terça-feira, 27 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... SÍLVIA SCHMIDT



Sonho

Mas o sonho é mais completo que a realidade esta me afoga na inconsciência” C. Lispector
“Ai esses sonhos que não terminam nunca, sempre me trazendo quem na realidade não pode estar comigo”, pensava Maria ainda deitada entre coberta por lençóis 170 fios, limpinhos, e cheirosos como as lavandas de Provence. Esticou os pés alongando-se e permaneceu mais um pouco imóvel, querendo as sensações que vinham de seu mais profundo.
“Encontravam-se no meio da noite, isso lá era hora”, pensava em si, mas não perdia a oportunidade sagrada de amá-lo.
Ele chegava-lhe quase sempre esbaforido, trazendo uma pasta de projetos na mão direita... Casaco de nylon na outra. Era um hiperativo sem tempo pra nada, amante das artes visuais, o notebook a tiracolo. Feliz a procurava em busca de algum aconchego, tempinho espiritual sem questionamento, quando deitavam-se juntos.
Certa noite, Maria estava em trânsito na mesma mega cidade, portanto próxima fisicamente de João, nessa noite ele apareceu-lhe em espírito , apenas usando a roupa de baixo.
“Que surpresa”, Maria limpou os olhos, sentiu o coração pulsando-lhe forte entre os seios... ele amável a empurrava afetivamente mais para perto da parede num colchão de solteiro colocado ao lado da cama do sobrinho que generoso, emprestara-lhe o quarto, e sem que ela sequer ou ainda mal tocasse o seu corpo denso, quente... João desapareceu subitamente nos segundos que se seguiram. Maria ficou sobressaltada e atônita. Ela o percebeu ansioso nessa aparição. Não viria assim em cuecas visitar-lhe, se não fosse por tanto desejo, pensava consigo ao relembrar, no dia seguinte, ao despertar, toda nítida sensação que tivera durante esse encontro, até porque não havia intimidade para eles nas agruras do cotidiano. Sentiu-o ali e isso era afinal o que importava e voltou a dormir. Querendo-o inquestionavelmente.
Vez por outra viam-se em astral , ele como era: alto, corpo delgado em musculatura firme, sorriso largo , movimentos rápidos e afetuosos, barba por fazer cabelos escorridos na testa, tez clara.
“Venha, deitar-se ao meu lado”, chamando-a para mais uma noite de amor, relaxado numa rede de fios rústicos.
Maria deitou-se com gentileza, podia sentir- lhe o tempero o cheiro, algo quente tomava conta daquele momento quase virtual. Sabiam que seria rápido e intenso. Ele um poeta, um poeta icônico.
Maria firmou a cabeça em seu ombro largo, e isso bastava, ele ainda em seu terno e gravatas, não desnudo como apareceu a ela em encontros anteriores. Veio-lhe para descrever-lhe poses homossexuais que tirariam o fôlego de Maria, incrédula com demonstrações que seguiam aos gestos:
“Assim, veja”, dizia ele, “é uma penetração gay: eu abro as pernas, encostado num apoio e ele me penetra, eu sou o passivo”.
Ela olhava e ouvia-o com a certeza de que a verdade vinha a tona, e sem medo ela o sentia mais do que nunca em sua intimidade revelada com sublime coragem, eram mais que namorados eram amigos confidentes. Maria o respeitou sem tocá-lo naquela noite, numa das mais reveladoras onipresenças.
Parece que essa verdade jamais se anunciaria no plano das densidades reais não com tamanha exatidão. Algumas verdades só podem acontecer no instante da inconsciência, nas sincronias da alma, assim seguiram firmes em seus sentimentos.
Não se viam muito no dia a dia, mas sentiam-se no plano do etéreo, contavam um com o outro e revelavam-se a cada noite. Mais se viam, mais se declaravam.
“Eu te amo”, e se beijavam como seres que tinham a certeza de que um era para o outro, amantes perfeitos.
“Eu quero me casar com você”, e continuavam a se beijar, inclinados naquela poltrona de um voo que transitava entre as nuvens brancas de uma Ilha no Atlântico Sul, bem conhecida de ambos...
“Olha João, veja pela janelinha... ali, bem ali... ta vendo entre aquele campo de futebol e a plantação de eucaliptos, era minha casa, casa onde morei por dez anos.” Maria apontava tomando o assento de João, como que querendo vazar espaço aéreo... João recebeu-a novamente em seus braços, beijando-a com paixão.
O tempo_ espaço desse romance era este mesmo, inconstante, ainda assim Maria seguia todas as noites para seu quarto sempre com a mesma incógnita... Estaria ou não com seu amor onírico? Não sabia. Nada era previsível no sentido do cronológico, o último deles se dera em uma quadra de uma cidade colonial desconhecida, de casas baixas e coloridas, ele vindo de viagem como sempre... Ela andando sem objetivos definidos pela calçada desuniforme quanto mais caminhavam, mais sintonia com os passos que despontavam a sua frente. Sabiam estar ali, viram-se e aproximaram-se... João a tomou nos braços, ela quis resistir ele insistiu. Aproximando-a mais de si enquanto aos poucos ela cedia... Saudade, era saudade... Ela não tinha dúvida e também não saberia explicar o que pulsava em seu pensamento, suspirava baixinho o abraço forte recebido naquela esquina de um lugar qualquer nos interstícios de um plano vago, que volatilizava pelos sentidos carregados e dormentes, aos poucos vivificados pela presença de sons, aromas da manhã de primavera, brilhos solares que presentificavam-se para mais um dia que insistia em despertá-la do evanescente, roubando-os para outra dimensão.
in Encontros - uma cartografia do tempo.
Silvia Schmidt, 2017

