terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Lomelinices 71 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

71

Por mais idiota que pareça, começo a sentir as dores do envelhecimento. Não por, a cada dia que passa, aparecer mais um cabelo branco, tampouco por olhar no espelho e ver mais rugas no rosto, menos ainda por sentir que já não tenho a agilidade suficiente para retirar o dedo antes do impacto do martelo.

Estou a sentir as dores de ser quem sou, dentro de um corpo que envelhece, mas sem a capacidade de acompanhar, serenamente, o ritmo de todas as mudanças.

Sinto as dores de ter-me educado a pensar, a refletir, a ponderar, a analisar todos os ângulos de um problema, tentar arranjar as melhores soluções, aplicá-las e, caso seja necessário, retomar o processo e enveredar por alternativas.

Sinto as dores de não conseguir entender esta urgência modernista de catalogar os fracassos como sinais de caducidade, considerar o ontem obsoleto e não dar espaço ao pensamento livre.

Sinto as dores de não querer seguir em frente sem dar luta à vida. Sinto as dores de não ter a habilidade de simplesmente deixar-me ir na onda. Sinto as dores de não ser capaz de trilhar os caminhos mais fáceis – porque confortáveis.

Sinto todas as dores de envelhecimento porque, além de corpóreo, sou mental e, ao contrário das novas gerações, nunca me limitei a decorar os textos, prefiro compreendê-los e sujar as mãos - de lama ou sangue, não importa – porque, só assim, poderei sentir-me plenamente concretizado, mesmo nos falhanços.

Estou a envelhecer e a sentir todas as dores desta metamorfose.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Lomelinices 70 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

70

Afasto-me na urgência imperativa de encontrar a distância certa para ficar fora de alcance.

Não quero os meus olhos infectados com o mais ténue vislumbre das falsas asas de borboleta, impregnadas com o visco dos adjectivos desvirtuados.

Distancio as narinas dos cárceres balsâmicos que exalam maresias de refluxo e invadem, como tsunamis camuflados, as praias da minha individualidade.

Não quero provar os banquetes requintados, com acepipes sabendo a almíscar, mas confecionados nas esconsas adegas das abadias sem fé outorgada.

Quero distância. Por isso afasto-me. Quero ficar longe, cada vez mais longe, dos embustes e emboscadas que rastreiam os meus sentidos. Preciso escapar deste turbilhão e encontrar a serenidade de outros horizontes.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 29 de dezembro de 2024

Pensamentos literários 10 - Emanuel Lomelino

Pensamentos literários 

10

Todos buscam, por vezes de forma desenfreada, contudo irrefletida, o conhecimento pessoal – vulgo autoconhecimento, ou autognose (sim, fui ver no dicionário).

Há quem dedique uma vida inteira nesse propósito sem encontrar resposta alguma. Outros há que estão sempre a encontrar respostas, mas sem conseguirem satisfazer-se com uma só.

Há quem alcance laivos de revelação nos momentos mais mundanos, porque vulgares (como numa roda de conversa) ou em níveis místicos, porque incorpóreos (como numa sessão espírita).

Já eu, encontro o maior conhecimento de mim quando estou a ler – independentemente do género. Embrenho-me nos textos e dou por mim e reagir, mentalmente, a cada personagem, a cada acção, a cada atitude, a cada frase. Descubro-me nos pensamentos que a leitura me provoca e, assim, vou-me definindo através de epifanias literárias.

EMANUEL LOMELINO

O princípio do mundo (excerto 18) - Jorge Chichorro Rodrigues

 
LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O tempo eterno em que vivem dissolve-lhes o espaço, a geografia, e a ciência é-lhes inconcebível, porque a ciência tem demasiadas relações com a História, com o tempo e com o espaço, que igualmente desconhecem na sua inocência... O mundo deles está fora do tempo e do espaço tal como os concebemos, mas não acontecerá isto, de certa maneira, com todos os povos da Terra? O tempo e o espaço de um português não diferem dos de um castelhano, de um inglês ou de um genovês?

EM - O PRINCÍPIO DO MUNDO - JORGE CHICHORRO RODRIGUES - IN-FINITA

sábado, 28 de dezembro de 2024

Lomelinices 69 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

69

À medida que me embrenho na longitude da idade, reforço a certeza de ter sido integrado num tempo que jamais deveria pertencer-me.

Esta percepção – algo entre ingenuidade e sentimento de negação – fez-me acreditar, na juventude, que o meu carácter era inocente - por berço, natureza e fado.

