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sábado, 6 de julho de 2024

Uma aventura na estação do tempo… (excerto) - Ana Mendes

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A rádio parasitava ruídos estranhos, como se não estivéssemos sós… tentei sintonizar a antena e dei voltas aos botões, negros de plástico duro. Sem sucesso. Desisti e acendi um cigarro, sentei-me nas escadas da frente, e encostei-me à ombreira da porta maciça castanha escura, descolorida pelos ventos do norte e do salitre do mar. E ali sem música , consumi 4 ou 5 cigarros sem me dar conta da chegada da garoa trazida pela noite… estava para lá do horizonte, onde as dores se escondem e perdi-me por horas. Ela tinha ido naquela direção, numa embarcação qualquer, com ele! Que de mim nada levou, nem mesmo a escova de marfim, toda trabalhada, que lhe tinha trazido de Moçambique… se soubesse o quanto me custou na altura… pra cima do que ganhava ao mês! Mas adorava vê-la, deslizá-la por entre os cachos negros, até aos ombros… ou até mais abaixo deles…

EM - ESSAS MULHERES - COLETÂNIA - IN-FINITA

quarta-feira, 6 de julho de 2022

A tempestade - ANA MENDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Chovia muito e já á algumas horas. Pilar espreitava entre as cortinas, se alguma luz se avistava, estava preocupada. Era tarde e Manuel não voltara da cidade.
Habituado às estradas enlameadas a cada inverno, tinham comprado um jipe e por isso ele aceitara mais horas no trabalho. Os tempos eram difíceis e Pilar estava grávida, mas eles eram jovens.
O vento uivava e o frio buscava abrigo nas frestas de cada recanto da velha casa em pedra. Ela acendeu a lareira, umas velas e cobriu-se com a manta rosa de solteira... acariciou-a com carinho, seria para o bebé também. Rezou para que ele chegasse e entre o sono e o avançar do velho relógio ele acabou por chegar. Beijo-a sem a acordar.
Quem tem fé... sempre alcança.

EM - PELO FIO DE ARIANA - ANA MENDES - IN-FINITA

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Intuitivamente (excerto) - ANA MENDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Naquela manhã tinha acordado com uma rara sensação de choro, de tristeza, de algo pesado. No banheiro, depois de um bom banho quente, vesti o roupeiro e fui para a cozinha preparar um café bem forte, para me animar. Funcionava sempre a meio gás antes do primeiro café e precisava despertar daquele torpor. Preparando as torradas com mel e manteiga, embora sem apetite, senti-me melhor e de minutos a instantes ou mesmo momentos relaxei. Afinal estava de férias e o Marco deveria passar em casa e levar-me com ele para a montanha, para passarmos 3 dias juntos. Ele passava o tempo agitado, naquele frenesim do escritório e eu no hospital também. Merecíamos este retiro. Também para nos encontrarmos um pouco. Ultimamente ele andava ausente, estranho e irritadiço...A vida moderna, dizia a minha mãe. Mas eu por vezes tinha a sensação de que estava a mais na vida dele e esta sensação de certa forma, mantinha-me mais distante dele e até evitava tocar no assunto do casamento, para não pressionar. Afinal já nos frequentávamos há 2 anos, mas tínhamos a vida toda pela frente. Um dia
chegaria a minha vez, a nossa vez!

EM - PELO FIO DE ARIANA - ANA MENDES - IN-FINITA

domingo, 26 de junho de 2022

Lembro-me de mim (excerto) - ANA MENDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Ainda era noite ou talvez a aurora despontasse e o dia a seguisse... Sentou-se e arranjou melhor as almofadas, companheiras de tantos desabafos e lágrimas.
Ainda estavam húmidas de si e do seu sentir e aquele cheiro a tudo fez-lhe voltar atrás no tempo. Mais uma vez, de tantas outras...
Eram gargalhadas estridentes, cheias, quentes e, mais ao longe, vozes alegres, ritmadas... Cantavam letras de feitos modestos em melodias grandiosas... repetidas à desgarrada sobe as árvores recheadas de folhas agarradas aos ramos, balançadas pela brisa sem resistência.
Mais ao fundo ainda... naquele jardim, um cantinho só para ela e o céu. A limonada sobre a relva e o livro entreaberto ao contrário, de olhos fechados sonhava com tudo e por nada foi descoberta.
Aquelas mãos que começaram timidamente nos seus cabelos procuraram-lhe uma calma e prazer sorrateiro, desconhecido, aventureiro. Quase como no seu livro... suspirou e deixou. Inocência juvenil e confiança na descoberta.