mini-Biografia: Silvia Schmidt

Sílvia Schmidt nasceu em São Paulo mas morou no Nordeste e Sul do
Brasil. Desde que deixou Florianópolis em 2000 transformou-se em uma verdadeira
nômade digital, explorando novas cidades, países e culturas, sempre em busca de
liberdade, independência e inspiração.
É graduada em Letras- Português Inglês e respectivas Literaturas ,
Comunicação e Semiótica na PUC/SP , Sociologia e Política/ USP, e
Ontopsicologia em SC.
Ministrou aulas de Literatura Brasileira por quase 20 anos mas precisou
ir além:
“Com mais maturidade e intensa criatividade, hoje, busco na carreira de
escritora e editora, o mesmo resultado obtido em sala de aula, e meu foco
principal é trabalhar numa linguagem multimidiática e
contemporânea (concretismo), uma psicologia revolucionária (ontológica).
Busco na realidade vivida (auto ficção) e nas trocas culturais o público jovem e
feminino em transcendência.” Comenta a autora ,Sílvia.
Abaixo projetos em processo para lançamento que serão realizados através
do selo Símbol@Digital , editora sob sua concepção e direção desde 2014.

Duty Free : romance ( 2000)
Start:poesias concretas (2000)
Papo Intimo: diálogos( 2009)
Empadão Goiano: romance ( 2011)
Cobalto: poesias selecionadas( 2012)
EnCONTrOS: contos ( 2012)
UNO: romance em progresso (2014)
Des voyageurs infatigables: ensaio ( 2016 )

A Carta da Terra: poemas (2016) inédito

segunda-feira, 26 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... JOÃO AYRES



Os cinco sentidos anestesiados.
Rotina moderna atroz e sufocante - Chegar em casa, tomar banho, sentar no sofá e relaxar por alguns instantes antes do jantar. Ouvir o barulho sufocante da televisão,o barulho dos carros na rua ou ouvir a playlist que tortura os tímpanos. Ainda no sofá não conseguir se concentrar em nada. Manter-se preso ao celular, colocar o referido por sobre a mesa e comer rapidamente sem saborear o alimento. Sentar novamente no sofá e pegar um livro e não ver nada. Tocar o livro como quem passa a mão sobre qualquer coisa inútil. Não ser capaz de sentir o cheiro singular de um após a chuva. Sentir sono acessando obsessivamente o celular. Ver, ouvir, tocar, cheirar, este o gosto amargo de nosso tempo.
E se chegássemos em casa e olhássemos ao redor e apreciássemos na mobília, a delicadeza dos efeitos das luzes no cômodo, e se não ligássemos a televisão e ficássemos durante cinco minutos em silêncio, sem celular.
E se tomássemos um banho lento e pacífico, sentindo a água correr pelo corpo, de olhos fechados e mente aberta.
E se preparássemos mesmo que rapidamente nossa comida, tocando nas hortaliças e vegetais sem a brutalidade dos autômatos...
E se ouvíssemos os sons misteriosos que o silêncio nos proporciona...
E se realmente sentíssemos o gosto do alimento, um paraíso se abriria certamente.
E se todos pudessem ler romances e livros edificadores...
Uma nova atribuição seria dada aos sentidos.

