sábado, 2 de janeiro de 2021

MARIA DE FÁTIMA BERENICE DA CRUZ FALA DE... CANGALHA DO VENTO de LUIZ EUDES

Às vezes o melhor que podemos fazer por um livro, e respectivo autor, é dar a conhecer a primeira impressão. Assim sendo, aqui fica o texto que Maria de Fátima Berenice da Cruz escreveu para o livro CANGALHA DO VENTO, de Luiz Eudes.

A RELAÇÃO PSICOAFETIVA DO LEITOR NO ATO DA LEITURA: UM OLHAR SOBRE CANGALHA DO VENTO

THE PSYCHOAFFECTIVE RELATIONSHIP OF THE READER IN THE ACT OF READING: A LOOK OVER CANGALHA DO VENTO

Maria de Fátima Berenice da Cruz[1]

RESUMO: O presente artigo tem por objetivo analisar a existência discursiva de três personagens masculinos da obra Cangalha do vento para detectar nos interstícios do texto como a hegemonia do discurso patriarcal, gerador da ideia de um corpo masculino forte e dominante se faz presente. Para isso, utilizamos como recurso metodológico a análise do discurso na perspectiva da teoria crítica e como base teórica os estudos sobre masculinidades, corpos dominantes, docilização do corpo e a noção de conserva cultural. Para consecução dessa análise, percorreremos de forma panorâmica os estudos de Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Durval Muniz com uma breve incursão no conceito de conserva cultural de Jacob Levi Moreno.

PALAVRAS-CHAVE: Masculinidade, dominador, dominado

ABSTRACT: This article aims to analyze the discursive existence of three male characters from the work Cangalha do vento to detect in the interstices of the text as the hegemony of patriarchal discourse, generating the idea of a strong and dominant male body is present. For this, we used as methodological resource the analysis of discourse from the perspective of critical theory and as theoretical basis the studies on masculinities, dominant bodies, docilization of the body and the notion of cultural conservation. To achieve this analysis, we will walk in a panoramic way the studies of Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Durval Muniz with a brief incursion into the concept of cultural preserve of Jacob Levi Moreno.

KEYWORDS: Masculinity, dominating, dominated

Marielle Macé ao tratar da relação entre a literatura e a vida nos diz o seguinte: “É na vida ordinária que as obras se sustentam, deixam suas marcas e exercem sua força. Não há de um lado a literatura e do outro a vida; Pelo contrário, há na vida em si, formas, ímpetos, imagens e estilos que circulam entre os sujeitos e as obras, que os expõem, os animam, os afetam”. (2011, p. 9-10). As palavras de Macé nos remete ao domínio da relação afetiva que o leitor exerce com a leitura da obra literária. Quando falo de afeto amplio o sentido desta palavra a todo e qualquer sentimento e reação que seja tomado o leitor no instante da leitura. Roland Barthes (1987, p.12) nos diz que a gestação do texto é realizada no pacto do prazer. E esse prazer se realiza no paraíso das palavras, onde dialogam signos, adjetivos, rupturas, frases e miragens de objetos que eles representam. Dito isto, percebemos que a obra literária só tem vida e ação quando tomada pelos olhos e sentimentos do sujeito leitor.

Por essa razão, para iniciar uma reflexão teórico-crítica sobre a obra Cangalha do vento (2019) do escritor Luiz Eudes foi preciso investir primeiramente num aporte psicoafetivo para que a obra pudesse ganhar vida e ação. A leitura reflexiva de uma obra exige do sujeito leitor um recorte temático de análise em virtude das inúmeras possibilidades de leitura que ela nos oferece. Em vista disso, optei por analisar o aspecto da masculinidade presente na obra Cangalha do vento (2019). Certamente que outros leitores encontrarão diversas outras faces de leitura; mas nesse momento me interessa perceber de que forma é construído o conceito de macho no tecido narrativo da obra. Em vista disso, farei uma leitura desenvolta, cínica, pois fortemente comprometida com o afeto.

O objetivo de análise desse artigo é percorrer a existência discursiva de três personagens da obra Cangalha do vento, a saber: Aristeu, José Paulo e Fernando com o intuito de pensar como o autor contemporâneo lida com a hegemonia do discurso patriarcal, gerador da ideia de um corpo masculino forte e dominante. Para isso, utilizamos como recurso metodológico a análise do discurso na perspectiva da teoria crítica e como base teórica os estudos sobre masculinidades, corpos dominantes, docilização do corpo e a noção de conserva cultural. Para consecução dessa análise, percorreremos de forma panorâmica os estudos de Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Durval Muniz com uma breve incursão no conceito de conserva cultural de Jacob Levi Moreno.

Antes de iniciar uma apreciação sobre essas figuras masculinas que protagonizam a obra Cangalha do vento, faremos uma breve apresentação desses homens. Aristeu, patriarca da família, sai de casa aos quinze anos de idade em decorrência de contínuos maltratos desferidos por seu pai. Com a ajuda da irmã que lhe preparou uma mala contendo utensílios necessários para jornada, Aristeu viveu quinze anos trabalhando na extração de látex na floresta amazônica. Decorridos os quinze anos de trabalho pesado, Aristeu segue para outro seringal e se torna vítima de um criminoso acidente provocado pela companhia de navegação para receber indevidamente o seguro. A despeito do projeto criminoso, Aristeu consegue se salvar e ainda salva três figurões da sociedade amazonense. Como recompensa Aristeu tem o seu retorno garantido para terra natal.

Ao chegar, inicia namoro com sua prima Tereza e em virtude do compromisso assumido, resolve mais uma vez colocar o pé na estrada em busca de melhor condição de vida. Dessa vez Aristeu vai trabalhar como tropeiro nas fazendas de cacau do sul da Bahia. Após dez anos, ao fazer uma viagem acompanhando um carregamento de cacau para Salvador, o navio encalha e afunda. Bafejado pela sorte, Aristeu mais uma vez sobrevive ao naufrágio e retorna à Baixa Funda onde vem a se casar com 44 anos com a sua Tereza de “tranquilidade mórbida” (p.22). O casal forma uma família com dez filhos, vindo Tereza a falecer no último parto.

O segundo personagem que faremos apreciação é o José Paulo, filho de Aristeu. Em decorrência de uma grande seca que assolou o Junco em 1961, José Paulo viaja para São Paulo com apenas 18 anos com poucos recursos e munido de muitas esperanças. A cidade lhe trouxe muitas dificuldades, mas um encontro com um político influente da capital paulista lhe rendeu um emprego na metalúrgica Serralgodão. O emprego oportunizou José Paulo a realizar o seu casamento com Maria e levá-la para São Paulo. Entretanto, no fim dos anos sessenta, com a tomada do poder pelos militares, a vida em São Paulo se torna impraticável, fazendo com que José Paulo retornasse com Maria grávida de Fernando para o Junco.

Fernando é o terceiro homem que protagoniza a obra Cangalha do vento. Sua representação na obra se constitui como a síntese das duas primeiras gerações masculinas da sua família com uma nova percepção sobre o ser masculino. A rudeza do avó e a perseverança destemida e solitária do pai, agora são transformadas por Fernando em vontade de saber. Comunga com Fernando a força da reflexão e em muitos momentos ele domina a narrativa e toma do autor a pena da escrita. E como nos diz Todorov (2006), “Que é uma personagem senão um determinante da ação?” Então, o personagem Fernando toma a narrativa para mostrar a sua sensibilidade frente às dores do mundo e com a liberdade de um pássaro-poeta, ele canta a sua terra sem medo de mostrar-se como macho pleno de sensibilidades.

