sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Estava escrito (excerto) - ROSE PEREIRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Tinha medo de me tornar mãe de menina. A ausência de proteção
e confiança, imprescindíveis na infância, me fez acreditar na
incapacidade de resguardar uma vida desde o nascimento, principalmente
se acaso gerasse em mim um ser feminino.
De toda forma, os seios lambuzados pelas lembranças, definitivamente
não alimentariam este pecado. E no conflito entre ser
mãe, não desejar ter filhas, doente de alma, suplicante de fé, meu
ventre germinou.
Nasceu meu primeiro menino, conforme anunciado em sonho
poucos meses antes: no castelo, erguido sobre nuvens no céu, um
jovem arrumava o cabelo em frente a um espelho. Vestia uma
túnica preta e trazia consigo o livro sagrado. Virou-se, abriu as
portas duplas da entrada, um caminho de luz direcionava seus
passos... e eu ali, admirada, sem conseguir ver seu rosto e sem que
ele notasse minha presença. Sumiu em meio a abóbada celeste.
Vaguei na muralha de pedra, sentindo as contrações daqueles instantes,
e de repente, uma senhora apareceu e me disse: “É Gabriel!
É Gabriel.”
Ele cresceu como um verdadeiro anjo, cercado dos cuidados
que minha pouca maturidade soube conferir. A luz, contudo, o
guiou sempre e fez dele um bom filho, um profissional atencioso,
um esposo dedicado, um pai amoroso, um cristão a serviço de
Deus.
A segunda gestação veio quinze anos depois. Meu subconsciente
ainda afirmava os mesmos medos. Que fosse saudável, mas
que não fosse menina! Não consentir que outro feminino sofresse
as mazelas da vida, se tornou um comprometimento moral,
e minha culpa aliviava somente depois do nascimento. Então,
Guilherme nasceu.

EM - MÃES - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Cangalha do Vento (excerto XXI) - LUIZ EUDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Já havia muito tempo distanciando-os daquela terra onde cresceram todos. Aquela terra antiga na Fazenda Baixa Funda, cuja história da família tivera início com a chegada do antepassado Paulo Vieira de Andrade, que aportou no Junco no remoto ano de 1875, vindo de Bom Conselho, atendendo ao chamado do seu compadre, João da Cruz. Esse Paulo Vieira, que era avó de Aristeu, o Galego, e bisavó de José Paulo, Israel, Fernando, Juvêncio e todas as meninas e outros irmãos. 
O último que tentou manter a terra foi Juvêncio, ao regressar da sua empreitada no sul. E a luz voltou a brilhar naquela casa, agora com toalhas brancas a forrar as mesas, vasos de plantas, xaxins de chorão e samambaias pendurados nos alpendres a decorar a entrada da morada, pés de buganvílias trepando pela cancela e no rol, à sombra do pé de flamboyant, a cadeira de balanço do velho Galego, devidamente reformada, onde ao final de mais uma jornada de lides rurais Juvêncio balançava-se com o olhar perdido no horizonte a observar mais um dia que se encerrava tingindo o céu de escarlate.

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sábado, 6 de fevereiro de 2021

Cangalha do Vento (excerto XX) - LUIZ EUDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Contou ao filho sobre aquelas manhãs. Os velhos cajueiros, quem sabe estariam lá? Ele levá-lo-ia para ver um dia. Tudo parecia mais claro naquelas manhãs. O pai, circunspecto, vigiava os irmãos e as irmãs que, quando folgadas do serviço de casa, brincavam de roda, ou agachavam rindo com mexericos, ou pintavam o rosto com o cuidado de não parecerem mulheres da vida. O velho Aristeu consentia, sabia que a mulher deveria ter sua vaidade, não queria ser um bronco como o pai fora.
– Todas as coisas que te digo, meu filho, fazem parte de ti. Por isso é bom ouvir as coisas do passado, pois um dia terás um para contar também aos teus filhos.

EM - CANGALHA DO VENTO - LUIZ EUDES - IN-FINITA

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

ADRIANA MAYRINCK FALA DE... POLICROMIA PARA CEGOS

O tempo. A vida. A invisualidade. A poesia. A imortalidade. E tudo o que envolve e está inserido nesses elementos, o livro POLICROMIA PARA CEGOS traz em todo o contexto da obra e além das entrelinhas. Um trabalho bem elaborado e lapidado por quatro mãos. As mãos que direcionam as palavras que bailam na não visão, mas que fazem ecos no sentir. A percepção dos poetas que atrevem-se a vivenciar experiências que não lhe são comuns para despertar a atenção para aqueles que nos rodeiam e diferem por estarem em paralelo e, ao mesmo tempo, em um mundo íntimo e desconhecido para nós, que temos um sentido a mais.

