quinta-feira, 18 de abril de 2019

DA CEBOLA À HORTELÃ - CARMEN LÚCIA DE QUEIROZ PIRES

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Hoje servirei um banquete...
Vou fazer a minha melhor receita!
Usarei cebolas, manteiga, pimenta branca
e hortelã...
As cebolas servirão como desculpas caso
as lágrimas rolem,
A manteiga ajudará a amolecer os corações endurecidos,
A pimenta cairá como uma provocação à
indiferença que há entre nós,
E a hortelã dará ao ambiente o aroma
e o sabor do reencontro!
Vou colocar apenas dois pratos à mesa para não correr o risco de ter mais alguém no nosso jantar!
As taças darão um toque refinado e o som baixinho repetirá a nossa canção preferida!
Vou me arrumar com muito esmero sem esquecer o batom vermelho e o perfume que tu me deste!
Te esperarei ansiosa, pois assim eu sou! E como ansiosa estarei a te esperar bem antes da hora combinada!
Diferentemente de mim chegarás atrasado como sempre, com a voz mansa e olhar arrependido!
E eu ficarei sem graça!
Mas hoje foi diferente, chegaste antes da hora, trouxesse a bebida que tanto gosto e achasse graça na comida que te fiz!!
Sem acanhamento falasse da alegria do meu convite, do tempo que passava fora e da falta que eu te fiz!
Timidamente seguras a minha mão e me lembras do tempo que fomos felizes, do que construímos juntos e da vida que ainda nos espera...
Não me contenho e me torno transparente!
Perguntas:
- Por que teu choro?
E eu falo das cebolas!
- Por que te calas?
E eu falo da manteiga!
Dizes:
- Estais estonteante...
E te falo da pimenta...
Ao roubar-me um beijo me dizes:
- Tão cheirosa...
E eu? Eu, com o coração aos pulos, te falo da hortelã!

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

quarta-feira, 17 de abril de 2019

LINHA DO TREM - CAMILA NOBILING

LIVRO GENTILMENTE OFERECIDO POR IN-FINITA
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Ouvi o apito. Posicionei-me na fila. Sempre espere os outros passageiros saírem, depois entre. O andar de cima costuma ter mais lugar do que de baixo. Vá direto para lá.
Eu ainda não digeri o peru do fim do ano que se chamava ganso e tinha gosto de pato. Não digeri a massa, a desgraça da morte da ave, não digeri o prato.
Fico brincando com meus pensamentos e pensando nos “omens” ruins.
Se se começa o ano com estresse significa que ele será inteiro assim? Assim ruim? Há algum tempo tenho a sensação que os anos são como brincadeira de bem-me-quer, mal-me-quer, só que em forma de ano-bom, ano-ruim. Será mesmo assim?
Escrever em primeira pessoa é muito mais pessoal que em terceira. Esta pessoa, contudo, é muito mais verdadeira que a primeira.
Ela está falando russo atrás de mim, não estou entendendo nada. Nunca entendo nada, somente o que quero.
Preferia esse caminho quando saltava na Friedrichstrasse para ir de encontro ao futuro, agora desço na Alexanderplatz para ir de encontro à estagnação.
Se pudesse embarcaria hoje também naquele avião e iria para longe do momento que não quero viver aqui.
Sinto sono, muito sono, um sono que se espalha por cada célula do meu corpo e não me deixa dormir.
Que dia feio! Cor de cinzeiro sujo.
“Jetzt Chance zu aufsteigen nutzen. Ab 1.Januar...” li no cartaz. Aí o trem se foi... que chance seria essa? A do moço no alto do trampolim que aparecia na foto ao lado? Chance de se atirar desse agora?
Tocou, era mensagem. Li só o começo e uma lágrima ficou enroscada no canto do meu olho.
Deu uma vontade de voltar para o futuro quando o vi lá fora, pela janela do trem!
Nunca reparei antes no que estou reparando agora.
Próxima estação, vou descer!
Eu queria estar indo, indo com todos.
Eu queria estar diminuindo, diminuindo as distâncias.
Aqui e ali, lá e acolá. Eu só queria...
O avião está subindo. Eles estão partindo.
Um pedaço do meu coração está indo junto. Um pedaço sempre vai junto.
Fim da linha. Alexanderplatz.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

terça-feira, 16 de abril de 2019

IN-FINITA APRESENTA... A QUEDA, DE MARCELO PEREIRA RODRIGUES

Conheçam um pouco do romance A QUEDA do autor MARCELO PEREIRA RODRIGUES
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A Queda