Com os anos, esta leitura revelou-se-me, surpreendentemente sem espanto, na plenitude da sua erroneidade, permitindo-me identificar, como nunca antes vira, os pontos de união entre episódios isolados e o meu desenquadramento temporal.

Na ausência de via alternativa, procurei adaptar a minha essência à realidade, como um trapezista, em busca de equilíbrio entre dois mundos.

Esse processo de calibragem permitiu-me entender as motivações para a existência e aplicabilidade de inúmeros conceitos, que dariam para escrever mil ensaios e teses de comportamento humano. Quem sabe, um dia os farei.

Por agora limito-me a confirmar que vivo deslocado no tempo, num mundo que não é o meu e com o qual não me identifico.

EMANUEL LOMELINO

Prisioneira em liberdade (excerto 12) - Maria Antonieta Oliveira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Quando os pescadores tiravam as redes dos barcos, já em terra se encontravam as suas mulheres, com o seu traje de varinas ou peixeiras, como queiram, com os seus pregões, sobre a qualidade do peixe, este até brilha como a prata e sobre o preço, enfim, era uma gritaria e uma algazarra, que por vezes quase dava em guerra e (porrada), mas lá iam vendendo algum do que traziam a quem já sabia que mais ou menos àquela hora havia peixe fresco. Algum ainda vivo e a saltar. E sempre realizavam algum dinheiro extra.

EM - PRISIONEIRA EM LIBERDADE - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA - IN-FINITA

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

Lomelinices 68 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

68

Naqueles dias em que esqueço de me equipar a rigor, fico suspenso nas escarpas íngremes da memória e os pensamentos nascem reféns pré-datados, como se a mente tivesse sido calibrada para uma só lembrança.

Por mais voltas que dê, por mais tentativas que faça, há sempre uma ou outra recordação a querer protagonismo, como quem procura ser reconhecido acima da sua própria importância.

Nesses momentos fico insuportavelmente incomodado com o desaforo do tempo, em querer ultrapassar a sua caducidade, porque sou apologista convicto, para não dizer radicalmente defensor, da máxima: “águas passadas não movem moinhos”.

Para além disso, é tedioso pensar em mono, ainda por cima, numa era em que a celeridade dos avanços tecnológicos é maior do que um piscar de olhos e, apesar de ser da velha escola, já me habituei às multiplataformas.

EMANUEL LOMELINO

A dúvida (excerto 6) - Zélia Alves

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Simulei que tinha de ir trabalhar no exterior durante três dias. Fiz a mala e despedi-me de ti e da mãe. Aluguei uma residencial e à noite, sem que ela me esperasse, meti a chave à porta e entrei. Então, para mal dos meus pecados, a minha suspeita confirmou-se: ela tinha-te mandado para a casa da Luísa e estava na cama com o Feliciano. Desculpa filha, sujeitar-te à realidade. Fiquei cego de raiva e disse-lhes: “sejam felizes! Tão cedo não voltarás a pôr-me a vista em cima. O sustento da nossa filha não lhe faltará…só lamento deixar de ser o pai presente que ela merece”. Corri em vão, que nem um louco pela cidade, procurando consolo, que nunca chegou.

EM - A DÚVIDA - ZÉLIA ALVES - IN-FINITA

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Devaneios sarcásticos 5 - Emanuel Lomelino

Devaneios sarcásticos 

5

Um dos maiores flagelos da actualidade é a ignorância. Não no sentido ingénuo do termo, mas sim no mais arrogante - porque erradamente pretensioso.

São tantos os exemplos que seria exaustivo enumerá-los todos. Por isso, vou apenas cingir-me aos que ignoram, com consciência, a diferença que existe entre culto, erudito e inteligente.

Estes três adjectivos, que muitos consideram sinónimos, são três níveis distintos de intelectualidade.

O culto é uma pessoa instruída e informada, com conhecimento multitemático.

O erudito é aquele que conhece, em profundidade e detalhe, por via do estudo e leitura, uma miríade de assuntos.

O inteligente é aquele que entende e raciocina sobre os conhecimentos adquiridos, conseguindo encontrar-lhes utilidade e aplicação no exercício de outras actividades.

Para que entendam melhor as diferenças usarei como exemplo o mundo automóvel.

O culto conhece quase todas as marcas. Sabe distinguir as diferentes caraterísticas de cada veículo. Tem noções do funcionamento mecânico e as potencialidades de cada viatura.

O erudito já leu sobre todas as marcas ao ponto de conhecer a história de cada uma delas. Sabe diferenciar, em detalhe técnico, de manual, os diferentes componentes mecânicos e a lógica de funcionamento de cada porca e parafuso. Conhece, em pormenor, o processo de combustão, os circuitos eléctricos e de refrigeração, para que servem e como funcionam.