Cangalha do vento permite ao leitor transitar do lastro de superfície linguística do texto para uma profundidade semântica promovida por uma leitura subjetiva. A imagem visiva[2] que o texto Cangalha do vento transmite constrói no leitor uma relação psicoafetiva com o texto porque a narrativa desses três homens serve de gatilho para pensar falas silenciadas, imagens invisibilizadas de mulheres companheiras e mães que estiveram nos bastidores das vidas desses personagens. Todavia, é perceptível que o apagamento dessas mulheres seja reflexos diretos da condição patriarcal perversa, pela qual foi construída a formulação do ser macho na vida desses personagens. Durval Muniz de Albuquerque Júnior em um belíssimo artigo intitulado “Máquina de fazer machos” sinaliza sobre a construção histórica e cultural do macho, dizendo:

Um macho não adoece, não tem fragilidades nem físicas, nem emocionais, frescuras. Um macho sempre sabe o que faz, aonde quer chegar e ai daquele que se colocar em seu caminho. Um macho é um ser competitivo, está sempre disputando com outros machos a posse das coisas e das pessoas (2010, p.22).

A descrição realizada por Durval Muniz revela o enrijecimento, a carapaça muscular, a ausência de afeto e de sensibilidade que compõe o universo masculino construído pela hegemonia patriarcal. Os homens de Cangalha do vento não seriam diferentes. Eles foram construídos para sofrer, trabalhar, amparar e se tornarem heróis da família. Todavia, ao rasgar a máscara da construção patriarcal, encontramos uns sujeitos frágeis, amorosos e com uma alma sofrida por ter escondido por toda uma vida a sensibilidade amorosa que neles habitava.

Desse modo, Luiz Eudes consegue magistralmente tecer um tapete linguístico com aparência simplória, mas com uma profundidade semântica invejável. As obras com aparente simplicidade discursiva escondem profundidade reflexiva. A velocidade com que são montados os quadros narrativos da obra, cria-se uma tela imagética de outras figurações não ditas, mas automaticamente sentidas. E como nos diz Umberto Eco (1979, p. 36) “um texto distingue-se, porém, de outros tipos de expressão por sua maior complexidade. E motivo principal da sua complexidade é justamente o fato de ser entremeado do não-dito”. E ele ainda ressalta que: “não há nada mais aberto que um texto fechado” (p.42). Então a leveza e simplicidade da escrita de Cangalha do vento transforma-a em leitura complexa e profunda. Essa profundidade é percebida no instante em que Cangalha do vento trapaceia o real dando-lhe o caráter ficcional.

A leitura dessa obra é para mim um exercício muito especial, pois ressuscita um contexto geográfico e afetivo vivido por mim durante toda infância e juventude. Reencontrar com o Junco, suas histórias e pessoas através da obra Cangalha do vento é perceber que a ficção e a realidade dançam juntas a ciranda da memória de uma leitora copartícipe da ação narrada por Luiz Eudes e tantas vezes narradas por meu pai na infância. Como não lembrar das famosas romarias da senhora Maria de Venança, das célebres missas do padre João Batista, do corpo franzino de Dom José Conélio, das fartas risadas do Dr. Linaldo e dos enfrentamentos políticos de Josias Cardoso na praça da Igreja de Nossa Senhora do Amparo. Esses e outros elementos acionam o gatilho da memória dessa leitora ao lembrar das narrativas familiares da infância, que por consequência, transformam esta obra num belíssimo texto recheado de lembranças, respeito e afeto. Por isso, passaremos agora a analisar a forma como a obra Cangalha do vento explora, atualiza e reatualiza a noção de corpo masculino, especificamente do sertanejo nordestino.

O CORPO MASCULINO: UMA CONSTRUÇÃO COMPLEXA

Cangalha do vento cria cuidadosamente para cada geração de homens um perfil de corpo.  O corpo do velho Aristeu carrega o peso da dor, a marca do sofrimento e um silenciamento do amor e da sensibilidade, mesmo quando sente amor ou dor. José Paulo por sua vez carrega a solidão e a luta de um menino que muito cedo conheceu a orfandade. Muito embora haja em José Paulo um comprometimento com o outro e um forte respeito para com a figura feminina. Fernando, representante da terceira geração, tem a sensibilidade de um sujeito leitor da vida. Isto posto, perguntamos: como ler os corpos desses homens?

Considerando que as masculinidades são corporificadas, logo, diferentes masculinidades são produzidas no mesmo contexto social. Daí a sua complexidade e contradição; visto que ela é mantida através de processos rudimentares de repressão. Cangalha do vento constrói e reconstrói as masculinidades do homem sertanejo partindo do princípio de que existe uma hegemonia de gênero traduzido ora pela força bruta, ora pela decisão silenciosa. Aristeu por exemplo é construído como um corpo maltratado, portanto desapegado de afetos. José Paulo, fruto desse desapego, aprende muito cedo a conviver com a dor e a solidão, produzindo uma personalidade masculina que subestima a energia, a felicidade, o riso e outras formas de vida que poderiam ser oferecidas à criança.

A obra nos faz refletir sobre a produção de masculinidades violentas no seio da cultura do homem. É necessário esclarecer que ao falarmos de masculinidades violentas, não necessariamente referimo-nos ao emprego da força bruta.  Mas essa masculinidade violenta pode ser percebida através da violência simbólica de que nos fala Pierre Bourdieu (2002), para o qual é uma forma de violência exercida pelo corpo discursivo sem que haja coação física, mas com sérios danos morais e psicológicos ao sujeito dominado. A forma como Aristeu descreve suas aventuras na Amazônia denota claramente o seu desprezo violento pelo feminino e a sua masculinidade violenta insiste em elevar o seu heroísmo e, ao mesmo tempo, enfatizar a insignificância das mulheres com as quais se deitava.

A esse respeito Robert Connell[3] (1995) afirma que: “A forma hegemônica de masculinidade se dividiu entre formas que enfatizam o conhecimento especializado e formas que enfatizam a dominação e calculismo egocêntrico”. O perfil de Aristeu se aproxima da segunda concepção apresentada por Connell, visto que aos quinze anos ele foge da opressão paterna que concebia a educação masculina a partir do protocolo de castigos e maltratos. A fúria paterna deserta Aristeu e o conduz a um impiedoso destino errante, aproximando-o da postura de dominação violenta, como podemos perceber na descrição do narrador:

Viajou vários dias sem arrependimento. Teve o índio desconfiado como amigo, o ladrão de gado como colega de trabalho, o traficante de escravas brancas como seu chefe, o matador de aluguel como companheiro de farra e as coxas morenas das índias e das prostitutas como refúgio e consolo. (p. 18)

Em nenhum momento a mulher é vista por Aristeu como companheira, amiga, colega ou chefe. Esses atributos ele reserva para os homens. A mulher é concebida como lócus depositário de mágoas. Esse discurso revela que a masculinidade hegemônica se estabelece e se fortalece exatamente na produção de inferiorização do outro feminino. É por isso que as coxas das índias e das prostitutas representam o corpo coisificado e insignificante, deliberadamente alimentado pelo imaginário masculino de feição patriarcal.

Por esta razão, quando Aristeu “se engraça” da prima Tereza (observe que ele não se apaixona, isto porque paixão é sinônimo de enfraquecimento masculino), ela o espera durante dez anos com “tranquilidade mórbida” diante dos seus olhos de “homem duro”. O pacto inconscientemente firmado com a construção de uma masculinidade de estrutura objetiva e cognitiva, fruto de uma sociedade androcêntrica, é tão forte que o retorno de Aristeu ao labor errante é justificado por ter perdido todas suas economias, segundo ele, consumidas por índias e prostitutas do Amazonas. Se torna interessante o poder de reprodução do discurso patriarcal. Há uma vitimização do discurso masculino que se sente injustiçado por ter explorado sexualmente o corpo de mulheres. O silenciamento impetrado pelo macho a índias e prostitutas o beneficia com o induto da falência econômica. Esta representação social da personagem Aristeu, protege e conserva o discurso “falo-narcísico”[4] próprio do pensamento androcêntrico, como forma de eternizar a essencialidade masculina.

