segunda-feira, 16 de maio de 2022

Em terra firme (excerto 2) - ANANDA LIMA

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Era final de tarde quando chegamos ao destino. A casa onde ficamos era linda, o quintal tinha uma beleza inenarrável. Ele, o mar, estava ao fundo, com suas ondas tranquilas beijando a praia, com raios de sol rasgando o céu em tons de amarelo e laranja, numa superposição inebriante, naquele final de tarde. Algumas pessoas fazendo caminhada, poucas crianças correndo. Parei e apenas contemplei. Todas as palavras estavam, dentro de mim, mas não podia externá-las, pois a poesia se materializava. Apenas agradeci a Deus por aquela visão, por estar ali. As pessoas conversavam, mas já não as escutava direito de tão imersa que estava naquela paisagem.
Todas as manhãs acordava cedo e fazia uma caminhada na praia, às vezes sozinha, às vezes acompanhada. É gostoso pisar na areia fofa ou úmida, nos traz a certeza de terra firme. Nestes momentos conversava comigo mesma, conversava com Deus, com os espíritos. Passei alguns dias fazendo uma retrospectiva de alguns acontecimentos que me tocaram bastante, tentando me despir de algumas emoções.

 EM - 2020 PARTINDO PARA ALTO MAR - ANANDA LIMA - IN-FINITA

domingo, 15 de maio de 2022

Eu acredito - VÍTOR PAIVA DUARTE

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Eu acredito que enquanto a minha alma sorrir para ti, o teu sorriso não me sai da cabeça e o teu calor não me sai do coração... e é esse o segredo da paixão que me faz gostar de ti “até mais não”!
Eu acredito em tudo o que os teus olhos me dizem quando se perdem em mim, silenciosamente a falar no coração da sua infinita emoção!
Eu acredito que os beijos são pequenos grãos de amor que te ofereço livremente, como sementes que lanço ao coração fértil. Acredito que pedir-te beijos é como se te beijasse e matasse desejos. E roubar-te beijos é como colher do teu coração o amor que me acalma a paixão!
Eu acredito que o amor é mais do que uma amizade verdadeira, porque te quero ter inteira, sempre à minha beira, sem barreira nem fronteira!
Eu acredito nos olhares que são abraços, que os carinhos criam laços, e o amor ocupa os espaços, vazios do coração!

EM - POETIZAÇÔES EM PROSA - VÍTOR PAIVA DUARTE - IN-FINITA

sábado, 14 de maio de 2022

Reptos (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Gosto imenso de reptos e, acima de tudo, de auto-reptos, que são aqueles que, na minha opinião, claro, melhor contribuem para nos formar como adultos responsáveis, aqueles que fazem de nós aquilo que nós somos! Mas, nem sempre assim foi…

Quando somos jovens, gostamos de desafios (por definição básica do termo “jovem”), de riscos, de sentir a adrenalina a congelar-nos e aquecer-nos no mesmo instante mas, tememos decisões que envolvam profunda e decididamente o nosso futuro. Creio que se pode compreender isto pela falta de experiências e vivências que só a vida e as dificuldades nos proporcionam e que os jovens ainda não possuem. Com certeza que esta visão poderá não se aplicar a cada um nós como definitiva mas… aplicava-se a mim, naquela época.

Nos meus verdíssimos vinte anos, fui seleccionado (ainda hoje não entendo quem descobriu em mim resíduos de um perfil físico ou psicológico especiais) para prestar provas em Vale de Zebro, a “nossa” Escola! Naquela época, em 1976, apesar de já ter comido algum do pão que o Diabo amassou, não tinha a mínima ideia nem do que significava a sigla FZ (muito menos, FZE!) nem do significado profundo e marcante para tantos portugueses de ser Fuzileiro!

