terça-feira, 10 de janeiro de 2023

A cruz haitiana (excerto 8) - IARA LEMOS

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Era em Kreyol que Lorena e as demais religiosas brasileiras comunicavam. O português tornou-se uma língua secundária no dia a dia das freiras que deixaram o Rio Grande do Sul rumo a uma missão nada simples, mas recompensada pelo esforço, nem sempre acolhedora na alma. Até mesmo em momentos de reflexão, era na língua do povo por elas adotado que as religiosas comunicavam. Seja nas orações solitárias, seja nas preces em grupo. O “Pai nosso que estais no céu”, na nova versão eleita pelas brasileiras, ficou “Papa nou ki nan siyél La”. A adaptação à nova realidade, contudo, não foi nem um pouco fácil para nenhuma delas.
Ao chegar ao Haiti, em diferentes períodos, as freiras precisaram ser completamente alfabetizadas. O Kreyol em nada se assemelha ao português. Eu sabia bem dos obstáculos da língua, já que tive aulas de Kreyol na preparação para chegar ao Haiti. No meu caso, a dificuldade de aprendizado pode ter sido agravada pelo horário.
“Vamos começar bem cedo a aula. Esperamos você às 8 horas”, disse-me Adorema, quando iniciou minha preparação durante as suas férias, em Santa Maria, ainda em meados de 2007.
“Vai ter café pronto. Pode trazer o pão”, completou.
“Claro. Estarei lá”.

EM - A CRUZ HAITIANA - IARA LEMOS - IN-FINITA

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

As nossas almas solitárias (excerto 8) - C.GONÇALVES

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O Santiago e a Sara deixam-nos em casa e quando finalmente consigo deitar os miúdos, estico-me no sofá da sala. Fecho os olhos e tento relaxar. Sem sucesso. Tenho de ajeitar as coisas para amanhã; os miúdos vão para a escola para mais uma semana de actividades antes do início do ano lectivo. Falando nisso, preciso começar as compras de material escolar, organizar as roupas nos armários, verificar se precisam de equipamentos novos e um sem fim de coisas. Levanto-me, e já na cozinha, preparo os sacos para o dia seguinte. Olho para as horas e já passa da meia-noite; preciso deitar-me. Aqueço um café com leite e não consigo evitar um sorriso, enquanto me sento na mesa da cozinha, com a lata dos biscoitos e a caneca fumegante na frente. Inevitavelmente, os meus pensamentos vão para ele; o calor das suas mãos e o sabor da sua boca na minha. Não vou negar que não me soube bem, claro que foi bom, muito bom mesmo. Nem sei nada dele, nem da sua vida. Tal como na música Thinking Out Loud cantada pelo Ed Sheeran, people fall in love in mysterious ways, maybe just the touch of a hand… Mas o mistério é mesmo esse, o enigma do seu olhar, o embaraço que os seus gestos me deram, a dúvida e a incerteza. Uma delícia, na verdade; uma autêntica delícia...

EM - AS NOSSAS ALMAS SOLITÁRIAS - C. GONÇALVES - IN-FINITA

sábado, 7 de janeiro de 2023

dois de julho, palio de siena (excerto) - FLÁVIO ULHOA COELHO

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Tão logo os organizadores do Palio de Siena souberam a data de aniversário do Thio Therezo, entraram em contato com ele e não sossegaram enquanto não conseguiram confirmar a sua presença na tradicional corrida de cavalos do dia dois de julho.
Cabe ressaltar que os organizadores sempre quiseram homenagear o Thio Therezo por suas inúmeras contribuições ao povo local e pensavam em uma data para fazer um Palio excepcional (excepcionais como os realizados, por exemplo, em eventos como a descida da Apollo 11 na lua ou o centenário da unificação italiana ou mesmo a celebração do novo milênio). Por falta de acordo entre as confrarias que sustentavam a festa, porém, a homenagem foi sendo postergada e postergada até descobrirem a coincidência em torno do dois de julho. E aí tudo se resolveu como um milagre da Madonna de Provenzano.
Essa história o Thio nos contou enquanto esperávamos pelos convidados para celebrarmos mais um de seus animados e inesquecíveis aniversários. Naquela ocasião, ele se vestira com a imponente roupa que tinha usado no Palio como convidado especial. E que convidado! exclamavam os organizadores, orgulhosos pela honraria presenteada pelo nosso querido Thio ao concordar em participar da festa. Não é comum o aniversariante dar o presente, mas era assim que eles se sentiam, presenteados.