Assim, fazendo jus à imagem de homem duro, Aristeu não consegue externar a dor pela morte da esposa; e apenas engole uma saliva grossa. Segundo Muniz (2010) esse perfil remete-nos a valores que circulam em nossa sociedade e são elementos de nossas práticas e formas culturais. Isso nos leva à questão apresentada anteriormente: como é construído o corpo desse macho patriarcal? O corpo é apagado, negado, domado, enrijecido, receoso e desprovido de afetos que possa externar. Com sagacidade a obra Cangalha do vento denuncia esse corpo violento e empreende um projeto de reconstrução desse corpo masculino através dos descendentes de Aristeu. A obra não recupera o lugar de fala do corpo feminino. O feminino permanece em seu papel construído pela tradição colonial do ser sensível, erótica, móvel, insinuante e acima de tudo obediente. Entretanto, o texto vai aos poucos humanizando o corpo disciplinado, adestrado e controlador do macho, dando-lhe sensibilidade, afetos e sentimentos.

Para iniciar a reflexão sobre o homem José Paulo, não podemos esquecer a emblemática imagem do menino-homem responsável por trazer a parteira numa noite fria.

Era uma noite densa, de nuvens carregadas e ventos frios assoviavam na vegetação criando a sensação de assombrações que ali se revelavam. Aristeu implorava à parteira Salustiana, que fora trazida às pressas pelo filho pequeno, José Paulo. O menino observou a velha parteira que fuçava no meio de Dona Tereza com um pesar na expressão. (p. 25).

         Naquela noite, José Paulo menino assume a responsabilidade do homem que carregará a dor e a solidão como marcas do primeiro jugo (canga) da masculinidade. Quando adulto José Paulo “vivia em pensamentos, em conflitos que se dirigiam aos seus sentimentos recônditos. Embora tivesse convicção do que queria, um sentimento de estranheza o tomava” (p.27). É perceptível nesta citação que José Paulo traz inscrito no corpo as marcas de uma criação insólita, repressora e solitária. As suas lembranças se encontram com um “sentimento distante” (p.27) para quem o vazio e o anonimato protagonizam a sua existência.

É esse corpo construído como objeto que Michel Foucault (1987) vai chamar de “corpos dóceis”; visto que o seu padrão é de submissão ao adestramento de uma cultura familiar opressora que o manipula e o transforma em corpo utilizável. Em geral este tipo de instituição familiar é o agente principal que contribui para dominação por intermédio da adesão permitida pelo dominado. E como diz Bourdieu (2002, p.46) “os dominados aplicam categorias construídas do ponto de vista dos dominantes às relações de dominação, fazendo-as assim ser vistas como naturais”. Contudo, José Paulo tem consciência desse adestramento que lhe foi impingido pelo pai e, num momento de reflexão ele afirma que o pai “precisava de reformas” (p.28).

Há em José Paulo conservas culturais (MORENO, 1974) muito próprias do formato disciplinado de educação familiar recebida. Tudo nele causava-lhe medo, vigilância, fuga de transformações bruscas, conduzia a vida através de gestos articulados e programados, produzindo desse modo, sentidos duros sobre um cotidiano vigiado. Essas conservas, como nos diz Levi Moreno (1974), servia-lhe como “muletas” para fugir dos seus medos e temores. Por isso que ao encontrar o seu irmão que tinha um papel político engajado, isso causou-lhe angústia e receio da postura atuante do irmão que lutava contra um mundo rígido e sem alternativas.

Em meio a esse receio nasce Fernando, que chega como arauto do novo homem. Não obstante a formação nos princípios doutrinários do catolicismo, havia no jovem menino um sentimento de libertação dos grilhões da masculinidade originários das gerações passadas. Essa mudança de paradigma em Cangalha do vento recebe uns toques de primeira pessoa, com a novidade do uso da linguagem poética. Porém, mesmo com essa breve abertura no texto, o narrador se revela vigilante diante das investidas do personagem Fernando, evoluindo ambos para a construção de um homem vivo e sensível.

Cangalha do vento possui algo de lúdico e cênico e acumula linguagens variadas sob o filtro da consciência problemática do mundo masculino, tomando como ponto de partida uma pequena cidade do interior do Nordeste. A singularidade desse espaço geográfico reside no fato de que, repensar a masculinidade a partir dos conflitos humanos e psicológicos que o mundo agrário carrega é estabelecer uma relação do homem com a terra e com os seus sonhos. Desse ponto de vista, o narrador foi muito audaz ao construir personagens homens carregados de contradições em suas identidades sociais, tendo como pano de fundo o imaginário sagrado popular que põe em conflito a cristalizada dominação masculina versus a espontaneidade sensível do homem. Fernando, representante da terceira geração, fruto do êxodo compulsivo que fez seus descendentes tentarem a sorte fora do Junco, agora quer viver na terra dos seus pais. Diz o narrador:

Na verdade, Fernando era apaixonado pelo Junco. Sua terra, seu chão. No Junco sentia-se seguro, era o seu lugar. Pensava em jamais romper com as suas raízes. Não queria rescindir as barreiras. Queria casar e continuar a morar no Junco. Ter filhos e no Junco criá-los, como o seu pai e o seu avô. (p. 104)

Esse homem sensível que rompe com o pacto da dor, alimento de gerações anteriores, cumprirá o roteiro existencial, mas convergirá sempre o olhar para si e para manutenção de sua família; com um olhar valorativo especial para Cristiane sua esposa. Nesse momento o leitor consegue perceber o plural de vozes no discurso narrativo de Cangalha do vento, visto que os múltiplos contextos geográficos apresentados por Fernando revelam, como foi dito por ocasião do seu nascimento, a vontade de saber do menino-homem:

Viajava muito em busca de novidades e por todo o país: Rio de Janeiro, Espírito Santo e Goiás; pelas Minas Gerais; do Pará ao Maranhão, e São Paulo. [...] O que Fernando não conseguia entender era o porquê de em todos os lugares enxergar um rosto, sempre o mesmo rosto em todas as pessoas. (p. 107)  

Fernando viajava por todo lugar, mas um rosto lhe atraia de volta para o Junco. Era o rosto de Cristiane, rosto de mulher que representa a terra, a força e o amor. Podemos observar que o narrador, numa evolução da representação social do personagem Fernando, apresenta-o como um corpo liberado. Fernando agora passa a ser sujeito da própria história e conduz sua vida conforme valores e descoberta através do autoconhecimento e do conhecimento do outro. Essa experimentação infindável é o que constitui a construção da identidade de Fernando como homem sensível. E como nos diz Bauman (2001, p.92): “A satisfação e o prazer são sensações que não podem ser postas em termos abstratos: precisam ser subjetivamente experimentadas – vividas”. Por isso que Fernando se liberta das dores, porque para ele foi preciso abandonar as narrativas cristalizadas e transformá-las em ato criativo da renovação.

Em suma, observamos que a rudeza dominante de Aristeu gerou a insegurança de José Paulo, que por sua vez produziu a vontade de liberdade em Fernando. Se tomarmos como pressuposto os estudos de Levi Moreno para entender esse conflito de gerações masculinas, podemos perceber três figurações bem marcantes nesses três homens, a saber: em Aristeu vemos um processo contínuo de cristalizações de suas práticas sociais; em José Paulo percebemos a promoção da permanência de conservas culturais. E como representante da terceira geração, Fernando chega como o arauto da espontaneidade essência do ato criador e criativo.


REFERÊNCIAS

ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Máquina de fazer machos: gênero e práticas culturais, desafios para o encontro das diferenças. In: MACHADO, Charliton José dos Santos; SANTIAGO, Idalina Maria Freitas Lima; NUNES, Maria Lúcia da Silva. Gênero e Práticas Culturais: desafios históricos e saberes interdisciplinares. Campina Grande: EDUEPB, 2010.

BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perpectiva, 1987.

BAUMAN, Zygmunt. Individualidade. In: Modernidade Líquida. Tradução: Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Tradução: Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

CONNELL, Robert W. Políticas da masculinidade. In: Educação e realidade. Jul-dez, 1995.

CRUZ, Maria de Fátima Berenice da. Por uma teoria da apropriação do texto literário. In: Leitura literária na escola: desafios e perspectivas de um leitor. Salvador: EDUNEB, 2012.

ECO, Umberto. O leitor-modelo. In: Lector in fabula. São Paulo: Perspectiva, 1979.

EUDES, Luiz. Cangalha do vento. Inhambupe: Conceito gráfica editora, 2019.

FOUCAULT, Michel. Os corpos dóceis. In: Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1987.

MACÉ, Marielle. Formas de ler, caminhos para ser, Gallimard, 2011.

MORENO, Jacob Levi. Psicodrama. São Paulo: Cultrix, 1974. 

TODOROV, Tzvetan. Os Homens-Narrativas. In: As estruturas narrativas. São Paulo: Perspectiva, 2006.



[1] Professora Doutora da Universidade do Estado da Bahia, membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural, Líder do Grupo de pesquisa GEREL. Este texto é referente a parte da pesquisa do Estagio Pós-doutoral realizado no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFS na área de Estudos Literários, Linha de concentração Literatura e Recepção sob a supervisão do Prof. Dr. Carlos Magno Santos Gomes em cooperação com o Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural/UNEB.

E-mail. fatimaberenice@terra.com.br

[2] Sobre a noção de “Imagem visiva” ver: CRUZ, 2012, p.169.

[3] Robert Connell teve mudança de nome para Raewyn Connell, cientista social transexual conhecida internacionalmente.

[4] Cf. em Bourdieu 2002 a discussão sobre a eternização do arbitrário masculino.

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Sou apenas um coração - ADRIANA MAYRINCK

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E de repente – um coração começa a bater em compasso ao seu

– no lado de dentro.

E a vida vai lentamente mudando a nossa percepção de mundo, de futuro. E tudo se transforma. Há uma mistura de felicidade, medo, insegurança e alegria. As emoções ficam à flor da pele e tudo se mistura e se confunde... E a vida vai pulsando, crescendo, na proporção que o amor pelo desconhecido aumenta e transborda.

Aqueles olhinhos brilhantes lhe fitam, o calor da vida lhe preenche, e o seu coração passa a bater fora do seu peito. Aqueles dedidinhos enroscam o seu cabelo, enquanto trocamos alimento por amor. E ficamos ali, entregues... nos doando... A vida ganha mais cor e tudo ao redor muda em instantes, em significados, entendimentos, sentimentos. Tudo fica mais forte, mais intenso, mais único, mais infinito.

Aquele pequeno ser é o centro de todas as suas atenções, motivo de todas as suas mais extremas e desencontradas sensações. E é para todos os minutos, todos os dias, para toda a vida, independente se está no seu colo, aprendendo a caminhar, indo à escola pela primeira vez, passeando com amigos, dormindo fora de casa, indo para a faculdade, levantando vôo, criando seu próprio mundo... Em todos esses espaços do tempo, esse coração bate junto com o seu, e todas as alegrias, preocupações, tristezas, decepções, vitórias, conquistas, frustrações passam a ser em dose dupla.

Mesmo que as mãos não estejam dadas, sentimos aqueles dedos em volta dos nossos, em todos os instantes, nos primeiros dias e sempre. É estar, permanecer, viver sempre em alerta, desperta, atenta a cada sorriso, a cada lágrima, em cada movimento, em cada momento, permanentemente.

Ser Mãe, é ser melhor como mulher, como ser humano, como essência. É a arte da criação, da doação, do altruísmo. Chegamos perto do divino e compreendemos com mais clareza o sentido da continuidade, da responsabilidade, da humanidade.

O meu coração já bate fora do meu peito há 23 anos, todos os dias, todos mesmos, perto ou longe, sentimos, tanto eu, quanto ela, os nossos dedos sempre entrelaçados, e os nossos pensamentos interligados nesse amor que não se explica ou define, é apenas sentido, vivido, compartilhado, em palavras, sorrisos, olhares, silêncios, abraços...

Somos apenas um coração, dividido em duas mulheres, dois universos, dois seres que se completam nesse amor incondicional, que ultrapassa os tempos.

Em todo esses dias, desde 20 de agosto de 1997 essa frase é falada, pensada, escrita: “Eu te amo muito mais do que o infinito” e sempre... com resposta, diariamente.

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quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Cangalha do Vento (excerto XII) - LUIZ EUDES

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Segundo o que se contava, havia pessoas que alimentavam a terra com patacas de ouro e prata, querendo subornar a terra para não serem devoradas. Alimenta-me ou devoro-te. A alimentação com ouro e tesouro não surtia efeito e aquele que em vida havia enterrado o seu pote de ouro, no final do arco-íris, acabava transformando-se em alma a penar sem destino certo, em busca de alguém com coragem bastante para desenterrar o tesouro e livrá-lo da culpa. Como agradecimento ficaria com toda a fortuna. Duas condições eram impostas: a primeira é que fosse um cabra corajoso; e a segunda, que levasse uma beata para rezar assim que o exército das profundezas surgisse. A essa beata seria destinada a metade do ouro encontrado.

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Quarentena de Lara - EUNICE SISTI

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Há uma metáfora no abismo que separa o Brasil rico do Brasil pobre,
no mundo de Lara. De um lado residências cercadas, asfalto,
água potável, eletricidade, luxo. Do outro lado bairros com casebres
de chão lamacento sem saneamento básico, esquecimento
e ausência do Estado e, na concepção de Lara, até dos deuses.
Lara tem 26 anos, magérrima, negra, dois filhos pequenos, olhos
arregalados como a perguntar os porquês das diferenças. Sentada
em um banco tosco próximo a um córrego fedorento- esgoto a
céu aberto, com um bebê sonolento no colo, meio a dejetos recolhidos
da reciclagem de lixo, olha para os céus e pergunta para si
mesmo quase num sussurro: - “até quando, pai?”
“O coronavírus não é democrático ele dissemina e mata entre
os pobres”(li isso em algum lugar...). Lavar as mãos com frequência
não é possível para Lara nem para 34 milhões de pessoas (16%
da população brasileira que sequer tem água encanada (SNIS).
Lara abre um armário e constata que só conseguirá cozinhar polenta
(farinha de fubá, água e sal) num fogo entre quatro tijolos
no chão da única peça da casa. Alimento único para aquele dia.
“-Preciso conseguir trabalho”, pensa Lara.
“ Quem atua em serviços ditos essenciais são corpos empobrecidos
de negros ou brancos das periferias que se aglomeram no
transporte coletivo e que, se forem por ventura infectados pelo
vírus não conseguirão ficar em isolamento em suas casas”, falou
um repórter de TV, e os motivos serão muitos. Lara sabe disso.
A ajuda humanitária é esparsa. Lara queria muito entrar no
auxílio emergencial de seiscentos reais que o governo federal dá
aos necessitados e carentes(?) e muito lhe ajudaria na alimentação
dos filhos, mas não conseguiu porque não tem mais CPF nem CI,
documentos perdidos na penúltima enxurrada. “- A Assistência Social
me deu uma cesta básica, no mês passado, mas acabou logo...
a rádio diz que é para ficar em casa em quarentena, mas isso é
fácil pode e tem tudo... até fazem compras pelo celular... Já fui
nos prédios lá de cima pedir comida, mas poucos ajudam, teve
uma que ao invés de me dar um pão, me deu uma máscara, o pai
dos meninos saiu há dois meses e até agora não voltou, talvez o
tenham matado (fazendo o sinal da cruz), mas ele não é ruim,
não rouba, só fuma maconha como a maioria daqui... tenho esperança
que ele volte, mas que volte com comida...”
Lara olha para o céu e estremece, a casa vai inundar novamente
porque é precária, insalubre com um espaço de dois por
dois metros. Lara entende o problema que está acontecendo mas
não compreende a gravidade do vírus e nem da necessidade da
quarentena, já vive isolada do mundo colorido, de brilho e luzes...
o dela é pardo e cinza , o que mais a preocupa não é ficar em quarentena
e sim é ter a casa inundada e não ter o que dar de comer
aos filhos.
Há vários brasiis neste vasto país, o das Laras é de fome, ausência
de vida digna e do mínimo para sobreviver.
Lara pensa no marido: “já era difícil sobreviver quando ele
estava aqui antes da pandemia. Agora é milagre.”