EM - PELO FIO DE ARIANA - ANA MENDES - IN-FINITA

terça-feira, 21 de junho de 2022

O fardo de cada dia - ANA MENDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Em cada despertar da aurora sinto cansaço. Com ele, no amanhecer a esperança
E num instante a desfaço, pois termina o sonho, por vencer a constância...
Em cada despertar tento esquecer, os beijos e abraços que são pagos, as quedas dadas sem merecer.
Abandonar este fardo que em mim trago... Em cada levantar quero erguer, gritar ao mundo as cores deste corpo sofrido, do ser que padece em mim por viver, num corpo estranho, dorido.
Do preço que julgam por esta capa, nada compram a valor justo, pois nada me tira a mágoa, que me deixam a muito custo...
Com a água regenero tudo e lavo, menos esta mente prisioneira, neste corpo errado.
Preconceitos vomitados numa guerra sem estribeiras e visto-me do novo dia, no absoluto, escondo a minha vontade verdadeira, na voz de homem encavada, num travestir de sereia.
E no meu íntimo chora da heresia e se mantem esmagado no escuro... O meu Eu algemado e o fardo de cada dia...

EM - PELO FIO DE ARIANA - ANA MENDES - IN-FINITA

sábado, 21 de maio de 2022

Só por amor e compaixão mulher (excerto) - ANA MENDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Embrenhada nas matas dos pesadelos, onde tinha sido ceifada toda a sua coragem e vontades. Entorpecida, dobrada pela fatiga, já nem lágrimas lhe acompanhavam. E dos golpes e coices do mundo, pouco ou nada desconhecia e silenciosamente resignada viveu. O mundo era tão pequeno e duro e feio e das suas paredes escorriam dores e surro de lamentos e terrores que lhe infligiam ao corpo. E ela, pequena, delicada, abandonou-se enfim ao descanso. Das coisas que mais conhecera, estas eram as mais doces. Esferas brancas que lhe libertariam um pouco ou de tudo...definitivamente. Como era agora doce o seu tempo, o seu estar...
Libertou-se dos enredos, na penumbra da noite enluarada, perdeu os medos. Mergulhou numa nascente límpida de um sonho, integrou a madrugada de mansinho, encantada e nadou em águas frescas e revigorantes. Eram ideias de liberdade que se apoderavam dela ensonada. E como por magia, num instante. E do nada viu tudo e sentiu-se presa e revoltou-se de tantas amarras cravadas em seu corpo e seu ventre. Vivia alimentada por infundadas amarras dementes. Prisioneira da violência. E no sofrimento do corpo e na liberdade da alma abandonou-se feliz.

