quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XV) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Pensou que ainda teria tempo de comer um pastel de Belém antes de voltar para casa. Uma fila interminável como sempre.
Pediu uma caixa com meia dúzia para levar para Maria e os restantes lá de casa e deliciou-se com um, cheio de canela, e bebeu um bom café.
Sentia-se mais feliz, principalmente por estar acompanhada apenas com os seus pensamentos e insanidades.
Quando saiu dos pastéis de Belém já chovia um pouco, mas sem hesitar decidiu caminhar até ao comboio. A meio-caminho desistiu e chamou por um táxi, pois arriscava-se a perder o comboio e chegar a casa como acabada de sair do duche vestida e calçada, não se livrando das risadas de Maria, de Camila e de quem por lá estivesse.
Sorria para a chuva, deliciava-se por sentir o rosto repleto de lágrimas do céu.
Mas foi sensata e lá rumou a casa.
- Maria? Sim, já estou no comboio. Cerca de cinquenta minutos. Sim já chove aqui também. Não te apresses, esperarei por ti. Obrigada. Beijo
Isabella sabia que fazia a prima feliz por ajudá-la a superar os momentos menos bons da sua vida. E quando desligou o telefone sentiu paz.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

A QUADRILHA DE LADRÕES - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Miguel, a estória que vou contar até me causa arrepios, disse o Ti Reinaldo!
Era uma vez e em tempos não muito recuados, uma situação que, de todo, os Asturianos temiam. As quadrilhas de ladrões.
Tratavam-se, como se diz hoje, de grupos organizados com comando indiscutível, cujo comandante era chamado de Capitão.
Estes grupos atacavam selectivamente, e sempre locais ou situações em que levavam vantagem, dada a surpresa e o equipamento.
As igrejas eram grandemente visadas, dado não serem habitadas, terem caixas com dinheiro e objectos de valor.
São conhecidíssimas as quadrilhas de Chaves e a do Zé do Telhado que, embora com estratégias diferentes, espalham receios nas populações e que ainda hoje são muito temidos. Ocorreu até que alguns dos bandidos foram presos nesta aldeia após o célebre ataque na estrada Braga-Chaves.
Nessa época, sempre que alguém morria era sepultado dentro da igreja e, desde a morte até ao funeral, o corpo estava depositado dentro da igreja onde era acompanhado por familiares, normalmente dois compadres.
Ora, estando um aldeão no caixão e acompanhado por dois compadres, a meio da noite começaram a ouvir um ruído que logo perceberam ser um assalto.
Alarmados, e com receio do que lhes podia acontecer, resolveram utilizar a seguinte tática: retiravam o morto do caixão onde um deles se deitaria e o outro vestiria as vestes do Senhor dos Aflitos (padroeiro da aldeia) e colocava-se no altar respectivo. E se bem o combinaram, melhor o fizeram...
E bem a tempo porque não demorou muito para que a porta cedesse, e como previram tratava-se duma conhecida e temida quadrilha, à frente da qual vinha o Capitão. De imediato começaram a roubar tudo que lhes interessava e após estarem de retirada, um dos assaltantes disse ao Capitão que no caixão estava um morto.
O Capitão, homem de pouca fé e para mostrar ao grupo que nem aos mortos tinha medo, disse:
– Ora bem, amigos, venham cá porque já agora quero ver qual é a cor do sangue de um morto. E palavras não eram ditas, saca da cintura de uma espada e prepara-se para com ela atravessar o corpo do que ele julgava ser o morto.
Aflito, vendo chegar o fim dos seus dias, o falso morto grita:
– Oh Santos do Céu valei-me!
Ao que o outro compadre, feito Senhor dos Aflitos, responde gritando bem forte:
– Espera aí que eu já lá vou!
Perante isto, a quadrilha entrou em pânico e ó pernas para que vos quero. Fugiram todos deixando tudo que tinham roubado até aí, e até a espada do Capitão ficou no chão.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

DEZ PERGUNTAS A... JORGE GASPAR


Agradecemos ao autor JORGE GASPAR pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Escrever é uma necessidade ou um passatempo?