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Carta - DEUSIANA SILVA

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Cachoeira, 06 de agosto de 2020

À Amiga Margarida

A você que está tão distante como as asas destas aves que avisto
da janela em dias de pandemia. Inspira-me a escrever esta carta
as primeiras horas da manhã. Priorizo a Gratidão a Deus e em
seguida meu corpo fala em movimentos Aeróbicos e de Pilates na
sacada do quarto. Retornei as aulas de inglês (online) e ativei meu
Blog flordolacio. Nos fins de semana preparo novos pratos culinários
e quando tudo passar te convido para degustá-los. Passei
de olhar contemplativo para cuidador pelas plantas do jardim e
unidas brotamos um verdadeiro amor. A partir do livro de desenhos
em preto e branco com alusões à natureza terrestre e aquática
aprendi a selecionar as cores e ao colorir dei vida a estes seres.
Até realizei um sonho ao ser selecionada com três poesias para
integrarem uma Antologia Poética no Grupo Vidas Perfumadas.
Tornei-me um pássaro sem medo de voar. Só preciso resignificar
e refletir estes novos caminhos com sabedoria. O exercício da empatia
cada vez mais vem fazendo parte do meu cotidiano. Espero
que você acredite na luz que há na Vida!

Sinta meu abraço abraçado e afetuoso.

Amiga Deusa

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sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Cangalha do Vento (excerto XI) - LUIZ EUDES


LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Zé Prego foi conversar com Olegária, que já sabia da história. Acertaram tudo. Na hora marcada encontraram-se em frente ao restaurante Portal do Junco e seguiram viagem em busca do tesouro. Dona Olegária rezou e orou por quase uma hora enquanto Zé Prego cavava o chão seco do Barrocão do Junco embaixo das galhas do pé de caixão. Diziam que aquela árvore era assombrada. Zé Prego não estava com medo, pois sentia-se seguro graças às orações de Olegária. Sentia o cansaço tomar o seu corpo quando ouviu o barulho da enxadeta num pedaço de madeira. Uma alegria invadiu o seu corpo. Dona Olegária fortaleceu as orações, pois é nesta hora que todos os soldados do exército das profundezas surgem para proteger o tesouro. Olégária foi corajosa e Zé Prego sentia as mãos ferverem em brasa como se estivessem adentrando o próprio inferno ao tocar naquela arca. Com sacrifício, conseguiu arrancar o baú de dentro da terra ressecada quando os primeiros raios do sol invadiam o lugar. Com a luz solar as criaturas da noite foram-se e os parceiros puderam enxergar toda a fortuna contida no baú.

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domingo, 20 de dezembro de 2020

Cangalha do Vento (excerto X) - LUIZ EUDES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Fernando tinha olhos que brilhavam de querer saber. Quando o pai falava de São Paulo, e das coisas que vivera por lá, escutava quieto e curioso. 
Por mais que o planeta já fosse outro, moderno até mesmo no Junco, onde o acesso à internet permitia descobrir o mundo todo, o menino gostava das histórias, dessas que vão-se desdobrando no decorrer do tempo e desembocam diferentes, mas quase iguais, de geração em geração. Quando o amigo Dusa Oliveira surgiu com alarde no seu quarto ele sabia que não era uma desgraça que viera contar, mas sim um caso. 
– Oh, rapaz! O que você ainda está fazendo nesta cama com tanto furdunço acontecendo na cidade? Fernando foi acordado pelo colega esbaforido. Acabava de chegar da padaria de Edvar, onde o comentário era um só: o homem que foi à busca de uma botija cheia de ouro enterrada no cemitério. Falavam em coisas de outro mundo.

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Pérola venceu o vírus - CARMEN SARAIVA

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Anoiteceu, uma sombra negra se alastra no mundo trazendo incertezas
e contato brusco com a finitude. Surgiu uma angústia
numa onda desconhecida, que cresceu rapidamente e se transformou
numa pandemia. Torna-se necessário parar tudo e se
isolar em casa! A dor é real! O vírus é um inimigo invisível que
nos atinge como um foguete e aflige toda a terra! Pessoas morrendo
longe dos seus entes queridos, sem abraços ou aconchegos!
Tão perto e tão distante, virtual, impalpável!
Nesse contexto, Pérola, viaja para visitar o pai, antes da sua
partida, ele estava numa UTI, sem chances de vencer o coronavírus,
o pico de contaminação já estava diminuindo, ela pode se
despedir. Poucos dias depois, pronta para voltar a sua cidade, teve
febre e cansaço, foi levada a AMA (Assistência Médica Ambulatorial).
Interessante, esse nome acolhedor para quem está num momento
de tão grande fragilidade! Parece dizer, você é importante
para mim, há um apoio você, vida valiosa.
Pérola teve que ser transferida para um hospital imediatamente,
pois sua saturação de oxigênio estava 70%. No hospital,
a acompanhante de enfermagem que ficou com ela durante todo
o atendimento, disse: não tenha medo, Deus vai colocar anjos
para cuidar de você aqui nesse lugar, eu não posso mais ficar ao
seu lado porque tenho que voltar com a ambulância, mas vai ficar
tudo bem, seja forte.
Um enfermeiro a acolheu no hospital e a acompanhou durante
todo o tempo que ela realizou os exames, até o momento
que precisou ir para UTI e ele lhe falou: não foque no sofrimento
ou choro que você verá lá dentro, tenha esperança...
Pérola se sentiu amada e bem tratada, confiou que Deus daria
força para ela vencer essa batalha. Ficou apenas um dia na UTI e
enxergava amor e compaixão em cada profissional de saúde que
cuidava dela. Lembrou de um jardim de girassol, onde uma flor
acolhe a outra quando o sol se esconde. Gratidão a todos os profissionais
de saúde que lutam incessantemente por vidas que estão
adoecendo nessa pandemia, maior é o número de pessoas que
estão sendo curadas e restauradas na alma, mesmo nesse vale de
dores. Gratidão no vínculo do apoio e compaixão.

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Enferm(idade) - CARLOS NORTE

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Infectada... pela distância, acusas positivo na dor, que alastra com
a saudade, do cansaço que te faz vítima do que não se vê.
Confinada ao recanto, onde te fechas no (ar)dor... que é chão e
colchão, do corpo que já não te pertence. Na dormência que mói,
num querer... parar... só um pouco... mas sentes que não são as
tuas pernas que se movem...
... é o chão que te foge! (per)Corres(te) num esforço que dói
para além do físico, sobre os estéticos tacões, com que disfarças
e escondes os pés feridos e cansados. Desafias a tua própria dor,
numa constante contenda, por te superares... dando (de)mais de ti.
Cais, mas não te é permitido parar, és engolida pelo chão...
... e já que aí estás, deixa-te estar...
... nesse buraco à minha espera.
Nesse cais que é porto de abrigo! É aí, contigo e em ti, que
procuro atracar o meu (querer) ser. O ponto de encontro, a segurança
do agarrar!
(a)vida passa... corre... rasteja... cansada...
... porque amanhã, sabes que, mesmo cansada, vais-te fazer erguer...
pois a minha mão, irá aparecer, sempre estendida para ti.
Até lá, esse chão parece-me confortável. Chega um pouco para
lá... e deixa-me ficar enfermo de ti.
Juntos... sofremos e (com)padecemos daquela doença (in)
curável... que se chama Amor.

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terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Cangalha do Vento (excerto IX) - LUIZ EUDES

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Ao longo desses anos José Paulo conseguiu descobrir que não há céu na terra. As coisas tornaram-se difíceis desde que os militares assumiram o governo. São Paulo não era mais um sonho, e não era o lar que ele gostaria de dar para o seu filho, que estava para nascer. São Paulo não era definitivamente um mar de esperanças, mas uma selva de pedras que a muitos subjugava. Agora estava decidido a voltar e a ideia de ter uma roça confortava-o, não tanto pelo valor daquele naco de terra, mas pelo fato de algo no Junco ser seu, além das lembranças que carregava consigo. É verdade que, desde que pegara um pau de arara cheio de ilusões, ninguém mais havia estado na Fazenda Baixa Funda. Conhecia a terra e nela trabalhou desde menino, na plantação de mandioca somou dinheiro suficiente para embarcar na busca do Eldorado. Agora regressaria à terra materna, aquela que conhecia realmente e isso era reconfortante. Pensava em tornar-se um pequeno comerciante. O dinheiro da indemnização dos anos trabalhados na empresa, desde aquele dia em que o cachorro comera sua marmita, dar-lhe-ia a possibilidade de viver em paz no Junco.

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sábado, 12 de dezembro de 2020

Enfermidades X Humanidades - ARTTON RODRIGUES

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A nova ordem mundial vem nos falar que neste tempo de pandemia
corona vírus ou COVID-19, é tempo de enfermidades
todos os dias é e se faz necessário e preciso para deixemos de ser
tão individual passamos e sejamos coletivo.
É precisamos passar por esse momento injusto e ao mesmo
tempo juntos, para estarmos juntos, na próxima fase.
A fase da humanidade pois só assim o senso de colaboração
é o que nos fará evolução, caridade, fraternidade, humildade e
principalmente humanidade de seres humanos melhores serres;
evolutivos sem enfermidade na alma humana sem maldade com
mais, e muita responsabilidade por si e pelos os outros em nossa
volta na revolta, da conjunção com renovação e atitudes dentro da
amplitude para o bem social; do nosso mundo inteiro com mais,
igualdade de todos e por todos com cada um com sua visibilidade
do futuro dentro do caminhar da nosso evolução espiritual de
reencontro com o encontro com seu próprio encontro dentro de
nós próprio dentro de cada propósito do ligado entre o universo
e a humanidade mas e mais, humana dentro do contexto conectados
na fonte que interliga o ser humano e a humanidade; deles
dentro do apse da doutrina de aprendizagem; e do ensinamento
de ajudar uma a outro em comunhão e em união a tão chamada
tempo de evolução da nova era da nova humanidade nova pro e
pelo seres humanos da nova era.

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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Cangalha do Vento (excerto VIII) - LUIZ EUDES

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Agradecido, ele voltou ao trabalho e ficou a lembrar dos ensinamentos do pai, que permaneceram na sua cabeça por todo o dia. Ao cair da tarde o empregador estacionou o seu carro em frente à mansão. Paulo investiu-se de coragem e foi ter com ele. O homem foi gentil com o servente prometendo-lhe emprego na sua empresa. Que estivesse no endereço marcado às sete horas do dia seguinte. 
Paulo ficou por horas a imaginar como Deus estava a ser generoso com ele. Havia tirado a sorte grande: trabalhar numa metalúrgica! Aquela era, sem dúvidas, a oportunidade que ele precisava agarrar sem titubear. Começou a fazer planos para o futuro e ficou feliz com a ideia de estar a alcançar o que viera procurar. Pensou, por fim, que estava a deixar a vida sofrida de privações para trás. Lembrou-se dos parentes e rezou por eles.

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A floresta quinta - ANTÓNIO MOTA

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Era tão de noite e tão de frio, que o escuro gelou, e o ar também,
e com eles tudo, na Floresta Quinta. Nada bulia, nem brisa nem
vida, nem água, nem nada. Tudo era inerte, agarrado e preso,
encarcerado no gelo. Até mesmo o voo, o lume, o vento e o grito.
Aproximavam-se há muito as forças do mal. Mas o homem dizia
que nada podia. Que era o destino, a seguir seu caminho. E nada
fazia.
Naquele dia, ainda o sol, vigiava o corvo sagrado, lá nas alturas,
quando, de repente, sem que pressentisse, apesar de corvo,
um arrepio, agudo e escuro, petrificou-lhe a garganta, a voz ficou
muda, os ossos estalaram, hirtas as asas. Era uma faca afiada, de
vento gelado, na ponta da morte. Valeu-lhe a cotovia invisível, a
do voo instantâneo, que ia a passar, mensageira do verbo enviada,
e chamou por ele.
Acordado da morte, entendeu o corvo a força assombrosa das
trevas, que se abatia, secreta, sobre a Floresta Quinta, e sobre o
seu espírito sonâmbulo. Inteligente, o corvo sagrado, já fora dos
seus domínios habituais de ave entendida, sabia que devia seguir
a cotovia, em missão maior, ouvindo devoto o que ela lhe, e fazendo.
- Não temas. Vamos encontrar as águias brancas e os anjos
brancos, que se fundem no voo, quando se cruzam, ficando, então,
cada um a ser qualquer um dos dois. Habitarás a águia e o
anjo, e os dois serão em ti, sendo tu nos dois, e cada um de vós
será sempre os três. E, assim, eu vos habitarei também, unidos no
resgate do sagrado, desprezado e perdido em toda a parte.
Duas águias brancas picam lá do alto, simultâneas, sobre a
Floresta Quinta, quase moribunda. Sábias, atravessam os limites
do gelo, e são anjos brancos quando já no chão, donde saem aves,
que dançam rituais uma oração. Acendem o fogo. Libertam a
luz. Derretem o gelo. Queimam tudo o que está contaminado.
Regressa, triunfando, o espírito distinto da Floresta Quinta. E os
homens, vendo, viram-se ao espelho, e não gostaram muito.
Espantados, viram que não tinham feito nada, e que podiam.
Viram que haviam esquecido o sagrado humano, dentro de si
mesmos. Viram que a escuridão, que os impedia de, era a ignorância,
e que o gelo, onde presos, era feito de cobardia e de medo.
Viram que eram homens de ferro há tempo de mais. E viram que
ser homem é suplantar o ferro, elevando-se na grandeza estóica
que a si mesmos devem, de humanos.
Partiram as águias brancas. Desapareceram na brancura das
alturas, onde todo o voo é branco. Seguiram-nas os homens, na
distância máxima do olhar, e gostaram de sentir a cabeça levantada.
Deixaram, aos poucos, de serem os homens de ferro que
eram. Perderam o medo. Beberam das chamas. Derreteram o gelo
que lhes empedernia o coração. Há quem diga que choraram. A
cotovia e o corvo, porém, a pedido da carriça, ficaram de atalaia
na Floresta Quinta. Será que desconfiam? Não o sei, e sei-o bem.