ABRAÇO DO POETA.

João Ayres

mini-Biografia:

Poeta, ensaísta, romancista, compositor, cantor de samba,jazz e blues.

Parceiro e biógrafo de Delcio Carvalho.

domingo, 25 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... ANDREA SANT ANNA


"Logo ali, na esquina do caos...
Essa crise falada, noticiada, prevista, orquestrada pela mídia, no mínimo nos faz refletir sobre o consumo excessivo e sobre a mentira social da civilização em que vivemos. Penso que com apenas 1/3 da grana que já foi investida para salvar bancos, resolveria a fome e a miséria gritantes neste mundo. A grana que se gasta em armamentos serviria à todos em alimentos.
Quanta estupidez humana! E tudo parece tão velho e surrado! Os mesmos erros, a mesma ganância predatória, a mesmíssima mesquinhez... E eu? Mais uma idiota apenas, pensando que estou acima deste lodo fétido... rs ... ilusão! Sou parte dessa lama e provavelmente cheiro como todos, à merda inconsequente!
No entanto, ainda sou capaz de me espantar e mesmo ainda emocionar-me com pequenas e simples coisas, , um beija-flor, um esquilinho lépido passando batido , com o vermelho pássaro Tiê, sangue bom! Ou, uma canção que me faça estremecer e sentir um descompasso no ritmo do meu coração... cantos de cigarras, sapos, grilos, corujas e pássaros... Tudo isso e outras coisitas mais me tocam tão fundo quanto a desilusão com o mundo... Contradições, as de sempre... Sensações que me deixam ausente...
Estou indo para mais algum lugar e uma vez mais sinto-me abandonar algumas cascas pelo caminho. Os fios brancos proliferam em minha titubeante cabeça e já perco alguns dentes e juízo. Sim, sou capaz de perder todo o juízo a qualquer momento! Toda a minha capa de lucidez esconde sempre, ou tenta, a mais aguda loucura disfarçada em um sorriso elegante ( nem tanto) de capa de revista fútil. Sou ridícula em minha falsa elegância. Sou infantil em meus disfarces, apesar da clara passagem do tempo pelos meus poros, pêlos, corpo e alma. Não sou mais capaz de sorrir alegre e levemente por muitas vezes, embora o faça. Tornou-se mais raro e é o preço caro da perda inevitável da inocência.
Somos uma grande mentira. Mas, digo isso, sem peso. Apenas reconheço uma tela ilusória que não é a Verdade Absoluta. Não mesmo."    Andrea Sant Anna - 2011

mini-Biografia: Andrea Sant Anna

Mãe, avó, contadora de histórias, arte-educadora, ceramista, oficineira, Terapeuta Corporal
Expressar-se é curar-se. Me interessam coisas de cura e expressão. Arte e saúde. Coisas de dentro e de fora. Coisas com as próprias mãos , como desenhar, tocar, escrever, modelar, massagear, comunicar, acarinhar, cuidar, acolher, nutrir.  Me interessam as pessoas, sobretudo, as crianças , melhor momento dos humanos! 
Não sei bem o que fazer  com tudo isso, mas vou fazendo.
E indo ...
E expressando,  criando
E me curando...

sábado, 24 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK

A caminhada começa sempre com um primeiro passo, para o lugar, o desejo, o sonho, o encontro, o projeto, o objetivo.
Existe a vontade e a direção que impulsionam, mas inerente a isso, algo maior conduz.
E se deixarmo-nos levar... surpresas agradáveis podem fazer parte desse caminhar.
E assim, dando passos certos, firmes, às vezes hesitantes, vamos percorrendo estradas, pontes, oceanos.
Caímos em abismos, atravessamos desertos, vendavais, redemoinhos, tempestades, mas com alguns arranhões e cicatrizes, o entusiasmo, o acreditar, o ideal, aliam-se ao tempo e ao ponto onde devemos chegar e estar.
Com o autor também acontece o mesmo, temos a ideia, o impulso, a primeira palavra... mas o que vai se desenvolver a partir daí, é como começar uma viagem, cheia de aventuras por terras desconhecidas.
É para esse caminhar, essa aventura que convido a todos a participarem desse espaço bem brasileiro, com sabor tropical, caloroso e extremamente rico da nossa cultura, tão colorida, cheia de nuances, tons, ritmos, palavras...

E faço um convite aos moldes do nosso mestre da literatura Guimarães Rosa:
"Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia"

Vamos acompanhar, participar, divulgar, e nos deixar envolver por esse abraço da arte da escrita, com a participação de autores, poetas, escritores,
nesse cantinho bem brasileiro, aqui, no FALA AÍ BRASIL ...


Um abraço, do lado de cá, do oceano!

sexta-feira, 23 de junho de 2017

FALA ÁFRICA... SOBRE MACVILDO PEDRO BONDE

JOSÉ MANUEL MARTINS PEDRO
(correspondente de autores africanos)

Eu vou convivendo, cada vez com mais dificuldade, com esta minha incorrigível mania de misturar poesia com a vida.

Não obstante esta minha dificuldade vou tentando racionalizar os problemas e refletir sobre eles.

Assim, em treino poético, é comum ver, e/ou ouvir – nas redes sociais – as inúmeras atividades literárias que através de um serviço de qualidade à cultura lusófona, novos autores se afirmam.

Aqui faço uma declaração de voto para explicar que – na atual fase da minha vida – tudo o que diz respeito à Arte da Palavra me torna particularmente sensível e daí dar o merecido contributo para a sua divulgação.

M.P.Bonde - Macvildo Pedro Bonde nasceu a 12 de Janeiro de 1980 em Maputo, Moçambique.

Foi membro do projecto (JOAC) Jovens e Amigos da Cultura entre 2003-2004, com Mbate Pedro e outros jovens. Aqui, para além de declamarem textos em eventos culturais, realizados na cidade de Maputo, aprimoraram o seu gosto pela escrita.

Em 2004 foi convidado para fazer parte do grupo Arrabenta Xithokozelo (Leo Cote, Uraca Zulima, Salésio Massango e outros) onde animavam as noites de poesia e música no Modaskavulu do Teatro Avenida.
    
No coletivo, fez parte da organização da semana Noémia de Sousa, num espaço de discussão da poesia e pensamento da autora e de sua influência na literatura moçambicana entre 2007 a 2010.

Em 2010 foi agraciado com uma medalha e obras de autores moçambicanos, nas comemorações dos 123 anos da cidade de Maputo, no Jardim Tunduru.
A sua arte poética possibilitou o encontro com Cucha Carvalheiro e José Rui Martins, do teatro Acert de Portugal. Sandile Dhikeni, da África do Sul, no Teatro Avenida.

Apresentou, com Flávio Chongola, no Centro Cultural Brasil-Moçambique, um artigo sobre a estética de José Craveirinha e sua influência na poesia moçambicana.
Tem textos publicados na coletânea Arqueologia da Palavra, e em revistas eletrónicas.

Em 2017 lança a sua primeira obra literária com o título “Ensaios Poéticos“ pela Editora Cavalo do Mar.

M. P. Bonde revela na sua escrita a influência de muitas leituras e dos grandes mestres da literatura. Ao lê-lo, várias vozes bem conhecidas da literatura moçambicana e universal, ressoam aos nossos ouvidos, num eterno diálogo intertextual.

Segundo Fernanda Angius, percorrendo as páginas de “Ensaios Poéticos”, chega-nos uma mensagem nostálgica da infância perdida, ou de um sonho adiado: “Pode ser que ao anoitecer as gaivotas se cansem da faina e partam para a nossa Ítaca do índico e, como elas, seguirei o rasto salgado do cardume aprisionado no sonho”. 

Estamos diante de um poeta que se interroga e nos interroga. Mas Bonde não segue o seu caminho, desalentado e solitário; ele dirige um apelo à sua geração para que os sonhos se reacendam e o futuro possa acontecer.

                                                                  José Manuel Martins Pedro
  (correspondente de autores africanos)
Lisboa, 23 de Junho de 2017


quinta-feira, 22 de junho de 2017

EU FALO DE... TOCA A FALAR DISSO E A PARCERIA


Por esta altura já todos estão, mais ou menos, familiarizados com a parceria TOCA A ESCREVER/IN-FINITA - dois projectos paralelos que se aliam com o propósito de alargar a base de público de um projecto maior, o de divulgação da lusofonia.

Neste contexto, a importância do blogue TOCA A FALAR DISSO aumenta, servindo de apoio à introdução de outras formas de divulgar autores da esfera lusófona.

Sendo certo que, ao longo dos anos de existência, o TOCA A FALAR DISSO sempre se disponibilizou para publicar textos de outros intervenientes culturais, contam-se pelos dedos de uma mão aqueles que aderiram e contribuíram.