Capítulo 1

Lançamento de Livro

Uma chuva torrencial cai sobre Belo Horizonte. Estacionado em frente ao Palácio das Artes, um táxi espera impaciente a descida do passageiro, que, mesmo portando um guarda-chuva, tem no bagageiro duas caixas pesadas de livros para carregar. O taxista não parece disposto a auxiliar. Pelo menos, desliga o taxímetro. No banco de trás, Gregório, constrangido, tenta entabular conversa, mas nada que passe do trivial sobre o tempo.
— Não quero tomar o seu tempo. Uma estiadinha e prometo descer. Veja só, parece que está diminuindo...
O taxista sorri e compreende a situação. Gregório torna:
— Até porque dentro de quinze minutos começa o evento. Preciso chegar uns dez minutos antes para dispor os livros. De qualquer forma, daqui a cinco minutos saio.
O taxista se prontifica a ajudar:
— Se é assim, damos uma corrida juntos e cada um pega uma caixa.
Quatro minutos depois, as portas do automóvel se abrem e, apressadamente, os dois pegam suas respectivas caixas. Gregório ainda leva um banner e uma pasta executiva, mas longe de ser de couro legítimo. “Chuva de molhar bobo”, a verdade é que as costas do escritor estão bem molhadas e os pés entraram em cheio numa poça d’água. Um guarda do Palácio auxilia pegando uma das caixas e deposita-a num banco em frente a uma vidraça. Gregório paga o taxista, dando a ele uma gorjeta de dez reais pela espera, o taxista agradece e deseja sorte no evento que o cliente irá fazer. O guarda é solícito, auxilia na descida das duas caixas (bem pesadas, por sinal) e, no andar térreo,
uma mesinha disposta e cadeiras ao redor estão preparadas para o lançamento do livro de Gregório Mendes, 40 anos, filósofo, palestrante, agitador cultural, dono de uma coluna comportamental em um jornalzinho de bairro (O Vigilante!) e professor de Literatura e Redação num renomado colégio da cidade. Estreava o seu primeiro livro, numa seleção de textos que haviam sido publicados pelo jornal. Como o jornal abrangia cerca de 500 leitores no máximo, e dentro de uma associação de bairro, Gregório vislumbrava um alcance maior com a publicação desse compêndio. Por isso vendera um Gol e juntara suas parcas economias para publicar a obra, negociando diretamente com uma editora de autopublicação, que não tinha muitos critérios nas avaliações dos originais, atendo-se apenas à questão comercial dos pagamentos sempre antecipados. Mas se tivessem adentrado a obra, observariam nela concepções e formas de pensamento bem originais e ideias filosóficas que passavam longe de especulações metafísicas.
(continua)


SINOPSE

A Queda é um romance psicológico e moderno que aborda as relações interpessoais com construção bastante elaborada de seus personagens, cada qual com a sua respectiva dose de estranheza referente a modos comportamentais e, se vale a máxima de que “de médico e louco cada um tem um pouco”, é sintomático nos enxergarmos no pensador em um mundo irrefletido; na adolescente viciada nas redes sociais; na adolescente antissocial e leitora voraz de Nietzsche; na grã-fina consumista e desejosa de ser publicada nas colunas sociais; na feminista lésbica e ortodoxa; no professor que tem vergonha de ser brasileiro e que almeja a Europa; no radical defensor do Movimento Negro e mais uma série de personalidades que, se num primeiro momento poderão se caracterizar pelo aspecto caricato, poderá, na metáfora de um espelho, fazer enxergar a todos a nossa cotidiana intolerância e doses de radicalismo. Marcelo Pereira Rodrigues (MPR) como um excelente contador de histórias, nos apresenta este enredo corajoso, reflexivo, mas deliciosamente divertido.

BIOGRAFIA

Marcelo Pereira Rodrigues (MPR), 44 anos, é escritor (cronista, romancista e biógrafo), filósofo e palestrante. Publicou há pouco, em Portugal, o aclamado “Corda Sobre o Abismo, o Elogio da Desesperança”. É editor-chefe da Revista Conhece-te, periódico mensal que persiste de forma ininterrupta há 18 anos. Tem 14 livros editados e o seu último romance, “A Queda”, está sendo traduzido para o inglês e o espanhol com vista a ser difundido na américa latina e em Espanha.

A BRUXA E O MASSACRE DE RUANDA - CACAU NASCIMENTO

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Nas aldeias de Kigale, um massacre aconteceu
Nessa guerra de etnias, parte do povo morreu
Mas Zura Karuhimbi, muita gente protegeu
Com sua fama de bruxa, um bocado ela salvou
Na aldeia de Musano, as milícias enfrentou
Com a cara e a coragem a idosa se armou
Uma simples anciã, porém, muito perspicaz
Foi uma grande guerreira, serena e amante da paz
E nos deixa essa história, de alguns anos atrás
Cada um que ela acolheu, teve a vida estendida
Graças a sua fé e a lenda atribuída
Pois até os mais ousados, temiam a bruxa aguerrida
Escondeu pra lá de cem, mas afirmou não saber
Vivia muito ocupada, não podia se entreter
Contando quantos salvava, em vez de lhes proteger
E assim Zura poupou, mais de cem desse evento
Entre Tutsis e Hutus, um massacre tão sangrento
Usando a sua fé e o seu discernimento
Numa casa com dois quartos, esse povo acomodou
Terminado o episódio, até Zura se espantou
Onde coube tanta gente? Foi Deus quem multiplicou!
Pelas mãos de Paul Kagame, fora homenageada
Mal sabia o presidente, que sua vida foi salvada
Pela mesma velha bruxa e a história foi contada
Na década de cinquenta, com uma mãe se deparou
Trazia no colo um menino, então Zura orientou
Do colar faça um enfeite e por menina passou
Não o coloque no chão, ou logo, irão perceber
Que se trata de um menino e seu filho irá perder
Cortava-lhe o coração, ver um inocente morrer
Que assim caminhe o mundo, com mais Zuras e Irenas
Essas bruxas perigosas, que partem da vida terrena
Deixando suas canetas, grafando as próximas cenas.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

segunda-feira, 15 de abril de 2019

OITAVO ESCRITO (excerto) - JOÃO DORDIO

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Às vezes levo-te para sítios onde nunca estiveste e para onde me
voas...

Palavras! São palavras onde eu também... te voo...
Sabes que são só palavras ou talvez um respirar de vocábulos
libertados nestas folhas para alguém vir ler e conhecer! Ou então
ninguém...