A liberdade de expressar o que supostamente é percebido de um modo diferente, em forma de poesia, com palavras utilizadas em completude e sintonia por dois poetas que fizeram da arte da escrita, e de vivências distintas, uma pequena e significativa obra que enternece e alimenta a alma, a cada página virada. O lirismo que escorre por entre as linhas e por nossos olhos úmidos, ao depararmos com a harmonia e a leveza poética de um estado não comum em nosso pensar. Perceber o outro, a vida e os seus significados além do que se vê. Entrar em um mundo tão particular, se deixar ficar, explorar e vivenciar sem pré-conceitos ou resistências.

Jesús Recio Blanco e Emanuel Lomelino mergulharam a fundo nessa escuridão que antevê a luz, a sensibilidade do olhar para o que não se vê, o tempo de construção poética, a arte intrínseca no mundo que se faz descoberto sem a experimentação, a percepção do sentido do outro, com suas vivências, dificuldades, agonias e libertação, a essência individual na análise cotidiana e a visão de quem está do lado de fora olhando para o não comum, convida o leitor a apurar os sentidos e desnudar-se do habitual.

POLICROMIA PARA CEGOS fala do tempo com ou sem limitações, fala da vida interior, do seu transbordar e da lição que ela nos traz, fala dos invisuais e de suas percepções, fala da imagem de uma escuridão iluminada, das experiências do outro que se faz oculto por um limite imposto, da imensidão do sentir dos poetas, da solidariedade e atenção, fala das diferenças. Fala da arte das palavras, desde a imagem da capa, ao pulsar inerente de cada poema, que transforma o instante da leitura em um fio condutor para o despertar da imortalidade, de uma outra visão, a interior, que ultrapassa a última página.

DRIKKA INQUIT

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Danos irreparáveis - MARINA MARINO

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Liberdade

Maravilhosa sensação de ir e vir para onde se desejar;

Estado de ser e de viver de quem sabe que é dono do próprio
nariz;

Grau máximo de autonomia que se adquire ao longo da vida;

Mesmo entendendo não ser a liberdade totalmente real nesse
mundo, sua ausência causa danos irreparáveis à alegria.

Assim me percebo neste período em que o mundo estacionou
na contramão da estrada que me levaria à concretização de sonhos:

Murcha e sem alegria.

Como as plantas de minha varanda, eu também preciso ser
regada, nutrida, iluminada pelo Sol...

As viagens, os passeios, as risadas, os beijos que seriam dados,
nutririam a alma, é certo, mas nada acontece nesse inverso do
tempo.

Apenas o olhar, perdido na única paisagem possível através da
janela, ainda tem um quê de liberdade.
Mas também ele, o olhar, limita-se ao vazio que se tornou a
vida e não enxerga mais saída.

Sigo aqui, sob as algemas colocadas por esta parada obrigatória.
Arrumo gavetas, separo roupas, cozinho e me entupo com os sentimentos
que borbulham dentro de mim.

Bagunça interior é bem difícil de se arrumar...

A estrada vazia, as ruas vazias, os cachorros irreconhecivelmente
silenciosos, a vida vazia.

Aprendi a te valorizar exatamente no momento que te perdi,

Todavia, me proponho a reencontrar-te, de preferência aqui
dentro de mim e, mesmo que os dias lá fora sejam cinzentos,
contigo meu colorido há de voltar,

Liberdade.

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Sabor de mãe: atos entrelaçados (excerto) - ROSA GONÇALVES

