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quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Devaneios sarcásticos 31 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

31

Com o acúmulo de dias pardacentos, que não me transportam a lugar algum, vou-me vestindo de silêncios e indiferença.

Olho em redor e apenas vislumbro números circenses banhados de vulgaridade e executados por carrancas enfadonhas, como se a originalidade moderna fosse uma repetição contínua de carnavais passados, contudo, a preto e branco.

Esta matização básica, insonsa de significado ou propósito, inflige-me dotes de frivolidade e frieza, como se todo o meu ser físico fosse constituído por blocos de gelo oxigenado pelas insignificantes aragens polares.

Mas desenganem-se aqueles que veem nesta insensibilidade austera um temperamento acomodado e cego. A mudez, além de boa conselheira, permite observar a transparência de todas as matizes e intenções.

Silêncio não é sinónimo de apatia, inércia, passividade ou alheamento.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 21 de setembro de 2025

Devaneios sarcásticos 30 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

30

Há quem se queixe de, por mais que recomecem algo, o desfecho ser sempre igual.

Mas a questão é simples e sempre a mesma: presumir que os sinónimos representam, fielmente, a mesmíssima coisa, quando não é assim.

Mesmo parecendo terem significação igual, existe uma enorme diferença entre reiniciar e repetir.

Reiniciar é voltar ao início, mas isso não obriga, em momento algum, fazer-se tudo exactamente da mesma forma: isso, sim, seria repetir.

Ora, tendo presente essa pequena, mas essencial, nuance, não é difícil entender que cada regresso ao ponto de partida é uma possibilidade de mudança. Isso implica voltar à estaca zero, mas enveredar por outro caminho, outra via.

Só colocando em prática essa consciência é que o desfecho final poderá ter hipóteses de ser diferente.

Se reiniciar e repetir fossem exactamente o mesmo era impossível evoluir.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 20 de setembro de 2025

Devaneios sarcásticos 29 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

29

Como tantas outras vezes, iniciei a jornada sem destino premeditado – de peito aberto, ao sabor da despreocupação e empurrado pela brisa de cada dia.

Mas, ao contrário de outras caminhadas, decidi arregaçar as mangas, desbastar os matagais mais densos, retirar, à força de músculos, os basálticos obstáculos, sem recuar nos inúmeros momentos em que alguns estilhaços, mais afiados do que cutelo de talhante, rasgavam a pele.

Hoje, avaliando as viagens, vejo que todas elas, independentemente do meu grau de resiliência e sacrifício, apenas me fizeram gastar as solas e voltar à estaca zero. Desta vez sem possibilidade de recauchutar os sapatos.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Devaneios sarcásticos 28 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

28

Estou grato aos céus por ser filho de uma divindade menor – assim nomeada porque Zeus estava afogado em hidromel cítrico, logo, com as capacidades cognitivas alcoolicamente desvirtuadas – e por isso ter nascido sem a presunção de ser mais do que aquilo que realmente sou.

Não me autonomeio coisa alguma e sempre resistirei aos cognomes que muitos ostentam como medalhas imerecidas – para não dizer heréticas.

Percorro os caminhos que me traço sem pretensão de pisar tapetes urdidos para desfile de vaidades sensaboronas e sem motivo de existência. Recuso dar passos nas calçadas da visibilidade ganha pelo metal, nem quero trajar-me com fardas de cetim fabricado nos cárceres da aceitação.

Sou filho de um deus menor e tudo o que faço, digo, penso e escrevo é fruto dessa minha reduzida dimensão e iluminado pelas ténues luzes de um estro diminuto, quase invisível, por incompatibilidade entre a natureza que me formou e a fama que não me merece.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Devaneios sarcásticos 27 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

27

De forma simplista, pensar na vida é vital para identificar problemas, analisar hipóteses, definir prioridades, arranjar soluções, ponderar consequências e avaliar benefícios e prejuízos.

A questão complica-se quando passamos à prática. A cabeça fica a mil, embrenhada em pensamentos oportunos, mas desgastantes porque pensar na vida é como jogar uma partida de xadrez – exige várias jogadas de antecipação.