Um exercício de raciocínio. Gerindo a escrita com originalidade em ideias e pensamentos.

2 - Em que género literário se sente mais confortável?

Poesia lírica. Circunstancialmente no género narrativo, conto.

3 - O que escreve é inspiração ou trabalho?

Leitura versus criatividade.

4 - O que pretende transmitir com a sua escrita?

Comunicação, diálogo, liberdade de pensamento.

5 - Qual o seu público alvo?

Todo o que se interesse pela leitura e conhecimento.

6 - Em que corrente literária acha que a sua escrita pode ser incluída?

Humanismo e modernismo.

7 - Quais as suas referências literárias?

Autores dos clássicos aos contemporâneos.

8 - O que costuma fazer para divulgar o que escreve?

Corresponder aos convites para publicar.

9 - O que ambiciona alcançar no universo da escrita?

Transmissão de ideias originando o diálogo.

10 - Que pergunta gostaria que lhe fizessem e como responderia?

O que deverá refletir a escrita? Partilha de conhecimentos, fomentando a união de ideias e sentires.

domingo, 8 de dezembro de 2019

NUNCA PERCEBI... (excerto) - SÓNIA CORREIA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Nunca percebi o que fazer com tanta vontade de amar. Vim ao mundo neste corpo que percorre o tempo em constante ebulição. Por dentro uma engrenagem sem manuais técnicos ou, sequer, interruptor. Parece-me sórdido carregar tamanha tecnologia sem perceber o propósito.

A intuição, essa senhora imponente que me pega pela mão em todos os minutos que quase expludo de excesso, é a única que me entende e me guia em todas as catástrofes quando me perco no meu armazém do amor.

Tenho aprendido a amar tanta coisa que hoje me parece insólito não escoar o sentimento até no simples milagre das cores, dos cheiros, do olhar, do palato, do som das arpas quando os anjos me convidam para dançar.

Nunca percebi como nascem de mim tantas paixões arrebatadoras, tantos fogos abrasadores, tantos ritmos deliciosos, tantos desejos de felicidade, tanta eletricidade estática que em jeito de íman me arrasta para desenhar fervor.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

sábado, 7 de dezembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XIV) - MARIA MAGUEIJO

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A pobre criatura continuou a cantar, agora mais baixinho, uma dor que Isabella conhecia bem. Rasgava-se-lhe o som que queria gritar, no mudo da sua tristeza. Que dor tamanha!
Observou que houvera silêncio na paragem do eléctrico e os rostos, de quem falava português, estavam consternados pela homenagem daquele ser tão cheio de saudade do Homem que seguramente alegrara tantas pessoas ao ouvi-lo cantarolar pelas ruas.
Isabella sentou-se na paragem e procurou de novo o caderno juntamente com uma esferográfica e escreveu como se a sua mão fosse um instrumento do cérebro.

“Hoje sou apenas a voz apagada de uma melodia com um poema escrito em branco.
Nessa página imaculada escrevo o silêncio sagrado a que me comprometi.
Nessa página sou tinta da pluma de algum qualquer escritor.
Tela de algum qualquer pintor.
O quadro que quisera pintar.
O poema que quisera escrever.
Que me levaram pela dor.
Que me perdoem, pois foi por Amor”.

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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

