terça-feira, 13 de agosto de 2024

Contos que nada contam 11 (O vidente) - Emanuel Lomelino

O vidente

Malaquias nasceu vidente e muito cedo na vida descobriu que era o único. Habituou-se a conviver com as imagens do futuro e nunca contou nada a ninguém, nem mesmo quando, preocupados com ele, os pais o levavam aos médicos tentando descobrir de onde vinha a tristeza do seu rosto, a timidez do seu jeito de andar e a melancolia das suas palavras.

Aprendeu a conviver com as dores, angústias e desesperos que as visões injectavam na sua mente e, sabendo que nada poderia fazer para evitar alguns eventos, decidiu moldar-se a essa circunstância com opções de vida que impedissem os seus estados de espírito de afligirem quem o rodeava.

Malaquias viveu em sofrimento constante, com esparsos laivos de felicidade, muito pontuais, mas no final, pouco antes do último suspiro, fazendo o balanço da sua vida, ele sorriu por saber que todos os seus amores foram escassos mas genuínos, e nunca ter sentido, na pele, o gosto da traição, a amargura do desapontamento, ou a acidez da dúvida.

EMANUEL LOMELINO

A liberdade em III actos - Pedro Miguel Santos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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SUBVERSÃO: nas lojas, nos quarteis há um rebuliço um interminável entra e sai, fala-se à boca larga do que virá! A ansiedade na voz baixa do discurso perpetua-se em sorrisos nervosos na véspera em que o estabelecido se desmorona. A liberdade foi uma ideia cantada numa Grândola e perpetuada num depois do amor! Os corações que a liberdade sonham jamais esmorecem!

REVOLUÇÃO: começa a marcha até ao Carmo, os corações vivos marcham por algo que não esmorece e na palidez nervosa do que está a acontecer na alvorada de uma tardia manhã de Abril que nos trouxe um entardecer de cravos e a promessa renascida, para um país que acorda de um longo torpor, como longa foi a noite de 24 de Abril!

FINALIDADE: Agitam-se bandeiras, Portugal acordou livre e agora? A luta não terminou para manter viva a promessa feita em Abril, poder-se-á dizer, que a luta nunca termina, o povo não adormece a liberdade permanecerá renascida num Abril distante!

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segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Contos que nada contam 10 (O frustrado feliz) - Emanuel Lomelino

O frustrado feliz

Franklim nasceu feliz, teve uma infância pobre, mas feliz, foi um adolescente tímido, mas feliz, até que chegou à idade adulta… e continuou a ser feliz.

Toda a gente gostava de Franklim, do seu jeito simples de ser, mas com personalidade, do seu humor subtil e inteligente, da sua conduta irrepreensível e firmeza de carácter.

Contudo, muitos reparavam que, apesar de irradiar felicidade por todos os poros, Franklim tinha duas rugas de tristeza no rosto.

Um dia, em conversa mais íntima com um amigo de infância, Franklim confessou que, mesmo sentindo-se um homem feliz, andava um pouco frustrado porque não estava profissionalmente satisfeito – não gostava do trabalho que tinha. O amigo aconselhou-o a ir em busca daquilo que o pudesse realizar nesse quesito. E ele assim fez.

No início foi como estivesse a viver em constante êxtase, no entanto, com o passar do tempo, o rosto de Franklim ganhou mais rugas de tristeza, e toda a gente reparou.

Franklim passou a estar cada vez mais distante do mundo, deixou de demonstrar interesse nas conversas, as suas piadas perderam a graça, as conversas deixaram de ser interessantes. Já não era o mesmo homem.

O tal amigo mais íntimo quis saber o que se passava e Franklim admitiu que, apesar de estar mais envolvido com um trabalho apaixonante, não conseguia sentir prazer ao realizá-lo.

Desta vez, o amigo não deu conselho algum, apenas demonstrou preocupação com o ânimo de Franklim e expressou o desejo de voltar a ver a felicidade estampada no rosto dele.

Franklim decidiu dar dois passos atrás para se reencontrar. Na sua cabeça passou a ser preferível trabalhar em algo que se despreza, mas ser feliz, do que ter um trabalho que o realize, mas o deixe miserável.

Se a vida fosse uma novela tudo acabaria por se resolver e as coisas conspirariam em seu favor. No entanto, como a vida não é ficção pós telejornal, Franklim faz o trabalho que mais odeia, está mais longe de se encontrar e voltar a ser quem foi um dia. E as rugas são cada vez mais.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 11 de agosto de 2024

Lomelinices 2 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

2

Resisto ao desespero de ver-me despetalar por estes ventos raivosos que cismaram na minha erosão permanente.

