sábado, 27 de junho de 2020

“Laroyê, Vô” -ANAMARIA ALVES

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A melhor máquina de fotografar são os olhos. Os meus, marejados de lágrimas embaçam a visão da pena e do papel. Mas escrevo. Vovô. Patriarca Quilombola. Meu infinito. Aquele que deixou a roça em busca de vida melhor, e de tanto teimar com a fome e com a morte, conseguiu. E me deixou grande herança. Durante o dia meu avô trabalhava na ferrovia Central do Brasil, as noites virava trabalhando como sapateiro.
Um dia, presenciou a morte de um colega de trabalho. Naquela noite dormiu de tristeza e cansaço. E em sonho viu seu irmão, que fôra esmagado por uma pedra no Quilombo Chacrinha dos Pretos. O menino meu avô não se sabia herói. Não até entender que, ao invés de chorar, precisava retirar os restos do irmão dali, carregar e aquecer com seu próprio calor o estraçalhado corpo do irmãozinho. Quem sabe se benzerem ele, o menino volta? Não voltaria. E Geraldinho seria o portador da notícia ruim. Pois foi. Coberto de sangue e sem chorar. Tinha 10 anos.
Acordou. Reuniu os filhos e foi teimar mais uma vez com o destino.
O destino que dizia que preto não podia estudar.
O destino que dizia que preto não era gente e que filho de quilombo era escravo.
Naquela manhã contou aos filhos o ocorrido na Chacrinha de sua infância e foi trabalhar.
À noite voltou com pacotes de livros e os entregou aos filhos. Meu pai em especial lembra-se claramente das palavras de meu avô:
– Filho, isso é tudo o que eu posso te dar.
Vovô Geraldo, o senhor selou o destino dos seus filhos e dos filhos de seus filhos. Quando em infância-dor, levantou aquela enorme pedra, vô menino tornou-se rocha. Seguimos aqui da Terra, teimando com a vida e com a morte graças ao seu exemplo de herói. Amor definia seus olhos de açúcar e cabelos de algodão. Eu te amo para além do sempre, meu Preto Velho.

Anamaria Alves, sobre o patriarca dos amores da minha vida, família!

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

sexta-feira, 26 de junho de 2020

DEZ PERGUNTAS MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - JAMMY SAID


Agradecemos à autora JAMMY SAID pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Qual a sua percepção para essa pandemia mundial?

Minha Percepção é que todas as pessoas estão  se reinventando em diversas questões relacionadas à Cultura e a Trabalhos. Artistas fazendo Lives e Videos com mais frequências divulgando seus trabalhos, pessoas de diversas áreas trabalhando online. Creio que quando tudo isso passar ninguém vai ser os mesmos.

2 - Enquanto autora, esse momento afetou o seu processo produtivo? Em tempos de quarentena, está menos ou mais inspirada?

Enquanto Autora esses momentos de Confinamento só aumentaram minhas inspirações, Criatividade e fazeres Artísticos. A quarentena não afetou minhas inspirações ou criatividades, ao contrario iniciei diversos projetos.

3 - Quando isso passar, qual a lição que fica?

Quando tudo isso passar eu vou procurar viajar, o que não  faço há Anos. Conhecer outros Lugares e pessoas é um Sonho que vou colocar em prática. A Lição que todo nosso tempo é muito precioso temos que gastá-lo com tudo e pessoas que se importam conosco.

4 - Os movimentos de integração da mulher influenciam no seu cotidiano? 

Os movimentos de integração  da Mulher é um tema constante em todas minhas Atividades Artísticas Culturais. Não podemos deixar de falar disso. Tenho atividade Cultural exclusiva Temática para esse Tema para fortalecer e Empoderamento Feminino.

5 - Como você faz para divulgar os seus escritos ou a sua obra? Percebe retorno nas suas ações?

