segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Estafadores de uma palavra - ANTÓNIO CAPELLA

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Amor, amor, amor e mais amor é a palavra mais escrita
por quem tem o dom, ou limitação para nela malhar com rimas
bigornais, sem consciência de nada trazerem e só provocarem
uis e ais.

Deve-se fazer amor quando para tal existe ardor e fulgor.
Fora desse contexto deve-se abusar em dar a quem perene,
ou caducamente geme de dor.

Não é necessário ser lexicógrafo para se chamar miríades
de palavras que engenhosamente cirandadas pode-se oferecer
a quem as lê a oportunidade para pensar e até, eventualmente,
crescer.

É, é muito claro que se não deve escamotear que a palavra amor
casada sucessivamente com outras de sufixo ôr, nada acrescentam
e de tão mexidas certamente causarão fedor.

EM - PALAVRAS ESCRITAS, PALAVRAS PINTADAS - ANTÓNIO CAPELLA - IN-FINITA

domingo, 12 de fevereiro de 2023

O Prédio (excerto 9) - SUSANA PIRES

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O prédio engrenha-se na humidade e o cheiro a nevoeiro impossibilita a visão da ponte, para a outra margem, as margens de valer a pena à viagem.
Quando visualizamos a outra margem conseguimos ver o outro lado da perspectiva, diferente daquela de quem a habita. O outro lado tem a sua verdade, o seu espaço geográfico, ousadia de vontades de trabalho de mercado, de comércio.
– É a outra margem!
Aquela que nos faz ter vontade de atravessar pontes e descobrir os percursos das imagens que as paisagens nos proporcionam, o movimento do corpo da mente, sermos seres de vontade e opinião.
A outra margem, aquela que nos sugere à vida - a mudança - a escolha de podermos habitar entre o cá ou o lá, vendo de dois lados de dois prismas, variando as lentes oculares da sugestão.

EM - O PRÉDIO - SUSANA PIRES - IN-FINITA

Abayomi (excerto) - TEREZINHA PEREIRA

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Passava do meio dia de sábado. O homem achava-se em extrema aflição. Noite inteira e toda manhã, procurara Abayomi. A esta hora, o telefone já havia tocado várias vezes. Eram os amigos de lá do Café, colegas de trabalho dele e da mulher, todo mundo. Queriam notícias ou sugerir sobre onde procurá-la. Alguns já a haviam buscado em hospitais da região, que ela não teria se desviado de caminhos costumeiros. No entanto, não encontraram nenhum registro de ocorrência médica ou policial. “Abayomi? Não, não. Com este nome, não.”
“Abayomi. Que feliz encontro!” Um acaso os levou a se encontrarem numa barraca de feira lá no Jardim Botânico. Ele havia ido à feira com uma amiga para conhecer o lugar e Abayomi, para comprar bonecas de seu nome. Seriam para decorar os pacotes de presentes de Natal que levaria para crianças de uma creche. Ela lhe dissera.

EM - CONTOS E CASOS - TEREZINHA PEREIRA - IN-FINITA

a tal saudades - FLÁVIO ULHOA COELHO

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Há muitos que duvidam que o nosso saudoso Antônio Cândido teria dito que o século XXI não o recebera bem. O Thio não está nesse time, pois escutou isso do próprio Antônio em ao menos uma oportunidade. Mas está sim no time que acredita que tem sido maltratado por esses tempos atuais.
Estavam, o Thio e o professor, proseando no que era o lugar favorito de conversas do crítico quando, após o fatídico comentário, começaram a elaborar tal ideia. Nada diferente poderia sair de uma conversa entre eles, mesmo que inicialmente fosse apenas uma troca de futilidades, que uma profunda reflexão, traduzida rapidamente em um texto com a imediata garantia de se transformar em pouco tempo em um clássico do conhecimento humano.
E foi o que aconteceu, escreveram suas ideias, desprentensiosamente. Nem teria sido a primeira vez que redigiram algo em conjunto, nem seria a última tampouco, talvez tenha sido sim a mais significativa para o Thio, dado o seu particular interesse nesse tema e as conclusões a que chegaram naquela profícua conversa.
Infelizmente, nunca publicaram o livro que por fim surgiu dessas reflexões e, agora, o Thio até se arrepende disso. Mas não o publicaria depois da morte de seu professor predileto, pois sabe que ele gostaria de revisá-lo uma última vez, como se fosse possível melhorar aquele texto ainda mais.
Uma pena. O Thio sente muita falta do grande amigo.