EM - PELO FIO DE ARIANA - ANA MENDES - IN-FINITA

segunda-feira, 16 de maio de 2022

A fraqueza que despi (excerto) - ANA MENDES

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Sempre na postura de guerreira, combativa, mesmo de peixeira, revolucionária. A cada embate que a vida me dava, levantava a cabeça e depois o corpo, claro. Eram prendas que não pedia, mas a cada manhã as encontrava. Faziam fila à porta da minha vida. Guardando o silêncio, praticava a resistência.
Algumas tirava-lhes o embrulho e outras lançava-as fora tal e qual as encontrava. Por muito que fossem lindos os envelopes e enfeites, o meu instinto alertava-me. E com muita força e energia que me pedia esta seleção, eu não cedia...e sofria as consequências. Mas antes assim e de companhia guardava a minha mais profunda convicção.
Por vezes, fingia não sofrer das vinganças atentadas contra mim, ser pequenino e ainda frágil, mas engolia as vontades de gritar e de chorar. Fechava as comportas das águas quentes e salgadas que teimavam em me molhar. Sim também cedi a elas...em várias ocasiões, mas sempre em segredo e bem distante daqueles que as provocavam, que as acordavam daquele sono jamais profundo, mas sono mesmo assim. Talvez lhe chamem torpor...E insistia para que a minha vontade fosse respeitada, que a minha voz fosse ouvida, mas esquecia nessas horas algumas condições primordiais!

EM - PELO FIO DE ARIANA - ANA MENDES - IN-FINITA

terça-feira, 26 de abril de 2022

Poesia Universal (excerto) - ANA MENDES

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Era África livre, descontraída longe da agitação. Na mão um fio de prata, que segurava um papagaio de papel. No chão, um menino descalço que corria por ilusão e paixão. Ele acreditava que apenas com a sua vontade, ele voaria sem baixar, que subiria até alcançar o Luar. Nele colou desejos de doces e bombons coloridos, de dias melhores e carinhos perdidos.
Sem saber que com este simples pedido, ele daria a volta à terra e veria um outro menino a brincar, com um barco de papel que o fazia navegar. Era a Ásia na (E)monção que esperava a tempestade passar, que agora engrossava rios e os punha a transbordar.
E do outro lado da terra o menino de olhos rasgados sorria do efeito do vento no rio, que nas ondas transportava o seu barco de papel, para bem longe até ao mar. Nele depositara sonhos de marinheiro de calças curtas, de presentes para o futuro, mais justo e um abrigo seguro.

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segunda-feira, 11 de abril de 2022

Esperança no sorriso de cada criança (excerto) - ANA MENDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Quando nascem têm aquele poder de nos tornar melhores e de rebuscar os mais suaves sentimentos.
Como se os pudéssemos ferir com palavras inconvenientes, vozes altas, ásperos diálogos... E talvez seja mesmo isso, feridas para o futuro deles... que podemos evitar... então sorrimos e murmuramos.
Tanto tempo permanecido em pseudo-silêncio e apenas tremores ligeiros dela, ao gargalhar por uma graça e aquelas vozes que o chamavam para lá do sol e da lua. No mundo deles ainda não existem estrelas, nem cometas... apenas vozes húmidas.
Ao gritar toda a dor, na boa hora...dor que a deveriam deixar naquela sala de hospital, eles soltam-se e na nova liberdade aprendem a amar.
O toque de um dedo timidamente próximo, o murmúrio de outras vozes e os perfumes do mundo são as boas-vindas.
E aqueles beijos prometidos e desconhecidos agora servem de aconchego e o seio que alimenta... de solar que acalma cada anseio, de refúgio e nos braços que o cobriram sem sentir, agora são o seu ninho, o melhor paradeiro.

EM - PELO FIO DE ARIANA - ANA MENDES - IN-FINITA

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Nasceste sim (excerto) - ANA MENDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Nasceste do pecado, como se considerava na altura.
De uma união proibida, mas nasceste.
Bravaste os males do mundo, enfeitiçaste anjos e ondulastes no ventre fértil dela, ainda criança... 13 anos ainda se brinca, se sonha, se dorme em paz… Mas ela não mais! Da dor de perder a inocência, cresceu-lhe um ventre. Que a coisa alguma se assemelhava, não o compreendia, não lhe dizia nada.
Coisa estranha essa que a magoava, a perturbava, crescia sem fome e que por náuseas, a acordava.
Do sono profundo acordaram angústias e perguntas… Porque todos a olhavam assim?! Dia após dia, sem lhe perguntarem sequer, se ela sabia o que lhe sucedia enfim?!
Em casa, coisa boa não era, pois o mal tinha manchado o nome da família e tão tarde se aperceberam que a vergonha foi aceite e transformada em castigo…
Que o carregasse ela, a cruz da sua vida, já que para isso sua boca se tivera calado.
Maturidade forçada, meninice roubada, porém compactuada por membros carregados de arranjos preconceituosos e abomináveis. Passara então a ser o exemplo a não ser seguido, a obra de arte de outrora, a ser colocada em um sótão ou numa cave, para que só em caso de maior força fosse visto… Até as coisas se acalmarem, a poeira assentar e as bocas se cansarem de vomitar maldades em frases rosadas de desdém.

