quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025
Prisioneira em liberdade (excerto 21) - Maria Antonieta Oliveira
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025
Lomelinices 87 - Emanuel Lomelino
Lomelinices
87
Por mais habituado que esteja ao modo como sou visto e entendido, por quem, sabendo da minha existência, não interage comigo, continuo a esboçar sorrisos internos quando as percepções caem por terra e são verbalizadas manifestações de surpresa.
Há uma imagem que me tem acompanhado toda a vida, muito por minha culpa, confesso, e que induz em erro aqueles que só me conhecem das redes sociais ou do “ouvir falar”.
Quanto à primeira, nada pode ser feito porque, há muitos anos, só uso as redes sociais para trabalho de divulgação.
Em relação à segunda, que apenas merece uma reflexão mais aprofundada para efeito deste exercício de escrita, sobressaem duas ideias.
1 – Há quem se dê ao trabalho de incluir o meu nome em conversas com terceiros, dando-me uma importância que não reconheço nem almejo. E nada mais tenho a dizer sobre isto porque o que falam de mim não me diz respeito.
2 – Há quem faça deduções de carácter, apenas pelo que escuta. Esta constatação sugere-me alguns pensamentos.
a) há quem viva mais na ficção e no achismo do
que com a realidade.
b) há quem prefira o rumor à verdade.
c) há quem dedique mais atenção à vida alheia
do que à própria.
d) é mais confortável ver nódoas na toalha do
outro.
e) quem fala dos ausentes também tem costas.
EMANUEL LOMELINO
A dúvida (excerto 15) - Zélia Alves
terça-feira, 11 de fevereiro de 2025
Crónicas de escárnio e Manu-dizer 24 - Emanuel Lomelino
23-12-2023
O substantivo que melhor define as sociedades modernas é “preguiça”.
Nestas duas primeiras décadas do século XXI, ela disseminou-se, qual vírus contagioso, tornando-se quase uma característica genética da humanidade.
Podemos observá-la desde as pequenas coisas da vida – usar o carro para ir ao café, no fundo da rua; deitar lixo no chão havendo um caixote no outro lado da estrada – até às de maior impacto – resolver burocracias no final dos prazos; deixar para o dia seguinte a conclusão de um trabalho, que demoraria cinco/dez minutos, porque o patrão não paga horas extra.
Depois há a preguiça intelectual, que tem sido estimulada por aqueles que compreendem o fenómeno do seguidismo e sabem dissimular ideias e conceitos em actos e discursos tão cativantes que parecem dogmas infalíveis, sem pontas soltas, logo, sem necessidade de reflexão, mas fazendo crer, aos enfermos da preguiça, que são livres-pensadores e que a ideia original foi fruto do seu próprio pensamento (que nunca teve).
Dessa percepção de indiscutibilidade cria-se a apologia do não-pensamento, ou a sensação de que pensar é prescindível.
Assim nascem os rebanhos, educados a aceitar sem contestar e sem compreenderem que estão a ser formatados por pensamentos induzidos e a perder a capacidade de pensar pela própria cabeça.
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025
Pensamentos literários 16 - Emanuel Lomelino
Pensamentos literários
16
O momento mais angustiante na vida de um autor não é o fracasso das suas criações, tampouco o sumiço repentino do estro. A angústia maior, que trespassa a alma vezes sem conta e dilacera cada átomo, acontece quando as palavras atraiçoam e esgravatam o íntimo como punhais rombos, sem um pingo de compaixão nem misericórdia.
Para os mais desprevenidos, cada traição é recebida no limite do despreparo e, por isso, sentida no extremo da dor – lancinante, feroz, inclemente.
Os mais calejados, não sendo imunes às estucadas e sofrendo em igual medida, conseguem, apesar das lágrimas de desilusão, ultrapassar o desconforto com maior celeridade, cicatrizar as feridas, e retornar ao ofício mais fortes.
Depois há os outros. Aqueles que, por nunca terem estado seriamente empenhados na escrita e, por essa razão, não terem ganhado consciência de autor, ignoram quão ténue é a linha que separa a traição das palavras e a arte escriba.
EMANUEL LOMELINO
domingo, 9 de fevereiro de 2025
Prosas de tédio e fastio 3 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
3
Entre muitos paradoxos que enfermam a humanidade, um dos mais óbvios, mas que foge à reflexão, é o dogma da perfeição.
Todos alardeamos que a perfeição não existe e, consequentemente, admitimos a nossa imperfeição natural. Estas afirmações acabam por ser taxativas e complementares, mas quase sempre colocadas de lado, dependendo das situações, sendo usada a versão mais cómoda ao interesse de cada um, ou o(s) seu(s) contrário(s), como quem escolhe que roupa usar em determinado dia da semana. Senão vejamos.
Não existindo a perfeição, por que raio todo o mundo anda em busca dela, em todos os momentos da vida? Por que se exigem relacionamentos perfeitos? Por que se exigem, ou recriminam, comportamentos e prestações, em nome da perfeição? Por que razão as pessoas sentem necessidade de qualificar toda e qualquer coisa que veem, ou tudo o que leem, como sendo “perfeito”? Por que carga de água se voltam as costas aos demais por falta de perfeição, ou pelas imperfeições? Por acaso a imperfeição só existe na primeira pessoa do singular, no presente do indicativo, em circunstâncias especiais, sendo que noutras é alimentada na segunda pessoa do singular ou plural? Será que o conceito de imperfeição tem restrições aplicativas? Será que estamos, também neste quesito, a perder a noção da realidade e a deixar-nos levar pelo politicamente correcto por conta da sensibilidade de um punhado de “cabeças-ocas”?
EMANUEL LOMELINO
sábado, 8 de fevereiro de 2025
Pensamentos literários 15 - Emanuel Lomelino
Pensamentos literários
15
Sempre que me preparo para mergulhar num novo livro, visto o meu escafandro de gala e lá vou eu, contra todas as fobias, em genuína apneia.
As primeiras páginas podem revelar-se irrespiráveis, mas a falta de ar oxigenado, em vez de afligir-me, tem o condão de despertar o meu autocontrolo e elevar os sentidos no máximo das suas capacidades, obrigando-me a dar corda às barbatanas e ir ainda mais longe e fundo. E quanto maior for a dificuldade para manter a respiração regular, mais embrenhado fico e mais adentro nos textos.
Garanto-vos, com o testemunho de mil e uma experiências, que todos os bons livros conseguem fazer-nos viver para lá de uma síncope respiratória, e trazer-nos de volta, sãos e salvos, mas enriquecidos, à superficialidade fatal do mundo a que pertencemos.
EMANUEL LOMELINO
Prisioneira em liberdade (excerto 20) - Maria Antonieta Oliveira
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025
Crónicas de escárnio e Manu-dizer 23 - Emanuel Lomelino
19-12-2023
Sem tirar a importância a outras grandes preocupações das sociedades modernas, um dos maiores flagelos actuais é o sumiço, que está a ser permitido acontecer, de inúmeros locais de culto – as livrarias tradicionais.
Sobre esta triste realidade estão a ser usados argumentos que só convencem os cabeças-ocas que falam de clássicos, mas só leem livros de autoajuda, comprados em supermercados.
Os livros que valem a pena serem lidos raramente os encontramos nas grandes superfícies, porque nunca serão os de vendas mais expressivas.
Livros que fazem pensar, ou melhor, que obrigam a pensar, são incompatíveis com o negócio de consumismo imediato, porque, neste nosso tempo, o acto de pensar está a roçar a extinção.
Os verdadeiros leitores, aqueles que conhecem as diferenças entre as grandes obras da literatura e os manuais de formatação, optam por pensar e sabem que só é possível encontrar bons livros nas livrarias tradicionais.
Infelizmente, esses espécimes raros têm uma capacidade financeira reduzida e isso reflete-se no desaparecimento de espaços icónicos.
A manter-se este círculo vicioso, corremos o risco de necessitar ir ao supermercado mais próximo para encontrarmos um manual prático, que nos ajude a descobrir uma forma de fugirmos à estupidificação que está a instalar-se, e reaprender a pensar.
EMANUEL LOMELINO
A dúvida (excerto 14) - Zélia Alves
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025
Prosas de tédio e fastio 2 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
2
Pensar dói. Ou melhor… dá dores de cabeça. Ok. Nem sempre. Há pensamentos que conseguem passar sem deixar vestígios, mas, quando assim é, isso significa que não tinham significado algum.
Aqueles que magoam são os pensamentos que vêm atrelados a outros pensamentos, como um comboio-bala interminável, cuja locomotiva é uma ideia simples que não gosta de andar sozinha nas trilhas da mente e, por isso, arranja sempre uma forma ardilosa de dar boleia a mais e mais ideias, cada vez mais complexas.
A dor de cabeça aparece nesse momento. Na altura em que as carruagens mais simples – porque leves – dão lugar às mais robustas – porque pesadas – e, como num passe de mágica, cada uma delas (ideias) se transforma numa nova locomotiva, dando origem a mais comboios. Tantos que a mente fica preenchida de carris, que entroncam, uns nos outros, de modo tão vertiginoso que, nasce a sensação, a qualquer instante haverá um descarrilamento ou um choque entre composições.
Se isto não fosse uma analogia eu estaria milionário só na venda de bilhetes, tantos são os pensamentos que viajam na minha mente.
EMANUEL LOMELINO
Olhei para dentro (excerto) - Ana Marta
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025
Prosas de tédio e fastio 1 - Emanuel Lomelino
Prosas de tédio e fastio
1
Os livros, tal como as conversas e as cerejas, estão sempre colados a outros. Descobri isto ao olhar atentamente para a minha biblioteca e ter visto Puchkin e Gogol em animada tertúlia com Camus e Pessoa. Noutra prateleira, Brecht e Celan concentravam olhares em Virgínia, Agustina, e nas irmãs Brontë.
Num canto mais resguardado, Proust, Benjamin e Todorov sussurravam críticas, como quem conspira literatura. Mais adiante, Almada Negreiros, de braço dado a Ramos Rosa e Torga, dissertava sobre poesia, como quem não sabe mais nada além de versos.
Wilde, com todo o vigor da sua juventude reciclada, olhava Botto com interesse redobrado, enquanto Ovídio, Plutarco, Horácio e Calvino tentavam descobrir as diferenças entre Vergílio e Virgílio.
Poe e Stevenson elogiavam Márai e Saramago, bem perto de Göethe e Nietzsche, que desafiavam Schopenhauer e Steinbeck, para deleite de Kant. Também vislumbrei o grupo de Tolstoi, Gorki, Nabokov e Dostoievski, a debater com Kundera, Marquez, Neruda e Natália.
Camilo, Dinis, Amado, Assis e Eça trocavam experiências, enquanto Vinícius e Ary ofereciam canções a Cecília, Sophia, Florbela e Natércia, que retribuíam com palavras meigas.
Cervantes, Dante, Shakespeare e Camões faziam vénias aos aplausos de Junqueira, Bocage, Drummond e O’Neill. Enquanto Baudelaire, Apollinaire, e outros franceses, viam peças de Gil Vicente e Pascoaes.
E mais não vou enumerar porque já ultrapassei o limite deste texto.
EMANUEL LOMELINO
Somos o que escolhemos acreditar (excerto) - Ana Acto
terça-feira, 4 de fevereiro de 2025
Contos que nada contam 37 (A conversa muda) - Emanuel Lomelino
A conversa muda
Ercília, sentada no seu banco de jardim favorito, interrompeu a leitura, do livro acabado de comprar na feirinha de antiguidades, para observar o jardineiro que parecia estar a conversar com as flores-de-alfazema.
Tal como ela, todos os que ali se encontravam cessaram os seus afazeres para presenciar a cena, que nada teria de inusitado se não fosse de conhecimento público, pelo menos de quem frequentava com regularidade aquele espaço de lazer e descontração, que o jardineiro era surdo-mudo.
Para Ercília, o mais inquietante daquela situação era o facto de, apesar do mutismo claro e evidente, ser invadida pela sensação de estar a presenciar um diálogo definitivo, tamanha a solenidade transmitida pelo olhar irrequieto do jardineiro e pelos movimentos lentos, mas incisivos, que ele fazia com as mãos, como quem revela uma confidência e espera compreensão.
Por breves instantes, os olhos lacrimosos do jardineiro cruzaram os seus e Ercília sentiu um ligeiro desconforto, como tivesse sido apanhada a escutar atrás de uma porta.
Nunca ninguém se deu ao trabalho de associar uma coisa à outra, mas a verdade é que aquele era o último dia de trabalho do jardineiro, antes de aposentar-se.
EMANUEL LOMELINO
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025
Lomelinices 86 - Emanuel Lomelino
Lomelinices
86
Quando surgem aqueles dias em que só queremos deitar o esqueleto e simplesmente abraçar a inércia, é necessário um esforço sobre-humano para nos obrigar a cumprir algumas tarefas que, não sendo essenciais, nos propomos executar.
Hoje é um desses dias. Depois de um retemperador banho quente, o corpo começou a insinuar a vontade de ficar estático, imóvel, quieto, estatelado sobre a cama, e não fazer coisa alguma. Creio que ainda houve um momento de hesitação, da minha parte, mas o que tem de ser tem muita força e não posso abrir um precedente porque quando se facilita uma vez…
Para se atingir esta capacidade de não embalar na preguiça é fundamental ter-se um elevado grau de disciplina mental que, no meu caso, acaba por auxiliar bastante, quase como factor determinante para que não haja um só dia sem que eu faça, entre algumas outras coisas, pelo menos, um exercício de escrita.
EMANUEL LOMELINO
Prisioneira em liberdade (excerto 19) - Maria Antonieta Oliveira
domingo, 2 de fevereiro de 2025
Epístolas sem retorno 26 - Emanuel Lomelino
Carissímo,
Sempre admiti a minha incapacidade para ser original por acreditar que já há pouco por inventar - no máximo consegue-se refazer. E com esta condicionante, embriaga-se-me o ego por saber que alguém, mais astuto, prolífero e com maestria, deu uso ao génio para, com mais estética e credibilidade, escrever uma ideia que já tive, mas disse sem burilar.
Por me faltarem muitos ingredientes para chegar a patamares mais elevados, regozijo-me por descobrir que alguns pensamentos meus ganharam o brilho de outras mentes, como a tua Arthur.
Tal como tu, também acredito que as ovelhas negras existem por despeito dos rebanhos, que se assustam quando alguém demonstra pensamento próprio e não tem medo de o verbalizar.
Por falar em pensamento, Arthur, vou tentar seguir o teu conselho e ser menos displicente na minha forma de escrever. Não vai ser tarefa fácil porque, realmente, como escrevi no primeiro parágrafo, não tenho o hábito de dar muito valor aos meus pensamentos por achá-los isentos de originalidade.
Depreciativo
Emanuel Lomelino
A dúvida (excerto 13) - Zélia Alves
sábado, 1 de fevereiro de 2025
Devaneios sarcásticos 9 - Emanuel Lomelino
Devaneios sarcásticos
9
Sempre fui apologista das discussões literárias – tertúlias (que não devem ser confundidas com “saraus” porque são eventos distintos) – pela possibilidade que dão para debater conceitos, tanto de criação como de leitura.
Infelizmente, esse género de encontros é cada vez mais raro, para não dizer inexistente, porque as artes deixaram de estar associadas a conceitos filosóficos claros, e os artífices nem sequer sabem definir as suas criações. Tudo é feito pelo simples acto de fazer.
Por outro lado, quando temos a sorte de assistir a uma tertúlia, ficamos com um tremendo amargo de boca pela enxurrada de argumentos vagos, que são proferidos com a maior das convicções, mas sem conteúdo aproveitável ou isento de lacunas.
É triste verificar que, para além do vazio intelectual dos criadores, os consumidores deixaram de ser exigentes e aceitam qualquer coisa. Já não há critério. Já não existe contraponto. Já não há opinião. Já não existe crítica. Só dogmas. Alguém diz que é arte e todos aplaudem, sem hesitar, sem contestar, sem questionar.
Para ser assim mais vale não haver tertúlias. Ou então acabe-se com a arte.
EMANUEL LOMELINO