quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 184 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

184

- Encontra alguma razão que justifique terem-lhe atribuído este galardão, só agora, numa fase tão adiantada da sua carreira?

Herculano percebeu imediatamente, pelo extenso sorriso estampado nos lábios da jornalista, as intenções da pergunta colocada. Sem pestanejar, retribuiu o sorriso e respondeu:

- Eu poderia alegar vários motivos para esta distinção. Poderia falar em recompensa justa por todo o meu percurso. Poderia dizer que haviam retificado uma longa injustiça. Poderia afirmar que este júri foi menos parcial que os anteriores. Poderia referir que não houve concorrência à altura. Poderia alardear as minhas extraordinárias capacidades criativas. Poderia referir o meu estado de graça. Poderia falar da qualidade do meu trabalho. Poderia revelar conversas de bastidores. Poderia aludir a cunhas ou a aliciamentos. Poderia contar mil e uma histórias só para deleite de todos os telespectadores. No entanto, a verdade só pode ser uma de duas coisas… - fez uma pausa dramática, sentindo que a sua retórica estava a funcionar como previa, aguçando o apetite de escândalo que o rosto da jornalista revelava. – Finalmente, após décadas, consegui escrever um livro realmente bom ou, em contrapartida, e repetindo as suas palavras, quando anunciaram o meu nome, houve um engano. – não conseguiu evitar uma gargalhada perante o ar ofendido da jornalista, ao perceber que tinha caído no engodo. – Sinceramente, estou mais inclinado para aceitar a segunda hipótese. – concluiu triunfante, olhando directamente para a câmara.

EMANUEL LOMELINO

Jujubas vermelhas e amarelas (excerto 2) - Daniele Barbosa Bezerra

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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No intuito de voltar para casa, permanecera, de fato, estaticamente na parada de ônibus por longos minutos. Segurava sua pasta, tipo executivo, e o cansaço da alma. Como possuía uma mente dominada pela inquietude, prestara atenção a tudo e a todos na parada de ônibus. Motivos para vãs filosofias. As bundas das adolescentes que saíam dos colégios e que ele observava com gulodice e com a certeza de que o tempo não as seguraria tão firmes. A velha senhora cheia de sacolas nas mãos que lembrava, por um momento, a solidão de sua mãe e as tantas sacolas carregadas por ela, sozinha, por toda vida. O vendedor de balas, no ponto de ônibus, que vendia uns poucos doces de aspectos envelhecidos em sua banca improvisada. Balas, chicletes e gomas meladas, derretidas pelo sol de dias a fio.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 183 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

183

As questões são pertinentes. Por que diabos procuro adquirir o maior número possível de livros clássicos? Por que razão tenho um fascínio tão grande por obras intemporais? Para quê gastar tempo e dinheiro em literatura? Qual o propósito de reunir tantos, e tão díspares autores, géneros, temáticas, abordagens?

Poderia dar uso a mil e um argumentos, cada um mais válido que o anterior, mas temo que nenhum deles seja inteiramente esclarecedor sem o complemento dos restantes.

Fazê-lo pela metade seria dizer meias-verdades e omitir factos. Enumerar todas as razões revelar-se-ia uma tarefa hercúlea - porque demorada, mas, sobretudo, por ser demasiado fastidiosa para satisfazer a curiosidade alheia.

Assim sendo, e sem o mínimo de temor pelos julgamentos que esta obsessão pode suscitar, deixo ao critério de cada um a avaliação da esquizofrenia que me move.

EMANUEL LOMELINO

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 182 - Emanuel Lomelino

TERTÚLIA - desenho de Nuno Duarte

Diário do absurdo e aleatório 

182

Sempre fui apologista das discussões literárias – tertúlias (que não devem ser confundidas com “saraus” porque são eventos distintos) – pela possibilidade que dão para debater conceitos, tanto de criação como de leitura.

Infelizmente, esse género de encontros é cada vez mais raro, para não dizer inexistente, porque as artes deixaram de estar associadas a conceitos filosóficos claros, e os artífices nem sequer sabem definir as suas criações. Tudo é feito pelo simples acto de fazer.

Por outro lado, quando temos a sorte de assistir a uma tertúlia, ficamos com um tremendo amargo de boca pela enxurrada de argumentos vagos, que são proferidos com a maior das convicções, mas sem conteúdo aproveitável ou isento de lacunas.