AS PIEIRAS - ERNESTO FERREIRA

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Este conto, diz Poesia, é conhecido em várias versões, em que cada versão tem sempre dois elementos residentes: O Lobo e a Pieira.
Aqui procurando ser tão fiel quanto possível, a versão é a do Ti Reinaldo.
“Era uma vez um guardador de gado que andava na serra a cuidar do seu rebanho. Estava um dia cheio de sol e a pastagem escolhida nessa tarde estava muito apetecível para as ovelhas e cabras. Era um regalo para os olhos ver os animais a pastarem. Assim, o pastor foi-se esquecendo das horas sendo que o fim da tarde não esperava. O rebanho deveria ser recolhido ainda com a luz do dia, pois os lobos viviam e deambulavam por perto, constituindo um perigo para o rebanho. Os lobos, dizia-se, apenas obedecem às Pieiras, coisa de que o pastor se ria, pois não acreditava em Pieiras e muito menos que houvesse alguém a quem os terríveis lobos obedecessem.
Quando estava a reunir o rebanho, auxiliado pelo seu cão chamado Piloto, apercebeu-se que um lobo espreitava acoitado junto ao “penedo furado”. Este penedo era assim chamado porque era de facto furado, sendo até tido como um exame aos pecados em que podia estar qualquer pessoa. Para provar que a pessoa estava de bem com Deus deveria conseguir passar através do furo. Se não conseguisse era sinal de que estava em pecado. Já agora diga-se também que este penedo furado, junto ao caminho de Santa Justa era o certificado de virgindade de qualquer rapariga solteira. Se não conseguisse passar era certo que já não era virgem.
O pastor pensou: se deixo o lobo aproximar-se não evito que ele me mate uma ovelha. O melhor é atacá-lo para o pôr em fuga. E se bem pensou, melhor o fez. Foi em direcção ao lobo com o cajado em riste. O lobo ensaia a fuga e o pastor corre quanto as forças consentiam, para o levar para o mais longe possível. Mas eis que na sua corrida tropeça numa pedra saliente e zazcatrapaz pum, cai desamparado, bate com a cabeça numa pedra e fica desmaiado.
Entretanto o Piloto lá foi reunindo o rebanho e conduziu-o para o curral.
Era noite e a lua cheia começava a surgir no horizonte; o pastor inanimado estava só e sem consciência. Passadas umas três horas começou a despertar. A lua estava mais alta e alumiava quase como fosse dia. O pastor começou a despertar e viu uma enorme cabeça à sua frente. Era o lobo, talvez o alfa, mas ao invés de parecer ameaçador, parecia calmo e amistoso. Uma sonora gargalhada despertou mais o pastor que viu junto ao lobo uma graciosa dama que sorria para ele, ao mesmo tempo que afagava o focinho do lobo. Era uma Pieira!
Fixou o pastor e disse-lhe: Então agora acreditas nas Pieiras ou não? Ficas sabendo que te salvei dos dentes do lobo e quero que, para me pagares, em noites de lua cheia venhas ter comigo para saudarmos a beleza duma noite de luar. E a Pieira ordenou aos lobos que em noites de lua cheia, não atacassem nem pessoas nem animais... o que até hoje vem sendo cumprido, na aldeia e montes de Asturães.”

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terça-feira, 3 de dezembro de 2019

PÉROLAS... (excerto) - SÓNIA CORREIA

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São dela as pérolas que exibe na pele, transluzentes, divinas escorregam para lhe cair na vaidade nobre do templo que acarinha, grata pela vida em suspiros de ar que rouba e devolve ao mundo.

Brilham em espasmos contínuos, cegam de cor ao seu redor, extenso o cordão dessas joias que adquiriu nos anos, onde cada uma conta uma história marcada e até vincada. Escorre da alma uma a uma no somatório invulgar de um clarão de beleza.

Mas não, nem todas são marcos de festa, nem todas a fizeram sorrir, nem todas foram ténues no cair. Muitas contam marcas no peito, cicatrizes cravadas, obras destruídas, momentos sem chão, impérios desmoronados e lágrimas, muitas lágrimas perdidas no rosto de quem sofreu e sofre tempestades medonhas.

Contudo, prevalece esse brilho incandescente que a diferencia da multidão. Acontece a força da rebelião. Nela reside a recusa e navega contra a maré a cada nascer do sol, a cada cair da noite, nos sonhos que não abranda, no querer que não confessa, no orgulho de si que não deixa morrer nem quando os impossíveis lhe segredam parvoíces que não ouve.

