sábado, 18 de maio de 2019

DEZ PERGUNTAS MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL... ANA VALÉRIA FINK


Agradecemos à autora ANA VALÉRIA FINK a disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 – Como você vê o papel da mulher na literatura atual?

Como no mundo: lutando por espaço, batalhando para afirmar-se, buscando isonomia. Talvez seja no campo da literatura onde esteja havendo mais sororidade, na prática. Vide o Mulherio das Letras...

2 – Em que medida o universo feminino influencia na hora de escrever?

Proporcionalmente ao que há de feminino em mim. Na escrita me desnudo, e a mulher que sou se atreve a despir-se, sem pejo. A (pro)criação é inerente ao feminino, e para nós, mulheres, sempre foi mais natural a expressão da sensibilidade. 

3 – Em que corrente literária acha que a sua escrita se enquadra?

Na hora da escrita, não consigo me ater a técnicas ou teorias, por isso acho difícil me “enquadrar”. Abro as comportas e deixo escoar! Escrever me é necessário, quase tanto quanto respirar...

4 - Que importância dá aos movimentos de integração da mulher?

Considero-os fundamentais. Como já disse antes, a tão citada sororidade, especialmente na literatura, é o que tem garantido a concretização de projetos. Foi por conta dos movimentos de integração que concretizou-se meu livro de poemas, com Marianas Edições, de Curitiba, que publica exclusivamente literatura de autoria feminina. E também pelos movimentos tive a felicidade de conhecer a escrita de Deborah Dornellas, Maria Valéria Rezende, Rosângela Vieira Rocha, que me encantaram.

5 – O que acredita ser essencial para divulgar a literatura?

Considero-me nada boa nisso, de divulgação... mas penso que a importância da literatura é tamanha, que só vejo possibilidade de salvação, do país e do planeta, se conseguirmos que haja mais leitores, e com senso crítico mais apurado.

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita?

De negativo vejo a dificuldade que a autoria feminina ainda tem de se impor, em pé de igualdade, no cenário da escrita. De positivo, tudo o mais!

7 – O que pretende alcançar enquanto autora?

O que se pode pretender além de tocar as pessoas, de esmiuçar a vivência, de expor o que ainda há de humano em nós?

8 – Cite um projeto a curto prazo e um a longo prazo.

A curto prazo, estou ultimando meu segundo livro de crônicas. A longo prazo, um romance, projeto que seria levado a cabo em co-autoria com meu Amado, Vitor Hugo Martins, também escritor; mas enviuvei há menos de um ano, e ainda não posso garantir que terei forças para a empreita solo...

9 - Sugira uma autora e um livro (contemporâneos).

Extasiou-me ENFIM, IMPERATRIZ, de Maria Fernanda Maglio. Foi a leitura mais recente.

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

Por que você escreve? Para me revolver, me devassar, num tentame de atinar comigo... quiçá, para lapidar-me. E isso deve ter serventia para quem me leia e tenha parecença, não é?


BIOGRAFIA:
Ana Valéria Fink, natural de Curitiba – PR. Pentamãe. Formou-se em Odontologia pela Universidade Estadual de Ponta Grossa - PR. Mora atualmente na Bahia, onde cursa Letras e trabalha como revisora. Participou da Antologia de Poemas NOVELO, Ed. da UEPG, 1995. 3º lugar no Concurso da Companhia Editora de Pernambuco, com o livro infantil A HISTÓRIA DE UMA BOCA (CEPE, 2015). Publicou REGANDO OS JARDINS DO SENHOR E OUTRAS CRÔNICAS (Via Litterarum, 2015) e MOSAICO (Edições Marianas, 2018).

PRÓLOGO - VENTANIA

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Gostava de te ter conhecido mais cedo, na alvorada de ti, de ter visto nascer o homem imenso dentro do adolescente imberbe e desajeitado como o sol que desponta, rubro e impertinente, já a ameaçar rebentar pelas costuras do que o mundo pode compreender. Gostava de ter estado ao teu lado a admirar o doce gigantismo do teu coração, a roubar-lhe um canto cativo onde coubesse em silêncio, a reflectir um pouco da luz imensa que emanas aí para dentro da escuridão que vais alimentando a gritos, balas e granadas, a assegurar-me que o teu ego não ficava estilhaçado com a crueldade de quem não te merece, do bloco de gelo lascado em que te queres tornar. Ter-te-ia dito e provado há mais tempo que os blocos de gelo derretem, diluem-se em tons de azul e mar. Gostava de te ter dado a mão quando travaste sozinho batalhas dantescas, invisíveis a olho nu ou desatento, contra monstros e moinhos de vento, essas mãos soltas e definitivas aninhadas nas minhas, capazes de moldar poesia e coisas raras a partir de qualquer nada que é o tanto que te compõe. Gostava de te ter dado livros e vinhos a provar à boca, dos meus lábios aos teus. Gostava de ter morado em ti mais do que um esgar de fugida num sonho delirante de um inverno que nunca se fez primavera. Teríamos ido juntos a muitos concertos, comovidos, prostrados, imóveis e gelados, como idiotas perante a beleza ensopada de verdades que os outros não conseguem sintonizar. Teríamos ficado a rir, rasgando madrugadas, que teriam de ser navegadas de barco a remos e a sussurros, a ver as estrelas salpicadas num céu só nosso, afoito, de veludo meigo. Teríamos acampado e fingido que o mato era o nosso paraíso pristino, que só poluíamos com atrevimentos e uivos gemidos, roubados aos intervalos das corujas. Teríamos dançado mal, mancos e descoordenados, descalços sob o sorriso matreiro da lua complacente. Tu tinhas-me ensinado a andar de bicicleta por entre as nuvens e eu tinha-te ensinado a nadar nas copas das árvores. Tu tinhas-me ensinado a chorar sílabas no lugar de lágrimas e eu tinha-te ensinado a confiar nos abraços com cheiro a casa. Eu tinha aprendido contigo a não fugir das pessoas que me vêem por dentro e tu tinhas aprendido comigo a não ter medo de te dares inteiriço e em excessos. Teria saltado contigo de qualquer penhasco, de asas abertas, para te mostrar que o desafio do vôo vale a pena apesar dos ossos quebrados quando a aterragem corre mal. Teria sido o teu pára-quedas e lambido as tuas feridas, teria cumprido as promessas de bálsamo e de espelho e teria fintado os golpes sujos que te mataram. Teria ficado atarantada nessa combinação fatal do teu sorriso de pingo de mel e olhos de adagas, tal qual fico hoje. Teria tido tempo de nunca te perder.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

sexta-feira, 17 de maio de 2019

HELGA (excerto) - VALESKA BRINKMANN

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Ela tinha cabelos compridos, ralos, tingidos de vermelho fogo. Olhos azuis e pequenos. Lábios finos também pintados de vermelho. Usava colares e brincos e pulseiras que não combinavam, uma camiseta justa de polyester que destacava o busto grande. Fedia a cigarro.
Assim que eu chegava no corredor e girava a chave para abrir a porta do meu apartamento, Helga abria sua porta para me cumprimentar e dar alguma bala ou doce pra minha filha, às vezes sorvete.
Quando a outra nenê nasceu ela pediu para vir visitar. Claro, pode entrar. Quis tirar fotos com a nenê no colo. Trouxe sua máquina fotográfica analógica, modelo do século passado e fizemos muitas fotos.
Eu não entendia aquela pessoa, mas parecia que tínhamos alguma outra coisa em comum salvo morar no mesmo prédio. Além do mais, desde quando precisei entender alguma coisa para me interessar por ela? Eu gostava de pensar quem essa mulher é, ou tinha sido, o que tinha feito. Algumas vezes tentei investigar seu passado com perguntas, no entanto ela não gostava de falar de si, logo escapava mudando o assunto.
Um dia pediu o número de meu telefone. E um dia me telefonou. Do hospital! Helga o que você tem? Um problema na tireóide, vão me operar. Você pode pegar o correio para mim? Eu pude.
Ela me agradeceu com um doce da loja russa, que apesar da embalagem encantadora, não consegui comer.
Certa vez quando cheguei em casa, encontrei um bilhete na minha porta: Quando chegar, toque direto na minha casa, por favor! Urgente! ass. Helga. Assustada apertei logo a campainha, e Helga, numa expressão de alívio e satisfação, me devolveu o molho de chaves que eu havia esquecido desde cedo do lado de fora da porta.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

quinta-feira, 16 de maio de 2019

PONTOS DE VISTA - TÂNIA DINIZ

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Achava-a linda e ao vê-la entrar em seu consultório, o médico julgou sonhar.
Perdeu-se em seu olhar e não acreditou na plástica que ela desejava. Tentou demovê-la enquanto lhe era impossível despregar os os olhos de seu fascínio.
Teimosa, ela insistia vaidosa, querendo ser mais bela. Fixando-o, felina, convenceu-o como por hipnotismo.
E deslumbrada com o resultado, mirando-se no espelho, sentiu escurecer-lhe a vista quando, ao agradecer-lhe a satisfação sem preço que lhe dera, ele cobrou-lhe os olhos da cara.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

quarta-feira, 15 de maio de 2019

DÉCIMO PRIMEIRO ESCRITO (excerto) - JOÃO DORDIO

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Era uma vez um voador...
Aquilo ali e aqui aos olhos do mundo era visto como um escritor,
mas ele voava...
- E tu? Voas?
Aquilo ali e aqui eu... coloca-se em vida das letras e passamos a
ser tudo! Em todos os locais com tudo o que se quer!
Hoje é tempo de as letras acordarem e de eu vestir o fato mais
bonito que tiver no armário com ou sem gravata. Hoje é o dia
mais bonito para dizer entre o Sol e a Lua e o menino que anda de
bicicleta que o fato me fica bem com ou sem gravata e que eu vou
colocar mais tinta na caneta para ela se dispersar e perder por aí,
pelas formas mais pequeninas do alfabeto...
Hoje é tempo das formas pequeninas do alfabeto se organizarem
e acordarem o mundo para a minha instabilidade emocional ou
loucura mental. Vesti-me, por isso, com o meu melhor fato que
tinha no armário, com ou sem gravata, e fui para o jardim e para o
parque infantil da memória! A bola descansava e a bicicleta rolava
pelos caminhos mais estreitos, mas sempre arranjados em redor do
pequeno castelo de sonho, uma fortaleza necessária à imaginação...
Hoje é tempo de pescar e sonhar de fato numa gala engalanada
repleta de tabuleiros de comida pequena, mas muito saborosa...

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

terça-feira, 14 de maio de 2019

O BEATO ANTÔNIO (excerto) - SÓNIA BISCHAIN

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O encontro com o amigo Paulo foi marcado pras quinze horas, na praça, em frente à Igreja Matriz. A condução em seu Bairro é ruim, pra evitar atrasos, ela saiu cedo de casa. Estava ansiosa pra rever o amigo. Adiantada, Carolina resolveu entrar na igreja.
— Gente, há quanto tempo não entro numa igreja! Deve fazer uns vinte anos! — lembrou. A última vez, foi no casamento da amiga Isabel. Deu muitas risadas naquele dia. Uma tia da noiva pisou no véu, que foi arrancado de sua cabeça. Logo depois, alguém tropeçou num vaso de flores. O vaso foi ao chão espalhando água pelo corredor por onde a noiva entrava. Isabel, ao ver a cena, fez o trajeto até o altar às gargalhadas. Na hora da troca de alianças, quem disse que Isabel conseguia colocar a aliança no dedo do noivo?
A Igreja Matriz é linda — réplica da original, construída no final do século XVIII. Cem anos após a inauguração, foi destruída por um incêndio. Um sacristão trapalhão, ao tentar acabar com uma colmeia instalada no alto da torre, ateou fogo no templo. A reconstrução do prédio foi concluída no início do século XX. Além do altar central, existem dois menores, um em cada lateral.
O celular de Carolina vibrou. Uma mensagem do amigo, Paulo: iria se atrasar. Ela, então, dirigiu-se, ao acaso, pro lado esquerdo do recinto. O que viu a fez voltar no tempo: a relíquia do Beato Antônio, dois pedaços de osso do seu braço direito: seu antebraço. Dizem, que este seria o braço misericordioso de Antônio, o que levava pão pros pobres da cidade europeia em que viveu, há quinhentos anos. Antônio, no Brasil, ganhou status de santo e um altar na Igreja Matriz. Um dia, um casal de imigrantes ao ver o altar, comentou com o pároco local:
— Na igreja da nossa cidade natal, lá na Europa, fica a urna com os restos mortais desse Antônio, mas ele nunca foi canonizado, é só um beato.
É mesmo? — surpreendeu-se o pároco.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

segunda-feira, 13 de maio de 2019

ROSA (excerto) - SOFIA CORTEZ

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Quando se pergunta a uma criança, o que quer ser quando for grande, habitualmente respondem: professor, bailarina, médico, piloto de avião, chef de cozinha e por ai fora, mas não a Rosa, quando crescesse a Rosa queria ser: avó.
Talvez por isso, tenha tido toda a vida, um ar mais velho do que seria suposto. Quando nasceu não parecia uma bebé acabado de nascer, parecia uma velhinha enrugada no colo da mãe. Antes dos dez anos, tinha já compridas melenas de cabelo branco e os traços do rosto sempre muito vincados a delinear-lhe a expressão.
Naturalmente interessou-se sempre por hobbies muito pouco infantis como aprender a fazer crochet, depenar galinhas, cozer botões, passar a ferro e seguir afincadamente as telenovelas mexicanas dobradas em brasileiro.
Na escola revelou uma apetência inata para ler e escrever, e para tudo o que era trabalhos manuais. Os pais acompanhavam-na com um misto de orgulho e preocupação. Sabiam que era diferente, que se comportava de forma distinta, mas não queriam que sofresse por esse motivo, e as crianças podem ser muito cruéis umas com as outras. Apesar das diferenças óbvias, por um qualquer milagre inexplicável nunca foi gozada na escola nem nas brincadeiras com os amigos.
Entre as crianças, havia respeito. Talvez por se tratar de alma antiga, a Rosa nutria admiração e apreço por parte dos amigos, recorriam a ela para pedir ajuda ou consolo. E ela estava lá sempre para eles, arregaçava as mangas sem medo e fazia tudo.
Quando foi mãe pela primeira vez, não se sentiu particularmente feliz ou ligada à criança. Sabia que, ser mãe seria um ponto de ligação vital para se tornar avó, e que o seu futuro passava por esta etapa. Teria de ser mãe antes de ser avó, a lógica da vida não permite inverter as regras naturais das coisas. Um dia, aquela criança iria concretizar a sua vocação de vida, com a materialização de um neto ou neta.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

domingo, 12 de maio de 2019

SE FOR PARA PARTIR... (excerto) - SANDRA GODINHO

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Força!
Isabel a sentiu, pressionando o ventre assim que entrou na recepção do hospital de subúrbio. Uma força que mais parecia uma espiral que a levava para baixo. Uma cólica mal disfarçada nas entranhas, uma cabecinha coroando a abertura que cedia à passagem enquanto ela, debilitada da fragilidade do ato, se aconchegava ao chão sujo dos cheiros do mundo. Logo viu que não era a única a sofrer por dentro. A criança custava a nascer, como se já tivesse feito muito, como se não quisesse ocupar espaço, tímida para enfrentar o mundo que ia se abrir. Nasceu afinal, sem gemer ou chorar, como se já tivesse feito muito na vida. Soltou-se de Isabel numa poça de sangue e fezes que lhe desceu pela perna, na urgência em se desfazer. A mãe a acolheu ao colo. Vai se chamar Maria, disse sentada em cima da placenta. Ninguém chegou perto delas, unas na humilhação daquele chão imundo de desatenções. Médico de plantão, não havia. Nem enfermagem, apenas recepcionista e maqueiro. A falta de salário atrasava o respeito e a compaixão por aquela parte do mundo desprovida de vantagens. Isabel, com a dor empoçada nos olhos, se desesperou com a falta de choro da criança.
Força.
Isabel pediu à filha. Acolheu-a ao colo, a criança ainda envolta em secreções e uma aura de pureza, mesma na impureza do lugar. Segura ela assim, voltada para baixo e faz massagens nas costas, alguém sugeriu. Isabel ganhou conselho, enquanto a pequena Maria ia ganhando coragem, saindo das profundezas de fendas, saindo das profundezas abissais desprovidas de expressões de espanto. A pequena Maria, ainda estrangeira àquela linguagem de carências que a condenava à submissão antes mesmo de nascer, expunha a irrealidade que a rodeava, expunha as faltas dos plantões e a sequência de um triste espetáculo. Alguém resolveu filmar, registar o momento da desumanização do parto normal, como se o registro pudesse desfazer o ocorrido e a sensação de que o coração se partia em mil pedaços sem qualquer anestesia. Chora, Maria. Pode chorar, eu estou aqui com você. Eu sou sua mãe, não vou sair de perto de você. Não vou te abandonar. Chora, filha. Isabel quase implorou, a criança com a boca aberta, sem compreender que saía do meio do sangue e da merda para irromper no mundo em ato de resistência, que ia ter peito, que ia sugar o que lhe viesse à boca, que ia se esgarçar até o último fio de voz para se tornar humana.

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sábado, 11 de maio de 2019

LÁGRIMAS DE MULHER (excerto) - RAQUEL LOPES

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Duas gotas escorrem pela face suave e rosada, um pouco queimada do escuro sol de Agosto; longa caminhada que a vida não poupa: nem criança e nem mulher. Vida roubada. (?)
Desconhecimento da fonte que jorra essas mesmas lágrimas. Ela faz questão em escondê-las; do mundo; de todo o seu significado; o seu verdadeiro estado.
Desilusão – que palavra mais amarga! Gotas do veneno que colocaram em minha alma. Eu, os outros?
Minha vida dói numa enfermidade viral que ninguém vê.
Sentada olhando para o mar, fixo os meus olhos escuros no nada; como se aquela bela paisagem não possuísse nada, ao contrário: era eu quem não possuía nada – cheguei a essa conclusão observando-a. Onde está a minha base? E raízes? É horrível sentir-se assim: invisibilidade no espaço. A vida passa e não olha para mim.
Recordo os momentos bons e felizes que tive: aniversários, passeios... Você.
Há um abismo de silêncio que me angustia ferozmente, você sumiu e nem disse um adeus – pelo menos! Deixou-me muda, e também surda para tudo que está ao meu redor.
...
As lembranças são dolorosas, eu as quero esquecer. Banir do meu consciente e também do inconsciente, que manda mais que mãe em dia de Natal.
Vou recolher-me ao meu subsolo, lugar escondido do populacho. Mais uma vez descerei e chorarei o que for possível para extrair as dores sufocadas.
As lágrimas de uma mulher não são salgadas, ao contrário são doces, quando a fonte não foi danificada. O poço é fundo, quem o cavou sabia bem para o que serviria.
O dia foi de uma choradeira sem ímpar, até achei que havia secado o poço; só que esqueci que ele é bem profundo. Lençóis de águas purificadoras o alimentam. Nunca secará. Ligado está pela Verdade e Vida. Senhor de tudo, e de todos.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

sexta-feira, 10 de maio de 2019

DÉCIMA DEMÊNCIA (excerto) - JOÃO DORDIO

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“Mãos ao ar”, gritaste tu ontem – há bocado! – ou aos bocados
porque tu disseste também e logo a seguir que eu só assim poderei
acalmar. “Mãos ao ar”, disseste repetidamente enquanto respiravas,
aos saltos, o teu coração também estava aos saltos! E as palavras
a saírem pela mente! Sim, pela mente porque era tudo em pensamento!
Um discurso de pensamento alucinado!
“Dá-me tudo! Dá-me tudo de ti!”, sonhei novamente...
- Eu gosto tanto de ti...
Ainda te lembras...
Ou ainda me lembras...
“Mãos ao ar”, voltei a sonhar que disseste ontem. Ou há bocado,
bocadinho...
O assento era ao contrário. Era para me dares... para que me
dares um abraço ou para me devolveres todos os que guardaste
enquanto não me viste...
Dá-me! Dá-me já! Dá-me os abraços e os beijos que deveriam
vir a seguir!
Baixo as mãos porque não está aqui ninguém...
O discurso do pensamento demente terminou por momentos
e as pessoas que estavam e não estavam na praça desta demência
regressaram às sua vidas de não vida. Já sabem... elas não têm vida!
Não têm a vida delas nem têm vida na tua... porque não existe aqui
nada!

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

quinta-feira, 9 de maio de 2019

LISTA DE DESEJOS - NIC CARDEAL

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Eu não quero só a flauta. Eu quero a música que mora dentro da flauta. Cada nota escondida em sustenidos sentidos. Eu quero os acordes da poesia virando canção - e a voz que a faz palavra entoada. Sim, sou egoísta por querer a flauta e a moradora da flauta.
Eu também quero a vida que atravessa a palavra. Sorver até a última gota esse silêncio que sufoca a garganta e impede a voz de ser o órgão febril da palavra. Eu não quero apenas a mão que ergue a caneta e escreve a palavra. Eu quero a alma que percorre a mão, eu quero o gesto, o verbo, a liberdade voando solta nas asas da palavra - tão fugidia. Esguia. Esgueirando-se sorrateira no teu olhar de mistérios. Sorrisos soltos em silêncios tão sérios.
Eu não quero apenas a roupa da carne. Eu quero o corpo, o osso, a veia repleta de vivo vermelho, a seiva que alimenta o peito e lateja o doce e o amargo. Eu quero conhecer tua ferida. O corte da pele, o sangue jorrando em gotas, o choro do ventre, a semente parindo o futuro do indicativo. Eu quero a ruga, a curva, o passo apressado, o olhar tão cansado, a ira impulsiva, a angústia desmedida, a saudade guardada na vértebra esquerda de desesperos entorpecidos. Eu quero o riso, a gargalhada, a alegria, o sonho louco na medida exata. Ou perdida.
Eu não quero apenas a solidão da palavra. Nem somente a flauta. Eu quero a curva do rio escorrendo enchentes em desejos tão urgentes. E a paciência do tempo favorecendo o despertar da semente. Eu quero o amor que mora na semente - da flauta.
Sim, sou egoísta por querer o órgão febril do coração da flauta. Eu quero o outro lado da rua. Esse lado da lua. O meio da rua. A avenida. Estrada de terra batida. A ponta da estrela iluminando o caminho. Os passos tão gastos em perfurados sapatos.
Esta é minha pauta - a música da (tua) vida. No toque sutil (ou áspero) da flauta.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

quarta-feira, 8 de maio de 2019

O INUSITADO E INSÓLITO VESTIDO DE NOIVA DA DUQUE (excerto) - NEUSA DEMARTINI

O inusitado e insólito noiva da Duque
Bembão entra e sai dos conteiners de lixo como quem entra na cozinha e depois no quarto, passando pelo banheiro. Às vezes some, e ninguém sabe ninguém viu. Nem ele mesmo se sabe ou se viu. Não tem nome nem identidade e, também, ninguém por ele. Não fala, não socializa, não pede e não dá um bom dia, quanto mais uma boa noite! Apenas se diz Bembão, pra si mesmo. Um bem bão bem alegre, como um contentamento infantil diante de um saco de pipoca com chocolate doce.
Este ser come restos de frutas da fruteira da esquina, sobras de comida da lanchonete do meio da quadra, e recolhe as cartas comerciais, que os Correios e Telégrafos, estabelecido ali em frente, jogam no lixo quando passa do tempo dos destinatários virem pegar.
Encosta-as pertinho dos olhos, uma a uma e as empilha por tamanho, em um trabalho de paciência que lhe consome quase toda a tarde. Depois as leva para outro contêiner e ali as deposita, uma a uma também, como se estivesse distribuindo-as nos escaninhos de outros tantos moradores. Seus sons vocais são apenas dois: Bem Bão! Bem Bão! Enquanto come o que juntou, e um ziziziziziziziziziziziziziziziziziziziziziziziz interminável, que emite quando não está no primeiro som. Monocórdica, repetitiva ad infinito, um instrumento primitivo que precisa ouvir para se dar conta que é um ser vivo, um homem, que um dia foi um recém- nascido, um bebê, uma criança que mamou, engatinhou, comeu papinha e fez xixi e cocô no penico. Quando se perdeu na sua história? Ninguém que a acompanhou, sequer um dia, passou por ali para vê-lo.
Entra e sai do contêiner com uma destreza de dar inveja a cachorro magro ou gato esfomeado. Acompanhado da cantoria, como se fosse uma cigarra anunciando o verão, faz o seu próprio ritmo, intercalado pelo “bem bão”, “zizizizi”, “bem bão”, “zizizizi”... Como uma canção de ninar para si mesmo, para acalmá-lo e recordar-lhe, quem sabe, o aconchego de um colo de mãe.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

terça-feira, 7 de maio de 2019

RUÍNA - MÔNIA T. RUMMEL

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Destroços. Escombros. Restos. Declínio.
Em ruínas.
Devastada. Esfacelada. Esmorecida.
Arruinada.
Desmoralizada. Debilitada. Degradada. Aniquilada.
Por uma, duas, três vezes. Por quantas mais necessário. Por tempos indeterminados. Por fases áureas e fases sombrias. O apogeu e a queda. A ordem e o caos.
Mas sempre perene.
Ainda que o tempo, imperecível e infinito, caia por sobre cada processo. Ainda que o processo em si seja o próprio tempo.
Ainda que, aflita, seja preciso recuar. Esperar e escutar. Ouvir os murmúrios vindos de antigas vozes, vindos do profundo da terra, vindos de não se sabe bem onde... Mas ali. Vivos. Presentes e eternos.
E aprender.
Aprender com a terra que tudo transmuta. O que hoje é morte, amanhã nasceu diferente. A quietude da semente, a beleza da flor e resiliência da folha que cai, cumprindo seu papel. Abraçar as raízes pra alcançar os galhos. Morrer, decompor, perecer - para renascer.
Aprender com o fogo a se autoalimentar, fazendo de cada respiração uma nova força para se manter acesa, viva. Consumir-se em si mesma.
Aprender com o ar que o que estava aqui, frente aos olhos, agora é vento. Corre solto por outros ares. E carregar em si o poder de ser brisa quando é necessário o acalento e gerar furacões quando a instabilidade é a ordem.
Aprender com as águas a contornar os obstáculos sem perder o fluxo. A ser sempre a mesma, e nunca a mesma. Ser escura, turva e voluptuosa. Ser clara, morna e mansa. Aprender a ser chuva, nuvem, rio, mar: ser mestra de si e de seus domínios.
E honrar.
Seu sangue, pulso vivo da terra. Devolver. Permitir que o retorno aconteça, em todos seus níveis.
Suas ancestrais, vozes vivas ecoando a plenos pulmões, mas com tamanha sutileza que é preciso colar os ouvidos aos véus do profundo para captar os ensinamentos há tanto esquecidos.
Ser. Estar. Permanecer.
Com toda a essência que houver.
Aceitar, entregar, confiar, agradecer.
Na sequência que couber.
E seguir. Carregando seu templo repleto de magias e curas, carregando nas mãos o poder de ser todas: da mulher amada a poderosa e indesejada sacerdotisa. Da frágil filha a sábia anciã. Da mais brilhante luz a completa escuridão.
Seguimos.
Podem derrubar-nos quantas vezes quiserem: nossos alicerces são tão fundos na alma do mundo que sempre restarão nossas ruínas, vivos monumentos das mulheres que teimam em resistir.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

segunda-feira, 6 de maio de 2019

SAUDADE - MARIETE LISBOA GUERRA

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Gostava que a saudade não quisesse nada comigo e eu com ela. Como se estivesse à sua espera, insolentemente à espera de a ter, tal como o fantasma da soma dos dias iguais que enfiam a vida em fio de saudade.
Com quem se parece a saudade em qualquer vida? Com uma voz que é chamada e não é ouvida no tímpano do apelo temporal ao mistério da carne.
Ante a desordem da saudade, um bando de andorinhas perde-se no limpo voo entoando piares no eco dos céus, buscando a uma distância intransponível a luz boreal da ausência.
Neste impasse, as horas em que a saudade está longe, tempo tão volátil, nasce o desejo inquieto de beijar-te até morrer e assim beber da dor de saudade.
Libertina, desfiz-me do punhal da saudade devorada no rosto com lágrima, o que restou após o embargo aflito do último beijo. Saudade é mesmo, o cheiro que chega de ti, meu incêndio.
Insatisfeita sou na criação do nada e na ignorância bastarda de ser enferma de tanta saudade ter.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

domingo, 5 de maio de 2019

DÉCIMO ESCRITO (excerto) - JOÃO DORDIO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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- Quando é que fazes anos?
- Não faço...
- Isso não é possível!
- Eu passei quase a fazer anos. É assim que comemoram todos
os que voam por dentro.
- Não estou a perceber...
- Eu também não percebo porque estás a falar comigo se não
está aqui ninguém...

Os poetas que voam por dentro não envelhecem porque, um
dia, alguém descobriu que se podia fazer um poema de quase aniversário.
Por isso, os poetas são eternos tal como são eternos todos
os seus escritos e todos aqueles que por eles foram lembrados, elogiados,
amados... E, assim, nasceu a paixão! Nascidas de um poema
de quase aniversário estão, igualmente, todas as musas sentadas...
a escutar...

O poema do dia dos meus anos tem todas as letras de todos os
outros poemas de todos os outros dias em que não faço anos. Tem
as mesmas letras, mas confundidas por outra ordem de mente, por
outro sentido de outro dia... porque o poema do dia dos meus anos
fica também lá atrás no olhar fixo do calendário que assinala que
a minha mãe, naquele preciso dia, há muitos anos, me colocou no
mundo. E eu fico ainda aqui muitos desses anos depois, a reunir e a
aconchegar as letras por todos os outros dias, mas particularmente
nas noites em que não são as noites em que faço anos. Porque ainda
há sempre aqueles escritos para fixar ao olhar de quem passa por
mim passados esses anos e passadas essas pessoas...

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

sábado, 4 de maio de 2019

O REALEJO - MARIANA VIRGÍNIA MORETTI

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Fui logo cimentando os degraus da escada, tarefa que me deram desde menina nova. Parei no desmazelo do cansaço e sentei lá no alto, que ainda era baixo. Lembrei. Começou desde o dia que me consultaram o realejo. Eu era pequena demais para contestar, e a música melancólica do velho triste me hipnotizou assim, de repente. O bichinho saiu, arqueou o corpo esguio cheio de pena (que tipo de pena?) e trouxe o papel amarelado, dobrado, ressentido. Era o certificado oficial pra dar continuidade a ela, a existência. Eu, ali, esperando alcançar um lugar que nem sabia o que era considerando que existisse. Aonde chegaria? Lá longe. Levanta e põe esse degrau mais para o alto, menina, e mira ali, por obséquio, em lugar nenhum! Mais pra direita, mais pra esquerda. Aí está bom.
Mas eu queria mesmo era saber se esse lugar, se eu tinha que construí-lo ou se já vinha pronto e era só arrombar a porta. A imagem do realejo se desfez e se misturou à música infantil do mesmo tempo e espaço: a vida era isso, “era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada”. Não tinha nem porta pra arrombar. Era o alto, sim, e era a casa que eu tinha que dar um jeito de chegar. Só que os caminhos, ninguém me falou qual pegar. O caminho pra se chegar era a mesma trágica Rua dos Bobos, bem na entrada do número zero.
Aqui está, disse o velho triste, entregando a sorte ressentida escolhida a bico pelo periquito magro e cheio de dor. O animal, debaixo de toda a pena que o recobria, sabia que deveria escolher o papel certo ou o destino da pessoa não se cumpriria. O peso de sua responsabilidade era tamanho que o bicho se arqueara com o passar do tempo, pois vivia seus dias repleto de angústia. Cheio de pena. Peguei o papel e o abri com a mesma coragem ingênua de uma criança que abre a porta de casa sem autorização, sem saber quem ou o que esperar. A vida vinha sem olho mágico.
Eu via todos os degraus que havia construído e praguejava contra o realejo. Maldito velho! Ensinou-me a dançar sua música, a abrir o bico quando necessário, e, sobretudo, a carregar na minha alma penada a esperança de que um dia a jaula se abriria. Era a ilusão da liberdade assentada com cimento e disfarçada de melodia infantil. Nada de novo para quem tem asas, mas não aprendeu a voar.
Eis que sem me dar conta do motivo, sentia a dor que já não era minha. O velho sorria com maldade enquanto o bicho se encolhia no canto da jaula, como se fosse culpado por toda a trama de acontecimentos que resultaram no exato momento da queda. Além da dor do corpo havia a dor da alma, e além da revolta, havia a dúvida.
Olhei ao redor e constatei assustada que o que eu mais temia havia acontecido: eu deixava de ser o que era. Bem ali, no começo do trabalho de uma existência inteira, traduzido por uma escada infame e sem a utilidade de outrora, estava minha triste figura, coberta de pena. Pena, penas grandes, verdes e lustrosas que se espalhavam por toda a extensão de meu corpo, recobrindo todas as partes que meus olhos incrédulos eram capazes de alcançar. Eram tão grandes e petulantes, que mal me deixavam enxergar. Foi então que a plumagem carnavalesca abria alas a repentina e sombria constatação: minha existência enquanto construtora da própria, havia acabado.
Mova-se, ordenou o velho. Eu já não precisava mais da escada, muito menos dos degraus que eu havia construído.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

sexta-feira, 3 de maio de 2019

SOLISTA (excerto) - MARI VIEIRA

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Pés na areia, carinho. Em busca do farol vai ao mar uma solista navegante. Gestos de suprema festa encontram espumas largadas pelo mar. Toca-se do umbigo ao púbis, das areias às ondas do mar. Silenciosamente, põe a canoa para beber das vagas densas e límpidas. Só... mais sal, mais toque. De dedo em dedos assume o leme uma capitã pronta a remar. Vai, depois de uma cambiante solidão, içar a vela. Lençóis? Ondas do mar? Tudo velado; farol sua rota pelos intrigantes segundos do desabitar.
Desejar. Tocar. Sentir. Caçar. Achar. Despe-se de medos ingênuos, joga-se pelo úmido caminho do mar. Queria aqui, sentir cheiros, toques e fremir meus olhos ardentes, fazendo pios no silêncio e deixar pra lá o que faz a vida, as vertigens, os medos, a bobeira intensa. Deito-me longamente no silêncio. Aninho-me. Uma mão invasiva acha meu corpo condescendente.
─ Há um vizinho te olhando pela janela do prédio ao lado.
─ Levanta-te, cobre-te. Não se doe tão facilmente. Feche a janela; quem quiser que te ache, que te ganhe.
Impudica. Devassa. Indecente. Calor intenso, tudo acontecendo ao mesmo tempo. Medo de perder-se ante aos conservadores da moral e dos bons costumes. Foi, feito santa antiga, comungar-se diante de um padre carnal demais para não notar as faces rosadas e trementes e o total frenesi do seu corpo.
─ Acalme-se minha filha, coisas da vida, coisas da carne. Acalme-se, já isso passa.
─ Pago penitência, padre?
─ Bobagem, compre uma camisinha!
Foi-se lambendo o desejo feito cão de rua, escondendo-se feito moça de antigamente com medo do sacrilégio, do olhar do chefe, das maldições e dos descaminhos da vida.
Olhar-me? Ver-me? Ante a cegueira que me esconde, luz pra quê? Vejo-me com o toque, com o tempero ocre doce que me arde. Saio das areias e entro no mar. Há, lá longe, uma pequena canoa, remos soltos, rumo ao farol que faz o caminho brilhar.
─ Acha-te. Feche os olhos e guie-se. Seja cálida, intensa e festiva.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

quinta-feira, 2 de maio de 2019

DEZ PERGUNTAS A... MANUELA DINIZ


Agradecemos à autora MANUELA DINIZ a disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Escrever é uma necessidade ou um passatempo?

Por ambas as opções

2 - Em que género literário se sente mais confortável?

Poesia

3 - O que escreve é inspiração ou trabalho?

Inspiração

4 - O que pretende transmitir com a sua escrita?

Emoções, sentimentos

5 - Qual o seu público alvo?

Público em geral

6 - Em que corrente literária acha que a sua escrita pode ser incluída?

Realismo intimista

7 - Quais as suas referências literárias?

Vítor Costeira, Fernando Pessoa, Graça Aguiar, Rute Pio Lopes e Alexandrina Pereira

8 - O que costuma fazer para divulgar o que escreve?

Partilhar nas redes sociais e ler publicamente  nos encontros poéticos

9 - O que ambiciona alcançar no universo da escrita?

Percorrer a estrada e saborear cada passo

10 - Que pergunta gostaria que lhe fizessem e como responderia?

Como surgiu a escrita? Surgiu com a convivência e o contacto com outros autores

DA IDIOSSINCRASIA FEMININA - LUZIA COSTA BECKER

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Ela acordou e sem se dar conta de que dia da semana era, sentiu um desejo enorme de domingo. De levantar o mais cedo possível só para ver o dia durar a eternidade dos seus desejos. Quando criança, acordava às seis horas da manhã. Depois de uma conversa despretensiosa com os bichos no quintal, vinha a jornada exploratória dos recantos da sua imaginação, interrompida apenas por uma ou outra regência materna.
O aroma do café a avisa que ela não é a primeira a acordar. O rebento da manhã ganha gosto de infância e o calorão do corpo, sentido de realidade inexorável. Permite-se demorar um pouco mais na cama.
O cochilo prolongado na penumbra do quarto incita a lembrança de uma cobiça reprimida. Tesão de puberdade explorando lençóis molhados de tensão hormonal. Um gozo leve percorre o corpo da menina que encontra nas linhas de expressão do rosto da mulher, o desejo ardente da maturidade. Dos diacrônicos aos sincrônicos espasmos emocionais, ela busca a lucidez. Da vontade de jogar a castidade na cara da Igreja à complacência feminina, a certeza da instabilidade do ânimo e o pranto.
Ela não entende as lágrimas e muito menos o turbilhão de emoções. Como em um mar revolto de sentimentos nunca antes experimentados em concomitância, seu corpo e sua mente seguem à deriva ora afetados pela transmissão adequada de serotonina potencializadora, ora pela sua transmissão inadequada e despotencializadora, numa busca desesperada pela disposição juvenil perdida.
O aroma do café invade o quarto expulsando de vez o delírio pubertário quando ela, ao invés do beijo materno, sente os lábios quentes do marido.
Resgatados pela promessa de amor eterno, corpo e mente se fixam na potência das mãos que abrem as cortinas da vida para dar forma ao cheiro de morangos frescos levados à boca da mulher amada. Afetos alegres que lhe abrem o apetite para mais um café da manhã de domingo na estação do climatério.
As afecções alegres serenizam o mar revolto e após uma longa e atribulada experiência de desassossego, ela se aconchega novamente no mundo, dando-se conta de que o climatério, diferente da puberdade, é prelúdio de uma criativa e idiossincrática fase da vida feminina, livre das perturbações que lhe vinham distorcendo as emoções.

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quarta-feira, 1 de maio de 2019

SER MÃE É FATAL - LIZ RABELLO

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“O que usa de engano não ficará dentro da minha casa; o que profere mentiras não estará firme perante os meus olhos!” Salmos 101:7
“A barata diz que tem sete saias de filó... É mentira da barata, ela tem é uma só...” Este era o refrão predileto do meu filho mais novo. Cantava para o Ro, enquanto o colocava sentado em cima da mesa, eu em pé, para a gente poder trocar beijinhos de pertinho, abraços intermináveis e carícias com os olhos. Ele adorava sentir meus cílios tocando os dele, em sintonia com nossas piscadinhas. Quando parava de cantar para ele e lhe dizia que seu nariz já estava crescendo igualzinho ao do Pinóquio, era o momento certo para que me contasse mais um pouquinho da sua louca aventura. Aos poucos, ia costurando os fatos mais doidos de minha pior e mais fascinante experiência materna. Por Deus, como é difícil ser mãe! E eu cutucava as memórias daquele menininho apronta quieto, esperto, amoroso e muito falante! – “Quer dizer, então, que a baratinha pegou um ônibus” – E ele continuava a história... “O home disse pra mim: Cuidado, menino, você vai cair!” Em outros momentos, frases curtas: “O onbus abria a porta e fechava, cansei, desci”. Certa vez, ao voltarmos das compras, passei embaixo do viaduto que ligava meu bairro à Vila dos Remédios, o carro atrás de um veículo, quando meu filho falou: “Mamãe, meu onbus passou daqui, tinha aquele dois ali e era verdinho”. A despeito de minhas ansiosas indagações, respostas chegavam só quando bem entendia. Uma tarde, no clube que frequentávamos, quando passávamos pela catraca para entrar na piscina, ele gritou: “É igualzinha do meu onbus!” Eu jamais o levara para passear de ônibus, embora meu filho sempre pedisse.

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