sábado, 27 de março de 2021

DEZ PERGUNTAS MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL... SANDRA SANTOS

Agradecemos à autora SANDRA SANTOS pela disponibilidade em responder ao nosso questionário


1 - Poesia, prosa ou conto, por quê?


Tanto faz, contanto que saia da alma.


2 - Quase um ano de pandemia, o que mudou na sua rotina, enquanto autora?


Trabalho só em casa desde março de 2020, tendo ido duas vezes ao escritório entre junho e outubro de 2020. O que era provisório, virou permanente.


3 - O que tem feito para manter-se produtiva e dar continuidade aos projectos em tempos tão restritos?


Tenho sido muito produtiva nesta pandemia, acho que todos os criativos estão muito ativos no momento da pandemia. Já participei de mais de cinco coletâneas e lancei um livro, o HERstory – escreva a sua história! (com prefácio de Maria Valéria Rezende). Agora no começo de 2021, mais algumas participações em coletâneas já estão garantidas, também junto do Mulherio das Letras Portugal.


4 - Pontos positivos e negativos na sua trajetória na escrita.


Positivos: ter ganho amigos para toda a vida, ter ido com meus livros a lugares que ainda não visitei pessoalmente. Negativos: revisões intermináveis antes dos lançamentos!....


5 - O que pensa sobre essa nova forma de estar, onde tantas pessoas começaram a utilizar LIVES e VÍDEOS para promover suas atividades?


Excelente forma de divulgação, populariza a arte! Como diz a minha mãe e aquele velho ditado, a necessidade faz o sapo pular!


6 - Acredita que o virtual, veio ocupar um espaço permanente, sobrepondo-se aos encontros literários presenciais, pós pandemia?


Acredito que o virtual veio para ficar e no momento pós-pandemia teremos um misto híbrido, proporcionando o encontro presencial e virtual de forma paralela.


7 - Se pudesse mudar um acontecimento em sua vida literária, qual seria?


Ter podido lançar meu novo livro HERstory de forma presencial em minha cidade natal, Belo Horizonte. Ainda lançarei em um futuro próximo!


8 - Indique-nos um livro que lhe inspirou.


O Presente do Mar, de Anne Morrow Lindbergh

Cassandra Speaks – when women are the storytellers, the human story changes


9 - Quem é Sandra Santos no reflexo do espelho?


Uma mulher que sente orgulho de quem é, porque lutou para ser quem é. E uma menina de maria-chiquinha sonhadora, que desde cedo se interessou por idiomas e por temas sociais, pela Justiça e quis conhecer o mundo.


10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?


Quais são os seus próximos projetos literários? Tem um sonho literário?

Escrever poemas, artigos, livros.... e quem sabe também traduzir meus livros para outros idiomas e outros livros para o português. Escrever e viver da escrita!


Sandra Santos, a Mineirinha n‘Alemanha

Mora no país desde 1993. Desde 2003 ela tem um blog homônimo, desde 2008 vem publicando livros e participando de coletâneas. A Sandra é mineira de Belo Horizonte, é casada e tem dois filhos, escreve para ela e para o mundo por acreditar que tudo está interconectado, que somos e devemos passar luz para os outros e por ter fé em um mundo mais justo e fraterno. O último livro dela fala de sororidade e sobre o feminismo consciente, leva à reflexão e empodera: HERstory – escreva a sua história!

@mineirinhanalemanha

www.mineirinhanalemanha.de

www.sandrasantos.de

sexta-feira, 26 de março de 2021

DEZ PERGUNTAS MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL... RITA QUEIROZ

Agradecemos à autora RITA QUEIROZ pela disponibilidade em responder ao nosso questionário


1 –Poesia, prosa ou conto, porquê?

 

Escrevo os dois, mas prefiro poesia, sinto-me mais à vontade, mas a prosa tem me tomado também.

 

2 - Quase um ano de pandemia, o que mudou na sua rotina, enquanto autora?

 

Enquanto autora, não mudou, pois continuei escrevendo, publicando livros, participando de coletâneas/antologias/revistas literárias, me apresentando em saraus virtuais e eventos diversos, como feiras e festas literárias.

 

3 – O que tem feito para manter-se produtiva e dar continuidade aos projectos em tempos tão restritos?

 

Tenho buscado a meditação, o que tem me ajudado bastante. Além disso, as ideias fervilham na mente e eu escrevo, dando vazão aos sentimentos.


4– Pontos positivos e negativos na sua trajetória na escrita.

 

São poucos pontos negativos, pois os positivos superaram minhas expectativas. Tenho participado de vários grupos nas redes sociais, conhecido muita gente, o que favoreceu a minha inserção em muitas publicações e eventos literários.

 

5– O que pensa sobre essa nova forma de estar, onde tantas pessoas começaram a utilizar LIVES e VÍDEOS para promover suas atividades?

 

Essa nova forma de estar propiciou a aproximação de pessoas que vivem muito distantes. Hoje é possível falar com pessoas que estão em outros continentes, dialogar, partilhar as mesmas dúvidas e alegrias. As modalidades presenciais são ótimas, nada substitui o abraço afetuoso, o calor humano, mas nem sempre, por questões diversas, se pode ir a todos os eventos. Nessa nova forma de estar, o “estar” se fez possível.