Para cada problema identificado devem ser ponderadas várias soluções, para cada solução devem ser analisadas várias hipóteses, para cada hipótese devem ser consideradas todas as consequências, para cada consequência devem ser definidas várias prioridades. E cada solução origina um novo problema, cada hipótese demanda nova solução, cada consequência exige nova hipótese, cada prioridade causa nova consequência.

Hoje pensei tanto nos vários problemas que preciso solucionar que quase colapsei!

Definitivamente, já não tenho agilidade mental suficiente para jogar o xadrez da vida. Prejuízo maior.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 16 de agosto de 2025

Devaneios sarcásticos 26 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

26

Nesta bruma cerrada escondem-se os limites das sombras que nos fogem ao olhar e os enganos vestem-se camuflados de farol.

Nesta neblina fechada escondem-se os finais de tarde que, nem os mais furtivos raios de sol conseguem iluminar.

Nesta névoa trancada escondem-se as margens vampirescas que se mascaram de anjos para levar-nos ao precipício.

Neste nevoeiro selado escondem-se as barreiras da ilusão com o simples e matreiro propósito de nos ocultar os embustes.

Nesta cortina de fumo espesso escondem-se as armadilhas sedentas de sangue, de quem, com esperança e boa-fé, se deixa guiar.

Os véus do engodo aproveitam-se da cegueira dos tolos e inocentes, como se o prejuízo dos desavisados fosse a única e suprema via para matar a fome da cobiça desmedida e cobarde.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Devaneios sarcásticos 25 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

25

Não existem muitos estudos sobre a matéria e quase todos pecam pela escassez informativa, sendo pouco esclarecedores.

Não há consenso quanto à forma de classificar este género de transtorno porque a multiplicidade de sintomas não permite deduzir se estamos perante uma tendência patológica ou uma perturbação mental. Esta dificuldade deve-se ao facto de existirem diferentes graus de manifestação do fenómeno, sempre dependente de cada infectado.

Sabe-se que é um vício. Uma dependência incontrolável que, mesmo detectada precocemente, é difícil de combater porque a ciência, ao contrário do que fez com outras adições, ainda não conseguiu identificar uma origem concreta e universal. Os únicos factos comprovados são que, em nenhuma circunstância, e apesar de ser uma condição pandémica, não há casos de regressão, apenas de progressão, mas não se conhecem casos de mortalidade associada, logo, não tem características malignas.

Assim sendo, não existindo fármacos nem tratamentos paliativos específicos, recomenda-se que todos os adictos diagnosticados prossigam as suas vidas dentro da normalidade que a sua compulsão pela escrita permite, até que se descubra um antídoto.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Devaneios sarcásticos 24 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

24

Os dias tecem-se como macramé. Entrelaçam-se os nós à velocidade dos ponteiros, e a estética nunca é ditada pelo tecelão, mas sempre pelos fios do tempo. Os minutos são franjas e as horas urdem-se de forma aleatória, porém harmoniosa.

Hoje teci um dia pardo, entre refeições. Quis Aracne – deusa do ofício –, de porte altivo, como todas as divindades devem apresentar-se, que o padrão das pausas, para descansar as mãos doridas de tantas agulhadas, fosse obtuso, contudo geométrico. E os desenhos de mais um dia ficaram-me tatuados na pele.

A minha sorte é ter esta obsessão redundante pela etimologia das palavras e descobrir que, ao contrário de todos os “dejá vu” deste dia, macramé não tem origem francesa, antes árabe “migramah”, ou talvez do turco (língua aliada) “miskrama”.

Seja como for, assim que a noite se predispuser a embalar-me as escaras, enrolar-me-ei na tecelagem deste dia e dormirei na certeza de que na próxima alvorada serei artesão de outra arte qualquer.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 5 de julho de 2025

Devaneios sarcásticos 23 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

23

Já perdi a conta ao número de vezes em que te falei sobre a migração das aves sazonais. Sim, aquelas que pavoneiam as dermes pintadas com as cores da moda e, quando a ilusão do estio se arrasta na imodéstia dos oásis virtuais, revelam a sua natureza necrófaga.