Palavras! São palavras! São só palavras!

Palavras ou beijos e “rebeijos”, escritos e reescritos e rebuscados...
por vezes tão somente levados e “relevados”, trazidos de outras vidas
que se fizeram corpo nesta vida. São tudo... são este abraço, este
beijo, é tudo... tudo o que me dás sem nunca realmente me dares, é
tudo sem que nunca tenhas estado aqui porque, por vezes ou sempre
ou só agora... estiveste longe ou aqui comigo, ao destino em destino,
aqui ao lado e aqui em fado...

Palavras! São palavras da demência! São só... demências!

Abraço-te! E é tanto! E é tão tudo o que a respirar a dois nos
trás! Partilhar tudo no mundo só para ele também perceber porque
passaste a ser o oxigénio deste corpo suspenso!

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

domingo, 14 de abril de 2019

TALVEZ SEJA SÓ EU, SIMPLESMENTE EU... - C. GONÇALVES

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Hoje sou profissional. Tenho compromissos e a agenda cheia. Tenho pessoas que chegam e que me procuram, assuntos por tratar, negócios por resolver.
Hoje sou mãe. Tenho de levar os miúdos à escola. Tenho de arranjar o equipamento da ginástica, os lanches da tarde e os casacos para logo.
Hoje sou mulher. Tenho hora marcada no cabeleireiro. Preciso cortar as pontas do cabelo, arranjar as unhas, talvez uma massagem.
Hoje sou miúda. Tenho um jantar com amigas. Combinámos no nosso sítio, o do costume. Vamos rir e conversar como fazíamos há vinte anos.
Hoje sou amante. Tenho o meu marido em casa cedo. Vamos namorar como no princípio, esquecer as rugas que já nos atraiçoam, aproveitar o momento.
Hoje não sei quem sou. Não sei se fico, não sei se vou. Não sei o que sentir, nem o que pensar. Não sei quem sou.
Sou todas elas e não sou nenhuma.
Talvez seja só eu, simplesmente eu...

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

sábado, 13 de abril de 2019

TRAVESSIA QUÂNTICA DE VÉNUS - BEATRIZ H. RAMOS AMARAL

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Suíte
A madrugada lhe traz a amplidão do tempo, o vapor das sílabas em estado de precariedade e a permissão para transitar entre miragens e probabilidades de ser. A probabilidade de encontrar, novamente, o olhar de Ronaldo em direção a ela, e, desta vez, diferentemente do que fez há vinte anos, seguir com ele para Paris, transferir seu rotineiro cotidiano para a grandeza dos gestos de abertura a que somente com ele se propunha a fazer. Desenhar esta probabilidade antes do nascer da aurora era o mínimo que Gláucia devia a si mesma. Para a frente, para a frente, trazer a estrada para o mar. Fazer mar. Fazer águas. Oceano.
Simultâneas
Na simultaneidade que as palavras e o pensamento de Albert Einstein lhe trazia, sua aurora era nova e antiga. E era também uma tarde e todos os instantes conjugados pela tarde, no vaso de cristal sobre a mesa e na suíte de vontades simultâneas. Por isso, Gláucia se chamava Regina, Isabel ou Ana Stella e transitava de país em país, de compasso em compasso, ela-meteoro, ela-luz, balão metafórico de ensaios, vislumbrando frestas e janelas entreabertas. Nem era preciso concluir o curso de teatro iniciado na Gávea, no Rio de Janeiro. Ela seria Clara, Beatriz, Leila, Irene e faria amanhecer róseas formas numa desconexão de sentidos tão intensa e onírica quanto a beleza serena que uma aurora boreal desenha no céu.
Adágio, fuga e ritornello
Ela já sabe que o castelo de cartas está no outro quarto. E sabe também que foi deste outro quarto que saiu, um dia, perplexa, perdendo a chave, num regato, numa corredeira, no curso fluvial de uma água também outra. Por isso é que naquele outro tempo somente os pássaros (que um dia foram peixes e escreveram com os olhos uma história verde e azul) alimentaram as horas, entre bandos e cardumes. E povoaram a ancestral paisagem das nascentes. Esses pássaros, esses peixes, seu plural de acasos, as danças, a vontade de ser tão livre. A metamorfose. Com ela, Homero, Thomaz, Hermes, Eulálio e Raul deram efeitos às histórias, deram sentido aos passeios na praia, no mapa de seu único retorno.
Gláucia faria o que não fizera ou mais do que é possível fazer no seu abraço, um verde veleiro em águas igualmente esverdeadas, ela no Brasil, em Angra dos Reis, e três décadas antes de ouvir o chamado. Ouvindo bossa-nova, mas fazendo coro com cigarras e se despindo de pudores, em avisos e desatinos. Talvez tomasse a iniciativa. Na tela, com pincéis nas mãos e dialogando com Henrique, Pedro Paulo, Carlos Augusto e Rafael, que escolas e estilos poderiam se conjugar, compondo a intersecção de miragens? Se existe uma aurora nova, se é real, traz o ponto, a luz, o alinhavar do tempo que só os pântanos ocultam.
Lago
Na paisagem lacustre, ela é o que o azul-espelho mostra. Escapa a essência que transita pelas vozes do coro. Pelos naipes. Pela abadia. Pelo centro da história em que nada jamais se conta, pois o canto arrebata o enredo e a quimera permanece no meio do universo, à espera de sua primeira incerteza, de sua pesca, sua mirada, suas entrelinhas douradas de sol, brasa e sentido.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

sexta-feira, 12 de abril de 2019

AULA SEM TREMA - ANGELI ROSE

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– Como escrevo linguiça?
Ela perguntou ao colega ao lado. Ele riu e em silêncio ficou. A menina insistiu, talvez, porque em sua redação, já longa, precisasse saber como escreveria linguiça. Queria era saber se a tal palavra levava trema ou não. Sem resposta apagou o que fizera.Comeu um pouco da ponta do lápis (sempre fazia isto quando se dava por ansiosa). Mais alguns minutos e foi novamente perguntar.
– Como escrevo linguiça?
Agora, com menos força e mais arrastada na fala. A outra colega ria de tremer-se toda pelo riso frouxo. Era caso de indignar-se com tão pouco caso dos colegas. Mas sem coragem de perguntar à professora, demorava-se em alguns minutos pensando em como, então, substituir a palavra – recurso que utilizava na esperança de livrar-se das situações difíceis que a língua lhe botava algumas manhãs. Foi com certo receio que trocou todo o contexto de sua composição, passando a falar de porcos. Lembrava-se, vez por outra, da fazenda do avô e de como as carnes de sobra dos porcos também serviam para fazer as linguiças e desatou a comentar a importância dos porcos, em vez de falar de como gostava de linguiça.
Anos mais tarde, adulta, crescida e parida pelas experiências da vida, encontrou aquela singela e ingênua redação entre os papéis colados numa das pastas de recordações que guardara. Deu-se a rir sozinha no canto do escritório. Percebeu o quanto a menina envergonhada da sala de aula, a do passado, tinha desenvolvido um senso crítico capaz de exigir um preparo maior e zeloso no so da língua. A escritora de hoje, profissional e disciplinada, sentira o vácuo que aquela experiência tinha lhe proporcionado.Era como se as palavras quisessem voar com seus sons e sinais próprios, desses que logo são reconhecidos, mesmo quando não as conhecemos.
Escrever para ela, agora mulher, tinha o ritmo do dia da fazenda do avô: cedinho a ordenha, a tirada do leite fresquinho; depois, a contagem do gado; a lavagem pros porcos; a coleta dos ovos; o plantio de mais uma nova muda; e assim seguiam os dias e as tardes, que incluíam a montaria no alazão preferido do avô. Havia muita disciplina, mas entusiasmo suficiente para dar continuidade às tarefas por parte daquele homem de calças largas e galochas com boné ao contrário, sempre parecido com um garoto. Seus romances eram, cada um a seu estilo, uma grande fazenda a ser cultivada e amorosamente preservada, embora as tempestades ocasionais desforrassem o celeiro, deixando-o sem telhado. E lá ia seu avô mais um dia refazer o serviço de obra com os poucos empregados como toda construção acolhedora necessita. Assim, olhava para seus textos, celeiro de ideias, que em algumas tempestades mentais e momentos de insegurança, tomavam seu tempo, exigindo-lhe novo labor.
A memória dos dias escolares trazidos por aquelas folhas, agora, sem muita importância, chegaram acompanhados da potência do passado em boa medida feliz que vivera ao lado do avô. Pai e mãe viajantes, distantes quase sempre. Irmãos mais velhos em outros países, sobrara a ela uma cidadezinha do interior rural ao lado do sempre bem disposto avô. Ele se fora fazia dez anos e com ele levou toda a vontade de ficar na fazenda. Nunca mais revisitara a propriedade. Nunca mais montara no corcel chocolate que lhe era dócil nas tardes de montaria. Nunca mais. Então, compreendeu que escrever poderia acompanhá-la novamente da terra distante no tempo e de todas as lembranças ainda vivas dentro de si.

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quinta-feira, 11 de abril de 2019

MEIO A MEIO (excerto) - ANA VALÉRIA FINK

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Não sei muito bem como contar. Porque não sei muito bem como começar. Porque não sei muito bem como devo referir-me a eles – penso que desconheço a moderna nomenclatura para os pares. Até onde estou inteirada, se isso ainda voga, se dois se relacionam sem nenhum tipo de compromisso, seriam ficantes; se admitirem uma constância, passariam a namorados; se cometerem a promessa de compromisso, mais adiante, mas ainda vivem cada qual no seu local, noivos; se oficializam a parceria, via lei dos homens ou divina, esposos, ou marido e mulher. Mas, e quando se envolvem, não oficialmente, e vivem sob o mesmo teto? Mais: sob o mesmo forro, que é o mesmo abrigo, mas visto de dentro, o que conota muito mais intimidade? Ou seja, partilham o mesmo dormitório, mas não se limitam a usá-lo somente para o que a denominação sugere? Decididamente, os termos pejorativos (concubinos, amásios) recuso-me a utilizar, e, amantes, até que soa bem, mas usualmente não se aplica a quem compartilhe morada.
Portanto, em meio a tantas opções, mas na falta de terminologia mais adequada, diria que ela era meio casada. Ou diria que tinha meio que um marido. Maria Aparecida, o nome dela – e fazia questão de que a chamassem assim. Na verdade, ela só atendia quando se dirigiam a ela com a pompa, pelo nome composto. O único que não o fazia, e não havia meio de convencê-lo, era ele, o tal meio que marido. Chamava-a por meio nome, melhor – ou pior –, por metade ainda do meio nome: Cida. Ela bem que às vezes esboçava uma revolta, e pensava em não responder. Mas como ele já quase não lhe dava atenção, não convinha perder a pouca que tinha, quando tinha. Não podia se dar ao luxo de correr o risco de embolar mais ainda o meio de campo. Difícil, uma relação pela metade, sempre aos entremeios. Sentia que ele só tinha para ela meia-escuta, pois às suas perguntas respondia com meias palavras... isso quando não acontecia dela fazer uma indagação, e ele deixar a resposta pelo meio.

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quarta-feira, 10 de abril de 2019

SÉTIMA DEMÊNCIA (excerto) - JOÃO DORDIO

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Em viagem comigo. Para me devolver.
Quando me devolvo à essência aparecem as perguntas...
Ontem perguntei-me como se colocariam as lágrimas de volta.
Será que existe alguma forma de as colocar para dentro? Por vezes
os poetas escrevem para colocar lágrimas em forma de letras, mas
ainda não conseguiram descrever como se colocam as lágrimas
para dentro.
Já não sairia poesia? Os abraços dados sem corpos passariam a
existir agora com corpos e sem letras inventadas?...
Perguntei aos deuses como é que se poderiam devolver as lágrimas.
- Não penses nisso e escreve! As lágrimas só têm um sentido!
Olhei para o bloco e acompanhei o caminho das letras seguintes.
As palavras e as frases realmente também só tinham um sentido.
Devolvi-me mais um pouco e continuei a viagem comigo.
Continuei à janela do “meu teu nosso” amor...
Estava à janela e tu também estavas no olhar que te lançava os
“meus teus nossos” olhos...
E estavas...
Estavas ao vento e tu vieste tocar-me na cara num “meu teu
nosso” toque disfarçado dessa brisa mais forte. Os cortinados abanaram
com o abraço invisível e eu saí...
Ao teu encontro!
Saí porque estavas no céu e esse céu é sempre o pensamento
de ti sobre ti em ti somente em ti. Pensamento “meu teu nosso”.
Num encontro das almas...

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terça-feira, 9 de abril de 2019

NANÁ - ANAMARIA ALVES

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Naqueles tempos, a Chacrinha era um gueto. Todos negros e descendentes de escravos. As casas pobres de adobe ou pau-a-pique misturadas aos belos paredões imponentes da antiga fazenda eram antíteses vivas, germes da desigualdade. Misturados à natureza exuberante do que era o pomar da fazenda e ao barulho gostoso do rio, tornavam-se um cenário não apenas belo de ver, mas de sentir. Paisagem de sentimento. História gostosa de tocar e cheirar, a Chacrinha dos Pretos.
Esse causo eu ouvi do rapaz que o viveu. Meu velho tio Ademar. Na Chacrinha todos tinham nomes santos ou portugueses. Mas ninguém ao menos sabia quem era quem, se dependesse desses nomes. Ademar era Naná, Geraldo era Ladinho, mas Ladinho podia ser também Ladislau, Maria era Cota e por aí se íam os apelidos, que eram mais nomes que os de batismo.
Tio Naná era um dos maiores “aprontadores” da Chacrinha. As artimanhas incluíam sobretudo pular janelas de donzelas e até comprar presente para a namorada e anotar na conta do pai da moça na vendinha em Belo Vale. Suas preferidas eram amedrontar o povo da Chacrinha na Quaresma, ora vestindo-se de lobisomen, ora subindo nos pés de fruta e balançando as folhas quando, no breu da noite, alguém passava.
Adoeceu de um dia para outro e passou a mancar. No Quilombo não havia recurso algum e tudo ficava a no mínimo oito quilômetros dali. Vó Lia tentou ajudar, Dona Tica também, mas nada dos chás surtirem efeito. Quando a virilha do rapaz inchou de verdade, a constatação:
- É mula.
E estava grande o caroço. De mancar, passou a não andar mais. A dor o estava ensinando a regredir. Moço bonito, o Naná. Era de dar pena vê-lo assim.

Um dia, um certo Dr. Barreiras foi visitar a Tia Beta. Ele era farmacêutico, branco, e Deus sabe o que ele viu na Chacrinha, pois não desgrudava de lá... Dizem que as bananeiras e o mato à beira do rio têm histórias quentes para contar do Dr. e as pretas da Chacrinha...
Uma tarde o Vô Torgamin foi à tia Beta pedir ajuda ao Dr. que logo foi à casa dele ver o doente.
-É uma íngua. É caso de cirurgia, seu Torga.
O Dr. falava do lado de fora do quarto onde o enfermo, febril, nada ouvia.
-Podemos operar ele aqui mesmo... Empreste-me o seu canivete bem amolado e mande buscar cinco homens fortes!
O Vô obedeceu prontamente. Lá vieram os rapazes mais fortes do Quilombo.
-Agora pegue um limão que esteja não muito maduro nem verde.
Vó Lia foi pegar.
-Um pano para o rapaz morder.
-Sim, senhor Doutor!
Esse foi o material cirúrgico. Os cinco homens seguraram o rapaz, o Dr. deu o pano para ele morder. Ele suava. Tinha medo. Mas homem não chora. Lá vai...
O farmacêutico abriu com o canivete a virilha do Naná, enfiou os dedos e retirou a íngua. Não foi rápido o processo. Parecia mesmo tortura a dor indescritível. No buraco, limão bem espremido! O rapaz não chorou. Tremeu, suou e desmaiou de dor. Voltou tonto, como que embriagado de sofrimento, e não costurado. O máximo que o Dr. pôde fazer foi recomendar repouso até que o buraco se fechasse sozinho.
Assim terminou a primeira cirurgia no Quilombo Chacrinha dos Pretos. E se inflamasse? E se perdesse a perna? E se morresse? Aqueles escravos tinham sido alforriados havia mais de 100 anos, muito antes da abolição. Mas ainda eram carne barata. Mão de obra remunerada desde a alforria, sim. Mas com miséria e falta de assistência desde sempre. Desprezo e miséria no Quilombo.