EM - HISTÓRIAS DO THIO THEREZO - FLÁVIO ULHOA COELHO - IN-FINITA

O Prédio (excerto 2) - SUSANA PIRES

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O prédio de cinco andares, conhece-se nesta fragilidade de cheiros. Encontro-me sozinho, em cada piso diferentes decorações de um azul que me preenche num infindo de céu, sinto o cheiro mesclado das folhas, que balançam desorientadas de gestos, lá fora, nos zumbidos dos vazios. Anteriormente um entra e sai de diferentes dialetos, onde a versatilidade e os odores inalavam as ecléticas culturas fundidas nas avenidas e sete colinas, misturando-se num comum social.
Agora somos poucos, os peculiares cheiros que entram diariamente no prédio enlaçam-me ao suspense de um cinza amordaçado, inibindo os outros odores até então facilitados pela troca de pele e toque.

EM - O PRÉDIO - SUSANA PIRES - IN-FINITA

Por uma grande paixão (excerto 2) - TEREZINHA PEREIRA

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Pouco mais da meia noite, o marido chegou com a gravata afrouxada no pescoço, paletó amarfanhado, olhar cansado. A mulher insinuou-se toda dengosa, pegando-lhe a pasta e oferecendo-lhe os chinelos que ele aceitou sem levantar-lhe o rosto, sem beijá-la, sem dar-lhe uma palavra. Foi quando a mulher teve em conta que ele havia passado direto pela copa, sem ao menos notar a mesa posta com cuidado, as flores, as taças para o champanha, o candelabro com as velas perfumadas. Ele havia se esquecido do aniversário dos sete anos de casamento! Ela, que vivera todos aqueles anos para o casamento. Abandonara o curso normal no primeiro ano. Afastara-se de todas as amigas, de todas as festas, de toda a família, para viver com aquele homem que havia lhe despertado tamanha paixão. Dera-lhe todos aqueles filhos homens. Quase sem ajuda de outras pessoas, para economizar maiores gastos, ela cuidara bem daquelas crianças, da casa, daquela rouparia toda, das camisas de linho branco, custosas de passar.

EM - CONTOS E CASOS - TEREZINHA PEREIRA - IN-FINITA

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

O palhaço Pantulfo VII - JACKMICHEL

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Agora, sempre acompanhado por seu amigo palhacinho, Miguelzinho pôde observar todas as maravilhas do festivo Reino da Palhaçada.
Olhou os muitos chafarizes que, ao invés de conterem água continham suco de uva, laranja, caju e goiaba; observou imensas montanhas de algodão-doce, que eram comestíveis; viu a deliciosa chuva de pipocas que não parava de cair e, por fim, subiu num gigantesco pão-doce, que ele comeu abundantemente.
Inesperadamente, porém, o Mago Palpiteiro reapareceu e fez um convite irresistível:
“Venha, Miguelzinho, conhecer minha coleção de palhaços inanimados!”.
O pequeno, sempre seguido de perto pelo palhaço Pantulfo, seguiu o mágico e não se arrependeu do que viu.

EM - ALMANAQUE PALHAÇO - JACKMICHEL - IN-FINITA

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

A cruz haitiana (excerto 7) - IARA LEMOS

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No momento daquela pergunta, as religiosas e seus convidados – inclusive eu –, que estavam hospedados na casa bem estruturada para os convencionais padrões haitianos, localizada no bairro Karakoly, tomávamos o pequeno-almoço. No centro da mesa, estava o pão de argila e frutas colhidas do pomar naquela manhã. Ovos não faltavam; havia suco de abacaxi e o café completando a refeição.
No Haiti, a primeira refeição do dia das religiosas é típica de um almoço, regado a muita pimenta, tempero típico do país. O condimento, mais que dar sabor apurado aos alimentos, não deixa de ser um recurso para a conservação deles. Sem geladeira, nem outro tipo de utensílio capaz de conservar a comida, uma vez que não há energia elétrica em boa parte do país, o haitiano, de forma geral, precisa de improvisar maneiras de manter o alimento – já escasso – apto para o consumo por mais tempo. A pimenta e o gengibre foram algumas das alternativas encontradas. Não raras vezes, o café da manhã das missionárias inclui, também, omeletes com cebolas. Naquele meu primeiro dia em solo haitiano, a omelete ficou para o jantar.

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quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

As nossas almas solitárias (excerto 7) - C. GONÇALVES

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Não sei o que pensar, nem o que sentir. Tenho uma confortável sensação de aconchego quando nessa noite me deito. Não foi nada de especial, nem nada do outro Mundo. No entanto, as suas palavras confortaram-me de alguma maneira. Ou então percebo que afinal não estou só. Que existem mais pessoas que se divorciaram e que apesar da passagem do tempo, continuam a sofrer as consequências disso. Pessoas cuja vida mudou para sempre. É isso. É isso que sinto; esse sentimento de experiência partilhada. Ou então, bebemos demais…

No dia seguinte, sou eu que acordo cedo e despacho-me para aproveitar a manhã. Quando espreito os meus filhos, ainda dormem descansadamente. Quando chego à cozinha, vejo-o de pé, encostado à bancada. Prepara o pequeno-almoço e aparentemente, mais ninguém ainda se levantou. Faço tenção de dar meia volta e escapar-me, mas sem sucesso...

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segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

olhando a sistina (excerto) - FLÁVIO ULHOA COELHO

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Não é segredo a ninguém, mesmo àqueles que ainda não tiveram a oportunidade de vê-la, a beleza da famosa Capela Sistina. No entanto, muitos poucos de nós, seguramente, tiveram a oportunidade de experimentar a melhor visualização da incrível pintura que cobre o teto. E nem vou dizer que, atualmente, a maioria se contenta com uma apressada selfie e poucos se importam em observar realmente a pintura. Somos, Thio Therezo e eu, do tempo em que o que importava mais era admirar uma pintura, uma paisagem, uma cidade, um mural... do tempo em que o protagonista da foto não era nossa cara estragando a vista. Do tempo em que a lembrança superava os pixels...
Mas o Thio Therezo, sim, teve a oportunidade de admirar a pintura do teto da maneira que ela merece. Em um dos inúmeros dias em que o Thio aproveitava o seu tempo dentro da Capela (por um motivo que nunca nos foi propriamente esclarecido, ele tinha acesso ilimitado à Capela, o dia que quisesse, o horário que melhor lhe aprouvesse), em um desses dias, ele parou e pareceu perceber algo que, primeira vez, chamava-lhe a atenção. O Thio, então, deitou-se ao chão para melhor observar o detalhe nunca antes visto.
Nem é preciso dizer que tal atitude causou um imenso rebuliço, os turistas com suas máquinas e seus celulares agora se alternavam entre selfies narcísicas, fotos desfocadas do teto, mas também daquele estranho sujeito deitado ao chão. Como só poderia acontecer, logo a sala ficou repleta da guarda suíça, mas, antes mesmo que alguma atitude mais brusca pudesse ser tomada contra o Thio, um parente distante nosso, um suplente de subvicechefe da Divisão Noroeste da Guarda de Honra da Capela, o reconheceu e, consequentemente, todos perderam a ação, tão forte é o nome dele no Vaticano. O intocável Thio Therezo.

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O Prédio (excerto 1) - SUSANA PIRES

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Acorda o dia chuvoso na embriagues do pensamento que se prepara para o atrevimento que o julgamento diário o desalinha. As mãos secas, retidas de tempo, denunciam o fluir da estação. Muito antes dos hemisférios ditos racionais prevenirem à ida, da volta, da concordância, os direitos a uma individualidade que se reafirma numa sociedade capaz.
Dirijo-me para a janela estreita de porte alto, pintada de azul-cobalto, na sala azul.
Único ornamento que o espaço contém, emoldurando o olhar que se projeta isolado dos outros sentidos, ritmando na face a prece da testemunha, esta minha série em
- acreditares.
Um não conformismo açoitado pelas sujas opiniões, cuspindo versos obstinados de ruelas sociais.
Vigio a rua. Visão debruçada nas traves vazias de uma cidade suspensa e possível, harmoniosamente colorida, num Portugal autêntico com odor a humanidade antes historicamente enclausurado.

EM - O PRÉDIO - SUSANA PIRES - IN-FINITA

Por uma grande paixão (excerto 1) - TEREZINHA PEREIRA

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Paixão pura. Estava ela com dezasseis anos. Ele com vinte e um. Ela era uma gracinha. Cabelos negros na cintura, pele queimada do sol do norte de Minas, baixinha de estatura, magra, olhos negros e voz abaianada. Num único final de semana conquistara o coração do moço moreno muito alto e brincador que havia vindo do sul. Em um ano subiram o altar da Senhora da Conceição. Ela, toda linda no seu vestido branco sem calda e véu curtinho, ouvindo “vixe, como está bonita” de todos os lados da igreja, mantinha o sorriso e o equilíbrio no sapato muito alto que usava para parecer um pouco mais crescida, embora estando certa de que não poderia nem esbarrar no ombro do amado.
No dia em completaram sete anos de casados já tinham cinco filhos, todos eles, meninos. Sete anos após o casamento, ela ainda se sentia tanto ou mais apaixonada do que quando teve a camisola de seda branca dilacerada devido a afoiteza do marido na noite de núpcias. Nas noites de amor que se seguiram, a audácia do marido deixava-a cheia de graça, o que a levou a se entregar de corpo e alma àquele homem de riso solto. Foi quando tiveram o quinto filho, que repararam que a casa de dois quartos que ocupavam desde o casamento havia ficado apertada demais. O caçula precisou ser colocado no quarto do casal, o que lhes causou uma sensação de perda de intimidade para o amor. O quarto do lado era ocupado por dois beliches, dois armários e quatro crianças que quase não dispunham de espaço para espalhar os brinquedos. Nem com muito esforço havia sido possível colocar um berço entre os dois beliches.

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domingo, 1 de janeiro de 2023

O palhaço Pantulfo VI - JACKMICHEL

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Miguelzinho disse ao mago que gostaria muito que Pantulfo fosse o seu melhor amiguinho. Então, o magnífico mágico tocou com sua varinha de condão, bem na pontinha do nariz de borracha do palhaçinho; e este, alegremente falou:
“Miguelzinho, eu sou o palhaço Pantulfo. E de hoje em diante, serei seu melhor amigo!”.
O menino sorriu de felicidade e abraçou seu amigo palhacinho, que já não era inanimado. Nesse momento, o Mago Palpiteiro advertiu Miguelzinho:
“Se sentir saudades, volte! Pois você já conhece o caminho!”.
O pequeno ouviu com muita atenção as palavras do bondoso mágico; e prometeu voltar sempre que avistasse a borboleta multicor em sua frente.

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sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

A cruz haitiana (excerto 6) - IARA LEMOS

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Em Jérémie, logo percebi que a composição das letras na parede do pequeno aeroporto, mais que dar nome à cidade e desejar uma boa estada aos raros visitantes que por lá apareciam, eram responsáveis por manter vivos artistas que a história cultural do país se encarregou de sacramentar. Foi assim com Etzer Vilaire e Émile Roumer. Poetas de pele negra, aparência sofrida e alma iluminada, que traduziram em versos a busca do povo haitiano por melhorias. Etzer e Émile ajudaram a levar o nome do Haiti para o mundo, expondo as dificuldades de uma terra que corrói seus filhos prematuramente.
Em um país onde a média de vida gira em torno dos 56 anos, as responsabilidades começam cedo para os que precisam ganhar o seu próprio pão, mesmo que o “pão” não seja bem a referência de alimentação por lá. A infância se funde aos compromissos e responsabilidades da vida adulta, fazendo com que muitas crianças sejam forçadas a transformar os afazeres domésticos, e outros mais, numa rotina de trabalho intensa, na tentativa de garantir a própria sobrevivência.

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

As nossas almas solitárias (excerto 6) - C. GONÇALVES

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Quando finalmente nos instalamos na beira da piscina, o sol já vai alto. Deito-me numa das esperguiçadeiras de lona amarela, debaixo de uma pérgula verde-escura. Ponho os óculos de sol e tento abstrair-me do romance permanente da Sara e do Santiago. Mas fico feliz por eles, muito feliz mesmo. Viro-me para o outro lado, a tempo de ver o Salvador chegar. Tem o cabelo ainda molhado do banho e veste uns calções pelo joelho e uma t-shirt. Traz um livro na mão e deita-se em silêncio na cadeira em frente à minha. Por sorte, tenho os óculos de sol e consigo observá-lo sem que me veja. Isso não fará mal certamente… As suas mãos são compridas e seguram firmemente o livro enquanto o folheia. As vozes do Martim e da Carolina, ouvem-se no caminho que vem da horta até à piscina, despertando-me da minha divagação.

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terça-feira, 27 de dezembro de 2022

tetras e tretas (excerto) - FLÁVIO ULHOA COELHO

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De todos os assuntos frivobanais possíveis de serem tratados em uma mesa de bar, seguramente o preferido do Thio Therezo é o futebol. Por sua vez, o menos preferido é falar sobre o tempo e o Thio justificava essa não preferência lembrando de um personagem de um romance que ele sempre esquecia o nome e nunca se lembrava de seu autor que dizia que “na falta de assunto, fale sobre o tempo...”. Não à toa que os canais de TV hoje em dia gastam tanto tempo (sem trocadilho) com isso. Não que não haja uma profusão de assuntos a tratar, mas apenas que há a opção por não os tratar, mas isso é outra história, talvez séria demais para uma conversa em uma mesa de bar...
Mas falava-se de futebol e o que vamos relembrar hoje se passou em um bar aqui perto de casa durante a copa de 2014. Estavam, em volta de meia dúzia de cervejas, além do Thio e de alguns tantos brasileiros, dois amigos estrangeiros: o Guaio, uruguaio de Montevidéu, e o Quesejô, mardelplatense, ambos radicados em Sampa há anos. O Thio Therezo se perguntava sempre o que eles faziam por aqui, afinal, trocar as famosas ramblas que ambos poderiam frequentar diariamente em suas cidades de origem pelo, no máximo, o Parque do Ibirapuera era meio inexplicável a ele. Por outro lado, eram excelentes companhias para as famosas cervejas de final de tarde.

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Uma vez um grande amor (excerto 3) - TEREZINHA PEREIRA

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Naquela tarde em que ele chegou de manso, era uma daquelas de céu azul desbotado. Quase invisível, uma tirinha curva de lua com a estrela companheira do entardecer enfeitavam a palidez do céu. Abraçados, entramos em casa. Dessa vez, de amor foram outras as palavras que disse ele. Teria aprendido em outros sítios? Somente quando saiu na manhã, quando apenas acabara de ecoar os primeiros cantos dos galos, sem ao menos esperar pela chegada da noite mais uma única vez, pude então compreender que ele trouxera nos olhos e na face era uma expressão de adeus.
Hoje, deitada na cama onde ouvi as mais belas palavras de amor que alguma outra mulher, juro, vez nenhuma ouviu, o que posso sentir é apenas saudade.

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Felice natale - JACKMICHEL

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Os dias, as tardes e as noites dezembrinas correram, velozes, entre um sopro gélido de vento, entre uma bruma solta no ar, entre uma baça claridade solar, entre um chuvisqueiro frio, de momento...
Até que chegou o dia 24 de Dezembro, cheio de correrias, com os preparativos para a ceia da meia-noite!
Na casa das duas meninas tudo corria às mil maravilhas, como as caldas dos pudins que escorriam, como os confeitos dos bolos que enfeitavam, como as frutas cristalizadas dos pães que adoçavam, como os camarões temperados dos pastéis que salgavam, em meio aos vinhos, licores e refrigerantes que refrescavam.
Depois, houve a Missa do Galo que a tudo abençoou; mas, no final das contas, só o que interessava aos coraçõezinhos de Jajel e Mimú era o presente que, ambas, haviam encomendado ao paternal Papai Natal, que não lhes desapontou.
E quando o dia 25 chegou...

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domingo, 25 de dezembro de 2022

A cruz haitiana (excerto 5) - IARA LEMOS

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Chegamos até àquele ponto quase desconhecido no mapa num avião do Exército Canadense, juntamente com mais alguns integrantes de organizações humanitárias e alguns estudantes universitários. Aos poucos, o turvamento foi-se abrindo, e o céu de um azul intenso ganhou espaço. Foi preciso, ainda, alguns segundos para que o azul e o vermelho da tinta na parede pudessem ser visualizados, e que eu conseguisse controlar minhas crises de rinite.
À primeira vista, lá adiante, estava um prédio completamente maculado pelas intempéries, que não são poucas naquela região. Tirei os óculos e pude ver que, avesso às dificuldades, o conjunto de letras caprichadas, todas bem torneadas, era como um aconchego. Fiquei imóvel por alguns segundos observando a parede, que provavelmente teve as letras feitas à mão livre, sem o uso de molde ou qualquer outro tipo de tecnologia. Eram letras simples, mas que, unidas, tinham a força da nacionalidade traduzida pelo azul e o vermelho, as cores que estampam a Bandeira do Haiti, o mais pobre dos países das Américas.

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sábado, 24 de dezembro de 2022

As nossas almas solitárias (excerto 5) - C. GONÇALVES

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O quarto é muito acolhedor e sinto-me rodeada por tamanho conforto assim que entro e que fecho a porta. Filhos? A sua pergunta não me sai da cabeça. É o costume, é o normal. Todos ficam muito admirados quando o digo. Eu sei que pareço demasiado jovem para quem tem dois filhos e tanta bagagem pelo meio, mas é assim a minha realidade. Quem não gosta, paciência. Quem não quer, que não incomode. Depois do divórcio, tem sido assim. Se conheço alguém, mesmo antes que algum interesse possa surgir, desaparecem logo assustados. Acho que este não deve ser excepção. Pareceu-me até simpático, eu diria normal, um pouco enigmático, talvez… Mas decerto não será diferente. Parece-me que é assim que devo estar. Dedicada a eles, sempre. Os meus filhos estão sempre em primeiro lugar. Sem eles, não sei viver, já nem me lembro da vida sem eles… é nisso que me foco, é neles que me apoio. Eles precisam de mim em primeiro lugar. Se o Miguel for embora do país, só poderão contar comigo, mais ninguém. Agora não quero pensar nisso, só quero encostar a cabeça na almofada e finalmente descansar…

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quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

a rubrica - FLÁVIO ULHOA COELHO

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Muito se tem especulado sobre as pequenas rubricas que aparecem nos cantos inferiores das páginas do primeiro contrato assinado pelos Beatles com o tal Brian, e lá se vão tantos e tantos anos.
Foi um aval? Apenas uma rubrica de testemunha? E, principalmente, quem a fez?
Tais dúvidas, ao longo dos tempos, produziram inúmeros artigos, científicos ou não, e até mesmo uma tese de Doutorado na Universidade de Liverpool, onde mais seria?
Thio Therezo, ao ouvir tantas especulações, apenas sorri. Nem nega, nem confirma, só sorri...

EM - HISTÓRIAS DO THIO THEREZO - FLÁVIO ULHOA COELHO - IN-FINITA