São pérolas, todos os segundos dessa viajem que a mantém viva, todos os minutos à tona do seu mar revolto, todas as horas vorazes de emoção, todos os dias, todos os meses, todos os anos onde se retrata nas mais diversas facetas de si mesma.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XIII) - MARIA MAGUEIJO

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Deambulou pelas ruas vendo pessoas de tantas formas que mais pareciam formiguinhas trabalhadeiras. Olhou o relógio e percebeu que era hora de almoço e tal como as formiguinhas que não paravam quietas, foi pela Rua do Arsenal até ao Cais do Sodré. Podia ter ido visitar o rio Tejo, mas deixou para a volta.
Deu por si a subir a Rua do Alecrim e foi então que decidiu parar para almoçar.
Finalmente!
Entrou na Brasserie de L’entrecôte e depois de um belo repasto fixou o olhar na janela. O lugar onde estava sentada era junto a uma janela e observava quem passava. Quem serão? Que fazem na vida? Será que sabem sorrir com o coração, que conhecem o verbo amar?
Observou com carinho que muitas daquelas pessoas andavam de mãos entrelaçadas. Que contente ficou, sentiu-se bem e um suspiro quebrou a sua hipnose. Mas ali ficou já a degustar um bom café.

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domingo, 1 de dezembro de 2019

AS FEITICEIRAS - ERNESTO FERREIRA

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Olhe Miguel, disse o Ti Reinaldo, os contos (estórias) que envolvem feiticeiras ou feitiçarias são, para as crianças, os mais adorados pelos mistérios que contêm e também porque constituem algum sentimento de medo de uma qualquer coisa que não dominam.
Esta história foi-me contada pelo Ti Madorna, que a tinha ouvido de outro grande conversador, que não conheci.
Naquela época - e ainda hoje, de certo modo - no final da missa domingueira, os homens ficavam pelo adro em conversas diversas.
Em alguns destes eventos, era figura de proa alguém que, sendo habitante de freguesia vizinha, era um regalo ouvi-lo não apenas nas histórias que contava, mas também nas análises críticas aos maus e bons costumes.
Então vamos à história contada na pessoa do sujeito passivo, que assim disse:
“Pois ficam sabendo, meus amigos, que as feiticeiras existem e são capazes de coisas extraordinárias. Eu não lhes tenho medo, mas muito respeito, porque as conheço bem. Vejo-as da minha janela quando elas se entretêm a fazer fooorrninhos, que lhes dá muito prazer. Mas quando fazem fffooorninhos não devemos estar à cata, nem maliciosamente as impedir. Pois bem, na semana passada, ainda não era meia noite, fui acordado porque me estavam a erguer da cama. Senti que me levavam pelo ar, sentindo uns ventinhos nos queixos. A lua estava cheia e eu vi que quatro feiticeiras me levavam. As ramas que me tocavam fizeram-me conhecer que estava debaixo de salgueirais e por cima de silveirais, que são, todos sabem, as casas das feiticeiras Nisto senti que me pousavam no chão e eu perguntei: Meninas onde estou eu? É preciso não as tratar mal... Elas responderam-me: Estás na Chão de Agra. Está bem, meninas – não se pode tratá-las mal – por favor, levem-me à minha cama. Eu senti novamente uma brisa a passar-me nos queixos e a voar. Mais uns minutos e senti que novamente me pousaram e eu perguntei: Meninas, onde estou eu? Elas me responderam: Alto do Cavalinho. Muito bem meninas – não se pode tratá-las mal – por favor, levem-me para a minha cama. Senti que novamente me levavam e novamente me pousaram. Perguntei outra vez: Meninas – não se pode maltratá-las – onde estou eu? Ao que elas me responderam: Chão de Antesdelas. Voltei a agradecer e pedi que me levassem para a minha cama, sempre sem as tratar mal. Senti que novamente me levavam, senti um ventinho nos queixos, mas também senti as folhas da minha vinha a afagar-me e de seguida pareceu-me estar na minha cama e perguntei: Meninas onde estou eu? Recordo que não se pode tratá-las mal. Elas me responderam: Estás na tua cama. Então eu disse: Obrigado suas grandes p.tas. Não se pode tratá-las mal.
E, sobretudo, não as incomodar quando estiverem a fazer fffffooorrninhos!”

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quinta-feira, 28 de novembro de 2019

CARTA AO MEU ANJO... (excerto) - SÓNIA CORREIA

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Tu, guerreiro e parceiro nesta imensa e longa batalha pela sobrevivência e ascensão, voz que me abraça, ouvido que me acarinha do outro lado da linha, imagem gravada em mim no peito, nesse
órgão de músculos entrelaçados que bombeia o sentir.