Mas sabem? Naná sobreviveu. E tão logo ficou forte outra vez, resolveu ser diferente, mas sem abandonar os seus. Foi estudar e trabalhar em Belo Horizonte. Passou dificuldades sim. Racismos mil. Mas sobreviver é possível. Sobreviver é preciso.
Existe hoje um posto de saúde no Quilombo Chacrinha dos Pretos. Obrigada, tio Naná, o Senhor faz parte dessa história.
Sobreviver. Resistir. Existir.
Desde sempre.

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segunda-feira, 8 de abril de 2019

O TOM DE MARÇO - ANA CAVA

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Quem já não ouviu falar das águas de março?
Quem nunca ouviu ?
Quem nunca ouviu falar das Águas do Tom, da canção, da Elis, das rodas de canto, ou simplesmente do nosso verão?
As águas que transbordam de um verão bem brasileiro, fechando um ciclo inteiro que não fecha.
Essas tais águas de Março...
Essas que já sentimos na pele, que já apressaram nosso passo ou nos fizeram pausar na prosa do café da esquina. Essas são as nossas Águas de muitas décadas, de muitos sóis e muitas luas.
Águas que desabam sob qualquer classe, qualquer etnia, sob qualquer crença, debaixo dos nossos pés, sob nosso solo inundando a noite ou o dia.
Águas do nosso verão tão brasileiro...
Águas encharcadas de ventos, trovões, relâmpagos, perfeitos complementos das Águas de Março, que encerram verões e que são de Março, de Dezembro, do Tempo.

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domingo, 7 de abril de 2019

E SE EU FOSSE EU... - AGNETE SOMBRA

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“Eu não me levaria tão a sério, liberaria as gargalhadas, como quando empinamos pipa, e deixamos o ceról fugir do carretel. Se eu fosse eu, diria mais sim, quando não preciso dizer não. Ou não diria mais não, quando o sim satisfaz a mim. Se eu fosse eu, aprenderia a desmarcar tudo com todos, para não desmarcar nada comigo. Se eu fosse eu, assistiria mais filmes românticos, só para me envolver nos encantos dos sonhos, que a realidade busca acordar. Se eu fosse eu, leria mais livros de contos, decifrando o mistério das letras, vivendo cada frase, como em poesia, mesmo que não fossem os indicados na sala de aula, para receber o 10. Se eu fosse eu, alegraria mais com os que estão alegres, até me engasgar em alegria, me contorcendo como quem dança dentro do bambolê. Se eu fosse eu, choraria mais com os que choram, até sentir dó de mim, até misturar as fontes úmidas em únicas, diluindo as lágrimas em corizas e essas em salivas. Se eu fosse eu, dormiria mais o sono da preguiça, que me envolve entre a maciez dos fios, me retardando da pressa, que pode esperar. Se eu fosse eu, daria mais tempo as águas do chuveiro, para em ribeiros me banhar, e descendo em queda livre, nas aberturas dos esgotos, as tensões levar. Se eu fosse eu, fecharia os meus olhos em concentração, deixando as pálpebras bailar, dando mais tempo as papilas gustativas, para com sabor, saborear, colocando porções gentis e vagarosas, dos morangos suculentos e carnudos, só para atiçar a inocência do paladar. Se eu fosse eu, aprenderia a ouvir mais o silêncio da minha voz, para entender melhor as batidas do meu coração. Se eu fosse eu, prestaria mais atenção aos rumores dos meus pensamentos, sem me limitar aos rumos que eles pensam, na lucidez do pensar. Se eu fosse eu, pararia o tempo que me pára, só para tomar mais cafezinho amanteigado comigo, quando me tomo sem tomá-los. Se eu fosse eu.... E se você fosse você....”

Texto extraído do livro nas entrelinhas dos nós, páginas 43 e 44.

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - ANTOLOGIA - IN-FINITA

sábado, 6 de abril de 2019

DEZ PERGUNTAS MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL... ÉRICA AZEVEDO


Agradecemos à autora ÉRICA AZEVEDO a disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 – Como você vê o papel da mulher na literatura atual?

Embora a literatura ainda seja um espaço predominantemente masculino, as mulheres vêm alcançado considerável espaço.

2 – Em que medida o universo feminino influencia na hora de escrever?

Não tenho como sair do universo feminino em nenhum aspecto da vida, muito menos no que diz respeito à escrita. E nem desejo sair. A minha escrita tem muito do meu olhar para o mundo. E esse olhar é feminino.

3 – Em que corrente literária acha que a sua escrita se enquadra?

Não me prendo a correntes literárias. Apenas escrevo.

4 - Que importância dá aos movimentos de integração da mulher?

Os movimentos de integração da mulher são fundamentais para que possamos conquistar novos espaços. Além do Mulherio das Letras, sou integrante dos grupos Confraria Poética Feminina e Escritoras Negras da Bahia e fazer parte destes grupos foi muito importante para a minha consolidação enquanto autora. As mulheres juntas têm mais força para quebrar as barreiras que o mundo machista nos impõe.

5 – O que acredita ser essencial para divulgar a literatura?

Os eventos, os encontros (também pela rede), as publicações de coletâneas e as redes sociais.

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita?

Vivo mergulhada no universo da escrita e, talvez, por isso meus olhos estão mais fixados nos aspectos positivos. A escrita é algo que me move, completa. E isso é maravilhoso. Acredito que os aspectos negativos estão, em sua maioria, relacionados à falta de incentivo à leitura, à desvalorização do universo literário.

7 – O que pretende alcançar enquanto autora?

Pretendo que meus textos inquietem e emocionem os leitores.

8 – Cite um projeto a curto prazo e um a longo prazo.

Meu novo livro de poesia, Cata-vento de sonhos, que fica pronto nos próximos meses. A longo prazo, pretendo escrever um livro de prosa.

9 - Sugira uma autora e um livro (contemporâneos).

Tenho lido muitas mulheres ultimamente, por isso não consigo dizer apenas um nome. Vou sugerir dois livros: Água Negra e Outras Águas, da Lívia Natália e O Canto da Borboleta de Rita Queiroz. 

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

Não tenho uma pergunta específica. Eu responderia qualquer pergunta.

Sobre a autora:
Érica Azevedo
nasceu em Santo Estevão, Bahia, é graduada em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), mesma instituição em que se especializou em Estudos Literários e defendeu o mestrado em Literatura e Diversidade Cultural. É professora de Língua portuguesa, Redação e Literatura em Santo Estevão. Participou da coletânea Sangue Novo: 21 poetas baianos do século XXI (Escrituras, 2011), Confraria Poética Feminina (Penalux, 2016), Confraria Poética Feminina volumo II (Penalux, 2018) e O Sarau: doze poetas viscerais recitando na boca da noite, Mondrongo, 2017). Publicou Vida em poesias (Edições MAC/ Feira de Santana, 2002), Outros eus (Kalango, 2013), A chuva e o labirinto (Mondrongo, 2017). Integrante da plataforma Escritoras Negras da Bahia       (http://escritorasnegras.com.br/escritora/erica-azevedo/
Edita o blog Outros Diálogos: ericazevedo.blogspot.com

sexta-feira, 5 de abril de 2019

SÉTIMO ESCRITO (excerto) - JOÃO DORDIO



A maior parte das vezes estás à janela de todas as janelas. Mesmo
naquelas com varandas e varandins! Mesmo naquelas com quintais
e terraços!
A maior parte das vezes estás em todos os locais por onde passo
de carro e te observo na paisagem, aquela paisagem de mente e de
recordação e de saudade... nesta cidade que me vê nascer todos os
dias sem me conhecer. Nesta cidade de janelas para um mundo que
nunca foi o meu... e que também nunca poderá ser o teu porque...
tu também não és dele!
- Sabes onde deixei tudo isto escrito? Num pedaço de papel que
era a conta do supermercado e que tinha dentro do saco das compras.
E escrevi enquanto conduzia...
- Mas isso é perigoso! Porque não gravas no telemóvel?
- Só sei gravar no meu gravador de mente...
Vejo-te e sinto-te em tanta coisa. Depois consegues ficar em tão
poucas, disfarçada de letras pequeninas e tortas. Consegues... tanto!
Como é que consegues caber lá dentro? Como é que o lá dentro é
tudo contigo e connosco? Como é que pode passar o vazio sem nós?

EM - A PAIXÃO - ESCRITOS E DEMÊNCIAS - JOÃO DORDIO - IN-FINITA

quinta-feira, 4 de abril de 2019

DEZ PERGUNTAS MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL... ANIETE GÓES

Agradecemos à autora ANIETE GÓES a disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Como você vê o papel da mulher na literatura atual?


Com otimismo, estamos vivendo momentos especiais no que se refere à escrita feminina, acredito que em função do despertar da mulher para empoderamento de sua existência na expressão de suas lutas, dores, direitos e liberdade de ser o feminino saber. Temos muito que conquistar no universo literário, o mercado editorial ainda é estreito e funciona através das pequenas editoras e da coragem e condições financeiras da autora produzir a própria obra. 

2 - Em que medida o universo feminino influencia na hora de escrever?

O meu olhar é afetivo, escrevo o que percebo, sinto, mergulho e transbordo na minha essência feminina, as faces das mulheres que se eternizam em mim. As palavras me libertam e me ajudam a traduzir sentimentos, emoções, aprendizados que emergem da minha alma literária.
A princípio utilizei a escrita como prática terapêutica de autoconhecimento que foi se transformando em textos, mensagens, poemas e pensamentos filosóficos.
Como facilitadora do desenvolvimento humano sempre utilizo meus escritos para enriquecer aulas, treinamentos e incentivar não só a criatividade das pessoas como também o exercício da leitura. 

3 - Em que corrente literária acha que a sua escrita se enquadra?

Não consigo me conceituar em termos literários sei que amo construir poemas, textos com fundamentos filosóficos, psicológicos, influência da minha formação como profissional de comportamento humano, educadora, e espiritualista existencial.

4 – Que importância dá aos movimentos de integração da mulher?

Criando uma cultura de sororidade, estamos neste processo, ainda a passos lentos, mas, já com boas iniciativas de engajamento. Na atualidade os chamados coletivos femininos têm apelos cada vez mais fortes, a mulher busca se ancorar no poder da união, na prática mais efetiva do comportamento empático. Estamos quebrando o velho paradigma de que “mulher não é solidária com outra mulher”. Há duras penas vencendo os preconceitos, a nossa voz já se faz ouvir embora com um tom ainda baixo, fizemos leis, não podemos negar os avanços, no entanto, ainda temos muito que lutar e evoluir para ocupar integralmente nosso espaço no mundo.

5 – O que acredita ser essencial para divulgar a literatura?

As pesquisas apontam que as pessoas leem pouco no Brasil, é preciso muito incentivo, inclusive que já se faz, como as feiras internacionais e eventos literários diversos, luaus de poesia, compartilhamento de livros em condomínios, nas redes sociais. Em sala de aula, treinamento, workshop, palestras, procuro induzir meus alunos a lerem e discutirem alguma obra literária ancorada na temática do curso. Sou uma divulgadora de leituras e contadora de histórias, fico encantada como adoram ouvir poesia, e muitas vezes descobrem a veia literária. Vendo meus livros nestes encontros.

6 – Quais os pontos negativos e positivos do universo da escrita?

A escrita é intensamente positiva em inúmeros aspectos, prazerosa a depender do foco interno da autora de se entregar ao fluxo criativo, relaxante e companheira, escrever é um exercício de paciência, uma atitude de existir, de se expor a vida. Negativa ao criar expectativas ilusórias de ter muitos leitores de imediato, criar ansiedades de perfeição literária, fazer comparações com as autoras consagradas.    

7 – O que pretende alcançar enquanto autora?

Necessariamente ter leitores, e que a minha escrita proporcione reflexões, sensibilize e provoque aprendizados importantes para a vida das pessoas.

8 – Cite um projeto em curto prazo e um em longo prazo.

Em curto prazo, publicar a segunda edição do livro “A Sabedoria de Ser Gente”, um olhar sobre o universo do ser humano, e a publicação de ASA “Amor Somente Amar”, ainda sem editora, com reflexões sobre as diversas formas de amar, o amor como fonte de inspiração para composição do poema da existência, longo prazo produzir um canal no Youtube onde pretendo fazer a leitura dos meus livros.

9 – Sugira uma autora e um livro contemporâneo.

Lia Lufty - “Múltipla Escolha” Editora Record, Clarisse Lispector “A Hora da Estrela”, Editora Rocco. As duas autoras me instigam a mergulhar na complexidade da existência, do comportamento e sentimentos humanos.

10 – Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

Acredito que perguntas devem ser bem acolhidas e sinceramente respondidas. Dialogar contextos, inspirações, conhecimentos sempre enriquece e amplia percepções.


Sobre a autora:
Aniete Goes de Salvador/Bahia escritora do livro “A Sabedoria de Ser Gente”, publicado pela Editora, Caminhos - 2016.
Participação na Antologia Poética Senhoras Obscenas, Editora Benfazeja – 2016
Participação Antologia Poética “Damas Entre Verdes”, Editora Senhoras Obscenas – 2018

quarta-feira, 3 de abril de 2019

DEZ PERGUNTAS MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL... CONCEIÇÃO COTRIM


Agradecemos à autora CONCEIÇÃO COTRIM a disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Como você vê o papel da mulher na literatura atual?

Vejo com agrado que a mulher atualmente está muito mais presente no mundo literário não só como escritoras ou poetisas etc mas também ligadas a vários organismos como câmaras municipais na área da cultura, editoras, ou órgãos de comunicação social

2 - Em que medida o universo feminino influencia na hora de escrever?

Não posso dizer que me influenciam muito, já que fatores vários me inspiram, apenas em que por ser mulher estarei mais desperta  para os acontecimentos em que nos envolvem como a violência doméstica ou as desigualdades laborais

3 - Em que corrente literária acha que a sua escrita se enquadra?

Penso que talvez mais na poesia

4 - Que importância dá aos movimentos de integração da mulher?

Aquela que deve ter algo dessa natureza, ou seja defender os direitos da mulher sempre que necessário

5 - O que acredita ser essencial para divulgar a literatura?

Ser dada a oportunidade a tantos e bons autores de publicar as suas obras, de forma mais acessível (em edição de autor) da que geralmente acontece, com preços e condições gerais incomportáveis . Afinal há lugar para todos

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita?

Positivos, os vários eventos fomentados na área, como tertúlias encontros poéticos programas de rádio publicação até das coletâneas ou antologias que divulgam os autores

7 - O que pretende alcançar enquanto autora?

Continuar a fazer poesia porque me dá prazer e ter a oportunidade de a partilhar com quem gosta de me ler

8 - Cite um projeto a curto prazo e um a longo prazo.

A curto prazo a publicação do meu primeiro livro de poesia, a longo prazo talvez a minha biografia

9 - Sugira uma autora e um livro (contemporâneos).

Sofia de Mello Breyner Andresen - O Cavaleiro da Dinamarca

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

O que é para si a poesia? Responderia: a poesia é o meu alimento


Sobre a autora:
Maria Conceição Silva Cotrim, residente em Vila Franca de Xira, nenhum livro editado, nenhuma participação em coletânea ou antologia, Faz poesia desde os 14 anos, convida da radio marinhais no programa noites de poesia em 3-9-2018 é membro de vários grupos literárias, onde publica, tendo por um deles sido várias vezes premiada. Entre outros os seguintes: AMIGOS DE MARIA DE LA GANDARA-GRUPO DE AMIGOS DE JOSÉ AFONSO AMANTES DA POESIA-PALAVRA CANTADA -LIVRO ABERTO