EM - PELO FIO DE ARIANA - ANA MENDES - IN-FINITA

terça-feira, 5 de abril de 2022

Intuitivamente (excerto) - ANA MENDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Naquela manhã tinha acordado com uma rara sensação de choro, de tristeza, de algo pesado. No banheiro, depois de um bom banho quente, vesti o roupeiro e fui para a cozinha preparar um café bem forte, para me animar. Funcionava sempre a meio gás antes do primeiro café e precisava despertar daquele torpor. Preparando as torradas com mel e manteiga, embora sem apetite, senti-me melhor e de minutos a instantes ou mesmo momentos relaxei. Afinal estava de férias e o Marco deveria passar em casa e levar-me com ele para a montanha, para passarmos 3 dias juntos. Ele passava o tempo agitado, naquele frenesim do escritório e eu no hospital também. Merecíamos este retiro. Também para nos encontrarmos um pouco. Ultimamente ele andava ausente, estranho e irritadiço...A vida moderna, dizia a minha mãe. Mas eu por vezes tinha a sensação de que estava a mais na vida dele e esta sensação de certa forma, mantinha-me mais distante dele e até evitava tocar no assunto do casamento, para não pressionar. Afinal já nos frequentávamos há 2 anos, mas tínhamos a vida toda pela frente. Um dia chegaria a minha vez, a nossa vez!
Quase que tinha conhecido os pais dele um mês antes, mas como ele me esticou a mão de longe e entrou no carro com eles, nem pude cumprimentá-los. Também estava atrasada, ía começar o turno da noite e não me podia dar ao luxo de chegar mais uma vez atrasada. Com as greves os transportes públicos, a vida estava difícil para todos. Para os grevistas e nós.

EM - INTUIÇÃO - COLETÂNEA - IN-FINITA

domingo, 1 de agosto de 2021

Para sempre em mim - ANA MENDES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
Saibam mais do projecto Mulherio das Letras Portugal neste link
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O vento que tudo leva à força ou pela mão,
A chuva que a terra rega alimentando até uma ilusão.
Sinto que me puxa ou empurra, fecho os olhos e agarro-me ao pontão.
A emoção avassala-me e nada a segura, lágrimas traduzem mágoas
do coração.
A maresia entranha-me quando as ondas balançam com vigor
Burrifos salgados esvoaçam e banham sentimentos entre o sal e o mel
do meu amor.
Pensamentos escondidos invadem-me, aprisionam-me a mente, o ser.
No torpor nada me liberta enquanto o meu corpo dolorido desperta.
As chagas do destino que se estendem, sobre o meu eu tímido em alerta
Chora e grita ferido na escuridão, procuro a liberdade, fôlego, o respiro
Quero soltar-me na imensidão e mergulhar nas revoltas ondas, prefiro.
Despir-me da dor da solidão, porque agora que já não És, me retiro.
Embora sinta no ar que sussuras entre gotas, sobre a pele deste mar índigo.
Imagino carícias que me acompanham, que me agarras.
E quero as palavras de amor que levas-te contigo, o carinho que
murmuravas, ao ouvido.
Olho as águas que me apelam e já não consigo...
Vejo-te e não me sentes, convite que te desenhas sobre a espuma
Tentação do meu sofrer e querer, esvaindo-se como as forças
sobre a lua, nesta bruma que se levanta ao anoitecer.
O destino assim o quis...
Lanço-me na imensidão e vôo até ti
Tão frias são as garras que me recebem sem ceder
Gélidas mãos azuis ou cinza, que importância agora, parto enfim...
E nas profundezas da natureza te encontrarei
e guardarei para sempre em mim...

 EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Ser Mulher, Amante, Mãe, Amiga, Madrasta (excerto) - ANA MENDES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Do alto daquele prédio, olhando o mar azul, imóvel e calmo,
esperei que não fosse verdade e tive medo. Medo do que seria da
minha vida de espírito aventureiro, de dormir tarde e levantar
cedo, de sair para trabalhar e só entrar em casa para me refrescar
no chuveiro, me arrumar e voltar a pôr o pé de salto alto, mini
saia e top na rua da alegria. A época dos grupinhos de amigos e do
maridinho, apaixonados... Eu ainda não estava pronta.
Ao nos casarmos, apenas queria viver um pouco mais para ele,
para mim, para nós. Não queria ser a esposa chata, que só contasse
fraldas e mamadeiras, ou que já estivesse tão cansada, que
só tivesse a oferecer um beijo distraído, cansado e sem ardor ao
marido que retorna a casa. Que não adormecesse só porque o sofá
a estivesse piscado o olho do cantinho da sala, que o choro do
bebê não a acordasse, depois de ter adormecido pela madrugada.
Pensei nisso tudo, me senti aprisionada, apavorada e sozinha,
com os meus medos de menina. Afinal, de mãe pouco sabia. A
minha, eu mal a entendia. Queria fazer bem melhor do que ela,
que fora mãe, numerosas vezes, e sendo eu a primogênita, nada
tive da sua companhia e ternura.
E a pílula? Onde tinha ido parar?! Não, ela é 99% segura! Decidi
tirar a dúvida e esperei na cozinha que os tracinhos não aparecessem,
naquele retangulozinho, dedicado às más e boas notícias.
Rezei, chorei, esperei minutos intermináveis, quando olhei:
dois! Dois traços! Não era só um que se avistava, mas sim dois!
Duplamente horrorizada, pestanejei, abri o frigorífico, peguei
a garrafa d’água gelada e me sentei no chão. Bebi pelo gargalo
mesmo, queria me afogar na tristeza de dizer adeus à minha vida
de menina, devido a um ser desconhecido e apressado.
O maridão ficou feliz, então me deixei viver os seus planos e a
felicidade me invadiu como que sem querer.