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quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Vida e Isolamento Em Tempo De Corona Vírus - ANIETE GÓES

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De repente as nuvens ficaram mais escuras na atmosfera do planeta
e o mundo deu uma sacudida gigantesca na dinâmica da
humanidade. Os cenários foram ficando tristes e apavorantes,
as pessoas se acomodaram à revelia de suas vontades, negaram
a realidade. Custaram a perceber que tudo mudara e nada seria
como antes, se agruparam isolaram em seus “barcos diferenciados”,
paralisação obrigatória sem direito a reclames e ou reações
de combate. A guerra começara e o inimigo invisível cumpria
sua saga implacável de sufocar vidas e afundar na morte, tendo
como única alternativa de prevenção e defesa, a união atípica de
ficar juntos, embora com distância, o confronto das relações humanas
e os dilemas da convivência. O desconhecido saído das
brumas da mente coletiva de uma população cheia de controvérsias
sociais, econômicas, políticas, estruturas arcaicas de sistemas
corrompidos, fez emergir os efeitos dos antagonismos do nosso
país. Entramos numa pandemia com inúmeras dificuldades de
sobrevivência que se manifestaram ao deixar visível, em tempo
real, às mazelas e vulnerabilidades enfrentadas no cotidiano dos
excluídos, das minorias, dos desamparados, e de todos em suas
respectivas condições. O Brasil com diversidades e desigualdades
mostrando suas faces deformadas surreais e os podres poderes
numa guerrilha ciclópica. Neste panorama sombrio, a fotografia
colorida de ações solidárias, mostraram sua força, das equipes de
saúde e a dedicação completa no ato de salvar vidas, união da arte
com a ciência, um voluntarismo que surgia de todos os cantos, a
constatação da necessária consciência de interdependência. O isolamento
social, confinar para não disseminar, expôs a significância
do conjunto para proteger e resguardar uns aos outros, direito de
existir e coexistir sem ferir nem tampouco desistir porque a convivência
sempre se impõe. Sem arroubos afetivos, toque proibido,
o carinho como forma de cuidado a iniciar na própria pessoa para
proteger o outro, “um amar ao próximo como a si mesmo” numa
versão de pandemia, foi uma exigência com ou sem anuência, o
Covid-19 nos colocou em cheque. O ciclo psicológico de sentimentos
e emoções em desalinho, tudo ficou intenso, passamos a
viver nos extremos, o equilíbrio, tolerância, tornaram-se imprescindíveis.
O tempo brincou com nossa incapacidade de lidar com
o presente e suas horas passavam sem parcimônia. Neste processo
somente a certeza de que ia acabar e iriamos voltar sem referência
do que ficou para trás. “Afinal, a vida é um grande e bonito desafio,
além de ser um emocionante poema existencial”!

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

E nasce a paz em mim - ANA MENDES

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Perdida nos meus pensamentos e desalentos, com a minha taça
de café já frio...
Apreciando esta linda noite de luar, como tantas outras da
minha varanda, percorreu-me um arrepio.
Ao longe ondas mansas se desfazem, acariciando o areal, som
melodioso que faz bem ao moral.
Deste período de confinamento guardo a esperança, que me
traz paz.
Aquele tesouro que nasce depois da incompreensão, da dor, da
revolta e desolação, quem o traz?!
Como pode o mundo despertar a cada manhã e concordar em
carregar tanta tristeza no coração?!
Quanta energia para poder aceitar, que o homem só existe
através do poder, do dinheiro, da glória, abandonando por tudo
isso, algo bem maior?!
Esquece, abandona ou troca o valor da vida simples e pura, por
momentos de prazer sem remorsos ou por segundos de ilusórias
aventuras. Sem perceber que a sua importância no universo, o seu
lugar tornou-se menor...
Um outro ser reduziu o seu espaço, esmagou a sua ambição,
provocou um colapso, proibiu o abraço!
Enquanto agora, a terra acorda e grita de alegria, mais aliviada
a cada dia. Pássaros esvoaçam pelos céus de cores intensas, em liberdade,
já não seguem os traços de aviões apressados de chegar ou
voltar e sem fumaças de cheminés altas ou baixas, como rodapés...
Apenas esvoaçam por prazer e experimentam novas sensações.
Outros animais correm em pradarias ou florestas sem medos.
Mas talvez invente eu um postal efêmero para enviar ao meu
melhor amigo.
O mundo já não é só nosso, agora o devolvemos... foi pelo rei
de coroa sem cavalo, que derrubou tal reino rico, fatal vírus que
nos atormenta e nos coloca em grande perigo.
E se o dia nasce na separação da noite e o horizonte acompanhado
de nuvens ansiosas por libertar sobre o mundo um doce
chover, é a primavera a querer espalhar as suas cores sobre as flores,
o trigo e pomares a crescer.
E a sensação de que o planeta se regenera, se re-identifica, se
reconecta, sem pressa. E eu não sei como agir, como entender esta
mudança... Mas ainda tenho comigo a esperança.
O vento levantou-se de mansinho e o sono fez-se presente, nos
meus olhos um peso que se poisa e pelo corpo uma moleza que o
adormenta e se aconchegou devagarinho. E suspiro agradecendo,
por mais uma noite estrelada e ainda que nesta fase, abençoada.
Ligo o telefone e leio com alegria, uma mensagem de um ente
querido. Desejos de um amanhecer suave, com carinho.
O silêncio enche o espaço e acompanha-me com pudor ao
leito. Sabe ele tão bem o que me vai na alma e no peito.
Hoje houve aplausos e cânticos, ainda que se carregue a dor,
foi por agradecimento e amor aos amigos de farda verde, azul,
vermelha ou branca, em coro e com fervor.
Heróis plastificados, mascarados e prontos para a guerra, sem
taças, medalhas ou louvores.
Acumulando sonos não dormidos, desejos inalcansáveis, saudades
do aconchego e tantos momentos por viver.
As dificuldades tornaram-nos mais criativos, mais desejosos de
tantas coisas, tão simples de as obter outrora e agora tão distantes
e sem liberdades para as exprimir ou escolher.
Talvez amanhã nos possamos reunir, olhar nos olhos, agarrar
mãos e beijar quem nos quiser sentir, unidos... poderemos reviver!
Penso nas máscaras, luvas e fardas, que de brincadeiras inocentes,
se tornaram quotidianamente evidentes. E isso traz-me
as mágoas de tantas vidas em hospitais, ainda pendentes. E oro
por nós.
O sono fecha-me as pálpebras, o calor envolve-me devagar e
assim me deito esperançada, pois a paz nasceu-me na alma, e na
doçura do luar, e por anjos que atravessam o espaço e o tempo,
vão-me até amanhã embalar...

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sábado, 5 de dezembro de 2020

Cangalha do Vento (excerto VII) - LUIZ EUDES

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Os dias que antecederam a viagem de volta foram todos de lembranças e reflexões sobre a sua aventura rumo a São Paulo. Tinha dezoito anos quando saíra de lá, uma roça de mandioca, que recebera de herança do velho Aristeu, e coragem para trabalhar era tudo que tinha. Foi uma viagem difícil, dez dias torturantes num pau de arara. Mas valeu a pena, pensou ele. Não havia mais como permanecer na sua peleja rural. Era emancipado, podia tocar seu caminho de homem. O amor que tinha pelo Junco não era suficiente para mantê-lo ali. Algo novo nele latejava, de um ânimo tal que ele, que nunca saíra daquele pedaço de mundo, sentia poder ir a qualquer canto e conquistar uma vida digna com a força das mãos. E agora chegara a hora de voltar. O filme da lembrança era tão nítido que José Paulo via claramente o dia em que procurara Edgar de Joãozinho para comprar uma passagem de pau de arara para São Paulo. A viagem estendeu-se por longos dez dias num sacolejar enlouquecedor. Quando enfim o veículo alcançou a rodoviária do Brás, as suas nádegas já estavam tão calejadas que o sonhador não conseguia mais sentar.