Inteligente é o mecânico, que na sua oficina consegue identificar, pelo som do motor, as deficiências mecânicas de um veículo; descobrir qual a válvula danificada; qual a porca mal apertada; aumentar a potência de um motor; etc.

Assim sendo, deixem de ser ignorantes e não menosprezem as capacidades daqueles que têm as mãos sujas de óleo. Esses serão sempre os mais inteligentes.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Lomelinices 67 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

67

As pessoas têm um medo insano do silêncio que as leva a urrar as maiores atrocidades, como quem faz piruetas sempre que a luz dos holofotes incide sobre si.

São poucos aqueles que sabem valorizar a solidão consciente e reconhecer o silêncio como um lugar privilegiado onde ninguém, para além do próprio, deve ingressar.

Um espaço, bem no âmago, onde a consciência consegue respirar livremente e restabelecer-se num ambiente de intimidade e conforto, em que o vazio total é sinónimo de paz.

Infelizmente, há quem desconheça o carácter paliativo do silêncio e o confunda com solidão emocional, e por essa razão usam todos os artifícios para jamais ficarem fora do alcance dos olhares alheios. Esses, pobres vítimas do engodo, nunca serão capazes de compreender o quão falaciosa pode ser uma multidão e como é um engano pensar que caminhando em grupo se ludibria a solidão nefasta.

Mas o pior é não entenderem que existe quem faça do silêncio um porto de abrigo e reflexão, opte por trajectos alternativos, longe das ribaltas e sem grandes alardes, porque é dentro de nós que nos encontramos verdadeiramente.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

Lomelinices 66 - Emanuel Lomelino

 

Lomelinices 

66

A vida tem-me escamado os sentidos como se a minha existência fosse um cúmulo de estações que se repetem ciclicamente.

Sinto-me um objecto renascentista, nas mãos do destino, quando os dias revelam ser dejá vu em looping, uma e outra e outra e outra vez.

A aspereza vulcânica, que pensava ter exterminado e dera lugar ao reinado de uma gentil suavidade, nascida de uma necessária e útil cordialidade, e que me impedia de reagir em impulsos nefastos, regressou ainda mais explosiva, como quem retorna ao ponto de partida após uma ausência consciente, deliberada e com horas contadas.

A tolerância escoa-se em animalescas correntezas de impaciência, tal como o rio mais feroz e indomável.

Conclusão… por mais que embelezemos os cenários a essência jamais se altera porque as pedras serão sempre pedras, por mais que alisemos as rudes arestas pontiagudas.

EMANUEL LOMELINO

O princípio do mundo (excerto 17) - Jorge Chichorro Rodrigues

 
LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Terminado o santo ofício, os portugueses dispersaram-se e os índios começaram a executar danças e a correr com as setas e os arcos, dando um espetáculo inesperado aos presentes. Estavam felizes, sentiam-se leves como pássaros, e dir-se-ia que agradeciam a chegada daquelas naus ancoradas em frente, que eram como grandes aves com asas que tinham descido dos céus. Os seus corpos nus e perfeitos brilhavam muito asseados, sem nenhuma mácula, e contrastavam com os dos portugueses, fétidos, escondidos debaixo de espessas vestes, e, no caso de alguns, exibindo feridas fundas provocadas pelo escorbuto e por outras doenças características de quem anda no mar.

EM - O PRINCÍPIO DO MUNDO - JORGE CHICHORRO RODRIGUES - IN-FINITA

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Lomelinices 65 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

65

Conheço-me por inteiro, de polo a polo, em todas as coordenadas e pontos cardeais. Sei os meus atalhos, desvios e encruzilhadas. Domino a minha geografia, até de olhos fechados, de trás para a frente e em linha recta. Vejo-me na plenitude do ser (pensante e corpóreo) e sinto-me na totalidade das fracções que me compõem.

Sou antropólogo, matemático e historiador da minha essência – para o bem e para o mal – ciente das multifacetadas circunstâncias e vicissitudes que me moldaram e, porque sou obra em permanente construção, continuarão a esculpir-me nos dias por vir.

Sou o mais feroz crítico dos meus defeitos e impetuoso defensor das limitadas virtudes que exalo, sem alarde, com plena noção de quão ténue é a linha que as separa da evitável soberba.

Sou como sou, na consciência dos actos e na legitimação de existir do meu jeito.

EMANUEL LOMELINO

Prisioneira em liberdade (excerto 11) - Maria Antonieta Oliveira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Nada comparada com a Costa da Caparica de hoje, com vários banhistas, barracas, toldos, chapéus de sol, depois mais areal, e os barcos com as suas redes a secar para ao final do dia voltarem à faina. Junto de alguns e na hora de menos calor viam-se alguns pescadores a cozer as redes, era interessante e a miúda gostava de ver. Assim como gostava quando ainda ia com a Querida que ficavam mais tempo na praia e por vezes ainda viam a chegada de alguns barcos com o peixe conseguido naquele dia.

EM - PRISIONEIRA EM LIBERDADE - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA - IN-FINITA

domingo, 22 de dezembro de 2024

Contos que nada contam 35 (O perfeccionista) - Emanuel Lomelino

O perfeccionista

Olavo descobriu, muito cedo na vida, que era apaixonado pela escrita. Construía frases a partir de uma ideia base, encadeava-as de forma cirúrgica e precisa, e nasciam textos que encantavam todos aqueles que os liam, embora ele sempre tivesse alguns reparos a fazer e nunca os desse por terminados.

O acto de escrever era, por si só, um momento de regozijo, libertação e êxtase, e todos esses sentimentos juntos faziam-no sentir-se plenamente realizado, mas nunca satisfeito. Por isso, muitos ficaram surpreendidos quando decidiu dedicar-se profissionalmente à escrita.

Sabendo, de antemão, que o percurso de um escritor nunca é fácil, e porque um bom livro não aparece feito de um momento para o outro, como num golpe de mágica, Olavo começou a fazer traduções das obras mais emblemáticas da literatura universal, de modo a conseguir um rendimento que lhe permitisse subsistir enquanto trabalhava, com afinco, na sua própria obra.

O tempo foi passando… passando… passando e, porque o seu livro de estreia teimava em não surgir, alguns amigos começaram a interrogá-lo sobre a demora. Rapidamente descobriram que, a cada nova tradução feita, Olavo sentia necessidade de reescrever todo o seu material porque tinha-se deparado com alguma técnica, estilo ou abordagem que achava pertinente incluir no seu livro.

Hoje, muitos anos após a sua morte, Olavo é uma referência para a maioria dos tradutores de obras clássicas, pela qualidade das quase duzentas traduções que fez. Já em relação ao seu livro… apesar das múltiplas vezes que o reescreveu, ele nunca viu a luz do dia por uma questão de perfeccionismo exacerbado.

EMANUEL LOMELINO

A dúvida (excerto 5) - Zélia Alves

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Como confiam no padre operário, este sugeriu acompanhar-nos até lá, apresentar-nos e expor-lhes o nosso projeto, por forma a que confiem em nós, possam comparecer e poderem vir a ser contemplados pelo menos com uma refeição diária. A nós também nos traz a certeza de que podendo visitá-los, possamos no terreno, conhecer o agregado familiar de cada um, tomando nós as devidas notas, para que não sejamos enganados por eles, ao pretenderem levar comida a mais, e que possa vir a faltar para outros.

EM - A DÚVIDA - ZÉLIA ALVES - IN-FINITA

sábado, 21 de dezembro de 2024

Lomelinices 64 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

64

Lancei, ao vento, um papagaio de papel, com o formato de diamante e frases que voam alto. Daquelas que nos levam a acreditar que as palavras fazem eco nos corações, mesmo os mais empedernidos.

A brisa acariciou cada letra, como quem beija o mais sagrado dos cálices divinos, e o ar ficou prenhe de plumas celestiais a oscilar como flocos de neve.

O céu chorou sete lágrimas pingentes, uma por cada cor do arco-íris que, sorridente, agraciou o mundo com a sua benevolência graciosa.

Duas cotovias ladearam o papagaio de papel, qual escolta imperial, numa sincronia notável. Ora para a esquerda, ora para a direita, ora planando, ora subindo, ora descendo, num voo perfeito de tão belo.

Rompi o fio, como quem corta o cordão umbilical, e deixei o papagaio de papel ganhar vida e escrever, nos céus, o seu próprio destino.

Ainda hoje escuto, nos murmúrios das aragens vespertinas, a sinfonia das palavras que escrevi no papagaio de papel. E sinto-me tão livre quanto ele. Só não tenho as cotovias ao meu lado.

EMANUEL LOMELINO

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

Lomelinices 63 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

63

A necessidade de trabalhar nas palavras é, mais do que um dever imperativo, a solução para desanuviar a mente depois das escoriações provocadas pela dureza de um dia interminável.

Há uma urgência de reflexão que lateja no âmago até roçar o desespero e o corpo exige uma pausa restauradora, só atingida num estágio de solidão física e na ausência de lucidez da dor.

Respiro fundo. Fecho os olhos. Abstraio os sentidos. Sacudo os incómodos. Abraço o silêncio. Entro no universo do vazio. Nada.

Inspiro lentamente, como quem absorve o tempo a conta gotas. Olho a folha branca que espera, pacientemente, o primeiro beijo de tinta. Expiro como quem dá o tiro de partida, deixo que as palavras fluam a seu bel-prazer e abracem, com serenidade, a paz instalada.

Com elas surge a libertação suprema. Através delas instala-se uma harmoniosa conciliação com o mundo; com a vida; comigo.

Escopros, ponteiros, macetas, hematomas, esfoladelas, sangue, suor, cansaço (não necessariamente por esta ordem) deixam de significar penosa realidade e, aqui, regressam à sua condição de meros vocábulos.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Pensamentos literários 9 - Emanuel Lomelino

Pensamentos literários 

9

Existem livros que nos permitem reencontrar a chama de vida que o tempo, inclemente, procura extinguir.

São páginas de sabedoria que enchem o âmago e conseguem entranhar-se no canto mais íntimo de nós, ressuscitando a vontade de sorrir para a lua e abraçar as estrelas.

Existem livros que nos falam as palavras certas, no momento mais necessário, como uma poção de energia rejuvenescedora.

São páginas paliativas que reforçam a nossa imunidade às maleitas desta era de inversão, de radicalismos fúteis e bacocos, de pragas analfabetas e desinteligência nata.

Existem livros que são portas e janelas abertas para mundos de ideias, pensamentos e raciocínios, cada vez mais escassos, e que provocam as nossas próprias reflexões, fazendo-nos exemplos perfeitos da máxima de Descartes “Cogito ergo sum”.

EMANUEL LOMELINO

O princípio do mundo (excerto 16) - Jorge Chichorro Rodrigues

 
LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Adormeceu entre suores frios, tendo perdido antecipadamente o Paraíso, ou seja, sem ter precisado de se deitar com uma índia. De manhã, alguém lhe chamou a atenção para o facto de parecer mortificado, como se tivesse visto fantasmas durante a noite. Ele não respondeu, mas pensou para si: «Não vi fantasmas, mas vi mulheres do princípio do mundo... A beleza pode ser uma porta para o Paraíso, como pode ser uma porta para o Inferno...

EM - O PRINCÍPIO DO MUNDO - JORGE CHICHORRO RODRIGUES - IN-FINITA

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Lomelinices 62 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

62

Em criança, logo, numa fase prematura e ingénua da minha existência, comecei a acumular alguns sonhos, como tesouros preciosos que defenderia com a própria vida.

O tempo encarregou-se de concretizar uns, eliminar outros, substituir alguns e frustrar a maioria.

Os anos passaram, comecei a ver o mundo com outras cores e aprendi a delinear os objectivos com outra precisão, porque a experiência assim o exigia, mas sempre sem deixar de sonhar grande.

Durante a caminhada foram muitas as adversidades impossíveis de contornar que me obrigaram a fazer escolhas e a ser mais criterioso. Então deixei de ser um acumulador de sonhos para me transformar em coleccionador de projectos por realizar.

À falta de oportunidade, ou capacidade, para levar tudo a bom porto, apertei mais a malha da exigência e segui na luta escolhendo as batalhas a travar.

Porém, porque a vida apresenta muitas encruzilhadas e o cansaço dos desaires não mata, mas mói, fui deixando cair grande parte da bagagem sonhada para dar algum alívio às costas.

Foi nesse momento que percebi que o meu sonho maior, que apenas vagueava no meu inconsciente, foi o único que sobreviveu à caminhada, resistindo a todos os meus tropeços, enganos e quedas.

Feitas as contas, não fui eu que concretizei este sonho. Foi ele que me filtrou.

EMANUEL LOMELINO

Prisioneira em liberdade (excerto 10) - Maria Antonieta Oliveira

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Para além destas visitas a museus a menina já ia, quase desde que viera para Lisboa, para a praia, quando ia com a mãe ia ou para o Dafundo ou para a Cruz Quebrada, era até onde chegava o bilhete do eléctrico e o dinheiro não dava para mais. Quando ia com a madrinha ou com a mãe desta, a dona da casa, ia para a Costa da Caparica, uma praia maravilhosa, com um areal a perder de vista e um mar que nos esperava ao longe, na lonjura do sol que o espelhava.

EM - PRISIONEIRA EM LIBERDADE - MARIA ANTONIETA OLIVEIRA - IN-FINITA