Uma vez mais, por iniciativa das minhas parceiras da IN-FINITA, resolveu-se aproveitar uma ferramenta já existente e dar-lhe um uso mais regular.

Assim sendo e com efeitos quase imediatos, este blogue servirá também para dar voz a alguns autores através dos seus textos criativos e/ou críticos. (Já estão no prelo seis mas a tendência será tornar mais regular estas contribuições individuais.

Por outro lado e como escrevi num artigo anterior, este alargar de actividades obriga a adição de mais elementos ao projecto e, assim sendo, comunico desde já que teremos a partir de amanhã, e de forma regular (uma vez por mês), a participação de José Manuel Martins Pedro, como correspondente de autores africanos, que nos dará a conhecer autores dessa proveniência, numa rubrica chamada FALA ÁFRICA.

Pouco a pouco temos estado a limar algumas arestas, e continuaremos a fazê-lo, de forma que o projecto, no seu todo, alcance cada vez mais público interessado em acompanhar as artes lusófonas.

MANU DIXIT


segunda-feira, 5 de junho de 2017

FALA AÍ BRASIL... ADRIANA MAYRINCK



Havia o tempo, o caminho, o oceano.
Havia a luta, o desejo, o sonho.
Uma paixão. A poesia lusófona.
Um sentimento, a gratidão, peculiaridade em comum.
Um ano, 2010.
Toca a Escrever , nasce como  blogue e começa a dar o seu primeiro passo, na divulgação de autores e editoras, em janeiro, de um lado do oceano, Lisboa. E a cada passo,a biblioteca aumentava consideravelmente.
In-Finita começa a sua jornada com a produção executiva do ALT FEST! Fliporto, evento OFF da Festa Literária Pernambucana – FLIPORTO 2010, em novembro, do outro lado, em Recife. E foram muitos os passos, desde então.
Caminhos paralelos, criando pontes, com um objetivo em comum:
Divulgar e promover a língua e a cultura portuguesa, por entre os povos e comunidades lusófonas. Com passos lentos, porém firmes, seguiam.
Com o apoio de amigos, poetas, autores, editoras, artistas, fortaleciam seus ideais.
Uma luta nem sempre fácil, mas cheia de encantamentos, criando laços e parcerias.
Ela, Adriana Mayrinck, Brasil, In-Finita, poeta, agente literária e produtora cultural.
Ele, Emanuel Lomelino, Portugal, Toca a Escrever, poeta, moderador de eventos e
coordenador de coletâneas.
Como a poesia é a arte do encontro.
O inevitável.
O oceano e o tempo uniram o desejo e o caminho, na luta por um sonho.
E em junho de 2017, após sete anos, os dois idealistas fizeram a travessia, unindo objetivos, projetos e ideais.
Toca a Escrever  & In-Finita Bureau de Ideias, começaram o primeiro passo lado a lado, entrelaçados, com a criação da página no facebook e instagram, dando ainda mais visibilidade aos trabalhos, já iniciados.
E para complementar a única lacuna em aberto,
Julia Mayrinck, In-Finita, Brasil, designer, abraçou o projeto com generosidade, e preencheu o espaço que faltava, para aqueles acostumados com arte das palavra : a sensibilidade e a habilidade na arte gráfica.
Acreditamos e estamos trabalhando muito, com entusiasmo e dedicação, para fortalecer ainda mais a expansão da poesia lusófona, a partir desse novo caminhar.
Sejam bem vindos, sempre!
Emanuel Lomelino, Adriana Mayrinck e Julia Mayrinck
Toca a Escrever & In-Finita Bureau de Ideias


segunda-feira, 29 de maio de 2017

EU FALO DE... EVOLUÇÃO DO TOCA A ESCREVER


Quando, em 2008, comprei o primeiro computador e, consequentemente, aderi ao mundo da Internet, deparei-me com uma realidade diferente, onde a informação e o conhecimento estavam à distância de um teclado. Mas também reparei em algumas lacunas que, talvez de forma inconsciente, ficaram-me gravadas na mente.

Até que um dia, como tantos dias das nossas vidas, um mero gesto de amizade - uma autora ofereceu-me o seu livro recém editado - serviu de ignição e despoletou a vontade de preencher uma dessas lacunas detectadas.

A ideia inicial era ajudar na divulgação de poesia de autores que eu entretanto conhecera e intercalar com as poesias dos grandes nomes da lusofonia.

Da ideia à pratica foi um pequeno salto e, no dia 1 de Janeiro de 2010, nasceu o meu blogue de divulgação de poesia lusófona: TOCA A ESCREVER. E como não podia deixar de ser, o primeiro poema pertencia ao livro LER-TE que a amiga Helena Isabel me ofereceu meses antes.

Depois, dia após dia, poema após poema, o que começou como uma ideia sem ambições foi caminhando com passos curtos mas seguros (um poema por dia), tendo pontos altos e baixos, mas sempre com uma entrega e espírito de missão inabaláveis e o contributo de uma pessoa que, de forma altruísta e desinteressada, acabou por ser a génese de uma futura evolução no projecto. Falo de Maria José Lacerda, que contribuiu com inúmeros livros, da sua Editora UniVersus, para o espólio do TOCA A ESCREVER. Mais tarde, por iniciativa de Paula Oz, comecei a receber também alguns livros da Edições Oz, e passei a contar com duas patrocinadoras informais mas muito prestáveis, sem as quais ser-me-ia completamente impossível continuar o blogue.

O tempo foi passando até que, por circunstâncias da vida, e para não deixar morrer um projecto de amor e dedicação, decidi dar um passo em frente e, no primeiro trimestre de 2016, contactei mais editoras (sete ou oito) para ajudar na empreitada. Apenas Edições Vieira da Silva e Chiado Editora responderam afirmativamente e passaram a fazer parte do leque de patrocinadores, agora de forma oficial, do TOCA A ESCREVER.

Com os livros das editoras patrocinadoras e os que me foram sendo oferecidos por alguns autores amigos, vi-me na necessidade de alargar a divulgação e, no dia 1 de Janeiro de 2017, o TOCA A ESCREVER passou a publicar dois poemas por dia.

No último ano, o crescimento do blogue tem sido de tal ordem que vi-me obrigado a fazer pré-agendamento e neste momento já não há datas disponíveis até início de Agosto. Por isso comecei a ponderar a criação de uma página de facebook para o TOCA A ESCREVER, de modo a dar outra visibilidade e fluidez ao projecto. No entanto, mais uma vez devido a circunstâncias da vida e uma fase mais intensa ao nível de envolvimento pessoal em outros projectos, a falta de tempo impedia-me de dar esse passo de forma célere. Por isso optei por uma solução intermediária até que as condições voltassem a permitir dar o passo pensado; a cada partilha dos poemas, nos diversos grupos de Facebook (que me autorizam divulgar o projecto), fui colocando algumas informações sobre o blogue.

Quis o destino - ou o que quiserem chamar, de acordo com as vossas convicções - que estas minhas frases promocionais captassem a atenção de alguém que, reconhecendo a validade do projecto, demonstrou interesse em ajudar na sua divulgação e, verdade seja dita e justiça seja feita, tem contribuído bastante para uma maior visibilidade do blogue e um crescente interesse por parte de muitos autores em aderir e contribuir, com os seus livros, na expansão do TOCA A ESCREVER.

Posto isto e porque o crescimento atrás mencionado torna humanamente impossível para mim acompanhar, no ritmo certo, esta evolução súbita, achei por bem alargar o capital humano do projecto e, aproveitando o interesse e a disponibilidade demonstrada, aceitei a parceria da Adriana Mayrinck na elaboração e gestão da página de facebook do TOCA A ESCREVER, que já está a ser preparada e em breve iniciará actividade.

Apesar da ideia original ter sido minha, este projecto sempre foi de todos os autores divulgados. Uns com manifesto interesse, outros sem sequer saberem da sua existência, todos contribuíram para a transformação que o blogue sofreu ao longo de mais de sete anos.

Agora chegou a hora de um novo passo, que também se deseja evolutivo, e o envolvimento da Adriana Mayrinck, com tudo o que puder acrescentar, vai certamente ao encontro dos fundamentos que estiveram na génese deste projecto.

A vida não é feita de certezas nem de dados adquiridos, ela é feita de riscos e apostas no escuro. Quando o TOCA A ESCREVER nasceu, eu estava bem longe de imaginar que o seu percurso seria este e desconheço em absoluto qual vai ser o destino do projecto. No entanto, creio que existe muito caminho a percorrer e as possibilidades são imensas. A única garantia que tenho é que a ideia inicial, baseada no amor pela poesia lusófona e na utilidade em divulgar os autores lusófonos, mantém-se e jamais se alterará, independentemente daquilo que o futuro reservar para este projecto desprovido de ambições, desde a raiz.

MANU DIXIT




  

quinta-feira, 4 de maio de 2017

EU FALO DE... FEIRA DO LIVRO DE AUTOR DE VILA FRANCA DE XIRA


Na foto: Vítor Costeira e Emanuel Lomelino

Por sugestão do poeta Alexandre Carvalho, membro da Associação Alves Redol, aceitei participar, como autor, na Feira do Livro de Autor, realizada nos dias 28 e 29 de Abril, no Mercado Municipal de Vila Franca de Xira.

Em primeiro lugar, aceitei este convite, não por achar-me com os méritos suficientes, enquanto autor, para participar em eventos do género, tampouco o fiz com a esperança de retirar grandes proveitos, mas porque acredito que um dos deveres dos autores é auxiliar aqueles que, com poucos meios mas muito empenho, se entregam às hercúleas tarefas de proporcionar formas honestas e descomprometidas de dar visibilidade a uma das vertentes mais importantes em qualquer sociedade: a cultura.

Já perdi a conta às vezes que ouvi autores queixarem-se das poucas iniciativas que possibilitam uma maior difusão das suas obras, no entanto, basta estar atento às actividades de associações locais para se perceber que não são tão poucas quanto isso. E se mais não há, isso deve-se apenas ao desinteresse demonstrado por aqueles que simplesmente se queixam.

Nestes últimos dias tive muito tempo para pensar neste assunto e cheguei a uma triste mas indesmentível verdade: aqueles que apenas se lamuriam, só consideram boas iniciativas, para divulgação e difusão das suas obras, aqueles certames, de pompa e circunstância, como as Feiras do Livro de Lisboa e Porto ou eventos como o Correntes de Escrita da Póvoa de Varzim e negligenciam a importância das actividades locais, logo, menos mediáticas. E, aqui puxo dos galões da minha conhecida sinceridade, não podiam estar mais enganados na forma de pensar. Os grandes certames, os grandes eventos, as grandes feiras, são importantes apenas para aqueles autores que têm, atrás de si, grandes máquinas promocionais que lhes fazem o trabalho de sapa, que os de menor visibilidade não têm e dificilmente terão ao seu dispor.

Acho que, no fundo, esse pensamento enraizado na mente de muitos autores é, mais que falta de humildade, uma tremenda falta de senso por não terem os pés bem assentes no chão e andarem iludidos com as promessas que lhes fizeram e com os sonhos que, outros, souberam alimentar em seu proveito.

Sirvo-me da reflexão anteriormente exposta para ilustrar a reacção, quase premonitória, que tive quando, antes do início da Feira do Livro de Autor, estando em conversa com o outro autor presente (Vítor Costeira) e dois membros da Associação Alves Redol, nos foi informado que mais cinco ou seis autores tinham confirmado a sua presença no evento. Informação essa que, tal como “profetizei”, não se concretizou.

Escusado será dizer qual era o estado de espírito dos elementos da Associação quando confrontados com a dura realidade.

E assim, no primeiro dia, lá ficámos nós (eu e o Vítor Costeira) a transformar em realidade menos penosa, todo o esforço e dedicação daqueles que tomaram a iniciativa de criar este certame literário. No segundo dia tivemos a companhia da autora Maria Luz e, entre visitas de amigos e leitores dos três autores, fez-se a festa à moda dos “poucos mas bons”.

É evidente que as expectativas dos organizadores foram goradas, no entanto, ficaram a saber que todo o esforço e dedicação não caiu em saco roto porque três autores decidiram, e bem, prestigiá-los marcando presença e sendo os pioneiros daquilo que, quem sabe, no futuro, possa vir a ser um evento com maior adesão de autores e assim transformar-se num certame de referência na zona de Vila Franca de Xira. Assim o entendam outros autores para que estas associações não desmoralizem e continuem a ajudar na divulgação e promoção da cultura.

MANU DIXIT

segunda-feira, 24 de abril de 2017

EU FALO DE... CULPAS E DESCULPAS


Ser autor não se resume ao acto criativo. Existem responsabilidades às quais não se pode virar costas e que aumentam na exacta medida do crescimento do autor e do impacto da sua obra. Quanto mais se cria maiores são os cuidados a ter e um autor não deve, nem pode, furtar-se a assumir as responsabilidades que lhe cabem.