 

6 – Acredita que o virtual, veio ocupar um espaço permanente, sobrepondo-se aos encontros literários presenciais, pós pandemia?

 

Acredito que teremos pós pandemia um modelo híbrido: presencial e remoto, favorecendo a uma partilha mais ampla e irrestrita.

 

7– Se pudesse mudar um acontecimento em sua vida literária, qual seria?

 

Nenhum.

8 – Indique-nos um livro que lhe inspirou.

 

Tereza Batista cansada de guerra, do escritor baiano Jorge Amado. A história de Tereza, apesar de todo o sofrimento porque passou, é de superação e encorajamento da luta feminina e feminista.

 

9 – Quem é Rita Queiroz no reflexo do espelho?

 

É uma pessoa sonhadora, que gosta de realizações e que vai em busca disso. É uma pessoa que gosta de desafios e que não tem medo de encará-los.

 

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

 

Por que você escreve? Porque a escrita me leva a mundos diversos, fazendo-me uma pessoa mais feliz.

 

Rita Queiroz - Natural de Salvador – BA.

Pós-doutorado em Estudo de Linguagens (UNEB), doutorado em Filologia e Língua Portuguesa (USP), mestrado e graduação em Letras (UFBA). Professora universitária. Autora de 5 livros de poemas para o público adulto e 5 livros para o público infantojuvenil; organizadora de 8 coletâneas. Integra os seguintes coletivos: “Confraria Poética Feminina”, “Mulherio das Letras” e “Coletivo de autoras de literatura infantojuvenil da Bahia”; além de fazer parte das seguintes academias: AVAL, AILB e ACILBRAS.

quinta-feira, 25 de março de 2021

DEZ PERGUNTAS MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL... VIEIRINHA VIEIRA

Agradecemos à autora VIEIRINHA VIEIRA pela disponibilidade em responder ao nosso questionário


1 - Poesia, prosa ou conto, porquê?

 

A poesia é uma necessidade de expressão, já quanto ao conto e prosa é a necessidade de evolução, uma forma de alongar, começar a melhorar e aventurar em histórias cada vez mais elaboradas.

 

2 - Quase um ano de pandemia, o que mudou na sua rotina, enquanto autora?

 

Quebrou a minha vontade de escrever sem dúvida, mas continuo ativa em vários projetos. 


3 - O que tem feito para manter-se produtiva e dar continuidade aos projetos em tempos tão restritos?

 

Tenho optado por fazer formação e assumido alguns projetos os quais depois comprometida obriga-me a cumprir.


4 - Pontos positivos e negativos na sua trajetória na escrita.

 

Tenho encontrado vários pontos positivos, tais como a minha evolução como ser humano a melhora da minha escrita, minha saúde. Quanto aos menos positivos, creio que foi a seleção que a escrita fez por si só na minha vida. Tal como um crivo… 


5 - O que pensa sobre essa nova forma de estar, onde tantas pessoas começaram a utilizar LIVES e VÍDEOS para promover suas atividades?

 

Sou muito mais exigente comigo do que com a media das pessoas, mas gosto, gosto em particular de ver as partilhas e do ato saudável de partilhar amores comuns.


6 - Acredita que o virtual, veio ocupar um espaço permanente, sobrepondo-se aos encontros literários presenciais, pós pandemia?

 

Não creio que seja permanente, não acredito que existam coisas permanentes, mas que cada vez mais haverá essa necessidade, sim. Até porque existe em algumas pessoas uma enorme fome pela exposição, aparecer e estar na linha da frente.


7 - Se pudesse mudar um acontecimento em sua vida literária, qual seria?

 

Não mudaria nada. Costuma-se dizer que cada um dá o que tem no coração e recebe com o coração que tem, tem sido um aprendizado constante e eu sinto-me confortável por baixo da minha pele. 


8 - Indique-nos um livro que lhe inspirou

 

Não tenho lido muito nos últimos tempos, optei por adquirir e formalizar minha formação, como tal a leitura teve de ficar para um outro plano. Muito embora exista um livro que não vejo tanto como inspirador, mas sim, uma força, motivação "Um homem em busca de um sentido de Victor E. Franki.


9 - Quem é Vieirinha Vieira no reflexo do espelho?

 

No reflexo do espelho vejo alguém de coragem, audácia e amor. Um alguém disposto a transmutar e viver, alguém que se recusa a seguir caminhos predefinidos.


10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

 

Eu estou na área do coach, as perguntas são a nossa praia :) O porquê do teu silêncio? Até para falar há um tempo certo.

 

Vieirinha Vieira

Nascida a 10.05.76 em V. N. Gaia. Nome próprio Cláudia Vieira.

Professional & Self Coach, Psicologia positiva. Hipnoterapeuta, escrita, escrita criativa, dança (diversos tipos), canto, teatro e comunicação, teatro musical e psicologia.

Participação mais 80 livros como co-autora, e autora de 2 livros , membro de diversas academias Blogger: peemviagem.blogspot.com.

