quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

DO RIO À CANCELA (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Miguel levantou-se cedo para continuar a tarefa. Resolveu seguir o caminho de Estivada, onde só não ficou extasiado com a beleza dos campos porque já tinha visto igual na Veiga da Lousa e Veiga do Sobreiro. Aqui a diferença, nesta Veiga de Estivada, é a proximidade do início da montanha, o que torna o quadro mais diverso, corre o dito rio de norte para sul da ponte para baixo, corta uma grande planície de que é agricultada de lavradores, que aprimora uma das margens do Rio Lima, a que frei Bernardo de Brito chama os Campos Elísio (in descrições paroquiais de 1758).
Em Estivada mora um herói: Chamam-lhe “Cavalaria” dado ter sido um valente soldado dessa arma, onde passou a sua mocidade.
Regressado à aldeia o seu comportamento nem sempre tem sido pacífico e daí a tornar-se um “varredor de feira” foi um instante.
E ele nada fazia para que não o considerassem assim, antes pelo contrário. Mas como diz o provérbio, “cântara tantas vezes vai à fonte que um dia quebra a asa”.
Pois um dia em que uma das querelas azedava lá estava o Cavalaria, mas desta vez também, e do outro lado, um jovem chamado Manuel Sousa, jovem de boa apresentação, educado, generoso, galã, bem ginasticado e senhor da força que a natureza lhe deu e a profissão ampliou.
Ora bem, o Sousa vai-se ao Cavalaria, muito rapidamente o derruba e, sem humilhação, o aconselha a mudar de atitude.
E aconteceu o inevitável. Daí em diante, quando Cavalaria fanfarrona da sua valentia, sempre alguém o questiona: e o Manuel Sousa? E a resposta seca e envergonhada é: a esse homem, eu respeito!

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

DESCALÇA... (excerto) - SÓNIA CORREIA

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Descalça subiu no vento. Procurava um propósito que não fosse o de ver os ponteiros do relógio correrem pelos números, a esgotar o tempo, tinha perdido a bagagem, ao seu redor deixou de sentir o calor dos tantos que a decepção sangrou em sulcos, passaram anos desde então.

Entre a morte do desespero e os escombros da vida partida de lágrimas, ácidas sem rumo, aceitou arrumar os despojos e guardou todos os sapatos de princesa. Ficou sem chão, viu o castelo ruir, não foi feliz, ou foi, tantas vezes quantas acreditou nesse reinado que ainda hoje lhe lembra o lado dócil, o mesmo que detonou dentro dela a explosão e deixou vazios os baús.

Hoje anda descalça. Faz anos que congemina o plano da ascensão, enquanto serve outros castelos no lugar de Gata Borralheira que aceitou temporariamente resignada. Barafusta sozinha, mas aceitou que não há justiça em todas as coisas.

Não morreu, pelo contrário. Os olhos dela vêem beleza onde nunca antes a encontrará. A simplicidade humilde educou-a no caminho mais íngreme e em segredo tem traçado um lugar no mundo que esboça nas nuvens e cumpre em segredo.

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domingo, 12 de janeiro de 2020

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XXI) - MARIA MAGUEIJO

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Isabellla por sua vez adormeceu quase repentinamente, todavia, ter sabido que Duarte a procurara de novo foi desconcertante e teve um dormir muito atribulado. Entrou num sonho no meio de uma gruta aquecida com tochas. Um caminho estreito com o chão em areia branca como no mais belo deserto e no fim uma porta de dimensões gigantes e imaculadamente branca. Abriu a porta e a respiração ficou presa, o olhar incrédulo e a sensação foi uma explosão de cor. Perecia que estava nos jardins de Monet em Giverny na Normandia. O mar ainda ficava longe, mas existiam rios e todos com jardins como os de Monet. Tantos aromas, tantas cores maravilhosas, verdadeiras odes à beleza mais rara. Sentiu que conhecia tudo ao detalhe, que também a conheciam e tudo era alegria, até o seu caderno e a esferográfica estavam numa mesa pequenina e ao lado uma cadeira de cor lilás pintada.
O seu vestido era branco com bordados vermelhos, a acentuar a sua cintura fina, a fita do cabelo era do mesmo tom e pairava felicidade no ar.

