segunda-feira, 13 de setembro de 2021

O último suspiro do mouro - LEA VIEIRA

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“E agora o senhor não mais haverá de se admirar de que a lembrança desse incidente na Acrópole me tenha perturbado tantas vezes, depois que envelheci (...)”
“Um distúrbio de memória na Acrópole”, Freud (1936)

Minha amiga,
Tendo retornado de viagem há alguns dias, a contragosto, mas de todo modo inteira, não quis perder a oportunidade de compartilhar com você minhas primeiras e segundas impressões sobre lugares e paisagens que têm, desde então, assediado minha mente, em sono e em vigília.
De tudo que vi, posso dar conta com alguns comentários e muitas fotos, exceto por uma imagem: diante do penhasco de Ronda, meu coração parou! Hélios deteve sua carruagem no céu para a luz demorar-se sobre a enorme ferida na terra, resquício sobrenatural de alguma guerra de titãs, ou de uma chuva de meteoros; é quase certo que alguns dinossauros foram engolidos ali, quando o chão se abriu até o fundo do vale, dividindo o mundo conhecido em dois, para a eternidade. No fundo do penhasco corre um rio que muito bem podia ser o Aqueronte (o inferno está em toda parte), mas é Andaluzia, e o rio é o Guadalevin.
E assim, pela segunda vez na vida, enterrei meu coração na beira de um rio e, o que é muito perturbador, sem nova chance de resgate. Na vez anterior, passou-se uma geração antes que pudesse tê-lo de volta; não tenho mais tanto tempo, minha vela queima muito rápido agora. Na tentativa de aplacar minha angústia, retornei ao meu querido Freud: ali mesmo, na beira da ravina, lembrei do seu relato de uma experiência emocional desagradável ao realizar seu sonho de visitar Atenas. Isso era do que me lembrava e, de fato, parece ter ocorrido. Mas o meu conforto veio daquilo que eu não recordava: trata se, na verdade, de uma carta aberta de felicitações para um amigo septuagenário, no momento em que o próprio Freud contava com 80 anos e se permitia, depois de uma breve saudação inicial, mergulhar em considerações um tanto amargas sobre incredulidade, negação, pais e, inevitável, sobre velhice.
Na particular simetria que se apresentou para mim, há exatos 80 anos Freud octogenário evocava, numa pirueta associativa que ele próprio chama de pausa momentânea no texto, a história do último rei mouro da Espanha, que recusou a mensagem de que sua querida Alhambra tinha sido tomada pelos católicos simplesmente queimando a carta e matando o mensageiro. Boabdil não terá sido o primeiro a usar o expediente, naturalmente. Ocorre que eu tinha partido de Granada, no dia anterior à epifania em Ronda, com um pensamento recorrente, algo que li no Mirador San Nicolas (donde se tem uma visão fantástica de Alhambra), uma outra história pouco lisonjeira e muito tocante sobre “o último suspiro do mouro”, o mesmíssimo rei mouro: a caminho do exílio, Boabdil olha mais uma vez para a cidade, e chora; sua mãe não perdoa: “chora como uma mulher o que não soubeste defender como um homem”! A frase cortante, além de suscitar várias fantasias sobre o comportamento de mães muçulmanas no século XV, parece de resto ser bastante conhecida na região e, afinal, eu vinha de Granada, mas Freud... não!
Dessa forma, minha amiga, eu que não sou dada a superstições e careço de grande imaginação, fui levada a acreditar que a carta de Freud, com seu conteúdo absolutamente original e aparentemente despropositado, foi deixada pública e repleta de pistas com o propósito de encantar futuras gerações que, eventualmente, ainda dominassem seu código. Não sei se me entende, gente comum, infeliz a seu modo, que sente angústia, lê e busca consolo em velhos livros, que falam sobre coisas velhas e duradouras, como é a Acrópole, como é Alhambra, como é o inesquecível rei mouro de coração partido, como é o desejo humano de conhecer e viajar, como é o medo humano de não mais poder viajar e de morrer, como era o Freud octagenário há 80 anos, como já sou eu também, velha e duradoura o bastante para reencontrar num velho livro algum sentido humano compartilhado para uma experiência que, de outra forma, não teria sentido algum.
São Paulo, 23 de julho de 2016.

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domingo, 12 de setembro de 2021

O construtor de janelas - LAURINDA RODRIGUES

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Ludovina abriu a janela e respirou fundo.
Mesmo em frente, na linha do horizonte, subia o sol, numa mancha laranja.
O ar estava fresco, transparente e o cheiro da terra, depois de dormida com o orvalho, resplandecia.
Ludovina sentiu-se plena até às lágrimas: as que a aragem lhe trazia à face; as que a face lhe levava à aragem.
Assim era a construção do mundo, a construção de um dia, a construção do tempo.
Ludovina lembrava, na memória do corpo, sensações semelhantes ou iguais, mas sabia, naquele exato momento, que estas eram únicas e irreprodutíveis. E, todavia, eram totais.
Agasalhou-se e veio para a rua.
Nas pedras do pátio, iniciou a cerimónia: virou as mãos para o sol, palmas abertas erguendo-se com a mancha alaranjada; saltitando cada vez mais alto, até ao limite da evidência da luz.
Sentiu um cansaço de uma energia não recuperada pelos desvios em pequenos carreiros, mas a estremecedora convicção da dádiva do sol, união de filamentos luminosos ao centro da terra.
Ludovina regressou para a moldura da janela e sentou-se: o pensamento parado, o corpo parado, sem objetivos, sem perspetivas.
Era tal qual o caminho que levava ao sol. Livre, disponível. Fizessem o que fizessem as cabeças dos homens, estava lá, na moldura da janela de madeira, pintada de vermelho sangue, pequena, pesada, forte; a janela de um alentejo falado, vivido fugazmente, mais pelas palavras do que pelas emoções.
E não era emoção que transparecia. Era como que vazio, totalmente transparente e incolor de cristais prismáticos de luz, na convergência para um ponto não definido em qualquer ponto.
Ludovina estava muito fresca, tão fresca como a aragem, tão fresca como o orvalho e não fazia parte da aragem, não fazia parte do orvalho: era assim como uma entidade planadora, desintegrada de todo o corpóreo, até dela própria.
Ludovina olhou e viu o seu cão que lhe lambia os pés ainda descalços: soube que ele tinha fome; Ludovina tinha fome: sentiu vontade de comunicar com a realidade da casa.
O sol estava, agora, perfeitamente identificado no céu.
Ludovina fechou a janela.