 

domingo, 21 de março de 2021

Remando contra a correnteza (excerto) - SANDRA HELENA DOS SANTOS FARAH

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Minha vida seguia o curso normal. Quando digo normal, me
refiro ao que aprendemos desde pequenos: estudar, se formar,
arranjar um emprego, casar e ter filhos. Como uma correnteza
suave que te leva pela vida, sem que você perceba, claramente,
que está sendo levado.
Estava tudo fluindo regularmente: formada, empregada, vivendo
em outra cidade e casada. E, como acontece com todo casal
nessa fase, a pergunta sobre filhos começou a surgir. Mas, não
estávamos com pressa. Queríamos curtir a vida a dois e aproveitar
aquilo que construímos. Por que passar para a próxima fase sem
desfrutar dessa?
Eis que chegou o momento em que o curso normal foi mais
forte e nos empurrou para a próxima fase.
Que fase difícil! Foi mais de um ano tentando engravidar e
nada. Fiz vários exames, estava tudo bem, coube então ao meu
marido.
Foi quando descobrimos que ele é estéril, que, pela primeira
vez, saímos da correnteza e paramos para pensar: “E agora?”
Um choque para nós e para a família e, em meio a um turbilhão
de sentimentos e pensamentos, entramos em um segundo
curso normal.
Essa nova correnteza nos levava para o caminho das consultas
com especialista em fertilidade, baterias de exames, congelamento
de óvulos, inseminação e possível gravidez. Começamos a seguir
esse curso, mas, depois de muitas conversas, escutar familiares,
amigos e falar com pessoas que passaram pela mesma situação,
decidimos não seguir adiante.
E não é que, quando nos demos conta, já estávamos flutuando
em outra correnteza? A da adoção.
Nesse momento, eu e meu marido, que já lidávamos com todos
esses assuntos a cerca de dois anos, decidimos parar e fazer
outra escolha.

EM - MÃES - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 18 de março de 2021

À Vó (z) da Gratidão - ALDIRENE MÁXIMO

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Não tive o privilégio de conhecer minha avó paterna. Ela partiu muito antes de eu nascer. Dizem que somos parecidas.

O que sei é que ela era muito especial.

Seu sonho era que meus pais se casassem. Porém, partiu antes desse sonho se realizar.

Meu nome foi originado do seu. Irene, do grego, “Paz”. Sim, a pacificadora. A raiz da sabedoria.

Em fotografias, percebo o quanto foi feliz.

Cumpriu sua missão!

Linda de alma e coração, inspirou-me lindos poemas de Amor e esperança.

Queria ter podido sentir o seu abraço, seu perfume e conhecer a magia de suas belas palavras. Queria poder dizer o quanto sou grata por ser sua neta, o quanto sou grata por pertencer as suas profundas raízes, dizer que também tenho grandes cicatrizes e que quero ser uma linda árvore de belos frutos, para assim, honrar a semente que um dia ela plantou.

EM - ELAS E AS LETRAS (INSUBMISSÃO ANCESTRAL) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 11 de março de 2021

Eles e eu (excerto) - JÉSSICA RODRIGUES

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Esta história fala de um triângulo amoroso. Conta de gente comum,
mas cheia de afinidade e cujas tramas da vida se cruzaram
de um jeito muito peculiar. Ela, aos vinte e um, foi surpreendida
pela chegada de uma menina; eu, aos vinte e quatro, de um menino.
Engraçado dizer, mas quando engravidei ela afirmou que
eu ainda era muito jovem, que podia ter esperado mais. Logo ela,
que me teve ainda tão cedo. Saldo de três para mim. Porém, entendo
o seu ponto de vista – hoje mais do que ninguém. Aprendi
a ser mãe, me inspirando nela também.
Filhos não vêm com rótulo de identificação dos componentes,
não têm peças de reposição nem manual de instruções, não é
mesmo? Eu, a primogênita dos três dela, fui piloto, e ela se virou
muito bem. Ele meu unigênito, e eu me virei também. Três gerações
distintas, muitas trocas e possibilidades para aprender: ela,
ele e eu.

Entre idas e vindas o casamento dela durou dezoito anos
(pode ser que eu esteja enganada com os números, mas foi aos
dezoito que me lembro de meu pai indo embora pela última vez.
Eu fui casada por quase oito (a tal crise dos sete anos parece que
valeu para mim) e nesta conta maluca ela ficou com saldo de dez.
Foi aqui que descobri que antes de ser mãe, a gente é mulher,
acreditam? Sim, porque a chegada dos filhos nos leva a certa anulação
de nós mesmas por um tempo. Os cuidados que as crianças
demandam nos transformam em seres quase exclusivamente
maternos. Suga força, energia, fôlego... Ufa! Pois bem, vê-la se
interessando por outro homem não foi fácil para mim. Não foi
fácil para ele também, quando chegou a minha vez. É... O mundo
dá mesmo muitas voltas.

