sexta-feira, 18 de abril de 2025
Na suave cadência das ondas do mar (excerto) - Terezinha Pereira
segunda-feira, 31 de julho de 2023
A banda e a procissão (excerto) - TEREZINHA PEREIRA
Santinha, desde menina, tivera paixão pela toada da banda. Começou pela mão do pai que a levava para acompanhar as procissões. A festa da Santíssima Trindade a deixava desassossegada. Os ensaios da banda começavam na primeira segunda-feira, após a Páscoa. Era preciso esquecer toda a tristeza das melodias quaresmais. O pai não perdia nenhum ensaio e, com ele, levava Santinha. A garota seguia as músicas iniciadas a qualquer compasso da partitura, coisa que lhe mexia com os nervos. O pai não ficava nem um pouco perturbado com os descompassos. Sentado na cadeira de sempre, acompanhava a cadência do som erguendo e baixando os joelhos. Ela não podia compreender por qual razão os músicos tocavam tanta música descabeçada, sem fim, sem miolo e, na hora da procissão, saía tudo bonito, do começo ao final. No dia da procissão mais importante da cidade, a corporação, impecável, uniforme limpo e bem passado, acompanhava a imagem do Pai Eterno. Santinha, seguindo de perto o seu pai, às vezes segurando-o pela roupa, meio à multidão devota, esquivava-se dos encontrões para poder acompanhar a banda bem perto do Tuba. Entrava ano, saía ano, a festa continuava bonita e concorrida, e a corporação esmerava-se cada vez mais.
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sexta-feira, 21 de julho de 2023
De história e de cenários (excerto) - TEREZINHA PEREIRA
História em cena. Na segunda-feira, a neblina dissipou-se mais cedo. As pessoas que andavam pelas ruas começaram a tirar os agasalhos, algumas os colocavam nos ombros, outras os amarravam na cintura, que o sol os fazia desnecessários. Depois de uma volta pela praça, Rodrigo e Letícia atravessaram a ponte sobre o córrego Santo Antônio, caminharam até a rodoviária e subiram o morro de São Francisco. Bem no alto do morro, fica a igreja de São Francisco de Paula, uma construção também de meados do século XVIII. Andaram à sua volta, mas não encontraram abertas as portas. No morro coberto de um gramado bem verde, pouco em frente à igreja, como a abençoar a cidade, fica um cruzeiro com os símbolos da crucificação de Cristo: em cima, o galo que cantou três vezes para São Pedro, e na parte transversal da cruz, alguns instrumentos usados no martírio. Dali puderam contemplar uma bela vista da cidade, donde se vê a Matriz de Santo Antônio a manifestar-se com toda a exuberância de seus traços.
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terça-feira, 11 de julho de 2023
Matriz de Santo Antônio (excerto) - TEREZINHA PEREIRA
“Esta igreja começou a ser construída em 1710, no lugar de uma pequena capela. Naquela época começava a grande corrida dos tropeiros vindos de diversas colônias portuguesas no Brasil, em busca de ouro e pedras preciosas. Em 1723, Tiradentes, então conhecida como Vila de São José do Rio das Mortes, possuía 78 lojas e vendas e 3.801 escravos. Em 1729, já possuía 5.419 escravos, 106 vendas e 17 lojas. As primeiras informações a respeito desta igreja estão situadas entre 1730 e 1740. Sabe-se que a sua construção durou muitos anos, tendo começado pela capela-mor. Somente algum tempo depois lhe foi acrescentada a nave. Há registros de que a parte do coro foi feita em 1736. Mesmo que muita gente pense diferente, senhores, estejam certos de que este é o templo mais belo do Brasil. Vejam, seu interior é surpreendentemente grandioso. A obra de entalhamento do altar, a decoração das paredes da capela-mor e do arco do Cruzeiro são de autoria de João Ferreira Sampayo. Os lampadários de prata, os sinos e a ferraria foram instalados somente em 1760 e vieram do Rio de Janeiro. Vamos ao altar principal. Veja a imagem do orago da Matriz lá no alto, o Santo Antônio. Um pouco abaixo, vemos a imagem de São José, que é o padroeiro da cidade. O teto deste altar-mor recebeu pintura a ouro de arabescos florais, que lembram os templos da China e da Índia.”
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sexta-feira, 30 de junho de 2023
Santuário da Santíssima Trindade (excerto) - TEREZINHA PEREIRA
“Valei-me, Santíssima Trindade.”
O Santuário da Santíssima Trindade tem
traçado semelhante ao de outras igrejas da cidade, porém é bem singelo no
interior. Neste dia mais importante, tinha os altares ornados com muitas
flores, os bancos cheios de gente. O casal se aproximou do altar-mor para
Letícia conhecer a imagem do Pai Eterno, que fica lá no alto. Os dois se
ajoelharam junto ao altar. Por um tempo, ficaram em silêncio. Enquanto rezavam,
viam as pessoas que passavam próximo à imagem por detrás do Cristo crucificado,
para levarem o seu beijo, fazerem a sua oferta em dinheiro, expressarem suas
queixas, a cura de alguma doença, uma graça. Alguns escolhiam o agradecer. O
homem perto do seu Deus.