EM - MÃES - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

E nasce a paz em mim - ANA MENDES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Perdida nos meus pensamentos e desalentos, com a minha taça
de café já frio...
Apreciando esta linda noite de luar, como tantas outras da
minha varanda, percorreu-me um arrepio.
Ao longe ondas mansas se desfazem, acariciando o areal, som
melodioso que faz bem ao moral.
Deste período de confinamento guardo a esperança, que me
traz paz.
Aquele tesouro que nasce depois da incompreensão, da dor, da
revolta e desolação, quem o traz?!
Como pode o mundo despertar a cada manhã e concordar em
carregar tanta tristeza no coração?!
Quanta energia para poder aceitar, que o homem só existe
através do poder, do dinheiro, da glória, abandonando por tudo
isso, algo bem maior?!
Esquece, abandona ou troca o valor da vida simples e pura, por
momentos de prazer sem remorsos ou por segundos de ilusórias
aventuras. Sem perceber que a sua importância no universo, o seu
lugar tornou-se menor...
Um outro ser reduziu o seu espaço, esmagou a sua ambição,
provocou um colapso, proibiu o abraço!
Enquanto agora, a terra acorda e grita de alegria, mais aliviada
a cada dia. Pássaros esvoaçam pelos céus de cores intensas, em liberdade,
já não seguem os traços de aviões apressados de chegar ou
voltar e sem fumaças de cheminés altas ou baixas, como rodapés...
Apenas esvoaçam por prazer e experimentam novas sensações.
Outros animais correm em pradarias ou florestas sem medos.
Mas talvez invente eu um postal efêmero para enviar ao meu
melhor amigo.
O mundo já não é só nosso, agora o devolvemos... foi pelo rei
de coroa sem cavalo, que derrubou tal reino rico, fatal vírus que
nos atormenta e nos coloca em grande perigo.
E se o dia nasce na separação da noite e o horizonte acompanhado
de nuvens ansiosas por libertar sobre o mundo um doce
chover, é a primavera a querer espalhar as suas cores sobre as flores,
o trigo e pomares a crescer.
E a sensação de que o planeta se regenera, se re-identifica, se
reconecta, sem pressa. E eu não sei como agir, como entender esta
mudança... Mas ainda tenho comigo a esperança.
O vento levantou-se de mansinho e o sono fez-se presente, nos
meus olhos um peso que se poisa e pelo corpo uma moleza que o
adormenta e se aconchegou devagarinho. E suspiro agradecendo,
por mais uma noite estrelada e ainda que nesta fase, abençoada.
Ligo o telefone e leio com alegria, uma mensagem de um ente
querido. Desejos de um amanhecer suave, com carinho.
O silêncio enche o espaço e acompanha-me com pudor ao
leito. Sabe ele tão bem o que me vai na alma e no peito.
Hoje houve aplausos e cânticos, ainda que se carregue a dor,
foi por agradecimento e amor aos amigos de farda verde, azul,
vermelha ou branca, em coro e com fervor.
Heróis plastificados, mascarados e prontos para a guerra, sem
taças, medalhas ou louvores.
Acumulando sonos não dormidos, desejos inalcansáveis, saudades
do aconchego e tantos momentos por viver.
As dificuldades tornaram-nos mais criativos, mais desejosos de
tantas coisas, tão simples de as obter outrora e agora tão distantes
e sem liberdades para as exprimir ou escolher.
Talvez amanhã nos possamos reunir, olhar nos olhos, agarrar
mãos e beijar quem nos quiser sentir, unidos... poderemos reviver!
Penso nas máscaras, luvas e fardas, que de brincadeiras inocentes,
se tornaram quotidianamente evidentes. E isso traz-me
as mágoas de tantas vidas em hospitais, ainda pendentes. E oro
por nós.
O sono fecha-me as pálpebras, o calor envolve-me devagar e
assim me deito esperançada, pois a paz nasceu-me na alma, e na
doçura do luar, e por anjos que atravessam o espaço e o tempo,
vão-me até amanhã embalar...

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

 

domingo, 28 de junho de 2020

Suspiro de uma folha - ANA MENDES

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Num pensamento ou prosa queixei-me do meu destino.
Quem me dera ser flôr, uma rosa.
Qual teria sido o meu caminho...
Foi suave e meigo o teu tocar
Doçura enganadora de quem te quer abandonar.
Olhando para cima ou para trás vos vejo a todas
Hesitantes, angustiadas, aos tremeliques e arrepiadas
Bebendo o resto de seiva que vos resta antes da queda.
Algumas ainda que amedrontadas
mostram arrogância e mesmo certa petulância.
Ainda estão formosas e pouco se lhes notam
O clarear das margens e o enrugar do meio que seca.
O segurar do ramo, a energia correndo ainda no seio.
Sem tapete vermelho, sem paraquedas aberto,
Apenas um chão descampado, uma rajada de vento.
Cobrimos os solos, os passeios, marcamos o tempo
Despimos aquela que nos acolheu sem medo.
Que nos viu de pequeninas a moças e de mulheres a loucas.
Primeiro tão inseguras, mas cheias de garra
Enfrentando tudo ou mesmo nada que agarra.
Concorrentes das flores que cantavam à desgarrada,
Por estações passamos e por pouco ou tudo lutamos.
Dos seres que se poisavam, mordiam e se alimentavam,
Sofridas fomos avançando, cobrindo certos botões
para que ao fim chegassem em plena beleza e formosas.
Ò vida do mundo quente e frio das mágoas e arrepios...
Que nos fazes tudo amar e desaparecer no nada.
Quase me arrependo do feito, que para pouco serviu,
aqui estou caída sem leito, na madrugada
Vencida pelo tempo, pela chuva e ne terra abandonada.
Olhai, olhai, esta pobre folha amarelada
Que um dia já cantou com os pássaros,
Por uma vida deixou escorrer a orvalhada...
Perdi a côr sim, todos os dias que passaram
Não o fiz por vaidade, mas sim pela lei da vida, pela idade.
Ò chão que serás meu leito, que me acolhes
Perde-me na tua noite, o repouso merecido oferece-me...
Que me recebes em teus braços, com a terra me envolves.
Humedece-me, decompõe-me, adormece-me.
Que me seja leve a terra, que morna esteja preparada
Quero que fique aqui escrito, que de ti árvore minha amada
Te levo na memória, no coração e na alma destroçada.
Não estava ainda na minha hora, caro vento que me arrancas-te.
Tinha ainda na memória tanto para dar e ver,
tanto que na vida me encanta o querer...
Se me deixar assim ficar, pouco de mim te lembrarás,
Se me puser a correr pelo ar, empurrada pelo vento
Mais longe irei, talvez até me possas ainda amar...
Abraçarei o teu tronco, rodopiarei por teus ramos
Beijarei o teu cimo, devagar, bem lento
se a valsa durar... se durar mais tempo.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Em tempos de quarentena - ANA MENDES