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O planeta agradece - ADRIANA BARBOSA DO CARMO

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Uma trégua na poluição do planeta, pela ausência das pessoas nas
ruas, no céu e no mar.
Fique em casa!
É o mantra mais ouvido e mais falado em todo o mundo, por
todos, nesses tempos onde o invisível é o inimigo declarado.
Paramos!
E cada um em suas casas, nos resguardamos, como nunca havíamos
feito, saindo apenas para o essencial, cada um cuidando
de si e dos seus. À distância, pensamos nos outros e nos resguardamos,
também, deste ataque invisível que subtraiu uma rotina
corrida, de idas e vindas.
Tudo parou!
Tivemos que nos adaptar à nova condição de viver entre as paredes
do nosso lar e, em meio a esta tragédia mundial, reinventar
a rotina, juntos e ao mesmo tempo distantes de quem amamos,
justamente por amor ao próximo, evitando ações de toque, carinho
e afeto!
O planeta parou e respirou!
Respirou fundo e aliviado das atividades poluidoras da humanidade,
que o devastam e ameaçam. O planeta pede socorro
e a humanidade não entende... Ainda assim, o planeta agradece!
Este inimigo invisível que chegou devastando vidas, ceifando
milhares de vidas. Inimigo que não vemos e não temos controle...
E muitos se foram, como preço de um pedido de socorro do planeta
que não foi ouvido...
Diante de todo esse cenário, é hora de refletirmos quem somos;
o que temos feito à nossa casa de morada, nosso planeta;
como tenho tratado meu próximo, meu semelhante...
É tempo de reflexão, como fonte inesgotável de energia positiva
que possa ecoar no universo e recair sobre nós como chuva de
bênçãos e esperança de dias melhores.
É preciso coragem para mudar. É preciso fé para seguir adiante.
Perseverar diante de todas essas circunstâncias!
Não podemos esmorecer diante do inimigo, nem baixar a
guarda ao imprevisível.
Sigamos buscando, com a união dos povos, o resgate urgente
do nosso planeta que pede socorro.
Acorda humanidade!!
O inimigo invisível nos ensina mais que qualquer lição!

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Paramos. E depois? - ADRIANA MAYRINCK

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Paramos.
De agredir o meio ambiente. Com as nossas poluições pessoais, industriais e sonoras. Controlamos os nossos impulsos consumistas e percebemos que não precisamos estar todos os dias indo às compras. E que ir àquele restaurante ou passeio, perdeu o significado, enquanto tantos perdem o emprego, passam dificuldades ou lutam pela vida. (Mas o desemprego, a fome, as dificuldades, as doenças não estiveram sempre perto de nós?)
Paramos.
Para perceber o quanto somos covardes e egoístas.
Enquanto profissionais de saúde definham, ultrapassam seus limites, isolam-se de suas famílias para salvar-nos, estamos ainda resistentes em permanecer no sofá. Incomoda-nos passar todas as nossas horas ao lado dos nossos filhos, maridos ou esposas, pais idosos, ou mesmo sozinhos em casa, repensando o nosso mundo. Incomoda-nos a responsabilidade de nos percebermos como parte de um todo, que se chama humanidade.
Paramos.
Assistimos a tudo com distanciamento, como expectadores de um filme que não nos atingirá. E ainda, muitos de nós não conseguem perceber a gravidade dessa situação. O maior sentido disso tudo, o recado da vida. A necessidade de uma mudança de atitudes, de pensamentos, de vivências. Percebermos que nada é mais importante do que a nossa saúde e a de quem nos cerca. O resto torna-se insignificante, diante da dor, da perda, da doença, da imobilidade.
Paramos.
Não é tempo para festas ou férias. É tempo para repensar o mundo. Repensar quem somos, o que fazemos e como podemos contribuir para que nossos netos tenham um lugar digno para viver. Repensar nosso cotidiano, nossa forma de estar, enquanto indivíduos, família, profissionais, seres humanos. Não é tempo para irresponsabilidades, inconsequências ou indiferenças. Precisamos amadurecer, crescer, e somos postos à prova diariamente, com as notícias que nos chegam, de todas as formas.
Paramos.
Será que paramos para olhar para dentro de nós, para os lados? Para além da nossa janela ou dos muros? Será que paramos para lembrar daquele vizinho solitário, daquela família necessitada, daquela criança doente, tão perto de nós? Será que estamos mesmo, no nosso dia a dia, conseguindo mudar a nossa forma de estar? De perceber?
Paramos.
Mas... e depois?
Vamos esquecer os mortos, o desgaste dos governantes, os profissionais de todas as áreas que estão segurando toda essa crise colocando-se em risco para o caos e o desespero não ser instaurado? Vamos esquecer a solidariedade desses dias? Vamos esquecer o Humanismo e sentido de sobrevivência que tomou conta de nós? Vamos esquecer a união fraterna entre países que se ajudam? Vamos esquecer toda essa dor espalhada pelo mundo? Vamos esquecer os pedidos de ajuda? Essa tristeza de ver a vida ameaçada? As ruas desertas?
Vamos voltar a caminhar olhando para o telemóvel, correndo pelas ruas, consumindo o que não pudemos consumir nesses dias de confinamento, fazendo filas nos restaurantes, correndo para as praias, cinemas, concertos, museus, outras cidades, atropelando a vida, porque nos obrigou a parar?
Parei.
Parei para lembrar que estou há 18 dias em casa, e ainda não consegui fazer nada significativo para dizer: contribui, dediquei-me, salvei vidas, ajudei. Apenas fico aqui, assistindo a tudo como se não fosse parte de mim, rezando pela nossa salvação, comovida com as estórias que ouço e vejo, organizando o meu trabalho e olhando para a janela, pensando na praia onde não posso ir, ou no chocolate que tenho que deixar de comer.

Parei para lutar contra o vírus do meu egoísmo, da minha inércia, do meu materialismo, da minha cegueira. Hoje parei para refletir, e fui contagiada por esse sentimento de revolta pela minha insignificância e falta de fraternidade. Acho que dentro de casa presto homenagem aos agentes de saúde, pois sou menos uma, em uma cama do hospital. Que sou patriota ao seguir rigorosamente as determinações do governo. Que ao fazer uma doação online, contribui imensamente para aquele que precisa. Que ao estar otimista mantenho a energia positiva do planeta. Que ao manter o nosso trabalho, somos menos três a pedir ajuda.
E fico lutando para não pensar, nas contas a pagar, nos eventos cancelados, nos livros que se acumulam, enquanto o lutar pela vida é o assunto do dia. E todo o resto parece sem sentido.
Há uma necessidade de me afastar e fugir dessa avalanche de mensagens das redes sociais. E ao mesmo tempo há uma exigência em manter-me ativa, re-criar formas e meios de interacção sem sair de casa, desconstruir antigas crenças e repensar a nova forma de ser, sem estar. Estamos contaminados por esse vírus dos tempos modernos, e é estranho e difícil tentar ignorá-lo ou viver à margem disso tudo.

Paramos.

Entre o ontem e o amanhã, o que está acontecendo nesse intervalo? E quanto tudo isso passar? O que vamos fazer com essa parte da nossa história?

EM - PANDEMIA DE PALAVRAS - COLECTÂNEA - IN-FINITA