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sábado, 11 de setembro de 2021

Infortúnios Nocivos - JEANE TERTULIANO

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É dia. Dos noticiários televisivos, jorram infortúnios nocivos: mais Marias foram violentadas e / ou estupradas cobardemente. Ainda assim, é dia. Pessoas acordam e vivenciam suas rotinas sem despertar ante o constante oscilar dos monstros que vêm e vão de suas pseudojaulas. As vítimas, quando não são postas em túmulos, seguem existindo sem porquê nem pra quê num mundo que insiste em apontá-las como culpadas, crê?
Nada novo por aqui nem acolá...
Independente das injustiças acometidas àquelas que sofrem desde que nasceram, é dia. O grito que ousou irromper das entranhas doloridas foi fisgado pela violação abrupta de um pai (?), padrasto, tio, vizinho etc. É dia, mas a lei continua a dormir quando o assunto em pauta envolve uma pobre coitada vestindo saia curta, batom "vermelho cheguei" nos lábios e hematomas enfeitando o seu corpo depravado. É dia? Os algozes que deveriam habitar a escuridão da noite andarilham livremente aonde
bem entendem. A Maria que ousar delatar um assédio, será devidamente punida se não trouxer em si mesma provas contundentes do sacrilégio, do contrário, o ato desprezível será ignorado descaradamente.
É dia! Feminismo não é vitimismo! É sinônimo de luta em prol do alvo em iminente perigo, que anseia apenas por igualdade perante uma sociedade indiferente às mazelas sofridas a muitas mulheres inocentes que foram lançadas à fogueira injustamente por feras hediondas disfarçadas de cristãos, que utilizavam o credo como desculpa para cometer leviandades absurdas em meio a grandiosa farsa que era a tão aclamada devoção.
É dia, as bruxas não serão queimadas novamente! Em nosso âmago, maior é a chama que evoca o sagrado feminino e une o passado ao presente. A poesia secular nos envolverá em seu compasso experiente e calejado, privando-nos do passarinheiro que à espreita aguarda um descuido nefasto que impedirá a futura geração de voar.

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sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Quatro bocas - IZILDA BICHARA

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Quatro e meia da manhã. Valdete se levanta sem fazer barulho, veste a roupa e confere o endereço que anotou num papel. Antes de sair, dá uma olhada nos filhos adormecidos. Kauã, de dezoito anos, está estirado no sofá. Desde que ficou cego com o tiro de borracha no olho esquerdo, nunca mais foi o mesmo. Era feliz como motoboy. Ajudava nas despesas da casa e ainda sobrava para uma besteirinha. O tiro acertou muito mais que o olho de Kauã. Matou sua alegria. Perdeu o emprego, a namorada e a confiança na vida. Valdete aperta os olhos e volta-se para Kleber, de nove anos, que dorme abraçado com Kleiton, de cinco. Keiti é ainda um bebê, de menos de dois anos, e continua adormecida no colchão da mãe. Valdete sorri. A cada dia, a pequena está mais parecida com o pai, morto com uma bala perdida.
Valdete sai sem trancar a porta. Sabe que kauã vai passar o dia todo largado no sofá e que Kleber vai se levantar, preparar um leite para os irmãos, deixar Keiti com dona Cida, Kleiton na creche e só então vai para a escola. Kleber é um menino de ouro, pensa, mas esse pensamento a remete imediatamente ao sumiço do anel de dona Suzana. A consciência está limpa, mas de que adianta? Ser injustiçada dói mais do que uma dor física. Nunca tirou um grampo sequer da casa de nenhuma patroa. Não podia ter sido tão humilhada e destratada.
Às sete em ponto chega ao endereço marcado no papel, depois de uma longa trajetória. É uma casa de alto padrão, onde uma arrumadeira lhe diz que Dona Marta só se levanta às dez, mas pediu que já fizesse o almoço para testar a vaga de cozinheira. Valdete se esmera no fogão.
Por volta das onze, uma senhora alta, de uns setenta anos, entra na cozinha e lhe diz: não para de cozinhar, não. Vai me dizendo seu nome, onde mora, sua experiência como cozinheira, se tem documentos, antecedentes criminais, essas coisas. Gosto de me cercar de gente honesta. Já chega de roubalheira neste país, não é? Antes, havia ordem e progresso no Brasil. E muita segurança, viu? A gente tinha orgulho de ser brasileiro. Quando me casei, minha lua de mel foi em Paris. Fomos num belo avião. Saudade desse tempo em que só gente de bem viajava de avião. Você já viajou de avião, Nilzete? Não? Ainda bem. Isso mostra que você sabe o seu lugar. Hoje, qualquer empregadinha tá andando de avião. Não fazem mais distinção entre gente de classe e povão. É por isso que eu digo, este país bem que estava precisando de uma mão forte.
Enquanto discursa, Dona Marta destampa as panelas e prova a comida que está sendo feita. Mete os dedos no creme de espinafre e os lambe com gosto. Valdete tem vontade de sair dali correndo, mas se contém. Precisa daquele emprego. Tem quatro bocas para sustentar.
Dona Marta reclama do tempero e da apresentação da salada. Diz, então, que Valdete fará uma experiência de seis meses sem registro e que ela, mulata bonita, não venha a se engraçar com seu filho, nem com seus convidados, pois os jantares naquela casa são frequentes. Avisa que, nesses dias, Valdete deve ficar à disposição até o último convidado se retirar. A moça explica que isso para ela é difícil, pois mora longe e tem filhos pequenos.
Dona Marta começa a gritar: Ô, raça de gente preguiçosa! Vocês reclamam da vida, mas não querem nada com o batente! Se não pode ficar quando eu preciso, então pode pegar suas coisas e dar o fora daqui. E nem ouse me responder. Não sou obrigada a suportar a sua voz. Fora daqui!
Valdete se troca rapidamente no banheiro dos fundos e sai dali desorientada. Sem trabalho, não tem como alimentar seus filhos. No caminho de volta, encontra Fátima, antiga vizinha que agora trabalha para o Claudinei. A moça lhe diz sorridente: Grana fácil. É só não marcar bobeira e entregar umas encomendas pra uns bacanas, nos lugares marcados. Quando rola sexo, a grana aumenta. E você, com seus trinta e cinco anos, ainda está inteirona, Val!
Quatro e meia da tarde. Valdete chora ao pensar nos filhos. Confere, então, no papelzinho que tira da bolsa, o endereço de Claudinei.

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quinta-feira, 9 de setembro de 2021

DEZ PERGUNTAS CONEXÕES ATLÂNTICAS... VERA SILVA

Agradecemos à autora VERA SILVA pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - O que entrega de si, enquanto pessoa, na hora de escrever?

Eu entrego o meu sentimento, a minha emoção genuína e verdadeira. As palavras simples, expressam com naturalidade a minha visão de mundo sempre contextualizada com situações comuns da vida de qualquer pessoa, porém sempre, regadas de significado, positividade, esperança e luz.

2 - Criar textos é uma necessidade ou um passatempo?

Sinceramente considero um chamado. Do nada surge o impulso, a vontade, a inspiração. E tudo vai fluindo, fazendo sentido para mim e para uma ou outras pessoas, pois as palavras são como pássaros realmente sempre pousam em algum lugar, ressoam em outros corações.

3 - O que é mais importante na escrita, a espontaneidade ou o cuidado linguístico?

Considero ambos importantes, naturalmente. A espontaneidade tem também o seu valor, pode ser cativante, facilitar a compreensão do que se deseja comunicar e até encantar e surpreender.

4 - Em que género literário se sente mais confortável e porquê?

Me identifico com crônicas, poemas, insights e reflexões. Gosto de transmitir nos meus textos mesmo de forma leve, conhecimentos úteis ao bem-estar do ser humano e sempre embasado na Psicologia Social, Psicologia Positiva, Neurociência, Inteligência Emocional, Filosofia, Ciências humanas. Uso recursos de Coaching e Mentoria, a provocação e a pergunta como formas de aguçar a reflexão e o encontro de respostas dentro de cada um dos leitores, o despertar, a identificação e/ou o autoconhecimento.

