segunda-feira, 15 de julho de 2024
A revolução dos cravos - Francisco Silva
domingo, 14 de julho de 2024
Crónicas de escárnio e Manu-dizer 1 - Emanuel Lomelino
17-01-2024
Sou acérrimo apologista da liberdade de expressão e defendo que esta prerrogativa é universal, inviolável e ninguém pode ser impedido de a exercer.
Posto isto, mesmo não concordando com as causas patrocinadoras de algumas manifestações, que têm acontecido nos últimos tempos, não posso opor-me ao direito que assiste aos que nelas se reveem. E condeno todas as acções que violem esse direito.
Posso, sim, exteriorizar a minha preocupação pelo radicalismo que grande parte dos manifestantes demonstra, principalmente, ao reagir com fúria e, até, violência, contra quem tem opiniões distintas ou opostas.
Esse comportamento condenável só pode ter origem em uma de duas motivações – impor uma convicção, ou elitizar os direitos.
Seja qual for o propósito, ambos são completamente antagónicos à mesma liberdade que tem permitido a existência de manifestações, que não podem ser déspotas.
EMANUEL LOMELINO
sábado, 13 de julho de 2024
Epístolas sem retorno 2 - Emanuel Lomelino
Prezado Carl,
Apesar de conseguir entender a generalidade dos argumentos usados em defesa da Teoria das Sombras, permito-me considerar que, em alguns casos, a aplicação seria bem mais nefasta do que benéfica.
Acaso previu a arbitrariedade intelectual do génio humano? Porventura, refletiu sobre toda a extensão interpretativa que a sua tese permite?
Lembro-lhe que a humanidade é heterogénea, logo, também engloba elementos com tendência para fazer leituras erróneas, interpretar de acordo com os seus interesses mundanos e desvirtuar conceitos, por mais claros e dogmáticos que possam parecer.
Dito isto, creio que aprofundar o conhecimento dos aspectos mais negros pode ser fulcral para que cada um possa conhecer-se melhor, no entanto, fazer uso permanente desse entendimento não garante a otimização do carácter de todos os indivíduos.
Com estima
Emanuel Lomelino
Liberdade um bem maior (excerto) - Fátima Pinto Camilo
sexta-feira, 12 de julho de 2024
Epístolas sem retorno 1 - Emanuel Lomelino
Caríssimo Fernando,
Sabes que a única semelhança, que detecto entre nós, reside na esquizofrenia que nos define. Tudo o resto nem cabe na mesma frase.
Pois bem, estive a reflectir e cheguei a uma conclusão definitiva (perdoa a redundância). Embora padecendo da mesma condição, ao contrário de ti, nunca tive a capacidade para me desmultiplicar e, só por essa razão, continuo a manter-me uno.
Para além disso, até na teoria do nosso deslocamento temporal comum tu levaste vantagem, uma vez que profetizaste o destino e alcance do teu acervo criativo (parabéns por isso), enquanto eu tenho de contentar-me em viver todos os dias que me restam com a certeza de que o meu lugar era num tempo que aconteceu antes mesmo de ter nascido.
Cada um com o seu fado.
Com admiração,
Emanuel Lomelino
quinta-feira, 11 de julho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 366 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
366
Esta é a última página do Diário do absurdo e aleatório, no entanto, é o primeiro texto a ser escrito para este projecto, que nada mais é do que um desafio pessoal ao nível dos exercícios de escrita que me habituei a criar.
Aliás, escrever estas palavras iniciais acaba também por ser um desafio, tendo em conta que estou a fazê-lo com um ano de antecipação e não faço a mínima ideia do rumo que a vida e este desafio terão levado.
Feita a introdução, deduzindo que não aconteceu nada impeditivo e haja alguém que tenha acompanhado as páginas do diário, as próximas linhas serão escritas como se estivesse a fazê-lo depois de publicados todos os restantes textos. Pelo menos para alertar sobre o desfasamento temporal entre a produção dos textos e a respectiva publicação nos blogues e sequente partilha nas minhas páginas das redes sociais.
