quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Grito (excerto 1) - Adriana Mayrinck
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 94 - Emanuel Lomelino
Não sei se alguém já escreveu uma tese de doutoramento, sobre genética, abordando a possibilidade do ADN humano conter um gene oleiro. Acredito que, estudando o assunto de forma aprofundada, há grandes probabilidades de ser um ótimo tema para dissertação, uma vez que podemos encontrar inúmeras provas que nos levam a considerar como possível a existência desse gene.
Nos primeiros anos de vida, todos nós, sem excepção, somos moldados pelos país e professores. Este processo, chamado educação, é socialmente aceite, por se tratar de simples transmissão de conhecimento.
No entanto, depois de ultrapassada essa fase de aculturamento natural, em muitos momentos da nossa vida, encontramos muita gente com a pretensão de nos moldar segundo os seus critérios, procurando adequar a nossa forma de agir e pensar, não ao que mais nos convém, mas sim ao que melhor serve os seus interesses.
Outros há que nos querem “embelezar” dentro dos seus próprios padrões estéticos, sempre em mutação, como se estivéssemos numa linha de montagem para produção em série e permanente reciclagem.
O maior problema desta realidade é que o hábito de produzir clones, culturais ou plásticos, já está tão enraizada nas sociedades modernas que, pasmem-se os incrédulos, até os próprios clonados são responsáveis pelas novas clonagens.
E são tantas as pessoas com essa tendência ceramista que não é difícil acreditar na existência de um gene específico. Falta só aparecer a tal tese de doutoramento.
EMANUEL LOMELINO
O paraíso são as memórias (excerto 13) - Tita Tavares
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 93 - Emanuel Lomelino
Dei-me a liberdade de ignorar o tempo, e o clima, e iniciei a caminhada sem destino premeditado.
Deixei-me guiar pelo instinto e permiti-me mergulhar nos pensamentos de forma deliberada.
Pesei, na balança da consciência, os prós e contras de todas as possíveis decisões para a resolução das minhas dúvidas mais prementes.
Cirandei, pelas ruas da cidade que me enche as medidas, mesmo não sendo minha, quase em piloto automático. Apenas andando de mãos dadas com as reflexões.
Nesta deambulação, dei por mim a entrar na livraria por impulso, como se aquela porta fosse apenas mais uma esquina contornada, parei diante de um livro de capa preta, peguei-o, girei-o noventa graus, juro que sorri, levei-o à caixa, paguei, sai.
Fiz a caminhada de regresso, já sem pensar na vida. Apenas me indaguei sobre a razão de ter entrado naquela livraria, pela primeira vez em trinta anos, pegado no primeiro livro que cruzou o meu olhar e sentir que a caminhada, supostamente feita ao acaso, afinal, estava previamente destinada – por vontade de Nietzsche.
EMANUEL LOMELINO
Do Brasil à Suíça (excerto 13) - Samaritana Pasquier
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 92 - Emanuel Lomelino
Abram as portas do fórum e permitam que todas as testemunhas dissertem como lhes aprouver. Escutem as versões de cada uma delas, como quem escuta um hino – em reflexão silenciosa e contemplativa.
Anotem todas as denúncias, cismas, queixas, dúvidas, melindres, temores, desconfianças, suspeitas e imputações. Deixem-nas fazer todas as acusações. Anotem tudo. Deliberem na independência do vosso juízo e sentenciem - se tiverem de o fazer.
Eu, na qualidade de réu assumido, limitar-me-ei a escutar todos os relatos, como quem se delicia ao ouvir os contos mais fantasiosos, plenos de drama e repletos de “achismos”.
Seja qual for o desenlace, seja qual for o entendimento deste tribunal, nascido da vontade protagonista e alavancada em propósitos coscuvilheiros, receberei os autos de pronunciamento como quem anseia ler o argumento adaptado, para cinema, de uma ficção sensaborona.
Por mais que tentem, nunca conseguirão biografar o meu trajecto, a minha caminhada, os meus conceitos, as minhas decisões, sendo fiéis aos acontecimentos, sem que eu decida favorecê-los com a única verdade que me define – a minha.
Até lá, e para não caírem no ridículo, sugiro que no final da vossa colectânea de adivinhação coloquem a frase: “toda e qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”.
EMANUEL LOMELINO
domingo, 1 de fevereiro de 2026
No fundo do baú 91 - Emanuel Lomelino
Quando visto o uniforme para garimpar o que sou, olho-me ao espelho e louvo os traços que o tempo vincou no meu rosto, com a maestria que só ele possui.
Vejo minuciosamente, de lupa em riste, e não detecto ruga mal colocada, ou nascida sem razão. Todas se explicam, e aplicam, na minha essência, como um traje feito à medida, por encomenda.
Na aspereza natural da derme curtida, destacam-se algumas cicatrizes merecidas, outras tantas por negligência, mais algumas que, embora saradas, ainda tem memória dolorida.