É triste verificar que, para além do vazio intelectual dos criadores, os consumidores deixaram de ser exigentes e aceitam qualquer coisa. Já não há critério. Já não existe contraponto. Já não há opinião. Já não existe crítica. Só dogmas. Alguém diz que é arte e todos aplaudem, sem hesitar, sem contestar, sem questionar.

Para ser assim mais vale não haver tertúlias. Ou então acabe-se com a arte.

EMANUEL LOMELINO

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 181 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

181

Quando surgem aqueles dias em que só queremos deitar o esqueleto e simplesmente abraçar a inércia, é necessário um esforço sobre-humano para nos obrigar a cumprir algumas tarefas que, não sendo essenciais, nos propomos executar.

Hoje é um desses dias. Depois de um retemperador banho quente, o corpo começou a insinuar a vontade de ficar estático, imóvel, quieto, estatelado sobre a cama, e não fazer coisa alguma. Creio que ainda houve um momento de hesitação, da minha parte, mas o que tem de ser tem muita força e não posso abrir um precedente porque quando se facilita uma vez…

Para se atingir esta capacidade de não embalar na preguiça é fundamental ter-se um elevado grau de disciplina mental que, no meu caso, acaba por auxiliar bastante, quase como factor determinante para que não haja um só dia sem que eu faça, entre algumas outras coisas, pelo menos, um exercício de escrita.

EMANUEL LOMELINO

O escutador da quaresma (excerto 14) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Um vento fortíssimo acompanhou as tentativas de ingressos dos Fala Estranha no Condomínio da Razão. O pessoal de fala inquieta não passava no portão, não tinha medida de altura para literalidade, nem largura de racionalidade. Eram magrinhos de concreto e gordinhos de ilusão. Suas formas livres não encaixavam na geometria entalhada na madeira do pórtico que encarcera a simetria e expatria a analogia. As regras do Condomínio da Razão eram claras, buscavam a manutenção da cordialidade entre todos e, portanto, as diferenças não eram bem-vindas, expulsas seriam as subversivas subjetividades, entrariam palavras somente bonitas e axiais ao controle.

EM - O ESCUTADOR DA QUARESMA - RENATA QUIROGA - IN-FINITA

domingo, 7 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 180 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

180

Os dias cozinham-se iguais, numa mesmice tão sórdida quanto submissa, sem ensejos nem revoltas.

Lábios gretados, frieiras nas mãos, escaras soltas, narinas empoeiradas, vontade que se esvai, conformismo que se instala.

O cansaço apodera-se, sem tréguas nem piedade. Reavivam-se vis emoções, já sentidas na plenitude da miserabilidade. Também aquela inércia tão lancinante como grilhetas carcerárias.

Mas nem tudo é ácido porque, no final de cada dia, chega sempre o silêncio crepuscular, com livros debaixo dos braços e a habilidade de teletransportar a mente para mundos que anestesiam até que a realidade regresse no buzinar do despertador.

EMANUEL LOMELINO

Primeiros passos (excerto 2) - Renata Campos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Confesso que, diante das tristezas que enfrentamos, somos agraciados com uma força interior que nos impulsiona a buscar a superação. Emergimos como uma majestosa fênix, transformando momentos difíceis em valiosos aprendizados que nos fortalecem e nos conduzem por um caminho consciente, onde realizamos aquilo que é essencial. Seguimos em busca do verdadeiro significado de nossas vidas. A música facilita a escalada do poço no qual caímos quando as tragédias e tristezas chegam, tornando o retorno à superfície e o recomeço mais fácil. O recomeço tem sido um fiel companheiro em minha trajetória. Passei por vários caminhos, mas nenhum deles deixou claro o meu propósito. Foi a palavra “cuidar”, que mudou minha direção e me trouxe até aqui.
Você já parou e se perguntou: Qual é o seu propósito nessa vida? O que te faz sair da cama todos os dias? O que te mantém motivado? Essa é uma questão que cabe a cada um de nós encontrar a sua própria resposta. Quando aprendemos a reconhecer nossas habilidades e a potencializar nossa autoestima, validamos os superpoderes da força feminina.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

O novo emprego (excerto) - Filomena Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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A integração era uma realidade, embora o facto de aquela secção ser maioritariamente composta por mulheres.
Por vezes o tremer os beiços de nervosismo, e a alteração do ritmo respiratório revelasse, preocupação, vontade de perfeição no que fazia. Os dias passavam com intensidade, conquistando confiança em si próprio.
Foi mudando pouco a pouco, embora só se apercebesse dessas mudanças, tardiamente.
Sentiu-se conhecedor, observador, posto à prova. A independência foi crescendo, algo muito importante, para quem luta por uma vida dita normal.
Era invadido por uma estranha mistura de sensações. Era como se algumas, ocultas no mais profundo do seu ser, começassem a resolver-se.