Eu divulgo minhas Obras em todas minhas Mídias Sociais e as Mídias direcionadas para divulgações. Enquanto artística divulgo em todos locais que sou entrevistada. Divulgo nos Saraus que sou Coordenadora e todas minhas atividades Culturais Artísticas. A divulgação é constante.

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita para a mulher?

Os pontos positivos do Universo da escrita para Mulher é que para aqueles que sofrem algum tipo de Abusos Machistas, Agressões ou qualquer forma de preconceito podem também ser expressas através da escrita. A Mulher alcança um vôo maior de Liberdade e a escrita é também Empoderamento.

7 - O que pretende alcançar enquanto autora? Cite um projeto a curto prazo e um a longo prazo.

Estou alcançando enquanto autora os meus objetivos sem pressa, participo umas 30 Antologias/Coletâneas. Revistas direcionadas a Escrita e Poesias. Tenho um Livro Autoral e 2 Coletâneas que sou organizadora. Estou no caminho com calma.

8 - Quais os temas que gostaria que fossem discutidos nos Encontros Mulherio das Letras em Portugal?

Os Temas sugestões para o Mulherio das Letras Portugal:
O Tema do Feminicídio e Abusos contra a Mulher sempre tem que ser falado, e debatidas essas questões porque com todas conquistas das Mulheres ainda o Feminicídio é presente só aumenta e nesses momentos de confinamento do Covid19 aumentou muito mais o índice.

9 - Sugira uma autora e um livro que lhe inspira ou influencia na escrita.

Eu me inspiro em Diversas Autoras: Cora Coralina é uma Autora que gosto muito por ela ter decidido aos seus mais de 60 anos Editar seu primeiro livro, serve de inspiração  para todas as Autoras de todas as Idades. Mais são infinitas inspirações cada Autora tem a sua identidade particular que me inspira.

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

Essa Pergunta é difícil, né?
Mais pode ser a Seguinte:
Qual a Mulher inspirou você  na vida?
Eu Responderia: minha falecida Mãe Jamile Said em primeiro lugar que me ensinou ser a pessoa que eu sou. Uma Mulher forte e empoderada, uma Mulher de quem tenho muito orgulho de ser filha. E cada Mulher de minha família com suas histórias foram elas que me fizeram ter força e lutar por todas
Mulheres e todas as pessoas em condições de vida que não  possam se defender.
São por essas Mulheres!
Por todas as Mulheres que nesses meus anos de vida me fortaleceram através de seus depoimentos e históricos de sofrimentos e abusos.
Por minhas Filhas são Mãe de Meninas.
Tenho um Filho adolescente lindo e um grande homem que respeita as Mulheres.
São por todas Elas

A Mulher de Todos os Dias - ANA DIETMULLER

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Dia agitado na organização que presta serviços de aconselhamento jurídico a refugiados e imigrantes.
Nos últimos minutos de expediente adentra um rapaz de semblante grave, mas bastante educado e com bom entendimento da língua do país onde estava agora residindo.
– Bom dia, senhora. Gostaria de saber o que é necessário para trazer minha esposa, que ficou no Afeganistão.
A jurista explica todo o procedimento e os requisitos obrigatórios a serem cumpridos a fim de possibilitarem a vinda da esposa. Legalmente, tudo correto e a documentação trazida para conferência estava, da mesma forma, dentro do exigido. O marido - originalmente refugiado sírio – já residia há anos no país europeu que lhe conferiu asilo; já exercia trabalho remunerado e ganhava o suficiente para demonstrar às autoridades que tinha reais condições de trazer sua esposa para morar consigo.
Com a resposta da profissional, o consultante demonstrou alívio, mas um único detalhe foi suficiente para que retomasse o semblante grave: era também requisito obrigatório que a esposa fosse, pessoalmente, à embaixada do país que receberia o pedido de reunião familiar para entrega da documentação.
– Meu Deus, minha esposa terá de ir pessoalmente e fazer tudo sozinha?

– Sim, senhor. Do contrário, o processo não será aceito se for feito através de advogado ou terceira pessoa. Precisa ser sua esposa em pessoa.
– Sabe, senhora, por isso meu desejo em tirá-la de lá o mais rápido possível: ela, obviamente, fará tudo o que eu disser ou meu pai ou meu irmão, mas não terá muito domínio do que estará fazendo. Ela irá pessoalmente, mas, com toda a certeza, terá de ser acompanhada por um homem, porque lá as coisas funcionam assim ainda, infelizmente. Quero deixar tudo o mais “mastigado” possível no intuito de evitar complicações que ela não terá condição de resolver, por mais simples que sejam. Por isso, também, todo meu esforço em trazê-la: para que veja que as mulheres têm direitos, liberdade e podem resolver coisas quotidianas por si mesmas!
Após preencher os últimos documentos e o breve desabafo, o marido despediu-se, agradecendo a consultoria prestada.
A jurista, acostumada à repetição mecânica, diária e profissional do “sua esposa precisa ir pessoalmente”, deu-se conta de que, até então, jamais havia pensado sob esse prisma. Suspirou, silenciou e tergiversou: “a mulher, de todos os dias, que somos aqui, não é a mesma mulher, de
todos os dias, de lá. Triste!”
Envolta em pensamentos, fechou a porta atrás de si e rumou para casa!

EM - MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL (PROSA E CONTOS) - COLECTÂNEA - IN-FINITA

quinta-feira, 25 de junho de 2020

DEZ PERGUNTAS MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - EUNICE SISTI


Agradecemos à autora EUNICE SISTI pela disponibilidade em responder ao nosso questionário


1 - Qual a sua percepção para essa pandemia mundial?


O mundo não está preparado para enfrentar fenômenos pandêmicos, apesar de acontecerem através da história da humanidade. A impotência e fragilidade humana é generalizada independente de qual continente se vive. Haverá grande mudança social e econômica mundial e ficará gravada na história.

2 - Enquanto autora, esse momento afetou o seu processo produtivo? Em tempos de quarentena, está menos ou mais inspirada?

Apesar do espanto e incredulidade frente a catástrofe mundial, este momento trouxe-me maior introspecção , movida talvez, pelo sentimento de dor e solidariedade. Apesar de acontecerem momentos vazios de pensamentos, consegui escrever textos para duas Antologias nacionais e internacionais e iniciar no meu livro de histórias infantis. Sempre me surpreendo comigo mesmo ao escrever quando sentimentos estão à flor da pele.

3 - Quando isso passar, qual a lição que fica?

Que todos somos iguais e pequenos frente à força da natureza.

4 - Os movimentos de integração da mulher influenciam no seu cotidiano? 

Deve haver mudanças de mentalidades e apoio ao empoderamento feminino, claro, sem sobreposição ao masculino. Igualdade de direitos entre gêneros.

5 - Como você faz para divulgar os seus escritos ou a sua obra? Percebe retorno nas suas ações?

Há tempos atrás publicava meus textos nas redes sociais. Agora participo de Antologias nacionais e internacionais, colaboro também com jornais e revistas.

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita para a mulher?

Vejo muitos pontos positivos na participação feminina na literatura e não há como colocar a mulher em posição secundária no campo literário. Há grandes escritoras brasileiras e no exterior de reconhecimento internacional. Há gostos para todos os gêneros.

7 - O que pretende alcançar enquanto autora? Cite um projeto a curto prazo e um a longo prazo.

A princípio escrevia apenas pelo prazer que a escrita traz, depois, com a minha participação em várias Antologias passei a divulgar mais o meu trabalho e sentir o apoio real de retorno. A longo prazo pretendo publicar um livro de contos e poesias com ilustração de de minhas próprias telas, bem como um livro direcionado às crianças também ilustrado por mim.