EM - MÃES - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 8 de março de 2021

Relicário - ADRIANA MAYRINCK

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O ar quente, com o cheiro de maresia que só Recife tem, fazia-me sentir novamente em casa, quando ia passar as férias de verão. Uma lar que nunca deixei, ao mudar-me para o Rio de janeiro aos três anos de idade. Também sentia-me em casa nas areias de Copacabana. Mas metade das lembranças de infância, são do colo do avô paterno na rede, enquanto desenhava seu famoso burrinho (único desenho que sabia fazer), a avó sempre na cozinha, fazendo doces ou biscoitos (de Natal)... depois puxava a cadeira para longas conversas, sobre bons costumes, família e religiosidade. Na época, preferia ver os burrinhos ganhando forma, mas hoje, ainda ecoam as palavras da minha avó e seus olhos profundamente azuis e sua mania de mordiscar a língua.

A praia bem ao pé de casa, os coqueiros balançando junto com a brisa que acarinhava os meus cabelos e os passeios pelas ruas de Olinda e Recife, com uma caixa de “isonor” no colo cheio de sorvete de graviola, mangaba e pitanga. Sabores que guardo ainda hoje, que permanecem na lembrança das férias na casa em Pau Amarelo. O Avô médico (anestesista) e muito bem disposto com suas anedotas e um jeito muito peculiar de falar palavrão. A Avó professora, extremamente católica, vivia de terço na mão. Tantas estórias e histórias eu ouvia, naquele tempo que passava junto com eles e como adorava ver o avô de roupa e sapatos brancos ajudando aquela gente que aparecia no portão em seu dias de férias na casa da praia. E a avó com a chave na mão, trancando a dispensa, pois a comida da casa, só ela quem cuidava.

Sair daquele fresquinho perto do mar, sempre descalça e despenteada e ter que colocar vestido e sapato para almoçar na casa dos bisavós no calor escaldante de Recife era uma penitência, só esquecida ao chegar lá, olhar para aquela casa imensa, catar azeitonas pelo chão, que deixavam a boca e toda a roupa manchadas de tinta roxa, ou pegar carambola no pé e balançar tentando chegar às alturas no banco de balanço, que ficava na varanda para os velhotes apreciarem o final da tarde, e nós, primos reunidos de diversas idades, querendo que se transformassem em objetos voadores, sem sucesso. E aquela mesa enorme farta, que estava sempre arrumada com iguarias a qualquer hora do dia, todos os dias, para quem chegasse. A família tinha sempre que bater o ponto de encontro, e todos sabiam que ali era o porto, de chegada, de acolhimento, de fartura, de amor, chamado Mãe Berta (minha Bisavó). Tias, tios, primos, avós e bisavós, meus pais e irmãos, com suas vozes e risadas misturadas, me faziam sorrir e acreditar que era pra sempre. A Zefa (tb já idosa) e a Zefinha (não necessariamente mãe e filha, estavam lá toda uma vida, ajudando a manter a casa e a cozinha em ordem. Lembro de um quarto só com quadros de todos os filhos, netos, sobrinhos e bisnetos nas paredes, em retratos e de uma escada enorme com tapete cor de vinho que levava para um lugar que criança não podia entrar para não fazer bagunça para não incomodar a bisavó que descansava. O bisavô se foi, quando eu ainda era bem pequena. E apesar de bem velhinha, Mãe Berta (a bisavó) permanecia em sua cadeira, a balançar e a receber a família, com o passar dos anos, um pouco menor, netos adultos, bisnetos mais crescidos, casamentos, batizados, viagens e mudanças de cidades... Um dia, a bisavó, foi para junto do bisavô. A família silenciou e a casa foi vendida.

A minha avó (também Berta) assumiu a união da família, pelo menos uma vez na semana, fazia questão de receber em sua casa, bem menor e sem tanta mordomia esses encontros com a família, já bem mais dividida. Mas as quatro irmãs (Berta, Maun, Zeca, bem alvas e de olhos claros e Nelsa – negra com olhos de jabuticaba) sempre muito unidas, eram o que eu mais admirava, quando recebia as notícias da minha família em Recife. As minhas férias deixaram de acontecer, e no ir e vir do tempo... alguns anos se passaram sem ver os avós. O avô com a doença de Parkinson, já não mais desenha e não ouvia, sem a ajuda do seu aparelho auditivo, que desligava quando não queria chatear-se e um dia, dormiu e não mais acordou. E anos mais tarde, foi a avó que já não reconhecia mais ninguém com uma doença que a fazia esquecer a família, a casa da Mãe Berta e tudo o mais, o tal do Alzheimer. E a avó, após muito sofrer, foi para junto daquele que ela tanto se agarrava em seus terços e orações. Assim como o meu pai, o meu tio e três primas, que deixaram seus ecos naqueles encontros na casa da Mãe Berta.

Percebo a força feminina, de uma família regida em sua maioria, por mulheres.

As tias, tão velhinhas e queridas, ainda encontrando-se às terças-feiras na casa da Tia Maun, e a minha tia Preta, também vai, representando minha avó Berta.

Ao longe, com quase cinquenta anos e na outra margem do oceano, trouxe o livro que a minha tia Maum escreveu, e com ele nas mãos, esse LEGADO DE AMOR, à beira do Tejo, vejo imagens e relembro esse tempo bom.