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sábado, 11 de janeiro de 2020

DA LOUSA AO RIO (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Era meio da tarde e não havia nuvens no céu. Apenas uma ligeira brisa vinda do norte fazia tremer as folhas das árvores. O que Miguel via era tão profundo e tão belo que nem se apercebeu da presença da Poesia, que aliás não estava prevista. Miguel já não sabia se a beleza era a Poesia ou se a Poesia era a beleza. Fosse ou não qualquer delas, o certo é que sempre aparecia quando a paisagem ou o ambiente se aproximavam da perfeição. O que se avistava era uma sucessão de campos de forma rectangular, sendo as estremas bem definidas. Alguns dos campos já estavam com milho a crescer numa tonalidade verde que nenhuma tinta consegue sequer imitar. Outros campos estavam cobertos de ervas conhecidas, tais como malmequer, scilla, tremocilha, travisco, etc, de todas as cores, mas onde predominava amarelo, roxo, branco e púrpura. Miguel estava encantado e só a custo próprio desviou o pensamento para a tarefa que tinha de realizar. Então reparou que entre duas das leiras a estrema era mais elevada em direcção a sul e depois vira a ponte até ao rio. Miguel não hesitou em validar esta estrema como linha divisória.
Poesia pareceu muito alegre, não sabendo Miguel se assim estava por ver que ele já ganhara o espírito Asturiano, ou por compartilharem o mesmo quadro florido que dava pelo nome de Veiga da Lousa.
Miguel deu por acabada a tarefa do dia e aproveitou para tentar ouvir mais uma peripécia do Ti Reinaldo. Quando chegou ao Moinho estava o Tio Joaquim Landim, a contar heroicidades da sua existência. E sendo um exímio lutador do Jogo do Pau, também conhecido quanto a ser imaginativo ou mesmo deformador da verdade, contava uma das suas lutas “de varrer a feira” e terminava a descrição da luta dizendo: Oh meu amigo, isto tem que ser “pancada dada, pé mudado”. E fazia aí mesmo uma demonstração da técnica do Jogo do Pau.

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quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

ESCRITOS EM PAPEL... (excerto) - SÓNIA CORREIA

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Todos os dias na distância esperavam o carteiro. O coração batia esbaforido na expectativa semeada, uma distância entre as duas caixas de correio impossível de alcançar. Tempos gloriosos esses quando o amor passava através do mundo para chegar ao templo do destinatário.

Pedaços, folhas de papel, testemunhos de muitos sentires com borrões de tinta por entre as letras, as mãos trémulas e atrasadas quando o sentimento empurrava para o cérebro o tanto que queriam fazer saber um ao outro, mas a emoção explodia tão mais depressa dentro da alma, tsunâmica até.

Ela perfumava os manuscritos com o cheiro que ele já compreendia reconhecer. Sabia que ao abrir os envelopes que transportavam o amor lhe provocava o cerrar dos olhos num beijo de suspiros e quase que lhe tocava a pele com o aroma dela numa realidade transcendente.

Promessas gravadas em frases que desenhavam futuro, desejos escondidos num véu de confissões. Eram as cartas que tanto ansiavam que lhes dava vida, tesouros guardados em caixas de lata e embrulhadas em laços de cetim, o amor eternizado dentro de envelopes.

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terça-feira, 7 de janeiro de 2020

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XX) - MARIA MAGUEIJO

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Já era noite avançada e aquelas duas tagarelas continuavam no atelier.
Maria com o entusiasmo de quem ama a Arte que assumiu como profissão, tudo devido a, teimosamente, querer modificar uma escultura que lhe tinham oferecido e que já estava com traços de uso, até se transformar num hábito diário e apaixonante. Acabou o trabalho que devia e começou a colocar em cima da bancada tudo o que necessitava para restauro de uma imagem, do sec. XVIII, de uma Cruz de Cristo, toda em pau santo e que estava em muito mau estado de conservação.
– Esta vai dar-me muito trabalho. Não é enorme, mas precisa de um restauro de Amor. Trataram na com muito pouco cuidado.