A mente, que por vezes despede-se de mim, tende a ganhar sulcos áridos, com o simples propósito de transformar as ideias em desertos ásperos, onde predominam as sombras que detonam quaisquer certezas que a vida me tenha emprestado.

É no seio de uma lucidez dúbia que questiono as horas céleres, os passos enviesados, as plantas rasas, os voos dos pelicanos e aquele sentimento inútil de estar a ver os navios passarem, sem rumo nem porto pré-definidos.

Os horizontes ocultam-se numa penumbra de vozes contraditórias e há línguas de fogo em cada encruzilhada, dificultando a passagem, seja qual for o caminho escolhido, como se todas as direcções levassem ao mesmo mar de lava e desfortúnio.

O destino é um fardo afastado do entendimento lógico.

EMANUEL LOMELINO

Cicatrizes da alma (excerto) - Jane Lima

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A noite caía sobre a cidade, envolvendo-a em um manto gélido. O nevoeiro fino escurecia ainda mais a iluminação pública, lançando sombras sinistras pelas ruas desertas. Pouco antes de fugir do meu agressor, me vi diante de um dilema moral, entre ter coragem para procurar ajuda ou sucumbir ao medo paralisante.
Ao chegar na delegacia, deparei-me com a atmosfera tensa que permeava o ambiente. A sala, iluminada apenas por luzes fracas e amareladas, projetava sombras distorcidas nas paredes descascadas. O ar estava impregnado com o aroma ácido de produtos de limpeza misturado ao leve odor de cigarro dos policiais.

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sábado, 10 de agosto de 2024

Lomelinices 1 - Emanuel Lomelino

Lomelinices 

1

Todas as manhãs, aos primeiros raios de sol, amanhece-me uma revolta sufocada cujos sintomas são precações murmuradas e súplicas heréticas.

Estas sublevações mentais vespertinas nada mais são do que gritos rebeldes e contestatários pela contínua repetição dos dias, que nascem, correm e terminam sempre da mesma forma como fazendo parte de um looping infinito.

Mas este espírito amotinado peca pela incoerência porque a génese da insurreição é a mesma que suporta a via alternativa.  

O problema que transtorna o âmago não existiria se a rotina fosse outra; se o rácio entre ónus e bónus fosse distinto; se as horas de responsabilidade não esmagassem as de placidez; se o tempo não se espartilhasse entre obrigações e deveres; se a respiração fosse compassada e não houvesse sangue, suor e lágrimas…

Enfim… as coisas são como são e amanhã, quando o sol raiar, cá estarei para sussurrar, entre dentes, mais alguns jargões e preces ofensivas, porque pior do que ter uma rotina indesejada é não ter rotina alguma.

EMANUEL LOMELINO

25 De abril de 1974 – 49 anos de democracia - > 25.04.23 (excerto) - Mary Rosas

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Tudo isto, porque aconteceu o 25 de Abril, e as coisas tinham mudado. As crianças tinham de frequentar a escola da sua área de residência. A minha professora chamava-se Luísa, a quem nós tratávamos carinhosamente, por D. Luisinha. A nível escolar, não tive problemas. Inclusive tenho também, colegas, ainda hoje da escola da Praça. Tenho poucas recordações, mas não foi um ano mau de todo. No ano seguinte, voltei para a Escola do Cerrado, e foi um dos meus melhores anos. Tenho muito boas recordações dessa altura.

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sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Ao pé-da-letra 3 - Emanuel Lomelino

Ao pé-da-letra 

3

Um dos problemas da humanidade é ignorar a etimologia das palavras e, por isso, desvalorizar ou sobrevalorizar algumas situações da vida.

Vejamos, como exemplo simples, a preocupação.

Tal como a própria palavra explica, estamos perante uma “pré-ocupação”, logo, uma ocupação antes de tempo.

Pensar em algo de forma antecipada não traz mal algum ao mundo, bem pelo contrário, pode ser a forma mais simples de resolver um problema futuro, no entanto, a tendência é exacerbar os pontos negativos e isso, na maioria das vezes, acaba por toldar o discernimento necessário para a sua resolução.