EM - CONTOS E CRÓNICAS (IN)TEMPORAIS - VÍTOR COSTEIRA - IN-FINITA

A magia dos anjos (excerto) - PEDRO SILVA

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Não gostaríamos de deixar passar em claro uma das vertentes do estudo dos anjos que, presentemente, tem ganho mais adeptos – a invocação da magia dos anjos. Esta magia “é uma arte antiga que permite aos humanos iniciar o contacto com estes seres (sempre que pareça necessário ou prudente) através de rituais, orações e práticas que os convocam à terra. Apesar de a magia dos anjos ser compatível com as crenças religiosas, o seu propósito é bastante diferente da finalidade das orações religiosas. Sir James George Frazer, no marcante tratado sobre antropologia, The Golden Bough (O Ramo de Ouro) faz claramente essa distinção. A característica da religião é a adoração. É algo passivo. As orações oferecidas a Deus são pedidos humildes. A magia dos anjos é totalmente diferente. Implica controlo. A magia dos anjos, tal como a conhecemos hoje em dia, baseia-se maioritariamente numa quantidade de manuscritos que foram copiados e recopiados nos períodos medieval e renascentista. Esses manuscritos, conhecidos por Grimoires ou texto herméticos, continham rituais complexos, tidos como capazes de invocar os anjos. Porque a doutrina da igreja se opunha à magia dos anjos, foram poucos os Grimoires a ser publicados antes deste século”., pp. 26-27 da obra atrás citada da autoria de Geoffrey James.
Grosso modo, os primeiros rituais de magia relacionados com anjos surgem cerca do terceiro milénio anterior a Cristo. Estas inscrições líticas (na pedra) tinham, naturalmente, a sua vertente ligada à natureza. Dois mil anos depois, a cultura egípcia retoma o tema, acreditando que os anjos podiam ser controlados, desde que utilizando os rituais correctos. Para eles, um homem, desde que se dedicando afincadamente aos estudos ritualistas, podia elevar-se à categoria dos anjos.

EM - O OUTRO LADO DA HISTÓRIA DO MUNDO - PEDRO SILVA - IN-FINITA

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Grinalda de emoções (excerto 9) - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA

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Até que ao virar para a Rua dos Brancos, onde tinha nascido o meu falecido pai, dei de caras com a Paulinha, filha da Dona Lisete, da loja, que abrindo a boca de espanto, se agarrou a mim, rindo e chorando, ao mesmo tempo, enquanto dizia: - “ai a minha querida amiga, tanta saudade que tinha de ti” – e repetia – “ai a minha querida amiga, tanta saudade”. Retribuí aquele abraço e senti em mim aquela saudade. Paulinha tinha sido criada comigo, andáramos na mesma escola a aprender a ler e a escrever. Ela ficou apenas pela 4ª classe e eu segui. Fui para Lisboa, onde tirei o meu curso, tendo regressado aqui para casar, pois quando de cá saí, já namoriscava o Miguel, o meu grande amor, o único homem que me soube fazer feliz. A Paulinha estava na mesma, quer dizer, um pouco mais forte e os fios brancos do cabelo já eram mais do que os louros de nascença! À parte isso, estava igual, igual a si mesma, pois de imediato me contou a vida dela, os casamentos fracassados, já ia no terceiro, os filhos que sonhou, mas que nunca teve, felizmente, senão seriam uns coitados, sem pai, palavras dela ao contar-me as histórias e o regresso à vila para tentar viver uma vida calma e recatada, sem homens que a chateassem. Eu, pouco ou nada disse de mim, pois ela absorveu todo o tempo para desabafar. Era tarde e cada uma de nós tinha de regressar a casa. Combinámos encontro no café do senhor António, agora explorado pelo filho, o Carlitos, quer dizer, o Carlos, agora já é um homem de respeito, o miúdo ficou para trás.