Escrevo-te porque é nas palavras que sou mais eu, para te dizer nas sílabas que tão bem me conheces que não são os natais que nos definem, que nos traduzem, que fazem de nós mais parte da mesma parte ou até mais importantes reciprocamente.

Que não é a distância sofrida nem mesmo a profunda saudade que abala o sentimento que nos une, muito menos um dia no ano ou as músicas da ocasião que soam nas bocas dos demais já profanadas do verdadeiro sentido.

Não são as luzes das árvores de Natal, na maioria expostas em casas sem amor que fazem brilhar, mas sim a tenacidade, a competência, a força, a certeza de que prevalece esta família de dois que jamais algo ou alguém conseguirá desunir.

Sou-te eternamente, és a minha força e a minha razão, a minha luta, a minha única realidade merecedora e sou-te, sou-te sem amarras tóxicas, sou-te sem condições, como exemplo de que a personalidade, o carácter, a fé, a batalha, podem ser ganhas mesmo que as adversidades passem rasteiras e ergam muros fracos para nos segurar.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XII) - MARIA MAGUEIJO

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Maria ficou por instantes sem se mover. As palavras da prima tinham sido poderosas, cheias de convicção e também a fez pensar na vida que, sem se dar conta, passava veloz e ela mantinha a sua oficina, o seu velho carro, a furgoneta do avô para carregar as suas obras de arte, o restauro e... Pois. E tinha esquecido que era jovem, elegante, bonita e de porte altivo tal como a sua Mãe.
A sua Filha, sempre que vinha a Portugal dizia a mesma lengalenga:
– Mãe Maria, és linda, jovem, mas uma chata sem namorado. Porque fechas, na tua concha secreta, esse amor que tens para dar? Sê feliz, não te escondas por detrás destas tuas velharias. Pronto, desculpa... restauro de relíquias antigas.
Depois ria e abraçava a Mãe cheia de mimos das saudades.
Maria já não lhe dava ouvidos, Sorria, anuía e continuava a sua vida. Mas nesse dia foi como um despertar.

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terça-feira, 26 de novembro de 2019

O CONTRATO DO PASTOR - ERNESTO FERREIRA

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“Era uma vez um pastor que tinha esse ofício desde que se conhecia.
Os pais tinham morrido, era ele ainda criança, e houve uns vizinhos que tomaram conta dele. Na aldeia não havia escola e as crianças começavam a trabalhar logo que tinham um pouco de tino.
Este pastor foi então para casa desses vizinhos, lá no alto da montanha. Fazia todos os trabalhos, que eram a fonte de rendimento dos seus tutores. Mas principalmente fazia o ofício de pastor.
Todos os dias, logo pela “manhão”, quer fizesse frio ou calor, lá ia ele serra acima para as melhores pastagens.
Escola e Igreja nem sabia o que isso era. O mundo para ele era a família com quem vivia, ou melhor, pernoitava, as ovelhas e cabras, o cachorro que o ajudava na guarda e condução das ovelhas e a serra com todo o seu esplendor. Duma cana tinha feito uma flauta com a qual aquecia a alma e também servia para dar ordens ao rebanho. Ordens tão firmes como as dadas pelo estridente assobio com o qual também interpretava os sons do vira e da gota - danças e cantares tradicionais.
E a vida ia correndo sem novidades. Mas um dia em que resolveu levar o rebanho para um local mais distante, viu ao longe um grupo de pessoas que desciam a serra. Intrigado resolveu perguntar- lhes de onde vinham e para onde iam. Então uma das pessoas explicou: Nós vivemos no alto da serra e vamos para a aldeia ao Confesso da Páscoa. O nosso pastor perguntou: O que é o Confesso da Páscoa? Ao que a pessoa respondeu: Nós vamos ajoelhar em frente ao Senhor Padre, contamos as coisas que não devíamos fazer e os pensamentos maus que nos vieram à cabeça. O Senhor Padre então dá-nos uma penitência que, depois de cumprida, nos limpa dos pecados. Quem não se confessar é como um animal, concluiu o passante ao mesmo tempo que o animava a ir confessar- se. O pastor lembrou-se que costumava, às vezes, roubar uma ou outra “chouricita” aos seus tutores e que um dia tinha pensado fugir para correr mundo e entendeu que talvez fosse bom ser perdoado.
Juntou-se ao grupo e lá vai ele para a Igreja. Chegado aí viu as mulheres a colocar as saias pela cabeça, encostarem-se a um armário com rede e aí falarem com o Sr Padre. Ele fez o mesmo. Como não tinha saia colocou a manta pela cabeça e disse ao Senhor Padre o que entendia como seus pecados.
O confessor então, e pela gravidade dos “pensamentos e obras”, aplicou-lhe a penitência a cumprir: durante um ano tinha que viver apenas com pão e água. Ele aceitou, mas começou a pensar: pão ainda vá que não vá, mas água é que não pode ser; este contrato não me serve. Esperou que o Padre saísse do confessionário e perante a admiração dos penitentes que estavam na Igreja disse: Oh senhor de saia preta que estava naquele “curtelinho”. E repetiu: Oh senhor da cabeça rapada!
Logo que o Senhor Padre ficou atento, disse-lhe: Olhe, se quiser o contrato a pão e leite, muito bem; senão “ca..e” no contrato.

