sexta-feira, 29 de maio de 2026

As sombras (excerto 12) - Maria Cabana

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Os outros meninos ficaram a tirar fotografias e foram festejar com a família. Sentiste-te pobre, pobre e sem ninguém, e triste porque podias ter feito mais por ti. Porque não, porque não fizeste? Porquê? Não chores, ainda tens o sol, vive com ele agora, logo ele se põe. E volta a noite traiçoeira cheia de sombras, quem dera que as sombras morressem.

EM - AS SOMBRAS - MARIA CABANA - IN-FINITA

quinta-feira, 28 de maio de 2026

No fundo do baú 196 - Emanuel Lomelino

Por vezes o fogo da vontade perde vigor e transforma-se numa ténue faúlha, que só não se extingue porque nos momentos de alento invertido, sobram ligeiras ondas de resiliência que, embora em banho-maria, impedem que o sentir seja obliterado por uma brisa de fraqueza.

Tal como os arco-íris, os ápices débeis da mente são miragens que tentam grudar-se ao céu do raciocínio, na esperança de ganhar protagonismo, como fossem autores de lavras plagiadas, a desfilar nas sombras de falsas passadeiras vermelhas, sem holofotes nem comendas.

Esses instantes frágeis, quando bem identificados, são manuais empíricos, do lado negro do ser, que ajudam na compreensão dos extremos da personalidade.

Cabe a cada um dar uma utilidade holística, ou parcial, ao aprendido – quando munidos de capacidade reflexiva e isenção de preguiça.

EMANUEL LOMELINO

Na Floresta... (excerto) - JackMichel

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Sem prescindir do óbice que o limite anoético causa ao despertar as sensações, eu e o meu bem querido chegamos exauridos após fazer viagem pelo país do Amor...
E, para descansar, sentamo-nos num sofá confortável de nossa sala de estar, onde ele deitou a cabeça em meu colo e eu pus-me a afagar a lisura esfeita em fios de seus longos cabelos negros.

EM - APOLLO MAN - JACKMICHEL - IN-FINITA

quarta-feira, 27 de maio de 2026

No fundo do baú 195 - Emanuel Lomelino

Há um abismo, criado propositadamente, que dificulta o acesso ao mais íntimo de mim, porque só a mim pertenço, só a mim me justifico, só a mim me cumpro.

Por muito que deduzam pedantismo, tomara cada um ver-se o centro do universo, qual astro com órbita personalizada, e poder acionar ou desligar, dependendo do sentir, a força gravitacional que permite a aproximação de outros corpos celestes.

Muitos usam expediente semelhante, no entanto, sempre subjugados ao engrandecimento material que os “atraídos” proporcionam.

O meu egocentrismo, consciente, é espiritual, intimista, irreversível, meu. A mais ninguém pertence, a mais ninguém é útil, a mais ninguém enriquece.

E, pasmem-se os desavisados, esta convicção prática jamais foi impeditiva dos meus contínuos altruísmos, dos quais tampouco alardeio ao mundo. Quem vê, sabe. Quem desconhece, ignora. E convivo bem com ambos os espectros, porque só a mim cativo.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 26 de maio de 2026

No fundo do baú 194 - Emanuel Lomelino

Sinto que estou a derramar-me até ao extremo do vazio; até ao limite da sensibilidade; até à falésia da consciência, qual abundante cascata de coisa alguma.

Nestes dias em que liquidifico a minha existência deixo de ser corpóreo, liberto-me das emoções, abraço a vacuidade profunda e agrilheto os pensamentos no mais esconso subterrâneo.

Embrulho-me na agudeza protetora e segura do silêncio absoluto e deixo o meu espírito vazado deambular pela neutralidade do espaço.

Somente o nada consegue ser, em mim, o equilíbrio, a prudência, a sensatez, a razão, o tão desejado porto de abrigo.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 25 de maio de 2026

No fundo do baú 193 - Emanuel Lomelino

Há uma heterodoxia evidente no silvo melífluo da brisa que beija as folhas de uma árvore. É um ciciar da natureza; um aviso intimista, mas tão expressivo quanto os brados das ondas que esculpem os maciços rochosos. Contudo, mantemo-nos indiferentes.

Existe um discurso, nas vozes das tempestades, que passa despercebido a olho nu. É um código do ambiente; um sinal de alerta, tão dual como o ressonar de um vulcão adormecido na antecâmara do seu estrondoso despertar. Contudo, mantemo-nos apáticos.

Há uma oscilação atmosférica em todas as épocas como um entrelaçar festivo de quadras temporais. É um sussurro climático; uma advertência tão cadenciada quanto o degelo dos mais primitivos glaciares. Contudo, mantemo-nos passivos.

Existe um tempo que se esgota como uma ampulheta quebrada. É a noção de perenidade a extinguir-se como o Cretáceo. Contudo, mantemo-nos impávidos porque essas coisas só acontecem aos outros. Quais outros?

EMANUEL LOMELINO

domingo, 24 de maio de 2026

No fundo do baú 192 - Emanuel Lomelino

A turbulência dos dias não quer saber se o arco-íris é filho do sol e da chuva ou reflexo da cúpula que dá razão aos esfomeados terraplanistas.

De leste chegam uivos ogivados rugidos por gargantas mais inocentes do que gárgulas esquimós, enquanto, daquela janela aberta para o Tejo, ecoa uma voz de barítono com hálito de açorda e chamuça.

Nos carris do elétrico, encerados pela morrinha recente, deslizam saltos altos, “raios partam” e outros impropérios indiferentes às moedas, largadas à laia de piedade, no boné do humorado maltrapilho, que tem banca permanente no adro da igreja e um cartaz a informar: multibanco avariado.

Na porta da tasca sorvem-se ginjinhas espirituosas e lançam-se olhares – cada um com o seu significado – para os “camones” na esplanada e aos que passam, de mochilas às costas e ansiosos por fotografar os azulejos quebrados das fachadas devolutas.

O céu anuncia o anoitecer precoce de mais um domingo e não há tempo a perder com notícias de Gaza ou Kiev porque é dia de clássico na tv e expulsão num reality show.

EMANUEL LOMELINO

As sombras (excerto 11) - Maria Cabana

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Quando chegaste à igreja, a cerimônia já ia a meio, ficaste muito envergonhada. Toda a gente te perguntava, “Só agora? Já estás muito atrasada, vai lá para o altar para junto dos teus amigos.” E tu não te mexias, estavas paralisada pela vergonha por teres chegado atrasada. A tua catequista também não se preocupou em te procurar, ninguém se preocupou em ajudar-te, só se limitavam a falar, “Vai menina, vai”. 

EM - AS SOMBRAS - MARIA CABANA - IN-FINITA

sábado, 23 de maio de 2026

No fundo do baú 191 - Emanuel Lomelino

Sou um leitor híbrido. Embrenho-me em romances, contos, filosofia, antropologia, história, ciências, crónicas, ensaios, prosa poética e poesia, como quem procura respostas a perguntas que ainda não fez.

Leio contemporâneos e antigos, essencialmente clássicos, com o objectivo de expandir os meus conhecimentos e, com isso, alargar horizontes e aperfeiçoar as minhas técnicas criativas.

Nessa fome por sapiência, mais do que ler, devoro livros atrás de livros, com plena consciência de que o estômago literário jamais ficará saciado.

No entanto, a conclusão mais relevante desta gula está no facto de que, das léguas de palavras lidas, tal como admitiu Adam Zagajewski, assimilei apenas “farrapos” de entendimento. O resto, sobra-me a esperança, um dia conseguirei compreender.

EMANUEL LOMELINO

Vis-à-Vis... (excerto) - JackMichel

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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No instante furtado à Inconstância em que sorvi um gole de saboroso gim, descerrou-se ante mim o vulto do Capitólio, permitindo-me ver soberbamente o seu imo enorme e majestoso...
De onde surgiu um anagnosta anunciando: “Ao término da breve corrida das Horas no carro de Cronos, estará aqui o românico que possui a cútis sutil como os exíguos grânulos do mármore duas vezes cozido!”.

EM - APOLLO MAN - JACKMICHEL - IN-FINITA

sexta-feira, 22 de maio de 2026

No fundo do baú 190 - Emanuel Lomelino

Não há sol que ilumine os íngremes caminhos sombrios que o fado obriga a percorrer, sem desvios.

A luz dissipa-se a cada encruzilhada como se as copas das árvores fossem uma cortina fechada para o céu.

Os passos sincopados, numa lentidão desesperante, soam a desencanto e nada pode ser feito para que a viagem enalteça o espírito.

Olhar para trás também não se revela uma melhor opção porque a lonjura parece idêntica – senão maior.

Resta seguir adiante, na esperança de que, apesar do negrume, a caminhada possa ser feita com o mínimo de percalços e a vastidão subterrânea seja substituída por extensas planícies pintadas de verde e luz.

Pouco importa a escuridão dos dias quando o final do túnel ainda está à distância de uma vida inteira.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 21 de maio de 2026

No fundo do baú 189 - Emanuel Lomelino

A pele manchada, de múltiplas e árduas batalhas, exibe com sofreguidão todas as escaras acumuladas, que se sobrepõem umas às outras, como se a derme fosse um transporte público apinhado de gente em hora de ponta, quase sem espaço para respirar.

O cansaço e as nódoas negras empilham-se no corpo e, por mais forte que seja a nossa resistência, fazem esmorecer todos os ímpetos, todos os desejos, toda a força interior, como se as vontades, quais seres independentes de nós, quisessem tomar as rédeas da vida e levar-nos por caminhos diferentes, diametralmente opostos ao pretendido.

No pensamento aflora a ideia de mandar os planos às malvas, abdicar dos propósitos iniciais e aceitar, com resignação, a tristeza dos fados sem melodia, qual Sísifo conformado com a inevitabilidade da sua sorte.

Nestes dias, de moral fragmentada, encontro a salvação nas palavras dos sábios que habitam a minha cabeceira, ganho mais uns traços na bateria que me energiza e volto a acreditar que todo o esforço, sangue, suor, lágrimas e corpo inchado, levar-me-ão ao porto ambicionado.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 20 de maio de 2026

No fundo do baú 188 - Emanuel Lomelino

Já escrevi inúmeros textos sobre a legitimidade universal que a escrita outorga. Todos, sem excepção, podem, e devem, exercer essa actividade sem rodeios nem receios, independentemente das razões adjacentes, subjacentes, laterais ou de fundo.

Escrever é mais do que um direito, é um dever. Pela defesa libertária; pela identidade; pela diferença; e sobretudo pelo legado que carregamos, e que deve ser respeitado, preservado e prolongado, para que as gerações vindouras não percam o rastro às suas raízes e, também eles, sintam que devem contribuir nessa perpetuação.

Não existe história sem registo. Não existe noção do passado sem que a memória seja celebrada, e a melhor forma de o fazer é colocar tudo por escrito.

Mas a história de um povo, de uma civilização, não se limita a referências factuais e a acontecimentos quotidianos colectivos. Ela também resulta de pensamentos críticos, ensaísticos ou lúdicos, ficção, criatividade, inovação, singularidade…

Por essas razões defendo que todos devem escrever, seja sobre o que for, de que forma for, e com as motivações que lhes aprouverem. O importante é escrever. Escrever muito.

Depois… o tempo encarregar-se-á de separar o trigo do joio.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 19 de maio de 2026

No fundo do baú 187 - Emanuel Lomelino

Numa tentativa vã de fazer o tempo abrandar, caminho pelas ruas mais despidas da cidade e dou por mim a inspecionar com curiosidade todo e qualquer ser que cruze a minha marcha.

Mais do que os tons capilares da moda, os trajes ultrajantes, ou as libertinagens chocantes, foco a minha atenção nas mãos – tão diferentes das minhas - e nos seus movimentos – tão efusivos quanto enganadores.

Sejam grandes ou pequenas, robustas ou delicadas, morenas ou pálidas, todas elas me parecem mãos habituadas a luvas de pelica, tão unidos estão os dedos. Ao vê-las, fico com a sensação de apenas me cruzar com cirurgiões.

Ao contrário, as minhas assemelham-se a grampos rombos e lascados, tantas são as escaras, por vezes sobrepostas, que as enfeitam e impedem que os dedos se toquem e consiga cerrar os punhos.

Acho que, se os outros também andarem pelas ruas da cidade a observar mãos, ao verem as minhas devem pensar que sou estivador ou coveiro. 

EMANUEL LOMELINO

As sombras (excerto 10) - Maria Cabana

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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E, e eis que chega o dia da primeira comunhão, alguém te emprestou um vestido que era da filha. Bonito, ficaste bonita. Mas há um pormenor importantíssimo, a tua mãe não vai puder ir contigo, os teus irmãos são pequenos demais para te acompanharem, tens de ir sozinha, sim sozinha, como? Pensavas tu. Pois, mas estava lá a catequista e os teus amigos. Foste, arriscaste, mas tarde e a más horas.

EM - AS SOMBRAS - MARIA CABANA - IN-FINITA

segunda-feira, 18 de maio de 2026

No fundo do baú 186 - Emanuel Lomelino

Perguntaram-me como seria o filme da minha vida. A resposta foi tão instantânea como uma curta-metragem.

Do nascimento até agora, já vivi inúmeras aventuras, algumas dramáticas, outras hilárias, estive envolvido em situações pitorescas e outras complicadas, escalei muitas montanhas ao longo das peregrinações por bastantes lugares, tive os meus fracassos, alguns sucessos, muitas hesitações, fiz boas escolhas e tomei muitas mais equivocadas, mas não consigo identificar episódios com originalidade suficiente para merecerem ficar registados em película.

Na realidade, tudo espremido, o potencial filme seria tão minúsculo que pareceria mais um anúncio publicitário do início do século XX – mudo, a preto e branco, e para ficar perdido no arquivo empoeirado de uma qualquer cinemateca anónima.

EMANUEL LOMELINO

Em Branda Alvorada... (excerto) - JackMichel

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Amanhecendo em minha alma, onde não dia há séculos, estou feliz!
E, para comemorar este tão maravilhoso fato digno de açular os mais perilustres encômios reais que Kronborg grangeou com sua beleza renascentista ou que o Château de Beauregard aprestou-se a dar ao Val de la Loire, com sua galeria de 363 retratos históricos...
Eu simplesmente corri a um vale undoso, verdoengo nos glabros extremos de sua extensão infinda de Parnaso.

EM - APOLLO MAN - JACKMICHEL - IN-FINITA

domingo, 17 de maio de 2026

Prosas de tédio e fastio 136 - Emanuel Lomelino

Prosas de tédio e fastio 

136

Traçando um segmento de recta entre as janelas do entendimento e as ambições alucinadas que brotam nas linhas do horizonte, vislumbro a génese dos meus desencantos e a razão suprema da minha reclusão consciente.

Nesta cela sem amarras nem grilhetas, sobra-me o conforto de continuar fiel aos nobres juízos de quem se abastece na vertigem do “lógos” grego.

Mas a reclusão helénica, por si só, não é suficientemente forte para impedir que alguns raios de frustração e nuvens de incredulidade aflorem no recanto mais impotente do ânimo.

Tudo isto, feitas as contas e achados os coeficientes, nada mais é do que a prova definitiva de que a transpiração do mundo não nasceu em Maratona, mas sim da cobiça desmesurada e da infame ganância, cujos odores ferem mais do que as algemas apertadas com que me visto.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 16 de maio de 2026

No fundo do baú 185 - Emanuel Lomelino

Há muito que decidi, com plena consciência do acto, deixar de andar ao sol e mostrar-me ao mundo apenas a conta-gotas, especialmente durante tempestades diluvianas.

Sei da importância do processo de sintetização da vitamina D, mas nunca tive problema algum em assumir os estragos colágenos porque envelhecer é inevitável e nunca gostei de brilho emprestado ou genérico porque ofusca, cega e ilude.

Prefiro o cinzentismo que me define e só a mim pertence pelo simples facto de poder revelar-me, com maior liberdade e satisfação, tal qual sou, no anonimato das sombras e sem intromissões despropositadas nem, sobretudo, ilegítimas.

Pelo mesmo motivo tenho uma predilecção especial por becos e vielas, em detrimento das avenidas largas e intermináveis.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 15 de maio de 2026

No fundo do baú 184 - Emanuel Lomelino

E se existisse apenas uma estrela no céu, uma nespereira na terra, um cavalo-marinho no mar, uma pedra num só rio e as maçãs fossem alimento das víboras?

E se em vez de asfalto existissem apenas túneis de toupeira, um cachorro mudo, um papagaio viciado em café, uma enxada e uma prostituta low-cost?

E se chovessem rosas azuis, os prados fossem lilases, o sal soubesse a alfazema, o estrume cheirasse a Dior e o vermelho fosse caminho de cabras?

E se os pés tivessem guelras, as unhas nascessem nas pálpebras, se fumasse pelos cotovelos e os braços derretessem a cada aceno?

Se a natureza fosse absurdamente distinta daquilo que é, tal qual conhecemos, apenas restaria um par de coisas inalteradas: a beleza do pôr-do-sol e a tendência humana para a autodestruição.

EMANUEL LOMELINO