Saíram, após Letícia visitar cada um dos altares laterais e a capela do Santíssimo. Na capela, ficou curiosa com o efeito luminoso de uma gota de sangue que saía do coração de Jesus e escorria para dentro de um cálice.
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terça-feira, 20 de junho de 2023
Alice (excerto) - TEREZINHA PEREIRA
Casos de gente da terra. Rodrigo saiu do estúdio
do Sebastião sem ao menos se despedir. Se ouviu bem o caso que o fotógrafo
havia-lhe contado, não lhe deu importância. Viu que passava das dez. Precisava
chegar à pousada a tempo de tomar o café da manhã com Letícia.
Encontrou-a sentada num banco do Largo das
Forras, distraída. Olhava as charretes atreladas aos cavalos, prontas para
levar turistas a passeios pela cidade.
– Não conseguiu ficar na cama?
– Dormi muito bem. Imagina! Faz pouco tempo
que estou aqui. Vamos dar uma volta? Estive a falar com aquele senhor que vende
aquelas coisas de cozinha, jarras e apitos em forma de passarinho. Veja, tudo
feito de barro.
– É o Tião Paineira. Vamos falar com ele.
– Como vai, Tião?
– Uai, você se alembra de mim! É tanta gente que me conhece! Tenho muito prazer de falar com esse povão todo que aparece aqui na praça. De onde veio essa moça tão bonita? O senhor tem muito gosto...
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sábado, 10 de junho de 2023
Nem depois de morto (excerto) - TEREZINHA PEREIRA
O fotógrafo conta a Rodrigo sua história. Diz que juntara tudo que resultara de muitos anos de trabalho na capital e, com mulher e filha pequena, mudara-se para Tiradentes. Sentia-se enfastiado com tanto ruído e a constante agitação de Belo Horizonte. Ele e a mulher preferiram viver com mais sossego numa pequena cidade, mesmo ganhando menos dinheiro. Com a venda do carro e mais algumas economias, havia comprado uma pequena casa na periferia da cidade. O estúdio de fotografia, que denominaram Cenário Photographias, estava instalado num imóvel alugado por um preço alto, por ser ali, na Padre Toledo, próximo ao Museu da cidade. Ele e a mulher confiavam no sucesso do trabalho especial que ofereciam. A cidade do início do século XVIII era ideal para fotos de época: suas edificações, as ruelas mal traçadas, os lampiões afixados nas paredes externas das casas do centro histórico... Tudo isso contornado, em parte, pela Serra de São José, um maciço de pedra coberto por diversos tipos de vegetação, singular ornato, um presente da natureza. Na mesma rua do estúdio, numa quina do Largo do Sol, abrigado na casa onde morou o inconfidente, Pe. Carlos Corrêa de Toledo, fica o Museu Padre Toledo, ex-vigário da antiga Vila de São José, da Comarca do Rio das Mortes, hoje Tiradentes. Tem como vizinho, à esquerda, a igreja de São João Evangelista.
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quarta-feira, 31 de maio de 2023
Pai, Filho, Espírito Santo (excerto) - TEREZINHA PEREIRA
– Falta tino, Pai. Discernimento, prudência, cuidado, intuição, siso. São coisas que deixaram de fazer parte da vida dos homens. Anos atrás, Pai, era com carros conduzidos por animais que aconteciam os desastres. Coisa de pouca monta. Machucava um aqui, outro ali. Morriam ou se machucavam alguns, raramente. Nunca uma porção de gente, como ocorre hoje nas estradas lisas, sem asperezas. Olhe aquela pintura ali na parede do lado. Aquela que um homem de fé mandou fazer, que representa um desastre que ocorreu com um filho dele. O menino devia estar com seus sete anos de idade quando caiu debaixo de um carro de bois. O carreiro, na hora, tirou o chapéu e invocou a Trindade. Pode ser que, pelo grito do guia, os bois tivessem empacado e, por essa razão, não machucaram o menino, que saiu dali são e salvo. A família toda ficou agradecida ao Pai. Vês a outra pintura. Sinal de gratidão pela existência de um Ser mais poderoso do que os daqui desta Terra. Um homem cai do cavalo e escapa ileso. Atribuem às mãos do Pai.