Pertencem a uma espécie com altos índices de propagação, têm uma habilidade ímpar para o logro e são capazes de metamorfosear-se de acordo com as necessidades e/ou conveniências.

Alertei-te também para a perspicácia destes seres que sabem “veneziar-se” sob as luzes dos holofotes enquanto as sombras albergam os seus verdadeiros rostos.    

Dito isto, e porque muitos desconhecem o carácter maledicente de papagaios, corvos, araras, gralhas, pavões e abutres, o melhor é não colocar milho nas mãos nem alpista nos comedouros, não vá algum outro passeriforme cuspir nos pratos que lhes tens servido.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Devaneios sarcásticos 22 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

22

Esta coceira subcutânea é uma reacção alérgica à imodéstia que voga nos ares circenses do universo individualizado das palavras.

Há um formigueiro que alastra corpo acima, como um farol de incómodo, e um outro, de jactância, que sobrevive à base de ácidos, pompa e circunstância.

A questão central é, precisamente, ser tudo lateral, periférico, limítrofe, marginal, à essência da arte. Tudo é engodo e subversão. Um chamariz veneziano para um corso de elitismo pedante.

O problema não está na vaidade presunçosa, mas sim nos rostos de plástico e sorrisos acetilenos, que escondem facas nos cós e fatuidade nos gestos, como se o mundo dependesse de esturjões e cosméticos, ao som de pífaros e violinos, numa noite de fábula e histórias da Carochinha, de portas cerradas aos pés-no-chão e olhos-abertos.

E não há metáforas suficientemente impactantes para descrever a arrogância pífia desta nova tendência aristocrata que grassa, e se alastra como sarna, nas letras Iscariotes.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 7 de junho de 2025

Devaneios sarcásticos 21 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

21

No horizonte, duas áleas de fogo-fátuo iluminam, com as suas línguas afiadas de fome, as gordas passadeiras da presunção.

Pernas torneadas, por óleos, lâminas depiladoras e solário, avançam na vaidade dos passos altivos rumo ao salão pedante, como se a vida fosse movida a esturjão e champanhe francês.

Os espelhos refletem a modesta jocosidade dos engraxadores de crinas escovadas e gravatas espampanantes, que bajulam girafas anoréticas, e outras aves-raras, de pescoços nus e manchas retocadas a botox.

Até os lustres e candelabros receberam suas doses de unguentos de brilho cristalino para irradiarem pompa e circunstância sob as ocas cabeças de gel, laca e outros gases aspergidos.

E este cenário de saltos-altos e narizes polvilhados só fica completo havendo trovoadas de flashes e adulações vocais porque, quando o sol retornar aos céus, o mundo plebeu vai querer vibrar com a ostentação dos bonecos movidos a exuberância fútil, lisonjas supérfluas e capas maquilhadas.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Devaneios sarcásticos 20 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

20

Interrogo-me sobre o paradeiro das palavras que, por falta de caneta e papel, ficaram por escrever. Aquelas que, abandonadas a sorte nenhuma, ficaram recolhidas no orfanato do léxico à espera de serem adoptadas por outros progenitores mais merecedores e sedentos da sua significação e importância.

Quantos serão os adjectivos, vagabundos silenciados com uma folha curricular debaixo do braço, que deambulam de estômago vazio e a esperança cosida na lapela?

Por onde andarão os advérbios sem modos e de nariz empinado que emergiram num momento de lucidez jamais registada?

Para onde navegarão agora aqueles verbos imponentes, contudo esquivos, que miraram o porto da criação com olho gordo, mas não saíram da embarcação da mente?

Como estarão os substantivos que um dia afloraram e foram barrados nos portões do estro, por não haver trajes de tinta nem hábitos de papel para os embrulhar numa qualquer história sem moral?

Como pode ser esdrúxula uma tarde sem pena nem caderno e palavras reprimidas!