Então, tento lembrar-me das minhas feições imberbes, como quem se entrega à tarefa de descobrir as diferenças, porque todas as fotos deixaram de estar em exposição quando foram colocadas nos álbuns do esquecimento. Nenhuma escapou à crueldade do engavetamento, não fosse alguma lembrar-se de ganhar vida e azucrinar, com feitio igual ao meu, o dia-a-dia de alguém.
E assim, quase sem traços visíveis da aparência anterior, mas honrado pelo desenho do tempo, caminho de cabeça erguida mostrando ao mundo a prata que a vida me vem outorgando.
EMANUEL LOMELINO
sábado, 31 de janeiro de 2026
No fundo do baú 90 - Emanuel Lomelino
Todos criticam a existência do “Grande Irmão”, mas, em simultâneo, querem ter acesso livre à vida dos demais. (hipocrisia).
Não tenho problema algum em andar por ruas e edifícios inundados com câmaras de vigilância. A minha revolta (hipérbole) é com aqueles que se julgam no direito de saber todos os meus passos.
Sinto. Vejo. Compreendo. Mas jamais me comovo com a demonstração de interesse (eufemismo). “A César o que é de César”, inclusive a privacidade.
Há silêncio nos olhares que perscrutam o rosto, como quem procura decifrar-me no mais íntimo de mim (intromissão). As miradas mudas não perturbam a minha paz, porque conheço os intentos dessas buscas e sei vestir-me de invisibilidade.
E em tudo isto existe uma ironia (que não é figura de estilo) porque aprendo mais sendo observado do que os observadores aprendem sobre mim.
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
No fundo do baú 89 - Emanuel Lomelino
Volta e meia deparo-me com momentos de feroz lassidão – como agora – em que sou inundado por uma chuva de memórias entrelaçadas, de tempos cruzados sem cronologia, de sangramentos, de glória, de lágrimas, de risos, de luto, de paz, de erupção, de anseios…
São períodos breves, mas intensos, que desgastam o ânimo até à fronteira da vulnerabilidade. Um cansaço indescritível apodera-se do espírito e do corpóreo, com a mesma violência irrespirável.
São instantes esparsos, contudo, paridos pelo eterno dilema entre o uso da resiliência e a vontade de prescindir. A mente transforma-se num fórum e os argumentos jorram, com fúria combativa, criando um caos híbrido que deambula entre o desejo e a razão.
Nessas alturas – como agora – procuro refúgio na sabedoria clássica e entrego-me aos pensamentos de Schopenhauer, Púchkin, Nietzsche, Sá-Carneiro, Pessoa… para descobrir, na pele e com assombro, que a vida é como uma viagem de comboio e cada encontro é um apeadeiro.
EMANUEL LOMELINO
Inverno - Adriana Mayrinck
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
Epístolas sem retorno 51 - Emanuel Lomelino
Caro Anton,
Aproveito este nosso dia para expressar a dimensão da estima e respeito que nutro por esse estro, tão profusamente exercido, qual rio de caudal infinito e intemporal. Não há conto, novela, nem peça de teatro que me tenha deixado indiferente.
Admito que, mesmo parecendo estar a revelar algum despeito pela abundância das tuas letras (antes fosse), não raras vezes sou acometido por laivos de cobiça, provocados pelo desgosto que me abraça por não conseguir produzir tamanha excelência.
Apesar de acreditar que a qualidade criativa tem ligação direta, que não fundamental, com aquilo que se lê – e como leio obras valorosas! – não deixa de ser verdade que, por si só, isso não é suficiente e a ausência de estímulos desta época tem mais impacto pela desmotivação que provoca.
Esta falta de entusiasmo resulta do desinteresse quase unanime dos letrados actuais e, também por isso, mais convencido fico de estar a viver num tempo que me foi outorgado por engano, abatendo-se sobre mim uma lassidão extrema, que entope as veias, seca a vontade e injeta doses insanas de preguiça criativa.
Creio que, acaso hoje o entendimento sobre as artes fosse distinto, sentir-me-ia menos desenquadrado e talvez conseguisse observar nas letras modernas algo semelhante ao que enxergo quando leio a tua obra.
Introspectivo
Emanuel Lomelino
O paraíso são as memórias (excerto 12) - Tita Tavares
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
No fundo do baú 88 - Emanuel Lomelino
Estou grato aos céus por ser filho de uma divindade menor – assim nomeada porque Zeus estava afogado em hidromel cítrico, logo, com as capacidades cognitivas alcoolicamente desvirtuadas – e por isso ter nascido sem a presunção de ser mais do que aquilo que realmente sou.
Não me autonomeio coisa alguma e sempre resistirei aos cognomes que muitos ostentam como medalhas imerecidas – para não dizer heréticas.
Percorro os caminhos que me traço sem pretensão de pisar tapetes urdidos para desfile de vaidades sensaboronas e sem motivo de existência. Recuso dar passos nas calçadas da visibilidade ganha pelo metal, nem quero trajar-me com fardas de cetim fabricado nos cárceres da aceitação.
Sou filho de um deus menor e tudo o que faço, digo, penso e escrevo é fruto dessa minha reduzida dimensão e iluminado pelas ténues luzes de um estro diminuto, quase invisível, por incompatibilidade entre a natureza que me formou e a fama que não me merece.
EMANUEL LOMELINO
Do Brasil à Suíça (excerto 12) - Samaritana Pasquier
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
No fundo do baú 87 - Emanuel Lomelino
Não sei dizer se o obscurantismo das letras actuais é passageiro, como um fenómeno ondulante que se desintegrará nas areias do tempo, ou se, pelo contrário, é uma prática lúcida com desejo de tornar-se uma rotina permanente.
Para onde se olha, e até onde a vista alcança, pouco se vislumbra para além de penumbra. As palavras vestem-se de breu como se alguém, de forma consciente e deliberada, quisesse ofuscar o brilho das narrativas, fazendo imperar as definições mais negras de um qualquer dicionário apocalíptico.
Queiram os deuses que seja apenas uma tendência esporádica de protagonismo, sem ambições ditatoriais nem cobiça déspota.
Seja como for, este culto incessante de idolatria ao expressionismo sombrio faz-me indagar: Existem assim tantos adoradores de Nix?
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
No fundo do baú 86 - Emanuel Lomelino
Converti as mãos em peneiras e deixei tombar, pelos caminhos trilhados, todos os grãos de ânimo que, misturados com o cimento da vontade, serviriam para fortificar os meus passos calculados e de rumo certo.
Os objectivos lúcidos amoleceram com o impacto das tempestades sem senso e, aos poucos, de forma camuflada e impiedosa, evaporaram-se sem deixar rasto.
A caminhada não terminou, mas os propósitos abraçaram a caducidade não deixando terra suficientemente fértil para que outras raízes germinem nem para que a determinação ganhe fôlego renovado.
A velha máxima “nada se perde, tudo se transforma” nunca foi tão pungente e, apesar da miopia destes meus olhos falhos, dei por mim a enxergar tudo com uma clareza tão pura quanto reveladora. Há quem lhe chame epifania. Eu prefiro dizer que despertei.
EMANUEL LOMELINO
domingo, 25 de janeiro de 2026
No fundo do baú 85 - Emanuel Lomelino
Entrar numa livraria é transpor um portal, que nos leva, qual máquina do tempo, a viajar por mundos que, de outro modo, nos estariam vedados. Transformamo-nos em turistas literários de visita a outras civilizações, geografias, experiências e saberes.
Ingressar numa biblioteca pode ser uma odisseia pungente que nos obriga a oscilar entre as emoções mais díspares, como estivéssemos na montanha-russa mais sinuosa, rápida e íngreme. Saltamos da apreensão para o humor, do medo para a alegria, da serenidade para o caos.
Cada estante é uma paleta de conhecimentos à distância de um simples gesto. Um contentor de sabedoria ao alcance da vontade de aprender. Podemos abraçar povos, culturas, metamorfoses, histórias e experiências.
Cada livro é um postigo que, depois de aberto, revela realidades passadas, explica o presente e nos faz acreditar em múltiplos futuros paralelos. Atravessamos mares, desertos e labirintos; sentimos gostos, odores e deslumbramento, confrontamos ideias, conceitos e filosofias, testamos razão, lucidez e improviso.
Enfim,
entrar numa livraria, ou biblioteca, analisar estantes e prateleiras, pegar um
livro e folheá-lo é abrir as portas ao máximo das possibilidades.
EMANUEL LOMELINO
Partida - Adriana Mayrinck
sábado, 24 de janeiro de 2026
Epístolas sem retorno 50 - Emanuel Lomelino
Caro Arthur,
É extraordinariamente actual essa ideia de que o sofrimento é a essência da vida e a felicidade é apenas um intervalo entre padecimentos. Por mais difícil que seja aceitar a crueza, quiçá violência, desta proposição, a realidade assume-se indesmentível. Todos nós, sem exceção, levados por imposições sociais, políticas e, até, de fé, somos impelidos a aceitar, como necessidade absoluta, o mercantilismo da existência. Sim, as diferentes fases da vida são estágios do sofrimento que nos acompanha desde o nascimento. Sim, apenas as fontes de dor, aflição, desespero, mágoa, calvário e martírio diferem com o passar dos anos, mas o sofrimento permanece. Sim, as alegrias são entidades avulsas e esporádicas e os momentos de verdadeira felicidade são efémeros e rapidamente se transformam em simples memórias irrepetíveis.
Em nome da felicidade, há no humano um desejo de aceitação que ultrapassa as fronteiras da racionalidade e o impele a louvar doutrinas e conceitos tão fugazes quanto nocivos. Essa necessidade de pertença, nascida de um inconsciente formatado pelo entorno, revela-se como uma vontade imperativa que mascara a realidade dos factos: o actual conceito de comunidade celebra e glorifica o individualismo egoísta porque não existe empatia, solidariedade genuína, tampouco comunhão. A felicidade nada mais é do que uma cobiça cega que, quando alcançada, revela-se infimamente fugaz, enquanto todos os desejos, vontades, ambições, sonhos e caprichos são génese do sofrimento que engole esses fogachos de euforia.
Lúcido
Emanuel Lomelino