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domingo, 21 de maio de 2023
Celeste (excerto) - TEREZINHA PEREIRA
Um caso de amor é sempre um caso de amor. E um caso de amor costuma ser o começo de uma história. Celeste é uma das primas do pai de Rodrigo, que sempre morou em Tiradentes e que, conforme ele contava, ela, além de ajudar nos cuidados da igreja, uma ou duas vezes por semana, passara a vida a cuidar de um sobrinho cego. Deveria estar ela com seus quarenta e poucos anos de idade na ocasião em que o sobrinho nasceu. Nem antes, nem agora, havia encontrado um companheiro que lhe pudesse ocupar no coração o espaço deixado vago por um moço muito delicado e galante, um dos componentes de uma banda de música de Barroso que, certa vez, durante os festejos da Santíssima Trindade – há anos – lhe havia feito juras de amor eterno. Naquela época, estava Celeste no frescor de sua passagem para a mocidade. Quando fazia referências ao fato, dizia ela que as coisas costumavam lhe acontecer com intermitência: as tristezas da vida vinham logo após os momentos de grande felicidade. Aquele moço gentil, tendo com ela flertado nos momentos das orações da novena, no dia do encerramento, havia-lhe dito as mais belas palavras de amor que vez alguma ouvira antes. Meia hora depois, despencara da carroceria do caminhão que levava os músicos de volta para Barroso. Logo ao cair, teve a cabeça esmagada por outro veículo carregado de gente que vinha logo atrás, antes mesmo que qualquer componente da corporação pudesse ter gritado um Valei-me Santíssima Trindade.
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quinta-feira, 11 de maio de 2023
Um lugar vindo da infância (excerto) - TEREZINHA PEREIRA
Mais um retrato... Não deixa de ser uma
outra maneira de se começar esta história.
Rodrigo ficara cerca de quinze anos sem, vez sequer, retornar a sua terra onde, pelo visto, como antes, quase nada acontecia. Alguns amigos o procuraram logo que souberam de sua chegada. Estavam curiosos. Queriam conhecer a esposa dele, aquela que havia sido capaz de ocupar-lhe no coração o vazio deixado por Juliana, que com ele vivera, anos e anos, um namoro, uma intensa paixão e que, quando se preparavam para começar a vida a dois, ele com o tão sonhado diploma de médico na mão, ela resolvera tomar outros rumos. A moça escolhera viver voando de Paris para Nova Iorque, Roma, Londres ou para onde a convidavam as mais poderosas agências de modelos do mundo.
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domingo, 30 de abril de 2023
Estampas de outra época (excerto) - TEREZINHA PEREIRA
Uma recepcionista tirou Rodrigo daquele momento de admiração, ao lhe dizer que ficasse à vontade, que Sebastião, o fotógrafo, estava lá no fundo, preparando uma família para uma sessão. Mostrou-lhe uma sala onde poderia escolher roupas, caso tivesse interessado em fazer uma foto, e lhe ofereceu diversos álbuns de fotografias, para que pudesse conhecer o trabalho que faziam no estúdio. O cenário que via nas fotos era de uma paisagem conhecida desde sua infância: casas da época colonial, algumas com eira e beira, outras com tribeira e outras sem nenhuma aba no telhado, edificadas em ruas estreitas, desalinhadas, cobertas por pedras grandes e irregulares. No fundo, aparecia a Serra de São José, um paredão enorme, como que revestido de verdes de diversos tons mais escuros, que envolve parte da cidade. Rodrigo espiou o estúdio por uma porta entreaberta. O fotógrafo dava os retoques finais à cena. A recepcionista fazia papel de maquiadora, cabeleireira e roupeira nos preparativos de um casal e seus três filhos para a sessão de fotos.
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quinta-feira, 20 de abril de 2023
Picuipinima (excerto) - TEREZINHA PEREIRA
Picuipinima é um lugarejo cortado por um filete d’água que chamam de rio. Rio Picuipinima. Como na maioria das cidades, tem uma rua denominada Direita, onde funcionam algumas casas comerciais, armazéns, padaria e uma pequena botica. Também tem uma praça com um jardim gramado, roseiras de cores diversas e margaridas brancas, onde ficam localizados prefeitura, escola, creche, um pequeno ambulatório, moradia e consultório do único doutor. Um doutor amigo de todos que, em tempo passado, tinha dentro de seu consultório uma parede coberta de retratos de uma moça bem-afeiçoada. Esquisitice que não vem ao caso. Ou...
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segunda-feira, 10 de abril de 2023
Letícia e os retratos (excerto) - TEREZINHA PEREIRA
Palavras só saíram da boca da menina, depois de passados alguns anos de quando ali chegara. No entanto, o que ela antes havia sido e antes vivido, até o próprio nome, pareciam haver ficado submersos nas entranhas de suas lembranças. Como pessoa alguma da cidade nada lera nos jornais, que de vez em quando ali chegavam, nem ouviram ou visto no “repórter” do rádio e nem da televisão – já havia televisão em umas três ou quatro casas daquele lugar – que uma menina pequena, olhos claros e pele cheia de sardas, estava sendo procurada, deixaram por isso mesmo. Essas coisas de juizado de menor ficavam muito distantes dali e, para inteirar, os dois policiais que serviam na região não dispunham de tempo para tratar de menina aparecida. Tinham de correr atrás de cavalos fugidos, de algum ladrão de galinhas, de conter os ânimos de algum bêbado mais desordenado ou, vez ou outra, desfazer alguma desavença entre ciganos que costumavam montar acampamento nas redondezas.
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