EM - HISTÓRIAS DO THIO THEREZO - FLÁVIO ULHOA COELHO - IN-FINITA

sábado, 11 de fevereiro de 2023

O palhaço Pantulfo II - JACKMICHEL

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Miguelzinho, deslumbrado com o colorido das asas da borboleta, seguiu-a correndo horas a fio, sem se importar com a distância de sua casa, que se tornava cada vez maior.
O pequeno embrenhou-se campo adentro, correndo com toda a rapidez de que era capaz; mas somente quando ele tropeçou em um pedregulho e caiu, chorando, foi que a veloz borboleta parou de voar e falou:
“Enxugue suas lágrimas, pequenino! Sorria e siga-me! Pois agora você irá conhecer um lugar maravilhoso, onde mora o sonho!”.
E assim foi feito. Miguelzinho seguiu a borboleta até que chegaram ao festivo Reino da Palhaçada.

EM - ALMANAQUE PALHAÇO - JACKMICHEL - IN-FINITA

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

A imigrante é acima de tudo um forte (excerto) - ANA LUÍSA MANFRIN TEIXEIRA

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Há um tipo de clichê que já ouvi algumas vezes entre conterrâneos expatriados, que para mim faz muito sentido. A ideia de que imigrar para outro país é como renascer no sentido mais literal da palavra.
Temos de aprender a nos comunicar em outra língua, a andar em outros meios de transporte, lidar com situações culturais completamente inéditas e nas quais somos absolutamente ineptos. Como todo movimento de transformação todo esse processo é lento e doloroso. Por trás desse processo sempre há um motivo que valha realmente a pena. E para nós que migramos há inúmeros: estudo, trabalho, casamento, busca de uma vida mais digna...citando apenas estes que eu acredito ser os mais relevantes nos dias atuais.
É bem sabido que, se você não for homem, branco e cis no nosso mundo dentro da imensa maioria das sociedades é muito provável que em algum momento você sofrerá algum tipo de preconceito.

EM - MULHERES EM DIÁSPORA - PLATAFORMA GENI - IN-FINITA

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

As nossas almas solitárias (excerto 14) - C. GONÇALVES

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Agarro-me a essa ideia e quando entro na banheira cheia de água morna, sinto finalmente o corpo relaxar. Acendo uma vela de alfazema e o ar aromatizado invade-me os sentidos. Coloco a minha playlist favorita a tocar no telemóvel. A música Show me Love de Robin Schulz começa a tocar, fecho os olhos, e o seu rosto vem à minha memória. Não sei o que sentir, nem o que considerar. Na sua companhia, sinto-me bem e incomodada ao mesmo tempo. Os seus olhos trazem-se sossego e alvoroço de uma só vez. As suas mãos fazem-me sentir segura e frágil no meu interior. Poderia ser de outra forma? Não sei, não consigo perceber. Já faz muito tempo que não estou com ninguém e os sinais que o meu corpo me dá, podem ser simplesmente carência. Ou solidão. Ou necessidade. Não lhe quero fazer isso. Beijá-lo só porque me apetece, tocar o seu rosto só porque me dá segurança, avançar mais só porque preciso de sentir. Porque me fechei tanto na minha concha que já não sei onde é a saída. Porque dediquei a minha vida aos meus filhos e me esqueci da mulher que ainda vive dentro de mim. Porque me coloquei em segundo plano. Porque me esqueci de viver.

EM - AS NOSSAS ALMAS SOLITÁRIAS - C. GONÇALVES - IN-FINITA

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

A cruz haitiana (excerto 14) - IARA LEMOS

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Como se estivesse mergulhada num processo de regressão, Santina precisou de apenas alguns minutos para remontar a imagem à sua cabeça. Era noite de 21 de julho de 1994, quando a embarcação – que lembrava uma folha retorcida entregue por uma vizinha haitiana – fora colocada em águas caribenhas. Não era aquele um barco qualquer. Era o Jonas, a embarcação que ganharia os holofotes mundiais3 com o objetivo de difundir ao mundo o colapso político e social em que vivia o povo haitiano naquele período.
Aclarado pela luz da lua, o barco, que tinha espaço para apenas 35 haitianos, transportava 69 pessoas. Eram adultos, homens e mulheres, além de crianças e bebés recém-nascidos, todos acolhidos pelos braços do Jonas.
Santina lembra-se exatamente da reação de todos os que ali estavam naquele momento. A sua narrativa era quase um filme, recheado de emoção, até mesmo com direito ao barulho das ondas.

EM - A CRUZ HAITIANA - IARA LEMOS - IN-FINITA

Pêndulo - ANTÓNIO CAPELLA

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Em penumbra e com coração temerário subtilmente passei
a ombreira da porta encostada.
Abeirem-me e não sentiste o bafar deste que com descontrolado
tempero, fundeou o olhar no teu corpo pronto para baloiçar.
Prendi-me no teu misterioso rosto e no corpo estendido
e esquecido, de um ontem tão arrefecido e hoje já em pose
de esquentar!
Quando acordares eu sei que me vais perguntar:
Estou ainda… como estou meu amor?
E eu naquele jeitinho de menino e em trejeitos genuínos,
irei caminhar no teu corpo e voltar a ciciar: estás sempre linda,
meu sabor!
Também sei que logo, já pela tardinha vou dizer:
Não, não que ideia! Não te vistas com essa cor de ontem.
Sim, eu de carmim com muito jeitinho tua pele irei adornar.
Estamos no hoje, vamos fazer de conta que o roçar não nos toca!
Sei que um dia voltarás a deixar a porta encostada e farás
as mesmas perguntas e que o teu pálido rosto voltará a ruborizar.

EM - PALAVRAS ESCRITAS, PALAVRAS PINTADAS - ANTÓNIO CAPELLA - IN-FINITA

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

a tal zona de conforto (excerto) - FLÁVIO ULHOA COELHO

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Se há um conselho de autoajuda que o Thio Therezo não suporta ouvir é o tal do “sair de sua zona de conforto”. E todos em casa sabem disso, principalmente o meu pai, seu cunhado, que tanto se empenha em deixá-lo irritado.
– Mas Thio, você tem que sair de sua zona de conforto – o meu pai disparou inesperadamente logo após um, até então, calmo almoço de domingo. Antes da provocadora fala, a conversa tinha girado em torno de fatos amenos, o avanço da extrema direita mundial, questões de ordem pandêmicas e o campeonato brasileiro. Mas bastou o pai vestir seu sorriso irônico e falar isso para, em seguida, prevalecer nossas caras preocupadas e o incômodo silêncio.
Inicialmente, o Thio não se deu por rogado, sorriu e tentou mudar a conversa para algo menos tenso, puxou um assunto sobre intolerância religiosa em civilizações neonazistas. Qual-o-quê, o pai não resistiu em insistir em sua provocação.
– Mas, Thio, você acha que tem que ficar realmente na sua zona de conforto?
Pronto, almoço arruinado. Não que o Thio se prestasse dessa vez a responder à altura ao meu pai como em tantas vezes anteriores fizera, é bem provável que os exercícios de yoga que o Thio vinha fazendo às escondidas tenham surtido efeito desta vez. Ele apenas sorriu, pediu desculpas por conta de um mal esclarecido compromisso que tinha naquela tarde e saiu dispensando até o irrecusável café que minha mãe costumava fazer para finalizar as refeições dominicais. Mas o almoço estava arruinado e o único que parecia sentir prazer nisso era o meu pai.