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Com uma pitada de sabores, o ser mãe perpassa por etapas variadas
a fim de concretizar sonhos, carregar no colo e nos braços,
durante o percurso da vida, as suas proles.
Sou mãe de dois meninos. Na verdade, nem me imaginava
capaz de gerar outros seres. No entanto, tive o privilégio de ser
presenteada e de carregar no meu ventre, os meus amados e eternos
filhos.
No dia em que me vi mãe, pela primeira vez, houve uma mistura
de emoções e de sentimentos mesclada com medo. Estava
com 26 anos e cursava o último período do curso de Letras. Descobri
a gravidez no quinto mês da gestação, quando precisei mudar
minha rotina.
Em 1999, nasce o meu primeiro filho. Ele trouxe muita luz à
nossa família. O brilho dos seus olhos, permitiu-me a certeza de
se tratar de um menino iluminado. Com apenas um ano e dois
meses, através de uma brincadeira com um alfabeto móvel de
madeira, comecei a ensinar ao Daniel o mundo das letras. Havia
muito amor envolvido. Por sinal, escolhi a palavra “amor” para
representar a letra “A”. Lembro-me que lhe falei: “Filho, este é o
‘a’ de ‘amor’”. Em seguida, embaralhei as letras e lhe disse: “Filho,
pegue para a mamãe o ‘a’ de ‘amor’”. A emoção se apossou de
mim quando a letra solicitada foi pega pela pequena mãozinha.
Passamos momentos de aprendizagem contínua, comecei a
comprar livros e a incentivá-lo para que os lesse. Aos três anos, já
era um pequeno leitor. As paredes da casa foram transformadas
em um ambiente alfabetizador cheio de letras, números e poemas.
E, é claro, também algumas paisagens desenhadas pelo meu filho.
Líamos, antes de dormir, os clássicos, dentre eles, os livros infantis
de Clarice Lispector e contos de Machado de Assis.

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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Cangalha do Vento (excerto XIX) - LUIZ EUDES

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José Paulo estava alegre como no dia em que pegou dez castanhas no paiol do pai e plantou no quintal de casa dentro do roçado do feijão de corda. Nasceram dez pés de caju e as formigas cortaram dois deles, mas isso não o impediu de, alguns anos depois, colher frutos amarelos e saborosos nos outros oito cajueiros. Com os cajus José alimentava os porcos e as castanhas ele deixava por uma noite dentro de bacias com água ao relento para que na manhã seguinte estivessem mais pesadas. E antes que o sol se encarregasse de esquentar as manhãs com os seus raios fúlgidos, as castanhas eram ensacadas e levadas para comércio no trapiche do primo João.

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domingo, 31 de janeiro de 2021

Enquanto Quarentena - MARIA ESMERIZ-THOMAS

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A nossa vida é como uma tela gigante onde registamos diariamente
as nossas ações, as nossas emoções, as nossas aventuras e, por vezes
apenas nos entretemos a desenhar garatujos (que até há quem diga
que revelam muito sobre nós) em momentos de um pensar mais
profundo ou abstrato. Porém, nesta quarentena obrigatória ou
auto-imposta deparamo-nos com a nossa rotina desmantelada.
Desmantelada. Diferente. Dolorosa. Aborrecida.
Pensamos que iríamos ler todos os livros que tínhamos em
“standby” na prateleira ou a viajarem dentro das nossas bolsas,
que iríamos pintar a cozinha, consertar roupas, exterminar os
lepismas que invadiram a garagem, dormir mais ou até darmo-
-nos ao luxo de criar uma certa anarquia (ou letargia(?) à nossa
volta. Tivemos a ideia de que para além do tele-trabalho
Ainda poderíamos iniciar um hobby, uma nova e inovadora
profissão. Quem sabe. Tanta alternativa e tanto que fazer. Depois.
Mas depois, à medida que os dias passam, devagarinho, acordamos
para a dura realidade e ao percebermos que o vírus virou viral e
que a sua devastação invadiu o mundo e o nosso raciocínio, caímos
nas incertezas, constatamos que não somos os maiores, que não
somos invencíveis e então pusemos logo de imediato todos os
gadgets e redes sociais ao nosso alcance a funcionar e os noticiários
televisivos em todas as “células” da nossa casa a noticiarem o que
queríamos ouvir e a bombardear com as imagens que queríamos
ver e, desta vez, pelo menos, o spectrum da morte é verdadeiro.
A morte anunciada a cada segundo é verdadeira. A morte acontece.
A morte reclama vidas. É verdade que o “dito cujo invisível” anda
á solta e rouba-nos a vida com um ténue bafejo.
É verdade que nos priva dos nossos gestos mais nobres: dos
beijos, dos afagos.
É verdade que nos priva dos nossos direitos mais básicos e
gratuitos - do sol que através das vidraças o vemos sorrir, mas que
por enquanto não é para todos, e para quem já “partiu” este sol já
não faz falta - para sempre - aos nossos pais, aos nossos avós - para
apenas mencionar família.
Já disse que o sol sorri lá fora. A primavera. Mesmo com um
nó na garganta dizemos que a primavera chegou luminosa e luxuosamente
vestida de verde e flores. Muitas flores. Flores a bordear
os campos com as suas grinaldas coloridas, flores bordadas
na relva onde aqui e ali já uma ou outra papoila espreita. O sol
a sorrir lá fora. A primavera meiga e criativa. Andorinhas. Onde
andam as andorinhas com o seu voar de rajada rente ao chão e
olho ligeiro.
Não as vemos. Só vemos as ruas austeras, tristes, silenciosas.
As casas de janelas fechadas à Morte. Ruas desertas e o silêncio.
Silêncio aterrador onde até as casas de Deus se fecharam. As casas
de Deus. Fechadas. Ruas ermas onde apenas anjos físicos lutam
labutam para nos manter sãos e salvos nos nossos próprios lares,
confortáveis ou não, a pensar no que o futuro próximo nos reservará,
a pensar no futuro mais alargado que se adivinha ainda
pandémico(?) assolador; ou podemos ansiar/imaginar um futuro
sociocultural e económico remodelado, numa estrutura mais
humanamente abrangente. Mais inclusiva ou até simplesmente
desejando/acreditando num mundo verdadeiro, firme, transformando
as nossas reflecções em ações para que possamos contradizer
Calderon de la Barca:
La Vida es un Sueño
Que es la vida? Un frenesi.
Que es la vida? Una ilusion,
Una sombra, una ficción.
Y el mayor bien es pequeño
Que toda la vida es un sueño,
Y los sueños sueños son.