EM - GRINALDA DE EMOÇÕES - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA - IN-FINITA

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Maldito funeral - LUÍS VASCONCELOS

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Um dia fui com a minha mãe ao funeral do familiar de uns amigos nossos. Nestas povoações mais pequenas, qualquer pessoa desconhecida é alvo de todas as atenções. Imaginando o que me ia acontecer eu quis ficar na carrinha. De súbito entrou um amigo meu e disse-me: “Luís, os rapazes que estão lá fora pensam que tu és uma rapariga! Já me fartei de lhes dizer que és um rapaz, mas eles não acreditam. Querem ver a tua pila!”. Eu virei-me para o meu amigo e disse-lhe: “Manda-os foder!”. Entretanto obrigaram-me a ir à casa onde estava a morta. Durante o trajeto, ouvia-os falar uns com os outros: “Vês é uma gaja. Feia como o caralho, mas é uma gaja!”. Eu engolia em seco, e mantinha-me calado. Chegámos à tal casa onde supostamente deveríamos entrar, pois era lá que o corpo da defunta estava a ser velado, mas estava bastante gente à porta e tivemos de esperar algum tempo cá fora. Foi então que alguns gajos, armados em parvos, aproximaram-se de mim e foram-me apalpando o rabo. Puseram-se em fila e um a um foram-me apalpando como se eu fosse, de facto, uma rapariga. “Mesmo sendo feia, dava-te uma foda!”, diziam baixinho alguns deles. Eu estava com uma raiva canina deles. Se tivesse ali uma caçadeira nas mãos tinha disparado! Estava com tanta raiva, que até lhe sentia o sabor. Não aguentei mais, voltei para a carrinha, e chorei, ali sozinho, com toda a raiva que ardia em mim! Lembro-me também de outras situações lamentáveis, como por exemplo, na escola secundária que frequentava. Cada vez que eu tinha Educação Física era um dia de uma enorme tensão, angústia e ansiedade. Tinha que entrar no balneário dos rapazes, para vestir a roupa de ginástica, e depois das aulas, tomar banho.

EM - NINHO DE CUCOS - LUÍS VASCONCELOS - IN-FINITA

Fragmentos da janela de um ônibus - ITANIRA SOARES

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Da janela de um ônibus, descobri coisas, pintei paisagens.
Vi olhos descoloridos, sorrisos fáceis, de repente até lágrimas eu vi cair de rostos desconhecidos.
E o meu olhar cansou dos olhos de rua, onde a esperança morria dentro daquele ônibus, a tristeza matava o sorriso e meu coração despertava em busca do meu Deus que quase esquecido estava dentro de mim.
Debrucei-me na janela, fechei os olhos e fiz uma prece contrita.

EM - PELOS CAMINHOS DO MEU UNIVERSO - ITANIRA SOARES - IN-FINITA

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Um paradigma eco-ético social (excerto) - JOAQUIM SILVA

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Enquanto este subdesenvolvimento psíquico - espiritual durar, as nações que pretendem se desenvolver do mesmo modo que os desenvolvidos cometem os mesmos ou piores erros, pois efetuam dum desenvolvimento desordenado, sem metas ideológicas, baseado na exploração e degradação social e ambiental. Em todo o mundo cresce, por inverosímil na Era Planetária, um número crescente de exércitos privados, de retorno dos fanatismos nacionais e religiosos, sem um centro ou uma organização humanista capaz de impor o ideal de Civilização versus Barbárie. A miséria material dos desenvolvidos contribui para a miséria económica dos subdesenvolvidos e tudo isto contribui para a corrupção geral, o avanço do crime global, os políticos das democracias autênticos reféns desta nova ordem, dos novos senhores do mundo, que mandando no capital, brincam com a desordem mundial.

EM - A VIA DA SÍNTESE III - JOAQUIM SILVA - IN-FINITA

Em terra firme (excerto 1) - ANANDA LIMA

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Era dezembro de 2019, corríamos com os compromissos sociais e profissionais assumidos. O ano tinha sido bastante desafiador, exigindo energia para administrar as adversidades e intempéries próprias da vida humana. A possibilidade das férias era um refrigério para nossas mentes e emoções, após vivências tão intensas ocorridas durante o ano.
Íamos ver o mar, íamos estar com o mar, íamos sentir o mar!
O mar representa renovação, reenergização. É o encontro com a alegria e a paz, com a esperança. Aquela abundância de água, me traz a presença de Deus e o quão é perfeita sua obra. O vai e vem das ondas, ora pequenas, ora grandes, me faz refletir a dinâmica da vida, sua alternância de emoções e situações cotidianas.
Isso era refrigério! Era o que precisávamos para nos despedir de 2019 e recepcionar o ano de 2020. Certamente, seria uma transição de ciclo renovador, despedir-se do velho para acolher o novo.
Então, definimos o destino, as companhias e seguimos. Parecíamos crianças de tão ansiosos que estávamos. Praticamente não dormimos na noite anterior à viagem. Mas era permeado de bons sentimentos, de uma expectativa boa. Sentíamo-nos em terra firme.

EM - 2020 PARTINDO PARA ALTO MAR - ANANDA LIMA - IN-FINITA

terça-feira, 10 de maio de 2022

Do Éden ao Olimpo (excerto) - LUANA SCHRADER

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Mulher, presença divina desde antes da criação da humanidade. Ser mulher é ser divindade, temida e desejada; repudiada e idolatrada. É ser essência e reverberação do poder imaculado em sua mais genuína potência.
Lilith e Eva, símbolos de pecado e temor; amor e rancor. Dualidades sistêmicas e plurais, livres de definições.
Afrodite, Hera, Artemis e Athena, deusas do Olimpo que regiam a vida; responsáveis pelo nascimento e pela morte, pela colheita e pela escassez, pelo inverno gélido e pela primavera florida. As deusas que definiam destinos e benefícios, desde as estações à suas emoções.
Mulheres sempre foram regidas por Gaia, sendo a personificação da real beleza e detentoras do fluir da vida; intuitivas e reativas, desde os primórdios, possuíram o poder da transmutação e transcendência.
Na arte, inspiração; na musicalidade do samba e MPB, musas inspiradoras; dos pintores e criadores, a mola propulsora da mais bela composição.
Mulheres, desde o princípio, foram eternizadas e retratadas em toda a sua graça e presença divina. Às vezes, odiadas e repudiadas, mas sempre fizeram parte da criação da humanidade.

EM - INTUIÇÃO - COLETÂNEA - IN-FINITA

O teu rosto é perfeito - VÍTOR PAIVA DUARTE

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O teu rosto é perfeito, é redondo e direito, nem largo nem estreito, completamente bem feito!
No teu rosto está a alma, está a fúria e a calma, está o queixo e o nariz, e na boca um sorriso feliz. E por cima dos olhos estão destroços e escolhos de amores aos molhos, pois o amor está nos olhos.
E no teu rosto bonito está marcado e está escrito o teu passado interdito e que eu acredito que jamais será dito, de hoje até ao infinito.
O teu rosto tem a vida da beleza contida dos anjos do céu e da noiva servida tapada pelo véu. A tua boca é uma fonte de pecados sonhados, beijada de fronte nos lábios molhados, onde mil beijos roubados são tão desejados e outros tantos, serão negados.
O teu rosto é lindo, sempre sorrindo mesmo se chora por um amor desavindo que se foi embora. O teu sorriso cativa, faz andar à deriva e atrapalha os sentidos que ficam perdidos.
Mas é a harmoniosa doçura do teu rosto de princesa que faz da libidinosa loucura, a minha fraqueza.

EM - POETIZAÇÔES EM PROSA - VÍTOR PAIVA DUARTE - IN-FINITA

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Anjos: o que são? (excerto) - PEDRO SILVA

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“Segundo as lendas, nem todos os anjos são benignos. Na tradição cristã, o mais poderoso dos anjos é Satanás, que se rebelou contra Deus e, como castigo, foi lançado para o Inferno. Muitos outros anjos revoltaram-se com ele e são estes anjos caídos que formam as hordas de diabos tão predispostos a tentarem a Humanidade. Tal como os anjos benignos, os diabos levantam questões teológicas. Por exemplo, por que é que Deus consente a sua existência? Que o ser supremo permita que a terra fique infestada de espíritos perigosos viola todas as regras do senso comum. O enigma agrava-se com a leitura das passagens da Bíblia que sugerem não haver grande diferença entre os anjos e os diabos. (…) Tanto anjos como diabos pertencem a uma tradição anterior, a que precede a formação da Igreja Cristã. Surgem, sob diversas aparências, nos contos folclóricos e religiosos de centenas de culturas. Aquilo que os cristãos denominam anjos, outras religiões chamam deuses, deusas (divas), jinn, kamis ou demónios.” (citado da obra A magia dos anjos, da autoria de Geoffrey James, Livros de Vida Editores, 206 pp. – Original: Geoffrey James, 1995), página 15.
De facto, esta citação do eminente estudioso norte-americano Geoffrey James, professor universitário, dá azo a várias questões. Não é por isso à toa que este autor, na obra anteriormente citada, afirma que “há algo misterioso em jogo quando as pessoas persistem em acreditar na existência de alguma coisa que, para além de ser muito antiga, é totalmente contrária aos princípios da ciência moderna e do materialismo popular”. Isto é, como é fácil de perceber, a crença em anjos, para além de milhares de anos enraizando tal no subconsciente do ser humano, parte de uma necessidade intrínseca para explicar fenómenos que, sem sombra de dúvida, não entendemos ou que, por vezes, não queremos compreender.

EM - O OUTRO LADO DA HISTÓRIA DO MUNDO - PEDRO SILVA - IN-FINITA

O fantasma do fantasma (excerto) - VÍTOR COSTEIRA

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Como será que ele me vê? Que achará ele de mim? Que palavras diria, se as pudesse dizer? Sinto-me curioso, faço-lhe perguntas, tento brincar, mas não… nada dá certo! Ainda se eu, alguma vez, tivesse aprendido a brincar!…
Por vezes, dou por mim a fazer planos daquilo que irei fazer, do que lhe irei dizer, como irei andar e sentar-me para ele me seguir, me copiar, mas quando ele chega nada me ocorre, nada sai bem, nenhuma palavra animadora é dita, nenhum gesto estudado é feito como foi, de facto, estudado e o feito não surte efeito! Mas porquê?! Assim, não posso ajudá-lo… é tudo, apenas, um jogo de luz e sombras sobre a pele.
Quando um amigo necessita de ajuda, temos que o ajudar, apoiá-lo, fazendo sacrifícios, revolvendo o mundo, em busca de solução, imaginando novas palavras, dando o que de melhor temos mas, apesar de eu não acreditar em fantasmas, sinto-me amigo deste, sinto que, se calhar, temos algo em comum e, se conseguisse fazer com que ele se sentisse melhor talvez ele não aparecesse mais e eu seria mais feliz, também!

EM - CONTOS E CRÓNICAS (IN)TEMPORAIS - VÍTOR COSTEIRA - IN-FINITA

domingo, 8 de maio de 2022

Grinalda de emoções (excerto 8) - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA

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Passei na rotunda onde fica a piscina, considerada uma das melhores do Baixo Alentejo. Que maravilha! Que orgulho na minha terra.
A tarde passou e eu regressei a casa. O cheirinho a alfazema pairava no ar. Sentia-me triste… para além da minha habitual tristeza, também me atormentava a tristeza das minhas ruas de outrora estarem vazias e sem vida. Como iria passar os meus dias sem ninguém meu, com quem falar ou mesmo, com quem trocar os meus silêncios? Que vida me esperava? Eu que pensara encontrar ali a paz que necessitava para continuar! Sim, paz havia, até de mais, mas não, a paz familiar que eu queria.
O doutor Alberto já me telefonara várias vezes, desde que saí da Figueira da Foz. Embora eu lhe dissesse que estava tudo bem, ele conhecia-me muito bem e sabia que eu estava a ocultar a realidade. A minha voz denunciava a minha desilusão. Ele sabia que eu lhe estava a mentir, mas fingia acreditar.

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sábado, 7 de maio de 2022

Desfile das árvores quando vou pela estrada - ITANIRA SOARES

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Árvores posando. Algumas nuas, sexys, outras bem vestidas, de verde, marrom, estilosas, postura elegante, pernas em desalinho, característica própria, prontas para a fotografia. Sorrisos não vejo. Com certeza todos os gestos naturais são do momento, de acordo com a velocidade dos ventos, sensualidade aprimorada de feras, felinos, panteras.
A passarela é comprida, interminável, deslumbrante e bela.
As top moldem elegantes, imperando o verde.
Braços nus, pernas arqueadas nem sempre eretas. E o público com olhos que correm nem sempre param para aplaudir.
E o meu olhar caça talentos
O vento é a câmara mais precisa no virar de seus corpos. Movimentos lentos, desengonçados as vezes, cinegrafistas invisíveis, coreografias as mais bem apresentáveis.
Belos varais espalhados estrada afora. Manequins vegetais serenos.
Lojas fashions ao ar livre. Looks criativos da maior estilista do Universo, a Natureza.
Assim meus olhos correm pela estrada de asfalto negro, minha imaginação cria, reflete, acredita no mudo sorriso das modelos mulatas trigueiras pelo sol, aplausos incessantes que o vento contribui com o grito, passarela sem fim da minha imaginação infinita e bela.
Nas passarelas da vida muitos desfiles ainda terei o prazer de assistir nas estradas que o tempo me permitir ser produtora, admiradora, criadora, e dona dos maiores aplausos por onde eu passar.
Parabéns Natureza!
Parabéns Universo!

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Bullying (excerto 2) - LUÍS VASCONCELOS

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Depois de uma infância de sonho, tudo desmoronou quando cheguei à puberdade e adolescência por volta dos meus 13 ou 14 anos. Devido a uma insuficiente produção da hormona sexual masculina, responsável pelo desenvolvimento dos órgãos genitais, e caraterísticas masculinas normais próprias de um rapaz daquela idade, o normal desenvolvimento do meu corpo ficou gravemente atrofiado. Aí começaram os agudos problemas com a minha autoimagem. Eu observava os outros rapazes que cresceram comigo e estavam a ficar tão diferentes de mim. Eu mantinha a minha aparência infantil e, pior, engordei, e o meu corpo começou a ficar efeminado. Era constantemente confundido com uma rapariga, outros gozavam-me e mandavam “bocas” porque não conseguiam saber o que eu era. Que espécie de “bicho” ou aberração da natureza era eu? A que mundo pertencia em termos de sexualidade? Antes de alguém ter um nome, família, nação, religião, clube desportivo, partido político ou profissão, é-nos atribuída uma identidade sexual! Não existe nada mais primordial e essencial do que essa caraterística para alguém saber o que é nesta vida.

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sexta-feira, 6 de maio de 2022

Içando velas (excerto 2) - ANANDA LIMA

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A respeito do nódulo, o que eu sabia até então era somente características. Era irregular, margens espiculadas, media 0,59 cm e estava classificado como ACR BI-RADS 5. A médica disse-me que em razão de ser muito pequeno os procedimentos deveriam ser feitos num centro de alta complexidade em oncologia. Tudo aquilo me soava estranho, mesmo sendo pequeno, aquela classificação era cruel. Fui à internet tentar saber o que seriam esses BI-RADS e suas variações. Então, constatei que o 5 era 95% de probabilidade de ser uma lesão cancerígena. Fui observar em exames anteriores e encontrei o bendito BI-RADS, mas era 0, inofensivo, não apresentava risco.
Sem dúvida, dar a notícia às pessoas mais próximas foi o processo mais doloroso, me doía mais do que ter recebido a notícia em si. Minha preocupação com minha filha, minha neta. A incerteza do amanhã, de como ficariam suas vidas se eu não estivesse mais com elas, me doía. Me preocupava com meus pais. Minha mãe demonstrava ser forte, mas estava inundada em preocupações. Meu pai se refugiava achando que era um equívoco, não era nada daquilo que estava sendo dito. Meus irmãos se apresentavam muito preocupados e atônitos com aquela notícia. Meu marido procurava demonstrar serenidade diante da situação, me dava ânimo.

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Um paradigma eco-ético social (excerto) - JOAQUIM SILVA

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A visão Economicista, quinquenal do Socialismo, ou tecnológica/consumista, são ambos bárbaros na sua aplicação, porque tendo por ideal primeiro a superioridade do pensamento positivo e da Ciência sobre os demais conhecimentos, eliminando-os de modo bárbaro, erradicando-os lenta mas gradualmente das universidades. No caso do capitalismo, ou dos países capitalistas, a espiritualidade e o conhecimento folclórico e a filosofia, ainda impante nos anos 60 do século XX, mas acabou derrotada totalmente pelas tecnologias. No caso do Comunismo, a espiritualidade e o conhecimento tradicional foram transformados em meros mitos explicáveis à luz da razão e do ideário Comunista que, como Nietzsche expulsou Deus do universo Humano. A submissão da humanidade a uma razão mutilada e a um pensamento cego - que tinham por base um grande ideal de fraternidade e de abolir a exploração do homem pelo homem paradoxalmente - conduziu o Comunismo á sua auto destruição por não ter capacidade de regeneração, não abrindo espaços à respiração do pensamento; ao estado agónico da outra forma de socialismo, a social democracia, porque dependente do capitalismo financeiro e da capacidade da economia de manter unidos entre si os objetivos de redistribuição (através da valorização do trabalho e do Estado Social de suporte na doença e no desemprego), acabando engolida, após o fim do comunismo pela Neo liberalismo que deixa para trás o ideário fraterno, mas continua com a destruição das sociedades e da natureza.

EM - A VIA DA SÍNTESE III - JOAQUIM SILVA - IN-FINITA

quinta-feira, 5 de maio de 2022

És doçura - VÍTOR PAIVA DUARTE

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Ainda tenho na pele a doçura dos teus desejos que, em mim, os teus lábios traduziam em beijos e me saciavam como de um bolo de amor se tratasse!
E cada beijo desse doce bolo de amor, que secretamente me vens depositar nos lábios, irá aumentar o desejo de mais e mais, até que todos os beijos do mundo serão nossos e o nosso amor será mais doce que o mel que bebo na tua flor!
E haverá sempre um novo beijo delicioso que busco nos teus lábios de framboesa, como se o teu batom pudesse ter para mim um sabor de sobremesa!
E nesse doce de princesa que há na tua boca me irei perder, para que, perdido, te possa encontrar e fazer-te minha por inteiro com a volúpia inebriante de um amor primeiro!
Quero que sejas para mim todas as bolachas do pacote, com o amor guloso sempre a dar o mote!
Quero que sejas o meu doce, e que te entregues como se eu fosse, o teu amor desejado, um amor delicioso e aprimorado, amor forte e saboroso, amor sem juras nem promessas, doce, demorado e sem pressas, e eu peço-te ao ouvido “Doce Amor, nunca me esqueças”!

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quarta-feira, 4 de maio de 2022

Anjos: o que são? (excerto) - PEDRO SILVA

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Tal como tudo na vida existe a diferença entre o Bem e o Mal. Provavelmente seja esta a primeira noção que nos é ensinada. Isso tem a ver, quase de certeza, com questões religiosas (por exemplo, a distinção entre o Paraíso e o Inferno/Purgatório, cujo encaminhamento deriva de um somatório de actos praticados na terra).
Mas, como bem sabemos, a religião é uma forma fundamental de organização da sociedade e possui, como tal, uma forte função reguladora. Não havendo uma distinção entre o bem e o mal teríamos um mundo anárquico e, provavelmente, ainda mais incontrolável.
Digamos, em abono da verdade, que a sociedade, desde sempre, nunca foi facilmente equilibrada e que o ser humano possui demasiadas imperfeições. Por isso mesmo é que a expressão “sou humano, não sou perfeito” é utilizada de forma tão amiúde.
Desde sempre, como já tivemos oportunidade de observar, houve uma preocupação de regulamentar, principalmente por conceitos religiosos (os quais, digamos, são mais facilmente compreendidos pela população em geral), a conduta do ser humano. A história ensinou-nos que nem sempre a noção de justiça supostamente divina (e escrevemos “supostamente” pois era praticada por seres humanos e, como tal, sujeita a imperfeições) nem sempre foi aplicada da melhor maneira – citemos o caso da Santa Inquisição. Mas nem por isso deixa de ser, socialmente, fundamental para manter um padrão de alguma regulação.

EM - O OUTRO LADO DA HISTÓRIA DO MUNDO - PEDRO SILVA - IN-FINITA