Ficaram os ecos das vozes, os cheiros, os sabores e as presenças, das mulheres que deixaram lembranças e muita saudade. Que marcaram, meu tempo de infância e depois que tornei-me mãe, compreendi a importância da palavra família, aquelas lições que tanto a minha avó, queria me ensinar, quando puxava a cadeira e me chamava para sentar.

São ricas memórias, herança ancestral - guardadas em um relicário.

EM - ELAS E AS LETRAS (INSUBMISSÃO ANCESTRAL) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 1 de março de 2021

Do senso comum ao bom senso (excerto) - ROSA ACASSIA LUIZARI

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Gabriel nasceu em noite conflituosa e me perguntei por que escolhi
ser mãe. A autorresposta fluiu como ocorre com o corpo feminino
quando deseja abrigar uma extensão.doc da própria vida.
Além de ser fruto de uma época em que as mulheres tinham a
maternidade como condição sine qua non, eu queria internalizar
o sentido de sê-lo, sair do senso comum e exercer meu bom senso
ao dar voz a uma nova vida. Eu queria descobrir o sentido de
materializar o desenvolvimento da extensão de meu corpo que,
ao mesmo tempo, não é meu. É outro.
Gabriel cresceu longe de mim, fato decorrente de minha separação.
Se estivesse comigo durante toda a infância, essa teria sido
tão conflituosa quanto a noite de seu nascimento.
Três anos foi tempo suficiente para Gabriel experimentar o
doce e o amargo de ser meu filho e de Renato. Nascido no intervalo
de nove brigas intensas, era uma criança alegre. Aproveitei
bastante o sorriso dele em meio às brigas que motivaram a minha
separação.
Eu era doutoranda em uma conceituada universidade e Renato
pensava que isso fosse perda de tempo. Não era. Conquistei
meu espaço. Resolvi que em minha vida tudo seria uma sucessão
de avisos prévios concedidos a mim por mim mesma. Só não o
era a rejeição de Renato em relação a Gabriel.
Quando a mistura de nossas personalidades veio ao mundo,
nenhum sorriso ou foto. Na memória do pai, apenas o fato.
Ainda bem que as mães registram o nascimento de seus filhos de
um modo diferente dos homens. Não precisam de fotografias. O
calor da extensão de seus corpos é a certeza de que o filho está ali
e de que tudo se renova.
Gabriel foi um bebê muito amado por mim e por Renato. Ele
amava o nosso filho. Do jeito dele.

EM - MÃES - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Cangalha do Vento (excerto XXIV) - LUIZ EUDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Foi ao anoitecer do último ano de dependência político-administrativa do Junco, visto que já havia um movimento em torno da emancipação do lugar, ano de muita seca, o prefeito de Inhambupe procurava um lugar para cavar um açude. Alguns achavam uma loucura sem igual o cavar daquela aguada e outros pensavam que o povo de Inhambupe queria acabar com o Junco porque quando enchesse aquele açude, seria tanta água que o lugar seria inundado. Pois eis que, quando procuravam um lugar para cavar o açude, descobriram petróleo. Os homens da Petrobras vieram estudar o caso, acamparam por aqui, trazendo movimento para o arruado. Mas não havia por onde os carros da empresa trafegar e os homens abriram clareiras e fizeram mais uma estrada, dessa feita larga, para trafegar carros e caminhões, não como a que havia antes que servia só para levar o gado para as soltas dos tabuleiros e para o transitar de carros de bois.

EM - CANGALHA DO VENTO - LUIZ EUDES - IN-FINITA

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

O tiro - LUIZ EUDES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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O mar o atrai. Entrou, olhos fixos na imensidão. O sol a pino lançava
chispas ao céu, que se refletiam sobre as águas transparentes,
ofuscando-lhe a visão e a mente.
O homem se lembrou de quando conheceu o mar. Era um
domingo e ele, menino ainda, fartou-se em banhos e caranguejos.
A primeira vez que se vê o mar, com seu cheiro bom, suas ondas,
sua cores, guarda na lembrança, na pele, no coração, o deslumbramento.
Risadas soltas, brincadeiras e correrias absorvem a atenção dos
banhistas. A primeira onda alcançou-o e ele não teve dificuldade
em saltá-la. A segunda quis derrubá-lo com violência. Tentou
firmar-se, mas o chão parecia escapulir. Não pode evitar a queda.
Um tiro ecoa no ar e um corpo ensanguentado torna-se visível
na areia. De repente as águas, sempre verdosas, são tingidas de
vermelho. Olha para os lados, para trás, para frente, para o verde
do mar, tentando fugir da imagem do corpo estendido no chão,
do sangue escorrendo... O estampido ainda ecoa em seus ouvidos
e a retina teima em manter o registro da imagem.
Como naquela canção que toca no rádio, olhou o corpo no
chão e fechou a janela de frente pro crime.

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Tens que aguentar (excerto) - CLÁUDIA CAROLA

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Nunca tive muita empatia por crianças, não era daquelas jovens
que desde sempre sonhava em ser mãe, que já sabia o nome da
criança se fosse menina ou menino. Durante a minha juventude
disse muitas vezes que eu seria uma mulher independente, sem
filhos e sem casamento.
A vida, no entanto, tinha outros planos e aos vinte e quatro
anos estava casada com uma filha a chegar. Tive a gestação mais
tranquila que se pode ter, trabalhei até o fim, engordei pouco e
me sentia bem, apesar de ter passado o verão de 2003 grávida,
não me custou nada. Eu me sentia mais pesada e cansada, mas
nada daquilo que ouvia de outras pessoas com enjoos e afins.
Achei que, afinal, não havia nada a temer e que tudo era menos
complicado do que pensava…
Foi com esse espírito tranquilo que numa madrugada, por
volta das seis e meia, acordei o meu marido para irmos para a
maternidade. E foi nessa manhã que tudo mudou…
As dores começavam a apertar e eu achava que não iria aguentar.
Quando estava perto do nascimento da criança, chamaram o meu
marido, pensei que seria mais fácil com o seu apoio, estava errada.
A única coisa que eu dizia era que: “Dói, isto dói muito!!!”, ao
que o meu marido se limitou a responder: “És uma medricas! Tens
que aguentar.”.
Aquela frase dita com uma frieza que jamais esperava de quem,
era suposto estar ali para me apoiar, me deixou sem chão. Depois
disso, retraí tudo o que sentia: a ansiedade, as lágrimas, as dores
e nada mais disse.
Quando a colocaram em cima de mim não me controlei mais
e chorei, o meu corpo começou a tremer como nunca tremera
antes. Sei hoje que era o libertar emocional de tudo o que tinha
bloqueado até a criança nascer, mas na altura nada sabia. Não
conseguia controlar o corpo, como se estivesse na rua em pleno
mês de dezembro com frio e totalmente despedida. Foi algo que
só anos mais tarde consegui estudar e entender/perceber aquela
reação, que igualmente passou despercebida ao meu marido.

EM - MÃES - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Cangalha do Vento (excerto XXIII) - LUIZ EUDES

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Ir à Fazenda Baixa Funda, os descendentes de seu Aristeu não iam, mas ao Oca Toca todos gostavam de ir. Fernando era frequentador do bar. Aprendeu a conviver com a noite e os notívagos nas suas idas ao Clube Social Oca Toca. O seu pai era amigo de Zé Grosso desde a época em que ele ligava o motor da luz, isto num tempo em que o Junco era iluminado das seis da tarde às dez da noite por um gerador a óleo diesel e era o festeiro Zé Grosso quem o ligava e desligava. Nas noites de festas era um tal de pede-pede ao velho trompetista, com promessas de cerveja farta nos eventos que aconteciam, por vezes no Matadouro Municipal, em outras na velha praça empoeirada, quando os músicos tocavam sobre a carroceria de um caminhão.

EM - CANGALHA DO VENTO - LUIZ EUDES - IN-FINITA

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

A pandemia - SARA TIMÓTEO

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Era o tempo em que as coisas morriam; ele via divagar pelo velho
rio cinzento os troncos arrancados ao chão da lezíria, bem como
as gaivotas envenenadas que arquejavam, moribundas, sobre as
ilhas de plástico que quase pareciam belas sob a luz cinzenta da
tarde eterna.
Nesse tempo falava-se de uma pandemia, algo que havia mudado
o bom curso da natureza das funções animais, humanas e
vegetais. Dos minerais não se conhecia história desalmada de perdas
e nem notícias deles havia, exceto daqueles que se calcavam
por via da labuta dos dias.
Era o tempo em que as coisas morriam. O nascimento era,
agora, reservado aos muito ricos, os únicos a conspirar para alcançar
uma velhice onde se alquebravam e enlouqueciam, vertendo
líquidos e sólidos sem memória das funções do corpo e destituídos
da glória alicerçada em feitos passados.
Pandemia outra não conhecera que não a da ganância humana,
uma ambição desmedida como uma fúria sem dono. E também
ele estrebuchava, animal, quando o desejo o possuía como uma
corrente alterosa de fraqueza e lume.
Morria, sabia-o com todo o unto que lhe desgrenhava os cheiros
e texturas do corpo. Era uma não-memória destinada a perecer à
sombra do dia esculpido pela fome.

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Cangalha do Vento (excerto XXII) - LUIZ EUDES

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O incómodo residia em presenciar toda aquela situação de abandono e dor. É verdade, é muito doloroso ver a sua história sendo devorada pela ação impiedosa do tempo a devastar todo um passado de alegria, de amor, de luta, de trabalho e de vida. O tempo estava a ser implacável e a transformar tudo num futuro de abandono e dor. 
– Não, não virei mais aqui. Nunca mais. Não posso ajudar a alimentar os fantasmas que habitam neste espaço. 
Voltaram à cidade. Café levava fotos, Fernando culpa, e José Paulo as dores da lembrança. 
Aquele sentimento de culpa estava muito forte e violento em Fernando. Não deveria ter levado o seu pai a visitar a Fazenda Baixa Funda. Sentia remorso por ter feito aquilo. Precisava sair para arejar os pensamentos.