E podermos um dia abrir os braços abrir os braços e dizer
que a vida não é para se entender. A vida é para se viver e, ainda

Calderon de la Barca:
La vida es un hermoso sueño
Y lo quiero vivir despacio

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sábado, 30 de janeiro de 2021

Cangalha do Vento (excerto XVIII) - LUIZ EUDES

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Esther era freguesa da mercearia de José Paulo e estava sentada numa esteira feita por ela mesma com palha de licurizeiro. Gostava de mergulhar em lembranças e isso era salutar a José Paulo e ao Fernando, que observava dona Esther com um preceito de que ela estava além das coisas mais comuns do lugar. Para ele, uma mulher com aquela idade conhecia histórias e fatos do mundo.
– Hein! É você o menino de Aristeu? – disse a anciã, com um sorriso agradável apertando os olhos para melhor enxergar José Paulo.
– Sim, sou eu! – respondeu José Paulo carinhosamente.
– Pois sim. Posso estar bem velha e fraca, mas se eu disser para você que lembro do seu pai quando lhe deu na veneta ir para a floresta, vai ver sim que tenho uma cabeça boa. – disse a velha negra batendo com o indicador na cabeça.
– Puxa! É incrível que se lembre tão bem.

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segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Cangalha do Vento (excerto XVII) - LUIZ EUDES

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No meio do caminho havia uma casa, às margens da estrada, era da negra Esther, neta de escravos. Aos oitenta anos, ela não tinha mais forças para as duras tarefas da vida na roça. As suas pernas não respondiam mais ao desejo de manter-se de pé. Sentia- se velha e enfadada. 
Passava os fins de tarde a contemplar o sol pôr-se por trás das jaqueiras atrás da casa e quando chegava a noite e seus mistérios, ela rezava o rosário para afastar o medo e descansava o corpo pesado de mulher que pariu dezoito filhos numa cama de vara de cipó coberta por um colchão de palha seca de capim. Sempre que aparecia prenhe, o seu marido pedia-lhe; “me dê um filho homem, é melhor para ajudar-me nos roçados”. O marido foi-se e ela sentia a sua hora aproximar-se.