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sábado, 23 de novembro de 2019

SONHO-ME... (excerto) - SÓNIA CORREIA

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No escuro da noite é onde me encontro. Apagam-se as luzes, calam- se as vozes, cai o negro lençol sobre o mundo. O corpo cansado do pensar solta-se leve e a alma refugia-se enrolada na manta felpuda de liberdade dos dias que tolhem o sonho.

Peço pouco ao universo, talvez um pouco impossível e ainda assim um quase nada que demora no percurso até mim; que seja efémero, mas chegue esse irrisório que me falta.

É cúmplice a névoa das luzes apagadas em surdina, é intenso o cheiro a maresia que mesmo em sonho me chega às hormonas e me cativa em todas as horas em que o mundo dorme. Será muito querer ser amada?

Deixo-me ir atrás do insano silêncio e sonho ainda acordada neste imaginário. A esperança toca ao de leve a pele num todo. Amar ultrapassa a impossibilidade, na chama da vela que acendo religiosamente ao meu lado, num instante deixo de existir para viver, sonho-me.

O relógio estagna na cidade onde me reinvento e amo, amo em contos de fadas por inventar, amo quem sou num orgulho que me preenche. Sinto-me amada no devagar com que a minha metade se encaixa em mim, como se o quente desse desenho assentasse praça na minha fogueira.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XI) - MARIA MAGUEIJO

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Isabella reaprendia a ser feliz. Por vezes ficava horas deitada no sofá a ouvir a avó ler, a ouvir verdadeiras histórias de encantar de príncipes e princesas de um tempo, que ela adivinhava, a avó teria vivido.
Passados dois anos do regresso de Isabella da aldeia, a avó faleceu. Foi um golpe lancinante para todos. Algum tempo antes tinha sido diagnosticado um início de Alzheimer que se complicou velozmente. Amava o seu Miguel, como a si própria. Casaram muito jovens. Naquela época fora um casamento muito cavaqueado pelas coscuvilheiras da vila. E mais de sessenta anos passaram com tanta ternura. Miguel era um homem apaixonado, feliz com as duas filhas que lhe chamavam o pai com o cabelo que brilha como o sol. Como mulher precavida que sempre fora, deixou uma carta para o marido. Ao seu jeito era uma declaração de amor.