EM - HISTÓRIAS DO THIO THEREZO - FLÁVIO ULHOA COELHO - IN-FINITA

O Prédio (excerto 8) - SUSANA PIRES

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Lembras-te da última ceia junto ao cais?
Aqueci nas mãos os sopros das gargalhadas em ritmos, entras e sais num todo de mundo.
Permito-me estar só, sabes que sempre o fiz.
Estamos todos um pouco mais sós para nos ser sugerido rebuscar nos labirintos as caligrafias do nosso eu.
És ainda mais bela, as coisas tornam-se mais belas quando retidas em memória sem tempo e sem distância, apenas a excitação de se poder ter vivido, ter sentido cada tecla, cada sopro, cheiro de seda e pele, viajantes estações joviais, o sentido crescente em palavra nos lugares das coisas, vácuos de silêncios por agora exacerbadamente explorados nas esquinas perdidas de simbologia.

EM - O PRÉDIO - SUSANA PIRES - IN-FINITA

O nascer e o nascer do eu (excerto) - TEREZINHA PEREIRA

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Antes eu só conhecia o escuro. Mas não sabia. Boiava numa água quase quente e serena. Ia e vinha. Tum-tum, tum-tum. E água. Era o meu mundo. Aos poucos, meu espaço foi distinguido e o que hoje chamo de corpo não mais se movia por inteiro. Flutuavam partes que hoje chamo de cabeça, braços, mãos, pernas, pés. Esbarravam em regaço macio, protetor. Tum-tum, tum-tum.
O que era macio e me envolvia, um dia começou a dar arrancos, a expulsar-me daquele lugar onde no começo existi. Eu ainda não sabia o que era arranco, nem expulsar, nem lugar, nem existir. O que hoje sei que é a cabeça, saiu primeiro. Depois, o resto. Dei-me por inteiro com o claro, com o frio.
Arderam com a luz o que hoje chamo de olhos. Hoje, sei que saí do escuro e entrei no claro, que metade é escuro. Saí do quente e caí no frio que, às vezes, fica tépido. Que, o que hoje sei que é do mundo, contrasta. Preto, branco, feio, bonito, pobre, rico, homem, mulher. Claro, escuro.

EM - CONTOS E CASOS - TEREZINHA PEREIRA - IN-FINITA

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

O palhaço Pantulfo I - JACKMICHEL

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Era uma vez um garotinho chamado Miguelzinho, que era muito feliz e morava com seus pais na enorme Fazenda Folha-flor.
Todas as manhãs o pequeno costumava dar longos passeios pelo campo; muitas vezes, procurando borboletas que entregava à sua mãe ou besouros que entregava a seu pai.
Pois bem... foi justamente em um desses passeios campestres que Miguelzinho viu pairando no ar uma leve borboleta multicor, que mudaria sua vida de infante.

EM - ALMANAQUE PALHAÇO - JACKMICHEL - IN-FINITA

sábado, 4 de fevereiro de 2023

As nossas almas solitárias (excerto 13) - C. GONÇALVES

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Vou com a Sara a casa, e rapidamente, ela apanha o que precisa para passar a noite no hospital. O Salvador ficou no hospital junto do Santiago. A conversa que tivemos não me sai da cabeça e penso que temos de esclarecer as coisas. Mas agora não é o momento. Não com tudo isto a acontecer.

– Ficas bem Sara? – pergunto quando a deixo no hospital.
– Sim, não te preocupes; o Salvador ainda está por cá se for preciso alguma coisa...
– Eu preciso mesmo ir para casa – digo franzindo o sobrolho – sabes que se não for o sábado para me organizar...
– Ana – ela põe-me a mão no ombro – não precisas justificar-te, eu sei amiga...
– Se precisares de alguma coisa, liga-me.
– Tenho de mandar o Salvador embora... coitado, tem sido um anjo da guarda...
– Imagino... – sorrio sem dar por isso.
– Como estão as coisas? Desculpa não te ter perguntado nada, mas com tudo isto...
– Falamos depois, não te preocupes. Fica bem, qualquer coisa, liga-me.