E NASCE A PAZ EM MIM

Perdida nos meus pensamentos e desalentos, com a minha taça de café já frio...
Apreciando esta linda noite de luar, como tantas outras da minha varanda.
Ao longe ondas mansas se desfazem, acariciando o areal, som melodioso que faz bem ao moral.
Deste período de confinamento, guardo a esperança que me trás paz.
Aquele tesouro que nasce depois da incompreensão, da dor, da revolta e desolação...
Como pode o mundo despertar a cada manhã e concordar em carregar tanta tristeza?!
Quanta energia para poder aceitar, que o homem só existe através do poder, do dinheiro, da glória, abandonando por isso tudo, algo bem maior?!
Esquece, abandona ou troca o valor da vida simples e pura, por momentos de prazer sem remorsos ou por segundos de ilusórias aventuras.
Agora a terra acorda e grita de alegria, os pássaros esvoaçam pelos céus de cores intensas, em liberdade, não seguem os traços de aviões apressados de chegar ou voltar e sem fumaças de chaminés altas ou baixas. Apenas esvoaçam por prazer.
Outros correm em pradarias ou florestas sem medos, mas talvez invente eu um postal efêmero para enviar ao meu melhor amigo.
O mundo já não é só nosso, agora o devolvemos... Ou foi pelo rei de corôa, sem cavalo ou reino rico, fatal vírus que nos tormenta e nos coloca em perigo.
E se o dia nasce na separação da noite e o horizonte, acompanhado de nuvens ansiosas por libertar sobre o mundo um doce chover, é a primavera a querer espalhar as suas cores sobre as flores, o trigo e pomares a crescer.
O vento levantou-se de mansinho e o sono fez-se presente, nos meus olhos e pelo corpo uma moleza se aconchegou  devagarinho.
Ligo o telefone e leio com alegria, uma mensagem de um ente querido. Desejos de um amanhecer suave, com carinho.
O silêncio enche o espaço e acompanha-me com pudor ao leito. Sabe ele tão bem o que me vai na alma e no peito.
Hoje houve aplausos e cânticos, ainda que se carregue a dor, foi por agradecimento e amor aos amigos de farda verde, azul, vermelha ou branca.
Heróis plastificados, mascarados e prontos para a guerra, sem taças, medalhas ou louvores.
Talvez amanhã nos possamos reunir, olhar nos olhos, agarrar mãos e beijar quem nos quiser sentir...
Assim me deito esperançada, pois a paz nasceu-me na alma, vai-me até amanhã embalar...
                                                                          
Ana Mendes

Todos os textos publicados na rubrica EM TEMPOS DE QUARENTENA são da responsabilidade exclusiva dos autores e os direitos respectivos apenas a eles pertencem.