domingo, 24 de maio de 2026
As sombras (excerto 11) - Maria Cabana
sábado, 23 de maio de 2026
No fundo do baú 191 - Emanuel Lomelino
Sou um leitor híbrido. Embrenho-me em romances, contos, filosofia, antropologia, história, ciências, crónicas, ensaios, prosa poética e poesia, como quem procura respostas a perguntas que ainda não fez.
Leio contemporâneos e antigos, essencialmente clássicos, com o objectivo de expandir os meus conhecimentos e, com isso, alargar horizontes e aperfeiçoar as minhas técnicas criativas.
Nessa fome por sapiência, mais do que ler, devoro livros atrás de livros, com plena consciência de que o estômago literário jamais ficará saciado.
No entanto, a conclusão mais relevante desta gula está no facto de que, das léguas de palavras lidas, tal como admitiu Adam Zagajewski, assimilei apenas “farrapos” de entendimento. O resto, sobra-me a esperança, um dia conseguirei compreender.
EMANUEL LOMELINO
Vis-à-Vis... (excerto) - JackMichel
sexta-feira, 22 de maio de 2026
No fundo do baú 190 - Emanuel Lomelino
Não há sol que ilumine os íngremes caminhos sombrios que o fado obriga a percorrer, sem desvios.
A luz dissipa-se a cada encruzilhada como se as copas das árvores fossem uma cortina fechada para o céu.
Os passos sincopados, numa lentidão desesperante, soam a desencanto e nada pode ser feito para que a viagem enalteça o espírito.
Olhar para trás também não se revela uma melhor opção porque a lonjura parece idêntica – senão maior.
Resta seguir adiante, na esperança de que, apesar do negrume, a caminhada possa ser feita com o mínimo de percalços e a vastidão subterrânea seja substituída por extensas planícies pintadas de verde e luz.
Pouco importa a escuridão dos dias quando o final do túnel ainda está à distância de uma vida inteira.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 21 de maio de 2026
No fundo do baú 189 - Emanuel Lomelino
A pele manchada, de múltiplas e árduas batalhas, exibe com sofreguidão todas as escaras acumuladas, que se sobrepõem umas às outras, como se a derme fosse um transporte público apinhado de gente em hora de ponta, quase sem espaço para respirar.
O cansaço e as nódoas negras empilham-se no corpo e, por mais forte que seja a nossa resistência, fazem esmorecer todos os ímpetos, todos os desejos, toda a força interior, como se as vontades, quais seres independentes de nós, quisessem tomar as rédeas da vida e levar-nos por caminhos diferentes, diametralmente opostos ao pretendido.
No pensamento aflora a ideia de mandar os planos às malvas, abdicar dos propósitos iniciais e aceitar, com resignação, a tristeza dos fados sem melodia, qual Sísifo conformado com a inevitabilidade da sua sorte.
Nestes dias, de moral fragmentada, encontro a salvação nas palavras dos sábios que habitam a minha cabeceira, ganho mais uns traços na bateria que me energiza e volto a acreditar que todo o esforço, sangue, suor, lágrimas e corpo inchado, levar-me-ão ao porto ambicionado.
EMANUEL LOMELINO
quarta-feira, 20 de maio de 2026
No fundo do baú 188 - Emanuel Lomelino
Já escrevi inúmeros textos sobre a legitimidade universal que a escrita outorga. Todos, sem excepção, podem, e devem, exercer essa actividade sem rodeios nem receios, independentemente das razões adjacentes, subjacentes, laterais ou de fundo.
Escrever é mais do que um direito, é um dever. Pela defesa libertária; pela identidade; pela diferença; e sobretudo pelo legado que carregamos, e que deve ser respeitado, preservado e prolongado, para que as gerações vindouras não percam o rastro às suas raízes e, também eles, sintam que devem contribuir nessa perpetuação.
Não existe história sem registo. Não existe noção do passado sem que a memória seja celebrada, e a melhor forma de o fazer é colocar tudo por escrito.
Mas a história de um povo, de uma civilização, não se limita a referências factuais e a acontecimentos quotidianos colectivos. Ela também resulta de pensamentos críticos, ensaísticos ou lúdicos, ficção, criatividade, inovação, singularidade…
Por essas razões defendo que todos devem escrever, seja sobre o que for, de que forma for, e com as motivações que lhes aprouverem. O importante é escrever. Escrever muito.
Depois… o tempo encarregar-se-á de separar o trigo do joio.
EMANUEL LOMELINO
terça-feira, 19 de maio de 2026
No fundo do baú 187 - Emanuel Lomelino
Numa tentativa vã de fazer o tempo abrandar, caminho pelas ruas mais despidas da cidade e dou por mim a inspecionar com curiosidade todo e qualquer ser que cruze a minha marcha.
Mais do que os tons capilares da moda, os trajes ultrajantes, ou as libertinagens chocantes, foco a minha atenção nas mãos – tão diferentes das minhas - e nos seus movimentos – tão efusivos quanto enganadores.
Sejam grandes ou pequenas, robustas ou delicadas, morenas ou pálidas, todas elas me parecem mãos habituadas a luvas de pelica, tão unidos estão os dedos. Ao vê-las, fico com a sensação de apenas me cruzar com cirurgiões.
Ao contrário, as minhas assemelham-se a grampos rombos e lascados, tantas são as escaras, por vezes sobrepostas, que as enfeitam e impedem que os dedos se toquem e consiga cerrar os punhos.
Acho que, se os outros também andarem pelas ruas da cidade a observar mãos, ao verem as minhas devem pensar que sou estivador ou coveiro.
EMANUEL LOMELINO
As sombras (excerto 10) - Maria Cabana
segunda-feira, 18 de maio de 2026
No fundo do baú 186 - Emanuel Lomelino
Perguntaram-me como seria o filme da minha vida. A resposta foi tão instantânea como uma curta-metragem.
Do nascimento até agora, já vivi inúmeras aventuras, algumas dramáticas, outras hilárias, estive envolvido em situações pitorescas e outras complicadas, escalei muitas montanhas ao longo das peregrinações por bastantes lugares, tive os meus fracassos, alguns sucessos, muitas hesitações, fiz boas escolhas e tomei muitas mais equivocadas, mas não consigo identificar episódios com originalidade suficiente para merecerem ficar registados em película.
Na realidade, tudo espremido, o potencial filme seria tão minúsculo que pareceria mais um anúncio publicitário do início do século XX – mudo, a preto e branco, e para ficar perdido no arquivo empoeirado de uma qualquer cinemateca anónima.
EMANUEL LOMELINO
Em Branda Alvorada... (excerto) - JackMichel
domingo, 17 de maio de 2026
Prosas de tédio e fastio 136 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
136
Traçando um segmento de recta entre as janelas do entendimento e as ambições alucinadas que brotam nas linhas do horizonte, vislumbro a génese dos meus desencantos e a razão suprema da minha reclusão consciente.
Nesta cela sem amarras nem grilhetas, sobra-me o conforto de continuar fiel aos nobres juízos de quem se abastece na vertigem do “lógos” grego.
Mas a reclusão helénica, por si só, não é suficientemente forte para impedir que alguns raios de frustração e nuvens de incredulidade aflorem no recanto mais impotente do ânimo.
Tudo isto, feitas as contas e achados os coeficientes, nada mais é do que a prova definitiva de que a transpiração do mundo não nasceu em Maratona, mas sim da cobiça desmesurada e da infame ganância, cujos odores ferem mais do que as algemas apertadas com que me visto.
EMANUEL LOMELINO
sábado, 16 de maio de 2026
No fundo do baú 185 - Emanuel Lomelino
Há muito que decidi, com plena consciência do acto, deixar de andar ao sol e mostrar-me ao mundo apenas a conta-gotas, especialmente durante tempestades diluvianas.
Sei da importância do processo de sintetização da vitamina D, mas nunca tive problema algum em assumir os estragos colágenos porque envelhecer é inevitável e nunca gostei de brilho emprestado ou genérico porque ofusca, cega e ilude.
Prefiro o cinzentismo que me define e só a mim pertence pelo simples facto de poder revelar-me, com maior liberdade e satisfação, tal qual sou, no anonimato das sombras e sem intromissões despropositadas nem, sobretudo, ilegítimas.
Pelo mesmo motivo tenho uma predilecção especial por becos e vielas, em detrimento das avenidas largas e intermináveis.
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 15 de maio de 2026
No fundo do baú 184 - Emanuel Lomelino
E se existisse apenas uma estrela no céu, uma nespereira na terra, um cavalo-marinho no mar, uma pedra num só rio e as maçãs fossem alimento das víboras?
E se em vez de asfalto existissem apenas túneis de toupeira, um cachorro mudo, um papagaio viciado em café, uma enxada e uma prostituta low-cost?
E se chovessem rosas azuis, os prados fossem lilases, o sal soubesse a alfazema, o estrume cheirasse a Dior e o vermelho fosse caminho de cabras?
E se os pés tivessem guelras, as unhas nascessem nas pálpebras, se fumasse pelos cotovelos e os braços derretessem a cada aceno?
Se a natureza fosse absurdamente distinta daquilo que é, tal qual conhecemos, apenas restaria um par de coisas inalteradas: a beleza do pôr-do-sol e a tendência humana para a autodestruição.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 14 de maio de 2026
No fundo do baú 183 - Emanuel Lomelino
Quando era criança, e estava constantemente a ralar os joelhos ou a esfolar outras partes do corpo, ouvia os mais velhos dizerem que as dores, que então pouco sentia, viriam com a idade. Sempre achei muito estranho esse vaticínio e até o esqueci durante grande parte da vida.
Eis senão quando, chegado ao equador da existência secular, o corpo, qual despertador orgânico, começou a tocar e não há forma de o silenciar.
Dói caminhar, dói sentar, dói mexer, dói ficar estático, dói mover, dói tocar, dói ouvir, dói ver, dói falar, enfim, dói tudo, por tudo e mais alguma coisa, inclusive pensar.
Esta dor, que são várias dores em sequência, faz-me acreditar que, mais do que avisos, aquilo que os mais velhos faziam, quando eu era criança, era dar voz às suas próprias dores, demonstrando empatia pelas dores que hoje sinto e eles bem conheciam.
A diferença entre os dois tempos está no facto de, agora, não existirem crianças a brincar na rua e a ralar joelhos ou a esfolar outras partes do corpo. E, sobre essa dor, que desconheço, eu não sei como demonstrar empatia.
EMANUEL LOMELINO
As sombras (excerto 9) - Maria Cabana
quarta-feira, 13 de maio de 2026
No fundo do baú 182 - Emanuel Lomelino
Quando existe vontade tudo é possível.
Faço contas de cabeça, procuro soluções, testo ideias, exercito modelos e fórmulas até conseguir colocar em prática conceitos elaborados por mim.
Insisto, com resiliência, tentando provar que há sempre uma possibilidade e nada é inviável quando não nos desviamos de um propósito, de um objectivo, por mais difícil que ele possa parecer à partida.
Tal como este texto que, apesar de estar longe do seu epílogo e talvez necessitar de uma eternidade para ser terminado - porque tudo leva tempo -, tem sido escrito com esmero, e atenção redobrada, para que possa chegar ao seu final de forma satisfatória. Ou pelo menos convicto de que sou capaz de ser bem-sucedido.
Tive de reformular duas frases, lá atrás, pois duas letras tentaram escapar ao meu crivo e isso prejudicaria este exercício de escrita.
Afinal, não precisei de muito tempo. Bastou meia hora para provar que é possível escrever um pequeno texto sem recorrer à utilização de artigos definidos. Quem sabe, um dia, tentarei fazer algo semelhante com artigos indefinidos ou preposições.
EMANUEL LOMELINO
Atrás Da Via-Sacra... (excerto) - JackMichel
terça-feira, 12 de maio de 2026
No fundo do baú 181 - Emanuel Lomelino
Oiço toda a gente a queixar-se da vida, a contestar o aumento disto e aquilo, a alardear falta de tempo e de oportunidades, a apontar o dedo às elites e aos estranhos, mas nunca admitir a culpa por ter ficado estagnada e pouco fazer, além de se opor ao mundo em causas banais, para mudar o rumo da própria vida.
Escuto os discursos patéticos, antitudo e mais alguma coisa, de pessoas que “educam” os filhos à base de consumismo, colocando-os entretidos em frente de telas, entregues à sua sorte e vontade, enquanto, os progenitores, gastam a sua falta de tempo e oportunidades a acompanhar “reality shows” e a ambicionar a vida glamorosa dos “nascidos com o cu para a lua”.
Sinceramente, já não acredito que o rumo seja revertido. Neste espaço-tempo em que estou, erradamente, inserido, vejo uma sociedade em cacos, com os valores morais invertidos e a contribuir para que as novas gerações nada mais tenham do que cabeças ocas e dependência em fármacos psicadélicos.
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 11 de maio de 2026
No fundo do baú 180 - Emanuel Lomelino
Oiço o som metálico do trompete, que sai das colunas, e na mente ecoa-me um cenário distante, no tempo e no espaço, como uma lembrança acabada de nascer no improviso de Coltrane. Mas não é jazz, nem memória. É uma imagem vívida de outra era, outra realidade, talvez desejo, quem sabe sonho irrealizado.
Confuso, quedo-me, de olhos fechados, a escutar a sinuosa melodia que flutua indiferente ao impacto que me aplica, e vejo, tão nitidamente como o agora, um episódio de vida que, tenho a certeza, nunca foi meu. Existem dejá vus de momentos jamais vividos?
Abro os olhos pela urgência ofegante de voltar a mim e à realidade que me rodeia. O som dissipou-se, não sem deixar-me o corpo perturbado e trémulo.
As pernas bambas, prestes a colapsar, pedem-me que encontre um lugar para me sentar até que as palpitações regressem à normalidade. Receoso, caminho devagar até ao único banco vazio que vislumbro. Sento-me após uma caminhada eterna e tento colocar as ideias em ordem.
O coração desacelera e a lucidez é-me devolvida. Respiro fundo e, com a maior tranquilidade que o raciocínio me concede, concluo que estive, mais uma vez, à beira de uma síncope.
EMANUEL LOMELINO
domingo, 10 de maio de 2026
No fundo do baú 179 - Emanuel Lomelino
Com o acúmulo de dias pardacentos, que não me transportam a lugar algum, vou-me vestindo de silêncios e indiferença.
Olho em redor e apenas vislumbro números circenses banhados de vulgaridade e executados por carrancas enfadonhas, como se a originalidade moderna fosse uma repetição contínua de carnavais passados, contudo, a preto e branco.
Esta matização básica, insonsa de significado ou propósito, inflige-me dotes de frivolidade e frieza, como se todo o meu ser físico fosse constituído por blocos de gelo oxigenado pelas insignificantes aragens polares.
Mas desenganem-se aqueles que veem nesta insensibilidade austera um temperamento acomodado e cego. A mudez, além de boa conselheira, permite observar a transparência de todas as matizes e intenções.
Silêncio não é sinónimo de apatia, inércia, passividade ou alheamento.
EMANUEL LOMELINO