EM - AS NOSSAS ALMAS SOLITÁRIAS - C. GONÇALVES - IN-FINITA

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

A cruz haitiana (excerto 13) - IARA LEMOS

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O mar estava agitado naquela noite de julho de 1994. Sob o céu estrelado, a brisa fria da morte enamorava todos os que se apertavam nos braços do pequeno Jonas. Os gritos inevitáveis de desespero se perdiam no barulho das ondas e vinham especialmente das crianças, que temiam o breu. Não havia aconchego materno que as acalmasse, e nenhum tipo de proteção em caso de naufrágio. As ondas encharcaram todos os que se apertavam na limitada embarcação, numa tentativa insana de cruzar as águas caribenhas e deixar o Haiti apenas como uma lembrança distante. Diante do desespero da fuga, Jonas era como uma representação divina.
“Até onde eu via água e terra, mesmo que de longe, estava tranquila. Mas quando eu não vi mais nada eu disse: ‘Senhor, eu estou entregue ao Senhor. Eu não sei nadar! Avisei que se acontecesse algo, me deixassem morrer e fossem embora para contar a história”, recordou-me Santina Perin, como se estivesse narrando um pesadelo que tivera na noite anterior.

EM - A CRUZ HAITIANA - IARA LEMOS - IN-FINITA

O dia - ANTÓNIO CAPELLA

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Por isto e por aquilo, não me perguntem se estou na leira, ou na bouça, se parto, ou se fico, não tenho a certeza de poder responder.

Os sons que emiti são borbotões entrecortados pelo estrangulamento desta poeira de cauda de cometa que, em mim teima gravitar, com o fito de cessar este constante mau passar.

Assim eu de sólido e quase tão volátil como o sopro arrastado na fatiação de um dia com leve poisar nas tardes do quase sonambular no negrume que se volatizará no pó que tanto teima em me abraçar.

Assim nesta voz sumidinha e condicionada de tão novelada, neste momento, consigo dizer-vos que não parto, que não fico, porque por mais esbracejar não me consigo encontrar e claro, muito menos enxergar qualquer canto, caminho, ou estrada.

EM - PALAVRAS ESCRITAS, PALAVRAS PINTADAS - ANTÓNIO CAPELLA - IN-FINITA

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

dois de julho, honoris causa (excerto) - FLÁVIO ULHOA COELHO

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Faz tempo isso, mas todos nós nos lembramos bem do desconforto do Thio Therezo ao receber o seu primeiro título, e foram tantos depois, de doutor honoris causa. Não que essa concessão não tivesse sido merecida, e todos sabemos que sim o fora, a questão era outra, definitivamente outra.
O Thio, com a educação que teve, e ainda mais com a vida que levou tendo que batalhar duramente cada centímetro de sua reputação, cada segundo de seu reconhecimento, sem apadrinhamentos, QI´s ou, como se diz atualmente, sem um mísero networking, sim, o Thio não achava justo receber uma honraria dessas sem, a seu ver, uma retribuição à altura.
Não que aquele longínquo título de doutor honoris causa, ou cada um dos outros tantos e tantos que viria a receber, não fosse um justo reconhecimento ao que tinha conseguido em sua produtiva vida, mas o fato de não haver uma tese vinculada ao título o incomodava. Se outros doutorados eram concedidos por conta de teses defendidas, por que o dele seria diferente?
Aquele primeiro honoris causa o incomodou tanto que, dali para frente, sempre que era agraciado com um título dessa natureza, o Thio postergava a sua entrega até que tivesse escrito uma tese que o justificasse.

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O Prédio (excerto 7) - SUSANA PIRES

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Vigio-te, escondendo nas nuvens vozes que na memória do clube te destemeram deste vazio, sedução enfeitiçada de fazer o corpo veículo de solução em dias felizes.
Lá fora chove, o frio corre-me nas veias, como o medo engole o velho ou a incerteza dos pobres, acendo a lareira e permito este ordenar em fagulha numa segurança que a madrugada me aquece.
Escuto as notícias viciadas de conteúdos, os números aumentam a agonia de levar para as vestes da morte os corpos despidos de alguma cerimónia. Não somos isto!
Acho que poucos se tinham apercebido, a cidade condena-se por ser cidade e os espíritos despojados, até então de voo, alimentam-se desta INCERTEZA soprando às mentes catástrofes humanas, ou pior, calculadas de obscenidades.

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Um dia, um enigma (excerto) - TEREZINHA PEREIRA

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São Pedro Arrependido. A escultura do século XVII, de autoria de Frei Agostinho da Piedade, deixou-o intrigado. Expressão facial, constituição física, vestes. Tudo lhe parecia familiar.
Quando soube que o Museu de São Bento, na cidade de Salvador, havia sido reaberto a visitantes, teve ele pressa em voltar à cidade que havia visitado duas ou três vezes. Como se lá houvesse algo de importância à sua espera, sentiu-se invadido por incomum ansiedade na véspera da viagem que deveria durar quase dois dias. Indo desacompanhado, escolheu viajar de ônibus. Nem fazia ideia do que de raro poderia ver naquele museu. Já havia esquadrinhado outros museus e muitas igrejas da cidade. Com guia, sem guia. Com sol, com chuva. Com um pouco de frio, com muito calor. Desde jovem, teve o hábito de procurar conhecer e apreciar obras de cunho histórico e artístico durante os poucos períodos de ociosidade permitidos pelo trabalho. Visitar e revisitar cidades históricas, caminhar em suas ruas e ladeiras descobrindo segredos era seu grande prazer.

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

O Enigma o Palhacinho Piccolo - JACKMICHEL

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Naquela manhã sem sol lá em Pisa, na Itália, Pizzarina sentira falta do palhacinho Piccolo, seu mimo preferido. Mas, onde ele estaria?
Ela o havia ganho de presente de aniversário, recentemente... Mas, onde ele estaria?
Em seu universo de moça, cheio de vestidos, perfumes, jóias, sapatinhos... ela reservara um lugar especial para aquela criaturinha inanimada. Mas, onde ele estaria?
Gostava de observar seu rostinho branco de porcelana, sua fofa cabeleira de algodão, seu amplo macacão repleto de bolas coloridas... Mas, onde ele estaria?
No aparador da sala de estar? Na estante de livros da biblioteca de seu avô Domenico Gema? Na mesa da cozinha de sua avó Giovanna Gema? Na pia do banheiro? Na sua penteadeira, entre seu carmim e seu pó-de-arroz? Na frente do porta-chapéus do salão? Atrás do porta-retratos da sala lateral? Sobre o banco, o chafariz ou o caramanchão do jardim? Num dos degraus da escadaria de entrada da casa?
Não sabia. Mas, haveria de saber... Perguntaria a toda a criadagem sobre o paradeiro do seu adorado palhacinho.
Decidida a pôr um ponto final naquele mistério burlesco, já ia se levantar da confortável cadeira de embalo, localizada na varanda do seu quarto, onde estivera sentada até aquele momento, apreciando os vistosos canteiros de lírios que enchiam com seu aroma doce todo o ambiente.
Porém, não moveu um pé sequer; não teve tempo para isso: ouviu quando seu avô Domenico abriu a porta do quarto e caminhou em sua direção, explicando:
“Minha neta, aqui está o Piccolo! Passei a manhã toda mirando-o e tentando descobrir se ele se parecia comigo!...”

EM - ALMANAQUE PALHAÇO - JACKMICHEL - IN-FINITA