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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

O CANTAR AO DESAFIO (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Se há coisa Miguel, que dá prestígio na região, e em Asturães também, é ser bom cantador ao desafio, referiu Poesia. “Cantigas ao desafio” é uma forma de duas pessoas se enfrentarem oralmente, cantando, em que cada um procura colocar o adversário em “menor condição”. Isto traduz-se em cada um tentar ridicularizar ou diminuir o adversário ou auto valorizar-se comparando as virtudes de cada um, e de todo o género. A avaliação do valimento de cada um é feita pelo numeroso público que rodeia os cantores.
Isto quando o espectáculo tem lugar em festas e romarias. Hoje é vulgar encontrar mulheres a cantar ao desafio; outrora era muito mais raro e para ouvir uma cantadeira ao desafio só em simultâneo com um baile.
Há uma dança e música minhotas que se chamam “O Fado” que propicia estes debates cantados, já que sendo a melodia suave permite que se entenda perfeitamente o palavreado, ou seja, os “argumentos” de cada um.
O cantar ao desafio não é para qualquer um, pois para o ser, “com preceito”, três aspectos são obrigatórios.
O primeiro é que as quadras ou sextilhas tenham rima e o cantor tenha que ser repentista; em segundo lugar o último verso de cada cantador obriga à mesma sonoridade do primeiro verso do outro cantador; em terceiro lugar (este mais raro) a força da afirmação depende de correspondente parábola justificativa tida no Evangelho, ou de ensinamentos do Novo ou Velho Testamento.
O que implica bom conhecimento dessas obras e interpretá-las conforme melhor lhe convém.
Resta acrescentar que o palavreado picante é muito apreciado.
Infelizmente hoje é recorrente e impróprio o uso de termos que nem abrilhantam o canto nem tem qualquer valor poético.

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segunda-feira, 18 de novembro de 2019

CONSTANTE... (excerto) - SÓNIA CORREIA

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A verdade é que não existe fórmula para a emoção nem, tão pouco, os sentires são produtos de prateleira que possamos escolher ao sabor da vontade do momento. A realidade sopra-nos na velocidade que lhe apraz enquanto inconscientes de significado nos invade o corpo, trespassa o coração e se entranha na alma.

Racionalizar é muitas vezes resvalar e cair em areias movediças, contrariados sem quase respirar, enrolados em ondas ferozes desse mar obstinado em revolucionar todas as equações sem resultado,
espalhadas como a matemática por resolver.

Mas para além de toda a demência que me é própria, dos sonhos fluidos em que me alimento, em todo o sentimento que me percorre o corpo como o sangue bombeia a máquina que me traz viva, para além da insanidade de acreditar no amor que me lambe a alma e me adoça a esperança, para além deste temporal que me enriquece, também tenho um anjo.

E com ele vivo momentos extraordinariamente únicos. Conversamos dia fora, noite dentro, enquanto em tragos sedentos me enveneno de champanhe, choro com ele sobre as minhas cicatrizes, rimos juntos sobre conceitos de felicidade absurdos à humanidade, desvelo anseios, falo do meu amar, grito injustiça e pelo meio oiço-o atentamente e tudo se encaixa.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

domingo, 17 de novembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto X) - MARIA MAGUEIJO

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Isabella ajudava Maria no restauro dos móveis, era tinta espalhada, espátulas sujas de tanta cor, lixas de vários milímetros e muita risada. Maria é uma pessoa de bem com a vida, alegre e tagarela. É bom tê-la por perto.
As refeições eram outra comédia. Uma porque comia pouco, por habituação de ter dormido feito louca durante várias semanas, outra porque não queria ter de mudar de tamanho de roupa. Enfim, todos riam destas duas primas que um dia, um tabuleiro com chá e biscoitos, uniu numa visita a uma casa de cor lilás pintada.
E o tempo não pára...
Maria era uma pessoa importante na vida da prima. Apesar de brincalhona sabia muito bem o que argumentar para contrariar as tristezas dela. Maria acordava sempre cedo. Que maçada!

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sábado, 16 de novembro de 2019

O CONFESSO DA PÁSCOA - ERNESTO FERREIRA

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Miguel, a estória que se segue, para dizer a verdade, passou-se mesmo com o Ti Reinaldo e por isso vou pedir-lhe para ser eu a contar. Quero dizer-te, para melhor poderes julgar a atitude reflectida na nossa história, que estamos numa aldeia onde os habitantes, maioritariamente ligados à agricultura, são também profundamente crentes e observadores dos ditames do Senhor Abade.
De entre as realizações mais severamente avaliadas está o cumprimento do Confesso da Páscoa, que sempre tem lugar durante a Semana Santa.
Para o efeito são convidados os párocos das freguesias vizinhas, situação que é comum a todas as aldeias. Os padres deslocam-se a pé ou montados em cavalos garranos, de sua propriedade. De entre os padres que normalmente vêm à nossa aldeia, há um que é considerado muito severo nas penitências aplicadas e não menos severo durante o diálogo do confesso. É o justiceiro Padre Avieiro.
Acontece que o Ti Reinaldo não é dos melhores seguidores das regras de bom católico, só se confessando neste anual evento.
Desta vez calhou-lhe, para colocar em análise de pecador, o tal padre.
Normalmente e depois da bênção, o padre fazia a pergunta habitual: Há quanto tempo não se confessa? Isto significava: Há quanto tempo está em pecado?
Posta esta questão ao Ti Reinaldo, ele respondeu com a verdade: Senhor Abade, já não me confesso há um ano.
Com o conhecido mau feitio, o abade ripostou: Olhe que de ano anda a minha burra! (para que saibas Miguel, este é o tempo de gravidez das éguas...)
O Ti Reinaldo respirou fundo e atirou: Pois isso é que admira, Senhor Abade, pois a sua burra tem confessor em casa... E levantando- se, saiu da Igreja.
A partir dai o Ti Reinaldo entrou para o índex dos abades das redondezas... e de alguns paroquianos.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

ARROJADA... - SÓNIA CORREIA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Trago-me livre, solta, leve, louca até!

Se os oceanos que contenho se desprendessem de mim inundava-se o mundo. Desta arrojada vontade pela vida, amo inequivocamente mesmo nesta unicidade.

Subo ao cimo de qualquer montanha, abro os braços em jeito de asas de seda, nua por baixo da transparência, sem pudores. Tudo o que me apetece é voar, vazar tanto deste querer que me ocupa. Não sou de ninguém, de nada, de lugar algum, mas sou do tanto sem limites que o pensamento me desenha.

Que todas as coisas que trazemos dentro de um corpo que perece tão mais que a alma, as letras todas juntas que não definem coisa alguma. Que os segundos amontoados de sentimento, sensação, emoção me façam ir, e vou, vou para o vento que sopra arrojado me levar sem destino que importe.

Sede, tudo o que me vive é sede. Sede desse estado de entrega, no cume do universo que seja, pendurada de estrela em estrela até a lua me tocar e anseio que o brilho que brutalmente me invade constante exploda aos meus olhos, espalhe todos os estilhaços de loucura e serei mais feliz ainda.

Quando amar amarei com tudo de mim, mesmo que por breves momentos. Quando me entregar, entrego-me toda, mesmo que essa anestesia arrojada não seja entendida. Quando quiser, que se saiba que quero com essência e sabor apurado. Afinal são todas as peças do puzzle que definem a obra e de nada vale a subida às nuvens sem a arrojada vontade da insanidade.

Sejam loucos, loucura é a nova tendência... A única que escreve história!

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

terça-feira, 12 de novembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto IX) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Leonor escrevia ao seu pai com regularidade e esta carta ficou perdida no tempo. Era uma carta de dor, mas ao mesmo tempo a dar-lhe conta de todos os seus afazeres, a sua educação e de seus irmãos, de como estavam crescidos e também para o alegrar no cativeiro onde ele próprio se encontrava, no forte da Junqueira. Maria sentiu as lágrimas invadirem o seu rosto sem pedirem permissão. O universo conjugava todas as pistas para reerguer a sua prima. Sinais de força apareciam nas mais estranhas situações e das mais variadas formas.
Essa carta, Maria tem-na guardada como sendo o seu maior tesouro. Nunca falou dela a ninguém e de quando em vez vai ler aquelas palavras de Leonor de Allorna. Dão-lhe coragem e força para caminhar! Revoltada com o mundo, onde o sofrimento prevalece, aprendia muito naquela leitura que escondia de todos.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA