sábado, 27 de julho de 2013

FALA AÍ BRASIL... FLÁVIO MORGADO

Para grande honra deste blogue, o poeta Flávio Morgado, a quem agradeço antecipadamente, decidiu voltar a presentear-nos com a sua colaboração e, desta vez, dá-nos a conhecer, através do seu olhar crítico, um dos trabalhos do artista plástico Victor Mattina.

Persistido, o óbvio assusta


Antes de tudo, duas considerações.
A primeira é que não significa que um artista, seja de qual tempo for, está em plena compreensão dos mais variados desenvolvimentos intelectuais, espirituais e tecnológicos que estão ocorrendo. Escrever um texto que os coloque nesses termos talvez esteja mais próximo de uma crítica feita por um historiador da arte, o que não ocupo, e além do mais, os próprios historiadores têm prestado cada vez mais atenção às singularidades do que nas possíveis semelhanças. Creio que os artistas não tenham essa necessidade, têm seu próprio trabalho a fazer, pesquisas intuitivas a realizar. Suas tintas atingem o nosso discurso, são livres. E por isso perene.
A segunda é acerca da pintura figurativa. É importante que fique claro que o figurativo não tem a exclusividade sobre a afetação, sua comunicação não necessariamente é a mais direta. Não é um rosto exposto, com a sua riqueza de vigas e humanidades, que define nosso movimento de aproximação ao quadro. Lembremos apenas de Picasso, “Guernica” (1937): choramos com a geometria.
Dadas considerações, tentarei fazer com que me entendam melhor.
Estou aqui para falar da pintura de Victor Mattina, mais precisamente de seu quadro “Ibn Al-Shaykh Al-Libi”, o rosto do terrorista líbio.
Capturado no Paquistão e entregue aos americanos, o líbio foi torturado até o limite de inventar confissões, ligando o ataque do dia 11 de setembro de 2001 ao Iraque, e confessar-se pelo silêncio. Adquiriu vitiligo após as sessões de interrogatório e foi encontrado morto anos depois em uma cela na Líbia. Mattina o conheceu por notícias, como todos nós, seu rosto foi exposto em fotografias, como o de todos os outros terroristas que já vimos. O que fez foi se constranger, e como pintor, nos estender o constrangimento. Pintou exatamente o que vimos na fotografia.
O registro fotográfico já não nos basta? Por que levá-lo, exatamente igual, ao quadro? Ou por que não o traduziu em outra forma de expressão, talvez mais contemporânea, menos figurativa, mais abstrata?
Talvez porque ir às tintas não seja mesmo igual, ainda que mantenha os mesmos referenciais fotográficos. Talvez porque um quadro abrigue-se em nós em outro espaço que não o da fotografia jornalística. Talvez porque a abstração não seja exclusividade apenas das formas geométricas.
Percebam o diálogo que se estabelece entre a fotografia e a pintura, principalmente no que se refere ao seu lugar de fala. Imaginemos a tal fotografia na quarta página do jornal que lemos todos os dias. Agora imagine o mesmo rosto pintado e emoldurado em uma exposição, recebendo seu merecido destaque. De repente, ali, onde estamos muitas vezes para fugir dos jornais, ele reaparece: “Parece que você não me viu direito, não é?”, sua voz encorpa-se naquele lugar.
Estando ali, soa um afronte. E não é por sua técnica, sua nova interpretação, sua contemporaneidade. Não. O pintor parece usar a pintura apenas como suporte ao alarde. E talvez para isso fosse mesmo preciso manter a figura, recuperar nossa capacidade de se tocar pela figura, apenas abstraindo o espanto, inerente em qualquer banalidade. “Olha, é simples. É só isso que (não)vimos todos os dias.” Tal qual nos fosse necessário, por exemplo, expor um cacho de banana e vê-lo apodrecer por uma semana para vê-lo preso ao jugo da palavra morte. É apenas um cacho de fruta, está sempre conosco, sabemos que elas com o tempo apodrecem, mas ainda assim é necessário. Como são os que intuem nossas necessidades de espanto e silêncio. Que emolduram o não-dito. Perene e persistente.



Meu primeiro espanto suscitou um poema e referendou sua perenidade:


olhos de ouvir
 “Ibn Al-Shaykh Al-Libi” de Victor Mattina


nosso risco
pouco difere de uma fruta
que em mancha, borra
                            ferida,
                 marca a luta.

à mesa,
em tinta pústula
a morte pinta-se
             por dentro (de açúcar)
da indiferente banana

à tela, o pintor
em tinta-muda
colore
            o discurso

(aos nossos olhos de ouvir)


o silêncio desordena
                               o rosto
e acusa inocência
                              do pintado
em não reconhecer a morte
                              pelo cacho
e na palavra um capricho



- fora sempre confessado.



Flávio Morgado. Rio de Janeiro, 25 de Julho de 2013.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

EU FALO DE... ACORDO ORTOGRÁFICO


Muito se tem escrito e falado sobre o acordo ortográfico; contra e a favor. Independente da minha opinião e ignorando os argumentos de ambos os lados, aquilo que me apraz dizer é que, seja qual for o destino final desta iniciativa, ela nasceu torta e assim ficará ad aeternum.
Em primeiro lugar e, quanto a mim, o maior erro de todo este processo foi a forma arrogante como este acordo foi apresentado. Tal como vem sendo habitual na nossa sociedade, as decisões finais ganharam forma de irreversibilidade sem que em primeiro lugar tivesse existido uma discussão séria e equilibrada sobre todas as matérias. Discussão essa que deveria ter sido feita previamente e não ulteriormente, como veio a acontecer.

Se por um lado, os mentores deste acordo não se deram ao trabalho de ouvir todos aqueles que deveriam ser ouvidos, por outro lado, quem deveria ter sido escutado remeteu-se ao silêncio quando deveria ter falado e só se fizeram ouvir as vozes da discordância quando o acordo tomou corpo de lei, isto é, depois que foi aprovado.
Entre tanto ruído que se fez após a aprovação deste acordo ortográfico, aquilo que mais me intriga - tendo em consideração que este é um acordo da lusofonia - é a indisponibilidade do Brasil em aplicá-lo de imediato, por considerar existirem dúvidas na aplicabilidade de alguns pontos e a recusa dos PALOP em lhe dar legitimidade. Feitas as contas, o único país onde o acordo está efectivamente aplicado é Portugal.

A conclusão óbvia de todo este processo é simples: aquilo que pretendia ser a uniformização de uma língua esbarrou na impossibilidade de se uniformizar o que nunca será uniformizável.

MANU DIXIT

terça-feira, 28 de maio de 2013

EU FALO DE... UMA FESTA


A VIDA É UMA FESTA

Em primeiro lugar, quero deixar o meu pedido de desculpas, a todos os que acompanham este blogue, pelo longo período de silêncio a que o mesmo esteve remetido. Sem entrar em grandes detalhes, por se tratar de um assunto pessoal, quero também agradecer todo o carinho e amizade que alguns de vós me manifestaram perante o ocorrido. Já sabia de antemão a qualidade dos amigos que tenho mas é sempre reconfortante sentir que existem pessoas do nosso lado nos momentos mais delicados. Obrigado a todos por existirem. 

Tendo em conta que a vida continua, venho, neste novo respirar, falar-vos da grande festa de poesia que aconteceu no passado domingo, no Museu João Mário, em Alenquer.

Na sequência do I Concurso de Poesia AlenCriativos, da respectiva sessão de entrega de prémios e menções honrosas e como resposta à opinião publicamente expressa pelo júri, a editora Universus decidiu, com a devida autorização dos autores, juntar alguns dos poemas que foram a concurso e publicar a antologia AUDAZ FANTASIA. E foi, precisamente, a sessão de lançamento desta obra que levou mais de uma centena de pessoas ao Museu João Mário, em Alenquer, para assistir a uma bela festa, onde a música e a poesia estiveram de braços dados em nome de uma causa maior.

Se, por si só, tanto a música como a poesia seriam motivos mais que suficientes para reunir tanta gente num ambiente cultural e em torno da cultura, este evento ganhou outra dimensão pelo aspecto social que se lhe juntou.

Por decisão dos organizadores do I Concurso de Poesia AlenCriativos, dos responsáveis da editora Universus, dos membros do júri e com a anuência dos poetas envolvidos, parte do valor das vendas desta antologia reverte para a Mithós - Movimento de Apoio à Multideficiência, associação de carácter social.

Num dia ensolarado e com uma vasta gama de eventos espalhados um pouco por todo o país, foi muito interessante verificar as diferentes proveniências de quem marcou presença. Sendo natural que a maioria do público fosse residente nas áreas mais próximas de Alenquer, não posso deixar de referir aquelas pessoas que vieram de vários pontos do país, apenas e só, para assistir a este evento. Posso estar a cometer um engano mas creio que, de todas as regiões, apenas as ilhas não estavam representadas. E foi bonito de ver a interacção do público antes, durante e depois do evento. Se no “antes” e no “depois” é natural existir essa interacção, o envolvimento do público no “durante” acabou por dar um colorido diferente a um ambiente, já de si, festivo.

Não quero terminar sem fazer referência à grande surpresa que foi descobrir o talento de uma jovem que encantou toda a plateia com a sua fantástica voz. Deixo-vos o nome a reter: Cheila Raposo.

Por último, quero felicitar duas grandes impulsionadoras, duas grandes organizadoras, duas grandes animadoras, enfim, duas grandes senhoras que são a génese do grupo AlenCriativos e que, com o seu empenho, muita alma e coração, amor à escrita e à terra onde vivem, deram o exemplo do que se pode fazer quando se unem esforços em nome de uma causa. Parabéns Ana Coelho e Eugénia Ponte.    

MANU DIXIT

quarta-feira, 1 de maio de 2013

ADEUS

O HOMEM PARTE MAS A OBRA FICA. ATÉ JÁ, POETA E AMIGO, NUNO GUIMARÂES

(1960-2013)

terça-feira, 30 de abril de 2013

EU FALO DE... PLÁGIO


Em 2010, logo após eu ter lançado o meu primeiro livro, fui aconselhado por um autor brasileiro a deixar de colocar nos espaços da internet os meus textos originais. Foi-me dito que o simples facto de ter passado a ser autor editado me transformava num alvo mais apetecido para os plagiadores. Segundo as suas palavras, todos aqueles que fazem uso do plágio, para colmatar a sua escassez e preguiça criativas, vêem os textos de autores editados como uma garantia de aceitação por parte das editoras.

Com o capital de experiência que entretanto adquiri, hoje reconheço a ingenuidade da pergunta que fiz perante aquele cenário que me era apresentado. Então as editoras sujeitam-se a publicar plagiadores? A resposta na altura não podia ser mais directa: SIM!

De então para cá, por diversas razões e diferentes circunstâncias que não me interessam revelar, tenho confirmado a veracidade das explicações que me foram dadas na altura. Aquela que mais me surpreendeu mas que infelizmente quase ninguém faz caso é a inexistência de uma cláusula nos contratos editoriais a precaver situações de plágio. Contam-se pelos dedos de meia mão as editoras que estabelecem como cláusula fundamental a responsabilização do autor pela utilização de trabalhos alheios.

Ao longo destes últimos três anos, já tive nas mãos contratos de edição de várias chancelas e apenas em duas ocasiões a editora salvaguardava contratualmente qualquer implicação recorrente de plágio ou violação de direitos autorais indevidos, sendo que uma dessas vezes foi ontem.

De uma forma que creio natural, durante este meu percurso como autor, tenho-me movimentado com alguma regularidade pelos bastidores literários e deparado com casos de plágio que, com maior ou menor dificuldade, têm sido detectados. Dentro deste lote, aquilo que mais me incomoda é a completa falta de ética de alguns autores que, mesmo tendo conhecimento da prevaricação e aproveitando a tal inexistência de cláusula dissuasora, decidem editar obras plagiadas. Por outro lado, acho que é inaceitável que um editor se sujeite, por omissão contratual, a compactuar com este género de situações. Isto para não falar daqueles que, sabendo de antemão que a obra é plagiada, temos um caso recente e muito comentado, conseguem demonstrar a verdadeira natureza do seu envolvimento no panorama literário.

O mais chocante, se é que ainda há quem se sinta chocado com estas coisas da literatura, é saber que existe um autor bem mediático que usando de algum engenho mas pouca correcção, tem construído a sua obra à base de material alheio, recolhido em bibliotecas e acervos históricos de jornais e publicações regionais, dando como sua propriedade intelectual todo e qualquer texto anónimo encontrado. Chegando a cair no rídiculo de dar como seus alguns textos com datas anteriores ao seu próprio nascimento. Tanto ou mais grave é a complacência de uma chancela que fecha os olhos a isto apesar da responsabilidade que tem no panorama editorial português.

Perante este cenário, não é de admirar que existam opiniões muito corrosivas contra o universo de autores e editores, pondo-os todos no mesmo saco,  mesmo aqueles que, contra tudo e contra todos, tentam fazer um trabalho honesto e eticamente correcto. Como se costuma dizer: paga o justo pelo pecador.

MANU DIXIT

 

sábado, 27 de abril de 2013

EU FALO DE... EXERCÍCIOS CRIATIVOS II


Como referi num artigo anterior, seja qual for o estilo de escrita, é fundamental que cada autor ganhe o hábito de exercitar a sua arte tendo em vista o melhoramento e evolução. Nesse artigo fiz referência a exercícios com forte componente de estímulo exterior ou sugestionamento. Hoje quero falar-vos de outros de carácter mais individualista e apetência criativa que, pela sua especificidade, permitem aos autores exercitarem-se vocabularmente.

Sendo, por natureza, considerados géneros menores da poesia, dois dos exercícios que vos quero falar hoje não são tão fechados e rígidos, bem pelo contrário, e acabam por ser mais acessíveis aos prosadores.

O primeiro, e talvez o menos desconhecido, é o acróstico. Nesta composição, o autor deve partir de uma ou mais palavras-chave (colocadas verticalmente) e desenvolver um texto coerente, como se tratasse de uma definição, em que cada verso começa por uma das letras da palavra ou palavras-chave.

Dou-vos um exemplo simples, sem grandes floreados técnicos:

A ssim
M orrem
O s
R omânticos

Este género de exercicio permite, no entanto, textos de maior complexidade como este meu poema de 2009:

DISCURSO III (2009)

D isposição prosaica de hostil engano
E mprego abusivo de ilusórios motes
U fana indiferença do sacro profano
S inónimos ocultos de outras sortes
 
E rradas pronuncias extra culturais
R uminações de palavras ignoradas
R efrear de ímpetos em tudo banais
A lienação por tentativas falhadas
 
T estemunhas de acções possíveis
A menizar da sublevação plebeia
M arginalizar o afamado problema
B eligerância entre seres passíveis
E stupro de valiosa e crente ideia
M etida na margem deste poema
 
Num patamar diferente mas também de grande utilidade estimulativa está o tautograma, composição poética cuja regra principal é que todo o texto seja composto de palavras iniciadas com a mesma letra. Exemplo:

 

A Ana acorda ansiosa
adora amoras azuladas
algumas, azedas, arrepiam
ainda assim atira-se
às amoras azuladas.
 
Sendo mais exigente pela limitação proposta, o tautograma é flexível e permite a utilização de artigos definidos, preposições e pronomes. Exemplo:

 
O Paulo precisa passar pelo portão que permite passear pelo prado. Passo a passo, pontapeia pedras, projecta pedrinhas, pula pedregulhos, pisa poças pondo os pés perfeitamente paralelos. Passeando pelos prados, Paulo, paulatinamente, percebe a presença de Pedro, parceiro preferido das patifarias. Que par!

 
Como podem verificar, este acaba por ser um exercício muito mais adaptável aos prosadores pela dificuldade rimática que encerra, embora não seja de todo impossível fazer um tautograma rimado. Já li textos lindíssimos escritos neste registo.

 
Por último quero fazer referência aos poemas de rima única cujo maior mestre foi Ruy Belo. Este grande nome da poesia portuguesa deixou algumas pérolas neste registo e, apesar da inexistência de regra rimática, fazia questão de utilizar apenas advérbios como rima. Tal como fiz com o acróstico, dou-vos um poema meu, de 2009, como exemplo:

 
EXERCÍCIO III (2009)
 
Quando as tropas de Junot chegam a Alpiarça
O capitão de Villepin junta-as na praça
E com o seu vozeirão feroz não disfarça
O quanto odeia os portugueses: - Que raça!
Nas ruas não há vivalma nem sinal da populaça
- Onde se meteu este povo? Onde anda a gentaça?
Seus olhos de águia estancaram numa vidraça
Onde se afilavam os rostos da mulheraça
Villepin dirigiu-se ao casebre de argamassa
Vislumbrou uma bela e encantadora louraça
E na sua voz de trovão perguntou: - Que se passa?
Ao seu sotaque carregado, a moça achou graça
E respondeu afoita. - Nada digo, faça o que faça!
O capitão enfurecido faz-lhe um gesto de ameaça
Ela não se intimida: - A nossa vida já é uma desgraça!
Villepin admira a coragem da menina “olhos de garça”
E pede gentilmente um pouco de pão, ela dá uma carcaça
- É tudo o que temos para dar, a comida é escassa!
Mas Villepin é um homem avisado e vê a fumaça
Ouve o crepitar da lareira e cheira a carne que assa
E sorrindo diz: - Ma Cherie, eu não tolero trapaça!
Ele sente que a moça desarma: - Não há por aí vinhaça?
Ela sorri e responde: - Só se vós beberdes pela cabaça!
Nesse instante ouviu-se um grito, tremenda arruaça
Villepin vê um soldado atrás de uma moça descalça
Como um predador atrás de uma presa que caça
Depressa a alcança e com seus fortes braços a enlaça
A moça tenta livrar-se do soldado de farta bigodaça
Mas este depressa é ajudado por um comparsa
A menina de Villepin murmura: - Vai haver desgraça!
E grita para o capitão francês: - Acabe com esta farsa!
- Quoi? - pergunta Villepin quase enfeitiçado: - Ah ça! 
E grita para os soldados com a sua voz que trespassa
Agradecida, a moça loira serve-lhe vinho numa taça.
 
Os exemplos estão dados! Agora cabe a cada um de vós dar uso, ou não, a estes e outros exercícios. Força nas canetas e muita inspiração!

MANU DIXIT

quinta-feira, 25 de abril de 2013

EU FALO DE... LÍDIA BORGES

 

Mais uma vez é com grande orgulho que vejo uma das passoas, cuja escrita muito admiro, ser galardoada com um prémio literário, neste caso o Prémio Maria Ondina Braga - poesia 2013

A escritora/poetisa Lídia Borges, autora do livro NO ESPANTO DAS MÃOS - O VERBO, viu o júri do referido prémio agraciar a sua obra inédita, SEMENTES DAQUI, com unanimidade dos votos, num universo de 57 trabalhos propostos a concurso.

Quando questionada sobre a importância de receber esta distinção, Lídia Borges disse que esta atribuição vinha aquietar algumas das dúvidas que tinha em relação à sua escrita, nomeadamente, no que à qualidade dizia respeito.

Conhecendo a poesia, desta autora de Braga, e sendo um assumido admirador desde que travei contacto com a sua escrita em 2009, devo dizer que apenas me surpreende a demora no reconhecimento que merece.

Tal como fiz questão de expressar em mensagem enviada à autora, mal soube desta atribuição, fico muito contente por saber que o meu gosto pela sua escrita não é um mero capricho pessoal mas sim uma opinião partilhada e há muito devida.

Lídia Borges tem uma forma de escrever muito marcada pela simplicidade de discurso apesar dos conceitos e ideias abordados serem, nitidamente, alvo de depurada reflexão. Demonstrando uma apetência pelos temas de carácter humanista, não deixa de ser visível o cuidado em revelar a alma universalista do seu EU poético dando-lhe importância igual à que dá aos elementos da natureza, que também marcam a sua poesia, tão a seu gosto.

Finalizo este meu artigo reforçando os meus parabéns à autora Lídia Borges, pelo prémio recebido, desejando-lhe que muitos mais se sigam. A qualidade da sua poesia é digna de tamanhas distinções.

MANU DIXIT

terça-feira, 23 de abril de 2013

EU FALO DE... ASSOCIAÇÕES CULTURAIS


No seguimento de mais um fim-de-semana dedicado, quase em regime de exclusividade, às causas literárias, decidi escrever um pouco sobre a importância das associações e grupos recreativos na manutenção de algumas tradições culturais.

Desde tempos remotos, o sentimento de comunidade, tão característico da raça humana, levou à criação de "organizações" que permitissem o estreitar de laços entre as pessoas e, acima de tudo, dar resposta a algumas necessidades mais sociais e económicas.

Não sendo uma regra generalizada, a criação de associações culturais, grupos recreativos, grémios, clubes e academias, visava sobretudo a angariação de verbas para construção de equipamentos de carácter mais social e desta forma ajudar as comunidades mais desfavorecidas e carenciadas: criação de creches, parques infantis, lares de acolhimento, etc.

No entanto, e com alguma lógica, essas agremiações não seriam bem sucedidas nos seus intentos sem a criação de actividades paralelas que lhes permitisse ter alguma visibilidade juntos das comunidades onde estavam inseridas e um acompanhamento permanente por parte da população. Deste modo começaram a surgir algumas iniciativas como os bailes, sessões de fado, cinema, teatro, jogos tradicionais ou socio-culturais, só para dar alguns exemplos, numa tentativa de aproximar as causas às pessoas mas também trazer pessoas para as causas.

Com o passar do tempo, já diz o velho ditado “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, perderam-se muitas dessas colectividades e com elas algumas iniciativas que cativavam as pessoas e permitiam que interagissem entre si. Falo por exemplo nos jogos florais, que sempre foram muito apreciados pela rapaziada nova que, aproveitando a ocasião, se declaravam às raparigas através das pequenas quadras que faziam, supostamente, para participarem nos concursos, e da oralidade poética, uma tradição com fortes raizes populares e que são a génese da poesia portuguesa: veja-se o trovadorismo.

Mas apesar da evolução natural das coisas e da extinção de muitos locais mais tradicionais e com forte componente cultural, a verdade é que ainda existe muito boa gente que, com paixão e muita carolice, criam novas associações em benefício das tradições culturais, não as deixando morrer. E ainda bem que o fazem.

Tanto os jogos florais como a tradição poética oral ainda podem ser encontradas em muitos eventos organizados por associações culturais, um pouco por todo o país. E as portas estão sempre abertas para todos aqueles que gostam de ouvir e/ou escrever poesia. Mas não se desiludam os que têm outras preferências literárias porque também existem eventos em que é dado maior destaque às criações e ao criadores de prosa. Basta procurar, pesquisar, demonstrar interesse e participar, nem que seja como mero espectador.

E hoje trago este tema à baila porque no passado sábado, a convite da Associação Cultural – Palavra Cantada e das suas dinamizadoras Maria Celeste e Maria Gomes, assisti e participei num belíssimo evento onde a poesia foi rainha e senhora e verifiquei, in loco, a fortíssima adesão que este género de iniciativas provoca. Entre autores e meros apreciadores da poesia dita, encheu-se o Auditório da Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira.

Quando à paixão por uma causa se adiciona a vontade e interesse de um público conhecedor e sem preconceitos elitistas, o resultado só pode ser a criação de um ambiente saudável e enriquecedor.

Bom seria que todos os eventos fossem assim!

MANU DIXIT

terça-feira, 16 de abril de 2013

EU FALO DE... DESCONHECIMENTO QUE ME TÊM


Desde que reformulei este blogue e lhe dei esta utilidade, se é que lhe pode ser dada alguma, tem sido muito interessante e, por vezes engraçado, sentir o retorno de quem lê o que aqui se escreve. E não me refiro aos comentários no próprio blogue. Falo dos e-mails, das mensagens no Facebook e de conversas cara-a-cara.

Na generalidade dos casos, são-me dados os parabéns pelos temas dos artigos mas há alguns que vão mais longe e tecem alguns comentários ao que aqui se escreve. Também me são explicadas as razões para não deixarem comentários no post a que se referem e eu só tenho de respeitar essas decisões.

Mas não é sobre nenhuma das reacções que acabei de enumerar que quero incidir o foco da minha reflexão. Hoje pretendo fazer alguns esclarecimentos sobre determinadas rúbricas e mim próprio.

Aqueles que acompanham com alguma regularidade o que aqui é publicado sabem que volta e meia são colocados textos de outras pessoas e algumas entrevistas feitas por mim. Muitos têm-me questionado se essas rubricas deixaram de existir, uma vez que são cada vez mais raros esses artigos. A resposta é negativa porquanto tenho continuado a contactar outros autores para escreverem sobre literatura e solicitado algumas entrevistas. O que se passa é que toda a gente é livre de aceitar, ou não, colaborar com este blogue e tenho recebido algumas respostas negativas às solicitações. Mas de certeza que mais artigos e entrevistas estão na forja e a seu tempo serão colocadas aqui. E para que não restem dúvidas, volto a dizer que, independente de concordar ou não com as opiniões que cada um defender no seu artigo, assumirei sempre a minha responsabilidade pela publicação desses textos, como assumo a paternidade dos meus.

E aproveito a embalagem para dizer a quem estiver interessado em colaborar com o blogue que as portas estão abertas a todos. Só existe a condição de virem assinadas e acompanhadas de uma foto.

Feito o esclarecimento sobre os artigos de opinião de outros autores e as entrevistas, passemos agora a falar de mim.

Muitos têm feito referência ao facto de todos os meus artigos serem ilustrados com a minha foto. A razão não podia ser mais simples: é a minha forma de dizer que assumo tudo o que escrevo e dou a cara pelas minhas opiniões. Aqueles que não me conhecem e quiserem abordar-me directamente sobre qualquer dos artigos têm assim um rosto para me poderem identificar.

Existem algumas pessoas que me têm acusado de fazer passar a imagem de alguém magoado e ressentido com o universo dos livros e de estar a fazê-lo de forma demasiado auto-centrada. Pois bem, é verdade que existem bastantes coisas no mundo dos livros que me incomoda, também é verdade que fico magoado e ressentido por situações que mereciam outro género de abordagens por parte dos elementos que compõem o universo literário, no entanto, ao contrário do que podem pensar, e alguns sabem bem da verdade daquilo que vou dizer, tenho utilizado situações de índole pessoal apenas como ferramenta para exemplificar condutas e comportamentos que são recorrentes e que me merecem reparos. Não se trata de auto-centrismo nem de ego desmesurado. Acredito que seria muita indelicadeza da minha parte utilizar situações semelhantes, mas que me são alheias, para ilustrar os meus pontos de vista. Ainda para mais sabendo que todas as situações a que faço referência não me afectam em nada porque assim me aculturei.

Sei que a minha imagem mais egocentrista, que sempre assumi, pode levar muita gente a ver as minhas crónicas dessa forma mas aqueles que pensam assim, em definitivo, não me conhecem. Tenho o culto do egocentrismo enraizado em mim mas nunca lhe dei o uso mais depreciativo que o conceito encerra. Tenho uma percepção de ego que se limita à auto-valorização íntima e como forma de auto-motivação. Tenho um ego grande porque para poder gostar dos outros aprendi a gostar de mim e nessa aprendizagem apaixonei-me por aquilo que me tornei.  E se muitas vezes digo que determinadas situações me alimentam o ego quero apenas dizer que cada vez mais gosto de mim.

Por outro lado, e regressando ao auto-centrismo, todo o alarido, todas as manifestações de desagrado e repúdio que faço nos meus artigos têm como objectivo alertar os mais despreparados, os menos atentos, os mais amorfos. A minha intenção principal é abrir caminhos para os debates saudáveis e fazer com que as pessoas usem as suas próprias cabeças tal como eu dou uso à minha. Creio que, com a experiência que já acumulei, posso e tenho o dever de ajudar outros na compreensão de situações mais dúbias e mudar as coisas. Ou pelo menos tentar a mudança, principalmente de mentalidades e comportamentos. Não sou nem nunca fui um inactivo e, vale o que vale, tenho as minhas convicções pelas quais dou a cara e luto. Também me apraz dizer que, contra muitas das opiniões que me chegaram de viva voz, enquanto autor tenho já um universo de leitores muito interessante e que ultrapassa, para surpresa de muitos, as nossas fronteiras geográficas. Tenho enviado muitos livros, especialmente os anteriores, para outros pontos do globo e, aliás, tem sido essa a razão que me faz aguentar um pouco melhor esta minha condição de desempregado.

Para terminar e porque no início deste artigo falei em situações engraçadas, tenho de dizer que me dá um gozo imenso e acho piada quando noto que, muitos daqueles que à partida tinham a quase obrigação de conhecer-me de ginjeira, afinal de contas desconhecem-me completamente e têm revelado muita surpresa pelo teor dos meus textos. Um homem não se define apenas e só pelos comportamentos que tem nos jantares de amigos, nas tertúlias e eventos culturais, pelas conversas mais ou menos melosas que tem nem pela quantidade de fotos em que aparece rodeado de gente bonita. Um homem não se define simplesmente por uma imagem que passa ou pela ideia generalizada que várias imagens podem produzir. Um homem também se define pela postura social, crítica e de pensamento. Um homem também se define pelas ideias que tem e pela forma como as expõe, argumenta e defende. A definição de um homem não pode ser feita apenas e só tendo por base um dos lados que o compõem. O homem deve ser definido pelo seu todo e nunca pela metade. E acho muita piada que muitos me definam por um décimo daquilo que sou. O Emanuel Lomelino não é só aquele sujeito bem disposto, brincalhão e divertido. Tampouco é somente o namoradeiro, insinuante e provocador. Também não sou só o autor, criativo e resistente a que me chamem poeta. Sou também o homem de causas, de opinião e de crenças. Sou também o teimoso assumido, o persistente, o que diz o que tem a dizer. Sou a soma de virtudes e defeitos, sou o produto de coerências e desencontros. Simplesmente sou por inteiro.

Quem me conhece de verdade sabe que nunca liguei a opiniões exteriores e pouco me importa o que dizem e pensam de mim porque acredito que (alguns provavelmente já estarão a rir porque sabem qual a frase que vou usar) só me pode fazer mal aquilo que eu deixar. Eu eu nunca deixo que me façam mal.
MANU DIXIT

domingo, 14 de abril de 2013

EU FALO DE... CRISE


A minha grande dificuldade ao iniciar este artigo foi saber que título lhe dar. Sobre este tema já muito tenho dito e escrito e continuarei a falar dele, tal como diz o velho fado, até que a voz me doa.

Numa época em que, por tudo e por nada, todos se lembram de mencionar a crise como factor disuasor para explicar a sua própria inacção, os sinais que passam são de crise sim, mas de valores morais e de carácter.

A hipocrisia, outrora um defeito vil, mesquinho e condenável, hoje em dia parece ter-se transformado numa das características genéticas principais da generalidade das pessoas.

Já ninguém se importa muito em ter seriedade e lisura na sua forma comportamental e, cada vez mais, parece existir o culto do negativismo e bota-abaixo.

A mentira de perna curta impera como se de um virus se tratasse porque a maioria fecha os olhos quando confrontado com estas atitudes.

Cada vez mais, existe a convicção que todos os meios são válidos para se ganhar notoriedade não interessando se esse destaque é alcançado à base de falsos argumentos e falsas acções.

Nos dias que vivemos deixou de ter validade a velha máxima "À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer". O que mais se vê é quem viva sob a ilusão do parecer quando a realidade é o oposto.

Ostentar virtudes e uma imagem imaculada apenas como maquilhagem parece estar a fazer escola na sociedade moderna e a generalidade das pessoas aplaude.

Mesmo correndo o risco de passar uma imagem de "velho do Restelo" tenho que dizer que não me identifico com esta forma de estar. Fui educado tendo por base valores morais e de comportamento que dão como preferenciais as atitudes positivistas, de tolerância, de honestidade, de transparência, de verdade e, acima de tudo, de saber estar em comunidade. Fui educado a negar valor à hipocrisia, à inveja, à mesquinhez, à mentira e, sobretudo, ao individualismo exacerbado. Sempre me ensinaram a dar mais importância a actos do que a palavras porque estas exigem muitas vezes o benefício da dúvida, enquanto que os actos são deixam nenhuma.

Sem falsos moralismos nem culto da perfeição, porque essa nunca existiu, e porque uma das coisas que menos me custa fazer é dar a mão à palmatória e assumir as minhas acções, mesmo as erradas (que são muitas), não posso deixar de ser crítico perante acções que contrariam as palavras que muitos fazem questão de alardear aos ouvidos dos incautos.

Tal como em outras ocasiões, volto a dizer que não é exigida a presença das pessoas em todos os eventos, para os quais são convidadas, tanto mais que é humanamente impossível fazê-lo. Mas não deixa de ser incompreensível que, quem mais se queixa de falta de eventos culturais, são aqueles que nunca marcam presença em nenhum apesar de, continuamente, afirmarem a intenção de comparecer neste ou naquele.

Dizer é fácil e fica bem aos olhos da generalidade das pessoas. Falar de intenções dá uma imagem empreendedora e de acompanhamento permanente das acções culturais. Mas não existe nada mais definitivo e revelador das acções do que as próprias acções.

Louvar um promotor de eventos pela forma apaixonada como os realiza e promove, falar-lhe da admiração que se tem por todo o empreendorismo, entrega e devoção à causa cultural, não passam de palavras. O maior louvor, a maior admiração que se pode outorgar é marcando presença.

Uma situação recorrente é fazerem-se acusações de “centralismo cultural”, que só se fazem eventos na capital e, quanto muito, no Porto, esquecendo as outras localidades. Normalmente faz-se a tal referência à crise porque “as distâncias são grandes” e “não há dinheiro para deslocações” ou “ainda se viessem aqui ou fizessem mais perto”. Tudo palavras vãs e falsas promessas.

Há quem faça, com muito esforço e amor à causa, que os eventos ocorram de norte a sul do país, levando autores ao encontro das pessoas, reduzindo distâncias e aproximando a cultura daqueles que tanto a exigem. Mas na hora marcada, no dia aconselhado, pura e simplesmente a confirmação de quão hipocrita está esta sociedade. Na hora de retribuir e louvar o esforço de quem é realmente empreendedor surgem as desculpas de sempre: “veio na pior altura”, “é a crise”.

Sim, o país está envolto numa enorme crise mas, ao contrário do que tanto se apregoa, essa crise é de valores morais e de comportamento. A maior crise que este país atravessa é de falta de vergonha e hipocrisia.

Apesar da minha assumida laicidade, sempre acreditei que Portugal tinha sido poupado por Deus no que a catástrofes diz respeito. Ao longo da história da humanidade todos os povos sofreram e ainda sofrem essas catástrofes. Alguns países sempre tiveram de lidar com as condições climatéricas difíceis e a época das monções ceifa vidas atrás de vidas. Noutros sempre existiu e existirá instabilidade cultural e económica que se refletem nas constantes e quase ininterruptas guerras tribais, étnicas e globais. Em determinados locais têm de lidar em permanência com secas extremas, vulcões, tornados, ciclones, tsunamis, contaminações de vária ordem, etc. Em Portugal não há nada disso. Este país foi poupado? A resposta é não! A grande catástrofe que Deus destinou ao nosso país é o povo que cá colocou.

MANU DIXIT

quinta-feira, 11 de abril de 2013

EU FALO DE... VOZES MOTIVACIONAIS



Todos os autores que arriscam apresentar o que escrevem, fora da sua zona de conforto, procuram factores motivacionais que justifiquem a continuidade produtiva. Aqueles que se preocupam em dar aos seus trabalhos um fio condutor, idealizando um rumo e dando à sua escrita, para além de características que a identifiquem, alguma coerência, sentem a necessidade de ouvir aqueles que os lêem. O retorno dos leitores é, portanto, fundamental.

Tal como fiz em outras ocasiões, usarei na abordagem desta temática a minha própria percepção e experiência, enquanto autor, para melhor conseguir explicar as ideias que aqui defendo. E faço-o porque as minhas verdades não são universais, cada um tem a sua, ou como diz Gisela Ramos Rosa: “A verdade é uma experiência íntima”. Adiante.

Os que acompanham a poesia que escrevo, já me ouviram falar, inúmeras vezes, daqueles que, desde a primeira hora, têm estado do meu lado e a quem eu sempre estarei agradecido pelo grande apoio e motivação que me dão.

No entanto, quando falo dessas vozes motivacionais, não me refiro a todos aqueles que se limitam a louvar a escrita, antes pelo contrário. Os alvos desse epíteto são aqueles que animam nas horas de desânimo mas também apontam defeitos nos momentos de euforia. Os que mais motivação me transmitem não são aqueles para quem tudo o que escrevo é bom e bonito, mas sim os que, quando a inspiração anda arredia, me dizem “avança, vai em frente, melhores dias virão”, e sabem apontar defeitos, indicar caminhos e apresentar alternativas sempre que detectam fragilidades nos meus textos. Vozes motivacionais são aquelas que sabem fazer o que atrás mencionei mas de forma construtiva. Fazem-no porque acreditam na validade do meu trabalho e é essa crença que me motiva a prosseguir esta caminhada pelo mundo da escrita.

Como exemplo do que acabo de dizer quero partilhar convosco uma situação que aconteceu alguns anos atrás. Estava eu a dar os primeiros passos na internet, publicava a minha poesia num blogue e o sonho de editar estava adormecido pelas frustrações de anos. Um dia, após postar um poema, recebi uma mensagem por mail de um senhor, que acompanhava o blogue com alguma assiduidade, no qual me era sugerida, através de argumentos fundamentados e sugestão de alternativas, uma pequena modificação no texto. Convencido da legitimidade do reparo e aceitando como válida uma das sugestões, fiz a alteração recomendada e ainda hoje, digo-o sem qualquer problema, esse poema, que incluí no meu primeiro livro, é um dos mais referenciados por quem me lê.

Este pequeno episódio - poderia dar outros exemplos idênticos - fez-me reflectir na necessidade de ouvir opiniões exteriores, o mesmo é dizer isentas, sobre tudo o que escrevo. Por essa razão, sempre que termino de escrever algo, faço questão de o mostrar a alguém, fora do meu ciclo mais próximo, e assim recolher informações que me ajudem a melhorar a cada texto.

Quando digo que busco opiniões fora da zona de conforto e ciclo mais próximo não estou com isto a desvalorizar as capacidades avaliadoras de quem lida comigo mais de perto mas, convenhamos, na maior parte das vezes essa proximidade inibe as pessoas de me transmitirem com mais objectividade as suas percepções.

Seja como for, e para terminar esta dissertação, resta-me dizer que é extremamente importante que cada autor procure filtrar, de todas as opiniões recebidas, aquelas que, com critério e racionalidade, podem ser uma mais-valia e manter essas vozes motivacionais activas e presentes no momento de criar. A evolução de um autor também depende disso.

MANU DIXIT