Sem desvalorizar as consequências e a necessidade de ultrapassar-se um obstáculo, esta é uma das palavras que, encarada ao pé-da-letra, ajuda a tornar a vida mais leve e menos desgastante. Porque tudo deve ter conta, peso e medida.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Crónicas de escárnio e Manu-dizer 6 – Emanuel Lomelino

Imagem cmjornal

14-07-2024

É estranho viver numa época em que (dizem) a humanidade está cada vez mais individualista, mais solitária, mas assistirmos à criação espontânea de hordas de Madres Teresas – não obrigatoriamente de Calcutá – a defender causas supérfluas, numa espiral de antitudo e mais alguma coisa, só porque alguma alma iluminada (que ninguém conhece) decretou que todos devem pertencer a um grupo, sob risco de, ao não fazê-lo, cair em fenómenos depressivos.

Depredar espaços e equipamentos públicos, como forma de contestação, jamais poderá ser considerado terapia antidepressiva. Isso é vandalismo.

Atacar indivíduos, de forma indiscriminada, com actos de intimidação e violência colectiva, não é paliativo para a ansiedade, é cobardia pura.

Perseguir, ameaçar e fazer linchamentos de caráter, porque alguém disse ou cometeu uma alarvidade, nunca será prescrição médica para aliviar o stress, isso é leviandade.

Participar neste género de embriaguez comunitária não é liberdade de expressão, tampouco é exercício de direitos adquiridos, é simplesmente associação criminosa e atentado aos valores que, pasme-se, estas massas, de mentecaptos egocêntricos e neodepressivos, dizem defender.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Contos que nada contam 9 (O patrão) - Emanuel Lomelino

O patrão

Serafim, como todos os homens da sua aldeia, nasceu numa época de escassez e fome. No entanto, ao contrário dos outros, ele cresceu forte e saudável.

Apesar de ter ficado órfão muito cedo e não poder frequentar a escola, ele deu uso à sua inteligência, engenho e bravura para, sem emigrar, conseguir ter uma vida digna.

Em criança trabalhava à jorna, para todos os artesãos da aldeia, em troca de refeições, e aproveitava para absorver o máximo de conhecimento que podia. E foi tão lesto a aprender que, na adolescência, já era perito em quase todos os ofícios artesanais, chegando até a superar os mestres.

Com os anos, a sua reputação cresceu tanto que os artesãos começaram a disputar os seus préstimos e ele passou a ganhar mais do que refeições pelo trabalho efectuado.

Serafim era tão requisitado que os seus trabalhos começaram a ser pagos a peso de ouro e, rapidamente, ele acumulou uma pequena fortuna. Ganhou tanto que conseguiu comprar as oficinas da aldeia e agora é o patrão de todos os artesãos para quem trabalhou.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 6 de agosto de 2024

Contos que nada contam 8 (Potencial aproveitado) - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Potencial aproveitado

Asdrúbal, Paulino e Venceslau conheceram-se em Kreins, na Suíça, onde estiveram emigrados durante vários anos, antes de regressarem ao país que os viu nascer.

A amizade entre os três era tão sólida que decidiram unir esforços e, com os conhecimentos adquiridos no país helvético, investiram num empreendimento turístico.

Asdrúbal, natural de Vila Real, foi para a Suíça trabalhar na cozinha de um hotel, apesar de nem saber estrelar um ovo, mas teve a abertura de espírito para absorver o que ia aprendendo e, passo a passo, foi subindo de posto em posto, até se tornar no reconhecido chef que é hoje.

Paulino, albicastrense que mal sabia escrever o seu nome, decidiu renunciar à tradição familiar – todos os homens dedicavam-se à pastorícia – para tentar a sua sorte numa empresa de jardinagem, pertencente a um famoso paisagista, que laborava na zona de Lucerna. Por acompanhar o patrão nos trabalhos mais importantes, depressa aprendeu os segredos do ofício e tornou-se ele próprio um perito na arte da jardinagem,

Venceslau, nascido e criado no Cartaxo, aceitou o convite de um conterrâneo e foi trabalhar para um chocolateiro, onde, a sua capacidade natural para aprender outras línguas não passou despercebida e, em poucos meses, já estava a trabalhar no sector de exportação, em contacto diário com empresas de todo o mundo.

Os três estreitaram laços ao frequentarem, aos fins-de-semana, o mesmo café, em Kriens. Falavam de tudo um pouco e cada um deles acompanhava os progressos dos outros, até que um dia ouviram falar de uma herdade, perto de Cantanhede, que estava a ser leiloada, decidiram ser sócios e investiram tudo num negócio conjunto, em que cada um podia aplicar as suas valências e todos lucrariam.