EM - CANGALHA DO VENTO - LUIZ EUDES - IN-FINITA

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Evasão - SANDRA RAMOS

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Todos os dias as mesmas rotinas: limpeza, distância, contenção.
Todos os dias o foco nas notícias: contaminados, curados, mortos.
Todos os dias a ligar aos meus, aos que prezo, aos que amo.
Todos os dias, sabe-se lá por quantos mais dias...
Saio para o trabalho, e a cidade está deserta.
Como na música dos Ornatos, afinal:
“Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã e eu tinha tantos
planos para depois…”
O mar não fechou, por isso saio, cautelosamente.
No porta-luvas um salvo-conduto para o trabalho.
Sigo paralela ao rio, nessas estradas vazias.
Impassível, o Tejo corre, os pássaros voam.
E eu, condutora em quase domingo, sigo,
enquanto saboreio o som da natureza em descanso
dos carros, do barulho, das vociferações humanas.
Entro num edifício cheio de ausências.
Desinfecto novamente as mãos.
As tecnologias permitem-me trabalhar,
colocar num ecrã os rostos e as vozes com quem usava
partilhar os dias.
Assim passo o dia, na solidão física, no contacto de espírito
e almas.
Almoço o que trouxe de casa, que já não há onde comer,
nem restaurantes, nem cafés.
A máquina dispensadora da empresa há muito que prescreveu.
Saio para a rua, só, entro no carro, naquele local, ao sol,
escolhido criteriosamente na vastidão do parque.
Acondiciono o corpo no banco reclinado.
As pernas esticam-se, procurando o sol.
Embalo a alma com as folhas do livro.
Sigo adiante, inebriada pelo vento que trespassa as janelas.
Adenso-me na trama, distraidamente afago o cabelo,
reponho o desinfectante.
Levam-me ao Tarrafal, sinto o calor húmido, as águas fétidas.
As agonias dos homens que sofrem,
as mulheres de crianças nas costas,
que trabalham por entre o pó.
A dor, a doença, a involuntária contenção.
Fecho o livro, incapaz de abarcar mais desgraça.
Fecho os olhos, foco sem pejo, sem medo, directamente o sol.
Encandeada, face a ruborizar, deixo que o calor me inunde,
me relaxe, me leve sem resistência,
numa consciente e progressiva inconsciência,
Em que o som se afasta, languidamente,
o discernimento é paulatinamente ofuscado,
Como naqueles dias de praia,
em que me estendia ao sol, o astro queimando-me a pele,
Eu numa indolência crescente,
saboreando a onírica e tão desejada,
Evasão.

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Estava escrito (excerto) - ROSE PEREIRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Tinha medo de me tornar mãe de menina. A ausência de proteção
e confiança, imprescindíveis na infância, me fez acreditar na
incapacidade de resguardar uma vida desde o nascimento, principalmente
se acaso gerasse em mim um ser feminino.
De toda forma, os seios lambuzados pelas lembranças, definitivamente
não alimentariam este pecado. E no conflito entre ser
mãe, não desejar ter filhas, doente de alma, suplicante de fé, meu
ventre germinou.
Nasceu meu primeiro menino, conforme anunciado em sonho
poucos meses antes: no castelo, erguido sobre nuvens no céu, um
jovem arrumava o cabelo em frente a um espelho. Vestia uma
túnica preta e trazia consigo o livro sagrado. Virou-se, abriu as
portas duplas da entrada, um caminho de luz direcionava seus
passos... e eu ali, admirada, sem conseguir ver seu rosto e sem que
ele notasse minha presença. Sumiu em meio a abóbada celeste.
Vaguei na muralha de pedra, sentindo as contrações daqueles instantes,
e de repente, uma senhora apareceu e me disse: “É Gabriel!
É Gabriel.”
Ele cresceu como um verdadeiro anjo, cercado dos cuidados
que minha pouca maturidade soube conferir. A luz, contudo, o
guiou sempre e fez dele um bom filho, um profissional atencioso,
um esposo dedicado, um pai amoroso, um cristão a serviço de
Deus.
A segunda gestação veio quinze anos depois. Meu subconsciente
ainda afirmava os mesmos medos. Que fosse saudável, mas
que não fosse menina! Não consentir que outro feminino sofresse
as mazelas da vida, se tornou um comprometimento moral,
e minha culpa aliviava somente depois do nascimento. Então,
Guilherme nasceu.

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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Cangalha do Vento (excerto XXI) - LUIZ EUDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Já havia muito tempo distanciando-os daquela terra onde cresceram todos. Aquela terra antiga na Fazenda Baixa Funda, cuja história da família tivera início com a chegada do antepassado Paulo Vieira de Andrade, que aportou no Junco no remoto ano de 1875, vindo de Bom Conselho, atendendo ao chamado do seu compadre, João da Cruz. Esse Paulo Vieira, que era avó de Aristeu, o Galego, e bisavó de José Paulo, Israel, Fernando, Juvêncio e todas as meninas e outros irmãos. 
O último que tentou manter a terra foi Juvêncio, ao regressar da sua empreitada no sul. E a luz voltou a brilhar naquela casa, agora com toalhas brancas a forrar as mesas, vasos de plantas, xaxins de chorão e samambaias pendurados nos alpendres a decorar a entrada da morada, pés de buganvílias trepando pela cancela e no rol, à sombra do pé de flamboyant, a cadeira de balanço do velho Galego, devidamente reformada, onde ao final de mais uma jornada de lides rurais Juvêncio balançava-se com o olhar perdido no horizonte a observar mais um dia que se encerrava tingindo o céu de escarlate.

