú 149 - Emanuel Lomelino

Por natureza, e porque procuro desenvolver ideias próprias sobre várias temáticas, sou crítico dos radicalismos modernos, que só existem por falta de validade argumentativa e preguiça intelectual.

Reflectir deve ser sempre o primeiro passo para a existência de discussões construtivas e é através das divergências que se podem alcançar consensos e encontrar as melhores soluções para cada problema.

Neste contexto, e porque há assuntos que merecem debates amplos e sérios, congratulo-me pelo crescente interesse na problemática da saúde mental.

Apesar da questão ter sido levantada, recentemente, por figuras de relevo do universo desportivo, este problema não é novo, é mais abrangente e deve preocupar cada um de nós.

Sem retirar importância ao debate sobre as origens, motivos ou soluções, creio que a prioridade deve ser a consciencialização colectiva de estarmos perante uma situação grave que requer o máximo de sensibilidade nas abordagens e, por isso, são dispensáveis as ideias pré-concebidas e preconceituosas do passado.

As sociedades só evoluem quando os pensamentos acompanham.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 1 de abril de 2026

No fundo do baú 148 - Emanuel Lomelino

Quando a manhã se acende num sorriso, a geada, afetuosamente, desmancha-se em lágrimas cintilantes, que o sol prestigia num afago morno.

No céu despontam os primeiros voos, num bailado de brisa e penas, acompanhados pela beleza sinfónica de um chilrear indefinido, nascido de gargantas irrequietas, contudo melódicas.

Há um gingar vaidoso nos passos mudos de um gato pardo, que atravessa o jardim florido, como quem festeja sete vidas preenchidas, apenas interrompido pelo rouco canto de um galo que anuncia a boa-nova.

De repente, com a pontualidade de um relógio suíço, todos os sons se evaporam para que o vento assobie na folhagem de uma laranjeira, libertando as fragrâncias cítricas e impulsionando o voo de uma alva mariposa.

Os sentidos estão a formigar de entusiasmo quando o despertador toca e a chuva, que bate feroz na janela, revela que tudo não passou de um sonho primaveril e a realidade, de mais um dia, é cinzenta como ontem.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 31 de março de 2026

No fundo do baú 147 - Emanuel Lomelino

Por mais habituado que esteja ao modo como sou visto e entendido, por quem, sabendo da minha existência, não interage comigo, continuo a esboçar sorrisos internos quando as percepções caem por terra e são verbalizadas manifestações de surpresa.

Há uma imagem que me tem acompanhado toda a vida, muito por minha culpa, confesso, e que induz em erro aqueles que só me conhecem das redes sociais ou do “ouvir falar”.

Quanto à primeira, nada pode ser feito porque, há muitos anos, só uso as redes sociais para trabalho de divulgação.

Em relação à segunda, que apenas merece uma reflexão mais aprofundada para efeito deste exercício de escrita, sobressaem duas ideias.

1 – Há quem se dê ao trabalho de incluir o meu nome em conversas com terceiros, dando-me uma importância que não reconheço nem almejo. E nada mais tenho a dizer sobre isto porque o que falam de mim não me diz respeito.

2 – Há quem faça deduções de carácter, apenas pelo que escuta. Esta constatação sugere-me alguns pensamentos.

a) há quem viva mais na ficção e no achismo do que com a realidade.

b) há quem prefira o rumor à verdade.

c) há quem dedique mais atenção à vida alheia do que à própria.

d) é mais confortável ver nódoas na toalha do outro.

e) quem fala dos ausentes também tem costas.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 30 de março de 2026

No fundo do baú 146 - Emanuel Lomelino

O substantivo que melhor define as sociedades modernas é “preguiça”.

Nestas duas primeiras décadas do século XXI, ela disseminou-se, qual vírus contagioso, tornando-se quase uma característica genética da humanidade.

Podemos observá-la desde as pequenas coisas da vida – usar o carro para ir ao café, no fundo da rua; deitar lixo no chão havendo um caixote no outro lado da estrada – até às de maior impacto – resolver burocracias no final dos prazos; deixar para o dia seguinte a conclusão de um trabalho, que demoraria cinco/dez minutos, porque o patrão não paga horas extra.

Depois há a preguiça intelectual, que tem sido estimulada por aqueles que compreendem o fenómeno do seguidismo e sabem dissimular ideias e conceitos em actos e discursos tão cativantes que parecem dogmas infalíveis, sem pontas soltas, logo, sem necessidade de reflexão, mas fazendo crer, aos enfermos da preguiça, que são livres-pensadores e que a ideia original foi fruto do seu próprio pensamento (que nunca teve).

Dessa percepção de indiscutibilidade cria-se a apologia do não-pensamento, ou a sensação de que pensar é prescindível.

Assim nascem os rebanhos, educados a aceitar sem contestar e sem compreenderem que estão a ser formatados por pensamentos induzidos e a perder a capacidade de pensar pela própria cabeça.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 29 de março de 2026

No fundo do baú 145 - Emanuel Lomelino

O momento mais angustiante na vida de um autor não é o fracasso das suas criações, tampouco o sumiço repentino do estro. A angústia maior, que trespassa a alma vezes sem conta e dilacera cada átomo, acontece quando as palavras atraiçoam e esgravatam o íntimo como punhais rombos, sem um pingo de compaixão nem misericórdia.

Para os mais desprevenidos, cada traição é recebida no limite do despreparo e, por isso, sentida no extremo da dor – lancinante, feroz, inclemente.

Os mais calejados, não sendo imunes às estucadas e sofrendo em igual medida, conseguem, apesar das lágrimas de desilusão, ultrapassar o desconforto com maior celeridade, cicatrizar as feridas, e retornar ao ofício mais fortes.

Depois há os outros. Aqueles que, por nunca terem estado seriamente empenhados na escrita e, por essa razão, não terem ganhado consciência de autor, ignoram quão ténue é a linha que separa a traição das palavras e a arte escriba.

EMANUEL LOMELINO

O paraíso são as memórias (excerto 23) - Tita Tavares

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Desde muito criança, mesmo numa fase em que a linguagem e a sua significação eram ainda rudimentares, comecei a ter a noção do sentimento da gratidão, através do modelo, da atitude. Em casa, era com frequência que os meus pais, a título de qualquer situação, citavam recorrentemente pessoas das suas relações, por algum tipo de favor ou ajuda prestada.

EM - O PARAÍSO SÃO AS MEMÓRIAS - TITA TAVARES - IN-FINITA

sábado, 28 de março de 2026

No fundo do baú 144 - Emanuel Lomelino

Entre muitos paradoxos que enfermam a humanidade, um dos mais óbvios, mas que foge à reflexão, é o dogma da perfeição.

Todos alardeamos que a perfeição não existe e, consequentemente, admitimos a nossa imperfeição natural. Estas afirmações acabam por ser taxativas e complementares, mas quase sempre colocadas de lado, dependendo das situações, sendo usada a versão mais cómoda ao interesse de cada um, ou o(s) seu(s) contrário(s), como quem escolhe que roupa usar em determinado dia da semana. Senão vejamos.

Não existindo a perfeição, por que raio todo o mundo anda em busca dela, em todos os momentos da vida? Por que se exigem relacionamentos perfeitos? Por que se exigem, ou recriminam, comportamentos e prestações, em nome da perfeição? Por que razão as pessoas sentem necessidade de qualificar toda e qualquer coisa que veem, ou tudo o que leem, como sendo “perfeito”? Por que carga de água se voltam as costas aos demais por falta de perfeição, ou pelas imperfeições? Por acaso a imperfeição só existe na primeira pessoa do singular, no presente do indicativo, em circunstâncias especiais, sendo que noutras é alimentada na segunda pessoa do singular ou plural? Será que o conceito de imperfeição tem restrições aplicativas? Será que estamos, também neste quesito, a perder a noção da realidade e a deixar-nos levar pelo politicamente correcto por conta da sensibilidade de um punhado de “cabeças-ocas”?

EMANUEL LOMELINO

Do Brasil à Suíça (excerto 24) - Samaritana Pasquier

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Com ar grave, nos anunciaram que um dos líderes camponeses havia sido morto a poucos metros de sua casa por “pistoleiros”, matadores profissionais. Ele, o camponês, trazia no braço uma melancia para dar a seus filhos, à sua família. Sua esposa estava na cidade para uma consulta médica. Eles nos pediram então para acompanhá-la até a casa deles. Essa viagem foi longa e tinha um clima muito pesado.

EM - DO BRASIL À SUÍÇA - SAMARITANA PASQUIER - IN-FINITA

A Pequena Distância... (excerto) - JackMichel

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Num recanto antigo ideado aos moldes particulares do romance ideal e precípuo, a Poesia trajou-me com um vestido caudato de fino catassol lustroso... ornou-me com joias fabulosas de irreal origem atida ao encantamento da rutilação dos efeitos... encerrou-me dentro da torre de um castelo delével...
E ordenou que eu ficasse à espera do belo príncipe Acobreado, que era chamado assim por possuir cabelos em tão exato tom do cobre puro que parecia ter recebido desse metal a essência depurada nos fios macios da madeixa rara.

EM - APOLLO MAN - JACKMICHEL - IN-FINITA

sexta-feira, 27 de março de 2026

No fundo do baú 143 - Emanuel Lomelino

Sempre que me preparo para mergulhar num novo livro, visto o meu escafandro de gala e lá vou eu, contra todas as fobias, em genuína apneia.

As primeiras páginas podem revelar-se irrespiráveis, mas a falta de ar oxigenado, em vez de afligir-me, tem o condão de despertar o meu autocontrolo e elevar os sentidos no máximo das suas capacidades, obrigando-me a dar corda às barbatanas e ir ainda mais longe e fundo. E quanto maior for a dificuldade para manter a respiração regular, mais embrenhado fico e mais adentro nos textos.

Garanto-vos, com o testemunho de mil e uma experiências, que todos os bons livros conseguem fazer-nos viver para lá de uma síncope respiratória, e trazer-nos de volta, sãos e salvos, mas enriquecidos, à superficialidade fatal do mundo a que pertencemos.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 26 de março de 2026

No fundo do baú 142 - Emanuel Lomelino

Sem tirar a importância a outras grandes preocupações das sociedades modernas, um dos maiores flagelos actuais é o sumiço, que está a ser permitido acontecer, de inúmeros locais de culto – as livrarias tradicionais.

Sobre esta triste realidade estão a ser usados argumentos que só convencem os cabeças-ocas que falam de clássicos, mas só leem livros de autoajuda, comprados em supermercados.

Os livros que valem a pena serem lidos raramente os encontramos nas grandes superfícies, porque nunca serão os de vendas mais expressivas.

Livros que fazem pensar, ou melhor, que obrigam a pensar, são incompatíveis com o negócio de consumismo imediato, porque, neste nosso tempo, o acto de pensar está a roçar a extinção.

Os verdadeiros leitores, aqueles que conhecem as diferenças entre as grandes obras da literatura e os manuais de formatação, optam por pensar e sabem que só é possível encontrar bons livros nas livrarias tradicionais.

Infelizmente, esses espécimes raros têm uma capacidade financeira reduzida e isso reflete-se no desaparecimento de espaços icónicos.

A manter-se este círculo vicioso, corremos o risco de necessitar ir ao supermercado mais próximo para encontrarmos um manual prático, que nos ajude a descobrir uma forma de fugirmos à estupidificação que está a instalar-se, e reaprender a pensar.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 25 de março de 2026

No fundo do baú 141 - Emanuel Lomelino

Pensar dói. Ou melhor… dá dores de cabeça. Ok. Nem sempre. Há pensamentos que conseguem passar sem deixar vestígios, mas, quando assim é, isso significa que não tinham significado algum.

Aqueles que magoam são os pensamentos que vêm atrelados a outros pensamentos, como um comboio-bala interminável, cuja locomotiva é uma ideia simples que não gosta de andar sozinha nas trilhas da mente e, por isso, arranja sempre uma forma ardilosa de dar boleia a mais e mais ideias, cada vez mais complexas.

A dor de cabeça aparece nesse momento. Na altura em que as carruagens mais simples – porque leves – dão lugar às mais robustas – porque pesadas – e, como num passe de mágica, cada uma delas (ideias) se transforma numa nova locomotiva, dando origem a mais comboios. Tantos que a mente fica preenchida de carris, que entroncam, uns nos outros, de modo tão vertiginoso que, nasce a sensação, a qualquer instante haverá um descarrilamento ou um choque entre composições.

Se isto não fosse uma analogia eu estaria milionário só na venda de bilhetes, tantos são os pensamentos que viajam na minha mente.

EMANUEL LOMELINO