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Devaneios sarcásticos 19 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

19

Já fui crédulo nas marés lunares, mas o voo dos pelicanos, em contraluz, revelou-se tão frouxo quanto as ondas que desmaiam nas areias costeiras.

Já acreditei na frescura primaveril, mas todas as migrações deixam um rastro de negritude e as savanas escondem melodias necrófagas.

Já confiei nas brisas refrescantes de verão, mas de todas as luzes nascem sombras que ocultam a natureza dos horizontes mais ambicionados.

Algures, nas inúmeras encruzilhadas percorridas, perdi a chave da candura e, pela primeira vez, enxerguei as verdadeiras cores da cobiça e do embuste.

Por mais que os abutres de ocasião abram as asas com sorrisos luminosos, há sempre notas de rodapé no final de cada página de gentileza.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 24 de maio de 2025

Devaneios sarcásticos 18 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

18

Dou por mim a pensar no quão estranho é a ideia de sermos ímpares no universo. De não haver outro lugar com o mesmo género de beleza natural que desfrutamos aqui, neste nosso planeta solar.

Quão bizarro é o conceito de habitarmos o único espaço com as características da Terra, sabendo que o cosmos é composto por uma infinitude de geologias.

As dúvidas e questionamentos atropelam-se na mente e, de hipótese em hipótese, o grau de aleatoriedade chega a parâmetros inenarráveis.

No meio das incertezas brota a esperança de que todo o conceito que envolve a nossa singularidade seja falho e, noutro qualquer ponto de qualquer galáxia, existam mais Terras habitadas, mas com melhor exploração das capacidades intelectuais.

Se for para ser igual nos defeitos, é mil vezes preferível sermos o único aborto cósmico.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 22 de maio de 2025

Devaneios sarcásticos 17 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

17

Dá-me graça assistir, desta poltrona sem foco, à modéstia exibicionista de alguns pseudoautores que, com penas sem tinta e lavras emprestadas, passam por ícones imaculados e assertivos.

A história repete-se, em círculos herméticos, com discursos de ocasião, cheios de frases batidas em castelo e clichês feitos por encomenda.

Por muito penoso que seja, não sobra alternativa que não passe por parabenizar, estes arautos da comunicação, pela ousadia e confiança com que fabricam os seus currículos, repletos de valências nuas de significado e importância, mas que, aos olhos dos beijadores de rabos, chegam como bacharelatos.

Há que dar mérito a quem, apesar dos engodos e falinhas mansas, enchem salas de iludidos e os bolsos de celebridade.

Tudo o resto é rodapé de outras prosas sem holofotes.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 11 de maio de 2025

Devaneios sarcásticos 16 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

16

Na penumbra dos becos, os tijolos quebrados são testemunhas assíduas das vidas que se cruzam, entre pestilências, azares e necessidades, regadas a vícios e adições.

Abrem-se pernas e goelas ébrias, em rituais de praxe mundana, enquanto roedores e varejeiras, alheios aos marujos caídos e carochos ressacados, procuram as águas-furtadas de um contentor chamariz.

As sombras são armários onde os cobardes aconchegam as vertigens, os corcundas ganham linearidade, as pegas aliciam sob pressão de lâminas e chumbo, e os vasilhames dividem espaço com latex e filtros alcatroados.

No aconchego da escuridão noturna, os corretores de fumo e caldo especulam piercings, ao ritmo dos batuques abafados que saem das caves guardadas por adoradores de halteres.

Há um gato que mia, um caixote remexido, um pneu que derrapa, um copo que se estilhaça, um isqueiro que é acendido, um rosto que se ilumina, uma baforada que se cheira, um tumulto que se gera, um grito que se escuta, um vulto que tomba, uma poça que se forma, passos que fogem e o silêncio cúmplice que nada viu ou ouviu.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 30 de abril de 2025

Devaneios sarcásticos 15 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

15

Por mais inclusivo e tolerante que se seja aos diferentes pensamentos das múltiplas doutrinas literárias contemporâneas, existem confissões que, ao pregar a boa-nova, espargem paradoxos que só criam raízes nos menos avisados.

Estas facções evangelizadoras da literacia moderna, ao mesmo tempo que se apresentam estratificadas, criam uma auréola classista pela transmissão das suas mensagens

As liturgias são ocas de coerência estilística, não por definição profética propositada, mas por défice cognitivo inerente. Não existe raciocínio lógico fundamentado na solidez de ideias inovadoras, tampouco incentivo ao arrojo.

As eucaristias são cerimónias de pretensão e ufania mascaradas de certame abrangente, não por crença filosófica, antes pelo engodo pastoral dirigido aos devotos.

Os grã-mestres usam o eruditismo e eloquência das palavras frívolas para magnetizar a crendice dos fiéis simples, num catecismo de verdades e presságios que só a eles se aplica.

Por tudo isto louvo, cada vez mais, o meu entendimento agnóstico, que me impede de ingressar nessas seitas.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 13 de abril de 2025

Devaneios sarcásticos 14 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

14

Chegará o dia em que o ritmo cardíaco de um beija-flor será uma lembrança nostálgica de um mundo perdido e seremos acometidos pela saudade dos caleidoscópicos colibris e dos afagos gauleses e atrevidos que depositam em cada flor, em troca de néctar açucarado.

Nesse momento seremos alvejados pelos olhares acusadores dos brincos-de-princesa e estrelícias, como fossemos sinónimo de extermínio e a nossa existência significasse apocalipse.

Confrontados com a impossibilidade de redenção, veremos mariposas desfalecer à nossa passagem, as açucenas e os nenúfares vão murchar e as estrelas apagar-se-ão, como carregássemos uma longa e necrófaga foice.

Então, cabisbaixos e corroídos pelo remorso da indiferença, lançar-nos-emos, dos precipícios mais íngremes, numa espiral de lamentos inócuos e falhos, como se esse acto de contricção nos redimisse do egoísmo com que polvilhámos o solo que nos pariu.

Somos a génese do nosso próprio cataclismo.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 10 de março de 2025

Devaneios sarcásticos 13 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

13

Agostinho da Silva sempre demonstrou aversão ao epíteto “mestre”, preferindo identificar-se como eterno aprendiz, e queria ser poema em vez de poeta.

Estas duas ideias, tão simples e entendíveis, servem, como contraponto perfeito, para entender a falta de altruísmo que grassa na sociedade actual.

Hoje, em diferentes círculos de autores (que podem sê-lo ou não), é comum – para não dizer norma – a autodenominação de epítetos, sem que a embalagem corresponda ao produto.

Hoje, ao contrário do que acontecia no tempo do “poema” Agostinho, nascem “poetas” a rodos, a cada conversa, a cada sarau, a cada tertúlia, numa clara expressão de individualismo e idolatria exacerbados.

Mais curioso é que os actuais “mestres” – porque assim se consideram – são avessos ao ensino, apesar da alegada extrema sabedoria e conhecimento que possuem.

Perdemos o “poema altruísta”, proliferam os “poetas egocêntricos”.

EMANUEL LOMELINO

sábado, 22 de fevereiro de 2025

Devaneios sarcásticos 12 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

12

Muito por conta do gene mais decisivo do estro e por não conceber criação sem literacia, imponho-me absorver o máximo de conhecimento sobre matérias essenciais, mesmo daquelas em que não me revejo, mas que podem aportar elementos teóricos úteis ao meu ofício, até por oposição.

Esta busca por entendimento mais vasto em géneros, estilos e propostas literárias distintas, que deveria ser transversal a todo o universo da escrita, proporciona-me muitos momentos de reflexão interessante.

Neste contexto, e apesar de perceber os conceitos base do concretismo, tenho uma dúvida que só pode ser esclarecida por quem navega neste movimento literário.

Como se conseguem ler textos concretistas a um cego, de forma que os elementos espaciais não sejam omitidos, ou prejudicados por descrições intermediárias?

EMANUEL LOMELINO