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sábado, 6 de fevereiro de 2021

Cangalha do Vento (excerto XX) - LUIZ EUDES

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Contou ao filho sobre aquelas manhãs. Os velhos cajueiros, quem sabe estariam lá? Ele levá-lo-ia para ver um dia. Tudo parecia mais claro naquelas manhãs. O pai, circunspecto, vigiava os irmãos e as irmãs que, quando folgadas do serviço de casa, brincavam de roda, ou agachavam rindo com mexericos, ou pintavam o rosto com o cuidado de não parecerem mulheres da vida. O velho Aristeu consentia, sabia que a mulher deveria ter sua vaidade, não queria ser um bronco como o pai fora.
– Todas as coisas que te digo, meu filho, fazem parte de ti. Por isso é bom ouvir as coisas do passado, pois um dia terás um para contar também aos teus filhos.

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

ADRIANA MAYRINCK FALA DE... POLICROMIA PARA CEGOS

O tempo. A vida. A invisualidade. A poesia. A imortalidade. E tudo o que envolve e está inserido nesses elementos, o livro POLICROMIA PARA CEGOS traz em todo o contexto da obra e além das entrelinhas. Um trabalho bem elaborado e lapidado por quatro mãos. As mãos que direcionam as palavras que bailam na não visão, mas que fazem ecos no sentir. A percepção dos poetas que atrevem-se a vivenciar experiências que não lhe são comuns para despertar a atenção para aqueles que nos rodeiam e diferem por estarem em paralelo e, ao mesmo tempo, em um mundo íntimo e desconhecido para nós, que temos um sentido a mais.

A liberdade de expressar o que supostamente é percebido de um modo diferente, em forma de poesia, com palavras utilizadas em completude e sintonia por dois poetas que fizeram da arte da escrita, e de vivências distintas, uma pequena e significativa obra que enternece e alimenta a alma, a cada página virada. O lirismo que escorre por entre as linhas e por nossos olhos úmidos, ao depararmos com a harmonia e a leveza poética de um estado não comum em nosso pensar. Perceber o outro, a vida e os seus significados além do que se vê. Entrar em um mundo tão particular, se deixar ficar, explorar e vivenciar sem pré-conceitos ou resistências.

Jesús Recio Blanco e Emanuel Lomelino mergulharam a fundo nessa escuridão que antevê a luz, a sensibilidade do olhar para o que não se vê, o tempo de construção poética, a arte intrínseca no mundo que se faz descoberto sem a experimentação, a percepção do sentido do outro, com suas vivências, dificuldades, agonias e libertação, a essência individual na análise cotidiana e a visão de quem está do lado de fora olhando para o não comum, convida o leitor a apurar os sentidos e desnudar-se do habitual.

POLICROMIA PARA CEGOS fala do tempo com ou sem limitações, fala da vida interior, do seu transbordar e da lição que ela nos traz, fala dos invisuais e de suas percepções, fala da imagem de uma escuridão iluminada, das experiências do outro que se faz oculto por um limite imposto, da imensidão do sentir dos poetas, da solidariedade e atenção, fala das diferenças. Fala da arte das palavras, desde a imagem da capa, ao pulsar inerente de cada poema, que transforma o instante da leitura em um fio condutor para o despertar da imortalidade, de uma outra visão, a interior, que ultrapassa a última página.

DRIKKA INQUIT

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Danos irreparáveis - MARINA MARINO

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Liberdade

Maravilhosa sensação de ir e vir para onde se desejar;

Estado de ser e de viver de quem sabe que é dono do próprio
nariz;

Grau máximo de autonomia que se adquire ao longo da vida;

Mesmo entendendo não ser a liberdade totalmente real nesse
mundo, sua ausência causa danos irreparáveis à alegria.

Assim me percebo neste período em que o mundo estacionou
na contramão da estrada que me levaria à concretização de sonhos:

Murcha e sem alegria.

Como as plantas de minha varanda, eu também preciso ser
regada, nutrida, iluminada pelo Sol...

As viagens, os passeios, as risadas, os beijos que seriam dados,
nutririam a alma, é certo, mas nada acontece nesse inverso do
tempo.

Apenas o olhar, perdido na única paisagem possível através da
janela, ainda tem um quê de liberdade.
Mas também ele, o olhar, limita-se ao vazio que se tornou a
vida e não enxerga mais saída.

Sigo aqui, sob as algemas colocadas por esta parada obrigatória.
Arrumo gavetas, separo roupas, cozinho e me entupo com os sentimentos
que borbulham dentro de mim.

Bagunça interior é bem difícil de se arrumar...

A estrada vazia, as ruas vazias, os cachorros irreconhecivelmente
silenciosos, a vida vazia.

Aprendi a te valorizar exatamente no momento que te perdi,

Todavia, me proponho a reencontrar-te, de preferência aqui
dentro de mim e, mesmo que os dias lá fora sejam cinzentos,
contigo meu colorido há de voltar,

Liberdade.

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA