segunda-feira, 14 de outubro de 2019

DEZ PERGUNTAS A... ANTÓNIO MR MARTINS


Agradecemos ao autor ANTÓNIO MR MARTINS pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Escrever é uma necessidade ou um passatempo?

Tem dias! Mas é, sobretudo, uma agradável necessidade. É algo que me acontece, e me tem acompanhado, ao longo da vida, após ter feito o ciclo preparatório.

2 - Em que género literário se sente mais confortável?

Sem dúvida, e a questão não é propriamente o sentir-me mais confortável. Gosto de poesia. De escrever e ler poesia dos mais diversos poetas, de todos os parâmetros, todos os patamares, todas as vertentes. Viva a poesia!

3 - O que escreve é inspiração ou trabalho?

Não será bem inspiração, mas trabalho não é de certeza. É um gosto enorme poder criar um poema, um após o outro e assim sucessivamente. Embora, hoje em dia procure mais ler do que escrever. Já tenho muita coisa escrita, que ninguém conhece.

4 - O que pretende transmitir com a sua escrita?

Escrevo sobre sentires e observações. Os meus e as minhas e as de todos os meus semelhantes.

5 - Qual o seu público alvo?

Não procuro público para aquilo que escrevo, procuro sim escrever e ao concluir um poema sinto-me completo e preenchido.

6 - Em que corrente literária acha que a sua escrita pode ser incluída?

Não procuro, nem nunca procurei, definições, agrupamentos ou englobamentos para aquilo que escrevo. Se tal tiver de haver, que o façam os leitores e os críticos, se efectivamente me lerem e o quiserem fazer.

7 - Quais as suas referências literárias?

Gosto de ler tudo aquilo que seja poesia, e se relacione com a mesma, e dou imenso valor a todos o que criam e escrevem, nesse âmbito. Gosto de imensos autores contemporâneos, muitos deles meus amigos, mas para não ferir susceptibilidades, vou enumerar alguns consagrados dentro de diversas áreas e temas: Fernando Pessoa, no seu heterónimo Alberto Caeiro, Florbela Espanca e Bocage, nos sonetos, Eugénio de Andrade, Ary dos Santos, no conteúdo social e Drummond de Andrade, que considero fabuloso, mas há muitos e muitos mais que gosto de ler.

8 - O que costuma fazer para divulgar o que escreve?

A divulgação que faço é publicando alguns poemas na minha página do facebook, na cronologia também, e no meu blogue de poesia “Poesia Avulsa”.

9 - O que ambiciona alcançar no universo da escrita?

Viver até ao termo da minha vida com mais alguma felicidade.

10 - Que pergunta gostaria que lhe fizessem e como responderia?

Tudo o que poderia dizer sobre uma questão deste tipo será inteiramente subjectivo.

domingo, 13 de outubro de 2019

IN-FINITA APRESENTA... O AVESSO DO ARQUIPÉLAGO, DE BEATRIZ H. RAMOS AMARAL


      “A vibração transliterária percorre toda a poesia de Beatriz Amaral. O rigor poético resplandece. Há muitos anos sou leitor de sua poesia. Recentemente, reli Alquimia dos Círculos, Peixe Papiro e Os Fios do Anagrama. Tudo o que Beatriz escreve é flama exuberantemente.”   (E.M. de Melo e Castro, poeta e ensaísta, São Paulo)    
“Já com vasta obra poética, Beatriz Amaral transporta para sua poesia algo da ‘floresta de simbolos' baudelaireana, o ritmo da música de Verlaine e Mallarmé, o claro-escuro do barroco, a experiência concretista, o equilíbrio cósmico-taoista.  (Daniela Braga,  crítica e ensaísta,  Porto, Revista Terceira Margem)
“Gostei muito de ‘In Limine' e aprendi muito com o seu livro sobre Edgard Braga. O que mais impressionou foi a criatividade de seus textos literários.” (Teolinda Gersão,  escritora, Lisboa)
“La presentation et analyse de cinq versions d'un poème du recueil (Enchainements) de Beatriz Amaral ilustrent le travail de condensation e de correction opére par l'auteur-scripteur. De la première version du poème a la version publiée, modifications indiquent que l'auteur crée par ‘un processus methonymique” ( Régis Salado, Revue Genesis,  Paris)
“Poeta, ensaísta e musicista, a multiartista Beatriz Amaral tece palavras, fisga linha e fio, vislumbra sentidos e expõe brechas e desvãos do cotidiano.” (Maria Cecília S. Freire César, crítica e ensaísta, São Paulo)
“A leitura caleidoscópica de Beatriz H. R. Amaral é um ofertório de signos moventes. Em Beatriz, detectamos pérolas da literatura universal presentes em nosso âmago: Borges, Lispector, Octavio Paz, Rimbaud são apenas algumas que reluzem, porém,  com sua translucidez inconfundível e própria.  Ler a premiada autora é dar um salto interior.” (Reynaldo Barreto. M. Castro, escritor e filósofo, Bragança Paulista).

BIOGRAFIA
BEATRIZ H. RAMOS AMARAL , paulistana, poeta,  contista, musicista e ensaísta, publicou vários livros (“Planagem", “Primeira Lua”, “Peixe Papiro” e outros). Várias vezes premiada. Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP. Formada em Direito pela USP. Premio Internazionale Francesco de Michele, Prêmio Literatura 2017, Prêmio Literatura 2019. Finalista do Prêmio Jabuti e da ANPOLL. Coordenou ciclos literários na Secretaria Municipal da Cultura de São Paulo.

O AVESSO DO ARQUIPÉLAGO será lançado e apresentado dia 25 de Outubro, sexta-feira, a partir de 19h, na Livraria Barata, na Av. de Roma 11, Lisboa, com leituras especiais da autora.  Apresentação: João Morgado,  João Rasteiro e Ronaldo Cagiano.



sábado, 12 de outubro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto III) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Nove horas em ponto! Hora de trabalho. Cada um para o seu posto, para os apagões de memórias que magoavam. Na biblioteca, a menina que tinha ido visitar uma casa lilás, alinhava a secretária (só mania de arrumação, pois tinha ficado impecável na véspera) e iniciava a leitura para as outras pessoas que, entretanto, lhe tinham vindo fazer companhia. Hoje foi um livro de leitura fácil, de entendimento suave, para transmitir vontade de crescer.
Depois, a hora da música para suavizar a mente e em silêncio observar como os sorrisos surgiam com a leitura e com os momentos musicais de meditação. Quase dormiam e ela ficava com a certeza que magia acontecia naquela biblioteca.
– Os livros recomendados para hoje estão na prateleira com símbolos verdes. - dizia com voz firme.
O verde também é uma cor suave e permite ousar levar um livro para ler, mesmo que com alguma hesitação (porque sempre diziam que não gostavam muito de leituras...) na esperança que as noites se tornem menos longas. Viveriam seguramente alguma lembrança que as faria sorrir.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

ASTURÃES - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Poesia, que entretanto chegou, começa a descrever o meio que caracteriza a aldeia dizendo:
Miguel, para descrever paisagística, geográfica e morfologicamente Asturães, tenho duas dificuldades: seria necessário inventar novos adjectivos e analisar cada metro quadrado.
A visão global da aldeia é fascinante: Num arco de 270 º, a aldeia é limitada pela linha de cumeada de formações montanhosas, com mais ou menos formações rochosas. Este arco começa sensivelmente no sulsudoeste e termina no sulsudeste. Os restantes 90º são um vale verdejante por onde se espraia um Rio, que será figura nuclear das nossas estórias. Neste macro espaço, Asturães
define-se mais nas vertentes sul, oeste e norte. As montanhas circundantes elevam-se a pequena altitude ficando-se, no máximo, nos 800 metros. Os seus nomes são Serra de Agra, Antesdelas e
Formigueiro. Destas só a primeira é parte de Asturães. Uma formação muito especial surge a sulsudoeste denominada O Castelo, com o seu irmão mais jovem, o Castelo Pequeno. É o nosso Kilimanjaro... sem neve!
Este monte será o berço de estórias, entre as quais, sobre mouras encantadas, hoje esquecidas.
As encostas da montanha para o vale são várias telas magníficas pela sua tonalidade e cores, ou melhor dizendo, são vários quadros pintados a cores diferentes, consoante a época de ano. Nestes
quadros sempre, ou quase sempre, aparece o elemento água, quais são as ribeiras apressadas que descem da montanha, em tons e sons impossíveis de definir com um mínimo de similitude. Milhões
de insectos, nos quais se contam milhares e milhares de abelhas, adquirem aí o seu sustento e são agentes da polinização indispensável.
A primeira imagem que se recebe nesta aldeia é a de um rio de águas tão brilhantes e límpidas que nos conduzem a uma explicação do manto que encobre Asturães. Só água tão pura poderia
formar o manto protector, que por sua vez se eleva e volta a cair originando fantásticas quedas de água que sobressaem no inclinado das montanhas limítrofes da aldeia.
O rio afirma-se como o núcleo desta aldeia. Vindo das montanhas, que mais adiante descreverei, serpenteia em vale não muito largo. No início é rápido, como quem tem pressa em chegar ao
seu encontro com as pessoas. Mas, como qualquer ser paisagista, deixa, neste seu troço, diversos pequenos lagos onde jovens trutas fazem os seus movimentos para, num rápido salto, sair da água e captar insectos que sobrevoam o pequeno lago.
Ao longo do rio, desde a sua última junção de ribeiras, as ribeiras do Formigueiro e a ribeira do Riobom, até entrar na zona húmida, as suas margens são planícies que, conforme a época do
ano, têm os seus matizes, todos de enorme beleza e fonte da riqueza da aldeia. Espero que desta descrição tires todo o proveito, termina Poesia.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

IN-FINITA APRESENTA... - AGARRAR O TEMPO, DE CARLOTA MARQUES CANHA

Às vezes o melhor que podemos fazer por um livro, e respectivo autor, é dar a conhecer a primeira impressão. Assim sendo, aqui fica a introdução que CARLOTA MARQUES CANHA escreveu para o seu livro Agarrar o tempo - pensamentos sem tempo.


A vida apresenta-nos desafios e obstáculos que, por vezes, são penosos de serem ultrapassados. Mas são esses desafios e obstáculos que levam a que nos atrevamos a posicionar-nos em caminhos mais certos e a rumarmos para futuros que nos fazem sair do nosso pensamento limitado para descobrirmos soluções e fazermos escolhas que, sobretudo, nos levam a ver portas, onde apenas víamos muros intransponíveis.

A coragem e determinação para vencer as vicissitudes que a vida nos apresenta é das mais estimulantes sensações quando somos postos à prova perante desafios futuros e fazemos acontecer os ideais e sonhos que comandam a nossa mente, onde o insucesso ou o medo não devem encontrar lugar. É nesse encontro com o nosso eu mais profundo que damos a nós mesmos um voto de confiança e tomamos a decisão imediata sobre aquilo que queremos fazer e sobre o caminho que vamos percorrer dali em diante.

Foi com essa convicção e experiência pessoal que – após ter arrumado a escrita num passado longínquo da minha juventude, em que as minhas vivências e experiências pessoais eram ainda pouco significativas, em que os receios de avançar e alguma insegurança não me deixavam dar o passo seguinte – vinte anos depois renasce e surge uma vontade enorme de transcrever pensamentos, sentimentos e emoções, soltar ideias e acreditar que o projeto de escrever saiu do papel e toma uma forma a que dou asas: a um sonho real e não apenas de papel.

Sinto que estou num novo ciclo da minha vida em que me questiono sobre muita coisa e em que a escrita de poemas surge como um ato de expressão de sentimentos, sensações, palavras que soltam emoções para quem lê e me deixam pensar que estou a reinventar-me na minha criação que me conduz a escrever aquilo que os meus olhos percecionam e sentem e a estar em paz comigo própria e com o mundo.

Nesta chamada reinvenção, dou-me a oportunidade de criar e seguir um novo caminho de esperança, de convicções, de confiança e fé que, corajosamente, me põem à prova. E não fosse eu uma mulher de gostar de desafios, a vida não teria o encanto que encontro e no qual acredito, e, seria, certamente, um desencanto com o qual não teria tempo a perder.

CARLOTA MARQUES CANHA

BIOGRAFIA
Nascida e natural de Lisboa é licenciada em Tradução económica-jurídica na vertente francês e inglês pela Universidade Europeia e com uma Pós-graduação em Gestão Comercial e Marketing pelo ISTE Porto.
Iniciou o seu percurso profissional em Assessoria de Direção em diversas empresas multinacionais onde se mantém em funções na área de legal no Grupo Jerónimo Martins.
É escritora com o lançamento do seu primeiro livro de poesia “Agarrar o Tempo” - Pensamentos sem tempo. Para além do género de poesia gosta de escrever prosa, crónicas, contos e letras originais de músicas.
Gosta de desafios e fazer coisas diferentes, o teatro e o gosto da representação acabaram por surgir ligados à vontade de compor personagens, compor histórias para um romance que pretende escrever a médio longo prazo. Nos seus tempos livres, para além da escrita, leitura, danças latinas, gosta de fotografia, captar momentos que servem de inspiração para a sua escrita, para a criação de pensamentos, ideias.

Sentir e escrever sobre a vida, os outros, as aprendizagens e experiências recebidas são o que mais a movem na sua busca constante de evoluir como pessoa, como mulher.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto II) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Naquelas ruínas em que se deixaram as memórias, houve tempos em que não sabia onde ficava a cor, o cheiro, o abraço. Perdia-se nas noites onde o vento era tão forte que a levava, na sua inquietação desmedida, a encostar-se devagarinho ao canto do quarto e escorregava pela parede aconchegando-se nos próprios joelhos, mantendo o rosto tapado com as mãos como se tudo isso a eliminasse da face da terra e a esquecesse.
O bramir do vento forte do norte, entretanto, acalmara, ficou um silêncio ensurdecedor.
Era preciso acordar do letargo do corpo, dos sentidos e acordar principalmente a vontade de rever a casa de lilás pintada.
Tentava dormir, descansar, já que o pensamento atormentava todos os minutos daquela existência. Nem as estrelas, que conseguia ver e tentava contar, eram suas aliadas nos seus sonhos.
Altas horas, o cansaço vencia e quando chegava o amanhecer, o cedo erguer, o rosto inebriava-se de um sorriso contagiante que a defendia.
Seria o sorriso da avó?

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

domingo, 6 de outubro de 2019

A POESIA - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Conforme dissemos, os fenómenos atmosféricos e outros menos usuais caíam em catadupa sobre a mente do Miguel.
Porém, o acontecimento mais determinante e estranho surge de seguida. Saída não sabe Miguel donde, aparece uma figura de rara beleza, que pedia meças a qualquer Helena troiense ou egípcia
Cleópatra que assim se apresenta:
– Miguel, não te assustes! Chamo-me Poesia e estou aqui para te agradecer teres tido a coragem de passar além do nevoeiro, desafiando o desconhecido. Bem hajas por isso, e gostaria de te desafiar
a uma tarefa sublime a que só têm acesso os Homens de Coragem, para quem a Verdade é incompatível com o Egoísmo.
Estás numa aldeia com um passado nem sempre fasto e conseguido e que tu podes tornar verdadeiramente Feliz. Meu Pai chamado Universo tem o dom de permitir a Felicidade e Harmonia, mas também o Poder de querer ou não, evitar a desgraça. Pois meu pai encarregou-me de te transmitir o desafio que tu podes aceitar ou não. Terás a Liberdade de escolher e no caso afirmativo terás acesso a testemunhos e documentos que te ajudarão a levar a tarefa a
bom termo, o que significa que, a partir do momento de aceitação, o Povo desta aldeia viverá uma Felicidade incomum, pese embora, com parcos recursos financeiros.
Pois o desafio será a tarefa de demarcar todo o limite da aldeia baseado, como te disse, em testemunhos e documentos que investigarás livremente.
Iniciada a demarcação, percorrerás toda a linha indicativa e determinativa sendo que o ponto final dessa linha será exactamente o ponto de início.
Tens todo o tempo para o fazer e conhecer a aldeia e seus habitantes, e com eles gozar a felicidade que só a Verdade permite.
Felicidade que está em tudo que se semeia e em tudo que se colhe.
Se falhares, a aldeia cairá numa depressão e infelicidade até que meu pai Universo aceite outro personagem a quem será colocado o mesmo desafio.
– Entendeste Miguel? Aceitas o desafio?
– Entendi Poesia, mas só posso aceitar se tiver a tua ajuda.
– Sim Miguel, vejo que percebeste lindamente, pois sabes que só comigo podes dar a Felicidade a um Povo.
– Poesia, sou eu agora a fazer-te o desafio. Aceitas?
– Claro. Sempre que precisares, eu aparecerei para que me transmitas o fundo do teu coração. Verás como te sentes feliz com a interacção com o meio rural, em todas as suas vertentes. Mas primeiro vou identificar-te com o meio em que vais viver.
Começa aqui a tarefa. Miguel e Poesia trocam um grande abraço.
Poesia desaparece como por encanto deixando Miguel entregue a si próprio, sem que essa situação o afecte negativamente.
Amanhã será o dia 1 do trabalho. Acrescente-se que a partir daqui, os dias e as noites não tem sequência: são apenas um Tempo.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS (excerto I) - MARIA MAGUEIJO

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Lilás é uma cor agradável, serena e que convida ao silêncio. O alpendre é de madeira. Os bancos e a mesa de um branco imaculado e a porta convidam a entrar. Tem flores dentro de um cesto pendurado mesmo por cima dela.
E se estiver a sonhar?
Tem vidros que deixam antever o seu interior.
Espreitei.
Bati devagar, como se tivesse medo de quebrar o silêncio.
Ninguém respondeu ao meu chamado. Senti uma tristeza invadir o meu estado, o corpo ficou dorido e decidi sentar-me num dos bancos e esperar.
Mas esperar o quê? Ou quem? Pouco importa. Apenas decidi esperar.
Devo ter adormecido porque, assim de repente, senti um sopro bem junto do meu rosto, como se fosse o vento, uma brisa suave. Abri os olhos e lá estava ela. Uma silhueta em sépia, devido ao reflexo do sol. Um sorriso enternecedor fez-me sentar convenientemente no banco, ajeitar as vestes e olhar esta senhora do olhar sereno, a tez clara, os olhos da cor das esmeraldas, e o cabelo como as nuvens, em dias de algodão doce.
Sentou-se ao meu lado e começámos a conversar como se não houvesse amanhã, como se tivéssemos todos os dias das nossas vidas para confidenciar e foi tão tranquilo, emocionante, revelador.
Ficámos sentadas e assim, de repente, apareceu uma jovem com uma bandeja com chá e biscoitos.
– Mas eu bati na porta e ninguém respondeu... de onde apareceu esta jovem tão delicada, como se chama, deve ter aproximadamente a minha idade, quem é?
– Tanta pergunta fazes, Isabella...
Caí em silêncio e percebi que a minha avó me olhava.
Engoli as palavras e pedi desculpa.

EM - HOJE VISITEI UMA CASA LILÁS - MARIA MAGUEIJO - IN-FINITA

terça-feira, 1 de outubro de 2019

INÍCIO - ERNESTO FERREIRA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Seriam aí pelas três da manhã e o pequeno Miguel dormia profundamente o sono dos cinco anos, sono bem fundo, mas que paradoxalmente permite sonhos. Sonhos fantásticos livres de recordações de dor. Sonhos puros como a mente que os suportam.
Mas de repente, um trovão enorme suou e estremeceu a casa e cama onde dormia. Como criança não despertou completamente, mas o suficiente para começar um sonho que só as crianças podem ter.
Mas tão forte era o sonho que o Miguel, hoje com idade de juízo, pergunta-se se realmente foi sonho, tão nítidas são as imagens e as pessoas na sua memória e no seu presente.
É no suposto que foi mesmo sonho que tudo o que se segue tem a sua origem.
Começa no sonho do Miguel, por sentir-se algures vindo de um Alto que desconhece e ver abaixo dele um espesso e bonito manto que parecia lã, da mais elevada pureza e brancura. Repara que esse manto branco é algo de móvel e sensível a qualquer força, pois movimenta-se dançando ao som de uma ligeira brisa. Miguel soprou e reparou que o manto branco não era mais que nevoeiro
que se desfazia por acção do ar quente da sua respiração. Miguel soprou mais ainda e um buraco se abriu mostrando que sob o nevoeiro havia terra. E à medida que soprava mais se abria o manto
e se viam mais casas, mais caminhos, mais flores. Apareciam aves voando e até conseguiu ver um policromado pica-peixe que voava ao longo de um rio. Rio em que uma cascata de água límpida
cantava como uma sereia que estivesse aí encantando e seduzindo homens para o mar.
Miguel achou-se num paraíso perante tanto encanto. Mas de todas as maravilhas que viu uma viria a ter importância especial, pois deu nome à aldeia. Vários bandos de Astures pequenos, acompanhados pelas mães, ensaiavam os seus primeiros voos. Que quadro magnífico! Subiam, desciam, rodavam, planavam e esvoaçavam, tudo numa sincronia própria de bailarinas profissionais, tais eram as mães a ensinar os pequenos astures a voar. Ora bem: A junção do Asture com Mães veio dar o nome a esta aldeia ou, se quisermos, a este paraíso: ASTURÃES, assim dizem os mais velhos habitantes.
É nesta aldeia e freguesia que se passam as coisas extraordinárias que o sonho do Miguel criou.
O seu sonho não se passa num dia, mês, ano ou geração: ocupa várias e indefinidas gerações.
Este sonho é apenas a circunstância da época vivida.

EM - MIGUEL, NO EXTREMO DA ESTREMA - ERNESTO FERREIRA - IN-FINITA

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

IN-FINITA APRESENTA... CARLOTA MARQUES CANHA


Carlota Marques Canha

Nascida e natural de Lisboa é licenciada em Tradução económica-jurídica na vertente francês e inglês pela Universidade Europeia e com uma Pós-graduação em Gestão Comercial e Marketing pelo ISTE Porto.
Iniciou o seu percurso profissional em Assessoria de Direção em diversas empresas multinacionais onde se mantém em funções na área de legal no Grupo Jerónimo Martins.
É escritora com o lançamento do seu primeiro livro de poesia “Agarrar o Tempo” - Pensamentos sem tempo. Para além do género de poesia gosta de escrever prosa, crónicas, contos e letras originais de músicas.
Gosta de desafios e fazer coisas diferentes, o teatro e o gosto da representação acabaram por surgir ligados à vontade de compor personagens, compor histórias para um romance que pretende escrever a médio longo prazo. Nos seus tempos livres, para além da escrita, leitura, danças latinas, gosta de fotografia, captar momentos que servem de inspiração para a sua escrita, para a criação de pensamentos, ideias.
Sentir e escrever sobre a vida, os outros, as aprendizagens e experiências recebidas são o que mais a movem na sua busca constante de evoluir como pessoa, como mulher.

Para abrir o apetite sobre a escrita desta autora deixamos aqui um dos poemas incluídos no seu livro AGARRAR O TEMPO - Pensamentos sem tempo, com chancela Chiado Books

Maré de calma e de agitação

Trago este mar nos
meus sentidos,
trago esta
imensidão no meu
profundo olhar.
Trago a maré
de calma e
também maré
de cólera quando
é preciso lutar, quando é
preciso atuar.
Trago esta
grandeza do
infinito no meu peito,
porque
a maré é igual
em qualquer lugar, mas o
meu mar trago-o no sentir
dos meus dedos,
no meu sorriso
e no meu olhar.

Carlota Marques Canha

Acompanhe a autora:
Pensamentos Soltos - Poesia Portuguesa

Locais de venda da obra "Agarrar o Tempo - Pensamentos sem tempo"

- Livrarias Bertrand:
Fórum Sintra
Dolcevita Monumental Lisboa
Dolcevita Tejo
Strada Odivelas
C.C. Vasco da Gama em Lisboa

- Fnac C.C Oeiras Parque

- Livrarias do Pingo Doce:
Fórum Sintra
Pingo Doce Telheiras
Pingo Doce Bela Vista Lisboa
Pingo Doce Odivelas

Edição e-book na Fnac, Chiado Books, Wook, Bertrand

Assessoria Literária: In-Finita


quinta-feira, 5 de setembro de 2019

DEZ PERGUNTAS CONEXÕES ATLÂNTICAS A... - TCHELLO D'BARROS

Agradecemos ao autor TCHELLO D'BARROS pela disponibilidade em responder ao nosso questionário


1 - Como se define enquanto autor e pessoa?

Acredito que exista sempre uma lacuna entre nossa auto imagem e como de fato as pessoas nos percebem. Parece que somos um pouco esse misto entre a pessoa que emerge no espelho com aquela que propalamos nas redes sociais, enquanto que nosso semelhantes vão em paralelo tecendo um silente perfil de nossa persona pública a partir do que pensamos, dizemos e principalmente do que fazemos. Então, incapacitado em aqui definir-me, no máximo posso confidenciar como me sinto, e neste caso sinto-me como alguém comprometido com o fazer cultural, um modesto missionário envolvido com as linguagens artísticas, um trabalhador das artes ou um operário da cultura. Como autor, já é diferente, pois o mais sensato talvez seja considerar que nossos textos digam - nas entrelinhas das entrelinhas – quem de fato somos. Minha produção textual caminha ao longo da carreira nos trilhos da Prosa e da Poesia, mas a viagem é a mesma. São contos, crônicas, o segundo romance a caminho, e um caudal de poemas que se multifaceta em trovas, sonetos, haicais, cordeis, versos livres e até poesia visual. Penso que o importante não é tanto a forma, mas de que forma podemos repassar ao leitor, através de um texto, a replicação da experiência que sentimos com o fenômeno poético.


2 - O que o inspira?

O conceito de inspiração é bastante amplo – ainda mais no terreno literário – considerando-se o quanto são diferentes os processo criativos e o quanto variam de escritor para escritor. No meu caso, as coisas não acontecem tanto pela via mais convencional da chamada inspiração. Normalmente algum assunto começa a me inquietar, começa a se repetir por algum tempo e vou percebendo sinais aqui e ali no cotidiano que acabam convergindo para aquele assunto e assim vão surgindo fragmentos de pensamentos, esboços de frases, imagens, e isso tudo vai formando uma abordagem pessoal sobre aquele tema. Chega uma hora que isso vai para o papel, para a etapa dos rascunhos, da elaboração do texto, a criação dos versos, caso seja um poema. Escrevo inicialmente sempre no papel, pois há uma organicidade no gesto da manuscritura, que facilita a e até estimula a escrita. E assim vão surgindo meus textos que falam sobre nossa experiência nesse mundo, sobre as relações afetivas, situações inusitadas do cotidiano, pessoas singulares que vamos conhecendo ao longo da vida, fé, arte, tempo e a vida em sociedade e até a vida sexual dos nudibrânqueos... Esses são alguns assuntos que, se não me inspiram, ao menos me estimulam a seguir tecendo as mais de mil páginas que tenho produzido, numa sina em que pretendo seguir em direção a esse horizonte que sempre se prolonga, prolonga, prolonga...   


3 - Existem tabus na sua escrita? Porquê?

Prefiro dizer que existe uma assertividade tanto na escolha das formas quanto na abordagem dos temas que são destilados em verso e prosa. Os chamados tabus são assim considerados de forma muito desigual, dependendo muito do arcabouço do leitor, esse personagem sempre indefinido. É tabu para quem? Quando José Saramago escreveu “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” algumas correntes retrógradas e conservadoras consideraram tabu, heresia e mesmo outros adjetivos menos elegantes, mas a comunidade acadêmica, os ateus, o leitorado erudito e o júri do Nobel consideraram a obra prima do autor.  Então, independente das opiniões heterogêneas que possam surgir, parece que o coerente é o autor seguir tecendo seu texto, com sinceridade e com a profundidade que lhe for possível. Os eventuais julgamentos posteriores são algo que não pertencem ao autor, pois a própria obra ao ser publicada, num certo sentido, também já não lhe pertence mais.


4 - Que importância dá às antologias e colectâneas?

Embora esse tipo de publicação tenha perdido o charme e a relevância de outrora, de antes da era digital, ainda é uma forma de se fazer a produção literária de muitos autores chegar aos leitores. No Brasil, grassa o equívoco de titular coletâneas como antologias, são coisas diferentes, sobejamente em publicações alternativas, cooperativadas e principalmente aquelas que não têm um conselho editorial para a seleção das obras. Não são raros os casos em que os autores pagam para participar e os que possuem maior poder aquisitivo podem comprar mais páginas para veicular suas veleidades literárias. O resultado quase sempre são publicações belíssimas em termos de produção editorial – o objeto livro – e muito pobres em termos de qualidade literária. Um editor me contou que via de regra são textos de poetas de fim-de-semana e pessoas de meia idade que já plantaram uma árvore e fizeram um filho, agora só faltaria publicar um livro, então começam publicando suas escrevinhações em blogs e coletâneas impressas. Dificilmente se verá um desses recebendo um prêmio Jabuti ou o Camões. Ainda assim, quando o projeto é realizado por pessoas idôneas, quando há preocupação com a qualidade da escrita, digo que vale a pena participar.


5 - Que impacto têm as redes sociais no seu percurso?

Sinto-me um peixe na rede, enredado até o pescoço nas malhas virtuais de um oceano digital onde vida e obra se fundem, onde realidade e virtualidade se confundem e as relações se ampliam para outras águas e novos cardumes de leitores. Lembro agora que quando surgiu o Twitter, a primeira coisa que fiz lá foi fazer uma versão virtual de minha exposição de Poesia Visual “Convergências”. Cada imagem, uma postagem. Desde que surgiu a comunicação via códigos simbólicos, os autores têm usado as mídias de seu tempo, fossem as tabuinhas com letras prensadas na argila, fossem os rolos de pergaminhos ou a prensa medieval. Se em nosso tempo e lugar temos as mídias digitais e as redes sociais virtuais, não há motivos para o autor hodierno não usá-las. E, a profusão de novas tecnologias e equipamentos está aí para potencializar a veiculação da produção autoral contemporânea, aproximando criadores e consumidores, fazendo girar mais rápida a grande roda da literatura.


6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita?

O ponto positivo é o sinal de dois-pontos, pois nos deixa atentos para algo surpreendente que está por vir. E o ponto negativo é o ponto final, pois é sinal de que acaba de acabar aquele prazer estético que aquele texto estava nos proporcionando... Brincadeirinhas a parte, talvez seja válido lembrar que, nesse universo, estamos num tempo em que nunca se escreveu tanto, nunca se publicou tanto e por isto mesmo, ampliou-se a oferta e a diversidade de estilos, propostas, gêneros, hibridismos e experimentações textuais. E, quem ganha com isso são os leitores, que tem muito mais opções para seu deleite e fruição. Um ponto que, se não é negativo ao menos deve se tornar um debate em aberto, são as políticas públicas para a publicação autoral, que são sempre reduzidas, deficitárias e sem alcançar a demanda existente.

7 - O que acredita ser essencial na divulgação de um autor?

A própria pergunta já apresenta uma resposta, ou ao menos um problema de nosso tempo atual. As pessoas se tornaram produtos de si mesmas, as pessoas são consumidas, seguidas nas redes, onde o personalismo se tornou uma marca de nossos dias, um aspecto de nossa recente pós-modernidade. Se em algum momento anterior a esta era, a força na divulgação concentrava-se mais na obra, hoje o foco é a pessoa. Não importa mais tanto o autógrafo no lançamento, importa mais a selfie, uma foto com quem está lançando o livro. Isto implica dizer que do ponto de vista do autor, sempre haverá em termos essenciais, uma preocupação com a qualidade da escrita, enquanto que as editoras se preocuparão com a qualidade do produto, o marketing editorial e sua distribuição. E ao leitor caberá em essência, ser afetado por tais divulgações e fazer a aposta em escolher este ou aquele autor para seu prazer literário.


8 - Quais os projectos para o futuro?

Já é. Meu projeto para o futuro já está acontecendo no presente e tem sido resgatar o passado.  É que venho aos poucos resgatando minhas publicações – sete livros publicados e esgotados e também textos diversos em dezenas de antologias, coletâneas e livros didáticos – produzindo edições revistas e ampliadas no formato de e-books. Esta tem sido minha estratégia em providenciar para que meus textos permaneçam e cheguem até novos públicos. Para além disto, debato-me no desafio de concluir um novo romance que venho escrevendo a parir das experiências do período em que vivi na Amazônia. O futuro é incerto sempre, mas devo voltar aos poucos a ministrar oficinas literárias em diversas instituições no intuito de capacitar pessoas interessadas em desenvolver sua escrita. Quanto à produção cotidiana de poemas, crônicas e contos, bem isso vai continuar se espalhando por aí, nas mais diversas mídias.


9 - Sugira um autor e um livro!

Sugiro “A Epopeia de Gilgamesh”, considerado por muitos como o mais antigo texto literário. Não se sabe a autoria mas a obra foi constituída de fragmentos de tradições orais da cultura suméria na antiga Mesopotâmia, ali para os lados do que hoje se conhece como Iraque.   


10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

Nunca me perguntaram: quem é você? E se perguntassem, não sei se eu responderia o seguinte: sou o demiurgo de um sonho metafísico numa sanha idiossincrática, sincrética, em sinas de acasos e insanos ocasos de êxtases. Meu signo, uma esfinge estática, estética, cujos olhos desatam a linha do horizonte entre mantras e tantras. Viajor fugaz em trânsito entre o inusitado e o insólito, riscando a abóbada celeste nas asas do sublime. Na mão direita, os nomes das potestades, e na esquerda a chave das comportas do tempo. No lado escuro da lua, um quasar pulsante ilumina a passagem dos meus cometas feéricos, enquanto minhas musas celebram núpcias no palco de um teatro diáfano, ora sacro, ora profano. Nos olhos, mandalas quânticas que se fecham para poder ver as auroras edênicas. Na voz, jaz uma espada flamígera, um grito em lume de neon, raio de aura púrpura, hálito de tântalo e saliva de cicuta. Nas veias, uma torrente violácea, âmago de magma rubro, caudal de labareda ígnea em ascese de volúpias e olores de âmbar. Meu ofício, esse cotidiano jardim onírico, sem jade ou alabastros, erige um labirinto de epifanias com pétalas das letras com as quais construo templos de enlevos, pontes de estesias e umbrais de alumbramentos. Tenho convidado bem poucos para essa festa, mas os que sabem com quantos abraços se escreve a palavra arte, bem, esses tem acesso garantido nesse sarau tão inefável quanto infinito.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

IN-FINITA APRESENTA... OUTROS TANTOS DE FLÁVIO ULHOA COELHO



Em vésperas do lançamento oficial do novo livro de Flávio Ulhoa Coelho, deixamos aqui o parecer de Krishnamurti Góes dos Anjos sobre OUTROS TANTOS


Belo exemplo de criatividade e sensibilidade em “Outros tantos” de Flávio Ulhoa Coelho
Por Krishnamurti Góes dos Anjos
Encontrar um diálogo oportuno e frutífero com o pensamento de grandes escritores do passado no que vem sendo publicado atualmente na Literatura é um achado gratificante. Sobretudo, quando boas ideias são redimensionadas sob um viés de criatividade e competência intelectual. Lembremos de um passado relativamente recente.
No ano letivo de 1985-86, o escritor italiano Ítalo Calvino (1923 - 1985) iria proferir palestras na universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Ele definiu como tema os valores literários que mereciam ser preservados no curso do próximo milênio; imaginou seis conferências e escreveu cinco. A morte prematura o impediu de concluir o seu trabalho, “Seis propostas para o próximo milênio.” Propostas que, segundo ele, seriam úteis para renovar a linguagem escrita contra “a peste da linguagem” e “o dilúvio das imagens pré-fabricadas”, males que estariam assolando a Modernidade. Tal peste se manifestaria como a perda de força cognitiva num automatismo que tende a nivelar a expressão sobre as fórmulas mais genéricas, anônimas, abstratas, a diluir os significados, a cegar as pontas expressivas, a apagar qualquer centelha que jorre do encontro das palavras com novas circunstâncias. Calvino estabeleceu afinal, Proposições a que deu os nomes de Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade, Multiplicidade e Consistência, esta última perdurando inconclusa. Propostas estéticas, que se imporiam como armas de resistência, meios de intervenção e de atuação do escritor em relação ao mundo.
Calvino entendia a Leveza (no sentido de retirar o peso das coisas), apontando para o peso existente no mundo, um peso que deve ser filtrado, amenizado pela operação literária. A partir da consciência da existência do peso que podemos e devemos buscar a Leveza. Tornadas leves, as coisas e os seres adquirem velocidade, escapando de qualquer controle. Por isso, não é à toa que Calvino escolhe a Rapidez como proposta que se seguirá imediatamente à da Leveza. Sem jamais perder de foco o mundo não escrito, Calvino contrapõe a Rapidez que ele propõe para a Literatura, à velocidade que percebe nos meios de comunicação. Por isso, também no início da sua segunda conferência, ele adiantou que “o valor que quero recomendar é justamente este: em uma época em que outras media velocíssimas e de extensíssimo raio triunfam, e arriscam achatar qualquer comunicação em uma crosta uniforme e homogênea, a função da literatura é a comunicação entre aquilo que é diferente em tudo quanto é diferente, não camuflando, mas exaltando a diferença, segundo a vocação própria da linguagem escrita”. Vemos assim a Rapidez como instrumento de comunicação direta, para fazer contato com Tudo. Acrescentemos que a Rapidez também nos serve para que possamos ver e captar as coisas sem que elas passem pelo controle, pela análise do consciente, como se ao mesmo tempo as surpreendêssemos e fôssemos surpreendidos por elas.
Já a definição de Exatidão, se baseia em três pontos, a saber, 1) o desenho da obra bem definido e bem calculado; 2) a evocação de imagens visuais nítidas, incisivas, memoráveis, e 3) uma linguagem a mais precisa possível como léxico e como demonstração das nuances do pensamento e da imaginação. A comunicação exata entre as coisas. O uso exato e justo da palavra, “associa o rastro visível à coisa invisível, à coisa ausente, à coisa desejada ou temida, como uma frágil ponte de fortuna lançada sobre o vazio. Já em sua proposta da Visibilidade, Calvino chama a atenção para o fato de que é por meio da capacidade de imaginar (transformando palavras em imagens, imagens em palavras), que conseguimos criar novos mundos, novas linguagens, renovamos a (nossa) vida, tal como ocorre com a Natureza. Queria ele, que víssemos também com os olhos da nossa alma, usando criativamente a linguagem de modo que possamos tanto reciclá-la num eterno retorno do efêmero, quanto torná-la vazia para partirmos novamente do zero.
Quanto à Consistência que ele não teve tempo de elaborar, seria, segundo alguns estudiosos, o que tornaria para nós visível e exata uma sensação de Totalidade, de conjunto para tudo aquilo que, no mundo escrito e também no mundo não escrito, parece escapar de nós em sua Leveza, Rapidez e Multiplicidade.
A publicação de “Outros tantos” do escritor Flávio Ulhoa Coelho, reúne 32 contos (alguns com estrutura de crônica), agrupados em 6 partes sob os títulos que foram tão caros à Italo Calvino: Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade, Multiplicidade e Consistência. E o que o leitor encontra é em evidente exemplo de criatividade. Parece-nos que tal divisão é meramente esquemática, intuitiva, sem ligações rígidas com o pensamento de Calvino, diríamos mesmo que constituem um flexível exercício em torno daquelas ideias do escritor italiano, que são atualizadas e, em certo sentido, aprofundadas.
Em alguns textos observamos a nítida opção pelo fragmentário de vidas ou situações que se entrelaçam, em circunstâncias existenciais complexas de que o olhar eventual de um observador não daria conta. O olhar do ficcionista recolhe “traços” e apresenta reflexões que não possuem a intenção de organizar, mostrando que a composição do real se revela no fragmento. Ver: “E nós quem somos?”, “negro y blano”, e “A árvore darwiniana”. Há contos onde a imaginação atua como alavanca de procedimentos lógicos. E entra em cena uma dialética entre imaginação e realidade, com resultados realmente surpreendentes como acontece no excepcional, ”Ela, a ideia”, uma verdadeira aula de como o escritor lida com sua imaginação criadora.
Há ainda no autor dessa obra, uma faceta muito interessante. A partir de um enredo básico de um conto, ele escreve outro com uma abertura para: “e se fosse diferente o curso daquela história?”. A possibilidade vem em outro texto, e de uma forma muito sutil, não diretamente implícita, um mero detalhe muda a trajetória de vidas. Os exemplos mais evidentes são “Olhares flutuantes” e “Olhares futurantes” de um lado, e mantendo essa característica de variação de desfecho, mas aprofundando sentidos, temos “Os momentos mais eternos” e “Conto de natal”. Como são textos muito bem trabalhados no nível da construção ficcional, perduram na memória do leitor e, quando este lê o outro texto, percebe claramente que emergem detalhes e circunstancias já ventiladas, mas com uma iluminação mais intensa. Habilidade típica do contista que domina plenamente a sua ficção em toda e qualquer direção que entenda dar-lhe.
Em outras narrativas encontramos profundas reflexões sobre a monstruosa realidade social brasileira como acontece em “O carregador de dedos” e “Um par de tiros”. Profundas reflexões porque, mais importante do que a mera reprodução de situações, o autor põe o dedo na ferida exposta. Na ferida aberta da corrupção sistêmica que assola o país, que muitos adotam e até defendem, como lemos no primeiro conto, ou o porque de nossa juventude negra e pobre (via de regra), estar sendo sistematicamente exterminada por aqueles que representam o Estado, ou deveriam representar. E não somente a triste realidade atual, o autor visita o tempo um pouco mais recuado. Veja-se o conto “A rua”, pungente relato sobre a vida de uma mulher corajosa e engajada politicamente, que é assassinada durante o escrotíssimo (desculpem mas não encontro outra palavra), regime de exceção que tivemos no Brasil durante vinte e tantos anos, e que todo mundo sabe muito bem qual foi. Contos assim, nos levam a reconhecer, com pesar, com muita dor, que o Estado brasileiro foi mesmo forjado na violência e na exclusão, e continua desgraçadamente nesse triste percurso.
Não poderíamos deixar de mencionar finalmente, o doce lirismo que exala em textos como “Bonde 53”, “mãos dadas no parque”, “guardanapo”, “achados e perdidos”, “morto no corpo” e “por ora”. Esses textos, todos, com suas características e circunstancias peculiares claro, nos fazem lembrar das coisas boas da vida, sim, por incrível que possa parecer, a vida os tem. E então somos capturados inapelavelmente por sensações e sentimentos bons quando lemos textos que excitam a memória de tempos idos, ou a maravilha que é estar apaixonado, ou ainda a delícia e a dor da entrega impensada. Quem não lembra dos vestígios daquele amor que poderia ter sido e não foi? Que bem nos faz constatar a transitoriedade de nossas dores de amor que refluem com o tempo para o mais completo esquecimento? Que dizer então, da doçura que é sentir-se amado?
E, paralelamente ao que já referimos e, dentro da diversidade dos temas e formas trabalhados, que dão um sabor todo especial ao livro, salta aos olhos a elegância e a qualidade literária da prosa. Sem sombra de dúvida podemos afirmar que “Outros tantos” do escritor e professor Flávio Ulhoa Coelho consegue abrir espaços de interrogação, de meditação e de exame crítico Em suma, enseja a proveitosa relação com nós mesmos, com o nosso mundo interior através do mundo que o livro nos abre.

Livro: “Outros tantos” – Contos de Flávio Ulhoa Coelho – Editora Penalux,
Guaratinguetá - São Paulo - SP, 2019, 198p.

ISBN 978-85-5833-531-7