8 - Quais os temas que gostaria que fossem discutidos nos Encontros Mulherio das Letras em Portugal?

Os temas são variados por isso difíceis de serem sugeridos.

9 - Sugira uma autora e um livro que lhe inspira ou influencia na escrita.

Sou altamente influenciável a qualquer gênero literário, mas o que mais me encanta é a bibliografia de Pablo Neruda e a poesia de Adélia Prado

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

A pergunta: O que a fez voltar-se ao mundo da poesia e da pintura?
A resposta: O desafio

Conheça a ti mesmo! - ALDIRENE MÁXIMO

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As aulas mais intensas e profundas que eu tive foram as que me propuseram não ter vergonha de mostrar meus textos ao mundo. Afinal, este dom me foi dado aos 12 anos e no decorrer da vida, busquei aperfeiçoá- lo.
Minha querida professora me dizia a cada aula que é muito importante vivermos nossas emoções... Que é natural do ser humano tê-las guardadas no coração... Que elas não devem ficar aprisionadas... Que elas precisam fluir...
Anotei todas as falas dela em meu caderninho. E as Metáforas mais corajosas, faziam cócegas em mim, até que brotasse uma Poesia.
Foi divertido e ao mesmo tempo, desafiador pois ao final do curso, eu havia escrito um livro! Quando eu mostrei o que havia conseguido libertar em questão de emoção, ela simplesmente sorriu e disse que estava orgulhosa de mim. A partir daquele momento, decidi mostrar à professora, alguns dos meus textos.
A cada aula, éramos presenteadas com uma Metáfora e eu obedecia a voz do meu coração.
Teve uma vez que mostrei 5 textos novos. Ela sorriu. Foi enriquecedor... Quanto mais eu estudava a interpretação dos sentimentos, mais Poesias brotavam. Pareciam Borboletas, dançando no estômago e saindo pelos sorrisos.
Quando eu comecei a me acostumar com a ideia, a professora simplesmente me disse que nossas aulas estavam chegando ao fim e que eu já era capaz de metaforizar a vida sozinha. Confesso que naquele dia chorei muito. Mas, sabia que assim como foi comigo, ela teria que ensinar outros alunos a se libertarem da timidez de viver lindas emoções.
Fiquei muito emocionada no último dia, quando ela me chamou de “Minha Escritora!”
Foram aulas enriquecedoras. Hoje tenho muitos diamantes lapidados. Uma riqueza gigantesca.
Minha querida professora, obrigada por me ensinar a acreditar nas mais Belas palavras e a me fazer descobrir todo o talento que estava escondido.
Cada vez que um texto novo nascer, agradecerei a Deus por ter me presenteado com tanta sabedoria. Este curso me enriqueceu muito pois o autoconhecimento é a disciplina mais importante a se aprender na escola da Vida!

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quarta-feira, 24 de junho de 2020

DEZ PERGUNTAS MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - ESTHER ALCÂNTARA

Agradecemos à autora ESTHER ALCÂNTARA pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Qual a sua percepção para essa pandemia mundial? 

Uma tragédia que, mesmo anunciada, pegou a humanidade desprevenida. 

2 - Enquanto autora, esse momento afetou o seu processo produtivo? Em tempos de quarentena, está menos ou mais inspirada? 

Eu me pego oscilando entre momentos de total desalento e angústia, por isso improdutivos, e momentos em que se revela a Esther de sempre, escrevendo poemas, quase sempre melancólicos, infelizmente. Também comecei a escrever em prosa nestes dias – novela ou romance, conforme o rumo que tomar e meu fôlego. 

3 - Quando isso passar, qual a lição que ficou? 

São muitas, mas percebo, cada vez, mais que posso viver com menos, que preciso dar valor apenas para o que e quem realmente importa. O que sempre me foi essencial agora é ainda mais: amor em suas diversas formas de expressão: amizade, companheirismo, humanidade, dignidade, sororidade, autenticidade, empatia, consciência crítica... 

4 - Os movimentos de integração da mulher influenciam no seu cotidiano? 

Sim, influenciam muito. Mesmo os que acontecem virtualmente se refletem na vida prática, em como sou no dia a dia como feminista, como mulher em conexão com as outras e também inserida em contextos mais abrangentes, sempre buscando ampliar nossos espaços. 

5 - Como você faz para divulgar os seus escritos ou a sua obra? Percebe retorno nas suas ações? 

Publico meus poemas em revistas e sites literários, além de antologias, e busco fazer com que minha poesia circule nas redes sociais. Também participo de saraus e, quando posso, até promovo alguns. Penso que eu deveria me inscrever mais em concursos – sempre fico de fora deles e sei que isso é um erro a corrigir. Sou do tipo que escreve porque precisa escrever, como algo essencial à existência. Mas é maravilhoso quando tenho o retorno de saber que minha poesia chegou em alguém, tocou uma pessoa. 

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita para a mulher? 

Penso que o universo da escrita para a mulher tem sido cavado por nós mesmas desde que nos (re)conhecemos como escritoras. No ano passado organizei e publiquei, por minha editora (a Carpe Librum), uma coletânea de escritos de mulheres sobre a relação da mulher com o livro. Ficou evidente a sintonia das autoras nas dificuldades como leitoras e autoras, desde meninas, simplesmente por serem mulheres. Como em todas as áreas, na literatura os espaços são muito mais fechados para nós; somos cercadas (e cerceadas) por tabus e condicionamentos inseridos em nossa cultura, essencialmente patriarcal, a serem quebrados. É minha luta constante, como escritora e editora, e espero que seja cada vez mais a luta consciente de todas nós. 

7 - O que pretende alcançar enquanto autora? Cite um projeto a curto prazo e um a longo prazo. 

Como autora, busco colocar a minha voz no mundo. Não quero passar por esta vida sem deixar um bom recado, pelo menos o melhor recado que posso, que tento todos os dias amadurecer em mim, no sentido humano e na qualidade dos meus escritos. Como projeto em curto prazo, estou organizando em livro uma série de poemas que escrevi nos últimos anos, tocada pelo trágico avanço do fascismo no Brasil e no mundo, que se reflete em minha poesia – preciso falar disso e tenho falado. Também comecei, durante este período de quarentena, a escrever um livro em prosa que é misto de memória e ficção – este, um projeto em longo prazo. 

8 - Quais os temas que gostaria que fossem discutidos nos Encontros Mulherio das Letras em Portugal? 

Ficaria muito feliz em saber que se incluiu na temática a literatura escrita por mulheres periféricas do mundo todo – mulheres negras, indígenas e todas aquelas que têm menos visibilidade por questões sociais, culturais ou históricas (e isso não com um olhar segmentado, mas considerando veementemente a qualidade do trabalho delas). Ou seja, gostaria que o enfoque não fosse apenas nas escritoras que já conquistaram algum prestígio, que não houvesse elitismo social nem cultural. 

9 - Sugira uma autora e um livro que lhe inspira ou influencia na escrita. 

Cecília Meirelles foi a primeira poeta que conheci, na infância, e me encantou, por isso me influenciou no começo de minha escrita poética. Clarice Lispector com A hora da estrela, também foi e é muito importante para mim. 

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia? 

E agora? Como e para onde caminharemos depois da pandemia? Adoraria ter a resposta.

As garras que me soltam... - AGNETE SOMBRA

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Me aquieto nas suas reentrâncias,
Como um alpinista, exploro e devoro,
Encontro comigo, adeus circunstâncias,
Renovo de enlace, adoro, me enamoro.

Vasculho, lhe quebro, descubro, lhe acho, me perco, percebo nos erros, acertos incertos, não sei. Sei bem que vivi, senti, repeti, encantos nos cantos tão bom de sugar.

Mistura de gostos, atiçando aromas e talvez paladar. Chega bem aqui, ponto frágil de acesso, precisando adentrar. Frações de momentos, soma de sentimentos, causando desdobramentos, tem que repensar.

O tempo repassa, talvez como asa, não pude pegar. E vai se movendo, eu não tomo tento e na orla do vento, eu vou lhe encontrar. Mas ainda não viu? Você que saiu, não quis lhe soltar. Eu sou o outro lado, não lhe ponho fardo, me come, consome, me esfola, me cola, é só se chegar.

Carcaça em vermelho, me encanta e reluz, na matiz de outras cores, no palpitar de desejos, mesmo em esforços, não me atrai, não seduz. Embalos de sonhos, vigio sem sono, me inclino a sentir, a luz emergir do fogo aceso, que resiste apagar.

Não seria sereia, aflorando sensualidades a flor das escamas. Mas talvez, na carona do tal caranguejo percebo gracejos, molejos, placebos. Não sou de metades, pedaços de partes, mas sou por inteira, asneira, tranqueira. Não só falo sério, mas ali, aqui e acolá, também sai besteira.

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terça-feira, 23 de junho de 2020

DEZ PERGUNTAS MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - ANA LANDEIRO FERREIRA


Agradecemos à autora ANA LANDEIRO FERREIRA pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Qual a sua percepção para essa pandemia mundial?

Penso que estamos perante um acontecimento trágico que a humanidade não estava preparada para enfrentar, ainda que os sinais e avisos fossem muitos aos longos destes últimos anos.

2 - Enquanto autora, esse momento afetou o seu processo produtivo? Em tempos de quarentena, está menos ou mais inspirada?

Sim. De início fiquei muito assustada e nada fazia sentido que não abordasse tempos catastróficos e a minha escrita era produto da reflexão e do sentir do momento vivido com tanta angústia.
Passado esse estádio de angústia, começou a haver vida para além da pandemia e felizmente a inspiração mudou o rumo.

3 - Quando isso passar, qual a lição que ficou?

Na verdade, não sei quando isto vai passar. Tudo são incógnitas aos mais variados níveis. Podemos falar do sentido da existência humana, mas esse tema nunca foi descurado para os mais atentos. Para os mais materialistas tudo se continuará a resumir às questões económicas.

4 - Os movimentos de integração da mulher influenciam no seu cotidiano?

Na verdade, nunca me senti desintegrada por ser mulher. Afinal sou filha de abril.

5 - Como você faz para divulgar os seus escritos ou a sua obra? Percebe retorno nas suas ações?

A minha partilha a nível do que escrevo não tem tido como finalidade qualquer tipo de projeção. Partilho o que escrevo ao participar em Coletâneas e antologias e ainda divulgo na minha página do Facebook. Faço-o porque tenho obtido muita motivação por parte de quem me lê.

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita para a mulher?

Para mim escrever tornou-se um ato de libertação.
Quando escrevo, aceito a inspiração, dou asas à imaginação, assumo a minha sensibilidade e percepção, pelo que só considero pontos positivos no universo da escrita para a mulher.

7 - O que pretende alcançar enquanto autora? Cite um projeto a curto prazo e um a longo prazo.

A curto prazo pretendo continuar a escrever com o mesmo entusiamo que tenho feito e colaborar em coletâneas e antologias.
A longo prazo pretendo lançar um livro de autor de poemas.

8 - Quais os temas que gostaria que fossem discutidos nos Encontros Mulherio das Letras em Portugal?

Gostaria que fosse discutido o tema da violência doméstica.

9 - Sugira uma autora e um livro que lhe inspira ou influencia na escrita.

Isabel Allende, sem qualquer dúvida, tendo sido O Retrato a Sépia, para mim o mais marcante livro dela.

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia?

Porque escreve poesia? Porque ela é toda a minha vivência no seio desta emergência de ser e existir.

Memórias. Fragmentos. De uma história. - ADRIANA MAYRINCK

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Menina de pés descalços correndo para agarrar o vento. Jeito de moleque, joelhos ralados e sorriso nos lábios. Perde-se nos livros e nas brincadeiras. Agarra o irmão e entre brigas e provocações, crescem. A irmã, quer fazê-la de boneca, cuida, protege. E deixa-a de lado quando lhe apetece. Criança feliz. Acarinhada, amada, mimada.

Moça rebelde que busca ir além da sua imaginação. Inconstante e inconformada com as paredes in-visíveis que lhe tolhem a necessidade de voar. Percorre abismos, montanhas e estradas. Joga-se, arranha-se – vive! Pele bronzeada e cabelos ondulados - de flores e maresia. Vestido esvoaçante da cor dos seus sonhos. Joelhos esfolados. E alma liberta. Alegria e Melancolia na mesma proporção. Rasga-se, renasce!

Filha, irmã, neta, sobrinha, tia... sempre presente – do lado de dentro - mesmo nas ausências. Deixa-se fincar em suas raízes e por mais passos que dê, carrega todos na sua história, memória e coração. Gratidão pela família que chama de sua. As de sangue... as de laços.

Amiga afetiva, respeita a individualidade de cada um que se aproxima. Permanece. Mas também deixa ir. Sofre, conforma-se. Sempre rodeada de afetos, abraços, lembranças, chegadas, partidas. Altruísta. Adora estar perto deles. Sempre. Confidências, tristezas, alegrias, aventuras, viagens, gargalhadas, debates, momentos, instantes, eternidades.

Mulher determinada e segura da sua essência. Abre caminhos com sangue, suor e lágrimas. Acredita em si, e ultrapassa todos os seus limites para realizar projetos, desejos e quimeras. Precisa do vento, do mato, do sol, do mar. Para respirar. E da lua cheia. Joelhos marcados. Intensa, impulsiva, rebelde, desprendida, distraída e teimosa. Finge indiferença – para sobreviver. Apaixonada. Derrete-se, emociona-se nas histórias de vidas. Quer mudar o mundo, revolta-se - silencia.

Mãe, solteira, intensa e incondicional. Partilha a vida, a cada segundo com o seu coração que bate fora do peito. Unidas, companheiras, cúmplices. Desfaz-se em mil pedaços para aconchegar, proteger e aquecer a sua cria. Amor infinito e incomensurável. Tem imenso orgulho do Ser Humano que trouxe ao mundo, à vida, à humanidade. Está, é, e sempre será o porto seguro, o ponto de referência e o abrigo.

Profissional rígida e responsável. Perfeccionista, parceira e agregadora. Inconformada, justa, acrescenta melhorias, regras, idealiza, luta, ultrapassa. Acredita na partilha de ideias, de ideais, de experiências. Busca sempre, e o não é o seu último recurso. Vai além das possibilidades e criações. Resiliente. Gosta de gente.

Autora indisciplinada e insatisfeita, quer saber mais, superar-se. Nas entrelinhas e nas metáforas encontra seus reflexos. Prefere deixar-se guiar por seus pensamentos e não manter uma rigidez no processo criativo. Ama a palavra em todas as suas formas de expressão. Precisa estar rodeada de livros, música, vinho e chocolate.

Esposa aprendiz, romântica incondicional, frustra-se com a falta de poesia na rotina, no avesso do outro. Avança sem medidas para a simbiose, unicidade. Embates. Sempre de mãos dadas, atadas. Mergulha no Outro, com os seus sentimentos mais profundos. Isola-se, individualiza-se e volta a superfície, sempre mais terna e convicta de que é Amor - para todos os dias - com os seus significados, elementos, sentidos, sentires, sabores e dissabores.

E meio século se passou... Nos seus dias, nas suas fases, nos seus tempos. No tempo de festejar esse cinquentenário, de celebrar e realizar... Uma pandemia mudou tudo. Adiou projetos, desejos, sonhos, convívio, viagens, encontros. Empurrou para um mergulho em si mesma, e para uma outra percepção de pertencimento. Da vida. Do agora.

Tempo de refúgio, ficar em casa, de serenidade, harmonia, filosofias, amadurecimento, questionamentos e percepções.

Tempo para re-pensar, refletir, olhar para trás e para dentro. Estar. Desconectar. Aquietar-se, encolher-se. Isolar-se. Re-inventar-se.

Tempo de olhar para o lado de fora, para os outros, para o além dos muros, das fronteiras, do mundo, das barreiras, do amanhã.

Tempo de solidariedade, sensibilidades, desprendimento, imaterialidade, efemeridades. E renovação.

Tempo de espelhos, de janelas, de ecrãs, de telas.

Reais, virtuais, irreais, surreais.

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segunda-feira, 22 de junho de 2020

DEZ PERGUNTAS MULHERIO DAS LETRAS PORTUGAL - CLÁUDIA CAROLA


Agradecemos à autora CLÁUDIA CAROLA pela disponibilidade em responder ao nosso questionário

1 - Qual a sua percepção para essa pandemia mundial?

Tudo foi alterado nas nossas vidas, mas o importante é a saúde e termos junto de nós quem mais amamos e com saúde.

2 - Enquanto autora, esse momento afetou o seu  processo produtivo? Em tempos de quarentena, está menos ou mais inspirada?  

Sim afetou, mas permitindo-me criar mais uma vez que o tempo foi mais e as questões a abordar surgiam com muita frequência.

3 - Quando isso passar, qual a lição que ficou? 

Que tudo aquilo que não nos destrói, torna-nos seres mais fortes e focados em nós mesmos.

4 - Os movimentos de integração da mulher influenciam no seu cotidiano? 

Sim sempre, a mulher é muitas vezes colocada de parte numa sociedade ainda demasiado patriarcal, ainda há um longo caminho a percorrer 

5 - Como você faz para divulgar os seus escritos ou a sua obra? Percebe retorno nas suas ações? 

Sempre que possível participar em tertúlias literárias e tenho uma pagina no Facebook onde vou dando a conhecer o meu trabalho; organizo também tertúlias de poesia uma vez por mês num clubr«e na minha terra onde também partilho os meus trabalho, estas tertúlias agora estão suspensas devido ao Corona vírus.

6 - Quais os pontos positivos e negativos do universo da escrita para a mulher? 

O Universo da escrita é difícil tanto para mulheres pois é sempre um desafio escrever sentimentos e emoções, mas é nesse desafio que está a beleza da escrita.

7 - O que pretende alcançar enquanto autora? Cite um projeto a curto prazo e um a longo prazo. 

Gostava de viver da escrita, como julgo quase todas as minha colegas gostariam, sendo a escrita uma paixão,mas sei que é muito complicado de acontecer. A curto prazo tenho a participação em algumas coletâneas e estou a pensar um projecto para um livro nova mas ainda é um projecto muito embrionário

8 - Quais os temas que gostaria que fossem discutidos nos Encontros Mulherio das Letras em Portugal?  

Tudo o que tenha a ver com mulheres se pode escrever, logo tudo se poderá falar desde o romance á espiritualidade, o mundo das Mulheres é muito  vasto.

9 - Sugira uma autora e um livro que lhe inspira ou influência na escrita. 

Sonetos, de Florbela Espanca 

10 - Qual a pergunta que gostaria que lhe fizessem? E como responderia? 

Como conseguiu alcançar um Top de vendas em Portugal com um livro sobre homens, sendo mulher? 
Responderia como mulher é mais fácil conhecer as sombras da humanidade, e no final de contas os homens só existem porque nós somos suas mães.