EM - DAS RAÍZES AO CÉU - FILOMENA SILVA - IN-FINITA

sábado, 6 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 179 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

179

Não foi sem assombro que descobri a existência de niilismo na minha personalidade.

Apesar do termo não me ser estranho, por razão do meu interesse artístico-literário, e até conhecer um pouco desta corrente filosófica, nunca deduzi que uma parte de mim pudesse ser influenciada, mesmo que ligeiramente, por esta doutrina.

A verdade é que, em relação à percepção que tenho da vida, com todas as minhas dúvidas e questionamentos, nunca me considerei mais do que céptico, pela simples razão de não conseguir vislumbrar, com carácter decisivo, uma razão válida que justifique a existência de um propósito, ou sentido, pré-definido.

Eis senão quando, nesta fase adiantada da minha existência física, descubro que a descrença num sentido para a vida, tal como ela se revela para mim, é considerado niilismo existencial. Só não sou completamente niilista porque não vejo a humanidade, como um todo, insignificante.

EMANUEL LOMELINO

Jujubas vermelhas e amarelas (excerto 1) - Daniele Barbosa Bezerra

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Quarenta anos. Entrara na crise dos “enta”. Ainda não compreendera o peso do tempo. Sentia-se um homem muito jovem, eternamente jovem. E é bem verdade que ele o era mesmo. Espírito indagador, contestador, vigoroso. Os quarenta anos não se faziam presentes em momentos felizes. Porém, quando a vida não estava como desejara, o que era nos últimos anos uma constante, os vincos e as pequenas marcas de seu rosto se fortaleciam como nunca. O ar pesado das preocupações dava-lhe, à revelia, um envelhecimento de um dia para o outro.
Pensara na vida sempre. Todo o sempre. Incessantemente. Demais. Até agora, nesse momento, certamente, deva estar. Coitado. Cultivara a cabeça sempre em frenética ebulição, mesmo quando dormia. O corpo padecia após uma noite mal dormida, com a insônia de uma busca de soluções para problemas do dia seguinte, soluções para uma vida melhor ou até mesmo para o nada.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 178 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

178

Há uma máxima da antropologia que nos diz que para conseguirmos entender melhor outras civilizações temos de colocar de parte tudo o que aprendemos sobre o nosso entorno.

Porque nunca conseguirei ler todos os livros essenciais, não sei se alguém escreveu sobre a aplicabilidade desta ideia em formatos mais reduzidos.

Seja como for, tenho usado esse conceito no intuito de compreender os comportamentos que me cercam e tem dado certo. Pelo menos não fica tão confuso entender as razões que dão origem a atitudes que me são estranhas.

No entanto, a posteriori, levantam-se-me outras questões antropológicas porque, apesar de ter controlo sobre as minhas faculdades, tenho uma mente inquisitiva que recusa viver com dúvidas e não se inibe de colocar novas perguntas, a cada resposta encontrada.

Feito este parêntese, depois de entender os motivos que originam determinada acção, fico a pensar como é possível que, no seio de uma mesma civilização, possam existir comportamentos tão distintos e valores tão díspares.

Entre as várias hipóteses que considerei, só uma consegue apaziguar o turbilhão mental em que, sistematicamente, embarco: o objecto de estudo é o humano, logo, pelas suas características natas, e embora possamos encontrar uma linha condutora, é possível coexistirem incontáveis faces na mesma moeda.

EMANUEL LOMELINO

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 177 - Emanuel Lomelino

Imagem retirada da internet

Diário do absurdo e aleatório 

177

Encontrei um companheiro de adolescência, que já não via há anos. Era com ele que eu passava a maior parte do tempo. Éramos uma dupla como Tom Sawyer e Huckleberry Finn, mas a vida separou-nos na idade adulta. Se a memória não me atraiçoa, desde que emigrou para a Noruega, só estive com ele no dia do seu segundo casamento. Entretanto já se divorciou mais duas vezes.

Revê-lo foi um misto de emoções. Por um lado, a satisfação de abraçar o parceiro de mil ocasiões, por outro, a estranheza por não o reconhecer no seu comportamento.

Para evitar ferir suscetibilidades, e porque há sempre quem esteja de prontidão para apontar o dedo, vou saltar a parte que me surpreendeu e dissertar apenas na conclusão que retirei daquilo que ele me disse mais tarde, quando as pessoas que o acompanhavam se ausentaram e ficámos sozinhos.

Infelizmente, estamos a viver um tempo em que os humanos sentem a necessidade de usarem máscaras a toda a hora para se sentirem integrados. As cicatrizes que a vida tatua no âmago e o medo da solidão conseguem desvirtuar a essência e levar as pessoas a terem comportamentos que fogem à sua própria natureza.

No meu íntimo não consigo ser juiz em nenhuma causa, bem pelo contrário, procuro ser o mais tolerante, compreensivo e abrangente possível, em todos os momentos. No entanto, não posso deixar de manifestar a minha preocupação pelo rumo que as sociedades modernas obrigam as pessoas a trilhar para se sentirem, minimamente, aceites. É também por isso que me sinto desenquadrado no tempo.

Quanto a nós S… o lema mantém-se “no metter what, always”.

EMANUEL LOMELINO

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 176 - Emanuel Lomelino

Imagem gartic

Diário do absurdo e aleatório 

176

Por mais que pense, não consigo encontrar uma razão inequívoca e definitiva que justifique o medo que a generalidade das pessoas tem de estar sozinha, como se ficar ou estar só fosse o tormento mais nefasto que alguém pode experimentar.

Mais incompreensível é o descrédito dado ao isolamento, enquanto fonte de ignição para o raciocínio pacífico, que é o único caminho estável para que exista clareza de ideias e o pensamento não se revelar contaminado pelo entorno.

Creio que a génese desta aversão global é fruto de uma conotação, errada, entre quietude e solidão. Uma não origina nem é, obrigatoriamente, consequência da outra.

O silêncio é a casa da reflexão mais séria e íntegra, logo é benéfica para quem dele usufrui.

EMANUEL LOMELINO

O escutador da quaresma (excerto 13) - Renata Quiroga

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Durante muito tempo, os Fala Bonita tentaram transformar os Fala Estranha em moradores do condomínio Razão. Os Fala Estranha ora se empolgavam com a ideia de viver em um lugar com boas condições de vida, ora pensavam em lhe chutar o portão. O fato é que mesmo aqueles que cediam ao convite e aproximavam-se da entrada do Condomínio percebiam um estranho fenômeno que não lhes permitia o acesso mesmo que voluntário e de bom gosto.
Os administradores da cidade se apressaram para realizar a movimentação dos Fala Estranha para a Razão. Organizaram diversos transportes que, cordialmente, pegariam cada Habitador Estranho em suas próprias e impróprias residências. Havia madeleines, croissants e macarons coloridos para calar a boca do estômago dos inscritos no Condomínio murado.

EM - O ESCUTADOR DA QUARESMA - RENATA QUIROGA - IN-FINITA

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 175 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

175

Serôdio semicerrou as pálpebras numa vã tentativa de enxergar os dois vultos embaciados, que passavam diante de si.

- Tens de ir ao oftalmologista! – aconselhou Beatriz pela milésima vez.

- Um dia destes…

- Respondes sempre isso, mas o dia nunca chega.

- Ando com o tempo ocupado.

- Pois. – disse Beatriz num suspiro de enfado. – Quando cegares de vez, quero ver como vais ocupar o tempo. – sentenciou.

Serôdio sentiu todo o impacto das palavras proferidas pela esposa, mas não retorquiu. Sabia que a preocupação dela era legítima e verdadeira. Nos últimos meses os seus olhos revelavam a extensão do cansaço provocado por anos e anos de esforço a que tinham sido sujeitos. O óculo de relojoeiro ainda conseguia disfarçar a deterioração das duas vistas, mas ler os jornais diariamente, aquilo que mais gostava de fazer quando não estava a arranjar os mecanismos dos relógios, passou a ser uma tarefa árdua. As letras encavalitavam-se umas nas outras e, pouco a pouco, perante as dores que sentia para tentar decifrar o corpo das notícias, Serôdio começou a ler somente os títulos, e depois apenas as letras garrafais das capas. Mas o pior de tudo era quando queria ajudar Beatriz na cozinha. Os olhos já não ajudavam a identificar os frascos dos temperos e, acaso ela não estivesse atenta (às vezes acontecia), lá tinham de comer salada temperada com pimenta branca em vez de sal, ou sopa com vinagre em vez de azeite. Pelo menos por ela, a sua companheira de uma vida, ele tinha de arranjar tempo.

- Não passa de amanhã! – disse ele agarrando a mão de Beatriz.

EMANUEL LOMELINO

Primeiros passos (excerto 1) - Renata Campos

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Confesso que não sabia como começar. Eram tantas informações e aprendizados ao longo dos meus cinquenta e dois anos que não tinha ideia de como eu colocaria tudo em um só lugar. São anos de leituras, cursos e aprimoramentos de diversas áreas que, na minha percepção, estão interligadas. Resolvi, então, relatar as pequenas mudanças que estão transformando minha vida dia a dia, a fim de construir essa teia e compartilhar seus benefícios com outras pessoas.
Meu marido diz que tenho a mania de usar as palavras ‘sempre’ e ‘nunca’, duas palavras que ele não acredita. No começo, isso me soava irritante. Hoje, porém, percebo que ele tinha razão. Devemos aprender a evitar dizer ‘para sempre’ e ‘nunca mais’. Por quê? Porque a vida está inserida em constantes e inevitáveis mudanças o tempo todo. São palavras que não fazem parte do processo de envelhecimento.

EM - SEGUNDA PRIMAVERA - RENATA CAMPOS - IN-FINITA

O remexer da vida (excerto) - Filomena Silva

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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O dia prometia, o sol aquecia, o calor subia.
Sentado no quintal, Orlando descansava, o cansaço voltou, novos exames fez, aguardava expectante os resultados.
Um fio quase invisível de suor escorria por entre os cabelos da testa e deslizava pelo rosto abaixo, humidade que atraiu uma mosca inconsciente e insistente que acabou por pousar-lhe na ponta do nariz, local onde a comichão resultante, faz mover até um moribundo, tal como fez ao pai do Tiago, que abanou a mão para afastar a intrusa.
Um bando de suas companheiras rodopiava junto à cadeira de praia onde Orlando se encontrava. Subitamente, um casal, engalfinhado no ato do sexo, uma em cima da outra, aterrou pesadamente no braço da cadeira e ali se deixou ficar, zunindo de prazer, asas elevadas e abertas, como se delas jorrassem fluidos de êxtase.

EM - DAS RAÍZES AO CÉU - FILOMENA SILVA - IN-FINITA

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Diário do absurdo e aleatório 174 - Emanuel Lomelino

Diário do absurdo e aleatório 

174

A vida dedilha-se ao ritmo das horas e, mesmo nas pausas inoportunas, tudo soa a orquestração eterna.

Há um género de maestro invisível – tempo – que cadencia cada passo, como estivéssemos, desde o berço, sujeitos a rigor e disciplina harmónica.

Quando sou assaltado por este pensamento absurdo emerge em mim uma tremenda e imperativa vontade de fazer um improviso jazzístico e deixar-me levar numa pauta em contramão.

Talvez seja o meu lado irreverente a querer demonstrar-me que não se esgotou e ainda tem muitos acordes para tocar e, assim, preencher com novas melodias o grande concerto que tem sido a minha vida.

EMANUEL LOMELINO

O menino que queria ser o trem (excerto 2) - Daniele Barbosa Bezerra

LIVRO GENTILMENTE CEDIDO POR IN-FINITA
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Era um menino como outro qualquer. Passava horas a fio tecendo a vida junto ao lúdico. Alguns pequenos momentos na escola eram motivos para que sorrisse. Aquele sorriso meio sem saber sorrir-se, fruto de uma grande amargura, herança dos pais. O pai, lavrador, há muito deixara o trabalho da enxada, pois deram de aparecer ultimamente umas grandes dores nas juntas, sobretudo nas mãos. Suas mãos acabaram deformadas e doloridas. Assim, fora ficando sem condições de lutar sol a sol – e que sol! – pela família.
A mãe cuidava dos cinco filhos, não mais com a esperança que nutria outrora de uma vida melhor. Hoje, cansada, empurrava-os para o mundo como podia. Vez por outra, fazia um trabalho doméstico o que lhe rendia comida para as crianças ou alguns trocados. Os meninos vendiam o que podiam ou mesmo eram pedintes esperando a caridade de alguma alma ou esperando serem enxotados como desvalidos em qualquer semáforo, já, da pequena cidade.

EM - OS DOZE CONTOS DE SOLIDÃO - DANIELE BARBOSA BEZERRA - IN-FINITA