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quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Na corda bamba - FARAH SERRA

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Sempre achei que um dia seria mãe, como parte do ciclo natural da vida. Uma época até bradava que queria quadrigêmeos, duas meninas e dois meninos – obviamente eu não tinha a menor noção do que significasse ser mãe. Quando me dei conta da doideira, comecei a dizer que queria ter uma menina primeiro e depois um menino, isso porque sempre senti que eu cuidava muito mais do meu irmão mais velho do que ele de mim. Mudei de ideia de novo, queria que eles fossem gêmeos, achava linda a ligação afetiva das minhas primas gêmeas. Mas, nunca quis um filho único.
Quando engravidei, curti demais a minha gestação. Adorava meu barrigão e amava aquele serzinho que estava se desenvolvendo em meu ventre. Eu já era toda dela, antes mesmo que a minha filha nascesse. E, por sorte, vivenciei um parto natural humanizado, vivi a nossa exogestação com toda a intensidade que ela nos exigiu e desde lá venho saboreando a desconstrução íntima de me tornar mãe.
Passados dois anos, eu e o meu marido, pensamos que fosse o momento de ter outro filho – ele também não gosta da ideia de filho único. Gostamos de casa cheia, mas não só por isso. Moramos longe da família e sentimos muito pelo fato da nossa filha não conhecer aquele convívio íntimo com parentes próximos. Acreditamos que com mais um filho a proporcionaríamos toda a beleza que é brincar, brigar, construir memórias e compartilhar histórias, com alguém que estará sempre ligado por aquele fio sutil da irmandade.
Bem, logo engravidei. Quanta felicidade! Não, não tanta. O destino quis me mostrar o outro lado dessa coisa toda de ser mãe. No início do quarto mês, quando finalmente bradaríamos aos quatro ventos que minha pequena não seria mais filha única, durante um exame de rotina, quatro palavras foram violentamente disparadas contra mim, sem dó nem piedade: “non ha più battito”. Esses tiros, não tem mais batimento, foram tão certeiros que sai daquela sala escura embalada a vácuo. Foi como se eu caminhasse no ar. Em meio a um terrível nevoeiro, eu via as pessoas, mas não as reconhecia. Via suas bocas se movendo em câmara lenta, mas não ouvia nenhum som. Eu não estava mais ali. Foi a pior experiência que vivi. Foi como se o meu maternar estivesse sendo perfeito demais, para uma vida real.
E como falar sobre a morte para uma menininha linda, super empolgada com aquela história esquisita de ser a irmã mais velha? Como chovia estrelas cadentes, era Notte di San Lorenzo, seu irmãozinho
resolveu pegar uma carona na cauda do cometa para passear entre os planetas e todas as maravilhas do universo. Juntei minhas forças, guardei essa história em um canto especial do meu coração e segui a vida. Afinal, eu tinha uma bombinha de energia e alegria, bem ali, ao meu lado.
Passado um tempo, veio mais um, outra perda. Sozinha com minha pequena (meu marido estava em uma viagem de trabalho na China), não tive como viver minha dor. Mas a vida também me acariciou, apesar da visceralidade dos acontecimentos, dessa vez foi mais sutil. Além de eu já saber que isso não era uma daquelas coisas que “nunca vai acontecer comigo”, eu estava no primeiro mês e meu bebê partiu sem procedimento. Naturalmente ele me deixou, pude vê-lo, me desculpar e falar para ele seguir a luz junto do seu irmãozinho. Em vez da lata do lixo hospitalar, esse meu rebento foi repousar no vaso mais lindo da minha varanda.
Foi então que entendi que ser mãe é andar na corda bamba. Onde segurando de um lado estou eu mesma, quem um dia fui, do outro está a minha mais nova versão. No entanto, quanto mais eu caminho tentando manter o equilíbrio – às vezes com cuidado, nas pontas dos pés, outras, completamente desajeitada, e algumas com toda aquela confiança que esse desafio nos pede – mais essa corda se afrouxa e mais distante fica para eu tocar a plenitude de me transformar nessa figura, tão idealizada e cheia de estereótipos.
Nessa escola chamada maternidade, venho aprendendo que ser mãe é uma revolução que acontece no ritmo das imperfeições e perfeições da vida. Nela estou me formando em aprendiz do desequilíbrio, da dualidade: dúvidas e certezas, erros e acertos; autocontrole e descontrole; compaixão e raiva; solidão e presença; ensinar e aprender; amar e ser amada; entregar e receber; vontade e medo de tentar mais uma vez.
Para mim, ser mãe é isso. É tudo isso. É isso tudo. Mas, mais do que tudo, é entrega.

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quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Cangalha do Vento (excerto XVI) - LUIZ EUDES

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Somente agora José Paulo sentia que haveria de voltar às lides rurais e este era o seu desejo. Não ia àquela região desde quando deixou o Junco, fugindo da seca num pau de arara cheio de ilusões e sonhos, naquele ano em que o Junco parecia querer ocupar um lugar no inferno, de tão quente. Somente agora sentiu a vontade invadir-lhe a alma, iria às lides rurais sim. É a sua sina, lidar com a terra. “Terra é sempre terra” dizia-lhe o pai, Aristeu, o herói do lugar. Cavar a terra, plantar as sementes, adubar, fazer a limpa, adubar de novo, colher o feijão, pendurar nos moleques para secar ao sol e esperar a noite de lua cheia para fazer a bata, regada a cachaça e cantos populares:
“Coragem, coragem,
Por cima do medo...
Coragem”.

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Luta pela vida! - LÚCIA D'VERONA

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Sei que este tempo é de angústia e lentidão. Estamos fechados em
casa e nada parece fazer sentido...
Sei que parece ser uma luta inglória, sem comparação, mas por
favor, não fiques nesse marasmo... Acorda para a vida, abandona
a tristeza, não deixes a impotência te ganhar, para que a esperança
volte a crescer no teu coração e o teu rosto irradie a paz, que é
comum te acompanhar!
Pai, sorri ao sol que brilha pela janela, ao cachorro que insiste
em te acordar e contigo brincar… Sorri muito, porque só assim
poderás mostrar que nada vence, a tua resiliência de quereres ser
feliz! Por que quando sorris, acalmas esta angústia que pretende
aniquilar-me e fazes renascer em mim uma réstia de esperança,
através desse teu brilhante olhar, que normalmente me impulsiona
a continuar, quando sou eu, que quero deixar de lutar!
Pai, só tu consegues mostrar-me com a tua positividade e persistência,
que a vida é para honrar e por ela se deve lutar... Não
podes desanimar...
Pai... Tu és o meu guerreiro... Por ti, por mim, pela família
toda... tens que continuar a lutar...
Se desistires, é como se um elo à vida quebrares e o nosso
mundo ruirá, como um castelo de cartas a desabar...
PAI querido, por favor... luta pela tua vida!!!

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segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Enquanto é pandemia - LIÈGE DE MELO

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Minha filha busca sua máscara e álcool gel para ir à padaria, localizada
em frente ao edifício onde moramos.
Minha neta, de apenas seis anos, apreensiva, pede que ela retorne
rápido e fala: “mamãe, sair é um perigo”. Contemplo a cena
com um aperto no coração...
Há alguns meses, como qualquer outra criança, ela tinha familiares,
amigos, escola, brincadeiras, parques e praias compondo
seu colorido universo.
Hoje, no entanto, como todos os seres humanos do nosso
planeta, minha pequena, sente um medo paralisante do “mau
invisível, coronavírus” que tem obrigado á maioria das pessoas
permanecerem enclausuradas nas suas moradias.
Sigo para o meu quarto, respiro fundo à procura de trégua
para inúmeros anseios que tem esbarrado nos meus limites e de
outrem, cujas escolhas me atingem e, por vezes, me afrontam.
Com esforço, tento entrar em estado de consciência pacífica,
onde revisito boas memórias afetas ao território da infância e
juventude.
Neste contexto, ouço as mesmas vozes... agora conversam
sobre a “aula on-line”, minha neta aumenta o tom e dá risadas
comentando ocorrências durante a revisão da tarefa de matemática.
Saiu do universo íntimo, para dar espaço à esperança teimosa
que ainda me habita.
Assim, percebo o aquecimento do sol tropical neste dia chuvoso,
aroma de feijão sendo preparado e o companheiro que carinhosamente
rega suas plantinhas na varanda... enquanto além
do perigo invisível do “sair” de casa, uma graciosa menina sai do
banho com seus cabelos molhados, repleta de alegria pelo iminente
encontro com amigos do seu colégio, através do atual universo
escolar on-line, trocando amorosas energias que, por certo,
irradiarão mundo afora.