5 - Que mensagens existem naquilo que escreve?

De empoderamento e valorização do bom, belo, da natureza que amo e do ser humano.  De coragem, garra e resiliência. Estímulo ao estudo, ao saber, o aprender de forma continuada, reconhecimento de si e do conhecimento enquanto verdadeira fonte de poder. Escrevo sobre uma felicidade simples e duradoura mas não utópica, pois embasada em valores, emoções e relacionamentos positivos, engajamento, propósito, sentido de vida e realizações, o que nos leva ao Florescimento tanto Humano quanto Organizacional.

6 – Quais as suas referências literárias?

Na poesia gosto de Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Mário Quintana, Rubem Alves, Cora Coralina, Cecília Meireles e outros. Mais aprecio também “gente como a gente”, como a amiga e conterrânea poetisa: Liège de Melo, por exemplo.

7 - O que acredita ser essencial na divulgação de obras e autores?

A qualidade do trabalho editorial, ilustração, divulgação, networking. A credibilidade da editora considero ser, em tempos de transformação digital, cada vez mais importante, assim como, a capacidade de promover as obras nas redes sociais de forma ética e responsável.

8 - O que concretizou e o que ainda quer alcançar no universo da escrita?

Desde criança. sempre fui muito de ler, escrever. Profissionalmente, tive a graça de idealizar e criar projetos sociais e educacionais até que, após aposentadoria, adentrei no que considero a minha segunda fase profissional: Consultoria e Mentoria Organizacional. Comecei a escrever sobre gestão e liderança: escrevi o livro Da Revolução Industrial a Gestão com Pessoas e Coaching e participei do livro O Salto Quântico da Liderança. Eventualmente e despretensiosamente, fazia postagens de insights, reflexões e pequenas poesias o que levou algumas pessoas a me incentivarem a investir nessa linha. Comecei a “me aventurar” e percebi que hoje me dá prazer, é uma terapia, embora não seja uma poetisa.  Considero-me simplesmente, alguém que coloca o coração nas palavras, desejando que em algum lugar se conecte com alguém e provoque bem-estar, emoções positivas.

O que desejo alcançar ainda nesse universo? Tempo suficiente para me dedicar mais a esse mundo, interagir, aprender e conseguir tocar e inspirar mais pessoas a trilhar esses caminhos de leveza de espírito, poesia e Florescimento.

9 - Porque participa em trabalhos colectivo?

Porque o valor agregado da obra se torna muito maior pela diversificação e riqueza de visões, competências e percepções. Porque se torna mais viável financeiramente, além do que, no mundo novo pós pandemia, a cocriação e colaboração é e será cada vez mais, o caminho do desenvolvimento sustentável e quem sabe até da sobrevivência da humanidade… Somos todos UM.

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

Me permitam apenas deixar uma pequena reflexão. Vivemos tempos estranhos, impensáveis, de desequilíbrio em vários âmbitos sociais, no ecossistema, no planeta. A esperança e salvação está no próprio homem que o destrói, na mudança de sua visão, do seu mindset porque cegos pelo dinheiro e poder, esquecem de priorizar e preservar a própria saúde, a natureza, a vida. Que a poesia continue a existir, a ser bálsamo e defesa da sensibilidade e sanidade humana. Viva a poesia! Vivam os poetas!

NAMASTÊ!

Marias - ISA MARTINS

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– A sociedade diz que tenho que te amar. Mas nunca consegui. E sei que a ausência do meu carinho provocou o mesmo em você.
Durante as minhas sete décadas, ouvi inúmeras vezes que toda mãe ama seus filhos. Mentira. Milhares delas mentem, para os outros ou para si. Há as que não amam a própria cria. E sou uma delas, Maria Clara.
Também nunca amei sua mãe, tios e primos. Odeio a maternidade. Ainda não me recuperei da violência de ter sido casada aos 10 anos.
Diziam que era a vida. Que vida? O que restou foi passar a minha existência usando o tão surrado vestido da hipocrisia. Tentei fingir amar filhos e netos. Fracassei. Não vou pedir perdão. Não sou culpada pelo o que não sinto.
– Vó, é seu aniversário. Vamos cortar o bolo? Agora somos só nós duas nessa vida. Então, a senhora pode me falar essas coisas na sala. Sua cozinha sempre foi muito quente. Estou suando aqui.
– Eu sempre quis estar em outro lugar, com outras pessoas, fazendo outras coisas.
– Então, vó, depois que eu for embora, nunca mais nos falamos. Está bem? Será o seu presente de aniversário. Só voltarei aqui se me ligar.
– Jura?! Sempre sonhei com uma vida só minha. Sem vocês.
Quando seu avô morreu, me senti livre. Mas a cada visita ou encontro familiar, a jaula em que passei a vida se abria e eu ficava dias lá dentro, apenas sobrevivendo, silenciosamente.
Maria Clara só voltou a ver a avó Maria Luísa quinze anos depois, no caixão. Após aquela conversa, sequer se falaram por telefone. Achou bom não ter de representar mais o papel de neta. Sempre foram estranhas, reconhecia. Sua avó materna era um gelo com todos da família.
A neta aproximou-se do cadáver enrugado. Acariciou os cabelos brancos. E lembrou-se daquela declaração socialmente proibida, que fez com que enxergasse Maria Luísa como mulher e não mais como avó. E ali, diante do quase centenário corpo que havia morrido aos 10 anos de idade, torceu para que ela tivesse aproveitado seus últimos e únicos anos de liberdade. Então, chorando, agradeceu baixinho por aquela única conversa de verdades.
– Vó, comecei a sentir saudade de você naquele mesmo dia, assim que abri a porta da minha casa.
Morreu a avó quando nasceram as duas Marias, ligadas pelo o que transbordou das palavras desencontro, sonho e nós.

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quarta-feira, 8 de setembro de 2021

E lá fora está a chover - HELENA SOARES SILVA

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Idealizei-te nas letras de duas ou três canções, velhos vinis riscados dos excessos.
O caminho que desejaria ter escolhido... esbarrou numa encruzilhada.
As letras, arranharam as cordas vocais e as famosas borboletas... Nem chegaram a se libertar de receios. (A vontade de escutar as pausas inexistentes, escapou-se no que poderia restar do sentir.)
Insensata ilusão revolvendo a apatia e, o pensamento impregnou-se de musas e charmes na escuridão. Nos voos de pássaros noturnos... Quais mensageiros de virtudes genuínas.
Idealizei-te num dia esquecido e cinzento, luminoso para a razão... perdida, por momentos, nas conversas atiradas ao ocaso de um rio pleno de fábulas. (Caprichos numa secreta clausura, adocicados cânticos de Ligeia.)
Da razão perdida na noite entre fantasmas e desejos apenas um simples pensamento...
Simplório pensamento... Estar.
No lugar onde não existe um espaço, nenhum local onde esconder o sorriso esquecido no meio de um parque diversões desfolhadas.
(Um barco de velas meio hasteadas que o vento não faz deslizar rumo ao novo mundo. Rotas imaculadas dos perfumes salgados de travessias inconstantes.)
Estar...
À beira de um jogo de palavras rascunhadas na folhagem outonal, no parco gargalhar de mãos no corrimão humedecido. E as águas iluminadas num gracejo pertinente.
Simplório pensamento... Estar...
Nas versões de versões de prosas antigas, pinceladas nas paredes de uma estação que o tempo esborratou e o mundo, esse, rasurou. Uma Borracha roçando a tinta gasta, apagando o lastro deixado, as inconstâncias.
E o estar... Enregelado num banco, indiferente. Guardando imagens descritas nos sopros frios, espalhando as letras, prosas absurdas de um qualquer prosador enfadado...
(Dedilham as goteiras um som mágico purgando sonhos indesejados.)
Simplório pensamento... Estar...
Nas reticências de um deambular nos degraus desnivelados, que uma corrente de água numa berma do passeio embala, um origami colorido para a foz de um átrio sedutor.
Estar...
Num biplano de madeira, lançado por um desejo juvenil que, a leveza de um dente de leão pairando no crepúsculo rasga. Os gestos e os atos estudados nas longas e melancólicas travessias, dissabores mergulhados no espumar intolerante das correntes.
Estar...
Na poética dos laureados, em cada sílaba lamentada e recitada com a suavidade de uma balada ao adormecer.
(Raios de sol sacodem a noite sorrindo.)
Simplório pensamento... Estar...
No barco que o nome dos esquecidos relembra. As danças inimagináveis em sílicas doiradas e a aragem soprando ocultos desejos. Despojos arremessados num traçado de um veleiro anónimo.
Simplório pensamento...
E lá fora está a chover.

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Entre tempos - ADRIANA MAYRINCK

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Imagens compõem-se em flashes de lembranças que me acompanham.
Vejo-me nos verões entre as praias do Rio de Janeiro e Recife e a obrigatoriedade de permanecer magra e bronzeada por todas as estações do ano. Uma ditadura e um aprisionamento que impunha a mim mesma no meu reflexo nos espelhos que atravessavam o tempo. Precisava nadar, caminhar, correr, andar de bicicleta para sentir que fazia parte do cenário, da vida e de mim mesma. Precisava estar rodeada de amigos, fazer compras todas as semanas, pois a cada saída era obrigatório uma roupa nova, precisava estar nos barzinhos, shows e lugares da moda, mergulhar no mar ou refugiar-me entre as montanhas, viajar todos os feriados, precisava ouvir muita música ( MPB, Bossa Nova, Samba e Rock), estar rodeada de amigos e viver intensamente. Enquanto os “meus heróis” morriam de AIDS. Do outro lado das fronteiras e mares, as notícias viam pela televisão ou jornais e tudo era tão distante, pensava e me preocupava apenas com o meu mundo, o meu país, o nosso futuro.

Participava ativamente das manifestações e passeatas que passavam pela minha janela em Copacabana nos anos 80 e 90, Diretas Já, Fome Zero, Fora Collor e achava que caminhando e gritando estava contribuindo para melhorias no meu país, tão amado e admirado. Vestia o verde e amarelo com imenso orgulho principalmente em tempos de Copa do Mundo ou Jogos Olímpicos. Assistia as corridas de Fórmula 1 com Ayrton Senna, e vibrava com estes atletas que tanto me representavam.

Seguia pela vida, passando as décadas, entre amigos, colegas e desconhecidos, sempre preocupada em dar algum recado, ajudar, contribuir para a melhoria do meio ambiente, da solidariedade humanitária, ou apenas, estender a mão a quem precisava. Trabalhei com jornalismo, turismo, literatura, marketing, vendas, eventos culturais, cinema e fui agente literária... Trabalhei muito... muito! Sem tempo para férias, fazia dos meus feriados dias sagrados e as pausas entre um trabalho e outro, também.

Os anos seguiam, em suas pequenas batalhas cotidianas. Na escola, na faculdade (duas e abandonadas por questões ideológicas), nos empregos e projetos que abraçava com entusiasmo e entrega. Contribuí muito em algumas empresas que ouvia as minhas ideias e aceitavam mudanças. Era tudo vivido ao extremo, o excesso de responsabilidade e cobranças que eu mesma exigia, esgotavam-me. Mas ia em frente com a determinação, a ilusão de que, em cada amanhecer o extraordinário poderia acontecer. Acreditava mesmo naquele futuro tão efêmero e inatingível que construí com os meus mais íntimos desejos e sonhos.

Tive uma filha, plantei algumas árvores, escrevi um livro, lutei, esbravejei, e cansei.

Realizei um sonho e todos os meus desejos.
Fui ao topo da euforia, paixão, entusiasmo e empurrada para o fundo de um precipício. Reagi, lutei, ultrapassei.

Abandonei a minha terra, a minha gente e parte de mim.

Atravessei o Oceano Atlântico e mudei para terras lusas, pois já não acreditava mais que seria capaz de acrescentar qualquer diferença entre tantas indiferenças, violências, injustiças, negacionismos, vaidades, egos inflados e a mim mesma. Ser uma gota naquela imensidão já não era o suficiente para movimentar as ondas. Cansei de nadar contra a correnteza e não conseguir chegar à praia – e permanecer.

Trouxe apenas uma mala.
As mãos dadas à minha filha.
E o coração novamente, apaixonado.
Me re-inventei em cada novo amanhecer.

Trabalhei ainda mais, criei pontes, laços, semeei sementes.
Dediquei todo o meu tempo e o meu fôlego a este meu novo mundo e tudo que estava inserido nele.

Sinto-me aconchegada.

Fiz o Caminho de Santiago da Compostela, e me vi plena, realizada, transbordante. Eu e os meus passos. Eu e os meus limites.
Eu e os meus desafios. Eu e as minhas lembranças. Eu a as minhas dores. Eu e o Inesperado. Eu e a vida, latente, pulsante ao meu redor.

De repente, percebi que contava os dias de confinamento, em uma pandemia que atingiu o mundo sem aviso prévio. Silenciosamente continuei a gritar ao perceber que a humanidade não quer compreender nada do que se passa. E eu ia me desconstruindo a cada estado de emergência decretado em Portugal. Para sobreviver, re-inventei a minha forma de estar, me esgotei em lives, vídeos e redes sociais. Trabalhei sem parar, criei parcerias, novos projetos e adiei outros. Os dias passaram a ter 30 horas e entre trocas e encontros fantásticos, desiludia-me também com as pessoas, com o mundo, com o ser humano.

Travei uma guerra interna, entre o antes e o agora, e sufoquei.
Faltou-me o ar, quase parei de respirar.
Deixei tudo o que havia negado, ignorado, esquecido, frustrado, adiado - me soterrar.

Entrei no meu mundo, confinada entre as diretrizes impostas
pelo governo e os limites impostos por mim.

Comecei a olhar tudo com distanciamento e cada vez mais
profundamente - para o meu lado de dentro.

Me permiti parar, me recolher, me deixar cuidar, desconectar.

Cheguei aos cinquenta anos sem festividades, sem o que havia planejado, sem o novo livro a ser lançado... Apenas um agradecimento intenso, emotivo e muito íntimo por tudo o que foi vivido em cada instante neste meio século. Não fazia sentido celebrar com tantas mortes ao meu redor. Adiei a vida. Mas o tempo não pára e o corpo mudou, reagiu, sofreu. Veio uma avalanche se sensações desconhecidas, alterações em todos os sentidos e me desfragmentei. No reflexo do espelho, permiti a invasão dos cabelos brancos, até então escondidos desde os meus vinte e tantos anos. Haviam mais dores, mais cansaços, menos questionamentos, mais resignação, mais paz, mais serenidade, mais amor. E muita contradição. Altos e baixos, numa dança só minha com todas as lembranças de como era e a constatação de quem sou agora.

Ainda não estou confortável com essa nova roupagem inevitável que a vida nos conduziu. O cotidiano sem movimento, sem o ir e vir aos eventos, sem os cafés, passeios, viagens e abraços é quase insuportável. Mas é necessário perceber que o mundo grita e nos pede socorro. E precisa de nós. E a responsabilidade é toda nossa.

Sinto falta do mar.
Sinto falta das minhas viagens.

E espero este tempo atípico permitir... Respirar!

Mas guardo a minha história em um relicário e de vez em quando, abro – para sorrir.

EM - UNIVERSO FEMININO - COLECTÂNEA - IN-FINITA

terça-feira, 7 de setembro de 2021

É preciso ter fome para sobreviver - GRAÇA MARQUES

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Nas ruas desertas da minha casa ocupo a cozinha para sobreviver, aprendi com minha avó. Não tenho seu fogão de lenha, suas panelas de barro e colher de pau e, muito menos, seus segredos e temperos. Carrego comigo seus ensinamentos de fome nos olhos e alma acesa que não aceita se aprisionar. Desconfio que o livro de receita da vovó seja herança de Dandara, Maria Felipa, e tantas guerreiras que alimentaram a resistência do povo negro.
Vovó usava poucos ingredientes, mas suas receitas eram fartas em segredos, mesmo quando o caldo era ralo revelava sabor de não desista e, um simples angu à base de feijão, toucinho e farinha, de tão gostoso, parecia ativar cada vez mais a fome. Vó dizia que era preciso ter fome para sobreviver, não só fome de comida que se bota no prato, mas fome de liberdade. Quem saboreava seus pratos aprendia a não engolir o que lhe oprimia, junto com a comida da vó, também se mastigava resistência.
Acolhida nos braços das ancestrais, de vovó às que vieram antes dela, esqueço que estou sozinha, me lembro que não sou sozinha. Comigo todas que me fortalecem, todas que, mesmo distante, me ajudam a mexer a panela. Insisto em cozinhar, provoco a fome, eu quero sobreviver. Quebro o silêncio da cozinha com o movimento de preparo da comida: um som da faca na pedra, um barulho da água fervendo, o alimento criando vida, eu criando o alimento e o alimento me deixando viva. Meu livro de receita, tal qual o da vovó, foge ao modelo convencional. São receitas simples que satisfazem a fome do corpo, receitas de encher os olhos de fome por igualdade e receitas que incitam a alma a se rebelar contra o indigesto preconceito. Uma culinária antirracista, com uma pitada da escrevivência de Conceição Evaristo, uma colher cheia de Ângela Davis para mudar o que não se pode aceitar, uma xícara de Maya Angelou para que ninguém nunca se esqueça de levantar quando cair, uma colher de chá de Elza Soares para ensinar o medo a ter medo de nós e 5 ml de todas que conspiram liberdade. Enquanto o tempo lá fora ameaçar a vida, fico aqui dentro alimentando a fome dos meus olhos. Será uma estadia provisória, ancestralidade se dá em travessia, tempo de maturar, tempo de abrir as janelas para os aromas da culinária se misturarem aos ventos e penetrar as veias dos quem têm a mesma fome. Corpos, olhos e almas sentem fome de forma diferente, no entanto, todos definham se não comerem a substância de seus desejos e necessidades. Minha vó nunca falou sobre, mas suas panelas ofereceram muito mais dos que se via, saciavam o corpo, trazia questionamentos aos olhos e inquietações à alma. Tudo que se mastigava, se reverberava, uma cozinha em constante movimento de corpos com fome de vida, uma panela com temperos e a força dos ancestrais.

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segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Tempos de transição - GEORGINA CAÇADOR

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Não posso disfarçar nem ignorar. Ando, faz tempos, com um nó na garganta e um pranto contido.
Na verdade é mais sentido, porque nada faço para que ele não exista. Gostaria de o viver em pleno, para poder libertar-me desta sensação estranha. A de ser livre com um pé preso na grilheta, do desconforto de não chorar. Faz tempo, na verdade tanto tempo como o que eu ando sem capacidade de escrever algo de jeito, com este embrulho de tristeza. Nem o choro e nem o aceito. Como se ele fosse um sentimento de culpa. Como se o facto de eu respirar, viver e sentir um bem-estar físico, não me dê permissão para sentir a tristeza. Como se fazer isso fosse uma ingratidão à vida.
Estes tempos são estranhos.
Dei por mim a valorizar um ovo como uma fortuna. A agradecer a sopa de legumes como um banquete. A cuidar do pensamento, como se pensar em coisas que seriam boas ter ou fazer, fosse um insulto à vida que atravessamos. A vigiar-me no que penso, digo, faço e sinto.
Este início de ano trouxe-me uma saúde precária. Olho para mim e para o embrulho que me pesa, porque me pesa. Não sei como o transportar e nem como conviver com ele. Dei por mim a fazer balanços da minha vida. A não saber como modificar a tristeza que sinto, na alegria que normalmente costumo mostrar. Gostava de me livrar desta sensação estranha, de manto escuro que me envolve.
Mas na verdade não posso.
Num momento, talvez o que seja certo, poderei lavar a alma, lavrar a terra da minha vida para lançar sementes, e saber que nos meus olhos existe o sol que as farão crescer e dar fartura de vida e à vida. Por agora tenho um nó na garganta e um pranto que nem é contido, mas sentido, como um embrulho de papel pardo e tosco e que sou obrigada a carregar, apenas porque não faço a menor ideia de como me libertar.

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domingo, 5 de setembro de 2021

Liberdade - GEORGIA ALVES

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A alteridade da terra não se fez em um dia. A lua levou milhares de anos a libertá-la do caos. Os povos buscaram equilíbrio em sobressaltos. Manadas e mamadas lutaram contra inundações. Pior, contra a seca. Trovões e raios. Fome e desesperos. Até que na costa da América. Algo mudou. Ao sul, havia água e comida. Sombra e paz. E os povos mais fortes firmaram-se com disciplina. Em humildade, plantavam e colhiam o sustento. Brotavam milhos. Nasciam os cultivos e as culturas. As celebrações. O ritmo e o som. Quebram cocos, dão as mãos. No intento, não outro, de semear e pescar alimento, seguiam sob os mitos da lua, do rio, do boto, das matas, do sol e da chuva. A floresta os ensinava a respeitar seus mistérios. Mil e quinhentas línguas faladas teriam o fim. Um elegeu o sal como riqueza, ao invés do sol. E os povos fortes viram-se fracos. Diante das lanças, do sangue, do charco. Em Olinda ergueu-se o farol do homem branco.
Em mil e duzentos metros, abaixo do nível mar existia, brotavam canas e, para além do sal, o açúcar. Somos povos que se consomem. Pernambuco, contraditório, segue em seu ritmo forte, ensimesmado, por tradição em contradição e por vocação adoçava as bocas. Neste lugar do mundo a brotar açúcares. Nascem laços rotineiros. Itinerários e mapas. Botijas, segredos. E os continentes distantes passaram a ser perto pelo mais longe. Atados ao divino interesse e ao amargo de subjugar dos homens. Em nome de Deus, Nicolau escreve a bula papal.
E impõe ao africano horrores a extradição vil. O povo forte da tez escura é levado das savanas. A mão que assinava a papel outras algema. Aos infernos dos ferros e lunduns dos navios. O a mar chorar fundas dores de cortar a cana. E a da pele que sangra brotam açúcares. Não foi pequena a luta das cores e das línguas. Das mandingas maldizendo a má sorte de todo. Pernambuco tua dor imortal ainda ecoa grosso. Estelita bem sabe da injusta condição e grita. Fraterno seja o manto que cobrirá o futuro. Supere a desigualdade e se erga em liberdade. Escreve a história por teus libertários inda que tarde.

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sábado, 4 de setembro de 2021

A lua - FLÁVIA ALICE ZOGBI

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De repente um breu encobriu a aldeia. Tudo estava às escuras. Casas, postes nas ruas, semáforos, nada funcionava. As pessoas saiam de suas casas preocupadas com a segurança. Alguns diziam foi blackout em outras cidades também. Outros diziam corte de luz culpa do governo. E os fanáticos religiosos gritavam “fim do mundo culpa dos pecadores!” Na realidade, ninguém sabia o que estava acontecendo. Mas todos olharam para o céu. Era algo inusitado para aquele dia. A lua redonda e cheia brilhava com tal intensidade que iluminava o povoado inteiro.

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sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Ânsia de vingança - FÁTIMA SÁ SARMENTO

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Quando a mulher estacionou o carro na Avenida Brasil, percebeu que esquecera de vestir-se de forma mais adequada. Olhando para os lados, cogitou voltar ao carro para vestir o sobretudo. Mas, depois de alguns necessários minutos, resolveu continuar e caminhou para o hotel, decidiu fingir que nada acontecia. É bem verdade que atraiu olhares curiosos pelo caminho, afinal, não era de se jogar fora. Caminhando, passo a passo, a empoderada Ângela não andava, desfilava, atraindo mais e mais olhares para si. Preocupou-se agora não é hora de ser reconhecida, precisava concluir o que veio fazer. O melhor seria ficar invisível. O passado sombrio estava ali, naquele lugar, na empresa. Entre o poço e o pêndulo, vivera naquele meio.
Porque sentira-se como Eva expulsa do paraíso sozinha, sem Adão. A criatura pela qual era apaixonada, nem se quer veio em sua defesa, quando ela precisou dele. Mas estava ali. Voltara ao ponto de partida.
Esperara cinco longos anos, estava certa de que superara tudo, cada um consegue, chegou a vez dela. Que os autores esperassem no palco, o show seria de Ângela, sem dúvida. Trabalhara para isso. Chegou ao saguão do hotel, ali sofrera, agora triunfaria. O leilão estava para começar. Olhou em direção às costas de alguém se registrando, sentiu que se arrepiaram os pelos. O homem girou a cabeça, os olhos captaram os de Ângela, os dele hipnotizados, os dela eclipsados. A mulher seguiu para o auditório, passando pelo homem, sem encará-lo outra vez. Entrou, sentou-se, sem se fazer conhecer. Queria fazer uma surpresa, mas era cedo.
O leiloeiro começou os primeiros lances, que não a interessariam, por enquanto. O objeto de desejo seria a última peça do tabuleiro. O corpo dava sinais, rangia os dentes, só não roía as unhas, pois isso ficara no passado.
Lembrou do julgamento, das acusações, depois, resolveu deixar que, aquilo ficasse, no passado, já que agora era uma outra pessoa, vencedora, um CEO.
Logo, a justiça se cumpriria e não considerava vingança. Esticou a vista até onde pôde, viu novamente aquele, que foi o pivô de tudo que lhe ocorrera, sim, foi. Por uns minutos a cena se repetiu. Naquele momento, o leiloeiro anunciou o primeiro lance, dado por uma mulher que parecia conhecida de Ângela, a Empresa de Cosmético S"; A o S sabia de cor: Solano de Abreu, o hipócrita e o A, descobriria.
Quando tudo aconteceu, Solano nem se quer a defendera. De repente, o lance foi feito, esperou, percebeu que ninguém mais se manifestaria, levantou-se e fez a proposta, sentando-se, em seguida. Como não houve mais lance, o Leiloeiro começou: “Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três. Vendido para a senhorita Ângela Santoro.” Todos se voltaram. Ela balançou a cabeça para os lados, como se negasse e disse: “Sou Ângela Silva, aquela a quem todos acusaram de espionagem.” Olhou em volta, viu desespero, incredulidade em certo par de olhos, no entanto, os dela pareciam estrelas. Ao receber em mãos a documentação da Empresa, renasceu. Ali estava personificado o passado de dor e vergonha, naquele amontoado de papeis. A empresa e todos aqueles que a traíram, faziam parte, agora, do pacote de aquisição, inclusive, aquele que esmagara a inocência de menina sonhadora. Ali e naquele instante, recomeçaria.

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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

O tornar-se mulher no novo milênio - ELENI SYMBAN

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“Ninguém nasce mulher, torna-se mulher.” Pensando na grandiosa frase de Simone de Beauvoir, comecei a me perguntar em qual momento me tornei mulher. E vou além, indagando quantas de nós temos a possibilidade de nos tornamos mulheres. E quantas de nós têm realmente esse desejo. Pois em meio as minhas adquiridas convicções, pelos livros e pela vida, para torna-se mulher é preciso ter coragem, é necessário desconstruir todo protótipo estabelecido desde a tenra infância. É olhar dentro de si e retirar a punhos os moldes machistas incumbidos ao gênero.
Pode parecer mentira, mas existe uma gama de mulheres machistas que julgam, oprimem e desfrutam. A culpa é delas? Não. Nem todas conseguem a liberação das amarras socioculturais. E as que assim o fizeram, foram queimadas em fogueiras, tiveram seus nomes escondidos da história mundial. Porque para a maioria o nosso papel social sempre foi divido em ser como Maria ou ser como Eva! E talvez por medo, nos dividiram, entre mulheres de verdade e aquelas de mentira. "As que são boas para casar, as que só são boas para amar" e as feministas.
Baseado sempre no sexo frágil, submisso e delicado. "Ah! Mulher não fuma, não bebe e não arrota, muito menos chama palavrões!" é o que é dito. Mulher tem que ser família, cuidar da casa, e começamos desde cedo se não com a boneca é nos cuidados com um irmã(o) menor.
E quando conseguimos conquistar nossos direitos cíveis, descobrimos que na realidade não é assim. A misoginia cresce e é tolerada; o tráfico de mulheres em todo mundo; meninas que se casam antes da adolescência e tantas outras formas de abusos dentro de casa, nas ruas e nos campos de refugiados. As que são violentados em período de guerra, e as que são violentadas nas faculdades e nas festas.
Ser mulher é guerrear todos os dias, é se libertar dessas amarras históricas, é pensar no plural, reivindicando por ela e por tantas outras. E após todos esses anos de vida, eu descobri que me tornei mulher há bem pouco tempo, mas me tornei. E que todas nós possamos nos perguntar se realmente nos tornamos mulheres, qual nosso verdadeiro papel dentro e fora de casa, e acima de tudo, mais união e menos julgamentos.