Assim sendo, esclareço que a ideia deste desafio foi exercitar a minha capacidade de escrita em prosa, através de pequenos textos, de forma continua e disciplinada, mas sem grandes preocupações literárias ou estilísticas. Essas deixo-as para as minhas criações poéticas, que só veem a luz do dia quando publicadas em livro.
Não podendo dissertar sobre o conteúdo dos textos, mas sabendo quem sou, como funciono e penso, não tenho dúvidas que a maioria dos textos tem alguma ligação ao universo literário, e os livros foram o ponto de partida para muitos exercícios.
Por esta altura, completados os 366 dias de validade deste desafio, já devo ter mais algum em marcha, certamente não tão longo, mas também desafiador, bem do meu jeito.
Para finalizar, e uma vez mais na perspectiva de ter havido alguém a acompanhar as absurdas e aleatórias páginas do diário, agradeço todas as reacções, tenham sido comentários ou simples “gostos”.
EMANUEL LOMELINO
Chá, magia e sapatos vermelhos (excerto) - Clarissa Machado
quarta-feira, 10 de julho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 365 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
365
Encerra-se um ano de palavras exercitadas na mais completa aleatoriedade, em que, mesmo não parecendo ou nem sendo por inteiro, o lado absurdo deste ofício da escrita foi imagem de marca e objecto de criação prática avulsa.
As páginas deste Diário do Absurdo e Aleatório, preenchidas sem qualquer pretensão literária (pelo menos não lhes reconheço esse mérito), foram uma fase de aprendizagem continuada que chegou ao fim sem que se tenha esgotado o propósito.
Treinar a escrita sempre foi, e será, a melhor forma de evolução e os desafios de cada texto, aliados à disciplina férrea autoimposta, permitem deambular por mundos de experimentalismo e descobrir as especificidades de cada fórmula, de cada conceito, de cada abordagem, e identificar quais os caminhos que melhor de adequam à voz literária.
Outros exercícios, tão ou mais absurdos e aleatórios, mas com o mesmo propósito, já estão em pré-agendamento porque, enquanto autor, quero que os leitores conheçam todo o processo criativo – não só o acervo editado.
Assim, os textos deste Diário do Absurdo e Aleatório, tal como os próximos, devem ser entendidos, apenas e só, como exercícios que servem para que possa treinar e aferir o estado evolutivo da minha escrita e cujos resultados, positivos e negativos, sirvam para que as minhas criações editáveis sejam mais bem buriladas.
EMANUEL LOMELINO
terça-feira, 9 de julho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 364 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
364
Os bons livros nunca são aqueles cujo enredo, a trama, ou a estória, são construídos na perfeição da lógica. Tampouco são aqueles em que o sol sempre brilha ou a chuva é louvor.
Um bom livro é aquele que incomoda, que incendeia os pensamentos, que agita o solo que pisamos, que estupra a mente deixando sementes de incógnita e desconforto.
Um bom livro é aquele que dá raiva, que inflama os sentidos, que provoca terramotos emocionais, que nos faz duvidar de todos os dogmas e acreditar que é utópico pensar em utopias.
Um bom livro é aquele que enfurece, que queima as pálpebras, que abala todos os alicerces, que nos chocalha de forma intermitente, que nos sacode a alma com violência.
Um bom livro é aquele que desperta as nossas sombras mais profundas, que faz brotar luz nas trevas do nosso ser, sem tabus nem condicionantes.
Um bom livro é aquele que nos revolta, que nos engessa, que nos decapita, que nos mutila, mas mesmo assim liberta-nos do fastio, da mesmice e das masmorras da ignorância.
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 8 de julho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 363 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
363
Soltam-se as plumas da noite e a lua – porta-estandarte de todos os astros – deixa-se ver no máximo expoente das suas crateras, como quem exibe umbigos e brotos. E nem a obscuridade dos cúmulos noturnos lhe retira o brilho emprestado.
Na sua nudez aristocrática e presunçosa derrama uma áurea hipnótica, quase magnética, que cativa os uivos caninos, o trinar das guitarras e os apetites canalhas dos malandros mais ousados.
Também os gatos, felinos com refletores nos olhos, demonstram boémia ao luar e por isso fazem dos telhados os seus lugares de eleição para escrutinarem eventuais descuidos de roedores audazes, juntando-se, assim, às corujas de olho grande e aos morcegos acrobatas.
E quando os aspersores molham os jardins, a horas fora-de-horas, são mais os sonos consumados do que as insónias imprevistas ou propositadas, e os pirilampos – quais vigilantes de turno – iluminam os caminhos aos louva-deus e às formigas que perderam a noção do tempo, por terem preferido assistir ao concerto integral das cigarras vagabundas.
EMANUEL LOMELINO
Surpresa, incredulidade, incompreensão (excerto) - Dulcí Ferreira
domingo, 7 de julho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 362 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
362
Ei-los, os prisioneiros do infortúnio que deixaram de ver quando colocaram as vendas costuradas pelas próprias mãos e insistem na inocência, outorgando todos os delitos a terceiros.
Ei-los a marchar altivos nas suas algemas de sofrimento reptiliano, com lágrimas insonsas e esgares lamuriosos copiados de folhetins radiofónicos.
Vejam quão intensas são as improvisações cénicas, com gestos eloquentemente fátuos de exagero, gritos estridentes de vergonha alguma e prantos de vexame enlameado.
Vejam como se amontoam nos muros da choradeira e alardeiam em danças uníssonas os seus pesares comuns, como insectos a comunicar novos lugares de colheita.
Ah, essas vítimas de culpa alheia que sofrem nos labirintos da comiseração enquanto apontam o indicador em todas as direcções esquecendo-se de observar os outros dedos.
EMANUEL LOMELINO
Abril, cravos mil... (excerto) - "Desafinador" de palavras (Francisco M.C.M. Faustino)
sábado, 6 de julho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 361 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
361
Os escritores são seres camaleónicos, quase trapezistas, que deambulam, em equilíbrio precário, na ténue linha que separa a realidade da ficção.
Tanto vestem as suas cores como outras peles, de acordo com a sensibilidade que têm ou desejariam ter, numa busca incessante da perfeição que sabem não existir.
Percorrem trilhos de convicção, por vezes contrária aos seus princípios morais, apenas para dar humanismo às suas letras e ficarem mais próximos das verdades daqueles que os leem.
Os escritores são personagens com múltiplas caras e outras tantas esquizofrenias, em benefício da criação, em nome da obra, em prol da literatura, em proveito próprio.
Afirmo. Por mais que se consigam interpretar os textos, é impossível conhecer um escritor através das palavras. Até se pode identificar a origem de algumas feridas ou detectar cicatrizes, mas nunca a essência das escaras.
EMANUEL LOMELINO
Uma aventura na estação do tempo… (excerto) - Ana Mendes
sexta-feira, 5 de julho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 360 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
360
Esgotou-se-me o sono, como acontece em todas as madrugadas de preguiça, e fico aqui, estaticamente deitado, a observar o silêncio aleatório da noite alta.
Na fluorescência dos pensamentos, que roem as sobras da modorra corporal, dou por mim a vaguear entre sonhos esbatidos, convicções dormentes, desejos impertinentes, certezas dúbias e outras leviandades do espírito, que só o próprio poderia explicar se fosse essa a sua vontade (que nunca é).
No meio desta sessão de tramas tão absurdas quanto despropositadas – porque a clareza das ideias nocturnas hão de esbater-se nos labirintos do mundo real – oiço o início da sinfonia piadora das aves, empoleiradas nos inexpressivos salgueiros, como estivessem a culpar-me pela sua insónia.
Abeiro-me da janela e solto um chiu mental para não acordar a vizinhança, e os pássaros, que parecem entender-me durante meio segundo, regressam às suas reclamações chilreadoras com vigor redobrado.
Perante a insolência canora, volto ao leito que esfria e sou esbofeteado pelo único pensamento lúcido que os primeiros raios solares iluminam: ainda estou de estômago vazio.
EMANUEL LOMELINO
quinta-feira, 4 de julho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 359 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
359
Afastei-me do mundo na consciência deste egoísmo que conservo, nas coisas que me são próximas, nas ideias que me motivam, na defesa de um legado (que também carrego nos ombros, em virtude de uma paixão autoalimentada, à base de crença e platonismo assumido).
Afastei-me do mundo na convicção deste interesse que mantenho, na paz do silêncio, na tranquilidade da reflexão, no apego ao equilíbrio emocional, na estima pela herança imaterial deixada por literatos coerentes, cujas palavras (leia-se obras) conseguiram, de alguma forma, indicar-me os caminhos a percorrer até encontrar a minha voz literária.
Afastei-me do mundo para deixar de sentir incómodo pela postura ébria e circense das letras contemporâneas, que apenas existem porque as luzes e ribalta anarquizaram-se em nome de uma originalidade desordenada, que nada mais é do que oposição aos clássicos por evidente falta de capacidade inovadora.
Afastei-me do mundo, simplesmente, porque o mundo nada me diz, eu já disse tudo o que havia para dizer, e agora apeguei-me a este outro mundo que tenho entre mãos.
EMANUEL LOMELINO
quarta-feira, 3 de julho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 358 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
358
A aspereza rústica nas dobras dos dedos, que já dificulta cerrar os punhos, mais do que embrutecer o individuo, esconde a civilidade branda do toque.
A rijeza da derme tisnada pelo sol, curtida pelo vento, esculpida pela chuva, mais do que mirrar o corpo, oculta a polidez sensível do carácter.
O olhar rubro-vítreo, com cataratas e teias bailarinas, mais do que sombrear os horizontes, mascara o discernimento da alma.
Por mais tosco e quebrantado que alguém possa parecer, nunca podemos esquecer que a própria natureza é dissimulada e um simples pedaço de carvão pode ser um diamante camuflado.
EMANUEL LOMELINO
terça-feira, 2 de julho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 357 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
357
Já perdi a conta ao número de vezes em que te falei sobre a migração das aves sazonais. Sim, aquelas que pavoneiam as dermes pintadas com as cores da moda e, quando a ilusão do estio se arrasta na imodéstia dos oásis virtuais, revelam a sua natureza necrófaga.
Pertencem a uma espécie com altos índices de propagação, têm uma habilidade ímpar para o logro e são capazes de metamorfosear-se de acordo com as necessidades e/ou conveniências.
Alertei-te também para a perspicácia destes seres que sabem “veneziar-se” sob as luzes dos holofotes enquanto as sombras albergam os seus verdadeiros rostos.
Dito isto, e porque muitos desconhecem o carácter maledicente de papagaios, corvos, araras, gralhas, pavões e abutres, o melhor é não colocar milho nas mãos nem alpista nos comedouros, não vá algum outro passeriforme cuspir nos pratos que lhes tens servido.
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 1 de julho de 2024
Diário do absurdo e aleatório 356 - Emanuel Lomelino
Diário do absurdo e aleatório
356
São poucos, infelizmente, aqueles que têm consciência da diferença entre o que se pensa saber e a sabedoria que se possui.
Vê-se por aí tanta gente a exibir certezas absolutas sem conhecimentos básicos, como se as verdades de cada vida fossem dogmas universais.
Se só existissem rectas e vias paralelas, talvez pudéssemos aplicar uma linearidade transversal, no entanto, todas as encruzilhadas, cruzamentos, desvios, e livre-arbítrio, demonstram quão longe a humanidade está de poder considerar a vida uma ciência exacta como a matemática mais simples.
Apesar do ponto de partida e de chegada ser o mesmo para todos, sem excepção, os caminhos entre o início e o fim diferem. E tudo isto é assim porque, na contabilidade da vida, podem-se fazer muitas contas diferentes para se obter um só resultado.
EMANUEL LOMELINO