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segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

DE BOUVIM A PORTELO DA LOUSA (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Uma vez encontrado o início dos limites, Miguel estava indeciso se deveria seguir para nascente, descendo o rio, ou para poente, seguindo a ribeira das Andorinheiras. Decidiu descer ao longo do rio, que resultou da junção das ribeiras, passando a ter o nome de Rio Ciadouro, mas mais nomeado de Rio Asturães. Olhando atentamente, para perceber onde estava, viu que a margem direita era morfologicamente diferente da esquerda, indicando imediatamente que seria o rio a linha divisória.
Mas de repente a situação inverteu-se: agora a margem direita era plana e verdejante e a esquerda tornou-se montanhosa. Facilmente se concluía que a linha divisória de aí em diante, não seria o rio. Se aí colocássemos um marco seria o marco de Bouvim.
Cansado da caminhada, Miguel subiu até um pequeno morro, onde uma formação rochosa parecia um Castelo. Aí se sentou, mas rápido se levantou quando, daquele ponto, avistou a beleza e diversidade de cores. Não teve dúvidas: podia colocar aí um marco divisório.
Miguel estava a estranhar a ausência da Poesia e nem de propósito ela aí estava. Perguntou ao Miguel se tudo estava conforme imaginou, e disse-lhe: Daqui até encontrares de novo o rio, possivelmente, não me verás. No entanto quero deixar-te uma indicação que podes ou não, utilizar:

Da amieira com paisagem
Até à fonte de frem
De cerquidelo passagem
E das lebres também

Na cabana a gente sente
A presença de casa nova
A eira de cima não mente
O marco de pedra é a prova

Destes campos de milho
Desprimorar ninguém ousa
Se seguires o trilho
Estás no Portelo da Lousa

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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

VOU SONHAR SEMPRE... (excerto) - SÓNIA CORREIA

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Ao redor dela apenas um vazio, talvez o mesmo com que vive há muito, nesse sofá, entre paredes nuas de som e gargalhadas ausentes de outra presença.

Os céus chovem e o aconchego é apenas a manta de retalhos que deseja tenha o cheiro dele. Esmoreceu no frio da distância que os separa, da janela apenas colhe pedaços de imaginação, querer e sonhos que lhe trespassam a mente e afagam a alma.

Deixa cair a cabeça nas mãos, respira a esperança no silêncio, nada lhe alivia a falta do colo e os dedos por entre os cabelos, anda em círculos sem se mover sequer, está em paz, mas não preenchida, calma, mas não sossegada.

Já é rotina ao domingo entregar-se por escolha, à inércia que até podia ser o tricotar de um novelo de lã macia, transformá-lo em chão de algodão, frente à lareira a arder, onde fariam amor, onde se uniam nos fios de lã para os gravar num manto de vida, sentida intensamente no prazer suado, dos corpos unidos no gemer.

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XIX) - MARIA MAGUEIJO

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Camila vivia com eles já há muitos anos e conhecia muito bem todos eles. Com Margarida tinha aprendido a gostar de boa leitura, escolhia os autores com cuidado e, a par com o jardim da menina Caetana, eram os seus melhores lazeres. Tinha o seu quarto perto do de Maria e, de vez em quando, ouvia-a chorar devagarinho.
Tinha saudades da filha que trocou Portugal pela Suécia, saudades de todos os que a tinham visto e ajudado a crescer e já faziam parte do reino dos mortos. Saudades das longas conversas que tinha com a sua mãe e que hoje já escasseavam devido à doença dela. Tinha saudades de quando brincava com Isabella no jardim, sujavam-se de pó até ao cabelo, e dos ralhetes da avó.

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quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

PONTE DO LOURINHAL (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Miguel acordou cedo, se é que se pode chamar sono a um descanso mental. Como disse, o tempo sobre o qual aqui tratamos não se mede em horas ou dias, mas sim em acontecimentos mais reais ou mais sentidos.
O dia estava primaveril e apetecia mesmo começar o trabalho de marcação. Por onde começar era o segundo problema, porque o primeiro era não ceder ao desejo de continuar a ouvir as estórias (peripécias) do Ti Reinaldo. Então Miguel tomou a decisão: vou mesmo iniciar o trabalho, disse para si mesmo.
Mas por onde começar? O melhor é perguntar à Poesia. Assim o fez, mas surgiu o primeiro obstáculo: Poesia estava super ocupada com as pessoas que, aproveitando o tempo magnífico, se resolveram a procurar a sua disponibilidade para melhor gravar os recantos de Asturães.
Miguel ficou um tanto desorientado, mas de repente lembrou-se: vou pedir ajuda ao Ti Reinaldo. Sabendo que dei a palavra a mim próprio que venceria o desejo de continuar a ouvir as estórias fantásticas.
“Palavra prometida, palavra cumprida”, pensou. E assim o fez.
Chegado ao moinho questionou o Ti Reinaldo, que lhe disse:
– Miguel, as tarefas devem começar pelo princípio e posso contar-lhe uma estória para o ajudar. Miguel ficou sem jeito, pois não podia ouvir a estória sem faltar à palavra que era honra, mas também não queria ser desagradável para o Ti Reinaldo. Surpreendentemente e na curva do caminho surge um pequeno grupo de pessoas, com a Poesia à frente, cada um trazendo um molho de linho que iam colocar no areal na extremidade da ilha, mergulhado na água para fazer parte do tratamento do linho. A Poesia percebendo a dificuldade do Miguel disse:

Esta ponte pede meça
À outra sua igual
Chamada do Lourinhal
Onde tudo acaba ou começa

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sábado, 28 de dezembro de 2019

BORBOLETAS (excerto) - SÓNIA CORREIA

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Sou ela, aquela a quem a vida deu asas, a que voa constante e livre, que vai e volta no tempo, que se divide entre dois pedaços de terra distantes... Aquela que se define pelo valor da alma, que sorri numa explosão de cores e também sente a chuva das lágrimas.

Sou aquela, ela que se ama desalmadamente, que encontra força todos os dias para seguir o seu destino, que se recusa a existir apenas, que é feita de sonhos, que cai e se levanta nos empurrões da vida.

Sou muitas, muitas mulheres numa só, um conjunto de formas com asas. A borboleta que veste de azul, o rasto que deixa nos caminhos dos dias e pendura nas estrelas os brilhos nos momentos da noite.

Sou uma, uma só viagem de sentimento, incondicional e sem medida por ele a quem dei vida, pelo ser que me percorre de orgulho a cada segundo que passa, unidos pelo sangue que nos faz parte da mesma parte.

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sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XVIII) - MARIA MAGUEIJO

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Adorava aquelas suas netas que tinham tantas parecenças com a sua querida Francisca e com as filhas. A mãe de Maria já tinha alguns sintomas da doença da Mãe e, apesar de viver com eles, vivia num mundo só seu, com momentos bem divertidos em que se lembrava de tudo e outros na apatia e apenas olhava o jardim, as maravilhas da natureza, Passeava por perto e voltava de novo para casa. Por vezes consciente de onde vivia e de quem eram todos, outras caída no mutismo de quem prefere não dizer coisas dispares. Mas é muito meiga a sua querida Caetana, cujo nome invulgar (ordens de sua sogra), provém do latim e significa “Mãe me quer”. Olhou a filha e pensou que lhe assentava bem. Todos gostavam dela e era recíproco.
A Mãe de Isabella falecera cedo. Assim como Francisca, perdera a batalha num dia em que o sol abriu um raio por entre a chuva que caía forte. Foi para lhe levar a sua querida Margarida! A sua flor tão bela, tão cheia de alegria. Cantava com os pássaros no jardim, encantava a todos pelo seu saber, pelos cabelos dourados como o trigo. Sempre fora um enorme pilar para toda a família e queria mudar o mundo com as suas ideias romanescas de que só o bem existe. Isabella e Maria têm muito de Margarida. Ambas sábias e sonhadoras.
Enquanto o avô estava envolvido com os seus pensamentos, serviram o que faltava do jantar e as primas, claro, sempre na tagarelice. Acabaram o jantar e faltava o café de Camila.

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quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

BOTA ABAIXO REINALDO (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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A história que vou narrar, meu caro Miguel, foi protagonizada pelo Ti Reinaldo e tão próxima de mim que não resisto a pedir-lhe que me deixe descrever a situação, e locais em que tudo se passou.
Nela, é forte participante a GNR.
Na aldeia há uma capela de que já te dei notícia, dedicada a Santo Amaro, santo protector das fracturas ósseas, onde acorrem durante o ano muitos devotos em acção de graças por intervenção milagrosa havida.
À volta da capela há um adro, espaço que se avaliava baldio, com uma área de cerca de 1000 metros quadrados. Esse espaço era muito utilizado pelas mulheres vizinhas, para conversar, mas sobretudo para entoarem muitas canções populares. Este local também era preferido para os namorados e para fazer bailes ao ar livre.
Segundo anciãos que conheci, postulavam que o espaço baldio era maior que o existente. O que é facto é que um dia o putativo proprietário colocou marcos distantes, cerca de dois metros, das paredes da capela, reduzindo o baldio, para uma centena de metros quadrados. Não afirmo que a pessoa em causa não fosse de facto dono do terreno. Nessa data as propriedades não eram registadas, pois nem havia Conservatória Predial.
O caso não foi do agrado de Povo, especialmente dos moradores mais próximos, como era o caso do Ti Reinaldo.
Cabe aqui dizer que o Ti Reinaldo tinha vasto apetite por uns “verdinhos” e nunca rejeitava um “calinhos” (cálice pequeno) de bagaço. Em alguns dias repetia a dose vezes de mais, o que o tornava mais efusivo.

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segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

A CANDEIA... (excerto) - SÓNIA CORREIA

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Sentada a segurar a candeia, no meio do nada dentro do tudo, em campos, mares ou montanhas, na cidade à pinha de corpos mecânicos desorientados, ninguém lhe tira a luz, nada lhe rouba o horizonte. É crente, escolheu ser quem é na noção de que seria abandonada pelas gentes que jamais a conseguiriam decifrar.

Esse brilho incandescente que segura e emana das entranhas, dispara como foguetes pelas janelas da alma, enquanto lhe guarda intocável a fé, a esperança, a gratidão por todo e cada um dos seus suspiros.

Cabem-lhe na estrada dos anos fogos de artifício deslumbrantes, trovoadas devoradas pelos raios temerosos. Saboreia a luz em todas essas fatias do tempo. O brilho disparado da terra para o céu, do universo para a terra, chova ou faça sol não restam questões sem resposta, toda ela é um clarão que prevalece qualquer intempérie.

Foi para longe, sozinha. Precisa dessas horas onde nada vê senão a beleza natural das aguarelas da paisagem. Levou na candeia a luz da paz, estado que sobrepõe a qualquer promessa de amor. Afinal, separar o trigo do joio não é apenas obra de mãos calejadas da terra, mas também de mentes maduras, corações suturados, almas sem espaço a ceder.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

domingo, 22 de dezembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XVII) - MARIA MAGUEIJO

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Anabela agarrou-lhe nas mãos geladas, colocou-lhe os pés descalços em cima da cadeira e afagou lhe o longo cabelo, numa tentativa de acalmá-la.
– Isabella, que posso fazer, mulher de Deus? Essa voz é apenas o reflexo de ti mesma que te chama. O teu silêncio fora do trabalho não ajuda. Já reparaste que bonita está a noite? Reparas nas flores que crescem e no seu aroma? Nas árvores que dançam ao som do vento? Não! Só vês trabalho, imaculada sem uma hipótese de crítica, livros, o teu olhar triste e longínquo e por mais que sorrias é com tristeza. Pensavas que não observo? Sei que tens uma missão que não é fácil, que estás sempre pronta para ajudar os outros. No dia do incêndio quase te perdíamos por teres ido como louca ajudar a salvar a Rita. Se não te agarrassem pela cintura e tirado dali, tinhas voado com os estilhaços dos vidros. Isabella, estás a ouvir o que te digo? Olha para mim.

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sábado, 21 de dezembro de 2019

BOTAR O BINÓCULO - ERNESTO FERREIRA

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Miguel estava encantado com as estórias que ouvia e perguntava a ele mesmo como é que o Ti Reinaldo conseguia que as crianças fossem para casa. Sempre queriam ouvir mais um conto e o Ti Reinaldo explicou ao Miguel como fazia com que as crianças sentissem vontade de ir para casa. Bastava contar-lhes a “ladainha” que se segue:
Era uma vez um senhor já muito velho que sabia como adivinhar o tempo. Eu aprendi com ele e vou ver, meus meninos, como vai ser o tempo. Coloco o binóculo que tenho, viro-o para nascente e vejo o tempo que vai fazer. Chama-se a isto “botar o binóculo”:
Colocadas as mãos, uma aposta à outra, fazendo uma espécie de monóculo, começava a recitar, com voz forte e altiva:
– Aí vem nube (nuvem) negra
Não sei se é vento ou trovão
Se são raios ou coriscos
Se são do demo o inferno
Livrai-nos Senhor dos riscos
Das pedras do trovão
–“Fuginde” meninos, que vem aí uma “desgracia”!
Eh crianças que nenhuma ficava para ouvir o resto da ladainha.
E assim as enviava para casa.

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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

MADRUGADAS... (excerto) - SÓNIA CORREIA

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E se dela não nascessem madrugadas não viveria todo o resto que lhe cabe. Se nela não se lhe enrolassem todos os tules transparentes no seu escuro, de janelas edificadas nos olhos, não tinha sequer aprendido a viver, tão pouco a sua chama seria fogueira por entre o gelo deste século sem graça ou essência.

Abraça-se nas horas mais quietas da noite com suspiros de calma. Nesses momentos madruga os sonhos que se movem pela mente como a destreza do falcão que sobrevoa o inconcebível, quieta nessa cama de sempre e aconchego, ainda que só os seus braços a apertem, congemina com o universo o silêncio que ecoa no grito da fé e gratidão.

São tantas as vozes que carregam promessas, na claridade do sol dos dias que a deambulam, banal quotidiano de passos apressados à sua volta, corpos que se movem na obrigação, expressões de tristeza, rostos vazios, segredos fechados nas grades dos vultos que gritam sem som pedidos de liberdade, e nela mora a certeza que tem sempre as madrugadas.

EM - ALMA-TE - SÓNIA CORREIA - IN-FINITA

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto XVI) - MARIA MAGUEIJO

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Certo dia estava deitada, a ler um livro, e ouviu gritarem pelo seu nome. O mais rápido que conseguiu despiu o pijama, vestiu um calção, uma blusa e descalça saiu a correr para acudir à voz que não parava de gritar. No corredor não viu ninguém, procurou seguir o som daquela voz aguda que tão aflita estava. Continuou a não ver absolutamente ninguém. Desceu as escadas até ao átrio, vazio... Entrou no escritório de rompante...
– Que andas a fazer aqui descalça Isabella? Vais-te constipar. E quase sem roupa com este frio... já é tarde mulher. Que se passa?
– Chamaram por mim?
– Não. Já está quase toda a gente a descansar. Que se passou? Outra vez a voz?
– Sim. Alguém chamou por mim, Eu ouvi nitidamente o nome Isabella e, que eu saiba, só existo eu aqui com esse nome... Vou ver se alguém ficou na Biblioteca...
– Isabella! Chega! Senta-te aqui! Não está lá ninguém!
– Então terá sido da rua?
– Carla, traz-me um chá de camomila para Isabella, se fazes favor.

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segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

O BANGALA DE FERRO (excerto) - ERNESTO FERREIRA

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Aceite-se aqui que “Bangala” é o mesmo que Bengala.
Era uma vez um homem que vivia na aldeia e tinha uma força colossal, nunca vista. Chamavam-lhe o Bangala de Ferro porque ele andava sempre com uma bengala toda feita em ferro. Era tão pesada que dois homens viam-se aflitos para a levantar do chão, enquanto ele sozinho, a manobrava como se fosse uma pena de ave. Naquele tempo todos os homens gostavam de ter lutas para ver quem era o melhor, fosse a cantar, fosse a dançar, fosse a cortar árvores, fosse em lutas de força ou a jogar o pau, jogo predilecto dos lavradores, etc. Ora bem, o nosso Bangala de Ferro era tão forte que nem valia a pena jogar contra ele. Isso desgostava-o e um dia resolveu ir correr mundo na cata de encontrar quem pudesse medir forças com ele.
Correr mundo nessa época era como tentar hoje visitar a Lua ou Marte ou entrar no negro desconhecido, tal como os marinheiros portugueses o fizeram.
E aí vai ele, mundo fora. Tinha andado aí umas três léguas quando encontrou um homem muito alto e forte que, percebeu logo, teria tanta força quanto ele. E disse-lhe: Eu sou o homem mais forte da minha aldeia e procuro quem possa medir forças comigo. Serás tu, esse homem? O homem respondeu não com palavras, mas com actos. Agarrou o tronco de um pinheiro, com mais de uma braça de perímetro, e num só puxão arrancou o pinheiro pela raiz. E disse: Eu também sou o homem mais forte da minha aldeia e chamam-me o “Arrinca Pinheiros”, mas não vamos medir forças porque sei que há um homem tão forte como nós ou ainda mais e gostaria de o conhecer. Vamos os dois procurá-lo. E continuaram o caminho na sua busca. Até que, uma dezena de léguas adiante, vêem um monte de pedras enormes e um homem, que parecia de pedra, sentado no cume. Ao vê-lo logo pensaram que deveria ser o tal homem superforte que se constava existir. E disseram: Nós somos os homens mais fortes das nossas terras e procuramos um companheiro forte como nós que queira fazer grupo connosco. Quem és tu? Ao que o homem respondeu: Não conheço homem mais forte que eu. Vede, eu arrasei um morro que existia aqui e coloquei as pedras onde me sento. Todos me conhecem como o “Arrasa Montanhas”.

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sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

ESTRADA... (excerto) - SÓNIA CORREIA

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Fez-se à estrada quase desde que nasceu. O veículo é ela. Nunca baixou os braços ou desligou o motor que traz na cabeça. O GPS é daquelas coisas que, por vezes, a guia para o lado contrário. Encontra o caminho tantas vezes quantas as que se perde nele.

Cabe-lhe a vontade de vencer ao chegar a todos os destinos que congemina com a fé e o universo, arregaça as mangas para mudar o óleo e deita fora as impurezas acumuladas que atrasam a viagem, o tempo já não tem tempo para paragens inócuas nem as vozes a encantam como antes.

Traz na bagagem anos de ouro e memórias áureas do que valeu a pena escrever na pele. Foi abrindo a janela da carcaça que cuida com primor e simplesmente deitou ao vento os rancores, as mágoas, as decepções e as tristezas fora de prazo.

O caminho é em frente sem curvas de arrependimento. Já bastam as cicatrizes das derrapagens e os pneus carecas dos amores perdidos nas descidas vertiginosas do sentir, tudo deixado por aí no passado das paisagens que já lá vão.

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