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sábado, 16 de janeiro de 2021

Conversa de vaga-lumes - LÉA COSTA SANTANA DIAS

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Sempre me faltou noite para tanto sono. Porém, nos últimos dias,
as insônias têm sido minhas companheiras. Na última delas, lá
pelas tantas, apareceu em meu quarto um vaga-lume. Acontecimento
raro. Minhas lembranças desses seres de luz datam de
muitos anos, quando eu era criança e morava na zona rural numa
cidadezinha do interior.
De início, abundou em mim a alegria de doces reminiscências.
Por instantes, tive um sol inteirinho só para mim. Cá dentro,
acordara outra, aquela dos banhos de chuva em tardes com tons
de eternidade, aquela das brincadeiras de balanço que levava onde
se quisesse ir, aquela dos pirulitos mágicos que faziam desaparecer
até mesmo o medo de injeção. Depois, os lampejos do hoje e,
com eles, a dúvida: seria mesmo um pirilampo um mensageiro de
boas novas? Levantei-me da cama às pressas, no escuro, para não
espantá-lo. Usei o celular para a cata de dados. Enquanto pesquisava,
o vaga-lume voava de um lado a outro do quarto grávido
de luminescências. Depois ficou parado num canto, como se me
convidasse a ouvir segredos.
O interlocutor era incontestável sumidade. Eu, como caloura
em véspera de exame, peguei lápis e papel, discretamente iluminados
pela luz do celular, e me pus a rabiscar em página vazia
tudo o que me era confessado. Até que, sem perceber, caí em
sono profundo. Ao amanhecer, ainda descansava em meu quarto
o ilustre visitante. Tomada pelos afazeres cotidianos, somente horas
depois é que me apercebi da partida. Meu coração acolheu
bem a despedida. O sol não é astro de caber na palma de uma
mão. Contudo, mão tocada pelo sol é mão inscrição. Nela, o que
se vê e lê é segredo de vaga-lume:
– São pálidos os primeiros instantes da aurora. Ainda prenhes
das sombras do poente, anunciam páginas nuas, a serem
vestidas à medida que rompe o novo dia. O mais tímido sinal
de esperança faz nossos pés se agitarem em desejo de caminhada.
Mas, logo ali, a nos espreitar, a indesejada das gentes escarnece
da nossa contingência, e nos sugere, por meio de números em
ascendência, não mais haver panaceia possível. As macas comunitárias
se convertem em prenúncio de cruas despedidas. Não
há mais abraço. Não se pode velar o amigo morto. Pais e filhos
choram os abismos que os separam. Nossas certezas vagam em
suspenso, a nos exigirem um esforço sobre-humano para esperar
por um tempo que não assumiu conosco nenhum compromisso
de encontro. Longas noites emergem em nossos dias. As palavras
se esvaziam de sentido e nossos lábios se perdem em silêncio. No
caos interior que nos envolve, para se inscrever como suportável,
a experiência da pandemia requer o transmudar-se em vaga-lume.
São eles que invadem nossas almas, desde que lhes ofereçam guarida,
para iluminar insônias e desencantos, e anunciar que cada
crepúsculo esconde um amanhecer.

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Cangalha do Vento (excerto XV) - LUIZ EUDES

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Fernando curou-se e a bênção estendeu-se ao céu do Junco. A chuva veio, e um cheiro de terra quente e água envolveram a atmosfera, e pôs fim à seca de dez anos. Choveu forte e a água desceu num turbilhão em direção ao açude. Era o fim da longa estiagem no Junco.
Dias depois, José Paulo levantou-se cedo: queria ir à Fazenda Baixa Funda. No entanto, sentia uma fraqueza nos músculos. Era gripe, possivelmente. Precisava consultar-se com um médico e só havia atendimento na segunda-feira, o dia da feira no Junco. Talvez na botica de Zé da Perninha, misto de prático em farmácia e em medicina, houvesse um antitérmico, o que era bastante provável naquele estabelecimento repleto de frascos de remédios e medicamentos com fama de curar qualquer mal.

EM - CANGALHA DO VENTO - LUIZ EUDES - IN-FINITA

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Ser Mulher, Amante, Mãe, Amiga, Madrasta (excerto) - ANA MENDES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Do alto daquele prédio, olhando o mar azul, imóvel e calmo,
esperei que não fosse verdade e tive medo. Medo do que seria da
minha vida de espírito aventureiro, de dormir tarde e levantar
cedo, de sair para trabalhar e só entrar em casa para me refrescar
no chuveiro, me arrumar e voltar a pôr o pé de salto alto, mini
saia e top na rua da alegria. A época dos grupinhos de amigos e do
maridinho, apaixonados... Eu ainda não estava pronta.
Ao nos casarmos, apenas queria viver um pouco mais para ele,
para mim, para nós. Não queria ser a esposa chata, que só contasse
fraldas e mamadeiras, ou que já estivesse tão cansada, que
só tivesse a oferecer um beijo distraído, cansado e sem ardor ao
marido que retorna a casa. Que não adormecesse só porque o sofá
a estivesse piscado o olho do cantinho da sala, que o choro do
bebê não a acordasse, depois de ter adormecido pela madrugada.
Pensei nisso tudo, me senti aprisionada, apavorada e sozinha,
com os meus medos de menina. Afinal, de mãe pouco sabia. A
minha, eu mal a entendia. Queria fazer bem melhor do que ela,
que fora mãe, numerosas vezes, e sendo eu a primogênita, nada
tive da sua companhia e ternura.
E a pílula? Onde tinha ido parar?! Não, ela é 99% segura! Decidi
tirar a dúvida e esperei na cozinha que os tracinhos não aparecessem,
naquele retangulozinho, dedicado às más e boas notícias.
Rezei, chorei, esperei minutos intermináveis, quando olhei:
dois! Dois traços! Não era só um que se avistava, mas sim dois!
Duplamente horrorizada, pestanejei, abri o frigorífico, peguei
a garrafa d’água gelada e me sentei no chão. Bebi pelo gargalo
mesmo, queria me afogar na tristeza de dizer adeus à minha vida
de menina, devido a um ser desconhecido e apressado.
O maridão ficou feliz, então me deixei viver os seus planos e a
felicidade me invadiu como que sem querer.

EM - MÃES - COLECTÂNEA - IN-FINITA

domingo, 10 de janeiro de 2021

Cangalha do Vento (excerto XIV) - LUIZ EUDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Maria dava por cumprida a sua missão, com a certeza do dever cumprido e da cura do menino Fernando. Já seu marido desejava que tudo aquilo acabasse logo, pois fazia parte do pacote de viagem um banho de mar na vizinha Madre de Deus, onde havia praia boa para o banho, mar azul sem fim, e muitos bares aonde iriam fartar-se com caranguejos e cervejas geladas. A certeza da diversão na praia reduziu as horas, foi o que comentou José para os companheiros, e até Maria parecia aliviada e deixara-se alegrar com um pouco de cerveja preta, a sua favorita. Era um sentimento unificado de que o filho ficaria bom. Uma inexplicável paz acompanhou-os ali, enquanto o mar soprava num prenúncio de dias melhores.

EM - CANGALHA DO VENTO - LUIZ EUDES - IN-FINITA

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Cangalha do Vento (excerto XIII) - LUIZ EUDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Há anos tenta convencer o seu marido da necessidade daquela viagem à gruta de Nossa Senhora das Candeias. Precisavam pagar a promessa feita quando Fernando, ainda pequeno, adoeceu. O menino tossia muito, os vizinhos especulavam, falavam à boca pequena que seria asma, bronquite, até tuberculose. Levaram-no aos farmacêuticos e aos médicos, mas nenhum remédio combatia aquela tosse seca. Foi o padre João Batista quem sugeriu uma promessa à Santa. Prometessem levar o filho a beber água da fonte milagrosa, e com a fé seria curado. 
O barulho do motor da velha marinete acordou o pai e o filho. Levantaram-se e foram ao encontro de Maria que os aguardava com a mesa posta para o desjejum.

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domingo, 3 de janeiro de 2021

O que fazer agora? - FLÁVIA ALICE ZOGBI

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Agora estamos passando por uma situação muito difícil. Mas o
que me impressiona são os heróis anônimos que me enchem de
alegria e satisfação. O que fazem? Eles arrecadam comida para
doar para as pessoas que perderam tudo. Seu trabalho e até suas
casas. É algo que dignifica pessoas que tem esse lado humano em
seus corações. Vi o que está acontece em várias partes do mundo,
em contra partida, há milionários que construíram Bunkers, fortificações
debaixo da terra para sua proteção. Essas construções
havia muitas na época das guerras onde os generais e presidentes
planejavam suas invasões. Mas agora elas são luxuosas para abrigar
os ricos e poderosos. Então fica uma questão: será que levarão
seus empregados? E as famílias delas onde ficarão?
A solidariedade é, nos dias atuais, um valor inestimável que
todo o ser humano deveria ter. Será que um dia isso será possível?
Muitos questionamentos e poucas respostas.
Mas acredito que isso vai mudar, tem que mudar para o bem
de todos. Se pensarmos nisso quem sabe teremos transformações
inesperadas.
O importante é não perder a esperança. Fazer dela seu querer,
sua vontade.

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA