sábado, 28 de março de 2026
Do Brasil à Suíça (excerto 24) - Samaritana Pasquier
A Pequena Distância... (excerto) - JackMichel
sexta-feira, 27 de março de 2026
No fundo do baú 143 - Emanuel Lomelino
Sempre que me preparo para mergulhar num novo livro, visto o meu escafandro de gala e lá vou eu, contra todas as fobias, em genuína apneia.
As primeiras páginas podem revelar-se irrespiráveis, mas a falta de ar oxigenado, em vez de afligir-me, tem o condão de despertar o meu autocontrolo e elevar os sentidos no máximo das suas capacidades, obrigando-me a dar corda às barbatanas e ir ainda mais longe e fundo. E quanto maior for a dificuldade para manter a respiração regular, mais embrenhado fico e mais adentro nos textos.
Garanto-vos, com o testemunho de mil e uma experiências, que todos os bons livros conseguem fazer-nos viver para lá de uma síncope respiratória, e trazer-nos de volta, sãos e salvos, mas enriquecidos, à superficialidade fatal do mundo a que pertencemos.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 26 de março de 2026
No fundo do baú 142 - Emanuel Lomelino
Sem tirar a importância a outras grandes preocupações das sociedades modernas, um dos maiores flagelos actuais é o sumiço, que está a ser permitido acontecer, de inúmeros locais de culto – as livrarias tradicionais.
Sobre esta triste realidade estão a ser usados argumentos que só convencem os cabeças-ocas que falam de clássicos, mas só leem livros de autoajuda, comprados em supermercados.
Os livros que valem a pena serem lidos raramente os encontramos nas grandes superfícies, porque nunca serão os de vendas mais expressivas.
Livros que fazem pensar, ou melhor, que obrigam a pensar, são incompatíveis com o negócio de consumismo imediato, porque, neste nosso tempo, o acto de pensar está a roçar a extinção.
Os verdadeiros leitores, aqueles que conhecem as diferenças entre as grandes obras da literatura e os manuais de formatação, optam por pensar e sabem que só é possível encontrar bons livros nas livrarias tradicionais.
Infelizmente, esses espécimes raros têm uma capacidade financeira reduzida e isso reflete-se no desaparecimento de espaços icónicos.
A manter-se este círculo vicioso, corremos o risco de necessitar ir ao supermercado mais próximo para encontrarmos um manual prático, que nos ajude a descobrir uma forma de fugirmos à estupidificação que está a instalar-se, e reaprender a pensar.
EMANUEL LOMELINO
quarta-feira, 25 de março de 2026
No fundo do baú 141 - Emanuel Lomelino
Pensar dói. Ou melhor… dá dores de cabeça. Ok. Nem sempre. Há pensamentos que conseguem passar sem deixar vestígios, mas, quando assim é, isso significa que não tinham significado algum.
Aqueles que magoam são os pensamentos que vêm atrelados a outros pensamentos, como um comboio-bala interminável, cuja locomotiva é uma ideia simples que não gosta de andar sozinha nas trilhas da mente e, por isso, arranja sempre uma forma ardilosa de dar boleia a mais e mais ideias, cada vez mais complexas.
A dor de cabeça aparece nesse momento. Na altura em que as carruagens mais simples – porque leves – dão lugar às mais robustas – porque pesadas – e, como num passe de mágica, cada uma delas (ideias) se transforma numa nova locomotiva, dando origem a mais comboios. Tantos que a mente fica preenchida de carris, que entroncam, uns nos outros, de modo tão vertiginoso que, nasce a sensação, a qualquer instante haverá um descarrilamento ou um choque entre composições.
Se isto não fosse uma analogia eu estaria milionário só na venda de bilhetes, tantos são os pensamentos que viajam na minha mente.
EMANUEL LOMELINO
terça-feira, 24 de março de 2026
No fundo do baú 140 - Emanuel Lomelino
Os livros, tal como as conversas e as cerejas, estão sempre colados a outros. Descobri isto ao olhar atentamente para a minha biblioteca e ter visto Puchkin e Gogol em animada tertúlia com Camus e Pessoa. Noutra prateleira, Brecht e Celan concentravam olhares em Virgínia, Agustina, e nas irmãs Brontë.
Num canto mais resguardado, Proust, Benjamin e Todorov sussurravam críticas, como quem conspira literatura. Mais adiante, Almada Negreiros, de braço dado a Ramos Rosa e Torga, dissertava sobre poesia, como quem não sabe mais nada além de versos.
Wilde, com todo o vigor da sua juventude reciclada, olhava Botto com interesse redobrado, enquanto Ovídio, Plutarco, Horácio e Calvino tentavam descobrir as diferenças entre Vergílio e Virgílio.
Poe e Stevenson elogiavam Márai e Saramago, bem perto de Göethe e Nietzsche, que desafiavam Schopenhauer e Steinbeck, para deleite de Kant. Também vislumbrei o grupo de Tolstoi, Gorki, Nabokov e Dostoievski, a debater com Kundera, Marquez, Neruda e Natália.
Camilo, Dinis, Amado, Assis e Eça trocavam experiências, enquanto Vinícius e Ary ofereciam canções a Cecília, Sophia, Florbela e Natércia, que retribuíam com palavras meigas.
Cervantes, Dante, Shakespeare e Camões faziam vénias aos aplausos de Junqueira, Bocage, Drummond e O’Neill. Enquanto Baudelaire, Apollinaire, e outros franceses, viam peças de Gil Vicente e Pascoaes.
E mais não vou enumerar porque já ultrapassei o limite deste texto.
EMANUEL LOMELINO
O paraíso são as memórias (excerto 22) - Tita Tavares
segunda-feira, 23 de março de 2026
No fundo do baú 139 - Emanuel Lomelino
Depois de ter navegado tantas marés e enfrentado os seus diferentes humores, o sal impregnou-se na pele tão intensamente que os golfinhos e as gaivotas deixaram de ser novidade. A ferocidade dos ventos, que no início era sentida como chibatadas, agora é apenas afago. Içar e recolher velas passaram a ser tarefas executadas no automático.
Já me haviam alertado para a falta de atenção que tenho prestado ao meu entorno. Não tinha dado muita importância a esse reparo, no entanto, a bem da verdade, há algum tempo deixei de demonstrar interesse nas coisas irrelevantes porque serviam apenas como motivos de distração, para ajudar a passar o tempo nas viagens entre portos.
No entanto, hoje, ao embarcar para mais uma odisseia laboral, embrulhado na minha farda de profissional camuflado e com a máscara de marujo satisfeito no rosto, decidi voltar a dar uso à minha vertente observadora e pude constatar que o céu azul continua a ser riscado pelos aviões, a espuma das ondas permanece branca e, tirando os pinguins e albatrozes, os únicos seres que continuam a destoar são os corvos, que agora são mais urbanos litorais e não se emocionam ao ver espantalhos de camisa aos quadrados que, tal como eu, andam na faina para colocar bacalhau no prato.
EMANUEL LOMELINO
Do Brasil à Suíça (excerto 23) - Samaritana Pasquier
O Pirata Love-Mar... (excerto) - JackMichel
domingo, 22 de março de 2026
No fundo do baú 138 - Emanuel Lomelino
As questões são pertinentes. Por que diabos procuro adquirir o maior número possível de livros clássicos? Por que razão tenho um fascínio tão grande por obras intemporais? Para quê gastar tempo e dinheiro em literatura? Qual o propósito de reunir tantos, e tão díspares autores, géneros, temáticas, abordagens?
Poderia dar uso a mil e um argumentos, cada um mais válido que o anterior, mas temo que nenhum deles seja inteiramente esclarecedor sem o complemento dos restantes.
Fazê-lo pela metade seria dizer meias-verdades e omitir factos. Enumerar todas as razões revelar-se-ia uma tarefa hercúlea - porque demorada, mas, sobretudo, por ser demasiado fastidiosa para satisfazer a curiosidade alheia.
Assim sendo, e sem o mínimo de temor pelos julgamentos que esta obsessão pode suscitar, deixo ao critério de cada um a avaliação da esquizofrenia que me move.
EMANUEL LOMELINO
sábado, 21 de março de 2026
No fundo do baú 137 - Emanuel Lomelino
Sempre fui apologista das discussões literárias – tertúlias (que não devem ser confundidas com “saraus” porque são eventos distintos) – pela possibilidade que dão para debater conceitos, tanto de criação como de leitura.
Infelizmente, esse género de encontros é cada vez mais raro, para não dizer inexistente, porque as artes deixaram de estar associadas a conceitos filosóficos claros, e os artífices nem sequer sabem definir as suas criações. Tudo é feito pelo simples acto de fazer.
Por outro lado, quando temos a sorte de assistir a uma tertúlia, ficamos com um tremendo amargo de boca pela enxurrada de argumentos vagos, que são proferidos com a maior das convicções, mas sem conteúdo aproveitável ou isento de lacunas.
É triste verificar que, para além do vazio intelectual dos criadores, os consumidores deixaram de ser exigentes e aceitam qualquer coisa. Já não há critério. Já não existe contraponto. Já não há opinião. Já não existe crítica. Só dogmas. Alguém diz que é arte e todos aplaudem, sem hesitar, sem contestar, sem questionar.
Para ser assim mais vale não haver tertúlias. Ou então acabe-se com a arte.
EMANUEL LOMELINO
sexta-feira, 20 de março de 2026
No fundo do baú 136 - Emanuel Lomelino
Quando surgem aqueles dias em que só queremos deitar o esqueleto e simplesmente abraçar a inércia, é necessário um esforço sobre-humano para nos obrigar a cumprir algumas tarefas que, não sendo essenciais, nos propomos executar.
Hoje é um desses dias. Depois de um retemperador banho quente, o corpo começou a insinuar a vontade de ficar estático, imóvel, quieto, estatelado sobre a cama, e não fazer coisa alguma. Creio que ainda houve um momento de hesitação, da minha parte, mas o que tem de ser tem muita força e não posso abrir um precedente porque quando se facilita uma vez…
Para se atingir esta capacidade de não embalar na preguiça é fundamental ter-se um elevado grau de disciplina mental que, no meu caso, acaba por auxiliar bastante, quase como factor determinante para que não haja um só dia sem que eu faça, entre algumas outras coisas, pelo menos, um exercício de escrita.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 19 de março de 2026
No fundo do baú 135 - Emanuel Lomelino
Os dias cozinham-se iguais, numa mesmice tão sórdida quanto submissa, sem ensejos nem revoltas.
Lábios gretados, frieiras nas mãos, escaras soltas, narinas empoeiradas, vontade que se esvai, conformismo que se instala.
O cansaço apodera-se, sem tréguas nem piedade. Reavivam-se vis emoções, já sentidas na plenitude da miserabilidade. Também aquela inércia tão lancinante como grilhetas carcerárias.
Mas nem tudo é ácido porque, no final de cada dia, chega sempre o silêncio crepuscular, com livros debaixo dos braços e a habilidade de teletransportar a mente para mundos que anestesiam até que a realidade regresse no buzinar do despertador.
EMANUEL LOMELINO
O paraíso são as memórias (excerto 21) - Tita Tavares
quarta-feira, 18 de março de 2026
No fundo do baú 134 - Emanuel Lomelino
Não foi sem assombro que descobri a existência de niilismo na minha personalidade.
Apesar do termo não me ser estranho, por razão do meu interesse artístico-literário, e até conhecer um pouco desta corrente filosófica, nunca deduzi que uma parte de mim pudesse ser influenciada, mesmo que ligeiramente, por esta doutrina.
A verdade é que, em relação à percepção que tenho da vida, com todas as minhas dúvidas e questionamentos, nunca me considerei mais do que céptico, pela simples razão de não conseguir vislumbrar, com carácter decisivo, uma razão válida que justifique a existência de um propósito, ou sentido, pré-definido.
Eis senão quando, nesta fase adiantada da minha existência física, descubro que a descrença num sentido para a vida, tal como ela se revela para mim, é considerado niilismo existencial. Só não sou completamente niilista porque não vejo a humanidade, como um todo, insignificante.
EMANUEL LOMELINO
Do Brasil à Suíça (excerto 22) - Samaritana Pasquier
No Tálamo De Dixe... (excerto) - JackMichel
terça-feira, 17 de março de 2026
No fundo do baú 133 - Emanuel Lomelino
Há uma máxima da antropologia que nos diz que para conseguirmos entender melhor outras civilizações temos de colocar de parte tudo o que aprendemos sobre o nosso entorno.
Porque nunca conseguirei ler todos os livros essenciais, não sei se alguém escreveu sobre a aplicabilidade desta ideia em formatos mais reduzidos.
Seja como for, tenho usado esse conceito no intuito de compreender os comportamentos que me cercam e tem dado certo. Pelo menos não fica tão confuso entender as razões que dão origem a atitudes que me são estranhas.
No entanto, a posteriori, levantam-se-me outras questões antropológicas porque, apesar de ter controlo sobre as minhas faculdades, tenho uma mente inquisitiva que recusa viver com dúvidas e não se inibe de colocar novas perguntas, a cada resposta encontrada.
Feito este parêntese, depois de entender os motivos que originam determinada acção, fico a pensar como é possível que, no seio de uma mesma civilização, possam existir comportamentos tão distintos e valores tão díspares.
Entre as várias hipóteses que considerei, só uma consegue apaziguar o turbilhão mental em que, sistematicamente, embarco: o objecto de estudo é o humano, logo, pelas suas características natas, e embora possamos encontrar uma linha condutora, é possível coexistirem incontáveis faces na mesma moeda.
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 16 de março de 2026
No fundo do baú 132 - Emanuel Lomelino
Por mais que pense, não consigo encontrar uma razão inequívoca e definitiva que justifique o medo que a generalidade das pessoas tem de estar sozinha, como se ficar ou estar só fosse o tormento mais nefasto que alguém pode experimentar.
Mais incompreensível é o descrédito dado ao isolamento, enquanto fonte de ignição para o raciocínio pacífico, que é o único caminho estável para que exista clareza de ideias e o pensamento não se revelar contaminado pelo entorno.
Creio que a génese desta aversão global é fruto de uma conotação, errada, entre quietude e solidão. Uma não origina nem é, obrigatoriamente, consequência da outra.
O silêncio é a casa da reflexão mais séria e íntegra, logo é benéfica para quem dele usufrui.
EMANUEL LOMELINO