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quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Revoada - DECA LOURENÇO

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As maritacas em revoada assumem o barulho das manhãs encontrando pouso no galho de árvore da praça malcuidada, que apesar do homem resiste. Em seguida vem os periquitos, com sua plumagem verde vibrante, como as matas de Oxóssi pra lembrar que é tempo de contemplação e de dar graças à Criação de Oxalá.
E eu me rendo.
Ao céu azul, livre da fumaça cinzenta,
Ao calor da manhã morna que aquece o corpo,
Ao silêncio incerto que se instalou,
Ao aperto no coração que vem e vai muitas vezes ao dia, como as ondas do mar de Yemanjá.
Ao curar da dor de parir e perceber o florescer guiado pelas mãos amorosas de Oxum.
Com os pés plantados no chão sentido a quentura do Sol na cara e o vento, a desarrumar os pensamentos, Yansã manda avisar que a tormenta vai passar.
E eu aprendo
A plantar boas sementes com fé porque vão germinar,
A reaprender o caminho do amor porque sou uma Yabá,
A ser corajosa porque Ogum, com sua energia e força me obriga a não desistir e a caminhar,
A acreditar na vida e brigar por justiça, porque Xangô, Rei de Oyó, com seu machado, não dorme!
E eu agradeço
Aos anos de aprendizado que me trazem calmaria nos momentos de aflição,
Aos caminhos que estão sendo abertos por Exu, o Guardião,
À vida que não acabou
À ancestralidade que me salvou
A essa corrente potente, de elos fortes, que não deixa ninguém afundar.
No céu, as maritacas, outra vez em revoada fazem escândalo celebrando mais um dia que passou.
E eu me recolho

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terça-feira, 31 de agosto de 2021

Trivessia - DAIANA PASQUIM

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A cabana não era de qualquer das cores inventadas pelo homem. Era caprichosamente desenhada pela ação secular do vento e da umidade, dia após dia, com as mudanças das estações do ano. Definir em poucas palavras sua aparência, seria: surrada pela natureza. Isso conferia certo mistério para aqueles três metros quadrados. Com a porta entreaberta era possível enxergar as panelas amassadas de tantos cozidos, penduradas em um dos cantos, donde se revelava a metade de uma chapa sobre tijolos amontoados. Estas quatro paredes cobertas por palhinhas dispostas em feixe, lado a lado, protegiam da vida aquela senhora reclusa, não-vinda, mas nascida ali, como um broto de árvore que rebenta, cresce e vai se ramificando amplamente ao envelhecer.
A senhora da cabana detinha conhecimentos herbários aos quais a vila recorria: para picada de bicho brabo ou doença danada, daquelas que deixavam de cama. Ela era pouco vista rodando por aí, mas muito visitada, apesar de pouco amistosa, nunca negava um atendimento em caso de necessidade. Sua linguagem se traduzia muito mais em ações, que em palavras. A expressão corporal de acolhida, a mão estendida com o fruto, flor ou erva certeira, o aceno de cabeça e o olhar firme era toda a posologia que aquela gente queria. A senhora da cabana era dona de um olhar profundo e inspirava uma magnífica confiança. Era esse olhar que salvava seu vocabulário enxuto e preciso. Mesmo sendo tão prestativa à vila, sem paga nem reza, nutria uma solidão “ensimesmada”. Por mais que parecesse, a natureza não lhe bastava. Em seu passado, uma ruptura continuava ecoando.
Isso até o dia em que as gêmeas chegaram. Duas desgrenhadas loiras, madeixas compridas e entrançadas com vários fios solto moldados pelo vento, canelas finas e pescoços compridos. Mas o que denotava sem dúvida o parentesco era o mesmo olhar profundo e a escassa expressão vocabular. Suas presenças, contudo, tinham um “que” de alegre vistos naquelas pequenas flores em verde, no vestido acinzentado de um fundo que já foi branco.
De casa em casa, passaram pela vila em busca de algo, ou alguém. Primeiro, na dona Ana Benzedeira, depois logo começaram todos a falar das gêmeas viajantes. Inspiravam 17 anos. Até que um dia não restou mais dúvida: as garotas seriam da linhagem da senhora da cabana. Filhas, corriam à boca pequena, pela vila toda. Mas demorou para que chegassem lá. Por mais que tão logo aparecessem no povoado já soubessem da existência, demoraram alguns dias para perfilarem-se defronte àquela cor não inventada pelo homem. Foi naquele por de sol de sexta-feira que, lado a lado, apareceram em frente a porta da cabana. Não encontraram a velha logo de cara. Mesmo uma quase eremita estranhamente havia saído de casa naquela tarde. Quem sabe por que viria a ser aquela uma noite de pleníssima lua cheia. Aquela que costumam chamar de Lua de Sangue.
As gêmeas continuaram na soleira da cabana a aguardar. O sol desceu. De repente, as folhas das árvores em derredor puseram-se a mexer. Uma crescente onda se aproximava... o compasso da mãe anciã começou a acelerar. Seus olhos se encontraram. Anos de espera e separação. Mudas, naquela constante e familiar linguagem que às três mulheres lhe eram conferidas. A senhora da cabana diminuiu o passo, agora mais leve, menos constante. Não era possível o que os seus olhos traziam. Poderia mesmo confiar na íris?
Não eram gêmeas, eram trigêmeas. Pisando aqui na Terra, a senhora da cabana carregava sozinha aquele DNA triplo, que a deixava erma em si mesma. Quem sabe até mesmo por isso, encerrada o fosse: não era uma, era trina. Ao olhar-se no espelho d’água enxergava multifaces. O rio, dias mais cheio, dias mais vazio, com turbulências como a própria metáfora do estrangeiro que volta às origens. Útero é água. Em dado momento, estiveram as três unidas. Em apenas uma, o coração bateu. Tão cedo aprendeu que nunca se entra duas vezes no mesmo rio. Nem nós, nem as águas, seremos as mesmas. Recebeu a visita da terceira margem. Uma questão metafísica em sua loucura e solidão, do feminino com fluídos e ervas. O peito dela se aqueceu de travessias. Uma grande luz se antecipou da lua e a infusão aconteceu. O clarão fora de longe avistado.

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segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Sempre Comigo - CRISTINA RODRIGUES

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A manhã estava vazia, imersa num olhar apagado. A linha do horizonte, perfeita, sem os retoques subtis das tardes quentes e ondulantes. No ar pairava o cheiro a invocar flores campestres e searas sacudidas pelo vento. A noite fora fresca, as portadas das janelas ficaram abertas e uma aragem fina tinha varrido o espaço, como uma carícia na pele nua. Tudo parecia estar no seu devido lugar, tudo exceto os meus pensamentos, sempre em desalinho, a sacrificar a calma aparente. Desliguei o despertador atempadamente para não acordar com a campainha a tinir-me nos ouvidos, e emergi num torpor enganador de quem ainda dorme um sono sossegado. As noites continuavam inquietas, o sono agitado era pontuado pelo toque das tuas mãos no meu corpo e a tua voz nos meus ouvidos. Acordava coberta de suor e com o gosto do teu beijo, ainda, nos meus lábios. A manhã devolvia-me imperativamente ao dia e à realidade mentirosa: tu não estavas, nem nunca tinhas estado. Talvez para manter a tua voz em mim, deixava-me ficar por mais uns minutos na cama, presa ao desejo, de olhos fechados, imaginando que os teus dedos longos continuavam o seu passeio pela minha pele. Cerrava teimosamente os olhos para não te perder, e a tua presença ali ficava, como uma manta que me aconchegava e devolvia a certeza que, embora ausente, estiveras comigo.
Finalmente deixei-me acordar, espreguicei-me e bocejei. Puxei o lençol para me cobrir e levantei-me levando-o comigo, ele seguiu-me lambendo o chão até à casa de banho. A pequena janela do aposento deixava entrar os raios imprecisos da manhã, por entre a portada, e os mesmos desenhavam reflexos difusos na parede. A luz e a sombra unidas em contornos bem definidos, num bailado sem pertença, (um pouco como nós).
Parei junto ao espelho e olhei-me, nos meus olhos estava refletido o desejo. Estranho olhar esse, uma mescla de anjo e de demónio. Por dentro dessas janelas profundas espreitei o meu amor por ti. Os meus olhos tinham escurecido, o meu olhar brilhava com a mesma intensidade que as candeias na escuridão. Sorri, como quem vê uma miragem que é só sua. Porque há coisas que ninguém nos pode tirar.
Nasceste há muito tempo atrás, quando o meu mundo escurecia. Eu chamei-te sem pronunciar o teu nome e tu vieste sem conheceres o meu. Surgiste como uma brisa, uma bruma sorrateira, um cheirinho a café numa manhã de inverno. Chegaste como uma mão que surge do nada e nos agarra no derradeiro segundo antes de cairmos no abismo. A minha bússola tinha perdido o norte e só me indicava o sul. Dentro de mim pereciam os sonhos e cresciam as incertezas, a par com a mania que o amor não me estava destinado. Acordei para o mundo a sentir-me só e esse sentimento nunca me abandonou. Estar só era o meu fado, tentei contornar essa certeza e acreditar no engano. Tornei a olhar-me no espelho e passeei-me pelos contornos do rosto, as marcas no corpo, o suave respirar no meu peito. Deixei o lençol escorregar e fui lendo as histórias escritas nas rugas da minha pele, descobri-lhe os sinais, as ausências de carinho. Talvez o amor não fosse para mim, mas o tempo coutou-me que a insanidade tudo permite, as peças mudam de lugar, as incertezas podem virar certezas, o errado parecer tão certo. A insanidade permite-nos ser livres, ilimitados, complacentes com a anarquia. Permite-nos acreditar, e isso é tudo o que eu mais preciso neste momento.
Tu não existes, bem sei, mas inventei-te com a certeza que estarias sempre comigo. Assim, nunca estou só. As noites embora inquietas são partilhadas nos teus braços, encosto-me a ti e tu deixas-me ficar. Conheces os meus medos, a fragilidade dos momentos que nos fazem felizes, a fugacidade dos ápices cruciais. Partilho contigo os pensamentos ousados, os olhares demorados, o formigueiro na pele que se deseja, escuto a tua voz que me embala e visto-me com o teu sorriso.
Amanhã o dia amanhecerá novamente juntando-se a todos os dias passados. Insistirei em cerrar os olhos mais uns minutos para não te perder, em manter a sensação vertiginosa do desejo consagrado, gravado na pele, os beijos guardados sobre o coração, os gemidos agasalhados na voz. Manterei a paz que vem com o silêncio. Despertarei para procurar o teu olhar, ouvir a voz que preenche o vazio. Acreditar no abraço que me resgata do mundo, o beijo que me aquece e ilumina. Porque tu não existes... bem sei, mas ninguém precisa de saber que estás sempre comigo.

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domingo, 29 de agosto de 2021

Memórias de Vida - CRISTINA FERREIRA GREGO

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Sentada em frente ao computador e de olhos absortos na página em branco, o título martelava-me na cabeça. Trajava de pijama e robe. O cigarro apagado, permanecia entre os dedos da minha mão engelhada.
Lembranças da minha existência. Pareciam excertos retalhados de outros tempos, de uma vida sentida por outra que não eu. Não dormi naquela noite, que se fez madrugada, arrastando as horas até ao entardecer. No escritório, as luzes apagadas e a cortina pendente atrás de mim, criava um travão ao sol e uma barreira para o mundo. Os minutos foram gastos entre a dor que me atormentava o físico e a dúvida que me lacerava a alma.
As palavras do meu marido ecoavam pela casa. Chamava o meu nome e dizia insistentemente que os convidados chegariam em breve. Os setenta e dois anos carregava-os eu, mas ousava celebrar a data perante os outros. Existirá pior motivo para comemorar? O de um corpo que me trai e me devolve uma imagem em decadência. Um espírito que carrega o fardo de estórias imaginadas e que inusitadamente não quis passar para o papel enquanto jovem. Ou talvez me tenha faltado o talento. Agora, encontram-se condensadas em placas, nas metástases que me invadem o cérebro. Vesti-me sem o aprumo de outra época. A vaidade, era um pecado que já não habitava em mim.
Acho que dei as boas noites e que, embora calma, trazia uma palidez de cera. A noite foi invadida por um aguaceiro forte, ouvia-se uma chuva grossa e pesada lá fora. Nunca mais esquecerei esse momento, as pessoas a falarem não sei de quê e eu a percorrer a sala com o olhar, o chão, as paredes, o enorme salgueiro por trás da varanda. Enchi um copo com uísque e saboreei, enquanto o ardor escorria pela minha garganta. Olhei de longe o meu marido. Ousei lembrar-me das linhas do seu corpo jovem e de como tantas vezes me deixei amar entre aquelas paredes. Continuei a beber. Pousei o segundo copo e fiquei. Sentia-me mal, nunca me senti assim, murmurei numa lassidão arrastada.
Silêncio brusco. Espantoso como o meu eu se havia transformado noutro alguém, noutra personagem menos imediata e menos concreta. A minha imagem no vidro contornada pelo reflexo das luzes sabotava a minha essência. A iminência da morte dava-me a passividade de quem já se sente ausente. Se ao menos me fosse dado o tempo suficiente para escrever a minha última obra. Sentia o constante desinteresse da mulher desabitada de pessoas e de lugares, de tempos e de sentimentos.
As gargalhadas dos outros contornavam a lacuna do meu vazio. Tocavam-me e felicitavam-me pela riqueza de vida que acumulava. Um casamento feliz e tantas obras editadas. Décadas de palavras aglutinadas e prensadas nas estantes de quem me quer ler. Memórias que se esvaem no presente. O meu coração pulsava de tristeza. Senti-me uma condenada, que ao deambular entre os convidados, abria vagarosamente e voluntariamente a minha cova. E eles, no seu papel de cangalheiros, me cobrissem com pazadas de terra.
Remeti-me a um vagar introspetivo que arrastei comigo até ao piso superior. Escutei o ranger da madeira na pesada porta do nosso quarto. Os passos, que sabia de cor, tornaram-se mais longos e espaçados. A janela entreaberta deixou entrar o frio que me enregelou os ossos. Fixei o salgueiro, que pareceu jorrar lágrimas que entranhavam na terra, formando um ciclo único de dor. Fechei os olhos e deixei o peso do meu corpo arrastar-me para terra.
Perdi a vida anterior. E a interior, bem entendido, tinha as referências do passado onde moraram os afetos e os laços sentimentais que me impeliram a escrever, mas que tardavam em chegar.

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