segunda-feira, 24 de junho de 2024

Um cravo em troca de um cigarro (excerto) - Celeste Pereira

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Numa quinta-feira primaveril, a manhã acordava após uma agitada madrugada, sem percebermos ao certo o que se passava. As rádios tinham sido ocupadas por militares. Na Rádio Clube Português ouvia-se a canção do Zeca Afonso, “Grândola Vila Morena” e “Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho. Esta última foi a senha escolhida para dar início à Revolução. Chegara a hora da mudança. Anunciava-se um Golpe de Estado, levado a cabo pelos audazes capitães do dia 25 de Abril de 1974, hoje, também conhecida pela Revolução dos Cravos. Nas ruas pulsavam corações. Gente que se abraçava, chorava, ria, ou alegremente passavam a palavra; – O governo vai cair, há uma Revolução!

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domingo, 23 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 348 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

348

Acho graça aos amoques que determinadas personagens, com a mania das grandezas e acreditando serem detentoras das verdades absolutas, têm amiúde, por dá cá aquela palha, porque sim e porque não, como se a histeria dos seus gritos mudos e absurdos atemorizassem os demais, fazendo-os enfileirar como carneirinhos conduzidos por pastores caninos.

Dá-me graça, e vontade de rir, quando vejo essas matrafonas carnavalescas, trasvestidas de autoridade suprema, a arrotarem postas de pescada, com vozes estridentes, feito varinas a depilarem-se com lâminas rombas, como se a razão as assistisse e sem perceberem o quão ridículos são os motivos da peixeirada.

Dá-me graça, mas sinto pena, dessas vedetas mediáticas que andam sob holofotes, como quem usa chapéu-de-chuva em todas as condições climatéricas, na esperança de serem notadas para não serem esquecidas, conduzidas por egos tão inflados como provincianos barrocos.

Dá-me graça, sobretudo por saber, de cor e salteado, os reais propósitos desses falsos achaques, que nada mais são do que chamarizes para papalvos, distraídos e pombos-correio.

Dá-me graça a vulgaridade de quem se vende excepcional.

EMANUEL LOMELINO

A qualquer hora da noite (excerto 23) - Geórgia Alves

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Acha aquilo a melhor bebida em toda sua vida. Dó da cozinheira, esta era farta da comida da vila, com tanta água salgada tudo que vinha do mar perdera o gosto e a graça. Na boca e no colo dela. Heleno tinha alegria que brota dos cachos. Era padrinho de Nino. E sempre começava o dia dando de comer às bichinhas, desmanchado em lágrima, feito menino, feliz e bobo.

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sábado, 22 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 347 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

347

Por estes dias li um texto sobre a “teoria da regressão” (belíssima dissertação sobre a hipocrisia consciente da humanidade) e dei por mim a pensar nos passos atrás que se dão, quando o intuito seria continuar a evoluir.

O domínio do fogo foi evolução. A invenção da roda foi evolução. A sedentarização foi evolução. A escrita foi evolução. Todas as civilizações foram evolução. A revolução industrial foi evolução. A revolução tecnológica é evolução.

O problema, de todos os acontecimentos que permitiram evoluir, é o seu denominador comum – o homem. Um ser que, apesar de ser fruto de um longo processo evolutivo e ter toda a experiência outorgada pela evolução, não só da espécie, mas, sobretudo, do seu próprio mundo, consegue chegar a este momento da existência e permitir-se regredir na essência.

Uns por ganância. Outros por comodismo. Todos por já não poderem ser chamados humanos porque perderam a razão e a humanidade.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 21 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 346 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

346

Carl Jung alertou para as características viciantes do silêncio e para as consequências que essa adição provoca naqueles que enferma. Concordo que o silêncio vicia e que há efeitos visíveis nos que usam o silêncio como uma forma de estar e entender a vida. No entanto, no desenvolvimento da ideia, tenho de manifestar opinião contrária à tese de Jung.

Para começo de conversa, a minha primeira discordância com o psiquiatra suíço está na catalogação deste estado como sendo uma doença. Talvez por não ser psiquiatra, creio ser abusivo classificar todo e qualquer comportamento, lateral aos convencionalismos, como doença. Chamem-lhe desvio, excentricidade, rebeldia, bizarria, mania, exotismo, capricho, ou qualquer outro substantivo, mas não doença.

Na explicação de Jung, os viciados em silêncio ficam tão deslumbrados com a sensação de paz que tendem a perder interesse na interação com os humanos. Neste ponto creio que a análise foi feita em contramão. Os amantes do silêncio não perdem interesse nas interações por sentirem paz, mas sim, sentem paz, quando estão em silêncio, por terem interagido em demasia. O silêncio acaba por transformar-se no único remédio eficaz para alcançar paz e reverter a toxidade das relações com os outros.

EMANUEL LOMELINO

Galerias e pedidos (excerto) - JackMichel

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Assim, a aranha foi mostrando tudo... tudo... à menininha que, de olhinhos arregalados, via aqui e acolá... até que deram bem de frente, com a Galeria Verde Mar! 
“Nôrzinha, cara Nôrzinha... esta é a Galeria Verde Mar! Onde minhas aranhas-confeiteiras preparam mil besteiras!”. 
“Puxa, Madame... que delícia! As aranhas-confeiteiras devem fazer tudo com perícia!”. 
“Fazem... fazem... sim, cara Nôrzinha! Muitos bombons recheados, com licores temperados, adocicados a valer... em papéis tão bem embrulhados, que só aranhas podem entender!”

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quinta-feira, 20 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 345 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

345

Mirro-me nesta sensação de estar, invariavelmente, a ser sugado até ao tutano, por forças ocultas, que apenas sobrevivem porque lhes resisto, ao não lhes reconhecer mérito nem importância.

É como se o peito centrifugasse o sangue, em brasa, em espirais tresloucadas pela estreiteza das veias, ao mesmo tempo que os pulmões reprimem o ar que quer libertar-se num grito de ferocidade guerreira.

Em simultâneo, a pele enruga-se ao máximo da sua elasticidade, como estivesse a fundir todas as células num único organismo bélico, pronto para explodir sem olhar aos danos colaterais.

As mãos entrelaçam-se no estalar de cada dedo, até que uma dor câmbrica formigue imparável entre as falangetas e os cotovelos.

O suor escorre, tal qual uma enxurrada, por todo o corpo. Acordo. Espirro. Nada demais. Apenas uma constipação por ter este hábito de dormir com a janela aberta.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 344 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

344

Os abutres não deixam de pairar sobre as cabeças insufladas de modernismo. Fazem voos rasantes, com a desenvoltura de quem confia no anonimato que as suas sombras protegem, e não temem as vozes esclarecidas porque, essas, são minoria.

As ideias passaram a ser raros oásis num deserto, de areias ociosas, cada vez mais extenso e repleto de tendas ocupadas por neodepressivos que ficaram enfermos por escutarem demasiados nãos, e pensam que os pixéis dos ecrãs táteis são ingredientes de medicina alternativa probiótica.

Por este andar, ainda um dia, haveremos de encontrar embalagens de alucinogénios e pachorra-diet nas prateleiras dos supermercados, ao preço de uva-mijona e com a possibilidade de ser paga em suaves prestações de bitcoins, via transferência telepática e sem prescrição médica.

Valha-nos a Santa Imaculada Paciência de origem mandarim. Digo deste modo porque especificar a nacionalidade seria propalar um estereótipo (sentimento que apenas um caucasiano privilegiado, como eu, é capaz de expressar).

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 18 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 343 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

343

Ser adicto à leitura só se revela problemático se não existir a disciplina comportamental necessária, principalmente quando, após um livro, sentimos aquele impulso compulsivo de aprofundar uma temática ou contrapor ideias.

Nesses momentos de euforia literária, é preciso usar toda a força da resolução, e autocontrolo, para impedir-nos de correr à primeira livraria e comprar uma montanha de tomos relacionados com o original.

O mesmo acontece quando ficamos deslumbrados com a escrita de determinado autor e somos impelidos a adquirir, de supetão, todas as suas obras.

Aqueles que sofrem desta enfermidade cultural sabem o quão difícil é resistir aos ímpetos insaciáveis do conhecimento. A melhor forma de combater os sintomas é reler cada obra, pois a releitura sempre nos mostra algo que nos passou despercebido e pode responder a algumas questões, sem ser preciso ler outras abordagens. Outra forma de antídoto consumista é, sempre que possível, procurar antologias, colectâneas ou resumos biográficos, onde possamos estar em contacto com as obras de modo mais superficial, contudo, mais abrangente, porque, no final das contas, não precisamos saber todas as respostas. Muitas vezes basta conhecermos alguns fragmentos para alcançarmos, por nós mesmos, a ideia global.

Tirando isto, a leitura só traz benefícios.

EMANUEL LOMELINO

A qualquer hora da noite (excerto 22) - Geórgia Alves

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Confirmando veredicto. Para engravidar, e manter a gravidez até o final seriam necessários esforços. A começar pela comida. Guada, desde menina, conhecia bem Heleno, dono de admirável galinheiro, com centena de bichinhas de raça, pura estirpe. Galinhas vermelhas, como a avó de Guadalupe, Ludmila.
 Ruivas e recém-nascidas das primeiras galináceas americanas, batizadas New Hampshire. Com ovos e carne branca, fácil resistir às carnes vermelhas. Ainda o bom humor do compadre Heleno. Homem gentil, bem dado. Guadalupe flutua ao lado dele.

EM - A QUALQUER HORA DA NOITE - GEÓRGIA ALVES - IN-FINITA

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 342 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

342

A questão é polémica, apenas e só, porque se transforma facilmente num argumento usado por cabeças ocas ou com intensões malévolas.

É propalada em discursos políticos demagogos e, dependendo do orador (e dos seguidores não-pensantes) pode frutificar nas massas, bastando para isso associá-la a outros assuntos, sobre os quais pouco ou nada se diz e faz.

Portugal é um país racista?

Os de direita são… com os imigrantes pobres. Os de esquerda são… com os imigrantes ricos. Os ricos são… porque empregam imigrantes pobres. Os pobres são… porque trabalham em empresas de imigrantes ricos. Os ricos são… apesar de fornecerem produtos às lojas dos imigrantes. Os pobres são… apesar de se abastecerem nas lojas dos imigrantes.

Sim, Portugal é um país de tradição racista, como demonstra o facto de a Dona Rosa (octogenária caucasiana minhota e analfabeta), que anda sempre com as palavras “preto”, “lelo”, “chinoca” e “monhé” na ponta da língua, ser a mais querida do bairro, por brasileiros, romenos, moldavos, africanos e asiáticos, que sempre lhe oferecem alguma coisa, ou o facto de duas crianças de colo, uma bengali e outra paquistanesa, quando a veem quererem logo ir para os seus braços.

Aos ouvidos de algumas “damas ofendidas”, os comportamentos linguísticos da Dona Rosa são demonstração de racismo. Aos olhos dos imigrantes, que com ela interagem, as suas atitudes inclusivas, de acolhimento e afecto, são a mais pura prova de que, quando não existem interesses para além de humanidade, as diferenças não existem.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 16 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 341 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

341

Mais uma tarde pardacenta a atravessar-se no meu caminho, como se a minha percepção das coisas fosse uma contínua divergência. O sol e a lua nunca deixaram de revezar-se e as nuvens são transição.

Os espelhos não refletem novidades, além de uma ou outra ruga mais acentuada, fruto dos carinhos do tempo e da labuta, e os pintarroxos insistem em ser tema de conversa, tantas vezes quantas eu escrevi sobre a perfeita sensibilidade do nenúfar preferido.

O pão não deixa de ser vida, os iogurtes de frutos vermelhos têm pedaços de morango e amoras, os golfinhos sempre serão mamíferos e a Rosa é mãe de três, avó de quatro, trisavó de outra tripla (por ora), e tem um gato oportunista como um político em campanha eleitoral (depois de satisfeito o seu pedido, vira costas e não quer saber de ninguém).

As horas correm, as tarefas executam-se, as refeições confortam, os cigarros matam, as dores sentem-se, os pensamentos fluem, a mente viaja, e a campainha toca (devem ser os dois livros, da Graça Pires, que encomendei).

Volto já!

EMANUEL LOMELINO

Entre galerias (excerto) - JackMichel

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Totalmente deslumbrada a menininha continuava divisando um mundo que, para ela, era um tesouro... e num instante, a aranha já lhe mostrava a Galeria Amarelo Ouro! 
“Nôrzinha, esta é a Galeria Amarelo Ouro! Onde minhas aranhas-sapateiras fabricam sapatos de teias-couro!”. 
“Puxa, Madame... quanta atividade! As aranhas- -sapateiras devem criar tudo, com exclusividade!”. “Criam... criam... sim, cara Nôrzinha! Muitos sapatos enlinhados, em teias-couro amarrados, enovelados a valer... em laços tão bem enlaçados que só aranhas podem entender!”. 
A pequenina a tudo olhou e, depois, perguntou: 
“Madame, seria um desdouro... se eu pedisse às aranhas-sapateiras uns sapatinhos de teias-couro?”. “Nôrzinha, tolices não cabem neste lugar... por isso, peça a elas todos os sapatos que desejar!”.

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sábado, 15 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 340 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

340

Farto de ser avaliado pelos hipotéticos feitos que lhe eram imputados, por um extenso leque de catedráticos de cortinado (seres alcoviteiros e com pouco sal nas próprias existências), Genuíno apoderou-se das rédeas da vida e deu-lhe outro rumo, sem importar-se com as reacções que essa decisão suscitaria.

Romper com hábitos adquiridos não foi tarefa fácil, no entanto, ele estava disposto a abdicar, mesmo que temporariamente, de situações que lhe eram prazerosas, consciente de que, por vezes, são necessários sacrifícios para se atingir um bem maior.

Embora nunca tenha expressado o sentimento, essa mudança de postura - mais circunspeta, fechado sobre ele mesmo – revelou-se acertada e trouxe-lhe uma paz de espírito inigualável, que passou a ser imprescindível para manter um elevado nível de serenidade e conforto mental.

Hoje, apesar de ter mais dúvidas do que certezas, Genuíno sente-se um homem seguro, com total domínio sobre a sua vida e, acima de tudo, confortável quando tem de cortar algum mal pela raiz.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 14 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 339 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

339

Este não é um texto de saudosismo, mas tempos houve em que as cores do dia-a-dia eram mais vívidas, mais aconchegantes.

Os rios refletiam o brilho dos céus; as searas ondulavam a cor do sol; os pomares eram arco-íris de pêssegos, laranjas e maçãs, os jardins eram viveiros de rosas, margaridas, jacintos e tulipas, que cresciam entre ilhas de carvalhos, azinheiras, rododendros, glicínias e, por vezes, jacarandás.

O amarelo era alegria; o verde era esperança; o azul era tranquilidade; o conforto era castanho, a paixão era vermelha; o romantismo era rosa; a jovialidade era laranja; o respeito era preto; a paz era branca.

Hoje, sempre que vemos algo semelhante ao descrito, dizemos estar perante uma visão paradisíaca porque tudo ficou pálido, genérico, demasiado pastel e acelerado, e ficamos sem saber em que momento perdemos as cores e nos entregámos ao cinzentismo moderno.

EMANUEL LOMELINO

Estou aqui! - Cecília Dias Gomes

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“Quando tiveres vontade de chorar, não chores Podes chamar-me, eu choro por ti... Quando tu sentires vontade de sorrir, vem, avisa-me, eu venho para nós dois sorrirmos juntos... Quando tu sentires vontade de amar, vem, chama-me, que eu venho amar-te! Quando sentires que tudo está destruído, chama-me, que eu venho ajudar-te a reconstruir tudo de novo... Quando tu achares que o mundo é pequeno demais para tuas tristezas e meditações, vá não evites, chama-me, que eu faço desse momento grande para tua felicidade... Quando precisares de uma mão amiga, chama-me, pois a minha história será exemplo para a tua vida... Quando precisares de companhia, naqueles dias nublados e tristes, ou nos dias ensolarados, onde a dor é companheira, eu venho, venho sim, conta comigo! Quando estiveres a precisar ouvir alguém dizer... Eu quero, preciso tanto de tua amizade! Chama-me que eu digo-te as palavras precisas! Pois o meu amor é imenso pela tua amizade e nosso amor... Quando não precisares mais de mim, avisa-me, pois eu sei precisar o momento certo para sair, simplesmente irei embora com leveza, orando por nós!”

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quinta-feira, 13 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 338 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

338

Neste tempo que é o meu, os anos são cúmulo de água, cloreto de sódio, sangue, reticências, pontos e vírgulas.

Reúnem-se dores e lamentos que se transformam em bagagem-de-mão e escalam-nos até aos ombros, para terem uma vista privilegiada dos horizontes que nos esperam.

Os caminhos; os elementos; as ideias; os anseios; as esperanças; as derrotas; os contratempos; tudo são facas de gumes afiados preparadas para cortar a derme à primeira oportunidade; ao primeiro deslize; à primeira desatenção; ao primeiro baixar de guarda.

Noutro tempo que também foi o meu, as cicatrizes (físicas e mentais) eram medalhas de crescimento e a sensibilidade recusava ficar à flor-da-pele e nunca despertava por dá-cá-aquela-palha.

Os monossílabos não originavam depressões. As encruzilhadas não provocavam ansiedade. Os arrufos não geravam separação. Os atritos não empunhavam belicismo. Todos sabiam que a banha da cobra era escorregadia e o óleo-de-fígado-de-bacalhau sabia mal, mas nem por isso havia dúvidas existenciais nem associações de apoio a seres cheios de não-me-toques.

EMANUEL LOMELINO

A qualquer hora da noite (excerto 21) - Geórgia Alves

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Longe dos cuidados pela sobrevivência dos outros pôde pensar na própria. Guadalupe se via como indivíduo. No princípio do passeio foi assim. Olhando o mundo passar pela janela e os pneus devorando a estrada. Andar de carro, afinal, não era tão ruim. Nem nauseou. 
Depois, a pobre cozinheira sente os bichos que prepara em vasilhas, a quem dera a comer em piquetes. Na clínica da capital mais próxima, Arco Branco, aplicam a massa gelada nas partes. Já foi bem difícil de esquecer. Depois entram com bracinho mecânico. Lá dentro a coisa, sem olhos, enxerga.

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quarta-feira, 12 de junho de 2024

Diário do absurdo e aleatório 337 - Emanuel Lomelino

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Diário do absurdo e aleatório 

337

Olho pela janela aberta ao mundo. Deixo-me seduzir pelos voos intermitentes dos piscos e procuro, entre as gaivotas, alguma que se assemelhe a Fernão Capelo.

Há um desejo de ver piruetas infames e cambalhotas irreverentes, como quem só consegue sentir-se quando deambula entre os precipícios da esquizofrenia e o jazigo frio.

Reduzo o horizonte ao solo espraiado diante de mim e surpreendo-me com um gato sem botas nem florete que usa o seu crédito pessoal de vidas ao desafiar, com mortais cabriolados, dois rafeiros parcos de senso e língua salivante.

Detecto no felino essa fome de liberdade criativa e adrenalina presunçosa que é a ascensão de um espírito aventureiro e vagabundo, como um qualquer Tom Sawyer cansado dos Sid desta vida, sempre prontos a demonstrar a sua originalidade formatada, em palcos carmins sob iluminação lilás.

Regresso ao interior da casa com o intuito de transformar os meus devaneios oculares em algo ligeiramente parecido com literatura, no entanto, fica reforçada a ideia de que, por mais voltas e reviravoltas que dê, as minhas palavras nunca terão a elasticidade das fábulas e serão sempre a representação por extenso da minha inaptidão gímnica.

EMANUEL LOMELINO

Abismo da Sombra do Esquecimento (excerto) - Alvaro Giesta

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É inevitável que nestes dias, ainda tão próximos, mas que se vão afastando cada vez mais de nós que os vivemos (na pele) – os dias das Grandes Revoluções que mudaram a história que muitos teimam em afastá-los da memória pela indiferença – é inevitável, dizia, que haja quem faça questão de recordar esses dias por palavras escritas com ênfase e entusiasmo, e deixadas para a posteridade em obra impressa para os seus legentes. Uns, porque a esses dias, que mudaram a história, devem a quebra do jugo que lhes negou a liberdade durante décadas da sua existência e às revoluções ficaram eternamente gratos; outros, conquanto as desejassem também pelos mesmos e outros motivos, as encaram hoje com alguma desilusão e desesperança, porque elas não foram mais do que uma utopia que os governantes, que se lhes seguiram na condução das rédeas dos novos governos, se encarregaram, mais e mais, de transformar as ilusões de novos e melhores dias em mega-utopias.

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