O empreendimento teve tanto sucesso que eles estão a estudar a possibilidade de adquirirem outras propriedades e criar mais infraestruturas em outros pontos do país.

Recentemente, um canal televisivo fez uma reportagem sobre a APV Resort e o que mais se destacou foi uma frase de Venceslau:

- Isto só é possível porque nós tivemos a sorte de ter patrões, lá fora, que souberam aproveitar o nosso potencial, apostaram em nós e investiram na nossa progressão profissional. Se tivéssemos ficado por cá, o Asdrúbal ainda hoje não saberia cozinhar, o Paulino andaria a pastar ovelhas e eu, muito provavelmente seria campino ou trabalharia numa adega a pisar uvas.

EMANUEL LOMELINO

Travessia (excerto) - Adriana Mayrinck

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Por entre as nuvens e a infinitude do céu, meu coração, acelerado e descompassado, bailava na alegria incontida do novo e buscava alento para a saudade que invadia em lágrimas os olhos brilhantes de confiança e coragem.
Aterrei em Lisboa no dia 18 de setembro de 2017 e ouvi um “seja bem-vinda à casa”. Aquela voz tantas vezes ouvida ao longe agora eram os braços que se estendiam para acolher, a minha filha, eu e as nossas duas malas.
Indescritível a sensação da travessia para o outro lado do Oceano Atlântico. O meu cotidiano, a minha casa, a minha história, as minhas raízes, a minha família e amigos foram trancados em um relicário para dar lugar ao novo.

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segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Ao pé-da-letra 2 - Emanuel Lomelino

Imagem pinterest

Ao pé-da-letra 

2

Paciência é uma qualidade que nem todos têm e aqueles que a praticam caminham para a extinção. Não por morte física, mas sim pelas diversas mortes que o usuário deste atributo acaba por sofrer ao longo da vida.

Por mais paciente que alguém possa ser, é tremendamente nefasto estar sempre a encher balões de tolerância, pelas burradas, aselhices, asneiras e disparates alheios.

Todos esses “passares-de-pano” – vulgo, relevar de erros – são micro-organismos que minam o espírito, por mais combativo e resolvido que seja, começando a instalar-se sem causar danos, mas, com o tempo e acumulo, passam a criar condições para que os pensamentos mais sombrios e a exasperação comecem a aflorar.

Ser paciente é uma virtude, no entanto, mais do que ter paciência-de-chinês, todos devemos reconhecer que, tal como muitas outras coisas na vida, também a paciência tem limites e passá-los pode revelar-se extremamente tóxico.

EMANUEL LOMELINO

domingo, 4 de agosto de 2024

Epístolas sem retorno 11 - Emanuel Lomelino

Miguel Torga
Imagem retirada da internet

Doutor Miguel,

Para começo de conversa, presto-lhe a minha homenagem revelando-lhe nestas linhas (já o fiz em outras circunstâncias, para outra gente) que o primeiro livro que comprei (tinha doze anos) foi o seu “Bichos” e, por causa dele, andei enganado muitos anos, por pensar que o Doutor era, apenas e só, um contista. Rectifiquei a minha assumpção quando, nas minhas deambulações por uma livraria (já não lembro qual), encontrei a caixa com a sua poesia completa, que absorvi como paliativo.

Feito o introito, avancemos para o assunto desta missiva, que é outro.

Quero parabenizá-lo pelo altruísmo e abnegação demonstrados em prol das letras lusófonas, quando convenceu Aleixo a deixar-nos tamanho acervo. Não fosse essa sua atitude e perseverança, a poesia popular do nosso burgo estaria ainda mais pobre do que está.

Por muito simples que lhe pareça, esse seu gesto revelou-se, com o tempo, de uma generosidade sem precedentes que dificilmente alguém poderá igualar. Menos ainda porque, neste tempo em que existo, os analfabetos são de outra estirpe – mais presunçosos e menos assertivos ao nível do pensamento.

Por outro lado, já não é necessária a intervenção de clínicos porque qualquer um, desde que saiba juntar letras, imprime depressões, fobias e transtornos, mesmo que tudo seja expresso em extensas salganhadas de palavras e emoções, cheias de contradições e falta de concordância.

Resignadamente,

Emanuel Lomelino

sábado, 3 de agosto de 2024

Ao pé-da-letra 1 - Emanuel Lomelino

Ao pé-da-letra 

1

Os lugares-comuns e as frases-feitas são, cada vez mais, sentenças para boi-dormir ou inglês-ver. Todos as dizem, mas ninguém acredita porque não há aplicabilidade prática.

Vejamos o exemplo do velho adágio “o dinheiro não traz felicidade”.

Para início de conversa, o que é felicidade? Talvez seja o prazer de um encontro; um momento de silêncio num lugar paradisíaco; ter um filho; um jantar romântico à luz de velas e ao som de uma orquestra; uma viagem de sonho.

Em qual destes exemplos existe a prescindibilidade do vil-metal? Nenhum. Há sempre um custo associado. Assim sendo, a felicidade, quer queiramos ou não, depende sempre do dinheiro.

Muito dirão: Ah, estás a analisar demasiado ao pé-da-letra! Até podem ter razão. E, se assim for, então o problema dos infelizes está no facto de serem preguiçosos por não meterem mochilas às costas e irem a pé visitar lugares paradisíacos ou ver um amigo que mora longe; por não plantarem o que querem comer e beber; não saberem tocar instrumentos… e não saberem que a felicidade de ter um filho não se esgota no parir – há que cuidar, educar, ver crescer e encaminhá-lo para a vida… e tudo isso demanda o quê? Ups… dinheiro.

Vocês podem dizer que o dinheiro não traz felicidade, mas sem ele pouco terão dela.

EMANUEL LOMELINO

Viva a liberdade! - Maria Eugénia Ponte

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O despertador toca e acorda a mulher que se levanta lentamente, ainda ensonada.
Como é seu hábito, liga o rádio sempre sintonizado na estação onde é locutora, o Rádio Clube Português.
Resolve deitar-se mais um bocadinho, ouvindo música mas estranha as canções que estão a passar… depois de “Menina dos Olhos Tristes”, de novo Zeca Afonso a cantar “Grândola Vila Morena”. A seguir, reconhece a voz de Adriano Correia de Oliveira mas nem chega a ter tempo de identificar a canção porque é interrompida pela voz de Luís Filipe Costa, também ele profissional do RCP e que lê um comunicado das Forças Armadas em que é claramente expresso: “as Forças Armadas desencadearam na madrugada de hoje uma série de ações com vistas à libertação do País do regime que há longo tempo o domina.”
A mulher dá um saldo da cama, agora já totalmente desperta, veste o robe e corre para o telefone.

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sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Contos que nada contam 7 (Implosão) - Emanuel Lomelino

Implosão

América nasceu no seio de uma família abastada, cujos antepassados - várias gerações - tiveram de lutar muito para conseguir sair da pobreza extrema e criar as condições para que os descendentes, como ela, pudessem ter uma vida mais desafogada.

A história dos ancestrais foi-lhe contada, vezes sem conta, para que ela aprendesse a dar valor ao que tinha. No entanto, perante as birras de menina mimada, havia sempre um exagerado grau de tolerância ao seu comportamento nefasto e inapropriado, porque todos os progenitores fazem tudo para que os filhos tenham a vida mais facilitada. E América sabia, muito bem, como fazer para sair sempre beneficiada de qualquer situação.

Cresceu assim e, chegada à idade adulta, o método já estava tão enraizado que, mesmo que existisse a possibilidade de querer agir de outra forma, ela funcionava no automático em prol das suas pretensões e desejos que, na maior parte das vezes, eram meros caprichos.

Como é fácil de imaginar, todos aqueles que, por qualquer razão, tivessem a desfortuna de interagir com ela, achavam-na um ser desprezível e insensível, com um carácter excêntrico, mas desumano. Quase todos, porque há sempre quem se afaste deste tipo de gente, só a toleravam porque era, pornograficamente, rica e isso abria outras portas.

Tudo na vida foi-lhe oferecido em bandejas de prata e América nunca precisou trabalhar um só dia. Viveu à conta da riqueza da família e em função do humor, organizando as festas mais exuberantes que o mundo já viu, em que os convidados eram escolhidos a dedo e quem não estivesse, ou agisse, de acordo com os seus padrões era imediatamente expulso e jamais voltaria a integrar a lista de possíveis candidatos a frequentadores dos seus eventos.

Mas o mais relevante e extraordinário na história de América não foi o jeito como viveu, mas sim a forma como morreu.

Ainda hoje não existe uma explicação científica exacta, lógica e confirmada para justificar o ocorrido, porque nunca ninguém morreu como ela.

Dizem as más-línguas que o seu carácter petulante, irascível, volúvel, prepotente, execrável – entre outros adjectivos com conotações semelhantes e afastados da moralidade – criou um vazio tão grande dentro de si que o corpo não tinha outra hipótese que não fosse autodestruir-se por dentro.

América, simplesmente, implodiu.

EMANUEL LOMELINO

Da Escola à Revolução: A Aventura de Uma Geração (excerto) - Maria Bruno Esteves

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Enquanto passava em frente à Escola Prática de Cavalaria, um dos principais quartéis de formação militar, onde hoje estão instalados diversos serviços públicos de apoio aos cidadãos, deparei-me com o portão fechado. Devem estar em estado de alerta, pensei. Já conhecia os sinais. Quando havia tensão política, o portão permanecia encerrado. Nesse dia, o silêncio ressoava pela cidade. Não havia trânsito, mas nada indicava que algumas horas antes uma coluna militar liderada pelo capitão Salgueiro Maia havia saído por aquele mesmo portão, rumo a Lisboa.

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quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Contos que nada contam 6 (A angústia) - Emanuel Lomelino

A angústia

Apesar de ter vivido no seio de uma família que nunca lhe faltou com amor e lhe deu todo o conforto e privilégios que o dinheiro proporciona, Adérito nunca se sentiu completamente feliz e isso dava-lhe uma enorme insegurança. Mesmo quando os astros pareciam estar alinhados a seu favor, havia um desconforto que o incomodava e a sensação de que as pessoas só se aproximavam dele pela riqueza que herdaria e nunca ninguém o havia amado de verdade.

Somente duas semanas após a morte dos pais, durante a leitura do testamento, é que Adérito descobriu a razão de sentir, desde que se lembrava, aquela angústia sufocante. Era filho adotivo! Como fosse pouco ser agredido por essa revelação, que esteve em segredo durante cinquenta anos, ainda foi esbofeteado com a existência de um irmão gémeo.

Munido de todas as informações, e capacidade financeira ilimitada, não foi difícil encontrar aquele que seria, muito provavelmente, a única hipótese de eliminar a tristeza que o consumia desde sempre. Pelo menos poderia atenuar as dores mais recentes.

O encontro dos irmãos, separados à nascença, foi emotivo e, tal como previsto, aplacou o desconforto sentido toda a vida.

Adérito ouviu o irmão, Zeferino, admitir que sabia da sua existência e que, apesar da extrema pobreza em que vivera, desde o berço, e da ausência de informações sobre o seu paradeiro, nunca perdeu a esperança de encontrá-lo e que esse reencontro era a última ambição que tinha na vida.

Mais surpreendente para Adérito foi ver que o seu irmão, mesmo com todas as dificuldades e privações, revelava-se um homem feliz e seguro.

Ao contrário de si, que andou sempre de caso em caso sem conseguir encontrar quem lhe transmitisse a confiança necessária para assentar de vez e prolongar a sua existência, Zeferino casou com Constância, tão humilde quanto ele, que o abençoou com a descoberta do amor incondicional e verdadeiro ao dar-lhe cinco filhos, que cuidaram e educaram dentro das possibilidades que o sacrifício de ambos permitiu.

Vinte anos mais tarde, no seu leito de morte, Adérito confessou ter feito as pazes com a vida quando foi abraçado, acarinhado e amado pela humildade da família. que o destino lhe escondera durante meio século, como se tivesse feito parte dela desde sempre.

Morreu com um sorriso nos lábios e uma pequena lágrima de felicidade a escorrer-lhe no canto do olho.

EMANUEL LOMELINO

Liberdade (excerto) - Maria Antonieta Oliveira

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Era miúda, muito miúda e achava muito estranho que em determinados dias, a minha madrinha, ouvisse a telefonia, muito baixinho e eu não percebia nada, ela ouvia algo do género: Daqui fala… Rádio Moscovo, não fala verdade”. Que estranho! O certo é que acontecia. E ela que gostava imenso que eu estivesse junto dela, nessas ocasiões, embora miúda, eu notava que estava a mais. Mais tarde com os meus nove anos, quase dez anos, em 1958, andava eu na antiga quarta classe, fui/fomos, pelos meus pais e pela professora, avisados de que em público não utilizássemos a palavra delgado ou até a palavra grosso, que estranho, mas nada mais nos foi dito. Os meus pais não falavam em política, ou se falavam, eu nunca ouvi e nada sabia sobre esse tema.

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