Esta deveria ser uma regra seguida por todos os autores/criadores, no entanto, a distância entre os deveres de um autor e o que se pratica na realidade do dia-a-dia é abismal. A generalidade deixa-se enlear pelos próprios limites e recusa-se a fazer mea culpa, por erros cometidos, preferindo sacudir as responsabilidades para ombros alheios.

Poderia dar inúmeros exemplos mas restringir-me-ei a apenas um, pela frequência com que testemunho este género de situações e comportamentos.

Ao longo do tempo tenho sido, de acordo com a minha consciência (certo ou errado, outros o dirão), uma voz crítica sobre o modo como muitos editores e/ou aspirantes a editores tratam o objecto livro; seja na concepção, elaboração, promoção ou divulgação. Para quem ama os livros, e os consome como quem respira, é triste ver algumas edições amputadas de esmero e brio.

No entanto, nem tudo se deve ao desleixo - para não dizer indiferença - dos editores ou aspirantes a... Muitas vezes os culpados das falhas, que os leitores observam, são os autores que, de forma inconsciente ou talvez não, sacodem a poeira dos ombros e apontam o dedo a quem é mais fácil apontar. E embora, junto de leigos e outros desatentos, os argumentos possam parecer não deixar dúvidas sobre o foco gerador das falhas, a verdade é que muitas vezes a responsabilidade do erro, quanto muito, deveria ser repartida entre editores e autores.

Como disse anteriormente, vou limitar-me a um simples exemplo de erro crasso presente nos livros que se editam e que, com muita pena minha e de quem gosta de ler, é cada vez mais frequente: erros de grafia e ortografia.

Quem é que, ao alertar um autor para a existência de um erro no seu livro, não recebeu como resposta algo do género: "Se a editora fizesse uma revisão isso não acontecia."

É evidente que à editora cabe a responsabilidade de limar as arestas daquilo que é produzido pelo autor, no entanto, para o erro lá estar alguém teve de o cometer, e esse só pode ser o autor. No entanto, e porque nesta questão existem outros factores a ter em consideração, hoje em dia muitas editoras, na hora de fazer o seu "orçamento", colocam duas opções ao dispor dos autores: um valor com revisão e outro sem revisão. Não é preciso ser um génio para compreender que, a generalidade dos autores, opta pela versão menos dispendiosa com a desculpa de ser um desperdício gastar mais para rever o que, à partida e pelas diversas revisões feitas por si, não tem erros. Depois, aquando do confronto com a realidade, é que se fala em colocar trancas no que já está arrombado.

Concordo que a editora deve fazer o trabalho que lhe compete mas, a partir do momento em que são colocadas duas possibilidades ao autor e aceitando este uma delas, o autor não pode isentar-se de responsabilidades. E argumentar que este tipo de erros prejudica a imagem da editora é uma falsa questão, porquanto não são meia dúzia de exemplares de um livro - quem diz meia dúzia diz duas dezenas - que vão manchar a imagem seja de quem for, tendo em conta que esta situação normalmente ocorre com autores que simplesmente editam para amigos e familiares e pouco mais e as editoras sabem reconhecer as particularidades de cada caso. No dia em que se voltar a editar para leitores em vez de o fazer para público próximo do autor, quem sabe, aí as coisas mudem e eu não ofereça tanta resistência a este último argumento. Mas isso são contas de outro rosário... voltemos ao essencial.

Peguemos no assunto por outro prisma. Ignoremos, por instantes, que as editoras se furtam a uma tarefa que lhes compete e centremo-nos naquilo que os autores mandam para as editoras. E aqui chegados eu sou obrigado a perguntar: Que culpa têm as editoras que um autor (infelizmente não é só um) não saiba distinguir "pudesse" de "pode-se"; "dissesse" de "disse-se"; "à" de "há"; ou que escreva "caiem"(não do verbo «caiar»), "traiem", "saiem", ou ainda, que não saiba colocar correctamente uma vírgula?

Como disse no início desta dissertação, os autores têm de assumir os seus erros e ter uma atitude de maior responsabilidade perante aqueles que os lêem, mesmo que sejam só familiares e amigos e pouco mais. Ser autor não é só criar. Ser autor é assumir a responsabilidade de ser parte integrante de uma vertente importante no desenvolvimento dos povos: a cultura.

Há que assumir as culpas e deixarem-se de desculpas!

MANU DIXIT